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Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas – volume 2

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Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas – volume 2

A coletânea Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas da História Social do Campesinato oferece compreensão mais ampla do mundo cultural, político, econômico e social em que o camponês produz e se reproduz. Neste segundo volume, quinze artigos mostram como as lutas camponesas nas diferentes regiões do Brasil se transformam em espaços de resistência e de luta contra a desterritorialização. Abordando conflitos desde a expulsão dos posseiros da Reserva Indígena de Nonoai, no Rio Grande do Sul, em maio de 1978, até o começo do século XXI, estes trabalhos partem de variada inspiração teórica e se valem de amplo contexto empírico concreto e dados etnográficos. Ampliando os horizontes possíveis para a análise, recuperam e atualizam leituras de algumas das formas de resistência e de recriação do campesinato. Discutem-se aqui questões como as implicações e a continuidade das desigualdades de gênero e a repressão sexual, a reforma agrária de mercado, as formas de organizações criadas no processo de luta, assim como as complexas redes e articulações existentes nos acampamentos e em outros espaços de resistência.

A coletânea Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas da História Social do Campesinato oferece compreensão mais ampla do mundo cultural, político, econômico e social em que o camponês produz e se reproduz. Neste segundo volume, quinze artigos mostram como as lutas camponesas nas diferentes regiões do Brasil se transformam em espaços de resistência e de luta contra a desterritorialização. Abordando conflitos desde a expulsão dos posseiros da Reserva Indígena de Nonoai, no Rio Grande do Sul, em maio de 1978, até o começo do século XXI, estes trabalhos partem de variada inspiração teórica e se valem de amplo contexto empírico concreto e dados etnográficos. Ampliando os horizontes possíveis para a análise, recuperam e atualizam leituras de algumas das formas de resistência e de recriação do campesinato. Discutem-se aqui questões como as implicações e a continuidade das desigualdades de gênero e a repressão sexual, a reforma agrária de mercado, as formas de organizações criadas no processo de luta, assim como as complexas redes e articulações existentes nos acampamentos e em outros espaços de resistência.

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Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas – volume 2

  1. 1. Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas Bernardo Mançano Fernandes, Leonilde Servolo de Medeiros e Maria Ignez Paulilo (Orgs.) vol.II Lutascamponesascontemporâneas:condições,dilemaseconquistas–vol.II–Fernandes,MedeirosePaulilo(Orgs.) A diversidade das formas das lutas no campo Coleção História Social do Campesinato no Brasil UNESPNEAD Ampliando os horizontes possíveis para a análise, os artigos aqui reunidos recuperam e atualizam leituras de algumas das formas de resistência e de recriação do campesinato, de maio de 1978 até o começo do século XXI. Revelam a complexidade da questão agrá- ria e mostram como os camponeses enfrentam processos expropriatórios, políticas de criminalização e estratégias de controle político. A coletânea Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas da História Social do Campesinato oferece compreensão mais ampla do mundo cultural, político, econômico e social em que o camponês produz e se reproduz. Neste segundo volume, quinze artigos mostram como as lutas camponesas nas diferentes regiões do Brasil se transformam em espaços de resistên- cia e de luta contra a desterritorialização. Abordando conflitos desde a expulsão dos possei- ros da Reserva Indígena de Nonoai, no Rio Grande do Sul, em maio de 1978, até o começo do século XXI, estes trabalhos partem de variada inspiração teórica e se valem de amplo contexto empírico concreto e dados etnográficos.Amplian- do os horizontes possíveis para a análise, recupe- ram e atualizam leituras de algumas das formas de resistência e de recriação do campesinato.resistência e de recriação do campesinato. Discutem-se aqui questões como as implicações e a continuidade das desigualdades de gênero e a repressão sexual, a reforma agrária de mercado, as formas de organizações criadas no processo de luta, assim como as complexas redes e articula- ções existentes nos acampamentos e em outros espaços de resistência. Também há temas pouco comuns, como a transformação de ex-moradores de rua em camponeses, e novas perspectivas de casos bastante conhecidos, caso da luta pela terra em Eldorado dos Carajás. Ao final, em uma perspectiva geográfica, surgem os mapas dos conflitos que marcam o campo brasileiro. As análises mostram como a partir da capacidade de mobilização e organização do campesinato retoma-se o debate sobre a questão fundiária; a preservação ambiental e a sobrevivência das populações “tradicionais”. As formas e os espaços das diversidades são tratados com base em estudos sobre ocupações de terra e acampamen- tos, valorizando o papel das redes de relações de parentesco, solidariedade e conflitualidade, por meio das quais os sujeitos em movimento constroem suas organizações. Em seu conjunto, os textos aqui reunidos revelam a complexidade da questão agrária e dorevelam a complexidade da questão agrária e do campesinato nacional. Mostram como os camponeses, estes novos sujeitos sociais, constroem seu futuro, rompem com as separa- ções entre campo e cidade e buscam o direito de viver na terra mesmo tendo de enfrentar proces- sos expropriatórios, políticas de criminalização e estratégias de controle político.
  2. 2. Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas
  3. 3. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Presidente da República GUILHERME CASSEL Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário DANIEL MAIA Secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Agrário ROLF HACKBART Presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária ADONIRAM SANCHES PERACI Secretário de Agricultura Familiar ADHEMAR LOPES DE ALMEIDA Secretário de Reordenamento Agrário JOSÉ HUMBERTO OLIVEIRA Secretário de Desenvolvimento Territorial JOAQUIM CALHEIROS SORIANO Coordenador-geral do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural VINICIUS MACÁRIO Coordenador-executivo do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO (MDA) www.mda.gov.br NÚCLEO DE ESTUDOS AGRÁRIOS E DESENVOLVIMENTO RURAL (NEAD) SBN, Quadra 2, Edifício Sarkis – Bloco D – loja 10 – sala S2 – CEP: 70.040-910 Brasília/DF Tel: (61) 2020-0189 www.nead.org.br PCT MDA/IICA – Apoio às Políticas e à Participação Social no Desenvolvimento Rural Sustentável FUNDAÇÃO EDITORA DA UNESP Presidente do Conselho Curador Herman Voorwald Diretor-Presidente José Castilho Marques Neto Editor-Executivo Jézio Hernani Bomfim Gutierre Assessor Editorial Antonio Celso Ferreira Conselho Editorial Acadêmico Alberto Tsuyoshi Ikeda Célia Aparecida Ferreira Tolentino Eda Maria Góes Elisabeth Criscuolo Urbinati Ildeberto Muniz de Almeida Luiz Gonzaga Marchezan Nilson Ghirardello Paulo César Corrêa Borges Sérgio Vicente Motta Vicente Pleitez Editores-Assistentes Anderson Nobara Arlete Zebber Ligia Cosmo Cantarelli
  4. 4. BERNARDO MANÇANO FERNANDES LEONILDE SERVOLO DE MEDEIROS MARIA IGNEZ PAULILO (Orgs.) Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas A diversidade das formas das lutas no campo volume 2
  5. 5. Editora afiliada: © 2009 Editora UNESP Direitos de publicação reservados à: Fundação Editora da UNESP (FEU) Praça da Sé, 108 01001-900 – São Paulo – SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 www.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br CIP – Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ L991 v.2 Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas, v.2: a diversidade das formas das lutas no campo/Bernardo Mançano Fernandes, Leonilde Servolo de Medeiros, Maria Ignez Paulilo (orgs.). – São Paulo: Editora UNESP; Brasília, DF: Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural, 2009. 369p. – (História social do campesinato brasileiro) ISBN 978-85-7139-969-3 (Editora UNESP) ISBN 978-85-60548-54-5 (NEAD) 1. Camponeses – Brasil – História. 2. Camponeses – Brasil – Condições sociais. 3. Trabalhadores rurais – Sindicatos – Brasil – História. 4. Camponeses – Brasil – Atividades políticas. 5. Brasil – Condições rurais. 6. Posse da terra – Brasil. 7. Movimentos sociais rurais – Brasil – História. I. Fernandes, Bernardo Mançano. II. Medeiros, Leonilde Servolo de. III. Paulilo, Maria Ignez Silveira. IV. Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural. V. Série. 09-4543. CDD: 305.5633 CDU: 316.343
  6. 6. História Social do Campesinato no Brasil Conselho Editorial Nacional Membros Membros efetivos Ariovaldo Umbelino de Oliveira (Universidade de São Paulo) Bernardo Mançano Fernandes (UNESP, campus de Presidente Prudente) Clifford Andrew Welch (GVSU & UNESP, campus de Presidente Prudente) Delma Pessanha Neves (Universidade Federal Fluminense) Edgard Malagodi (Universidade Federal de Campina Grande) Emilia Pietrafesa de Godoi (Universidade Estadual de Campinas) Jean Hebette (Universidade Federal do Pará) Josefa Salete Barbosa Cavalcanti (Universidade Federal de Pernambuco) Leonilde Servolo de Medeiros (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, CPDA) Márcia Maria Menendes Motta (Universidade Federal Fluminense) Maria de Nazareth Baudel Wanderley (Universidade Federal de Pernambuco) Maria Aparecida de Moraes Silva (UNESP, campus de Araraquara) Maria Ignez Paulilo (Universidade Federal de Santa Catarina) Marilda Menezes (Universidade Federal de Campina Grande) Miguel Carter (American University, Washington – DC) Paulo Zarth (Unijuí) Rosa Elizabeth Acevedo Marin (Universidade Federal do Pará) Sueli Pereira Castro (Universidade Federal de Mato Grosso) Wendy Wolford (Yale University) Coordenação Horácio Martins de Carvalho Márcia Motta Paulo Zarth
  7. 7. SUMÁRIO APRESENTAÇÃO À COLEÇÃO 9 PREFÁCIO 19 INTRODUÇÃO 23 Bernardo Mançano Fernandes, Leonilde Servolo de Medeiros e Maria Ignez Paulilo 1 Considerações sobre uma década de lutas sociais no campo no extremo sul do Brasil (1978-88) 33 Anita Brumer 2 A engrenagem das ocupações de terra 53 Lygia Sigaud 3 Para além da barraca de lona preta: redes sociais e trocas em acampamentos e assentamentos do MST 73 Nashieli C. Rangel Loera 4 A “forma movimento” como modelo contemporâneo de ação coletiva rural no Brasil 95 Marcelo Rosa 5 Mobilização camponesa no sudeste paraense e luta pela reforma agrária 113 William Santos de Assis 6 A fresta: ex-moradores de rua como camponeses 139 Marcelo Gomes Justo 7 As faces ocultas de um conflito: a luta pela terra em Eldorado dos Carajás 159 Luciana Miranda Costa
  8. 8. 8 Movimentos das mulheres agricultoras e os muitos sentidos da “igualdade de gênero” 179 Maria Ignez S. Paulilo 9 A participação da mulher na luta pela terra: dilemas e conquistas 203 Sônia Fátima Schwendler 10 Hoje, a mulher é a estrela – divisão sexual do trabalho guerreiro nas lutas camponesas no Maranhão 223 Maristela de Paula Andrade 11 De pobre e sem-terra a pobre com-terra e sem sossego: territorialização e territorialidades da reforma agrária de mercado (1998-2006) 247 Eraldo da Silva Ramos Filho 12 Neoliberalismo e lutas camponesas no Brasil: contestação e resistência à reforma agrária de mercado do Banco Mundial durante o governo FHC 279 João Márcio Mendes Pereira 13 A Articulação do Semi-Árido brasileiro: camponeses unidos em rede para defender a convivência no Semi-Árido 303 Ghislaine Duque 14 A maior estrutura sindical do Brasil: papel do sindicalismo de trabalhadores rurais no pós-64 321 Rudá Ricci 15 Geografia da conflitualidade no campo brasileiro 339 Eduardo Paulon Girardi e Bernardo Mançano Fernandes Sobre os autores 367 Sumário
  9. 9. APRESENTAÇÃO À COLEÇÃO Por uma recorrente visão linear e evolutiva dos processos históricos, as formas de vida social tendem a ser pensadas se sucedendo no tempo. Em cada etapa consecutiva, apenas são exaltados seus princi- pais protagonistas, isto é, os protagonistas diretos de suas contradições principais. Os demais atores sociais seriam, em conclusão, os que, por al- guma razão, se atrasaram para sair de cena. O campesinato foi freqüente- mente visto dessa forma, como um resíduo. No caso particular do Brasil, a esta concepção se acrescenta outra que, tendo como modelo as formas camponesas européias medievais, aqui não reconhece a presença históri- ca do campesinato. A sociedade brasileira seria então configurada pela polarizada relação senhor–escravo e, posteriormente, capital–trabalho. Ora, nos atuais embates no campo de construção de projetos concor- rentes de reordenação social, a condição camponesa vem sendo socialmente reconhecida como uma forma eficaz e legítima de se apropriar de recursos produtivos. O que entendemos por campesinato? São diversas as possibilidades de definição conceitual do termo. Cada disciplina tende a acentuar perspectivas específicas e a destacar um ou outro de seus aspectos constitutivos. Da mesma forma, são diversos os contextos históricos nos quais o campesinato está presente nas sociedades. Todavia, há reconhecimento de princípios mínimos que permitem aos que investem, tanto no campo acadêmico quanto no político, dialogar em torno de refle- xões capazes de demonstrar a presença da forma ou condição camponesa, sob a variedade de possibilidades de objetivação ou de situações sociais. Em termos gerais, podemos afirmar que o campesinato, como categoria analítica e histórica, é constituído por poliprodutores, integrados ao jogo de forças sociais do mundo contemporâneo. Para a construção da história social do campesinato no Brasil, a categoria será reconhecida pela produção, em modo e grau variáveis, para o mercado, termo que abrange, guardadas as singularidades inerentes a cada forma, os mercados locais, os mercados 9
  10. 10. em rede, os nacionais e os internacionais. Se a relação com o mercado é característica distintiva desses produtores (cultivadores, agricultores, ex- trativistas), as condições dessa produção guardam especificidades que se fundamentam na alocação ou no recrutamento de mão-de-obra familiar. Trata-se do investimento organizativo da condição de existência desses trabalhadores e de seu patrimônio material, produtivo e sociocultural, va- riável segundo sua capacidade produtiva (composição e tamanho da família, ciclo de vida do grupo doméstico, relação entre composição de unidade de produção e unidade de consumo). Por esses termos, a forma de alocação dos trabalhadores também incorpora referências de gestão produtiva, se- gundo valores sociais reconhecidos como orientadores das alternativas de reprodução familiar, condição da qual decorrem modos de gerir a herança, a sucessão, a socialização dos filhos, a construção de diferenciados projetos de inserção das gerações. O campesinato emerge associadamente ao processo de seu reconheci- mento político, ora negativo, ora positivo. Por tais circunstâncias, a questão política, constituída para o reconhecimento social, enquadrou tal segmento de produtores sob a perspectiva de sua capacidade adaptativa a diferentes formas econômicas dominantes, ora pensadas pela permanência, ora por seu imediato ou gradual desaparecimento. Como em muitos outros casos de enquadramento social e político, uma categoria de auto-identificação, portanto contextual, produto de investimentos de grupos específicos, desloca-se, sob empréstimo e (re)semantização, para os campos político e acadêmico e, nesses universos sociais, sob o caráter de signo de compor- tamentos especialmente hétero-atribuídos ou sob o caráter de conceito, apresenta-se como generalizável. Vários autores, retratando a coexistência do campesinato em formações socioeconômicas diversas, já destacaram que o reconhecimento dessa nominação, atribuída para efeitos de investimentos políticos ou para re- conhecimento de características comuns, só pode ser compreendido como conceito, cujos significados definem princípios gerais abstratos, motivo pelo qual podem iluminar a compreensão de tantos casos particulares. Para que a forma camponesa seja reconhecida, não basta considerar a especificidade da organização interna à unidade de produção e à família trabalhadora egestoradosmeiosdeproduçãoalocados.Todavia,essadistinçãoéanalitica- mente fundamental para diferenciar os modos de existência dos camponeses dos de outros trabalhadores (urbanos e rurais), que não operam produti- vamente sob tais princípios. Percebendo-se por essa distinção de modos de existência, muitos deles se encontram mobilizados politicamente para lutar pela objetivação daquela condição de vida e produção (camponesa). Em quaisquer das alternativas, impõe-se a compreensão mais ampla do mundo cultural, político, econômico e social em que o camponês produz e se reproduz. Da coexistência com outros agentes sociais, o camponês se Apresentação à coleção 10
  11. 11. Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas 11 constitui como categoria política, reconhecendo-se pela possibilidade de referência identitária e de organização social, isto é, em luta por objetivos comuns ou, mediante a luta, tornados comuns e projetivos. A esse respeito, a construção da história social do campesinato, como de outras categorias socioeconômicas, deve romper com a primazia do econômico e privilegiar os aspectos ligados à cultura. Ao incorporar as múltiplas dimensões da prática dos agentes, destacamos o papel da experiência na compreensão e explicitação política das contradições do processo histórico. Essas con- tradições revelam conflitos entre normas e regras que referenciam modos distintos de viver, em plano local ou ocupacional, colocando em questão os meios que institucionalizam formas de dominação da sociedade inclusiva. Tais postulados serão demonstrados nos diversos artigos desta coletânea, voltada para registros da história social do campesinato brasileiro. A prática faz aparecer uma infinidade de possibilidades e arranjos, vividos até mesmo por um mesmo grupo. Quanto mais se avança na pesquisa e no reconhecimento da organização política dos que objetivam a condição camponesa, mais se consolidam a importância e a amplitude do número de agricultores, coletores, extrativistas, ribeirinhos e tantos outros, nessa posição social ou que investem para essa conquista. A diversidade da condição camponesa por nós considerada inclui os proprietários e os posseiros de terras públicas e privadas; os extrativistas que usufruem os recursos naturais como povos das florestas, agroextrativistas, ribeirinhos, pescadores artesanais e catadores de caranguejos que agregam atividade agrícola, castanheiros, quebradeiras de coco-babaçu, açaizeiros; os que usufruem os fundos de pasto até os pequenos arrendatários não- capitalistas, os parceiros, os foreiros e os que usufruem a terra por cessão; quilombolas e parcelas dos povos indígenas que se integram a mercados; os serranos, os caboclos e os colonos assim como os povos das fronteiras no sul do país; os agricultores familiares mais especializados, integrados aos modernos mercados, e os novos poliprodutores resultantes dos assen- tamentos de reforma agrária. No caso da formação da sociedade brasileira, formas camponesas coe- xistem com outros modos de produzir, que mantêm relações de interde- pendência, fundamentais à reprodução social nas condições hierárquicas dominantes. Assim, a título de exemplo, ao lado ou no interior das grandes fazendas de produção de cana-de-açúcar, algodão e café, havia a incorpora- ção de formas de imobilização de força de trabalho ou de atração de trabalho livre e relativamente autônomo, fundamentadas na imposição técnica do uso de trabalho basicamente manual e de trabalhadores familiares, isto é, membros da família do trabalhador alocado como responsável pela equi- pe. Esses fundamentais agentes camponeses agricultores apareciam sob designação de colonos, arrendatários, parceiros, agregados, moradores e até sitiantes, termos que não podem ser compreendidos sem a articulação
  12. 12. com a grande produção agroindustrial e pastoril. Se recuarmos um pouco no tempo, veremos que, ao lado de donatários e sesmeiros, apareciam os foreiros, os posseiros ou – designando a condição de coadjuvante menos valorizada nesse sistema de posições hierárquicas – os intrusos ou invaso- res, os posseiros criminosos etc. Os textos da história geral do Brasil, nos capítulos que exaltam os feitos dos agentes envolvidos nos reconhecidos movimentos de entradas e bandeiras, trazem à tona a formação de peque- nos povoados de agricultores relativamente autárquicos. Posteriormente, tais agentes produtivos serão celebrados pelo papel no abastecimento dos tropeiros que deslocavam metais e pedras preciosas, mas também outros produtos passíveis de exportação e de abastecimento da população das cidades ou das vilas portuárias. Desse modo, o campesinato, forma política e acadêmica de reconhe- cimento conceitual de produtores familiares, sempre se constituiu, sob modalidades e intensidades distintas, um ator social da história do Brasil. Em todas as expressões de suas lutas sociais, seja de conquista de espaço e reconhecimento, seja de resistência às ameaças de destruição, ao longo do tempo e em espaços diferenciados, prevalece um traço comum que as define como lutas pela condição de protagonistas dos processos sociais. Para escrever sobre essa história é preciso, portanto, antes de tudo, refletir sobre a impositiva produção dessa “amnésia social” ou dessa perspectiva unidimensional e essencializada, que apaga a presença do campesinato e oculta ou minimiza os movimentos sociais dos camponeses brasileiros, con- sagrando – com tradição inventada – a noção do caráter cordato e pacífico do homem do campo. Ou fazendo emergir a construção de uma caricatura esgarçada do pobre coitado, isolado em grande solidão e distanciamento da cultura oficial, analfabeto, mal-alimentado. Ora, tais traços aviltantes, para olhares que os tomassem como expressivos da condição de vida e não do sujeito social, revelavam as bases da exploração e da submissão em que viviam, seja como agentes fundamentais ou complementares do processo produtivo da atividade agroindustrial e exportadora. Estimulados a coexistirem internamente, ao lado ou ao largo da grande produção, os agentes constituídos na condição camponesa não tinham reconhecidas suas formas de apropriação dos recursos produtivos. Assim sendo, são recorrentemente questionados e obrigados a se deslocar para se reconstituir, sob as mesmas condições, em áreas novamente periféricas. Da mesma forma, em outras circunstâncias, são submetidos a regras de coexistência consentidas e por vezes imediatamente questionadas, dada a exacerbação das posições hierarquizadas ou das desigualdades inerentes às condições de coexistência. A presença dos camponeses é, pois, postulada pela ambigüidade e des- qualificação, quando os recursos por eles apropriados se tornavam objeto de cobiça. Entendemos, no entanto, que, sob processos relativamente Apresentação à coleção 12
  13. 13. Lutas camponesas contemporâneas: condições, dilemas e conquistas 13 equivalentes, esses agentes elaboraram, como traço comum de sua pre- sença social, projetos de existência fundamentados em regras legítimas e legais, princípios fundamentais para a construção de um éthos e de regras éticas, orientadores de seu modo de existência e coexistência. Sob tais circunstâncias, a constituição da condição camponesa torna o agente que lhe corresponde o portador de uma percepção de justiça, entendida aqui não como uma abstração teórica sobre o direito aos recursos produtivos, e sim como uma experiência baseada em modos de coexistência: sob formas de comunidade camponesa; na labuta diária pela sobrevivência; na relação com a natureza; e nas práticas costumeiras para a manutenção e a reprodu- ção de um modo de vida compatível com a ordem social, institucionalizada por aqueles que se colocam socialmente como seus opressores. Levando em consideração o conjunto de fatores que vimos destacando, podemos caracterizar alguns elementos constitutivos de certa tradição do campesinato brasileiro, isto é, como expressão da existência permitida sob determinadas constrições e provisoriedades e sob certos modos de negociação política. Essa negociação não exclui resistências, imposições contratuais, legais ou consuetudinárias, ou questionamentos jurídicos, que revelam e reafirmam a capacidade de adaptação às condições da produção econômica dominante. Menos do que um campesinato de constituição tradicional, no sentido da profundidade temporal da construção de um patrimônio material e familiar, vemos se institucionalizar, como elemento distintivo, um patrimônio cultural inscrito nas estratégias do aprendizado da mobilidade social e espacial. Estratégias que visam, entre outros objetivos, à busca do acesso aos recursos produtivos para a reprodução familiar e a exploração de alternativas, oferecidas pelas experiências particulares ou oficiais de incorporação de áreas improdutivas ou fracamente integradas aos mercados. Os camponeses instauraram, na formação social brasileira, em situações diversas e singulares e mediante resistências de intensidades variadas, uma forma de acesso livre e autônomo aos recursos da terra, da floresta e das águas, cuja legitimidade é por eles reafirmada no tempo. Eles investiram na legitimidade desses mecanismos de acesso e apropriação, pela demons- tração do valor de modos de vida decorrentes da forma de existência em vida familiar, vicinal e comunitária. A produção estrito senso se encontra, assim, articulada aos valores da sociabilidade e da reprodução da família, do parentesco, da vizinhança e da construção política de um “nós” que se contrapõe ou se reafirma por projetos comuns de existência e coexistência sociais. O modo de vida, assim estilizado para valorizar formas de apropria- ção, redistribuição e consumo de bens materiais e sociais, se apresenta, de fato, como um valor de referência, moralidade que se contrapõe aos modos de exploração e de desqualificação, que também fora