Análise do Discurso Político Subjacente e a Terceira                    Dimensão do Poder.       A Fala e a Escrita dos Gr...
ResumoAs classes detentoras do poder exerceram sua dominação de variadas formas, que vãodesde a utilização da força bruta ...
1. Introdução.                  Uma teoria moderna da Democracia não deve prescindir dosconceitos rigorosamente elaborados...
Os Grupos de Interesses, como se vê, constituem-se emorganizações próprias das democracias. (Bobbio, Matteucci e Pasquino,...
investigativo não elimina nem despreza a capacidade de organização e eficáciadesses grupos para a produção de políticas pú...
domina o território do país através desse corpo administrativo. É o tipo deEstado que vai vigorar no Brasil-colônia e que,...
pretensamente, ser o elemento modernizador do país. No entanto, o liberalismoadquire um caráter contraditório, pois se ass...
3. A Lógica da Ação Coletiva                   Os grupos de interesse estão presentes nas democracias eservem para que os ...
é mais restrita e a ação coletiva tem de ser obtida através de incentivosseletivos (selective incentives), i.e., benefício...
permitem, na sua dinâmica, um sistema de desigualdades não-cumulativas. Eque os recursos políticos num sistema pluralista ...
prioritariamente os do capital especulativo, sobre cuja atração repousa amodalidade de estabilização monetária do governo ...
5. A ação do 3º. Poder no Brasil                      Apesar de Lukes (1992), que será melhor abordado no próximoitem, ach...
mesma maneira compartilhar a mesma ideologia. A partir desse ponto,estabelece-se uma igualdade entre a Classe Média e José...
superiores, ou seja, os setores da sociedade mais organizados fizeram valer osseus interesses contra os interesses não-org...
a maioria do povo, este por conseqüência não aprende a falar nem a escreverdireito. Estabelece-se, portanto, uma identidad...
“...Influencia a formação de políticas ao gerar a atenção                               do público e, através dela, a pres...
Romário, Silvio Santos, Carla Perez.” A referência a essas personalidades domeio artístico e esportivo, não se dá casualme...
Dentro dessa ótica, os indivíduos da Classe Média procuramagir como racionais utilitaristas, uma vez que para atingir uma ...
e bidimensional. A análise conceitual do poder e sua relação íntima entre ossentidos teóricos e políticos constituem quest...
Média é superior, e não ignorante como o “povo” e o PT, o que justifica votarem José Serra, seu igual. A elaboração do enu...
Estado, que difere daquela exercida pelo terceiro poder, pois é aplicada deforma inexorável quando a amplitude de suas con...
BibliografiaBACHRACH, Peter & BARATZ, Morton. Decisions and Nondecisions: NaAnalytical Framework, in American Political Sc...
La PALOMBARA, Joseph.       A Política no Interior das Nações. Brasília.Editora Unb. 1982.LUKES, Steven. Power: A Radical ...
ANEXO I                    Falar e escrever,                     eis a questão                               Edição 1 725 ...
uso do idioma. Pasquale é um fenômeno de mídia. Além de levantar aaudiência na TV, ele ajuda a vender publicações. Quando ...
AS ATIVIDADES DE PASQUALE                   Escreve colunas em jornais de dez                  capitais brasileiras       ...
surgiu: o professor de português especializado em adestrar funcionários deempresas. Antigamente, os cursos dados no escrit...
AS PROEZAS DE POLITO                    Tem 11 livros publicados, que                   venderam 570 000 exemplares       ...
argumentação lógica", diz Ester Kosovski, professora da área de direito daUniversidade Federal do Rio de Janeiro. Outro go...
português em número suficiente para atender à imensa demanda que o paístem."Pasquale conhece bem as carências nessa área. ...
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A terceira dimensão do poder

  1. 1. Análise do Discurso Político Subjacente e a Terceira Dimensão do Poder. A Fala e a Escrita dos Grupos de Interesses. (Lingüística e Política) Gentil Tadeu Gomes1 & Herbert Schützer2 20071 Bacharel em Letra e especialista em Lingüística.gentiltadeugomes@ig.com.br2 Especialista em Política e Relações Internacionais e Mestre em Geografia.hschutzer@globomail.com
  2. 2. ResumoAs classes detentoras do poder exerceram sua dominação de variadas formas, que vãodesde a utilização da força bruta material explícita até sofisticadas e sutis modalidadesde coação.Modernamente, apropriando-se dos avanços tecnológicos e das descobertas nos camposda Psicologia e da Lingüística, a atividade de produção e manutenção das condiçõesideais para dominação das massas, por parte das elites mandatárias, tem se tornado cadavez mais fácil.A idéia de Liberdade, que a priori seria inegavelmente positiva, passa a ser de cunho,no mínimo, duvidoso. Aliado a isso, inclua-se o papel do Governo perante o eleitor.O presente trabalho não tem por objetivo propor soluções ao problema. O que se desejaé mostrar uma das formas atuais de manipulação do pensamento coletivo, realizadaatravés de um veículo midiático do âmbito da imprensa escrita. A intenção é demonstrarcomo se dá essa forma de ação subliminar que diariamente invade o país.Palavras-chaves: Elites, Massas, Poder, Manipulação.AbstractThroughout the times, the class who had the power exerted their domination of variedforms, since the utilization of brute strength material explicit , sophisticate and subtlemodalities of coax.Modernly, assuming itself of discovered of the constants technological advances anduncountable in the psychology and linguistics fields, on the part of the controller elites,it had become easier.The idea of freedom, that priori would be undeniably positive, starts to be matrix, in theminimum, doubtful. It is enough that it question and maximum meaning of freedom andwhich the border between freedom and prison. Ally to this, includes itself for analysesproposal the government attitude before the voter.The present work has not for objective to consider solutions to the problem. The desireis to show one of the current forms of manipulation of the collective thought, carriesthrough a propagate by media on the scope of the written press. The intention is todemonstrate how happen this form of action that daily invades the country, under thefalse image of NEWS ARTICLEKeywords: Power, Domination, Masses, Elite, Manipulation.
  3. 3. 1. Introdução. Uma teoria moderna da Democracia não deve prescindir dosconceitos rigorosamente elaborados pelos cientistas políticos que sedebruçaram sobre o tema. Seus postulados fundamentam e dão sustentaçãoteórico-material àqueles que buscam respostas e caminhos às questões denosso tempo. Ou mesmo àqueles que desejam aprofundar-se em algumassunto que perpasse, em maior ou menor escala, por ela, a Democracia. Mas, afinal, o que é a Democracia? Qualquer manual de direitoconstitucional nos ensina que a Democracia é “...a afirmação de certos valoresfundamentais da pessoa humana, bem como a exigência de organização efuncionamento do Estado tendo em vista a proteção daqueles valores.” (Dallari,1985, 127), ou de política, que a “...democracia se foi entendendo um métodoou um conjunto de regras de procedimento para a constituição de Governo epara a formação das decisões políticas” (Bobbio, Matteucci e Pasquino, 1983,326). Entretanto, aceitar definições como essa, pura e simplesmente,corresponderia a não levar em conta a infinita graduação de Estados com suasdiferentes práticas democráticas existentes no mundo atual. Por isso, é preciso questionar e praticar a Democracia, paranão permitir que ela seja tão corrompida pelos poderes econômico e financeiro.Principalmente dos grupos de pressão, que se formam satelizando osgovernos, os quais não são nem eleitos pelo voto popular nem controladospelos cidadãos. Então, como podemos definir suas ações? “...se a atividade dos Grupos de pressão é possível apenas nos sistemas democráticos e, em segundo lugar, procurando avaliar o seu papel dentro dos sistemas democráticos para saber se eles representam uma degeneração destes sistemas ou se não desenvolvem funções úteis à manutenção e adaptação destes sistemas, em que condições e com que riscos.” (Bobbio, Matteucci e Pasquino, 1983, 569)
  4. 4. Os Grupos de Interesses, como se vê, constituem-se emorganizações próprias das democracias. (Bobbio, Matteucci e Pasquino, 1983,570) E não se pretende aqui fazer qualquer juízo de valor desses Grupos mas,ao contrário, analisar uma de suas formas de atuação. Para os estudiosos, o fato de que a Democracia possa serdefinida com muita precisão não significa que ela realmente funcione damesma forma em todos os lugares. Uma breve incursão na história das idéiaspolíticas leva a duas observações, muitas vezes relegadas sob o pretexto deque o mundo muda, é dinâmico: I) A experiência confirma que uma democracia política que nãose baseie numa democracia econômica e cultural de pouco adiantará.Desprezada e relegada a ser o depositário de fórmulas obsoletas, a idéia deuma democracia econômica deu lugar a um mercado triunfante que beira aobscenidade; II) Os estrategistas políticos, de toda e qualquer filiaçãopartidária, impuseram um silêncio prudente para que ninguém ousasse insinuarque continuamos cultivando a mentira e aceitamos ser seus cúmplices de umsistema que distancia do modelo ideal. O chamado sistema democrático parece, cada vez mais, umgoverno dos ricos e, cada vez menos, um governo do povo, como percebemosna matéria da revista VEJA. Impossível negar o óbvio: a massa de pobresconvocada a votar jamais é chamada a governar. Os povos não elegeram seus governos para que estes os“ofereçam” ao mercado. Idéia desenvolvida por Bobbitt (2001) quando defendiaa evolução3 do Estado-Nação para o Estado-Mercado, em que o mercadopassa a ser o receptáculo de suas ações e o povo deve moldar-se a ele -mercado. Assim o mercado condiciona os governos para que estes lhe“ofereçam” seus povos. As dificuldades de determinada sistematização teórica4 sãomuitas, porém, tal fato não se deve apresentar como inibidor de investigaçãosobre a ação dos grupos de interesses. Vale ressaltar, ainda, que esse estudo3 Dinâmica pela qual o Estado vem passando desde sua criação no século XV, na qual Bobbittacrescentou uma nova etapa.4 Existem várias definições sobre a Democracia, o que dá margem a inúmeras interpretações. Além disso,as particularidades de cada sociedade dão ensejo a diferentes práticas do sistema democrático.
  5. 5. investigativo não elimina nem despreza a capacidade de organização e eficáciadesses grupos para a produção de políticas públicas que atendam seusobjetivos. Quando se busca, ademais, uma análise nos padrões da escolharacional coletiva, os problemas, sobretudo práticos, se avolumam. AnthonyDowns, Olson, Dahl, Lukes e tantos outros os enfrentaram e estabeleceramdiretrizes que possibilitam uma análise racional dos elementos constitutivos daescolha de grupos, sob a ótica do governo democrático. Mais ainda quando se busca um encadeamento lógico quejustifique um controle dessa mesma ação governamental, pois as dificuldadesse multiplicam, é aí que o pesquisador tem o dever de encontrar nasinstituições os pressupostos das práticas de uma nova postura diante de novasrealidades. Nessa perspectiva, procurou-se, neste trabalho, descrever aação não-aparente dos grupos de interesses, que no Brasil alcançaram umdesenvolvimento tal a ponto de não serem percebidos, pois são articulados poroutros grupos que não permite que eles se exponham diretamente ao público.Assim, objetivou-se demonstrar como essa ação é praticada, através de umpequeno relato das teorias de ação de grupos de interesses, paracontextualizar o tema e a análise de um artigo de revista de circulaçãonacional.2. Onde estão as origens dos grupos de interesses no Brasil? As origens da estrutura política brasileira estão, segundo Faoro(1975), sedimentadas na História da formação de Portugal, Estado constituídocom base em uma estrutura patrimonial, que não desenvolveu o sistema feudalcomo as outras unidades políticas da Europa, portanto sem a constituição deuma nobreza autônoma. Esse fato deu origem a um patriomonialismoestamental, por referência às características da nobreza feudal, que passa aconstituir o quadro administrativo do Estado. Por meio desse quadro decontrole burocrático, a nobreza busca honra social, para alcançar e conservar aindependência em relação ao soberano. Nesse tipo de sistema, o soberano
  6. 6. domina o território do país através desse corpo administrativo. É o tipo deEstado que vai vigorar no Brasil-colônia e que, posteriormente, serátransformado no modelo pelo qual o país independente se constituirá.Transplantado da metrópole, o modelo administrativo que aqui se instala temcomo característica a fusão do público ao privado, em benefício do estamentoque administra o Estado. O modelo capitalista português, que foi transferido para oBrasil, apresenta um padrão que é conduzido e determinado pela política, demodo a não estimular o desenvolvimento econômico segundo os princípiosliberais que nortearam outras nações européias. Esse fator foi responsável peloatraso e dependência econômica que vão se verificar em Portugal, deixando oBrasil como área de exploração mercantil, responsável pelo lucro que o Estadolusitano retira para se manter. E se manter significa, em última análise, saldardívidas portuguesas através da transferência das riquezas brasileiras para asnações que adotaram o liberalismo econômico, as quais eram credoras dePortugal. Assim, no Brasil, o Estado português implementará a colonização,cooptando comerciantes e agentes do capital, que irão constituir o estamentoburocrático que, por sua vez, envolverá o setor privado, submetendo-o a seurogo e esgotando-o em benefício de poucos. A centralização do poder é o principal aspecto que a máquinaadministrativa portuguesa vai instaurar no Brasil, na fase dos grandesengenhos de cana-de-açúcar (Nordeste) e na fase da exploração das minas deouro e pedras preciosas (Minas Gerais, principalmente). Sob o pretexto doestabelecimento de um controle para atender os interesses da coroa, oestamento burocrático se fortalece na colônia. Na realidade, atendendo ospróprios interesses, através de um governo forte, com grande número defuncionários para lhe dar supremacia sobre os senhores rurais. O aparatoadministrativo que age em nome do rei (a favor dele [rei] e em interessepróprio) exclui o povo de qualquer tipo de participação, servindo este apenas etão-somente para uso econômico e político. A vinda da família real para a colônia transfere toda a máquinaburocrática que vai dar inicio à consolidação da estrutura estamental-burocrática a ser implantada pelo Estado brasileiro independente. Aorganização da nação vai ocorrer sob a lógica do liberalismo, o que parece,
  7. 7. pretensamente, ser o elemento modernizador do país. No entanto, o liberalismoadquire um caráter contraditório, pois se assenta na base de uma economiaescravista. Acresce-se que a instituição do poder moderador e as formas deorganização do Estado brasileiro serão as mesmas que se desenvolveram noperíodo colonial, com um estamento burocrático muito forte. Principalmente nosegundo reinado, que alijou a possibilidade de participação do povo. Limitadocom base na renda, ele permanece sob o controle do aparelho administrativo,que dá as diretrizes do país imperial. Como se vê, desde os primórdios daformação do Estado brasileiro se limitou a organização de grupos de interessesnas esferas inferiores da sociedade. Com a instauração da República, o modelo vai se reproduzirsob novas formas. Primeiro, pelo poder dos militares. Depois, no período civil,pela implantação da Política dos Governadores, momento máximo da ação doestamento burocrático na privatização do lucro e socialização dos custos. Ascaracterísticas do Estado brasileiro, daí em diante, não irão se alterar. Mudaráapenas o regime do qual o estamento burocrático irá se servir, mesclando–semomentos de maior distanciamento em relação ao povo a momentos em queele aparece mais próximo (como, por exemplo, o Estado Novo). Em suma, O Estado brasileiro consolidou o patrimonialismo,transferido pelo colonizador português, o qual, aplicando suas característicasgestoras, construiu uma lacuna entre os interesses do Estado e os da nação,atendendo, por fim, ao grupo que se apropriou do aparelho administrativo doEstado. Geralmente esse grupo não fazia distinção entre o público e o privado,submetendo a seu jugo, inclusive, importantes setores da economia. Com isso,tais setores acabaram sendo incorporados ao modelo capitalista vigente,perdendo suas características naturais, o que inviabilizou qualquerpossibilidade de crescimento em termos sócio-econômicos. Quanto à nação,reproduz-se fora da esfera do Estado, como mostram os modelos históricos,graças aos mecanismos de defesa produzidos pelo estamento burocrático,para impedir o acesso dos interesses públicos na esfera da ação do Estado.Neste caso, a formação política brasileira caminha na direção da teoria deAndrew Mc Farland (1992), que defendeu a idéia da “muitas elites”, uma vezque o Brasil, após o processo de industrialização, parece tê-la desenvolvido.
  8. 8. 3. A Lógica da Ação Coletiva Os grupos de interesse estão presentes nas democracias eservem para que os interesses de partes da sociedade possam conseguir osbenefícios das políticas públicas. Geralmente, os grupos de interesses podemser conceituados pela lógica da ação coletiva. A teoria da ação coletiva parte de uma constatação: diversasvezes a interação de agentes com interesses comuns não gera resultadoscoletivamente eficientes. Em outras palavras, sob certas condições, indivíduosracionais são incapazes de, espontaneamente, alcançar resultados queestejam de acordo com seus interesses. A análise de Olson (1999) buscaidentificar quais são as circunstâncias em que a afirmativa anterior se verifica,ou seja, quando a racionalidade individual não é suficiente para a racionalidadecoletiva. Olson (1999) mostra que o fato dos benefícios conjuntos deuma ação superarem os custos para um grupo não implica em sua efetivação.A ação coletiva, geralmente, está voltada para a produção de bens públicospara seus membros, pois bens privados podem ser produzidos através domercado. Ora, em tal caso, como não se podem excluir os não-contribuintes, ogrupo fracassa na produção de potenciais bens coletivos, visto que a decisãoracional de cada agente será a defecção. Exemplificando: os trabalhadoresrecebem aumento salarial quer tenham contribuído ou não para uma grevebem-sucedida, ou cada empresário de um determinado setor se beneficia daimposição de uma tarifa de importação mesmo que não tenha contribuído parao lobby5. De acordo com a análise de Olson (1999), o número departicipantes de um grupo é uma variável-chave para as questões da açãocoletiva. Utilizando um modelo formal, ele demonstrou que quanto menor ogrupo, maiores são as chances de um de seus membros arcar com todos oscustos do bem coletivo (Olson.1999). Já em grupos maiores, essa possibilidade5 Grupo de pressão; grupo dos que freqüentam as antecâmaras dos parlamentos com o objetivo deinfluenciar os deputados no sentido de votarem de acordo com os seus interesses.
  9. 9. é mais restrita e a ação coletiva tem de ser obtida através de incentivosseletivos (selective incentives), i.e., benefícios que se aplicam apenas aosagentes que contribuíram para a provisão de um bem público (Olson, 1999).Conhecidos casos de incentivos seletivos são os descontos em planos desaúde para os membros de sindicatos e o fornecimento de informaçõesqualificadas para os componentes de um grupo de interesse patronal. Existemainda outros incentivos mais informais, mas não por isso menos eficazes, quevão desde o ostracismo até a violência física contra, por exemplo, os que"furam" uma greve ou rompem um cartel. Mesmo levando-se em conta a possibilidade de recurso aosincentivos seletivos, é fácil notar que grupos com poucos membros, cujosbenefícios prováveis estão concentrados, têm mais incentivos e facilidades deorganização e ação do que os grandes grupos pulverizados. Os resultados sãopequenos grupos ativos e uma maioria desorganizada inerte, apesar de seusinteresses comuns. Segundo Olson (1999), "pequenos grupos em umasociedade, geralmente, terão maior poder de lobby e de cartel per capita (oumesmo por dólar da renda agregada) do que grupos maiores" (Olson.1999). Olson (1999) também argumentou que os pequenos grupostendem a incorrer em ações redistributivas em seu favor, em detrimento depráticas que aumentariam a eficiência em geral. Um grupo pequeno é atingidoapenas por uma ínfima parte dos danos que porventura atinjam toda asociedade, uma vez que, por definição, sua participação nesta é deverasrestrita. Logo, mesmo que as ações redistributivas dos grupos com poucosmembros piorem a situação geral, seus participantes serão mais do quecompensados pelos "desvios" dos ganhos em seu favor. Sindicatos detrabalhadores e patronais, associações profissionais, lobbies e cartéis, ouqualquer outro grupo que vise à provisão de bens coletivos para seusmembros, foram incluídos sob a designação "coalizões distributivas"(distributional coalitions).4. As práticas brasileiras Para este trabalho procurou-se adotar os princípios pluralistasdefendidos por Dahl (1961), que parte da idéia de que as democracias
  10. 10. permitem, na sua dinâmica, um sistema de desigualdades não-cumulativas. Eque os recursos políticos num sistema pluralista apresentam-se vários, sendoeles distribuídos desigualmente e por isso os atores possuem um maiornúmero de oportunidades para influenciar o poder público, portanto há umaparticipação maior da sociedade, cada parte em um determinado segmento. Uma extensa guerra de interesses se trava no Brasil entre opúblico e o privado. Isso não quer dizer que exista um conflito sistêmico (pelomenos não se percebe isso), o que se desenrola é um conflito temático (LaPalombara, 1982, 291). Essa guerra tem no Estado um espaço preferencial,embora ela cruze todos os cantos da nossa sociedade. É neste sentido, queempreendemos nosso esforço elucidativo. Os interesses privados lutam pela mais extensa e profundamercantilização da sociedade, isto é, pela transformação radical de tudo emmercadoria. Em outras palavras, a sociedade deve ser um lugar onde tudo sevende e tudo se compra. O setor privado luta para que o Estado: a) financieseus interesses e não coloque nenhum entrave à circulação do capital; b)perdoe seus impostos e degrade ainda mais os salários; c) gaste cada vezmenos com a atenção à massa da população. Em suma, que o Estado sejamáximo para o capital e mínimo para os que vivem do trabalho. E a iniciativa privada tem conseguido grandes avanços nosúltimos tempos. O Estado está profundamente penetrado por seus interesses,em especial pelos do capital especulativo, num verdadeiro processo definanceirização do Estado. O conjunto das atividades estatais está definidopelos compromissos financeiros assumidos pelas autoridades econômicas -elas mesmas originárias de grandes empresas privadas, na maioria das vezesorganizadas em grupos representativos de caráter neocorporativista6 (WerneckVianna, 1994). O Banco Central, os Ministérios Econômicos, o próprioMinistério do Trabalho, da Indústria e Comércio, da Agricultura e ReformaAgrária, por exemplo, representam os interesses do grande capital privado,6 As associações de interesse não são necessariamente entidades autônomas que pressionam de fora doEstado, sendo também partidos políticos, podendo, pelo menos em parte, ter caráter heterônimo face asautoridades governamentais e agir como canais como canis seletivos na formação (e na implementação)da política pública.
  11. 11. prioritariamente os do capital especulativo, sobre cuja atração repousa amodalidade de estabilização monetária do governo atual. Se o Brasil é a sociedade mais injusta do mundo (segundo osdados das Nações Unidas), é em grande parte devido a que o CapitalismoCentral influencia o Estado e a elite, fazendo com que cada vez menos sejamuniversalizados os direitos da população. Ao mesmo tempo, o próprio Estadosubsidia o processo de acumulação privada de capital, favorecendoprincipalmente grupos de interesses organizados, que possuem eficientescanais de comunicação junto aos policy makers. Entre várias práticas utilizadaspara tal, uma delas é a difusão midiática da ideologia dominante, que nopresente trabalho será analisada num recorte – a mídia impressa. Nãobastasse isso, o mercado, para concentrar renda, produz exclusão social edestrói empregos formais com seus respectivos direitos. E, fechando oprocesso sócio-econômico, numa postura inegavelmente pró-iniciativa privada,o Estado maximiza, até limites inéditos, a super-exploração econômica, adestruição de direitos e a exclusão social. O liberalismo busca legitimar esse processo mediante arestrição do debate em torno do eixo estatal/privado. Desqualificando o Estado,enfraquece a capacidade deste para regular as relações econômicas e sociais,garantir direitos e servir de instrumento contra o processo de maximização doslucros das grandes empresas privadas. E não é difícil desqualificar um Estadoque arrecada apenas metade do que deveria (dos assalariados,principalmente) e gasta mal, prestando serviços ruins à população que delenecessita, sendo forte com os fracos e fraco com os fortes, pagando mal aseus funcionários, gastando mais com o pagamento dos juros das dívidas doque com educação e saúde. Em suma, um Estado onde os grandes interesses privados semanifestam, e que reproduz através das políticas públicas que atendem asparticularidades, independentemente do sistema de governo e do própriogovernante, através de um sistema pluralista (não no sentido apresentado porDahl, mas no apresentado por Lukes), que defende a idéia de umadesigualdade de oportunidades em que o ator mais importante tem maiorproporção de sucessos.
  12. 12. 5. A ação do 3º. Poder no Brasil Apesar de Lukes (1992), que será melhor abordado no próximoitem, achar difícil empreender uma análise das ações dos grupos queexercitam o poder na ausência de conflito, o artigo publicado pela revista Veja,em 01 de novembro de 2001, nos permite tangenciar a questão sem nosaprofundarmos, uma vez que este não é o objetivo deste trabalho. Mas nospermite antever as ações para fazer seus objetivos. Na matéria analisada7, na verdade, há dois textos; portanto hádois objetos: um aparente, um subjacente. Em outras palavras, existe um textodentro de outro texto. O jornalista João Gabriel de Lima faz uma abordagem daLíngua Portuguesa como sendo uma das maiores dificuldades dos brasileiros,impedindo que leiam e escrevam adequadamente. Há vários depoimentos depessoas com autoridade no assunto, comentando e avaliando o problema.Destacam-se o Professor Pasquale Cipro Neto e o economista Reinaldo Polito,dono de uma escola de expressão oral. É o texto verdadeiro? É nele que se encontra o sentido real queoriginou a matéria? É nele que se encontra a intencionalidade dos interessespresentes? O jornalista, associado a seus co-enunciadores, solicita àClasse Média (os brasileiros) que vote em José Serra (o que fala a LínguaCorreta), e não em Lula (o brasileiro que não sabe falar nem escrever) ou emEnéias Carneiro (o da linguagem empolada) – conflito temático entre osgrupos. É como se houvesse uma união de personalidades da Classe Média(os brasileiros que querem melhorar – e melhorar seria votar em José Serra)tentando convencer uma outra parcela dessa classe de que o candidato doPSDB é o único que deve, merece e possui condições de ocupar a cadeirapresidencial. Justifica isso apresentando a tese de que José Serra é o únicoque fala a mesma língua da Classe Média. E falar a mesma língua implicadizer, nesse contexto, ter os mesmos ideais, ter os mesmos anseios, pensar da7 Veja a matéria completa no Anexo I
  13. 13. mesma maneira compartilhar a mesma ideologia. A partir desse ponto,estabelece-se uma igualdade entre a Classe Média e José Serra; ambos têmas mesmas origens, ambos são iguais, ambos falam a mesma Língua. E assimé criada a identidade entre os pares Classe Média /José Serra. O autor criou um silogismo: deve-se votar naquele que fala amesma língua do eleitor; José Serra é o único candidato que fala a língua daClasse Média; logo a classe média deve votar em José Serra. Dessa forma, a questão Língua funciona apenas como eloentre iguais. Ela não é, como sugere o Texto Aparente, o cerne damatéria/reportagem. A língua (Ideologia, no Texto Subjacente) é o meio deconvencimento, é a grande força de argumentação lógica para convencer aporção da Classe Média que decidiu votar em Lula ou em Enéias Carneiro, ouque está indecisa, a votar no PSDB de José Serra. O texto vai, do início ao fim,demonstrando, por meio de depoimentos de co-enunciadores-pares da ClasseMédia, entre eles Fernando Henrique Cardoso, Evanildo Bechara, outrosprofessores, empresários, altos executivos, e não-pares diretos, como SérgioBuarque de Holanda, o filósofo Ludwig Wittgenstein, utilizando vivos e mortos,para confirmar a necessidade da Classe Média votar no candidato do PSDB,porque: o Lula fala errado, a Língua do povão, ou seja, governará para asclasses menos favorecidas; e Enéias fala a língua do passado, o quesignificará um retrocesso político.5.1. Onde está Fernando Henrique Cardoso (FHC)? Não se encontra, diretamente, no texto em palavras. Ele estásimbolizado nas imagens estilizadas do “homem tranqüilo e calmo que escrevee fala com grande facilidade a Língua Correta – a Língua da Classe Média”.Aqui verificamos uma manipulação dos símbolos, já que se procuradesenvolver um sentimento de medo (avesso às mudanças) no público, paraimpedi-lo de questionar as demandas das elites, legitimando-as, criando umconsenso em torno dos valores da classe dominante. (Hayes. 1981) Na ocasião da matéria, FHC era o Presidente da República, epautou seus governos pelo favorecimento às classes sociais economicamente
  14. 14. superiores, ou seja, os setores da sociedade mais organizados fizeram valer osseus interesses contra os interesses não-organizados. Por ser do PSDB, suaimagem sugere a continuidade desse favorecimento no caso da vitória de JoséSerra, que também era do PSDB e, portanto, falava e continuaria falando amesma Língua de FHC. A Língua Correta, a Língua da Classe Média.5.2. Contextualizando a análise A revista Veja, dirigida à Classe Média, publicou a matéria numano eleitoral, quando o cenário político apontava Lula como o principalcandidato, que recebia apoio de cantores ligados à elite intelectual brasileira(Gilberto Gil, Chico Buarque de Holanda, etc.) e de atores de prestígio, o queprovocava uma fuga de votos (da Classe Média) para o PT. Signos icônicos são utilizados, primeiramente na capa, quemostra um “Rapaz Bonito, Branco” (Classe Média) “sorridente” (alegria,felicidade); de sua boca sai a expressão: “Falar bem”. Complementando, ofundo Amarelo une-se ao Azul da camisa do rapaz, sugerindo “a bandeira doPSDB”. Num segundo momento, signos são apresentados no decorrer damatéria em si. Como se a Democracia, com alternância do poder, estivesseassociada aos baixos padrões culturais da população, abalando tanto opensamento conservador como o liberal na sociedade brasileira, principalmentena Classe Média. Outras pistas são dadas pelo texto, como: a diferença entre “obrasileiro” (que não sabem falar nem escrever) e “os brasileiros” (que queremmelhorar). Existe um sentido pejorativo no termo “o brasileiro”; enquanto há umsentido positivo no termo “os brasileiros”. Após a fala de Suplicy (a reportagemdiz que ele é um homem inteligente, mas não sabe se expressar – pejorativo)abre o parágrafo dizendo que “A dificuldade do brasileiro em falar eescrever...”, o que sugere que Suplicy não sabe falar, se expressar. Isso demonstra a intenção de macular a imagem do brasileiro,que é sempre associado a não falar e a não escrever bem. Como no textoaponta que as escolas públicas não possuem quantidade suficiente deprofessores de Língua Portuguesa capacitados adequadamente ao cargo, para
  15. 15. a maioria do povo, este por conseqüência não aprende a falar nem a escreverdireito. Estabelece-se, portanto, uma identidade entre ambos: brasileiro e“povão”. Percebe-se que os membros do PT falam a Língua do “povão”. Assim,pelo conceito de identidade/ideologia, todos do PT falam a mesma Língua queo povão. Como a imagem do PT sempre esteve ligada a Luiz Inácio Lula daSilva, temos que: Lula igual a povão. Portanto, “brasileiro” significa Lula e por,extensão, PT e “povão”. Claramente esse fato remete ao temor do “governo dopovo” em contraste com a plutocracia8, defendida pela Classe Média. Como sefosse possível, ao povo, governar da mesma forma que os ricos(essencialmente em benefício próprio), quando na verdade se busca umgoverno que atenda os desejos comuns da sociedade (Wollheim,1999,p. 97),uma vez que se governa para todos (ou, pelo menos, é o que teoricamentedeveria acontecer). Existe no texto um dialogismo constitutivo9 que se dá pelapolifonia10 existente, que fica, do início ao fim, retomando falas direcionadas aosenso comum que justificam a idéia de que “Lula é analfabeto, por isso nãopode ser presidente”. Essa polifonia dirigida é, em grande parte, explicita eimplícita ao mesmo tempo. Explícita, na medida em que o co-enunciador écitado ou tem sua fala marcada pelas aspas. Contudo, o enunciado não revelaseu conteúdo real, verdadeiro; ele só é percebido pelo analista no conjunto daanálise, pois encontra-se submerso. Assim, o explícito verdadeiro só existepelo implícito, uma vez que seja percebido e compreendido. De outra forma, oque existirá é um pseudo-explícito residente na superfície do texto, queprovocará inevitavelmente uma não-apreensão do conteúdo intencional,projetado pela classe difusora da ideologia política. O leitor ficará apenas noâmbito do Texto Aparente, que é apenas um “merchandising”. Mas ficarásubmetido ao papel político desempenhado pela mídia.8 Governo dos mais ricos.9 Conceito Bakhtiniano (Mikhail Bakhtin, pelo qual se forma um diálogo “virtual! Entre aquilo que é ditono texto e alguma idéia a ele relacionada, a qual pode ser indiretamente/subliminarmente percebida peloleitor)10 Conceito Bakhtiniano, que afirma a existência de várias “vozes” (aquilo que ouvimos, vemos, lemos ereelaboramos consciente ou inconscientemente, passando a afirmar como produto autêntico da nossareflexão) numa produção textual.
  16. 16. “...Influencia a formação de políticas ao gerar a atenção do público e, através dela, a pressão política para que certos atores passem a atuar sobre uma questão particular. A cobertura da mídia, porém, não apenas aumenta as percepções e atenção públicas sobre várias questões, mas as constrói, definindo-as como econômicas, ou políticas, sociais ou pessoais, radicais ou conservadoras.” (Howlett, 2000, 186) Em linhas gerais, a argumentação lógica de defesa do voto daClasse Média em José Serra foi tecido a partir de dois patamares centrais: i)criação da identidade ideológica entre PSDB/Classe Média, para esse objetivo,a idéia de “falar a mesma Língua”. Com isso, valorizaram a face positiva(Teoria das Faces de P. Brown e S Levinson. 1987) do PSDB e, pordecorrência imanente, a de seu candidato à Presidência da República, JoséSerra; ii) destruição profunda da imagem de Lula/PT e Enéias/PRONA,desabilitando-os ao exercício de Presidente da República, utilizando, para essafinalidade, a mesma arma anterior, a Língua, só que em sentido iconoclasta. Omesmo elemento que habilita José Serra desabilita Lula e Enéias Carneiro.5.3. A apoteose “A julgar pela máxima do filósofo Ludwig Wittgenstein – ‘oslimites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento’ – osbrasileiros que tentam melhorar seu português estão também aprendendo apensar melhor.” A coação final, trazendo o peso da palavra de um filósofoaustríaco, se liga aos brasileiros da Classe Média que votará em Serraaprendendo a votar melhor, votar no PSDB. É importante acrescentar, a título de elucidação, que existe umgrau de interpenetração entre os grupos de interesses e os partidos políticos.Em alguns casos, interferem no recrutamento e formulação da política a seguire na elaboração dos programas, inviabilizando o atendimento mais amplo dosinteresses da sociedade. (Pasquino, 1982,13) Há ainda, no texto subjacente, outros dialogismos constitutivos,perceptíveis apenas dentro da analise do contexto profundo. Um deles localiza-se logo na abertura do Texto Aparente, no primeiro parágrafo: “Roberto Carlos,
  17. 17. Romário, Silvio Santos, Carla Perez.” A referência a essas personalidades domeio artístico e esportivo, não se dá casualmente, ela é planejada. Outras,poderiam estar ali, mas não estão. Essas personalidades associam-se a Lula eao PT, de modo pejorativo, pois são populares (e de origem popular) e sedestacaram esportiva ou artisticamente, não intelectualmente. Isso faz parte deum sistema lógico-coercitivo, que tem por objetivo induzir a Classe Média avotar em José Serra. Por outro lado, em sentido oposto, aparecem, logo aseguir, duas personalidades do mundo acadêmico e empresarial, o ProfessorPasquale Cipro Neto e o empresário e também professor Reinaldo Polito,representantes dos brasileiros que querem melhorar (parte da Classe Médiaque vota no PSDB). Opõe-se ao povo, por não falarem a mesma Língua. Emsuma, temos a disputa: Rico X Pobre. Os ricos representados pelo PSDB deJosé Serra, e os pobres, representados pelo PT de Lula. Aqui, parece quesomente numa plutocracia o Brasil atingirá um estágio superior. QuandoPéricles já tinha afirmado: “que a democracia é perfeitamente compatível comas diferenças de riqueza, o que não é compatível é que essas diferençasacarretem influência política de grupos de interesses” (Wollheim,1999,p. 94). Pode-se verificar a intencionalidade das escolhas. Os nomesali colocados foram selecionados com o objetivo de serem atados eentrelaçados, ao longo do enunciado global, à idéia de mediocridade, uma vezque representam o gosto popular. E a lógica dessa relação vai sendoconstruída com o “martelamento” de que o pobre não sabe falar nem escreverdireito, por isso não pensa de modo racional e articulado. Como Lula vemdessa classe e é seu ícone, criou-se a identidade Lula/Povo a partir doelemento de igualdade entre ambos: “ignorância”, no sentido dodesconhecimento da Língua culta, que levaria a outros desconhecimentos.Não se sabendo a Língua, não se articula o pensamento. Logo, a falta dedomínio lingüístico é uma barreira aos demais setores do saber humano. Istoposto, não se justifica votar em alguém que não tenha capacidade de raciocinare de tomar decisões em nome de um país. Ainda mais por não falar a “mesmaLíngua”. Eis a lógica iconoclasta que é repetida ao longo do texto. Dessaforma, se objetiva socialmente transmitir valores dos grupos de interessesdominantes, para posterior subjetivização desta ideologia às demais classessociais.
  18. 18. Dentro dessa ótica, os indivíduos da Classe Média procuramagir como racionais utilitaristas, uma vez que para atingir uma maiorcompreensão da dinâmica política tem-se que investir maior quantidade derecursos (Downs.1999) para manter-se informado. Assim, com poucosinvestimentos, uma revista pode, aparentemente, lhes dar acesso àinformação. Entretanto acabam reféns desse meio de comunicação, o que ostorna elementos manipuláveis/capturáveis pelos grupos dominantes,principalmente em períodos eleitorais. (Downs.1999). Como Downs (1999) afirmou, as lideranças políticas sabemutilizar os fatores dispostos no sistema e, como pode-se observar pela análiseanterior, no Brasil a prática é colocada em uso para favorecer o grupo que temacesso aos meios de comunicação, no que se refere à difusão de seus valores.Isso livra alguns atores do conflito, por terem maiores recursos políticos eeconômicos (Dahl.1961).6. A visão de Lukes. The Power - A Radical View O cientista político britânico Steven Lukes foi responsável pelacriação da teoria da Terceira Dimensão da Representação Política, que sedenomina Controle sobre as Preferências. Ela está intrinsecamente relacionadaà discussão sobre os impasses e alternativas para a representação política,sobre o foco da disputa do poder. Essa teoria, em oposição às das outras duas antecessoras,produzidas por R. Dahl, P. Bachrach e M. Baratz, que discutiram sobre ossistemas políticos pluralista e elitista, contraria através de novas propostassobre a representatividade política, pois o conflito aberto entre os atores podenunca ocorrer. Isso aconteceu devido à onda que arrastou a discussão nosúltimos trinta anos sobre a democracia eleitoral, principalmente procurandoocupar o espaço dos regimes autoritário e totalitário, deslegitimados diante daeficácia participativa da Democracia. É sobre essas duas teorias que Lukes (1992) constrói suacrítica de como o poder pode ser considerado a partir da visão unidimensional
  19. 19. e bidimensional. A análise conceitual do poder e sua relação íntima entre ossentidos teóricos e políticos constituem questões metodológicas e invocam aolimite o behaviourismo. As questões teóricas procuram os limites do pluralismo,a consciência falsa e os interesses verdadeiros. As raízes históricas do temaremontam a Weber e influenciaram marcadamente Dahl e seus colegasamericanos da década de 1960. Sua grande crítica a essas duas teorias, elitista e pluralista, éde que elas são limitadas, uma vez que só se referem às formas observáveisdo poder e a isso adicionou uma terceira dimensão que remete à discussãoapresentada anteriormente. A visão unidimensional está centrada na questão do podercomo capacidade de tomada de decisão onde um ator A pode ou conseguefazer com que um ator B faça algo que, sem a força coercitiva de A, não fariapor si só. Outro aspecto levado em conta nesta análise diz respeito a que estepoder (força) é exercido através de instituições formais. Além disso, na medidaem que este poder só se refere a exemplos observáveis, pode ser medido porseus resultados nas decisões. Sobre isso Lukes(1982) afirma que: “...one-dimensional, view of power involves a focus on behaviour in the making ofdecisions on issues over which there is an observable conflict of (subjective)interests, seen as express policy preferences revealed by politicalparticipations.”11 Na análise bidimensional, há também a questão do fato ouconflito observável, real. Mas Bachrach e Baratz (1963) afirmam que além dopoder institucionalizado existe a influência informal. As duas dimensões são atomada de decisão e a não-tomada de decisão, sendo ambas as faces dotomador de decisões.. A não-tomada de decisão é ela mesma uma decisão.Além da força da autoridade coercitiva pode-se observar a influência, indução,persuasão, manipulação. Neste sentido, a análise do texto da revista Vejademonstra como esse poder pode ser utilizado sem que se percebam osgrupos interessados na sua difusão. Voltando ao texto: ao procurar construiruma identidade, hiperboliza-se12 a necessidade da Classe Média não votar emLula, sob pena de se igualar ao “povo”. Em outras palavras, diz que a Classe11 LUKES, Steven. Power: A radical view. P. 1512 Figura de estilo que consiste em engrandecer ou diminuir exageradamente a verdade das coisas.
  20. 20. Média é superior, e não ignorante como o “povo” e o PT, o que justifica votarem José Serra, seu igual. A elaboração do enunciado traz, de forma latente,uma ameaça à face positiva da Classe Média, caso ela vote no PT, pois estariaregistrando e autenticando que é ignorante. Por oposição lógica, a face positivaserá valorizada, caso essa classe vote no PSDB. Também na análise de Lukes(1992), há a presunção de que osinteresses são observáveis e conscientemente articulados pelo tomador dedecisão, desde que os indivíduos ou grupos tenham o capital culturalnecessário à sua apreensão. Aqui reside a mais importante diferença do quetentamos demonstrar neste trabalho, pois o autor acredita que esses eventosnão possam ser observáveis (ou possam, mas de forma muito difícil) e queesses mesmos eventos possam ser articulados, ou melhor, aconteçam deforma inconsciente e, portanto, requeiram um exercício muito grande deabstração. E como já apresentamos anteriormente, o objeto deste trabalhorequer um maior conhecimento que supera o senso comum. A não-tomada de decisão, não observável e inconscientementearticulada, pode nos dar uma pista de que haja uma superestruturaperpassando (ou encobrindo) o centro de tomadas de decisão. Neste sentido,procura-se não questionar o status quo, mas legitimá-lo, não politizando ademanda (ela não passa pelo Congresso). Com este proceder, as reaisdemandas populares adquirem o formato de ilegítimas, criando-se assim umapseudo-realidade, que vai de encontro aos interesses das classes dominantes(Hayes. 1981). De fato, analisar um determinado evento não somente noâmbito do indivíduo, mas na estrutura em que o indivíduo, país e/ouorganização estão envolvidos, é algo bastante complexo. Mas as dificuldadespodem ser transpassadas e certamente não requeiram de nós consignar avisão da terceira dimensão do poder numa esfera metafísica ou ideológica.Esta superestrutura impele algumas tomadas de decisão, ou uma não tomadade decisão, que à luz da simples análise do indivíduo ou da organização, nãofariam sentido. Pode-se dizer, assim, que uma visão ou análise tridimensionaldo poder deva levar em conta idéias, valores e normas em que estejaminseridos os tomadores de decisão. E não se deve perder a dimensão de queesses elementos influenciam os grupos não-organizados. Além disso, aspercepções (sentidos) de tais grupos sofrem a força do poder coercitivo do
  21. 21. Estado, que difere daquela exercida pelo terceiro poder, pois é aplicada deforma inexorável quando a amplitude de suas conseqüências não atinge osindivíduos ou grupos de interesses. Em suma, Lukes contraria a idéia dos antecessores, propondoque os indivíduos que não fazem parte de um determinado grupo social,detentor de poder decisório, são deixados de lado e manipulados no que serefere as suas propostas, não sendo considerados na agenda política. Como aproposição apresentada neste trabalho, os grupos que dominam o poder seutilizam dos meios disponíveis para continuar a reproduzir os seus interesses.E isso pode ser comprovado por uma pequena parcela da sociedade, uma vezque o conhecimento exigido é muito superior à média da população e,consequentemente, devido a esse fato, no Brasil estas práticas podem serreproduzidas por longo tempo.
  22. 22. BibliografiaBACHRACH, Peter & BARATZ, Morton. Decisions and Nondecisions: NaAnalytical Framework, in American Political Science Review, Vol 57, N˚.3.1963.BARROS, D.L.P. de. “Contribuições de Bakhtin às teorias do discurso”. In:Brait, B. (Org.). Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas, Editorada Unicamp. 1997. pp.27-36.BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionáriode Política. Vol 1. Brasília. Editora Unb. 1983.BOBBIIT, Philip. A Guerra e a Paz na História Moderna. São Paulo. EditoraCampus. 2001.BROWN, P & LEVINSON, S. C. Politeness: some Universal in LanguageUse. Studies Interaction Sociolinguistics 4. Cambridge: Cambridge UniversityPress, 1987.DAHL, Robert. Who Governs? Democracy and Power in na American City –New Haven. EUA. Yale University Press. 1961.____________ Dilemmas of Pluralist Democracy: Autonomy vs. Control.New Haven (USA) Yale University Press. 1982.DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de Teoria Geral do Estado. SãoPaulo. Editora Saraiva. 1983.DOWNS, Anthony. Uma Teoria Econômica da Democracia. São Paulo.Edusp. 1999.FAORO, Raimundo. Os Donos do Poder. Vol 1 e 2. 6ª, ed.Rio de Janeiro.Editora Globo. 1975.HAYES, Michael. Lobbyists and Legislators. New Brunswick (USA). RutgersUniversity Press. 1981.HOWLETT, Michael. A dialética da opinião pública: efeitos recíprocos dapolítica pública e da opinião pública em sociedades democráticascontemporâneas. Opinião Pública, vol. VI, n˚ 2, p. 171-337. Campinas. 2000.MC FARLAND, Interest Groups and the Policymaking Process: Sources ofCountervailing in América. In: Mark Petracca (Org.) – The Politics of InterestGroups: Interst Groups Transformed. USA. Westview Press. 1992.
  23. 23. La PALOMBARA, Joseph. A Política no Interior das Nações. Brasília.Editora Unb. 1982.LUKES, Steven. Power: A Radical View. Londres. The Macmillan Press.1992.OLSON, Mancur. A Lógica da Ação Coletiva. São Paulo. Edusp. 1999.PASQUINO, Gianfranco. Teoria dos Grupos e Grupos de Pressão. In: Cursode Ciência Política, Unidade VI. Brasília. Editora Unb. 1982.WERNECK VIANNA, Maria Lúcia. Lobismo: Um Novo Conceito paraAnalisar a Articulação de Interesses no Brasil. Rio de Janeiro. Centro deEstudos de Políticas Públicas, N˚. 25. 1994.WOLLHEIM, Richard. Democracia. In: Ideologias Políticas. CRESPIGNY,Anthony de; CRONIN, Jeremy (eds). Brasília. Editora Unb. 1999.
  24. 24. ANEXO I Falar e escrever, eis a questão Edição 1 725 - 7 de novembro de 2001Expressar-se em português com clareza e correção é uma dasmaiores dificuldades dos brasileiros. A boa notícia é quemuitos estão conscientes disso e querem melhorarJoão Gabriel de Lima Ilustração OrlandoRoberto Carlos, Romário, Silvio Santos, Vera Fischer, Carla Perez. Os famososno Brasil em geral jogam futebol, atuam na televisão ou cantam músicapopular. O professor paulista Pasquale Cipro Neto, de 46 anos, tornou-se umnome nacional de uma forma bem diferente: ensinando português. Há duassemanas ele estreou um quadro no Fantástico, da Rede Globo. Já na estréia, EAgora, Professor? (esse é o nome do quadro) recebeu uma enxurrada de e-mails de telespectadores – cerca de 300 –, que queriam tirar dúvidas sobre o
  25. 25. uso do idioma. Pasquale é um fenômeno de mídia. Além de levantar aaudiência na TV, ele ajuda a vender publicações. Quando produziu um encartecom exercícios de português para O Globo, provocou um aumento de 40% nacirculação dominical do jornal carioca. Republicada mais tarde na revistaÉpoca, pertencente à mesma empresa, a série fez com que a vendagem embancas do semanário quase dobrasse. Pasquale também é um sucesso norádio, em livros, em palestras e em CD-ROM. Ele não é o único que ficouconhecido nacionalmente por ensinar os brasileiros a falar e escrever melhor.Dono de uma escola de expressão oral, o economista Reinaldo Polito tambémfaz um sucesso impressionante. Tem 1.600 alunos por ano, já vendeu mais de570.000 livros e suas palestras estão cotadas em 9.500 reais.Seria errado concluir, a partir desses dois exemplos, que a língua portuguesa éuma paixão dos brasileiros, assim como o futebol, a televisão e a música. Averdade é que as pessoas finalmente perceberam que precisam dominar anorma culta do idioma. Principalmente na vida profissional. Nunca, no mundocorporativo, houve tantas reuniões e apresentações. Quem não conseguearticular pensamentos com clareza e correção tem um grande entrave àascensão na carreira. A invenção do e-mail contribuiu para este quadro, aoincrementar também a comunicação por escrito dentro das empresas. NaNestlé, por exemplo, o número de mensagens eletrônicas trocadas entre osfuncionários dobra a cada ano. Foram 2 milhões em 1999, 4 milhões em 2000e, até o fim de 2001, esse número deve chegar a 8 milhões. É óbvio que épéssimo para a imagem de alguém enviar a seu chefe um e-mail confuso oucom erros de português. "O domínio da língua é importantíssimo para qualquerprofissional, tanto que, na hora de admitir novos funcionários, costumamosfazer um teste de expressão escrita", informa Carlos Faccina, diretor derecursos humanos da Nestlé. José Paulo Moreira de Oliveira, especialista emportuguês ligado à empresa de consultoria MVC, estima que, em carreiras nasquais a internet é ferramenta de trabalho, os profissionais despendam 25% deseu dia atualizando a correspondência eletrônica. Fora do trabalho, o e-mail étambém cada vez mais usado na vida particular. A tendência é que suautilização fique cada vez menos restrita à parcela da população que temcomputador em casa. Recentemente, os Correios criaram um programa pilotode internet. No Rio de Janeiro e em São Paulo, várias agências contam comterminais para quem quiser enviar e-mails em vez de cartas. Quem não tiverendereço eletrônico pode obter um de graça, aderindo ao programa. OsCorreios prometem colocar esse equipamento em todas as agências do paísaté 2003.
  26. 26. AS ATIVIDADES DE PASQUALE Escreve colunas em jornais de dez capitais brasileiras Participa de programas de treinamento no jornal Folha de S. Paulo e na Rede Globo Ancora o Nossa Língua Portuguesa, na TV Cultura Acaba de estrear um quadro no Fantástico, da Rede Globo Apresenta dois programas de rádio Coordena atividades especiais numa das unidades do Curso Anglo Tem sete livros publicados, que totalizam 350 000 exemplares vendidos Seu CD-ROM Nossa Língua Portuguesa vendeu 50 000 cópiasAs angústias dos brasileiros em relação ao português são de duas ordens.Para uma parte da população, a que não teve acesso a uma boa escola e,mesmo assim, conseguiu galgar posições, o problema é sobretudo com agramática. É esse o público que consome avidamente os fascículos e livros doprofessor Pasquale, em que as regras básicas do idioma são apresentadas deforma clara e bem-humorada. Para o segmento que teve a oportunidade deestudar em bons colégios, a principal dificuldade é com a clareza. É parasatisfazer principalmente a essa demanda que um novo tipo de profissional
  27. 27. surgiu: o professor de português especializado em adestrar funcionários deempresas. Antigamente, os cursos dados no escritório eram de gramáticabásica e se destinavam principalmente a secretárias. De uns tempos para cá,eles passaram a atender primordialmente gente de nível superior. Em geral, osprofessores que atuam em firmas são acadêmicos que fazem esse tipo detrabalho esporadicamente, para ganhar um dinheiro extra. "É fascinante,porque deixamos de viver na teoria para enfrentar a língua do mundo real", dizAntônio Suárez Abreu, livre-docente pela Universidade de São Paulo que jádeu cursos em empresas como a Mercedes-Benz, a Nortel e a CompanhiaPaulista de Força e Luz. Abreu até lançou um livro voltado para esse público, AArte de Argumentar – Gerenciando Razão e Emoção, que está na segundaedição.Já existe no país até uma escola voltada para o ensino da língua paraprofissionais. É o Curso Permanente de Português, de Porto Alegre. O CPP,como é conhecido, foi fundado em 1976 por Édison de Oliveira, uma espéciede precursor gaúcho de Pasquale Cipro Neto. Ele se notabilizou com aulas degramática no rádio e na televisão do Rio Grande do Sul. Até recentemente, oCPP funcionava como um curso especializado em redação para o vestibular.Há cinco anos, resolveu atacar o filão das empresas. "É um trabalho bastantecomplexo, porque nós temos de entrar no universo das profissões para saberos problemas específicos que cada uma apresenta", analisa a professora MariaElyse Bernd, diretora do CPP. O curso mescla aulas de gramática comatividades práticas direcionadas para as diferentes carreiras. Médicosaprendem a escrever laudos; advogados, petições; economistas, relatórios eassim por diante (veja exemplos). O CPP tem como clientes bancos, tribunais eaté um hospital. Algumas empresas procuram o curso incentivadas pelospróprios funcionários. "Fizemos uma pesquisa e descobrimos que conhecermelhor as regras do idioma era uma demanda de todos os níveis hierárquicos",diz Josué Vieira da Costa, da área de recursos humanos do Banrisul, bancoestatal gaúcho que contratou os serviços do CPP. Costa lembra que asdificuldades com o português chegaram a entravar a burocracia do banco."Uma vez, um funcionário quase foi promovido erroneamente por causa doparecer dúbio de um executivo. É incrível que esse tipo de coisa atrapalhe ofuncionamento de uma empresa."
  28. 28. AS PROEZAS DE POLITO Tem 11 livros publicados, que venderam 570 000 exemplares O best-seller é Como Falar Corretamente e sem Inibições, que vendeu 300 000 exemplares Por seu curso passam, em média, 1 600 alunos por ano Dá em média 3 palestras por mês Seu cachê por palestra é 9 500 reais Tem vários alunos famosos, entre eles o senador Eduardo Suplicy Ouça dicas do professor Reinaldo Polito sobre como falar bem em público.A dificuldade com a clareza é um traço cultural no Brasil. "Num país com tantascarências educacionais, falar de maneira rebuscada é indicador de status,mesmo que o falante não esteja dizendo coisa com coisa", afirma o professorFrancisco Platão Savioli, da Universidade de São Paulo, autor de nove livrossobre o ensino do idioma. Esse amor pelas palavras difíceis tem origem naépoca da transição do Império para a República, no fim do século XIX.Conforme explica Sérgio Buarque de Holanda, em seu clássico Raízes doBrasil, com o advento da República o curso superior passou a ser o principalparâmetro de reconhecimento social. Na época, estavam em voga as escolasde direito. Assim, para ser alguém na sociedade daquele tempo, era necessárionão apenas ser advogado, mas também falar como advogado. É daí que surge,segundo Sérgio Buarque, a linguagem bacharelesca. Esse estilo floresceu nocomeço do século XX e, a partir do modernismo, seu prestígio foi decaindo. Oportuguês empolado persiste, no entanto, até hoje, em formas degeneradas.Uma delas é o chamado "burocratês", a linguagem dos memorandos dasempresas, nos quais mesmo para solicitar a compra de uma caixa de clipessão necessárias várias saudações e salamaleques. Outra é a retórica de partedos políticos. O linguajar pomposo também sobrevive nas teses acadêmicas e,como era de esperar, no discurso dos advogados.Há vários indícios, no entanto, de que essa tradição de rebuscamento estáfadada a ir para a lata de lixo da História. Na área do direito, por exemplo,existe uma corrente que defende a simplificação da língua. Há duas semanas,o desembargador João Wehbi Dib ganhou as manchetes de jornais pelo tomcom que redigiu seu voto num processo contra o escritor Ruy Castro, acusadode difamar Garrincha no livro Estrela Solitária. Entre as provas arroladas pelosadvogados dos herdeiros do jogador, havia uma descrição feita por Castro daanatomia íntima do craque. Para choque de muitos, o desembargador WehbiDib discorreu sobre o assunto sem meias palavras. "As novas gerações deadvogados perceberam que o discurso empolado, muitas vezes, atrapalha a
  29. 29. argumentação lógica", diz Ester Kosovski, professora da área de direito daUniversidade Federal do Rio de Janeiro. Outro golpe no barroquismo vem daprópria popularização do e-mail. "A linguagem da correspondência eletrônica,nas empresas, tem de ser mais concisa e mais clara que a do memorando,porque em geral tem o objetivo de provocar uma ação imediata", analisa oprofessor paranaense Artur Roman, autor de dissertação de mestrado sobre oassunto e funcionário do setor de treinamento do Banco do Brasil.A clareza também se tornou a prioridade dos cursos de oratória. O professorReinaldo Polito, que há 26 anos tem em São Paulo uma escola de expressãoverbal para profissionais de várias áreas, constatou, ao longo de sua carreira,uma mudança significativa. Segundo ele, até pouco tempo atrás a maior partede sua clientela era formada por executivos na faixa dos 45 anos, que sepreocupavam, antes de tudo, com a impostação de voz e a gestualidade.Recentemente, ele passou a ser procurado principalmente por jovens em iníciode carreira que querem aprender a se expressar de forma clara e simples."Para atender esse pessoal, que hoje é o grosso do meu público, tive dereorientar o curso. Passei a enfatizar o encadeamento das idéias e a coerênciada argumentação", conta Polito. A demanda é tanta que, em março passado,ele inaugurou outra unidade de sua escola, no bairro paulistano do Ipiranga.Nela, há auditórios de vários tamanhos para simular diferentes tipos deconferências. Polito tem entre seus alunos o senador do PT Eduardo Suplicy."Ele é um homem inteligentíssimo, só precisa aprender a se expressar melhor.É um grande desafio para mim", avalia Polito.A dificuldade do brasileiro em falar e escrever de forma a se fazer entender nãoé apenas conseqüência da tradição bacharelesca. Há outros fatores. Paracomeçar, lê-se pouco no Brasil. O parâmetro de comparação que costuma serutilizado nessa área é a média de livros publicados per capita, que resulta dadivisão do total da produção pela população do país. No Brasil se produzem2,4 livros por habitante, contra sete na França e onze nos Estados Unidos.Esse indicador, no entanto, é imperfeito, porque ignora a taxa deanalfabetismo, a proporção de livros didáticos no universo editorial e aquantidade de volumes que vai parar em bibliotecas. A Câmara Brasileira doLivro divulgou recentemente um estudo que mostra que, na verdade, osbrasileiros lêem em média apenas 1,2 livro por ano. Não cultivar a leitura é umdesastre para quem deseja expressar-se bem. Ela é condição essencial paramelhorar a linguagem oral e escrita. Quem lê interioriza as regras gramaticaisbásicas e aprende a organizar o pensamento.As escolas poderiam ensinar a escrever, mas não o fazem. Não que as aulasde redação sejam em menor número do que o desejado. O problema é queessa matéria é ensinada de forma errada, por meio de assuntos distantes davida real. "Em vez de escrever redações sobre temas vagos, como Minhasférias ou Meu cachorro, o aluno deveria ser adestrado nos diferentes gênerosda escrita: a carta, o memorando, a ficção, a conferência e até o e-mail", opinao professor Luiz Marcuschi, da Universidade Federal de Pernambuco. Porúltimo, há a questão do nível dos professores. "A maior parte da mão-de-obranessa área é de baixa qualificação", diz o professor Pasquale Cipro Neto."Como o aluno vai aprender a diferença entre sujeito e predicado se nem oprofessor entende direito? Infelizmente, não existem bons professores de
  30. 30. português em número suficiente para atender à imensa demanda que o paístem."Pasquale conhece bem as carências nessa área. Ele percorre o Brasil para darpalestras. Transformou-se em estrela de magnitude nacional depois de atuarem comerciais da rede de lanchonetes McDonalds, em 1997. Pasquale, noentanto, não é uma unanimidade. Esteja em São Paulo, Macapá ou PassoFundo, inevitavelmente ouve críticas. Elas ecoam o pensamento de uma certacorrente relativista, que acha que os gramáticos preocupados com as regras danorma culta prestam um desserviço à língua. De acordo com essa tendência, ocerto e o errado em português não são conceitos absolutos. Quem apontaincorreções na fala popular estaria, na verdade, solapando a inventividade e aauto-estima das classes menos abastadas. Isso configuraria uma posturaelitista. Trata-se de um raciocínio torto, baseado num esquerdismo de meia-pataca, que idealiza tudo o que é popular – inclusive a ignorância, como se elafosse atributo, e não problema, do "povo". O que esses acadêmicospreconizam é que os ignorantes continuem a sê-lo. Que percam oportunidadesde emprego e a conseqüente chance de subir na vida por falar errado."Ninguém defende que o sujeito comece a usar o português castiço paradiscutir futebol com os amigos no bar", irrita-se Pasquale. "Falar bem significaser poliglota dentro da própria língua. Saber utilizar o registro apropriado emqualquer situação. É preciso dar a todos a chance de conhecer a norma culta,pois é ela que vai contar nas situações decisivas, como uma entrevista para umnovo trabalho." Felizmente, a maior parte das pessoas não está nem aí para aconversa mole dos relativistas. Quer saber, isso sim, de falar e escrever direito.A julgar pela máxima do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein – "os limites daminha linguagem são também os limites do meu pensamento" –, os brasileirosque tentam melhorar seu português estão também aprendendo a pensarmelhor.

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