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  1. 1. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ARTIGO ORIGINAL ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Acta Med Port 2007; 20: 543-549 ETIOLOGIA DAS INFECÇÕES DO TRACTO URINÁRIO e sua Susceptibilidade aos Antimicrobianos CARLOS CORREIA, ELÍSIO COSTA, ANTÓNIO PERES, MADALENA ALVES, GRAÇA POMBO, LETÍCIA ESTEVINHO Departamento de Diagnóstico e Terapêutica. Escola Superior de Saúde. Escola Superior Agrária. Instituto Politécnico de Bragança. Bragança RESUMO Com o objectivo de conhecer os agentes etiológicos mais comuns na infecção urinária e comparar o seu padrão de susceptibilidade aos antimicrobianos, para o mesmo agen- te etiológico, quer em doentes internados, quer em regime de ambulatório, foram ana- lisados todos os exames bacteriológicos de urina que deram entrada no Serviço de Patologia Clínica do Centro Hospitalar do Nordeste, EPE - Unidade Hospitalar de Bragança, durante o período compreendido entre Abril 2004 a Março 2006. Deram entrada no serviço 4018 exames bacteriológicos. Destes, o exame cultural foi positivo em 572 amostras (144 de internamento e 428 de doentes externos). A Escherichia coli foi o microrganismo mais isolado (68,4%), seguido pelo género Klebsiella (7,9%), pela Pseudomonas aeruginosa (6,1%) e pelo Proteus mirabilis (5,2%). Em relação à susceptibilidade aos antimicrobianos, verificamos que a Escherichia coli e a Klebsiella spp apresentam elevada resistência aos antimicrobianos Amoxicilina, Piperacilina, Cefalotina, Ceftazidima e às Quinolonas. Para as Enterobactérias em estu- do, o Imipeneme, a Amicacina e a Netilmicina, são os antimicrobianos com maior grau de susceptibilidade. Em relação aos isolados de Pseudomonas aeruginosa, os antimicrobianos mais eficazes, são o Imipeneme e a Amicacina. Relativamente ao pa- drão de susceptibilidade, para o mesmo agente etiológico, quer em doentes interna- dos, quer em regime de ambulatório, encontramos diferenças estatisticamente signifi- cativas nos antimicrobianos Ticarcilina/Ácido clavulânico e Colistina, para a Pseudomonas aeruginosa e nos antimicrobianos do grupo das Quinolonas, para o Proteus mirabilis. Relativamente aos outros agentes não se verificaram diferenças estatisticamente significativas. Este estudo permite dispor de dados necessários para o conhecimento dos diferentes agentes etiológicos mais importantes nas infecções do trato Urinário no distrito de Bragança e disponibilizar a informação sobre os seus padrões de resistências, neces- sários para se iniciar um tratamento empírico adequado e elaborar guias de tratamento. SUMMARY ETIOLOGY OF URINARY TRACT INFECTIONS and Antimicrobial Susceptibility of Urinary Pathogens With the objective of knowing the common etiological agents in urinary infection and comparing its antimicrobial susceptibility in nosocomial and community-acquired urinary infections, we analyse all the urine bacteriological exams from the Serviço de Patologia Clínica do Centro Hospitalar do Nordeste, EPE - Unidade Hospitalar de Bragança, during a two years period (April 2004 to March 2006).Recebido para publicação:9 de Maio de 2007 543
  2. 2. CARLOS CORREIA et al During this period, 4018 urine bacteriological exams were made. The cultural exam was positive in 572 samples (144 from nosocomial infections and 428 from community- acquired urinary infections). The Escherichia coli was the more isolated strain (68,4 %), followed by Klebsiella spp (7,9%), Pseudomonas aeruginosa (6,1%) and Proteus mirabilis (5,2%). Concerning to antimicrobial susceptibility, Escherichia coli and Klebsiella spp showed a high resistance to the antimicrobials Amoxicillin, Piperacillin, Cephalothin, Ceftazidim and Quinolones. For Enterobacteriaceae Imipenem, Amikacin and Netilmicin were the antimicrobials with more level of susceptibility. Imipenem and Amikacin were the more efficient antimicrobials against Pseudomonas aeruginosa. Concerning to the susceptibility for the same etiological agent, in nosocomial and community-acquired urinary infections, we founded statistical significant differences in the antimicrobials Ticarcillin-clavulanic acid and Collistin for Pseudomonas aeruginosa and in the group of antimicrobials from Quinolones for the Proteus mirabilis. In the other identified agents there were no statistical significant differences for antimicrobials. This study it allows making use of data necessary for the knowledge of etiologic urinary infection agents in Bragança and provides the information about the antimicrobials resistance, which were necessary to initiate an adequate empirical treatment and to elaborate treatment guides.INTRODUÇÃO Para além da importância de conhecer os dados epidemiológicos associados com as ITUs é também extre- Considera-se como infecção das vias urinárias a pre- mamente importante conhecer o padrão de susceptibilida-sença e multiplicação de microorganismos na urina do apa- de aos antimicrobianos dos agentes responsáveis por esterelho urinário, com possível invasão e reacção das estru- tipo de infecção. Nos últimos anos, tem-se detectado umaturas tubulares ou parenquimatosas do aparelho urinário progressiva diminuição na susceptibilidade dos uropató-ou órgãos anexos1-3. genos aos antimicrobianos utilizados habitualmente para Do ponto de vista clínico, a infecção do trato urinário o tratamento das ITUs. Este é um problema crescente, que(ITU) pode ser dividida em dois grupos: ITU inferior, onde afecta todas as populações, sendo mais significativo ema presença de bactérias se limita à bexiga (cistite), e do termos de cuidados primários de saúde, onde a maioriatracto superior (pielonefrite), que se define como aquela das ITUs são tratadas empiricamente10-12. Por este motivo,que afecta a pélvis e o parênquima renal1,3. é importante conhecer quais são e como evoluem no tem- A contaminação do tracto urinário pode fazer-se por po os padrões de susceptibilidade aos antimicrobianos,três vias: a ascendente, a partir da flora fecal e uretral, a dos agentes causais mais frequentemente isolados em cadahematogénea, em que a bactéria contamina o sangue e zona geográfica9-13.infecta secundariamente o aparelho urinário e a linfática, Existem importantes diferenças no perfil etiológico eque é uma via duvidosa de disseminação da infecção no padrão de susceptibilidade dos uropatógenos isola-urinária que poderá ter, contudo, algum papel nas infec- dos de doentes hospitalizados relativamente aos isoladosções crónicas1,2,4,5. de doentes em regime de ambulatório8,14. Estas diferenças A prevalência e a etiologia das ITUs dependem de fac- podem dever-se ao facto de que os uropatógenos noso-tores subjacentes, quer sejam do tipo epidemiológico ou comiais estão, frequentemente, sujeitos à pressão de anti-geográfico, como a idade, o sexo, a existência de patologi- microbianos e a infecções cruzadas. A influência destesas de base, como diabetes, ou por manobras instrumen- parâmetros pode variar entre regiões e especialidades mé-tais, como a cateterização urinária1,5. dicas15. Assim, o padrão de resistência encontra-se afec- O agente etiológico mais frequente nas ITUs é E.coli1- tado, apresentando uma diminuição da susceptibilidade10, sendo que outras bactérias são frequentemente isola- aos antimicrobianos em geral8,16.das, como Klebsiella spp., outras Enterobacteriaceae e A solicitação de uroculturas e antibiogramas de amostrasStaphylococcus saprofiticus 1 . A ITU é a infecção de urina, provenientes de doentes com suspeita de ITU e obacteriana mais comum no âmbito comunitário, a seguir às seu estudo periódico, permitem dispor dos dados necessári-infecções respiratórias. São mais frequentes na mulher que os para o conhecimento dos diferentes agentes uropatógenosno homem1,3,6,7. mais importantes numa determinada região e dispor de infor- 544
  3. 3. ETIOLOGIA DAS INFECÇÕES DO TRACTO URINÁRIOmação sobre o seus padrões de resistências, necessários nificativa, nas sementeiras em meio CLED, quando o valorpara poder iniciar o tratamento empírico adequado e minimizar de unidades formadoras de colónias (UFC) era ≥105/mL.o aparecimento de resistências bacterianas3. Foi considerada contaminação bacteriana quando as UFC O aparecimento e disseminação de resistências, entre eram ≤104/mL ou quando se observava o crescimento deoutros factores, contribuem, para que o tratamento das dois ou mais tipos de colónias. Para a identificação bac-ITUs constitua, em alguns casos, um importante proble- teriana e para as provas de susceptibilidade aos antimicro-ma terapêutico10. bianos utilizaram-se provas comerciais ID® e API® (Bio- O objectivo deste estudo é o de conhecer, de forma Merieux, Marcy, L’Etoile, França) e ATB® (BioMerieux,abrangente, os agentes etiológicos mais comuns na infec- Marcy, L’Etoile, França), respectivamente.ção urinária, quer em doentes internados quer em doentes Estudou-se a susceptibilidade dos microorganismosem regime de ambulatório, na região de Bragança, assim isolados aos seguintes antimicrobianos: Amoxicilina,como o padrão de susceptibilidade aos antimicrobianos Amoxicilina-Ácido Clavulânico, Piperacilina, Cefalotina,em ambos os tipos de doentes e comparar esse mesmo Acetil ceferoxim, Imipeneme, Cefotaxima, Ceftazidima, Áci-padrão, para o mesmo agente etiológico isolado. do Nalidíxico, Tobramicina, Amicacina, Gentamicina, Netilmicina, Nitrofurantoína, Ciprofloxacina, Ampicilina-MATERIALE MÉTODOS Sulbactam, Ticarcilina, Ticarcilina-Ácido Clavulânico, Piperacilina-Tazobactam, Cefepime, Meropeneme, Neste estudo, foram incluídos todos os exames bacte- norfofloxacina, cotrimoxazol e Colistina.riológicos de urina que deram entrada no Serviço de Patolo-gia Clínica do Centro Hospitalar do Nordeste, Unidade Hos- Estudo Estatísticopitalar de Bragança, oriundos dos serviços de Internamento, A análise estatística efectuou-se com o programa SPSSUrgência e Consulta Externa, durante o pe-ríodo compreen- (Statistical Package for the Social Sciences) para Win-dido entre Abril de 2004 e Março de 2006. Em todos os dows v. 15.0. Para a comparação das percentagens de sus-casos registou-se: idade, sexo, proveniência, resultado do ceptibilidade, entre doentes internados e doentes em regi-exame cultural, identificação da estirpe bacteriana e o pa- me de ambulatório, utilizou-se o teste do χ2. Quando osdrão de susceptibilidade aos antimicrobianos. dados não respeitavam os critérios de utilização do teste do χ2, utilizou-se o teste de Fisher. O nível de significância Procedimentos laboratoriais estabelecido foi de 5%. As amostras de urina foram semeadas, simultaneamen-te, em meio de cultura agar CLED (Cisteína-Lactose-Defi- RESULTADOSciente em Electrólitos) e na lâmina de cultura URICULT ®Plus (Orion Diagnóstica – Izasa, Espanha) – lâmina espe- Durante o período do estudo, deram entrada no servi-cial em plástico com duas faces cobertas por uma camada ço de Patologia Clínica, 4018 amostras de urina para examede meio de cultura, face 1 (meio CLED) eface 2 (meio MacConkey e de Entero- Exames Bacteriológicos de Urinacoccus). Neste caso, a urina foi semeada se-gundo as instruções do fabricante. Ambos 3600foram acondicionados numa estufa de 37ºC 3300 3000durante 24 horas. Após este período, ava- 2700liou-se o crescimento bacteriano nos meios, 2400 2100estendendo-se para 48 horas de incubação 1800em casos de dúvidas quanto a este cresci- 1500mento bacteriano. A interpretação dos resul- 1200 900tados de cultivo na lâmina URICULT® Plus foi 600efectuada de 300 0acordo com as Proveniência Regime de Ambulatório Internamento Número de exames bactériologicos 3443 575instruções do de urina Resultados negativos 2957 361fabricante. Con- Resultados positivos 428 144siderou-se uma Contaminações 58 70bacteriúria sig- Fig.1- Distribuição, por serviço de origem, do resultado do exame cultural. 545
  4. 4. CARLOS CORREIA et albacteriológico. Destas, o exame cultural foi negativo em em doentes internados quer em regime de ambulatório,3318 (82,6%), 361 de internamento e 2957 de regime de está representado no quadro II. Os isolados de E.coli apre-ambulatório. Foi encontrada positividade em 572 amos- sentam uma baixa susceptibilidade ao grupo dastras (14,2%), 144 de internamento e 428 de regime de am- Quinolonas, à Piperacilina (60,7% internos e 63,6% exter-bulatório. A percentagem de exames contaminados foi de nos), à Cefalotina (58,4% internos e 66,0% externos), à3,2%. A distribuição, por proveniência, está representada Ceftazidima (57,3% internos e 58,9% externos) e àna figura 1. Amoxicilina (53,9% internos e 53,6 % externos). Dos anti- Na totalidade das uroculturas positivas, 65,1% eram microbianos testados na E.coli, aqueles que apresenta-provenientes de indivíduos do sexo feminino e 34,9% de ram maior susceptibilidade foram o Imipeneme (97,8% in-indivíduos do sexo masculino. Nos exames bacteriológi- ternos e 98,7% externos), o Cefotaxime (98,9% internos ecos positivos, foram identificadas 27 estirpes diferentes, 90,4% externos), a Amicacina (93,3% internos e 97,0% ex-sendo a Escherichia coli o microrganismo mais frequen- ternos), a Nitrofurantoína (98,9% internos e 97,7% exter-temente isolado (68,4%), seguindo-se o género Klebsiella nos) e a Netilmicina (91,0% internos e 91,1% externos).(7,9%), a Pseudomonas aeruginosa (6,1%) e o Proteus Quanto à Pseudomonas aeruginosa, dos antimicrobianosmirabilis (5,2%). Outras estirpes foram encontradas em testados, apenas obtivemos uma alta percentagem de sus-12,4% das amostras com exame cultural positivo. A distri- ceptibilidade ao Imipeneme (87,5% internos e 84,2% exter-buição, por origem, de todas as estirpes identificadas é nos). Relativamente aos restantes antimicrobianos a sus-apresentada no quadro I. ceptibilidade ou é muito reduzida ou intermédia. Contra o O padrão de susceptibilidades aos antimicrobianos dos género Klebsiella obtivemos uma alta susceptibilidadequatro agentes causais mais frequentemente isolados, quer ao Imipeneme (100% em ambas as origens) e uma boa sus- ceptibilidade, nos doentes externos, à Amicacina (83,8%).Quadro I – Frequência dos agentes causadores de ITU em Obtiveram-se susceptibilidades extremamente reduzidasdoentes internados e em regime de ambulatório. aos antimicrobianos Amoxicilina, Piperacilina e Cefalotina. Núme ro de Organis mos Is olados (%) Relativamente ao Proteus mirabilis, obteve-se alta sus-Organis mo Inte rnos (144) Exte rnos (428) ceptibilidade ao Imipeneme, à Amicacina e à Netilmicina. Este apresentou uma susceptibilidade extremamente re-E.coli 89 (61.8) 302 (70.6) duzida à Nitrofurantoína e ao Ácido Nalidíxico.Pseudomonas aeruginosa 16 (11.1) 19 (4.4) Em relação ao padrão de susceptibilidade, para o mes-Klebsiella sppa 8 (5.6) 37 (8.6) mo agente etiológico, quer em doentes internados, quer em regime de ambulatório, encontramos diferenças esta-Prot eus mirabilis 9 (6.3) 21 (4.9) tisticamente significativas na Pseudomonas aeruginosaEnt erobact eriaceae sppb 2 (1.4) 8 (1.9) no que respeita aos antimicrobianos Ticarcilina-ÁcidoSt aphylococcus sppc 8 (5.6) 15 (3.5) Clavulânico, que apresentava uma maior susceptibilidade em doentes internos, e à Colistina, que apresentava umaCit robat er spp d 1 (0.7) 6 (1.4) maior susceptibilidade em doentes externos. Também seEnt erococcus sppe 4 (2.7) 15 (3.5) encontrou diferenças estatisticamente significativas nosOutras espéciesf 7 (4.8) 5 (1.2) antibióticos do grupo das Quinolonas (Ácido Nalidíxico,a Klebsiella pneumoniae (34 amostras); Klebsiella terrigena (1 Norfloxacina e Ciprofloxacina), sendo maior a susceptibi-amostra); Klebsiella oxytoca (8 amostras); Klebsiella lidade em doentes em regime de ambulatório, para o Proteusornithinolytica (2 amostras); b Serratia marcescens (1 amostra), mirabilis. Relativamente aos outros agentes não se verifi-Morganella morganii (4 amostras), Enterobacter cloacae (5 caram diferenças estatisticamente significativas.amostras); c Staphylococcus epidermidis (5 amostras),Staphylococcus xylosus (2 amostra), Staphylococcus aureus (12amostras), Staphylococcus simulans (2 amostra), Staphylococcus DISCUSSÃOchromogenes (1 amostra), Staphylococcus lentus (1 amostra);d Citrobacter freundii (4 amostras), Citrobacter amalonaticus A percentagem de amostras negativas é muito elevada(1amostra), Citrobacter koseri (2 amostra); e Enterococcus (82,6%), provavelmente devido à grande quantidade defaecalis (11 amostras), Enterococcus faecium (8 amostras); uroculturas que se realizam como controlo pós-tratamen-f Pseudomonas maltophilia (2 amostras), Streptococcus viridans(1 amostra), Aeromonas sobria (3 amostras), Aeromonas to e nas grávidas, assim como pelo grande número deviridans, (2 amostras) Xantomonas campophilis (1 amostra), síndromes uretrais que podem apresentar uma etiologiaSphingomonas paucimobilis (3 amostras). não bacteriana3. Observou-se ainda uma baixa taxa de 546
  5. 5. ETIOLOGIA DAS INFECÇÕES DO TRACTO URINÁRIOcontaminação das amostras (3,2%), reflectindo isto o com- O Imipeneme e a Amicacina apresentam um amplo es-primento correcto do protocolo de colheita e ao seu trans- pectro e uma boa a óptima actividade frente a estes trêsporte adequado. microrganismos, quer em doentes hospitalares quer da A distribuição percentual de microrganismos obtidos comunidade. Por este facto, são antimicrobianos que po-neste estudo, apresenta uma certa similaridade com o re- dem ser usados no tratamento empírico da ITU, já que segistado por outros autores3, ou seja, a E. coli é o micror- deve utilizar nestas circunstâncias um antimicrobiano comganismo mais frequentemente isolado, seguido de outros uma susceptibilidade que deve rondar, no mínimo, 80 apertencentes à família das Enterobacteriaceae. Em rela- 90%4.ção à Pseudomonas aeruginosa, apesar de esta só ter sido De referir também que, para a E. coli se obteve umaisolada apenas em 4,4% de uroculturas de doentes exter- elevada susceptibilidade à Nitrofurantoína, quer em do-nos, a sua importância não deve ser desprezada, já que entes internados quer em doentes de regime ambulatório.diversos autores a têm referido como uma emergente pro- Apesar desta elevada susceptibilidade, devemos ter emtagonista das ITUs comunitárias3,8. conta que este antimicrobiano requer um tratamento pro- A aplicação de um tratamento adequado nas ITUs deve longado, quatro vezes ao dia, durante pelo menos seteestar sempre relacionado com o padrão de susceptibilida- dias, e que juntamente com a sua toxicidade, torna neces-de aos diferentes agentes etiológicos de uma dada região sário avaliar cuidadosamente o seu uso no tratamento degeográfica e aos antimicrobianos mais comummente usa- infecções comunitárias3.dos nos cuidados primários de saúde3,7,8. Do conjunto de Nos isolados de Pseudomonas aeruginosa, os antimi-antimicrobianos estudados, os que apresentavam menor crobianos mais activos são o Imipeneme, o Meropeneme eacção frente à E. coli foram, tanto de origem interna como a Amicacina, quer em doentes internos como externos.externa, o grupo das Penicilinas (Amoxicilina e Piperacili- Contudo, estas percentagens, nomeadamente as referen-na), das Cefalosporinas (Cefalotina e Ceftazidima) e das tes ao Meropeneme, são baixas. A produção de beta-Quinolonas (Ácido Nalidíxico, Norfloxacina e Ciprofloxa- lactamases, juntamente com a perda das purinas específi-cina). A fraca acção das Penicilinas frente à E. coli pode cas dos Carbapenemas, pode ser um mecanismo envolvi-estar relacionada com a alta prevalência de β -lactamases, do na resistência a estes, por parte da Pseudomonasfacto este que desaconselha o seu uso quando não asso- aeruginosa5.ciados com um inibidor destas enzimas, como por exemplo Comparando as diferenças de susceptibilidade aosa associação Amoxicilina-Ácido clavulânico. Este facto antimicrobianos, entre os isolados de origem interna e ex-foi constatado neste estudo, onde se obteve maior sus- terna, observa-se, em geral, que não existem diferençasceptibilidade nesta associação do que na utilização do estatisticamente significativas, com a excepção daantimicrobianos isoladamente. Apesar da sua elevada ac- Pseudomonas aeruginosa e do Proteus mirabilis. Estestividade in vitro, cada vez mais aparecem estudos que resultados podem alertar para um incorrecto emprego dosmostram que os betalactâmicos apresentam como desvan- antimicrobianos na comunidade.tagem o maior número de dias de tratamento para se con-seguir taxas de erradicação, podendo ter mais efeitos se- CONCLUSÃOcundários e maior frequência de recidiva que outros gru-pos de antimicrobianos17. Em resumo, a prescrição de terapêutica empírica ade- Os antimicrobianos pertencentes ao grupo das Quino- quada bem como a profilaxia, requerem uma análise perió-lonas (Ácido Nalidíxico, Norfloxacina e Ciprofloxacina) dica das susceptibilidades dos principais agentes causaisapresentam uma baixa percentagem de susceptibilidade e a sua difusão em cada área sanitária. O pedido depara a E. coli, género Klebsiella e Proteus mirabilis. Esta uroculturas e respectivos antibiogramas oriundos de do-baixa susceptibilidade pode atribuir-se à sua utilização entes com suspeita de ITU e o seu estudo periódico, per-massiva e incontrolada na prática clínica e veterinária des- mitem dispor dos dados necessários para o conhecimentode a sua introdução comercial, facto este comprovado por dos diversos agentes causais mais importantes no nossoum estudo de 2001, onde Portugal era o país europeu com meio e dispor da informação acerca dos seus padrões dea maior taxa de utilização destes antimicrobianos4,18. Dada susceptibilidade, necessários para se poder iniciar um tra-a alta resistência destes microrganismos frente às Quino- tamento empírico adequado. Para além disso, no caso delonas, tanto no meio hospitalar como na comunidade, es- fracasso terapêutico, permitirá recorrer a outro tratamen-tes não se deveriam utilizar como antimicrobianos de pri- to, um facto que ocorre em 11% dos casos4. Para alémmeira linha no tratamento das ITUs3,4. deste tipo de estudo devem ser feitos outros onde se con- 547
  6. 6. CARLOS CORREIA et altemple a distribuição dos microrganismos em função do 9. ANDREU A, ALÓS J, GOBERNADO M, MARCO F, ROSA M,sexo, idade e nível socio-económico. É também importan- RODRÍGUEZ J: Etiología y sensibilidad a los antimicrobianos de los uropatógenos causantes de la infección urinaria baja adquiridate realizar estudos que contemplem o maior número de en la comunidad. Estudio nacional multicéntrico. Rev Espanos possível, de forma a se poder estudar a evolução das Quimioterapia 2005;20:124-135susceptibilidades aos antimicrobianos, por parte dos prin- 10. JUNQUERA S, LOZA E, BAQUERO F: Evolución del patróncipais agentes etiológicos, ao longo do tempo. de sensibilidad de aislados de Escherichia coli en urocultivos procedentes del medio hospitalario y extrahospitalario. Enferm Infecc Microbiol Clin 2005;23:197-201BIBLIOGRAFIA 11. MEIRA M, LAPOINTE L, LACROIX L, LAVOIE M: MICs of Mutacin B-Ny266, Nisin A, Vancomycin, and Oxacillin against1. OLIVEIRA M: Infecção do tracto urinário na criança. BioAnálise Bacterial Pathogens. Antimicrobial Agents & Chemotherapy2004;1:23-29 2000;1:24-292. SILVA M, VALE P: Infecção urinária. Conceitos gerais. Geriatria 12. KAHLMETER G: An international survey of the antimicro-1992;41:13-16 bial susceptibility of pathogens from uncomplicated urinary tract3. LÓPEZ FC, ALVAREZ F, GORDILLO RM, GONZÁLEZ A, infections: the ECO·SENS Project. J Antimicrobial ChemotherapyROMÁN M. Microorganismos aislados de muestras de orina 2003 51: 69-76procedentes de la comunidad y padrón de sensibilidad en un periodo 13. GOLDRAICH N, MANFROI A: Infecção urinária febril emde 12 años. Rev Esp Quimioterapia 2005;18:159-167 pediatria: sensibilidade aos antimicrobianos – estudo longitudinal4. MEI LAU S, PENG M, CHANG F: Resistance rates to com- de 11 anos. Revista virtual de Medicina 2000;10:monly used antimicrobials among pathogens of both bacteremic (www.medonline.com.br)and non-bacteremic community-acquired urinary tract infection. 14. RODRÍGUEZ J, MENÉNDEZ J: Resistencia a losJ Microbial Immunol Infect 2004;37:185-191 antimicrobianos y virulencia bacteriana. Enferm Infecc Microbiol5. POLETTO K, REIS C: Suscetibilidade antimicrobiana de Clin 2005;23:86-93uropatógenos em doentes ambulatoriais na cidade de Goiânia. 15. WAGENLEHNER A, WEIDNER W, NABER K: EmergenceRevista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 2005;38: of antibiotic resistance amongst hospital-acquired urinary tract416-420 infections and pharmacokinetic/pharmacodynamic considerations.6. HRYNIEWICZ K, SZCZYP K, SULIKOWSKA A, JANKOWSKI J Hospital Infection 2005;60:191-200.K, BETLEJEWSKA K, HRYNIEWICZ W: Antibiotic susceptibil- 16. MARTÍNEZ F, MAÑAS P: Bacteriemia nosocomial:ity of bacterial strains isolated from urinary tract infections in epidemiologia y situación actual de resistencias a antimicrobianos.Poland. J Antimicrobial Chemotherapy 2001;47:773-780 Rev Clin Esp 2005;205:108-1127. GALES A, JONES R, GORDAN K et al: Activity and spectrum 17. CARS O, MÖLSTAD S, MELANDER A: Variation in antibi-of 22 antimicrobial agents tested against urinary tract infection otic use in the European Union. Lancet 2001;357:1851-3pathogens in hospitalized patients in Latin America. J Antimicro- 18. ANDREU A, ALÓS JL, GOBERNADO M et al: Etiología ybial Chemotherapy 2000;45:295-303 sensibilidad a los antimicrobianos de los uropatógenos causantes de8. OCHOA C, BOUZA JM, MENDEZ C, GALIANA L: Etiologia de la infección urinaria baja adquirida en la comunidad. Enferm Infecclas infecciones del tracto urinário y sensibilidad de los uropatógenos Microbiol Clin 2005;23: 4-9a los antimicrobianos. Rev Esp Quimioterapia 2005;18:124-135. 548
  7. 7. ETIOLOGIA DAS INFECÇÕES DO TRACTO URINÁRIO Tabela II – Percentagens de susceptibilidade dos agentes causais isolados provenientes de doentes internados e em regime de ambulatório E. coli % Pseudomonas aeruginosa % Klebsiella spp % Proteus mirabilis % Internos Externos P Internos Externos P Internos Externos P Internos Externos P (n=89) (n=302) (n=16) (n=19) (n=8) (n=37) (n=9) (n=21)Amoxicilina 53.9 53.6 1.000a N.R N.R N.R 25.0 13.5 0.590b 44.4 42.9 1.000bAMX-CLA 74.2 78.5 0.470a N.R N.R N.R 62.5 67.6 1.000b 66.7 85.7 0.329bPiperacilina 60.7 63.6 0.708a 31.3 26.3 1.000b 0.0 8.1 1.000b 88.9 71.4 0.393bCefalotina 58.4 66.0 0.210a N.R N.R N.R 25.0 40.5 0.690b 66.7 71.4 1.000bAC 76.4 80.5 0.455a N.R N.R N.R 25.0 54.1 0.243b 77.8 71.4 1.000bImipenene 97.8 98.7 0.623b 87.5 84.2 0.585b 100 100 88.9 100 0.300bCefotaxima 98.9 90.4 1.000a N.R N.R N.R 50.0 64.9 0.452b 88.9 76.2 0.637bCeftazidima 57.3 58.9 0.807a 75.0 63.2 0.493a 37.5 48.7 0.705b 55.6 47.6 1.000bQUI 60.7 69.2 0.157a N.R N.R N.R 25.0 51.4 0.252b 0.0 42.9 0.029bTobramicina 87.6 87.4 1.000a 50.0 68.4 0.317a 62.5 70.3 0.689b 77.8 76.2 1.000bAmicacina 93.3 97.0 0.119b 62.5 84.2 0.245b 62.5 83.8 0.326b 88.0 95.2 0.517bGentamicina 88.8 87.8 0.855a 62.5 73.7 0.716a 50.0 64.9 0.452b 55.6 76.2 0.389bNetilmicina 91.0 91.1 1.000a N.R N.R N.R 50.0 73.0 0.231b 88.9 95,2 0.517bNitrofurantoina 98.9 96.7 0.468b N.R N.R N.R 50.0 75.7 0.202b 0.0 33.3 0.071bCotrimoxazol 73.0 72.5 1.000a 43.8 42.1 0.503a 75.0 70.3 1.000b 66.7 52.4 0.691bNorfofloxacina 68.5 75.5 0.216a N.R N.R N.R 50.0 70.3 0.410b 22.2 71.4 0.020bCiprofloxacina 68.5 75.2 0.220a 68.8 52.6 0.491a 62.5 70.3 0.689b 22.2 66.7 0.046bAMP N.R N.R N.R 6.3 0.0 0.457b N.R N.R N.R N.R N.R N.RTicarcilina N.R N.R N.R 31.3 42.1 0.727a N.R N.R N.R N.R N.R N.RTCC N.R N.R N.R 56.3 15.8 0.017a N.R N.R N.R N.R N.R N.RPTZ N.R N.R N.R 62.5 42.1 0.315a N.R N.R N.R N.R N.R N.RCefepime N.R N.R N.R 37.5 52.6 0.500a N.R N.R N.R N.R N.R N.RMeropeneme N.R N.R N.R 75.0 73.7 1.000b N.R N.R N.R N.R N.R N.RColistina N.R N.R N.R 37.5 73.7 0.044a N.R N.R N.R N.R N.R N.RNR – Não Realizado, a Teste de Qui-quadrado, b Teste Exacto de Fisher, AMX-CLA= Amoxicilina-Ácido Clavulânico; AC= Acetil Ceferoxim; QUI= Ácido Nalidíxico; AMP= Ampicilina-Sulbactam;TCC= Ticarcilina-Ácido Clavulânico; PTZ= Piperacilina-Tazobactam
  8. 8. Escola Superior de Saúde de Bragança

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