A ÉTICA NAS ORGANIZAÇÕESA N O 2 – N º 4março2001
Instituto Ethos Reflexão é uma publicaçãodo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social,distribuída gratuitament...
Nesta edição de Instituto Ethos Reflexão, entramos no segundo anoda publicação, que foi idealizada com o propósito de esti...
5A essencialidade das organizações na vida pessoas levaalguns expertos a considerarem que os tempos atuais confi-guram uma...
6A pluralidade também exige como componentes daética social a tolerância e o diálogo. O primeiro vai além deseu sentido pa...
7MOTIVAÇÕES PARA O INTERESSE EM ÉTICA ORGANIZACIONALUltimamente, o interesse ou a preocupação com a éti-ca empresarial e d...
8Mas quais seriam as motivações para todo este interes-se quanto a ética empresarial? Alguns autores como Cortinae col.5, ...
9a cultura do individualismo, característica damodernidade, é geradora de insatisfações. Como conseqü-ência os indivíduos ...
10A época do grande florescimento da ética nos negóci-os, nos Estados Unidos, ocorre nos anos 80, no entanto épossível enc...
11alimentícios deteriorados provocam a desconfiança do pú-blico. O Institute of Business Ethics (IBE) elabora um mode-lo d...
12O foco de atenção da ética nos negócios, no anos 90,está centrado em como obter e manter a excelência. Dentrodo contexto...
13Antes de mais nada, é preciso distinguir ética econômicae empresarial. O primeiro termo, ética econômica, refere-se aoca...
14A ética não é um valor acrescentado,mas intrínseco da atividadeeconômica e empresarial, pois estaatrai para si uma grand...
15uma vez que a atividade empresarial tem uma funçãosocial que a legitima, a empresa que esquece deste aspectonão logra es...
16Uma organização atua de formaeticamente adequada quandopersegue suas metas e respeita osvalores e os direitos compartido...
17ção é a razão que boa parte deles apresenta para tal compor-tamento, alegando que no trabalho de cada um não há mui-tos ...
18fenômeno da perversidade nas organizações. A burocraciatambém pode constituir fator facilitador da instalação daperversi...
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  1. 1. A ÉTICA NAS ORGANIZAÇÕESA N O 2 – N º 4março2001
  2. 2. Instituto Ethos Reflexão é uma publicaçãodo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social,distribuída gratuitamente aos seus associados.AgradecimentosElma Lourdes Campos Pavone Zoboli, pela autorização ao uso e reprodução do capítulo, “A ética nas organizações”, de suadissertação de mestrado A interface entre a ética e a administração hospitalar, páginas 58 a 82.Relevo Araujo Pre Press, pelos fotolitos desta edição.Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade SocialRua Francisco Leitão, 469 – 14º andar – Conj. 140705414-020 – São Paulo – SPTel./Fax: 11 - 3068.8539e-mail: ethos@ethos.org.brvisite o nosso site: www.ethos.org.br
  3. 3. Nesta edição de Instituto Ethos Reflexão, entramos no segundo anoda publicação, que foi idealizada com o propósito de estimular o espírito críticonas organizações, motivando as empresas a refletir sobre a forma comoestão gerindo seus negócios.O Instituto Ethos sempre defendeu que incorporar a cultura da responsabilidade socialé um caminho que deve ser construído diariamente, por meio de mobilização,engajamento, parcerias entre os diversos atores sociais, troca de informaçõese a implementação de ações práticas.Cada vez mais, a responsabilidade social e a ética vêm mobilizando um número maiorde atores da sociedade. Um exemplo dessa constatação na área acadêmicaé a tese de mestrado de Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli, A interface entre aética e a administração hospitalar, apresentada ao Departamento de Prática emSaúde Pública da Universidade de São Paulo em 1999.Dentre os aspectos específicos da área de saúde que compõem a obra, o capítulo“A ética nas organizações”, o qual estamos publicando neste número, faz umimportante resgate desse tema tão discutido atualmente pelas empresas e que deve servirde reflexão para qualquer tipo de organização. Resultado de um minuciosotrabalho de pesquisa, a autora constrói uma dissertação fluente, respaldada pordiversos estudiosos do tema e traz à tona inúmeras referências importantespara ampliar a sua compreensão.Esta leitura é mais um incentivo para as empresas que estão descobrindo que geriro negócio com base nos preceitos da ética e da responsabilidade social é o caminho paraa sua sustentabilidade, o sucesso empresarial e para a construçãode uma sociedade mais próspera e mais justa.APRESENTAÇÃO
  4. 4. 5A essencialidade das organizações na vida pessoas levaalguns expertos a considerarem que os tempos atuais confi-guram uma “época managerial” e a sociedade hodierna con-forma uma “sociedade de organizações”, cujo paradigma é aempresa. Esta concepção ganha tal força que a transforma-ção das organizações, com a empresa desempenhando umpapel de exemplo ou modelo, é vista como o caminho paraa melhoria da humanidade. A empresa é compreendidacomo um motor para a renovação social e todas as organiza-ções e os que nelas trabalham devem buscar aprender daética empresarial o modo de atuação exigido a fim de quepossam sobreviver, crescer e superar-se, evitando os defeitosanteriores e propondo valores adequados a esta reconsti-tuição proposta5. Disto também decorre o uso indistinto dostermos ética organizacional ou nas organizações; ética em-presarial ou nas empresas e ética nos negócios. No Brasil,registra-se uma preferência pelo uso das expressões ética nasorganizações ou organizacional e ética nos negócios, prova-velmente pela mencionada influência do idioma inglês queutiliza business ethics e organizational ethics.Cabe ressaltar que embora no presente trabalho a refle-xão restrinja-se ao âmbito organizacional, não se desconheceo fato de que a ética empresarial ocorre no contexto da éticasocial e que também tem peso a ética pessoal de cada mem-bro da organização. Pode-se dizer que a ética organizacionalrepresenta a confluência de uma mobilização de cidadania ede uma opção da consciência individual. Desde suas origensna Antiga Grécia a ética convida a forjar-se um bom caráterque leve a boas escolhas. O caráter que uma pessoa tem édecisivo para sua vida, pois, ainda que os fatores externoscondicionem em um sentido ou outro o caráter, se a pessoa oassumir, é o centro último da decisão, pois a ética é uma prá-A ÉTICA NAS ORGANIZAÇÕES *INTRODUÇÃOtica irrenunciavelmente individual, intransferível e íntima.Porém, é oportuno lembrar que as organizações com seusvalores influenciam neste processo decisório podendo facili-tar as boas escolhas ou torná-las um ato heróico de quem as-sim queira agir, pois a ética pessoal assinala que existem situa-ções nas quais é necessário confrontar o grupo ou a comuni-dade a que se pertence e atuar de maneira determinada semimportar-se com os interesses afetados. Portanto pode-se di-zer que o primeiro sentido da ética é um saber que pretendeorientar as pessoas na forja do caráter5,16,18.A ética social, que acompanha a experiência dopluralismo religioso, político e moral reconhecido como oideal de sociabilidade, consiste em um denominador comumcompartido pela sociedade em meio a esta diversidade. Com-preende a fecundidade da convivência de concepções dis-tintas e defende que cada qual tem direito de tentar levar acabo seu projeto de felicidade sempre que isto não impossi-bilite aos demais também o concretizarem. Ela parte da con-vicção de que cada membro da sociedade é um cidadão ca-paz de tomar decisões como um sujeito ético autônomo.Assim, um dos primeiros valores que compõem a ética socialé o da autonomia ética com seu correspondente político, acidadania. A estes junta-se a igualdade, entendida como aconsecução de iguais oportunidades para todos desenvolve-rem suas capacidades, corrigidas as desigualdades naturais esociais e eliminada a dominação de uns pelos outros já quetodos são iguais enquanto autônomos e capacitados para acidadania. Estes valores da ética social servem de guia paraas ações, mas para que eles sejam encarnados na vida daspessoas e das instituições é necessário concretizá-los e os di-reitos humanos, em suas distintas gerações, podem ser con-siderados como tal5.
  5. 5. 6A pluralidade também exige como componentes daética social a tolerância e o diálogo. O primeiro vai além deseu sentido passivo isto é, uma inclinação a não imiscuir-senos projetos alheios por simples comodidade, mas abraçaum sentido ativo, a predisposição em respeitá-los porquepodem ter um valor mesmo que não compartido por todos.O diálogo é uma atitude que considera cada um como serautônomo igualmente capaz de dialogar sobre as questõesque afetam sua vida e que se dispõe, por solidariedade, aincluir os interesses de cada um na tomada de decisões. Aúnica maneira de cada qual se fazer compreender é nestaatitude de diálogo na qual se fala e se pergunta5,9.Para o desenho de uma ética nas organizações faz-senecessário:• determinarofimespecíficodaatividadeorganizacionalque é responsável por sua legitimação social;• averiguar os meios adequados e os valores a serem in-corporados no desempenho desta atividade específica;• indagar pelos hábitos a ser adquiridos e ir forjandoum caráter que permita deliberar e tomar decisõesacertadas em relação às metas;• discernir que relação deve ocorrer entre as ativida-des e as organizações;• identificar quais são os valores éticos da sociedadena qual está inserida a organização e quais os direi-tos que essa sociedade reconhece às pessoas5.Feitas estas breves delimitações iniciais passa-se à ques-tão específica da ética empresarial. Os motivos para oflorescimento da preocupação ou interesse com a ética nasempresas e nas organizações de maneira geral inicia estadiscussão que segue com os aspectos históricos e umaconceituação.
  6. 6. 7MOTIVAÇÕES PARA O INTERESSE EM ÉTICA ORGANIZACIONALUltimamente, o interesse ou a preocupação com a éti-ca empresarial e de seus dirigentes e empregados, tem cres-cido, sendo alvo da mídia e da literatura sobre administra-ção. Já se encontram, nos jornais, anúncios selecionandosupervisores ou consultores éticos, sinal de que a empresaestá incluindo a preocupação com a ética formalmente emsua estrutura organizacional.Possivelmente o domínio do movimento positivistadurante a metade do século passado e início do século XX,convencendo a todos que os saberes científicos e técnicosA pesquisa deste best-seller demonstra que uma aborda-gem inteligente acerca de organizações deve abarcar, obrigato-riamente, como interdependentes pelo menos sete variáveis:• a estrutura;• a estratégia;• as pessoas (a equipe);• o estilo de direção;• os sistemas e os procedimentos;• os conceitos que servem como guias para as ações;• os valores compartilhados no bojo da culturaorganizacional;deveriam se ater, ao que chamouseu fundador Augusto Comte, de“regime dos fatos”, relegando aum segundo plano os valores, te-nha determinado a ausência des-tes, na teoria empresarial clássica.Isto, segundo alguns autores, po-deria explicar porque resolverproblemas éticos em administra-ção apresenta-se como uma ques-tão tão complexa6,11.No entanto, o best-seller de au-toria de Peters e Waterman15, InSearch of Excellence, através de uma pesquisa junto a empresasnorte-americanas bem sucedidas, desfaz este mito ou tradi-ção, mostrando que, tudo que os administradores vinhamdesprezando como intratável, irracional, intuitivo e aspec-tos informais da organização, pode ser manejado na buscada excelência. As abordagens quantitativas e racionalistas daadministração resultam incapazes de explicitar o que as com-panhias, tidas como excelentes, aprenderam, pois, é prová-vel que elas tenham alcançado a excelência devido a atribu-tos culturais que as distinguem das concorrentes no mesmoramo de negócios15.• as forças e as habilidades, presen-tes e esperadas, da corporação.Estas variáveis formam o quefoi chamado 7-S**Framework (Figu-ra 1), numa tentativa de torná-lasde mais fácil explicação, compreen-são e incorporação pelos dirigen-tes15.Os atributos que emergemcomo os mais característicos da ex-celência, nesta pesquisa são:• preferência para a ação;• proximidade do consumidor;• autonomia e espírito empreendedor;• produtividade através das pessoas;• orientação pelos valores;• circunscrição ao negócio que a organização conhe-ce melhor;• forma simples e staff enxuto;• clima, no qual há dedicação para os valores centraisda companhia, combinado com a tolerância paracom os empregados que os aceitam15.Figura 1 - As variáveis interdependentes na organização (7-S Framework)Adaptado de Peters TJ, Waterman RH. In search of excellence. Lessonsfrom America’s best-run companies. New York: Warner; 1984.**das iniciais das palavras em inglês structure, systems, style, staff, skills, strategy, shared values
  7. 7. 8Mas quais seriam as motivações para todo este interes-se quanto a ética empresarial? Alguns autores como Cortinae col.5, Srour18e Gómez10destacam dentre as razões de todoeste movimento:a urgência de recuperar a credibilidade na empresa.Escândalos como Watergate fazem com que a confiança vol-te a ser um valor no mundo empresarial, o que em realidadenunca havia deixado de ser, assim ela reassume a sua posi-ção como tal;a empresa que busca somente os resultados ou as van-tagens imediatas é suicida, a responsabilidade a largo prazoé uma necessidade de sobrevivência e neste aspecto a éticaconstitui um fator importante para os ganhos. Por si só, aética não é condição para um bom negócio, mas o propicia;uma mudança na concepção de empresa, de um terre-no de homens sem escrúpulos movidos pela ganância e lucroem direção a uma instituição socioeconômica que tem umabilidades neste âmbito, ela está obrigada a tomar decisões comimplicações éticas. A ética não é só individual, mas corporativae comunitária. Assim, no mundo empresarial começa-se a es-clarecer que não só os indivíduos são eticamente responsá-veis, também o devem ser as empresas. Portanto, faz-se neces-sária e urgente uma ética das empresas, que começam a preo-cupar-se com o tipo de formação que dão a seus membrosespecialmente a seus dirigentes;as organizações, nos países pós capitalistas, são a célu-la do tecido social e a sua transformação está sendo conside-rada essencial no processo de construir uma sociedade maisinclusiva. Frente às velhas e anquilosadas organizações pro-põe-se novas livres dos defeitos anteriores e com os valoresadequados à esperada renovação, o que confere à ética daempresa um lugar de destaque;na ética das empresas vai se mostrando indispensávela capacidade gerencial e, conseqüentemente, a figura doexecutivo que pouco a pouco vai se tornando um persona-responsabilidade ética para com a so-ciedade (os consumidores, os acionis-tas, os empregados e os provedores).Nesteaspecto,Bernardo1defendequecada dia é mais vigente uma concei-tuaçãoantropológicadeempresa,queparte do entendimento da pessoa hu-mana como autora, centro e fim detoda atividade econômico-social. Estaconceituação concebe a empresacomo um grupo social constituído porpessoas livres que organizadas, hierár-quica e profissionalmente, cooperamdediversasformascomosujeitosdedi-reitoscombaseemcontratoslivremen-te tratados e com a finalidade comumde produzir bens ou serviços para intercâmbio econômico.Em outras palavras pode-se dizer que uma vez que a empresa,enquanto uma organização social, deve dar conta de funçõesque a sociedade dela espera e exige assumindo suas responsa-prescindível a compreensão das finalidades da organização.Neste sentido, a educação e a preocupação com um atuareticamente correto deverão formar parte do desenvolvimen-to da organização;A empresa que busca somenteos resultados ou as vantagensimediatas é suicida,a responsabilidade a largo prazoé uma necessidade de sobrevivênciae neste aspecto a ética constituium fator importante para osganhos. Por si só, a ética nãoé condição para um bom negócio,mas o propiciagem central do mundo social atual.O gestor é uma pessoa com claros ob-jetivos que se propõe a alcançá-losatravés do desenvolvimento de gran-de habilidade para imaginar e criarmeios que permitam isto. De com-portamento pró-ativo, criativo e comcapacidade inovadora não se pren-de a soluções já conhecidas, mas cominstinto de adaptação imagina possi-bilidades e estratégias novas, sempreno marco da negociação, menos cus-toso que o do conflito;para o entendimento dos pro-cessos de tomada de decisão é im-
  8. 8. 9a cultura do individualismo, característica damodernidade, é geradora de insatisfações. Como conseqü-ência os indivíduos buscam se integrar a uma comunidadeou corporação para recuperar seu “eu concreto”. Os sereshumanos tornam-se pessoas dentro de comunidades concre-tas, nas quais aprendem os valores éticos que vão seguir de-fendendo. A empresa pode ser entendida como uma comu-nidade que propõe a seus membros uma identidade, umsentido de pertença, valores a compartir, uma tarefa comum,um bem comum não distinto do bem de cada um dos seusintegrantes e, até mesmo, um sentido de excelência que o“universalismo individualista” é incapaz de considerar. Estaé a cultura das organizações que, começando pela família econtinuando através dos demais grupos humanos que cadacontribui para a boa imagem da empresa, pois nenhu-ma das grandes e excelentes companhias distingue-se pelafalta de princípios éticos, mas pela qualidade do produtoque colocam à disposição do mercado. As empresas têm umaimagem a resguardar, patrimônio essencial para a continui-dade do próprio negócio. A imagem da empresa não podeser vilipendiada ou reduzida à simples peça publicitária umavez que ela representa um ativo econômico sensível àcredibilidade que inspira. A dimensão ética é uma parte de-cisiva dentro do conceito de qualidade que a empresa apre-senta à sociedade.Resta, dentre as motivações para a preocupação coma ética nas empresas, levantar a questão do modismo.A imagem da empresa não podeser vilipendiada ou reduzidaà simples peça publicitária umavez que ela representa um ativoeconômico sensível à credibilidadeque inspira. A dimensão éticaé uma parte decisiva dentrodo conceito de qualidade quea empresa apresenta à sociedaderisca seu posto de trabalho. Assim, outra razão pela qual fala-se de ética nas empresas é a situação de insegurança eintranqüilidade na qual se encontram muitos diretivos quedevem tomar as decisões exigidas pela empresa, mas sen-tem-se, segundo sua consciência, como se estivessem agindode maneira eticamente censurável;a insistência na qualidade ética leva, por extensão, àqualidade em sentido mais amplo resultando em maior ren-tabilidade;gida à medida em que se aprofunda a complexidade dotecido social. Estas últimas posições expressam as reais fun-ções e os objetivos da introdução da preocupação com aética no mundo dos negócios. No entanto, a colocação fei-ta pelo primeiro autor traz um aspecto que não pode serdesprezado, há um risco de que a ética nas organizaçõesrevista-se de um caráter de modismo e perca de vista suasfinalidades.indivíduo integra, leva ao resgate dosentido concreto da vida de cada um;as organizações sociais, hoje emdia, reclamam um atuar eticamenteadequado, mas não querem que aspessoas sejam heróis. No entanto, aopertencer a uma empresa, cujo dese-nho e funcionamento põem os resul-tados econômicos a curto prazo adi-ante do respeito dos direitos das pes-soas ou da satisfação da necessidadedos consumidores, tomar decisões eti-camente corretas pode tornar-se umato heróico, no qual o trabalhador ar-Gómez10coloca este ponto comouma das razões para este crescenteflorescimento da ética dos negócios,já Cortina e col.5defende uma outraposição afirmando que a ética em-presarial não consiste nem em umamoda passageira, nem em último in-tento de justificar relações injus-tificáveis, mas em uma nova formade orientar a atividade empresariale o desenho das organizações. Tam-bém segundo Ortiz-Ibarz14, mais queum modismo, a ética nas atividadesempresariais e de qualquer organi-zação é uma necessidade mais exi-
  9. 9. 10A época do grande florescimento da ética nos negóci-os, nos Estados Unidos, ocorre nos anos 80, no entanto épossível encontrar marcos históricos deste assunto anterio-res à década de 70.Em 1940, Rensis Likert publica o livro Moral andManagement. Dez anos mais tarde, o sociólogo Katz publica,na Harvard Bussiness Review, o artigo Los valores personales ylas decisiones. No mesmo periódico, em 1969, KenethAndrews, no artigo Toward Professionalism in BusinessManagement, expõe sua tese de que a direção de negóciosnão pode receber o qualificativo de profissional enquantonão aceitar um código ético independente e que se encon-tre acima do mando máximo da empresa, de tal modo que odiretor deva respeitá-lo de maneira absoluta12.Segundo Llano12, estes autores não representam ummovimento isolado, são conseqüência de uma corrente po-derosa, demonstrada em estudos do sociólogo Wright Mills,que busca reafirmar os valores éticos das “antigas classesmédias dos EUA” que durante mais de 40 anos mantiveram-se na defensiva. E estes valores derivados da tradição cristãincluem a honradez, a laboriosidade, o altruísmo, a mentali-dade cívica, a prática religiosa e o auto - controle ou a disci-plina pessoal.No final dos anos 60, o conceito de ética nos negóciostoma impulso e isto se deve principalmente aos ataques àindústria automotiva e ao desenvolvimento de um movimen-to em defesa dos diretos dos consumidores. Uma onda deescândalos levando ao questionamento da segurança dosprodutos, da proteção do meio ambiente e do comporta-mento dos homens de negócios provoca intensas reações daopinião pública e a ameaça de intervenção por parte do Es-tado. O mundo dos negócios norte-americano descobre anecessidade de uma reflexão acerca das responsabilidadessociais da empresa e dos aspectos éticos do comportamentona área dos negócios. Os meios de comunicação interessam-se pelo assunto e é assim que nos anos 80 vive-se oflorescimento da ética nos negócios12,14.Em 1980, os jesuítas abrem, em Wall Street, um Cen-tro de Reflexão para os banqueiros e os bolsistas católicos.Cinco anos mais tarde, já estão em funcionamento nas esco-las de administração mais de 500 cursos sobre o tema comcerca de 40.000 estudantes. Em Harvard, que recebe umadoação de 23 milhões de dólares do presidente da Securitiesand Exchange Commission (SEC) para financiar pesquisas nes-ta área, a partir do outono de 1988, ética nos negócios ématéria obrigatória para todos os estudantes de administra-ção de empresas. Criam-se, com pauta na lógica casuística,numerosos manuais para o ensino abrangendo conceitosbásicos e soluções práticas . A ética dos negócios converte-seem tema de um best-seller: o autor do Manager Minute,Kenneth Blanchard, publica com Norman Peale, The Powerof Ethical Management. Em 1988, outra obra sobre o tema,Pratical Ethics de Gordon Shea, é publicada e promovida nomeio dos negócios e nas universidades pela AmericanManagement Association (AMA)17.Além das publicações, o tema torna-se objeto de ummercado no qual atuam consultores especializados, como oDeyford Group que propõe um programa de formação. OManaging Ethical Issues aborda desde a definição de ética atéa gestão de problemas cotidianos, como o absenteísmo e asnotas de gastos. Robert C. Solomon, da Universidade doTexas, organiza seminários para executivos de grandes em-presas. Como conseqüência de todo este movimento, maisde 75% das grandes empresas norte-americanas tem um có-digo de conduta e algumas, como o Chase Manhattan e aGeneral Electric, contam com cursos internos de formaçãoe com comitês de ética e de responsabilidade social17.Na Europa, são os ingleses que dão início a este inte-resse pela ética nos negócios. Neste país, também os escân-dalos financeiros e os numerosos problemas de produtosASPECTOS HISTÓRICOS
  10. 10. 11alimentícios deteriorados provocam a desconfiança do pú-blico. O Institute of Business Ethics (IBE) elabora um mode-lo de código de ética a ser explicado e difundido, pelosdiretivos, a todas as partes implicadas desde os emprega-dos até os acionistas. Recomenda-se que cada empresa de-cida sobre a inclusão do código no contrato de trabalho, asua aplicação em todas as filiais incluindo aquelas fora dopaís e as sanções para o desrespeito das normas nele conti-das. O King’s College de Londres conta com um centro deinvestigações sobre ética nos negócios e mantém cátedrasespecializadas nas universidades. A Christian Association ofBusiness Executives (CABE) publica, em 1983, um código deética nos negócios. O Journal of Business Ethics tem um gran-de número de assinantes17.Em novembro de 1987, em Bruxelas, é criada a EuropeanBusiness Ethics Network (EBEN) com o objetivo proporcionarum espaço para o debate e o intercâmbio entre os responsá-veis por empresas e estudantes de administração17.Na França, a quebra da bolsa de valores de 1987 im-pulsiona o florescimento da ética dos negócios. Nesta oca-sião, o Instituto La-Boétie publica a obra de Michael Novak,com temas de ética econômica e dos valores da economia demercado, e promove estudos acerca dos princípios éticos im-plicados na direção e nas instituições. Na primavera de 1988,um jantar que debate o tema El hombre de negocios y la santidad,promovido pela Associação Francesa de Ex-alunos daHarvard Business School, conta com a sala lotada. Um pou-co mais tarde, o Centro de Jovens Dirigentes escolhe a éticacomo o tema do congresso que comemora seucinqüentenário. Entre 1989 e 1990, o Instituto da Empresareúne diversas associações para uma reflexão acerca dos pro-blemas éticos17.Quanto ao ensino da ética nos negócios na Europa, têm-se a cátedra na London School of Economics e na University ofNottingham, Grã-Bretanha, na Universidade de Erlangen-Nuremberg, Alemanha, na Universidade de Saint-Gall, Suíça,na The Netherlands School of Business, Holanda e na Escola Su-perior de Comércio de Lyon, França17.Para o Brasil, não há uma literatura disponível que per-mita traçar o desenvolvimento histórico e o atual estado emque se encontra o interesse pela ética nos negócios. No entan-to, cabe destacar que a Escola de Administração de Empresasde São Paulo da Fundação Getúlio Vargas conta com um Cen-tro de Ética nos Negócios que, no início do segundo semestrede 1998, promove I Congresso de Negócios, Economia e Éticana América. Neste sentido, também faz-se oportuno evidenciarafirmação de Srour18considerando que a maioria dos empre-sários brasileiros ainda confunde ética e legalidade pensandoque “para ser ético, basta não ser pego”. Isto parece colocar opaís em posição distinta da descrita no cenário mundial.Durante estes marcos históricos observa-se uma mudan-ça nos tópicos que merecem a atenção nas discussões. Osacordos sobre preços e a desumanização da força de traba-lho configuram as duas grandes preocupações dos anos 5013.Frente a indignação de todos com a agressividade mili-tar e a política do complexo industrial militar originada pelaGuerra do Vietnã, nos anos 60, a ética empresarial volta suaatenção para a destruição ambiental13.Os códigos corporativos de conduta marcam a discus-são ética dos anos 70. Isto ocorre em resposta aos escândalosinternacionais, como Watergate e em conseqüência dos mo-vimentos em defesa dos direitos dos consumidores em fran-co crescimento. Estes códigos voltam-se contra as práticasdanosas e/ou enganosas nas propagandas, embalagens erotulagens dos produtos13.Duas fases dividem os anos 80. Na primeira metade des-ta década, a ética nas empresas é caracterizada pela preocu-pação com a responsabilidade institucional. Na segunda, acapacidade moral dos indivíduos ganha destaque. Os valo-res pessoais de um administrador tornam-se uma questãoessencial para a empresa. Em uma pesquisa realizada em 1989pela Korn/Ferry e pela Columbia University Graduate School ofBusiness, com mais de 1.500 executivos de 20 países, a éticapessoal é classificada como a característica primordial parao presidente da empresa ideal no ano 200013.
  11. 11. 12O foco de atenção da ética nos negócios, no anos 90,está centrado em como obter e manter a excelência. Dentrodo contexto competitivo e das grandes mudanças, caracte-rístico da maior parte dos setores da atividade empresarial,do mundo empreendedor e de superar dificuldades enfren-tadas que, segundo Cortina e col.5encontram-se especial-mente em dois fatos:a) a desconfiança, por parte do próprio empresariado,As questões éticas básicas devemfazer parte do cálculo para a soluçãodos problemas enfrentados nocotidiano gerencial de umaorganização, pois quem decide fazescolhas entre diferentes cursos deação e deflagra conseqüênciasbusca-se um conjunto de premissasgerenciais que estimulem a integrida-de pessoal e possibilitem fazer frenteao mercado econômico. Ganha evi-dência a idéia de que os administra-dores tomam decisões com implica-ções éticas, pois a maioria das ativi-dades empresariais têm impacto so-bre outras pessoas além daquelas di-retamente envolvidas, ficando assimsujeitas a uma avaliação das conseqü-ências de benefício ou malefício ori-ginadas para todas as contrapartes. As questões éticas bási-cas devem fazer parte do cálculo para a solução dos proble-mas enfrentados no cotidiano gerencial de uma organiza-ção, pois quem decide faz escolhas entre diferentes cursosde ação e deflagra conseqüências13,18.Apesar de sua breve trajetória, a ética no mundo dosnegócios tem apresentado mudanças, provavelmente em con-seqüência da tentativa de acompanhar o dinamismo próprioquanto à ética suscitando arrai-gadas predisposições, como:• quem quer fazer bons negóciostem que deixar a ética na porta daempresa;• o negócio é o negócio, e a missãoda empresa consiste em maximizarbenefícios, assim não há valor su-perior à conta dos resultados;• a empresa deve preocupar-se emganhar dinheiro, deixando asquestões sociais para os mecanismos do mercado e os po-deres públicos.b) o questionamento que se faz frente aos reclames dasociedade por uma maior ética nos negócios: está real-mente aludindo a uma necessidade que ela sente ousimplesmente tranqüilizando a sua consciência com aaparência de que a ética é fundamental na empresa, aexemplo da política ou das informações?
  12. 12. 13Antes de mais nada, é preciso distinguir ética econômicae empresarial. O primeiro termo, ética econômica, refere-se aocampo geral das relações entre economia e ética ou, especifica-mente, à reflexão ética acerca dos sistemas econômicos5.A ética empresarial ou dos negócios, centra-se, princi-palmente, na concepção da empresa enquanto organizaçãoeconômica e instituição social ou seja, um tipo de organiza-ção que desenvolve uma atividade que lhe é peculiar e naqual resulta fundamental a função diretiva e o processo detomada de decisões5.Para definir ética empresarial Cortina e col.5destacamvárias correntes de pensamento com caracterizações distintas:a) enquanto processo de decisão: nesta corrente, está M.T.Brown, que entende por ética o processo de decidir oque se deve fazer. A reflexão ética é vista como a análi-se da argumentação que permite tomar decisões me-lhor justificadas e chegar a consensos. Parte-se da con-cepção das organizações como agentes éticos que po-dem escolher, dentre diversos, um curso de ação5.b) enquanto preocupação às relações externas e internas:nesta linha, a ética dos negócios é vista como aquelaque concerne às relações externas das empresas ou dosprofissionais independentes com os clientes, com osprovedores e com o poder público e às relações inter-nas entre as pessoas na empresa, incluindo os dirigen-tes. Esta relação opta sempre por um modelo de coo-peração em lugar do conflitivo, ganhando sentido oscódigos de conduta. Em uma empresa, o código de éticae uma política de normas de conduta constituem mei-os excelentes para comunicar seus propósitos e exporos valores e convicções de sua liderança. Porém quan-do os executivos baseiam-se demais em regras e pa-drões, é provável que acabem se escondendo atrás deum código de ética e acreditando que para ser éticobasta não violarem as regras, assim o papel dos ideais edo julgamento profissional pode ser perdido2,3,5.c) enquanto ramo da ética: em uma primeira fase, estavertente defende a ética empresarial como um ramoda ética que trata de aplicar princípios éticos aos negó-cios. Em uma segunda fase, passa-se ao entendimentode que as organizações têm obrigações sociais que vãoalém das econômicas. Quando a responsabilidade so-cial das organizações passa a ser alvo de uma visão maisobjetiva, que busca compreender as suas finalidadescomo a chave para o processo de decisão, constitui-sea terceira fase desta corrente de pensamentos5.d) enquanto inserida no contexto de uma ética das insti-tuições: para esta corrente que engloba as demais, S.García Echevarría citado por Cortina e col.5destacaalguns elementos:• a empresa é, primeiramente, um sistema de valorescom potencialidades que podem aflorar na culturaorganizacional;• as empresas, como instituições, devem definir suasfinalidades a partir dos valores que as identificam;• a ética constitui uma exigência dos sistemas abertose desregulados, pois os seres humanos necessitamde normas de comportamento baseadas nos valoresda organização empresarial;• o ético é rentável, pois possibilita uma identificaçãocom a organização e conseqüentemente uma moti-vação eficiente;• a cultura própria da empresa permite a sua diferen-ciação frente aos competidores;• a clara concepção do papel do diretivo, que deveidentificar-se com a organização e ter capacidade ehabilidade para integrar pessoas humanas.CONCEITUAÇÃO
  13. 13. 14A ética não é um valor acrescentado,mas intrínseco da atividadeeconômica e empresarial, pois estaatrai para si uma grandequantidade de fatores humanos e osseres humanos conferem ao querealizam, inevitavelmente, umadimensão ética. A empresa,enquanto instituição capaz de tomardecisões e como conjunto de relaçõeshumanas com uma finalidadedeterminada, já tem desde seu iníciouma dimensão éticaPortanto, a ética empresarial ou organizacional podeser entendida como o descobrimento e a aplicação dos valo-res e normas compartidos pela sociedade no âmbito da em-presa ou organização, especificamente, no processo de to-mada de decisões a fim de aumentar sua qualidade5,11.Sua tarefa principal, consiste em elucidar o sentidoe fim da atividade empresarial e propor orientações e va-lores éticos específicos para alcançá-los. As decisões con-cretas ficam nas mãos dos sujeitos que são responsáveispor elas e, portanto não podem tomá-las sem consideraro fim que se persegue, os valores éticos orientadores, aconsciência ética socialmente alcançada e os contextos econseqüências de cada decisão5. Srour18considera que aintrodução da reflexão ética nas or-ganizações ajuda a diminuir aindefinição que por vezes cerca al-gumas situações:“(....) a introdução da reflexãoética nas organizações serve paraelucidar as questões que suscitam po-lêmicas ou controvérsias morais, semo quê, corre-se o risco de patinar naindefinição e de estimular abusospor parte do corpo funcional. Ao re-vés, se houver respostas consistentesaos dilemas, a nervura central da cul-tura organizacional será consolida-da, porque tais respostas transfor-mam-se em orientações emblemá-ticas; dizem o que justo e injusto, cer-to e errado, lícito e ilícito; esclare-cem o que se espera dos funcionári-os e dos dirigentes; demarcam os padrões culturais valida-dos pela organização; anunciam o que será recompensadoe inibem possíveis racionalizações individuais, ao formularproibições e licenças.”18(p.307)A ética não é um valor acrescentado, mas intrínseco daatividade econômica e empresarial, pois esta atrai para si umagrande quantidade de fatores humanos e os seres humanosconferem ao que realizam, inevitavelmente, uma dimensão éti-ca. A empresa, enquanto instituição capaz de tomar decisões ecomo conjunto de relações humanas com uma finalidade de-terminada, já tem desde seu início uma dimensão ética5,14.Uma ética empresarial não consiste somente no conhe-cimento da ética, mas na sua prática. E este praticar concre-tiza-se no campo comum da atuação diária e não apenas emocasiões principais ou excepcionais geradoras de conflitosde consciência. Ser ético não significa conduzir-se eticamentequando for conveniente, mas o tempo todo2,10. Neste senti-do, Srour18advoga que é indispensá-vel a adoção de uma abordagem éti-ca coerente com os valores nuclearesda cultura organizacional, não bastan-do exortações ou ações pedagógicas,pois há muitos fatores em jogo, comoos apelos do consumismo, do enri-quecimento rápido, o ambiente de in-certezas, o desemprego estrutural eas pressões para obtenção do sucessopessoal que, dissolvendo as convic-ções, estimulam uma postura de ego-ísmo ao gosto do “eu-primeiro” e do“salve-se quem puder.Como características da éticaempresarial, Cortina e col.5assinalam:não é uma ética de convicção,mas sim de responsabilidade pelasconseqüências das decisões tomadas***. No entanto, deve-seevitar extremos, pois aquele que pauta seu agir puramentepela ética da responsabilidade, sem convicções, pode trans-formar-se em um frio calculador de conseqüências;***Entende-se por ética de convicção a que prescreve ou proíbe determinadas ações, incondicionalmente, como boas ou más em si, sem levar em conta as condições em que devemrealizar-se ou omitir-se ou, ainda, sem considerar as conseqüências que podem advir de sua realização ou omissão. E por ética da responsabilidade, a que ordena ponderar asconseqüências previsíveis das próprias decisões ou das circunstâncias em que ocorrem5.
  14. 14. 15uma vez que a atividade empresarial tem uma funçãosocial que a legitima, a empresa que esquece deste aspectonão logra esta legitimação. Desta forma, os consumidoressão interlocutores válidos e constitui-se uma exigência paraa ética da empresa ter em conta seus interesses através demecanismos de participação efetiva;os membros da empresa também são interlocutores vá-lidos, cujos direitos devem ser respeitadosos membros da empresa devem cumprir com suas obri-gações e co-responsabilizarem-se pelo andamento de suas ati-vidades, com a cooperação suplantando o conflito e a apatia.Assim, pode-se concluir que uma empresa ou organi-zação que atua de forma eticamente adequada é a que per-segue os objetivos pelos quais existe (satisfazer as necessida-des humanas) e caracteriza-se pela agilidade e iniciativa, pelofomento da cooperação entre seus membros, pela solidarie-dade, pelo “risco racional” (“riesgo razonable”) e pela co-res-ponsabilidade. Mas, tudo isto deve ocorrer dentro do marcoda justiça, sem o que a organização está eticamente incorre-ta. E este marco de justiça ao qual a empresa atual deve ater-se é pós-convencional ou seja, não somente legal, mas sobre-tudo ético5.Na medida em que as atividades das organizações tor-nam-se mais complexas, a função diretiva, na maioria delas,passa a ser desempenhada por um administrador treinadoem um corpo de conhecimento formal que o habilita para afunção. Dentre os instrumentos que este administrador develançar mão, a fim de que a organização produza resultados,destaca-se o uso adequado de incentivos para obter motiva-ção e a liderança essenciais a todas as funções administrati-vas. Ele deve conhecer a motivação humana e saber condu-zir as pessoas, isto é liderá-las4.Cortina e col.5propõe a liderança empresarial como li-derança ética, pois o diretivo converteu-se em um dos persona-gens mais significativos da cultura deste fim do século, não ape-nas pela importância das decisões que toma ou por sua capaci-dade de gestão, mas porque sua liderança ultrapassou os limi-tes da empresa. O administrador desempenha papel decisivopara que a empresa converta-se em um verdadeiro espaço éti-co que decorre de um processo de aprofundamento, esclareci-mentoedeterminaçãodasresponsabilidadesdosmembrosquea compõem. Desta forma, gera-se o êthos da organização quelhe outorga identidade distinta e é dinamizado como âmbitode inovação, de cooperação e de responsabilidade.
  15. 15. 16Uma organização atua de formaeticamente adequada quandopersegue suas metas e respeita osvalores e os direitos compartidos pelasociedade na qual está inseridaCada organização tem uma missão que define todo seusentido. Um delineamento bem preciso da missão serve deconstante alerta acerca da necessidade de olhar-se para forada organização em busca de medidas de sucesso e não so-mente de clientes. Assim, é mais importante definir clara-mente a meta e a finalidade da organização estimulando seusmembros a alcançá-las do que determinar um conjunto denormas e regulamentos. São os fins que conferem sentido àsatividades e as regras só podem ser fixadas se eles forem le-vados em conta5,7.Os empresários “excelentes” indicam que, hoje em dia,tem mais peso a clareza dos fins do que das normas e dosregulamentos. Aqueles que têm luci-dez acerca das finalidades e sabem,partindo delas, ordenar os objetivosintermediários estão mais capacitadosa adaptar-se e/ou criar soluções ino-vadoras frente às mudanças que sur-jam. Ter consciência dos propósitosa serem perseguidos e habituar-se aescolher e agir segundo eles consti-tui um fator imprescindível na configuração de uma éticapessoal e das organizações5.Segundo Drucker7, as organizações sem fins lucrativos,nos EUA, crescem em resultados e em número de voluntári-os envolvidos em suas atividades porque começam seu pla-nejamento pelo desempenho de sua missão, ou seja peloambiente externo, pela comunidade ou os futuros “clien-tes”. As melhores organizações sem fim lucrativos dispen-sam grande atenção à definição de sua missão, evitando de-clarações abrangentes e concentrando-se em objetivos comimplicações claras para o trabalho a ser realizado pelos seusmembros, funcionários e voluntários. O autor defende queisso focaliza a organização na ação, define as estratégias es-pecíficas necessárias na consecução das metas vitais e criaum organização disciplinada.Vale registrar dois exemplos relatados por Drucker7:o primeiro diz respeito à experiência de uma grandecadeia de hospitais católicos localizada no sudoeste dos EUAe retrata como um claro senso da missão e o foco nos resulta-dos podem tornar-se produtivos. A despeito dos cortes nospagamentos do Medicare essa cadeia aumentou suas receitasem 15%, conseguindo, ao mesmo tempo, chegar a um pontode equilíbrio e elevar os padrões de qualidade no atendimen-to ao paciente. E isto deve-se ao fato da diretoria ter compre-endido que o negócio de sua equipe é prestação de cuidadosà saúde, sobretudo aos mais pobres e não a direção de hospi-tais. Quando, por razões médicas, a assistência médico-sanitá-riacomeçaatransferir-separaforadoshospitais, a cadeia promove esta ten-dência ao invés de lutar contra ela.Abre, dentre outros serviços, centroscirúrgicosambulatoriais,centrosdere-abilitação, redes de centros radiológi-cos e de laboratórios de análises. Olema da cadeia é: “Se isso é no interes-se do paciente, devemos promovê-lo;nosso trabalho será torná-lo autosustentado”. Esta política en-che os hospitais da rede; as instalações tornam-se tão popula-res que geram um fluxo constante de referências e recomen-dações. A organização alvo deste exemplo parte da missão edaquilo que deveria fazer acontecer fora dos seus limites paramerecer recompensa e legitimação social, não principiandopela recompensa em si.o segundo exemplo refere-se ao fato da maioria dosalunos do programa para executivos de alto e médio nívelno qual o autor leciona servirem no corpo de voluntariadode organizações sem fins lucrativos. Provenientes de umaampla gama de empresas, desde bancos e seguradoras atécompanhias aeroespaciais, eles atuam como voluntários emigrejas, conselhos de faculdades, orquestras sinfônicas, es-coteiros, ACM, Fundo Comunitário, etc. O que chama a aten-OBSTÁCULOS À ÉTICA ORGANIZACIONAL
  16. 16. 17ção é a razão que boa parte deles apresenta para tal compor-tamento, alegando que no trabalho de cada um não há mui-tos desafios, nem realizações ou liberdade de ação suficien-tes e, principalmente, que não existe uma missão, mas ape-nas conveniência.Assim, uma missão organizacional explicitamente de-finida, compartida e respeitada faz com que as pessoas sin-tam orgulho da organização, do que ela representa e conse-qüentemente lutem pela sua integridade. Além disto, sen-tindo-se apreciados, é mais provável que os partícipes daorganização resistam à tentação de se desviarem de condu-tas eticamente corretas2.Uma organização atua de forma eticamente adequadaquando persegue suas metas e respeita os valores e os direitoscompartidos pela sociedade na qual está inserida. No entan-to, no atuar ético não cabe a expressão a qualquer preço, poishá preços que nem as pessoas, nem as organizações podempagar se é que querem agir de maneira, além de prudente,também justa. Para assegurar o bem comum deve-se observarprocedimentos idôneos. As empresas nas quais a transparên-cia do processo decisório não é comprometida, colocada delado ou minimizada com vistas à obtenção de resultados al-mejados constituem palco de boas práticas éticas1,2,5,10.A impaciência e a pressa para chegar aos objetivos emetas constituem fatores para a negligência no trato dasquestões éticas dentro das organizações. Isto pode por emrisco a satisfação dos clientes e dos empregados, iniciandoum ciclo negativo que termina por afetar os resultados2.Etklin8chama este desvio da missão organizacional, es-pecialmente em seu aspecto social, de perversidade. Em ou-tras palavras, a perversidade ocorre quando uma organiza-ção, através das ações de seus participantes, afasta-se de suarazão de ser, do que é esperado para o seu tipo de atividade.Ao isolar-se das necessidades e demandas sociais, a organiza-ção deixa cair no esquecimento a causa primeira de sua exis-tência e mina a motivação de seus integrantes. Como exem-plo, dentre outros, o autor refere-se a um hospital que seapresenta com a missão social específica de curar e na práti-ca, como um desvio na direção oposta ou um distanciamentodesta missão organizacional, só cura quando se trata de umnegócio viável ou rentável.Os sistemas perversos ou também chamados de duplamoral fazem alusão à corrupção social que provoca a mudan-ça arbitrária de valores de acordo com as circunstâncias e asconveniências dos envolvidos. Desta forma, pode-se dizer quea perversidade sustenta-se conceitualmente em um definiçãoque requer contextualização. O invariável é a coexistência derequerimentos contraditórios, como a possibilidade de ser,simultaneamente, juiz e parte em um processo8.Falar de perversidade significa referir-se a modelos derelação e formas de pensar passíveis de ocorrer em qualquergrupo social. A perversidade emerge de uma relação marcadapela assimetria e desigualdade e é plasmada por umaracionalidade destrutiva. As vítimas são submetidas a regrasinjustas que não controlam, mas que lhe causam danos. Aperversidade implica que os envolvidos incorporem em suasrelações um esquema explicativo que torne admissível oujustificável a desigualdade, podendo chegar a considerá-lanormal ou mesmo a não distingui-la. Por isto é relativamen-te comum que os protagonistas de relações permeadas pelaperversidade não admitam que em sua forma de agir existaalgo de desvio ou destruição. Alegam tratar-se de alternati-vas escolhidas a fim de conseguirem seus fins pessoais den-tro dos grupos ou organizações às quais pertencem. Muitasvezes, o que é eticamente incorreto aparece sob o rótulo deadaptação ao meio. Desta forma, é bem comum as pessoasnão se sentirem responsáveis pelas conseqüências negativasque causam aos outros8.Os desvios e as deformações podem restringir-se a pon-tos específicos da organização, mas é possível que se esten-dam propiciando condutas antes não aceitas e revestindo deambigüidade a definição da missão organizacional. Brechasno controle social, como a falta de sanções e punições e adissuasão ou a supressão deste através de meios indefensáveis,como a corrupção e a intimidação facilitam a ocorrência do
  17. 17. 18fenômeno da perversidade nas organizações. A burocraciatambém pode constituir fator facilitador da instalação daperversidade quando consome uma parte exagerada dosmateriais, da energia e dos recursos a ponto de suplantar oque é gasto na geração dos serviços ou dos produtos tidoscomo os característicos da atividade organizacional8.Frente a este risco da perversidade, é necessário que asdiferentes organizações, tendo patente o sentido da ativida-de que lhes é característica, reflitam sobre quais os bens in-ternos a esta atividade e os meios adequados para atuar nes-ta direção. Talvez, seja esta a primeira tarefa de uma éticapara as organizações5.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS1. Bernardo J. Ética de los negocios. Buenos Aires: Macchi; 1993.2. Blanchard K e Peale NV. O poder da administração ética. Trad. de R Jungmann. São Paulo: Record; 1994.3. Chen YSA, Sawyers RB, Williams PF. O novo caminho para a ética. HSM Management 1998; 11: 36-40.4. Chiavenato I. Administração: teoria, processo e prática. 2ª ed. São Paulo: Makron Books; 1994.5. Cortina A, Conill J, Domingo-Moratalla A, García-Marzá VD. Ética de la empresa. 2a ed. Madrid: Trotta; 1996.6. Darr K. Patient-centered ethics for health services manegers. JHHRA. 1993; 16: 197-216.7. Drucker P. Administrando para o futuro. Trad. de N Montingelli Jr. 5ª ed. São Paulo: Pioneira; 1996.8. Etkin JR. La doble moral de las organizaciones. Los sistemas perversos y la corrupción institucionalizada. Madrid: McGraw-Hill; 1993.9. Flower J. A conversation with Peter Drucker, part 1. Being effective: the secret is concentration of the very resources you have where you can make adifference. Healthc Forum J. 1991; 34 (3): 52-57.10. Gómez R. Ética empresarial: teoria e casos. [snt]11. Gracia D. Ejercicio de la medicina y gestión de la salud. Problemas éticos de la gestión sanitaria. [snt] [apostila do Ciclo de Bioética Clínica do I Magísteren Bioética da Universidade do Chile e do Programa Regional de Bioética para a América Latina e Caribe OPAS/OMS]12. Llano C. El empresario y su acción. México: McGraw-Hill; 1990.13. Nash LL. Ética nas empresas: boas intenções à parte. Trad. de KA Roque. São Paulo: Makron Books; 1993.14. Ortiz-Ibarz J. La hora de la ética empresarial. Madrid: McGraw-Hill; 1995.15. Peters TJ, Waterman RH. In search of excellence. Lessons from America’s best-run companies. New York: Warner; 1984.16. Savater F. La dimensión ética de la empresa. Santafé de Bogotá: Siglo del Hombre Editores/Fundación Social; 1998. (Conversaciones)17. Scherrer V. En la jungla de los negocios: por una moral de la empresa. Trad. de ECT Isoard. México: Grijalbo; 1991.18. Srour RH. Poder, cultura e ética nas organizações. Rio de Janeiro: Campus; 1998. A ética nas organizações; p. 269-323.*Texto extraído (e editado) da tese de dissertação de mestrado A interface entre a ética e a administração hospitalar, desenvolvida por Elma Lourdes Campos PavoneZoboli e apresentada ao Departamento de Prática em Saúde Pública da Universidade de São Paulo para obtenção do grau de Mestre, Área de concentração:Serviços de Saúde, em 1999. Orientador: Prof. Dr. Paulo Antonio de Carvalho Fortes.

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