UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA        FACULDADE DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA            CAMPUS DE PRESIDENTE PRUDENTE   Candom...
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Banca ExaminadoraProfessora Doutora Marília CoelhoOrientadoraNota Final: Conceito A. Nota 10.Professor Doutor Raul Borges ...
Dedico este trabalho à minha mãe, ao meupai, à minha irmã Fernanda que tanto meajudou e incentivou nesta empreitada, aosme...
Agradeço minha família, meus amigos: Micheli, Rods, Heide, Thiago, Manoela,Pássaro, Natalias Cano e Dred, Izid, Drinks, Fe...
“Que noite mais funda calunga                                                No porão de um navio negreiro                ...
SumárioI – Introdução .......................................................................................................
I – Introdução        Este trabalho é fruto de uma longa caminhada, na qual se entrecruzam váriasexperiências, dentre as q...
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vezes longe de seus familiares e desprovidos de dignidade, tentavam procurar umconforto pensando na calunga. O além mar, n...
eterna, pois, cometeram o grave pecado de nascerem negros. Segue um depoimentodatado de 1633, que um “bondoso e digníssimo...
efeito mortal para o escravo – eis algumas das características básicas                        da “benevolência” brasileira...
Qualquer religioso em meio a tantos santos se sentiria bem protegido. Pena queestes santos privilegiam um tipo de cor de p...
atitude. A primeira alteração no sistema escravocrata nacional ocorreu em 1850, quandofoi decretada a Lei Eusébio de Queir...
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estupravam as nativas. O resultado deste desamor era o filho bastardo, rejeitado pelo paie pela mãe, que via na criança um...
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através de seus antepassados. A casa, continha uma significância simbólica: liberdade.Ali os negros eram livres para execu...
E o negro foi se afirmando cada vez mais, seja por meio da dança, dacorporalidade, dos instrumentos. Foi no samba que o ne...
V - Candomblé – religiosidade e resistência cultural                                          “Salve Xangô, meu Rei Senhor...
específica, seu iaô (na África - elegun), ocorrendo a possessão. Este Orixá serviatambém para afirmar e abeçoar o Rei, gar...
foram humanos durante algum tempo. Diferentemente das religiões européias oueuropeizadas, onde o sagrado se manifesta por ...
O mundo profano permeia as relações das pessoas religiosas, não hápossibilidade, no caso do candomblé, das pessoas viverem...
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regras específicas, nenhuma pessoa “recebe o orixá” somente ouvindo um ponto de seuorixá, ou permanecendo em um espaço sag...
Foto 1:          Fonte: VERGER, 1981.                                 25
VI – Sincretismo no candomblé                                                      “Vestimenta de caboclo é samambaia” 15 ...
nativa dos indígenas manifesta-se nos terreiros de caboclo, onde o                       culto mistura dois sistemas espir...
VII – Terreiro - território África                                                   “Neste terreiro em festa, entre mil a...
É por meio dos símbolos, dos mitos e dos ritos que o sagrado exerce                        sua função de mediação entre o ...
margem da produção cultural dominante, e, assim, ocultar seu papel                         de agente transformador. (p. 28...
Gardner (1995) identificou inteligências múltiplas em campos distintos, a saber:linguística, lógico-matemática, espacial, ...
Com o intuito de mostrar uma visão diferenciada e alternativa à convencional,buscamos embasar o conhecimento e torná-lo tã...
enfatizando que a interpretação das obras artísticas não é estática, de modo que semprenos deparamos com uma variável, imp...
sido reconhecida a importância de outras etnias na constituição cultural brasileira. Fatoque não é exclusivo do Brasil, po...
revolucionaram a música nos diversos países onde essa presença chegou.” (SALES. In:BARBOSA, 2008, p.185) Daí a relevância ...
Jurema/ Que eu vi o caboclo bradar/ Quiô/ Quiô, quiô, quiô, quiera/                       Sua mata está em festa/ Saravá s...
Fui feita na Bahia/ Num terreiro de Oxum/ Os tambores sagrados/                         Bateram pra mim/ Me banhei com gui...
A cor deste orixá é o branco, por isso a designação “tem sete cores sua cor”, seudia da semana é sexta-feira, em que todos...
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  1. 1. UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA CAMPUS DE PRESIDENTE PRUDENTE Candomblé e Múltiplas Inteligências:Um caminho para valorização da cultura afro-brasileira brasileira PRESIDENTE PRUDENTE Outubro de 2010
  2. 2. UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA FACULDADE DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIA CAMPUS DE PRESIDENTE PRUDENTE Luís Gustavo de Freitas Dias Candomblé e Múltiplas Inteligências:Um caminho para valorização da cultura afro-brasileira brasileira Trabalho de conclusão de curso de bacharelado em Geografia. Orientadora: Professora Doutora Marília Coelho. PRESIDENTE PRUDENTE Outubro de 2010 1
  3. 3. Banca ExaminadoraProfessora Doutora Marília CoelhoOrientadoraNota Final: Conceito A. Nota 10.Professor Doutor Raul Borges GuimarãesNota Final: Conceito A. Nota 10.Professor Doutor Irineu Aliprando Viotto FilhoNota Final: Conceito A. Nota 10. 2
  4. 4. Dedico este trabalho à minha mãe, ao meupai, à minha irmã Fernanda que tanto meajudou e incentivou nesta empreitada, aosmeus amigos e à Mãe D´Água...Odofiaba, Iemanjá! 3
  5. 5. Agradeço minha família, meus amigos: Micheli, Rods, Heide, Thiago, Manoela,Pássaro, Natalias Cano e Dred, Izid, Drinks, Fernanda, Gabriela, Ricardo Carlos -amigo companheiro e Marília Coelho – minha orientadora. 4
  6. 6. “Que noite mais funda calunga No porão de um navio negreiro Que viagem mais longa candonga Ouvindo o batuque das ondas Compasso de um coração de pássaro No fundo do cativeiro É o semba do mundo calunga Batendo samba em meu peito Káwo-kabiesile-káwo-okê-arô-okê Quem me pariu foi o ventre de um navio Quem me ouviu foi o vento no vazio Do ventre escuro de um porão Vou baixar no seu terreiro Êpa raio, machado e trovão Êpa justiça de guerreiro Ê semba ê ê samba ah O batuque das ondas Nas noites mais longas Me ensinou a cantar Dor é o lugar mais fundo É o umbigo do mundo É o fundo do mar No balanço das ondas okê arô Me ensinou a bater seu tambor No escuro porão eu vi o clarão Do giro do mundo Ê céu que cobriu nas noites de frio Minha solidão É oceano sem fim, sem amor, sem irmão Ê káwo quero ser seu tambor Eu faço a lua brilhar o esplendor e clarão Luar de luanda em meu coração Umbigo da cor, abrigo da dor, A primeira umbigada é Massemba Yayá Yayá Massemba é o samba que dá1”1 Yaya Massemba - Roberto Mendes e Capinan. 5
  7. 7. SumárioI – Introdução ............................................................................................................ 07 1.1 – Gênese da desvalorização da cultura afro-brasileira ....................... 07II – Da África ao novo mundo .................................................................................. 08III – Abolição da escravatura .................................................................................... 13IV – Afirmação da cultura negra .............................................................................. 16V – Candomblé – religiosidade e resistência cultural ............................................... 19VI – Sincretismo no candomblé ................................................................................ 26VII – Terreiro - território África ............................................................................... 25VIII – Inteligências Múltiplas em Arte/Educação – Metodologia ............................ 30 8.1 – Inteligência musical ....................................................................... 34 8.2 – Inteligência espacial ....................................................................... 40 8.3 – Inteligência corporal-cinestésica ................................................... 46 8.4 – Inteligência intrapessoal ................................................................ 48 8.5– Inteligência interpessoal ................................................................. 49 8.6 – Inteligência linguística .................................................................. 52 8.7 – Inteligência lógico-matemática ..................................................... 54IX – Avaliação .......................................................................................................... 62X – Espetáculo de teatro como instrumento pedagógico .......................................... 63XI – Considerações finais ......................................................................................... 65XII – Referências bibliográficas ............................................................................... 67 6
  8. 8. I – Introdução Este trabalho é fruto de uma longa caminhada, na qual se entrecruzam váriasexperiências, dentre as quais o projeto de extensão universitária “A afirmação da culturaafricana como parte integrante da cultura brasileira”, iniciado em 2008, desenvolvido naEscola Estadual Arlindo Fantini em Presidente Prudente – SP2. O amadurecimento teórico, bem como a reflexão sobre a temática neledesenvolvida foram determinantes para que alguns aspectos norteadores da pesquisa semodificassem dando origem a uma nova proposta. Assim, o presente trabalho de conclusão do curso de bacharelado em geografiatem como objetivo o ensino da cultura afro-brasileira por meio da arte/educação atreladaa teoria das múltiplas inteligências3, utilizando o teatro como ferramenta dedesenvolvimento e síntese no processo de ensino/aprendizagem. A experiência deutilizar ferramentas metodológicas numa proposta de trabalho prático alternativaspermitiu colocar a geografia em contato direto com elementos produzidos no seio danossa cultura, proporcionando ao educando possibilidades novas de apreensão do tema.Para tanto faremos um apanhado histórico, para melhor situar o educando no tema,ressaltando que o problema da desvalorização cultural afro-brasileira deita raízes nahistória da colonização do nosso país, que foi manchada de sangue, suor e lágrimas. 1.1 – Gênese da desvalorização da cultura afro-brasileira - Com a abolição da escravatura no Brasil, a condição dos negros não mudoumuita coisa, mas, mesmo assim, houve uma luta no plano cultural com o fim de manteros traços tradicionais da cultura africana que foram se inserindo de forma a enriquecer acultura brasileira. Dentre todas as manifestações, destacamos o candomblé, que, comoreligiosidade se difundiu em larga escala e depois, por meio de artistas, se tornou parteconstituinte da cultura brasileira. Tratamos o candomblé, pelo olhar geográfico, pormeio do conceito de território, rugosidade4 e espaço sagrado, auxiliando o educando acompreender de forma dinâmica esta religiosidade, se despindo de preconceitos ediscriminações.2 No ano de 2009 recebeu o prêmio na categoria A no 5º congresso de extensão universitária, realizadoem Águas de Lindóia – SP.3 GARDNER, 1995.4 SANTOS, 2008. 7
  9. 9. Após a exposição da história dos negros no Brasil, é na proposta de HowardGardner acerca das múltiplas inteligências que encontramos ferramentas teóricasnecessárias para dar continuidade ao trabalho. Ao defender a pluralidade da forma deaprendizagem, o autor prioriza outros materiais pedagógicos, bem como: pinturas,vídeos, músicas, artes plásticas, danças, etc. Todos estes materiais são encontrados emelementos da cultura africana, nas celebrações do candomblé, que transcenderam opapel religioso e se encontram largamente difundidos no espaço geográfico – profano.Percebemos que ao trabalhar as múltiplas inteligências nos educandos já estaremosdesenvolvendo o conceito de arte/educação, onde elementos artísticos são utilizadoscomo meios pedagógicos. Para costurar todas as inteligências, transformando o resultado do processo deensino/aprendizagem em uma síntese, utilizamos o teatro, que leva à prática todo oconhecimento adquirido, expondo-o aos olhares de outros, ocasionando umavalorização do educando e, sobretudo, de sua produção.II - Da África ao novo mundo “O negro segura a cabeça com a mão e chora Chora sentindo a falta do rei” 5 Retirar um povo de seu país por meio de formas desumanas, utilizando a teoriade que esse povo, por causa da cor de sua pele, era tido como infiel e por isso mereciaser escravo, é uma forma bruta de imposição cultural do ocidente, não havendofundamento plausível para tal prática. Enquanto os colonizadores só enxergavam lucrose montantes de dinheiro, a população negra, a mercê desses dominadores, é iniciadanum longo e doloroso martírio, marcado pelo sofrimento e degradação, determinadaspopulações se viam a mercê desses gananciosos. Os negros acreditavam em uma terra sagrada que havia depois do oceano:chamada calunga, terra sagrada, representando a barreira entre a vida e a morte, onde sóhavia paz (SLENES, 1999), lá encontrariam o Axé6. Sem compreender porque eramcolocados de forma vil em um porão de navio, com pouca comida, pouca água, muitas5 Nego Tenga – Brilho de beleza, 1990.4 Poder em estado de energia pura (VERGER, 1981). 8
  10. 10. vezes longe de seus familiares e desprovidos de dignidade, tentavam procurar umconforto pensando na calunga. O além mar, não era o das representaçõessimbólico/religiosas, o que esperava por eles era um futuro bem pior, manchado devermelho sangue, de sofrimento e angústia. O grande mal dos séculos se iniciou: aescravidão. Os negros capturados eram de diversas regiões africanas, tribos e castas,algumas até com dialetos diferentes, eram colocados nos “navios negreiros” que: (...) Traziam indistintamente membros das mais diversas tribos; daí uma solidariedade nova, a do sofrimento suportado em comum (...) a escravidão, em seguida, concluía esse trabalho de desterritorialização, disseminando as famílias ao acaso da necessidade agrícola, nas fazendas dispersas. (BASTIDE, 1973, p. 260) Fato que auxiliava na dificuldade de organização de futuras revoltas contra os“senhores”. O geógrafo Milton Santos afirma: “Desterritorialização é, frequentemente,uma outra palavra para significar estranhamento, que é, também, desculturação.” (2008,p. 328) Sendo assim, a desterritorialização está completa, pois, tirou-os da terra que seidentificavam e mantinham sua cultura, e também tirou a mais remota possibilidade deidentificação com o novo lugar, que poderia brotar da relação com entes familiaresqueridos, pois, os negros não eram apenas corpos pecadores sem alma nem sentimento,transportados como peça a servir de escravo, mas pessoas com vida, anseios, portadoresde uma história única e peculiar: Os navios negreiros transportaram através do atlântico, durante mais de trezentos e cinqüenta anos, não apenas o contingente de cativos destinados aos trabalhos de mineração, dos canaviais, das plantações de fumo localizadas no novo mundo, como também sua personalidade, a sua maneira de ser e se comportar, suas crenças. (VERGER, 1981, p. 23) Ao pisar em solo brasileiro, todos os negros eram submetidos a um ritualcatólico de batismo, figurando a sua conversão imediata e aceitação a um dogmareligioso ocidental, totalmente distinto de suas crenças. Há um indiscutível caráter mais ou menos violento nas formas, ás vezes sutis, da agressão espiritual a que era submetida a população africana, a começar pelo batismo ao qual o escravo estava sujeito nos portos[...]Essa igreja (católica) possuiu escravos com fins lucrativos, e constantemente perseguiu e atacou crenças religiosas africanas durante séculos, até os dias atuais. (NASCIMENTO, 1978, p. 101) A Igreja católica, apoiando a colonização do território brasileiro, apoiou tambéma escravidão. Como forma expurgar os pecados desses infelizes condenou-os a servidão 9
  11. 11. eterna, pois, cometeram o grave pecado de nascerem negros. Segue um depoimentodatado de 1633, que um “bondoso e digníssimo” padre proferiu: Deveis dar infinitas graças a Deus por vos ter dado conhecimento de si, e por vos ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e vós viveis como gentios, e vos ter trazido a esta, onde, instruídos na fé, vivais como cristãos e vos salveis. (VIEIRA, apud NASCIMENTO, 1978, p. 52) Demasiada prepotência fazer tais afirmações. Este é o retrato da bandeira queigreja católica carregava na época da escravidão, que tentou suprimir de todas as formasa cultura dos negros em nosso país, entretanto, não se deu conta de que estava lidandocom um povo que trazia consigo uma cultura milenar, com várias gerações de tradição,e que seria ingenuidade pensar que seria fácil apagar da memória dos negros todo opassado e o processo histórico pelo qual passaram. Todas as formas de suprimir a cultura dos africanos foram tomando proporçõescada vez piores, quanto maior era a chegada de negros nos portos brasileiros. Paralelo aesse processo de aculturação, o negro assumiu seu papel na economia, que por sua vezera de simples peça de trabalho, e essa era sua função. O trabalho forçado começou:lavouras, plantações, trabalhos domésticos, subserviência, exploração sexual da mulher.O negro tornou-se escravo, a áfrica ficou cada vez mais distante, a busca pelo calungase tornou eterna. Os abusos de poder tornaram-se cada vez mais usuais, muitas vezesregados a requintes de crueldade. A coroa portuguesa só conseguiu tornar o Brasil umpaís lucrativo por meio da exploração do negro: “A imediata exploração da nova terra seiniciou com o simultâneo aparecimento da raça negra fertilizando o solo brasileiro comsuas lágrimas, seu sangue, seu suor e seu martírio na escravidão.” (NASCIMENTO, p.48) As mulheres foram grupo vítima do desejo dos “senhores”. Alvo fácil deexplorações sexuais e das mais diversas fantasias pitorescas. O que ocorria muitas vezescom o próprio consentimento da esposa, que depois se aproveitava para maltratar e atétorturar a suposta “amante” do marido. Não foram poucos os martírios sofridos pelos negros, o sangue continuoujorrando enquanto durou a escravidão, entretanto o discurso dos “proprietários”brasileiros era díspar dessa realidade, negando, que nas senzalas da escravidão, qualquertipo de mau trato era cometido: Proprietários e mercadores de escravos no Brasil, a despeito das várias alegações em contrário, em realidade submeteram seus escravos africanos ao tratamento mais cruel que se possa imaginar. Deformações físicas resultantes do excesso de trabalho pesado; aleijões corporais conseqüentes de punições e torturas, às vezes de 10
  12. 12. efeito mortal para o escravo – eis algumas das características básicas da “benevolência” brasileira para com a gente africana. (NASCIMENTO, 1978, p. 57) Na América do Norte, a discriminação da população branca para com os negrosera bastante forte e dissimulada, mas a realidade brasileira era bem diferente – diziam os“senhores”. O Brasil carregou por longos anos a bandeira de tolerância e, como opróprio autor externa: “benevolência”, quando seus verdadeiros atos eram bestiais eanimalescos, ao subjugar e até mesmo torturar os cativos, muitas vezes por simplesgosto, gozando do fato de possuir o poder sobre aquele ser, privado de vida. Como ocaso da reabertura de arquivos do “santo oficio” em Lisboa, que denuncia torturascometidas pelo “Mestre” Garcia Dávila Pereira de Aragão, fazendeiro. Segue um doscasos explicitados: “O preto velho Antônio Magro, beirando os 80 anos, cujo suplícioincluiu o ardor de uma manchela de pimentas malaguetas introduzidas em seu corpoatravés de um canudo de pito.” (MOTT. In: REIS, 1988, P. 24) Entre os entes financiadores da escravidão, aliados aos interesses dosfazendeiros e, por conseguinte, conivente com todas as atrocidades cometidas, estava a“santa” igreja católica. Utilizando a religião como forma coercitiva, afirmando atravésaté mesmo de textos bíblicos a escravidão. Com o intuito de apagar completamentetodos os bens simbólicos contidos na memória e na carga cultural que negros traziamconsigo da mãe África. Entretanto, o discurso era o mais belo de todos: a salvação daspobres almas pagãs, a intenção foi estritamente religiosa, porém: “Essa igreja possuiuescravos com fins lucrativos, e constantemente perseguiu e atacou as crenças religiosasafricanas durante séculos, até os dias atuais.” (NASCIMENTO, 1978, p. 101) Pormelhores que possam ter sido os intentos, a realidade mostra a ferida causada, e que nãocicatrizou. Em vista de todo este processo, não seria espantoso saber que os exploradorescolonialistas eram bastante religiosos, afinal, em nome do sagrado que esta instituiçãotanto os auxiliou em seus anseios. Documentos da época do tráfico negreirocomprovam: Passando em revista os nomes dos navios relacionados em diversos documentos, observamos que, até 1800 aproximadamente, todos aqueles dedicados ao tráfico de escravos encontravam-se sob a proteção da Virgem Maria, de Cristo, dos santos e, até mesmo, das almas. (VERGER, 1981, p. 24) 11
  13. 13. Qualquer religioso em meio a tantos santos se sentiria bem protegido. Pena queestes santos privilegiam um tipo de cor de pele. Oram somente pelos ocidentalizados,brancos e aptos à salvação. A brilhante obra de Gilberto Freyre “Casa grande e senzala” (1998), mostra quemuitos dos africanos que aqui chegaram possuíam educação refinada e escreviam numalíngua desconhecidas dos brancos; essa língua era o árabe. Segundo Freyre (1998), a percepção desse refinamento que divergia conforme acasta no país de origem, era o que justamente determinava as funções desenvolvidastanto pelas mulheres , quanto pelos homens, quer na lavoura, quer na casa grande. Colocar o papel imprescindível que a obra de Gilberto Freyre tem, no sentido deproporcionar uma outra leitura do Brasil, ao desmistificar a inferioridade da culturaafricana, colocando-a como parte integrante e importantíssima para a afirmação dagenuína cultura brasileira, fruto da miscigenação de brancos, índios e negros. Já os africanos, em meio a tantos interesses infundados, traziam consigo suacultura submersa junto a seus corpos nas piores condições possíveis, nos naviosnegreiros. Passado incrustado em uma infinidade de costumes e crenças. Dentre ascrenças desta população, estavam as religiões. Entre os negros, existiam grupos quecultuavam diversos deuses, intitulados: Orixás, figurando uma das principais práticasreligiosas do continente africano - o candomblé. No século XVI a igreja católicareprimia de forma severa qualquer outro pensamento religioso que não coincidissemcom os seus, em busca de uma hegemonia, almejando o controle além dos limitesterritoriais - “O uso da pressão política para destruir outros sistemas religiosos se deuatravés da conquista e da extensão de controles políticos, que induziam à conversão pormeio de uma variedade de pressões.” (ROSENDAHL, 1996, p. 62) Ante toda essa carga cultural, nociva aos interesses ocidentais, a igreja e a coroativeram que adotar medidas de genocídio cultural. Os negros eram obrigados aparticipar de rituais católicos, adorarem um só deus e todos os santos. Como forma deburlar a proibição às crenças religiosas africanas, os negros começaram a darcorrespondência africana, aos santos católicos. Santa Barbara passou a ser: Iansã; NossaSenhora: Iemanjá; São Jorge: Ogum. Assim procedendo, os negros conseguiram manterviva sua crença, mesmo diante do genocídio cometido conta eles na época. Com todaforça típica de um povo que já aprendeu a sofrer, mais uma vez, resistiram. Em agosto de 1834, na Inglaterra, foi decretada a abolição completa daescravidão em suas colônias. A pressão era cada vez maior para o Brasil tomar a mesma 12
  14. 14. atitude. A primeira alteração no sistema escravocrata nacional ocorreu em 1850, quandofoi decretada a Lei Eusébio de Queirós, que tornou ilícito o tráfico de escravos. Algunsanos mais tarde, em 1871, entrou em vigor a Lei Visconde do Rio Branco, conhecidatambém como a Lei do Ventre Livre, estabelecendo que filhos de escravos, quenascessem após a promulgação da lei, seriam considerados livres, ficando a cargo dosproprietários de escravos criá-los até os oito anos de idade, após esta data poderiamentregá-los ao estado e receber uma indenização. De que adiantava o filho livre e a mãeescrava? Os senhores cuidavam de que forma das crianças? Em 1855 era a vez dosescravos idosos conseguirem a liberdade, com a promulgação da Lei Saraiva-Cotegipe,mais conhecida como Lei dos Sexagenários, ao completar 65 anos de idade (sesuportassem viver tanto em condições péssimas e de exploração). A pressão continuavapor parte da Inglaterra, principalmente depois de passados 54 anos da abolição inglesa.Em 1888, mais precisamente 13 de maio, oficialmente a escravidão foi abolida noBrasil. Mas, mesmo assim, continuou como forma ilegal de exploração humana.III - Abolição da escravatura “Tava durumindo Cangoma me chamou Disse levanta povo cativeiro acabou” 7 Agora o escravo é livre. Livre pra que? Em uma sociedade totalmente racista,alicerçada nas vigas da escravidão que perdurou por mais de 300 anos. Infelizmente alei não bastou para acabar com todos os males que este sistema brutal causou aosnegros. Restou a África perdida, o não pertencimento ao lugar onde vivem. Jogados àmargem da nossa sociedade, os negros não conseguiam empregos (herança racista dosistema escravocrata), muitas vezes tinham que voltar e trabalhar para os seus antigos“senhores” em condições parecidas com as que viviam anteriormente, e permaneciamnessas fazendas, agora presos por dívidas, pois, tinham que comprar sua comida navenda de propriedade do próprio patrão. Ainda não tinham se findados os sofrimentosdo negro na Brasil. A abolição: Não resolveu o problema fundamental do escravo que era o acesso à propriedade de terra. Este liberto, sem qualificação profissional, em um país essencialmente agrário, não tinha outra alternativa senão7 Domínio Público. 13
  15. 15. transformar-se em trabalhador livre, assalariado ou semi-assalariado dos seus antigos patrões. (ANDRADE, 1983, p. 40) A luta para conseguir se firmar no espaço foi muito grande, entretanto, asoportunidades continuavam escassas. Muitos programas de imigração, após a abolição,se deram no Brasil. Trazendo como mão de obra para setor primário no país: chineses eeuropeus, sem nenhuma preocupação por parte do governo para com a absorção da mãode obra interna – dos negros e tantos outros pobres desempregados no país. Esse fatoevidencia a política de embranquecimento da população, auxiliando um processo deeuropeização e supremacia cultural: “A elite brasileira caminhava agora para definir onegro como um problema racial, um obstáculo a um destino nacional que se desejavamoldado em padrões europeus.” (REIS. In: REIS, p. 88) À sombra de toda essa realidade, o Brasil sempre levantou a bandeira de ser umpaís gozando plena democracia racial. Onde, independente da etnia, somos todosirmãos, tolerantes, com determinada aversão ao racismo, predizendo a gratidão dapopulação africana e afro-descendente para com um povo tão bondoso, que até mesmopermite que o negro comungue de sua cultura superior. Ai daqueles que duvidaremdisso, estarão fadados à repugnância da população que reproduz discursos panfletários,dizendo que o próprio negro é racista. Nascimento (1978) discutiu acerca dessa supostademocracia racial: Devemos compreender “democracia Racial” como significado a metáfora perfeita para designar o racismo estilo brasileiro(...) Da classificação grosseira dos negros como selvagens e inferiores, ao enaltecimento das virtudes da mistura de sangue como tentativa de erradicação da “mancha negra”(...) Monstruosa máquina ironicamente designada “democracia racial” que só concede aos negros um único “privilégio” aquele de se tornarem brancos, por dentro e por fora. A palavra desse imperialismo da brancura, e do capitalismo que lhe é inerente, responde a apelidos bastardos como assimilação, aculturação, miscigenação; mas sabemos que embaixo da superfície teórica permanece intocada a crença da inferioridade do africano e seus descendentes.” (p. 93) Podemos muito bem entender o fato de a miscigenação ser um ato positivo emnosso país, reflexo da diversidade étnica aqui presente, oferecendo-nos a materialidadede quão grande e plural é o nosso território nacional. Sem contar na grande contribuiçãocultural que todas estas etnias ofereceram para a constituição cultural brasileira, emtermos tradicionais e globais. Porém, pensando em termos históricos, o primeiro contatoentre duas etnias se deu de forma arbitrária, portugueses e índios, dando origem ao“caboclo”. Essa “mistura” não aconteceu de forma espontânea, os portugueses 14
  16. 16. estupravam as nativas. O resultado deste desamor era o filho bastardo, rejeitado pelo paie pela mãe, que via na criança um produto de seu sofrimento. Com a chegada dosnegros no Brasil, a exploração sexual mudou de foco, eram nas negras que os“senhores” descarregariam suas vontades sexuais mais sórdidas. Mais uma vez o filhobastardo. Relegado pelo pai e pela mãe. E assim constituímos nossa miscigenação. Amulata (filha de branco com negro) foi cada vez mais sexualizada em nossa sociedade: (...) a existência da mulata significa o “produto” do prévio estupro da mulher africana, a implicação está em que após a brutal violação, a mulata tornou-se só objeto de fornicação, enquanto a mulher negra continuou relegada à sua função original, ou seja, o trabalho compulsório. (NASCIMENTO, 1978, p. 62) Como resultado de todo o processo exposto, os descendentes de africanosseguiram à margem de nossa sociedade, sobrando apenas maus salários, condiçõesprecárias de vida, levando essa população sempre em direção às periferias e favelas,fruto da segregação sócio-espacial, entretanto, não se direcionaram a esses lugares porvontade, mas por não terem condições financeiras de comprar ou alugar uma casa nasáreas habitáveis da cidade, não possuíam instrução suficiente para executar tarefas comum retorno financeiro melhor. Sendo assim um ciclo de discriminação se dá, na escola,na rua, no emprego. Criando uma crescente desvalorização cultural. No campo das artes o negro também era discriminado: “Em 1969, estreava naTV a novela A Cabana do Pai Tomás (...) Sérgio Cardoso era maquiado para quepudesse interpretar o papel do Pai Tomás, negro idoso, fiel e serviçal.” (LIMA;SILVIA; SOUSA; SOUZA, p.174, 2005) Fato que ocorria também no teatro, caraspintadas de preto para figurar negros. No teatro brasileiro demoraram aceitar os afro-descendentes como atores, todavia, quando os englobaram nas montagens cênicas, erapara representar papéis pejorativos, cômicos: Quando um ator ou uma atriz de origem africana tinha a oportunidade de pisar em um palco, era, invariavelmente, para representar um papel exótico, grotesco ou subalterno; um dos muitos estereótipos negros destituídos de humanidade, tais como a criadinha de fácil abordagem sexual, o moleque careteiro levando cascudo, a mãe preta chorosa ou domesticado pai João. (NASCIMENTO, 1978, p. 162) Estigmas que têm reflexo em nossa sociedade até os dias atuais, manchas quenão somem do universo simbólico das representações sociais. Este é o fardo que nossopaís carrega depois de mais de trezentos anos de escravidão. Apesar de toda a cargacultural que o negro trouxe para nossa sociedade, ele ainda sofre discriminações, 15
  17. 17. tomamos conta de uma das mais ricas representações culturais que o negro trouxeconsigo do além mar: o candomblé.IV – Afirmação da cultura negra “Você me chamou de nego Querendo desfazer da cor Não sabe que eu tenho orgulho Do que você tem horror” 8 Como vimos, o negro foi sempre deixado a margem da sociedade, e como se nãobastasse, mesmo após a abolição da escravidão, muitas de suas práticas culturais aindaestavam na ilegalidade. A nobre sociedade de olhares e gostos ocidentalizados,“cedeuespaço” para o negro, entretanto, impôs limites para esta inserção: Em fins do século XIX, como atestam os jornais e outros documentos da época, havia grave rejeição, por parte de segmentos dominantes da sociedade, às práticas religiosas afro-brasileiras. Atribuía-se a eles o caráter de “selvageria”, cujos exemplos, constantemente citados, eram a “lascívia das suas danças” e o “estrondoso barulho” de suas batucadas. (AMARAL; SILVA, p. 189, 2006) Concluimos que, o governo, por meio de uma elite dominante, não hesitou emmanter proibições da época da escravidão, obrigando os negros a ocultarem seu traçocultural mais marcante: a religiosidade, escondendo-se dos olhos da sociedade, pois:“Tais cultos tinham um caráter candestino e as pessoas que neles tomavam parte eramperseguidas pelas autoridades.” (VERGER, 1981, p. 29) Tornando tradição cultural emcaso de polícia. Mesmo perante todos os aparatos reprecivos, os negros, ainda sim, lutavam paradar continuidade a sua cultura, afinal, a escravidão não conseguiu apagar suas crenças,não seria depois de liberto que iriam eliminá-las. No Rio de Janeiro, eram nas casa das“Tias” que as celebrações clandestinas aconteciam. Lá, difundia-se a cultura africana eincitava, sobretudo, a produção artística que levasse em conta elementos étnicosculturais, que na sociedade eram reprimidos e censurados. Nesses casos: “A arte negra éprecisamente a prática da libertação negra (...) em todos os níveis e instantes daexistência humana.” (NASCIMENTO, 1978, p. 180) As tias eram de descendênciabaiana, em sua maioria negras, traziam consigo toda a carga cultural africana obtida8 Gasolina – “Você me Chamou de Nego”. Gravado pelo cantor Rubi, no cd “Paisagem Humana” em2006. 16
  18. 18. através de seus antepassados. A casa, continha uma significância simbólica: liberdade.Ali os negros eram livres para executar sua cultura, deixavam o mundo repressor delado para se encontrar com pessoas que comungavam dos mesmo ideais, pensamentos.Uma das casas mais importântes, no sentido de resistência cultural da época, era a: A casa de Tia Ciata, Babalaô-mirim respeitada, simboliza toda a estratégia de resistência músical à cortina de marginalização erguida contra o negro em seguida à abolição. A habitação – segundo depoimentos de seus velhos frequantadores – tinha seis cômodos, um corredor e um terreiro (quintal). Na sala de visitas realizavam-se bailes (polcas, lundus etc.); na parte dos fundos, samba de partido alto ou samba-raiado; no terreiro, batucada. (SODRÉ, p.15, 1998) Polca e lundu são ritmos de descendencia africana, na época pouco aceitos,(como a maioria dos resquícios de cultura negra), mas, tolerados de maneira geral pelapopulação, por isso que eram executados na sala de visitas. Já o samba (também dedescendencia africana) era altamente rechassado na sociedade, sua dança também eramenos contida, o lugar reservado era os fundos, mais longe dos ouvidos de quempassava pela rua. No terreiro aconteciam os batuques e as cerimônias do candomblé,pois, além de ser o espaço mais escondido da casa, mantinha-se ali um espaço de terra(daí o nome “terreiro”), elemento vital nas celebrações religiosas africanas. Na casa das tias, não havia o porque se diminuir, nem abaixar a cabeça, muitomenos negar sua personalidade e sua descendência: A África aqui é o orgulho e uma fidelidade; nenhum complexo de inferioridade, mas pressentimento de conservar uma herança de beleza e bondade, a vontade de não se deixar perder na civilização brasileira, mas de integrá-la a essa civilização para enriquecê-la e lhe dar doçura suplementar. (BASTIDE, 1973, p. 274) A cultura africana está muito ligada à religiosidade, como vimos, os centros deresitência assumiam não só o papel de terreiro, mas de samba, de sociabilidade, dedanças, de divertimento. Naquele espaço idéias eram difundidas, pensamentos, modosde vida. Não podemos negar que as casas das tias tranformavam o espaço urbano, àmedida que toda uma ideologia socio/cultural era emanada, pois: A difusão da fé torna-se particularmente importante para a geografia ao se refletir sobre a ação missionária de expansão de idéias e condicionamentos simbólicos, algumas vezes resolvidas através de trocas dramáticas no processo de aculturação. A migração de pessoas que transmitem sua cultura e a migração de sistemas religiosos resultam em adaptações ou integrações de religiões a um determinado ambiente estranho, que pode alcançar um equilíbrio ou desenvolver mecanismos de conquista. (ROSENDAHL, 1996, p. 52) 17
  19. 19. E o negro foi se afirmando cada vez mais, seja por meio da dança, dacorporalidade, dos instrumentos. Foi no samba que o negro encontrou o seu melhoraliado em direção de sua aceitação cultural – “Sendo música religiosa, o sambaenredou-se, apesar disso, nos espaços profanos, num intenso fluxo de trocas simbólicasentre as religiões afro-brasileiras e a sociedade.” (AMARAL; SILVA, 2006, p. 192) Foiaí que a sociedade passou a comungar a religiosidade do negro, mesmo de formainconsciente. Entretanto, o samba, por muito tempo só conseguiu abarcar o públicopopular, sendo ainda estigmatizado pela elite brasileira, mas esse povo não buscava aafirmação de sua cultura por parte dos ricos, pois, até mesmo: “As letras dos sambas,cantadas ao fim das “rodas de santo” nas casas das “tias” baianas, ou nos encontrosfestivos populares, como a Festa da Penha, refletiam o cotidiano dos grupos negros doRio de Janeiro e a própria importância da música neste cotidiano.” (AMARAL; SILVA,2006, p. 193) O cotidiano dessas pessoas era simples, dotado de peripécias contra a lei,bebidas, traições e muito amor. A elite estava acostumada com músicas clássicas queincitavam a boa educação e as boas maneiras. Dentre as políticas do estado novo (era Vargas), encontramos a que visavaestabelecer as bases de um estado genuinamente nacional, o que ocorreria por meio deuma valorização das práticas culturais brasileiras, sobretudo as de origem popular,causando assim, uma identificação da população com a nação. Dentre as culturasescolhidas para figurar uma identidade cultural, estavam as práticas afro-brasileiras, foia partir dessa época que algumas manifestações foram desestigmatizadas, como acapoeira e o carnaval. Sendo que ambos foram modificados: a primeira recebeu o nomede capoeira regional, o segundo só foi aceito com a condição de os sambas enredostratarem de temas da história oficial brasileira (que não se importa muito com a culturanegra) 9 . A casa das tias, por longos anos, se constituiram em refúgio e territórios deresistência e afirmação cultural. A identidade dessa população se manteve viva, pormeio de diversas representações, muitas vezes artísticas. A arte era tida como meio desupressão ante tanta desigualdade e injustiça. A religiosidade, sem dúvida auxiliou eincentivou todo este processo, muitas vezes, fundida entre manifestações do sagrado edo profano e, foi no profano que encontrou bases para transcender seu papel religioso,firmando afinidade com a contituição cultural brasileira.9 AMARAL; SILVA, p. 199, 2006. 18
  20. 20. V - Candomblé – religiosidade e resistência cultural “Salve Xangô, meu Rei Senhor, Salve meu Orixá” 10 Na religião, podemos encontrar a manifestação do sagrado, que é algotranscende o mundo material: “O sagrado se manifesta sempre como uma realidade deordem inteiramente diferente da realidade do cotidiano.” (ROSENDAHL, 1996, p. 27)E possui o poder de transportar as pessoas para fora da realidade, das preocupações,encontrando assim, amor, acolhimento, realizações tanto no plano material como em suaespiritualidade, “religião é uma experiência humana fundamental, definida maissimplesmente como a experiência do sobrenatural, uma experiência independente darazão (...). O homem religioso busca um poder transcendente que o sagrado possui.”(ROSENDAHL, 1996, p.18) Esse poder deixa o homem religioso em paz consigo efeliz para com suas crenças, herdadas de seus mais remotos antepassados. O sagrado seconstitui por meio de objetos, lugares, pensamentos e está totalmente ligado aoreligioso, ao poder transcendental. Os territórios onde o sagrado se manifesta, “Fazemos objetos materiais (...) bem como as pessoas, passar de um mundo para outro, doprofano ao sagrado.” (BASTIDE, 1973, p. 255) A vida cotidiana fora da religiosidadeconstitui-se como profana, o não sagrado. No Brasil, durante muitos séculos a religiãocatólica, por meio da força, obrigou os negros a se curvarem diante do sagrado, que, nãopossuía nenhuma significação para este povo. Cada grupo religioso possuiespecificidades, características próprias que o definem em torno de sua cultura. O quenão pode ocorrer é uma suposta supremacia cultural tomar frente para justificarselvagerias. As práticas reliosas afro-brasileiras sofreram gande depreciação ao longo dosséculos, entretanto, se mantiveram. Na África, em pleno século XVI (época que oscolonizadores iniciaram a captura dos negros) os negros viviam, em sua maioria, emaglomerações tribais, cada região tinha suas peculiaridades. Como também, cada regiãopossuía um orixá de adoração, sendo este responsável pela proteção dos nativos. Emdeterminadas datas, organizava-se a festa (nome dado à celebração do ritual religioso),então, o orixá saía de “seu mundo” para visitar os “filhos”, por meio de uma pessoa10 Vinicius de Moraes e Baden Powell – “Canto para Xangô”. Garavdo no disco “Afro-Sambas” em 1966. 19
  21. 21. específica, seu iaô (na África - elegun), ocorrendo a possessão. Este Orixá serviatambém para afirmar e abeçoar o Rei, garantindo assim, a coesão social11. Não havia muita distinção entre o religioso e o social, prova do quão forte era acrença dessas pessoas. A escravidão não conseguiria apagar o que foi construido emséculos de tradição, pois: “Os seres humanos são considerados, por excelência, ascriaturas da comunicação, que armazenam significados através de palavras, desenhos,gestos, números, padrões musicais e um grande número de outras formas simbólicas.”(GARDNER, 1995 p.145) Toda essa carga cultural, veio para participar da constituiçãoda sociedade brasileira, que, embora sempre rechaçada, ainda sim se firmou e criouraízes, por meio de muito sangue e lágrimas. Algumas modificações ocorreram como forma de adaptar a religião africana ànova realidade, pois, os negros eram colocados, muitas vezes, misturados nasembarcações, oriundos de diversas regiões. Como cada pessoa possuia devoção a umorixá, no culto do candomblé no Brasil, vários orixás puderam ser cultuados, comomeio de agradar todos os adeptos, totalizando em média desesseis deuses. Por isso,qualquer afirmação veemente sobre o culto do candomblé no Brasil, pode estar fadadaao erro. O que expomos aqui é o resultado de uma revisão bibliográfica acerca do tema,onde encontrando pontos em comum nesta manisfestação religiosa. Antes de prosseguir, nos atemos que são muitos os preconceitos que anulam apossibilidade se conhecer em seu profundo o candomblé, tantos anos de repressão sociale política ainda colhem frutos. Por este motivo, se afirma cada vez mais a necessidadede mostrar esta realidade a todos, entretanto, para não cairmos novamente no velhodiscurso discriminatório: “É preciso julgar esse culto não através dos nossos conceitosde brancos, mas tentando penetrar na alma dos fiéis e pensar como eles própriospensam.” (BASTIDE, 1973, p. 284) Analisar a religião, não com olhos estrangeiros, esim com abertura a percepções novas, só assim será possível travar qualquerentendimento com nulidade de preconceito. Há uma grande complexidade nas manifestações do candomblé, que diferem emmuito dos ritos religiosos europeus. A noção de bem e mal, céu e inferno, não existe nocandomblé. O bem e o mal estão contidos no caráter do ser, resta ao adepto religiososaber balancear ambos sentimentos, controlar seus defeitos e explorar suas qualidades.Os deuses desta religião - os orixás, possuem qualidades e defeitos humanizados, pois,11 VERGER, 1981. 20
  22. 22. foram humanos durante algum tempo. Diferentemente das religiões européias oueuropeizadas, onde o sagrado se manifesta por meio de silêncio, concentração,subserviência, no candomblé denomina-se “festa” as celebrações religiosas, que têmcomo pressuposto a alegria, muita música (pontos) tocada pelos Alabês12 nos atabaques:rum (grave), rumpi (médio), lé (agudo); enfeites são dispostos no terreiro ao gosto doorixá homenageado; é realizado sacrifício de um animal para preparação da comidasagrada, que será parte destinada aos orixás e parte degustada por todos os presentes. Asorações são através dos “pontos”, das danças e da comida. Uma grandecomunhão que prioriza a sociabilidade, descontração e muita fé. O sagrado, no caso do candomblé, se dá como local nos terreiros – lugaressagrados, destinados a execução dos ritos, oferendas, trabalhos. Necessariamente oterreiro deve possuir um espaço com terra, sem nenhum tipo de piso, descoberto, pois, ocandomblé é uma religião que possui o ânima da natureza, todos os seus deuses (orixás)possuem ligação direta com algum elemento natural, o que auxilia em uma maiorconsciência ambiental e respeito ao meio natural. A noção de genealogia também émuito forte nas práticas religiosas, sobretudo o respeito aos mais velhos e aos entes quejá faleceram: A religião dos Orixás está ligada a noção de família. A família numerosa originária de um mesmo antepassado, que engloba os vivos e mortos. O Orixá seria, em principio, um ancestral divinizado, que, em vida, estabelecera vínculos que lhe garantiam um controle sobre certas forças da natureza, como o trovão, o vento, as águas doces ou salgadas, ou, então, assegurando-lhe a possibilidade de exercer certas atividades como a caça, o trabalho com metais ou, ainda, adquirindo o conhecimento das propriedades das plantas e de sua utilização. O poder, àse (axé), do ancestral-orixá teria, após sua morte, a faculdade de encarnar-se momentaneamente em um de seus descendentes durante um fenômeno de possessão por ele provocada. (VERGER, 1981, p. 18) Os orixás eram seres humanos, assim como todos, com defeitos e qualidades,que, através de um processo doloroso, por meio da ira ou outros sentimentos violentos,passaram a ser: “Possuidores de um àse (axé) muito forte e poderes excepcionais.”(VERGER, 1981, p. 18) Segundo a mitologia iorubana: sendo o orixá supremo, criadorda Terra - Olodumaré distribuiu todos os poderes da natureza entre todos os orixás que,assim divinizados, puderam seguir seus caminhos.12 No Brasil, Ogã tocador de atabaque,chefe da orquestra do candomblé, na África dono da navalha,encarregado da escarificações rituais (aberés). (PRANDI, 2001, p. 564) 21
  23. 23. O mundo profano permeia as relações das pessoas religiosas, não hápossibilidade, no caso do candomblé, das pessoas viverem somente no espaço sagrado,seria como negar toda a vivência cotidiana, portanto, ao se relacionar com o espaço quecircunda sua religiosidade, o adepto age como transformador de seu meio, levandoconsigo elementos do espaço sagrado, bem como características, costumes e até mesmoobrigações: “O homem religioso (...) se exprime sob formas simbólicas que serelacionam no espaço.”(ROSENDAHL, 1996, p. 64). O candomblé ofereceu bases paravários elementos que alteram a constituição da cultura brasileira e, por conseguinte, oespaço geográfico. No plano da música, são diversas as contribuições africanas. Osamba é um ritmo que nasceu junto ao candomblé, se inspirando no ritmo africanosemba, tocado nas festas. Desenvolveu-se, sobretudo em meio a pessoas pobres e emsua maioria afro-descendentes – ressaltando o papel da casa das Tias no Rio de Janeiro.Os cantos executados nas celebrações começaram a serem ouvidos fora dos terreiros. Asociedade passou a comungar das músicas, embora, muitas vezes, alienada a verdadeirasignificação religiosa. O profano interage com sagrado, como no caso da culinária das“baianas”. Todos os orixás possuem peculiaridades como: dia da semana, cor, música(ritmo), força sobre determinado elemento da natureza e prato predileto. Nos dias defesta para determinados orixás, devem ser seguidas à risca as preferências dohomenageado. A culinária predileta dos orixás é intitulada “prato sagrado”. Asresponsáveis pela preparação da comida, são mulheres designadas para tal no ato de“virar o santo”, ou seja, da iniciação na religião, os segredos culinários são passados degeração para geração, mantendo características trazidas do continente africano. NaBahia, principal porto receptor de escravos do período colonial, aconteceu um fato emparticular: a comida baiana não só foi influenciada pela culinária africana, comoaconteceu em grande parte do Brasil, mas, a culinária sagrada transcendeu os terreiros,ultrapassou os limites do sagrado, se envolvendo e alterando o espaço profano. Astípicas baianas, de roupas brancas (as mesmas utilizadas como indumentária no espaçosagrado), vendiam preparos suculentos em meio à praça pública: (...) Se muitas receitas dos pratos africanos, glória da apimentada culinária baiana, chegaram até nós, é que foram fielmente conservadas e transmitidas de mães para filhas pelas baianas vendedoras de quitutes nas ruas. Acontecia às vezes que, antes de sair de casa, elas faziam oferendas de parte das comidas nos altares de seus orixás. Quando as pessoas compravam e comiam acarajé, participavam, sem saber de uma comida em comum com Iansã, e se era caruru, também 22
  24. 24. chamado amalá nos terreiros de candomblé, era com Xangô que comungavam. Assim por consideração aos gostos dos orixás, nasceram e perpetuaram-se os vários quitutes na Bahia. (VERGER, 1981, p. 32) O espaço geográfico é alterado pelas significações herdadas da África, a culturase enriquece, entretanto, ainda encontramos na sociedade moderna, demasiadospreconceitos para com estas manifestações, que são frutos de um passado marcado pelatentativa latente de etnocidio do negro. A palavra macumba, ainda é largamenteutilizada de modo pejorativo, para designar os ebós13, que são feitos aos deuses orixás.O que poucos sabem, é que nem sempre essas oferendas são feitas com intentonegativo, para o mal, a maioria é como forma de agradecimento, pedido por entesqueridos e para agradar o orixá. A palavra macumba significa dança no dialeto iorubá.Sendo assim, destacamos a importância da legitimação cultural que o candomblépromove na população religiosa e da afirmação da cultura africana na sociedade. Onegro no candomblé não é o outro estranho, subserviente e receoso de suas atitudes: O candomblé marca o ponto onde a continuidade existencial africana tem sido resgatada. Onde o homem pode olhar a si mesmo sem ver refletida a cara branca do violador físico e espiritual de sua raça. No candomblé, o paradigma opressivo do poder branco, que há quatro séculos vem se alimentando e se enriquecendo de um país que os africanos sozinhos construíram, não tem lugar nem validez. (NASCIMENTO, 1978, p. 182) Resgatar a auto-estima e a valorização dessa riquíssima cultura, dentro dacultura brasileira, é um papel nobre que o candomblé exerce. Quando os adeptos negrosque se encontram a margem da sociedade participam dos ritos, eles conseguem: “Despira roupa da servidão cotidiana para vestir a roupagem brilhante dos Deuses.” (BASTIDE,1973, p. 280) Em todas as celebrações do candomblé, o iaô é responsável por trazer oorixá de volta à terra, é por meio de seu corpo, que, o deus pode retornar, o que osadeptos chamam de “montar”, como se o iaô fosse um cavalo pronto para ser montadopelo orixá, destruindo a teoria de que o deus “se incorpora” na pessoa. O iaô, no dia dafesta, tem que estar preparado com a indumentária de seu orixá, que na maioria doscasos é bem suntuosa, com detalhes e dependendo do orixá, com pedras e metaispreciosos, como podemos observar na foto 1, onde um iaô de Oxum está em transe. Acelebração de transe do iaô, se dá em torno de torno de um ritual bem marcado, com13 Sacrifícios, oferendas, despachos. 23
  25. 25. regras específicas, nenhuma pessoa “recebe o orixá” somente ouvindo um ponto de seuorixá, ou permanecendo em um espaço sagrado: È necessário que tenham sido preparadas para receber o orixá através de certas interdições, como a do corpo limpo, certos banhos de ervas, em resumo, por um conjunto de fatos regulamentados pela sociedade, sem os quais a música nada produz. (BASTIDE, 1973, p. 279) O candomblé continua como uma forma religiosa, altamente difundida em nossasociedade, seja no espaço sagrado, por meio dos ritos, da ancestralidade, seja no espaçoprofano por meio da cultura popular e na atualidade por meio da cultura de massa, quepor sua vez interagem com o espaço, contribuindo para estudos da geografia cultural,bem como ilustrando toda a trajetória no espaço e no tempo, desta religião como cargacultural de um povo, agora como elemento da composição cultural do Brasil. A manifestação religiosa do candomblé pode ser entendida como sendo umarugosidade, pois, se mantém do passado e traz consigo história de realidades passadas14,evidenciando a herança cultural africana sociogeográfica, que, perdurou e perdura até osdias atuais, onde sua gênese está em séculos passados. Não foram somente as práticasreligiosas que se mantiveram, mas também a territorialidade do espaço físico, pois é noterreiro que as celebrações acontecem e este, por sua vez, tem que seguir uma sérienormas que foram difundidas de geração para geração.14 SANTOS, 2008 24
  26. 26. Foto 1: Fonte: VERGER, 1981. 25
  27. 27. VI – Sincretismo no candomblé “Vestimenta de caboclo é samambaia” 15 Os negros recém seqüestrados da África, como vimos, foram obrigados a seconverter a uma religião totalmente adversa a sua, que negava qualquer outra religião,principalmente as politeístas. A religião católica, por meio de seus líderes religiosos,pensava ser portadora da verdade suprema, e por isso cometeu uma série de atos contraa cultura africana. Os negros começaram a “misturar” as crenças religiosas, mas isto sedeu, não de forma espontânea, e sim de forma brutal. Nas igrejas católicas os negrosexaltavam uma imagem no altar e pensavam em outra entidade, enquanto rezavampensavam nos orixás que tanto adoravam e amavam. Não denominamos essa junção:catolicismo versus candomblé, de sincretismo, pelo fato de não ter se dadoespontaneamente, e sim por meio da tentativa de etnocidio pelo qual o negro passou.Além disso, há o fato de que a igreja católica nunca reconheceu o candomblé. A obraliterária “O pagador de promessas” de Dias Gomes, conta a história do Zé-do-Burro,que fez uma promessa em um terreiro para Iansã, a fim de que ela ajudasse seu burroque estava doente, este por sua vez melhorou e, Zé-do-Burro foi cumprir sua promessa,que consistia em carregar uma cruz do tamanho da de Jesus Cristo até a igreja de SantaBárbara (santa católica que corresponde a Iansã), lá chegando foi falar com o padre,que, ao saber que a promessa foi feita em um terreiro para uma orixá, o proibiu deentrar na igreja, causando grande confusão. Essa história se faz verdade até os diasatuais, em que a discriminação a estas manifestações religiosas é latente. Não hásincretismo do candomblé para com uma religião, que, mesmo depois de desumanasatrocidades cometidas, ainda continua a nulificar manifestações de origens negras. O candomblé, ao chegar em solo brasileiro, por meio dos negros, se deparoucom uma cultura tão importante quanto a sua, e também alvo crescente de aculturação, acultura dos nativos indígenas. Do encontro destas duas culturas peculiares, nasceu deforma espontânea, o que denominamos sincretismo: o candomblé de caboclo, unindo acrença doa aborígenes com a dos africanos. Só merece o nome de sincretismo o fenômeno que envolveu as culturas africanas entre si, e entre elas e a religião dos índios brasileiros. (...) O encontro das religiões africanas com a religião15 Ponto cantado na Umbanda (religião criada no Brasil que une elementos do candomblé e do espiritismoKardecista) - Domínio público. Adaptado e Gravado por Martinho da Vila no disco “Canta, canta minhagente” no ano de 1974. 26
  28. 28. nativa dos indígenas manifesta-se nos terreiros de caboclo, onde o culto mistura dois sistemas espirituais (...) (NASCIMENTO, 1978, p. 109) A interação com a natureza, que as religiões indígenas brasileiras e o candomblépossuíam, eram parecidas. Ambas eram politeístas, seus mais respeitados íconesreligiosos eram os mais velhos. No candomblé de caboclo além dos orixás, encontramosos espíritos da floresta, que são índios que já morreram, mas continuam a zelar pelobem da mata e da floresta. Podemos exemplificar este sincretismo, na música “Linha deCaboclo” gravada na voz da cantora Maria Bethânia, composta por Paulo CésarPinheiro: Já chegou a hora/ Quem lá no mato mora/ É que vai agora/ Se apresentar/ No chão do terreiro/ A flecha do Seu Flecheiro/ Foi que primeiro/ Zuniu no ar/ Vi Seu Aimoré/ Seu Coral, vi Seu Guiné/ Vi Seu Jaguaré,/ Seu Araranguá,/ Tupaíba eu vi,/ Seu Tupã, vi Seu Tupi,/ Seu Tupiraci,/ Seu Tupinambá/ Vi Seu Pedra-Preta se anunciar,/ Seu Rompe-Mato,/ Seu Sete-Flechas,/ Vi Seu Ventania me assoviar/ Seu Vence demandas eu vi dançar/ Benzeu meu patuá/ Vi Seu Pena- Branca rodopiar/ Seu Mata-Virgem,/ Seu Sete-Estrelas,/ Vi Seu Vira- Mundo me abençoar/ Vi toda a falange do Juremá/ Dentro do meu gongá/ Seu Ubirajara/ Trouxe Seu Jupiara/ E Seu Tupiara/ Pra confirmar/ Linha de Caboclo,/ Diz Seu Arranca-Toco,/ Um é irmão do outro/ Quem vem lá/ Com berloque e jóia/ Vi Seu Araribóia/ Com Seu Jibóia/ Beirando o mar/ Com cocar, borduna,/ Chegou Seu Grajaúna,/ Com Baraúna/ Mandou chamar/ Vi Seu Pedra-Branca se aproximar/ Seu Folha-Verde,/ Seu Serra-Negra,/ Seu Sete-Pedreiras eu vi rolar/ Seu Cachoeirinha ouvi cantar/ Seu Girassol girar/ Vi Seu Boiadeiro me cavalgar/ Seu Treme-Terra,/ Seu Tira-Teima,/ Seu Ogum-das- Matas me alumiar/ Vi toda a nação se manifestar/Dentro do meu gongá/ che tua.(2008) Percebemos que há uma inteiração entre entidades caboclas e do candomblé,uma coexistência pacífica, uma infinidade de nomes que trazem consigo, personalidadese poderes de proteção. Manifestações da genuína cultura nativa brasileira, mais umtoque africano, que, ao se encontrarem, modificam suas crenças, adicionando elementosnovos e, por conseguinte expandindo-a no espaço, unindo forças contra a opressãosócio/cultural. A umbanda é uma religião brasileira, que, recebeu forte influência docandomblé, unindo a religião africana com os pressupostos do espiritismo difundido porAllan Kardec. Na umbanda encontramos “entidades”, que são espíritos que guardam einfluenciam as pessoas, bem como: Pomba Gira, Tranca Rua, Maria Padilha e, emdeterminados casos encontramos elementos das religiões indígenas e do catolicismo, jáno candomblé são cultuados apenas os orixás. 27
  29. 29. VII – Terreiro - território África “Neste terreiro em festa, entre mil adobás Prestamos nosso tributo aos Orixás” 16 Quando denominamos o terreiro de espaço sagrado, já estamos levando emconta a existência do não sagrado, ou seja, do profano: “A palavra sagrado tem osentido de separação e definição, em manter separadas as experiências sagradas das nãosagradas, isto é, profanas.” (ROSENDAHL, 1996, p. 28) Porém, no candomblé, é osagrado que permeia de significações a vivencia social profana. “O espaço sagrado e oespaço profano estão sempre vinculados a um espaço social. A ordenação do espaçorequer sua distribuição entre sagrado e profano: é o sagrado que delimita e possibilita oprofano.”(ROSENDAHL, 1996, p. 32) Não há possibilidade de qualquer tipo deseparação, o religioso tem suas obrigações comportamentais, carregando consigo acarga cultural que o candomblé lhe fornece, “na cosmovisão das diversas etniasafricanas, é a manifestação do sagrado que dá fundamento ao mundo.” (SALES. In:BARBOSA, 2008, p.181) O terreiro além de ser um espaço sagrado, é marcado pelaordenação espacial, que conta com regras na disposição dos objetos ritualísticos quetambém são sagrados. Esta sacralidade atribuída tanto aos objetos quanto ao espaço doterreiro depende das pessoas que praticam, acreditam e difundem o candomblé. As pessoas se apropriam do lugar e redefinem sua utilização. Carregando-o designificações. Segundo Rosendahl: “Os espaços apropriados efetiva ou afetivamente sãodenominados territórios.” (1996, p. 58) O espaço do terreiro se define enquantoterritório, impregnado de significados e símbolos controlados pela religiosidade,representado pelos “donos(as)” do terreiro - os pais e as mães de santo, seguido por todahierarquia da religião. Os adeptos encontram com seus antepassados, com sua históriacultural, com os orixás: “no interior do recinto sagrado o mundo profano é transcendidoe, como consequência, a comunicação com o divino torna-se possível.” (ROSENDAHL,1996, p.33) É no terreiro que as divindades africanas iorubanas se manifestam, nesteterritório transposto diretamente da África por meio dos símbolos. O território, nessecaso, também se torna um símbolo religioso, contém uma representação e uma aceitaçãopor parte dos partícipes, que, a todo momento o afirmam, fornecendo reconhecimento àmanifestação do sagrado, entrando em contato com os orixás.16 Mauro Duarte, Noca e Rubens Tavares. “Tributo aos Orixás”. Gravado por Clara Nunes no disco“Clara Clarice Clara” em 1972. 28
  30. 30. É por meio dos símbolos, dos mitos e dos ritos que o sagrado exerce sua função de mediação entre o homem e a divindade. É o espaço sagrado, enquanto expressão do sagrado, que possibilita ao homem entrar em contato com a realidade transcendente chamada deuses. (ROSENDAHL, 1996, p. 30) No território terreiro, a provisão cultural é forte. Na verdade, é a cultura quepossibilita e mantém toda a estrutura religiosa, fornecendo base hereditária - tradicional,mítica, existencial e sócio-cultural, nutrindo de harmonia o seu território, podemoschamar esse processo de: “Territorialidade” que “por sua vez, significa o conjunto depráticas desenvolvido por instituições ou grupos no sentido de controlar um dadoterritório.” (ROSENDAHL, 1996, p. 58) De acordo com a teoria do Milton Santos(2008) de fixos e fluxos, podemos separar as representações do sagrado responsáveispela construção da territorialidade no terreiro de candomblé. Sendo os fixos: rios – sob aproteção de Oxum; mata – Oxossi; mar – Iemanjá; pedras – Xangô. Por fluxosentendemos a dinâmica produzida, através da comunicação religiosa, das representaçõessimbólicas atribuídas a diversos objetos como: os atabaques Rum, Rumpi e Lé; adornosdos orixás como o machado de Xangô; o espelho de Oxum; a vestimenta sagrada dosorixás; os “colares de contas”, utilizados para designar proteção a quem usa, concedidospor meio de presente para o recém ingressante na religião, têm uma ligação direta com oorixá que rege a vida do iniciado. Para uma pessoa que está alheia a religião, todos os objetos sagrados, além deadorno, não possuem mais nenhum significado, daí a importância de observá-los, deacordo com a significação cultural neles contida. Ao desprezarmos toda a simbologiacontida no objeto, não levando em conta o processo histórico-cultural de representação,estamos fadados a reduzir o candomblé ao título de folclore. Nei Lopes conceitua bem otermo folclore e folclorização na “Enciclopédia da diáspora africana”: FOLCLORE. Conjunto de costumes, crenças e técnicas de um povo, transmitidas através de gerações por meio de relatos mitológicos, provérbios, enigmas, canções e da experiência cotidiana. Com relação aos produtos culturais de origem africana, o termo é muitas vezes mal empregado, com utilização quase sempre servindo a um recalcamento dessa produção em função de uma suposta superioridade da chamada “cultura erudita”, de base européia. A esse tipo de recalcamento dá-se o nome de folclorização. Com relação às expressões culturais negras, a folclorização costuma, a partir de uma perspectiva eurocêntrica, ressaltar seus aspectos exteriores, “pitorescos”, para mascarar as condições em que essas manifestações são produzidas, sempre à 29
  31. 31. margem da produção cultural dominante, e, assim, ocultar seu papel de agente transformador. (p. 280, 2004) Portanto, o processo de folclorização, visa descaracterizar a cultura afro-brasileira, tirá-la todo o seu teor simbólico, ocasionando um processo de fetichização,onde um objeto sagrado passa a ser exposto em um museu, ou em qualquer local, aquémde seu território, desprovido de sua original significação, e passa a ser visto como algodiferente, exótico. “A cultura africana posta de lado como simples folclore se torna uminstrumento mortal no esquema de imobilização e fossilização de seus elementos vitais.Uma forma sutil de etnocidio.”(NASCIMENTO, 1978, p. 119) Os elementos simbólicoscontidos nos objetos, se esvaem, recebendo uma nova significação puramente estética e,por conseguinte, eliminando toda a memória cultural. Consequentemente, “Arrancadosde seu ambiente, de suas referências geográficas, de suas funções rituais, de olhares deseus participes, esses objetos não seriam mais que resíduos de crenças tribais para opreconceito tão longamente afirmado.” (SALES. In: BARBOSA, 2008, p.170)VIII – Inteligências Múltiplas em Arte/Educação – Metodologia “A vida penetra na arte como a arte age na vida” 17 O propósito de descortinar a presença da cultura africana como parte constituintede nossa cultura, encontra na teoria das inteligências múltiplas, desenvolvida porHoward Gardner, um importante suporte de sustentação teórica e aplicação prática dosobjetivos do trabalho. A educação fornece ferramentas de conscientização, que, porconseguinte, intervêm no social levando a uma possível reconstrução da sociedade18. Aeducação, de per si, já fornece aparato necessário de transformação social, pois, ointento do trabalho é desmitificar idéias que perduraram durante séculos em nossasociedade, que sempre colocaram o negro à margem da sociedade. Portanto,defendemos no presente trabalho, “a esfera educativa como sendo um dos ângulosessenciais para a reafirmação cultural e a derrota da vergonha étnica, implantada nossistemas educacionais oficiais.” (GARCIA. In: OLIVEIRA, p. 14)17 PAREYSON, 2001, p. 41.18 BALLENGE-MORRIS; DANIEL; STUHR. In: BARBOSA, 2008. 30
  32. 32. Gardner (1995) identificou inteligências múltiplas em campos distintos, a saber:linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal,intrapessoal. Como nos mostra este autor, identificar a inteligência que cada indivíduo possui,tomando por base a Teorias das Inteligências Múltiplas, nos possibilita perceber que acompetência cognitiva humana é melhor descrita em termos de um conjunto decapacidades, talentos, ou habilidades mentais que chamamos de inteligências19. O autordefine inteligência como: “A capacidade de resolver problemas ou elaborar produtosque sejam valorizados em um ou mais ambientes culturais ou comunitários.” (1995,p.14) Isto possibilita também, que cada pessoa expresse, por meio de ferramentasartísticas (teatro, música, dança, pinturas, poesias, crônicas) o que conseguiu absorversobre o tema. A proposta de Gardner nos permite identificar na cultura brasileira a influênciade elementos africanos oriundos das celebrações do candomblé e usá-los comoinstrumentos pedagógicos a fim de desenvolver nos educandos as múltiplasinteligências, auxiliando a dissipação de discriminações e opiniões discriminatórias emnossa realidade, pois, só por meio de uma cultura de paz conseguiremos acabar comtodo processo de desumanização pautado no preconceito20. Com os pressupostos deGardner, desenvolvemos a idéia de multiculturalismo em nossa sociedade, que abarcadiversas visões da realidade, podendo, assim, atingir um maior esclarecimento dassituações - que dizem respeito a culturas tradicionais e populares enquanto portadorasde riqueza ímpar em nossa sociedade – conseguindo, dessa forma, traçar um paralelocom outras áreas do saber, como literatura, artes, história, ciências sociais, etc. Unindoáreas afins em prol do processo ensino aprendizagem, percebemos “(...) que acompetência cognitiva humana é melhor descrita em termos de um conjunto decapacidades, talentos ou habilidades mentais que chamamos de ‘inteligências’.”(GARDNER, 1995, p.21) Ao unir o candomblé (como cultura afro-brasileira) com a teoria dasinteligências múltiplas, estamos ampliando a visão das pessoas sobre sua comunidade,onde poderiam participar mais ativamente, integrando-se e compreendendo as diferentespluralidades existentes, além de proporcionar-lhes mais recursos para a apreensão de umtema, ao mesmo tempo atual e complexo.19 GARDNER, 1995.20 CAO. In: BARBOSA, 2008. 31
  33. 33. Com o intuito de mostrar uma visão diferenciada e alternativa à convencional,buscamos embasar o conhecimento e torná-lo tão interessante quanto é, pois,cometeríamos um crime pedagógico se acreditássemos que todos os educandos possuemuma forma única de aprendizagem e, para suprirmos esta realidade, temos que levar emconta a pluralidade do intelecto. Para tanto, utilizamos diferentes elementos expositivose práticos como instrumentos pedagógicos, a exemplo de: filmes, músicas, ilustrações,poesias, textos, fotografias, instrumentos musicais e pratos típicos com referência nocandomblé, expondo elementos da cultura africana, que, transcenderam a religiosidade eestão presentes no cotidiano cultural brasileiro, pois: “uma inteligência também deve sercapaz de ser codificada num sistema de símbolos – um sistema de significadosculturalmente criado, que captura e transmite formas importantes de informação.”(GARDNER, 1995, p.22) Nos capítulos posteriores haverá a exposição de cada tipo de inteligência e comoela se relaciona com as manifestações culturais africanas no Brasil. Intimamente ligada às múltiplas inteligências está a arte/educação. Podemosdizer que, somente pelo fato de se trabalhar a teoria de Gardner, já estamos praticando aarte/educação. A arte, por sua vez, tem o poder de alcançar sentimentos e sensações quenormalmente não são alçadas, ressaltando que ela penetra no inconsciente por meio daconsciência21. O que gera uma maior criatividade e crítica ante o tema abordado, pois, aarte abre perspectivas amplas, que fornecem instrumentos necessários para secompreender o mundo com mais sensibilidade de maneira poética, flexível esignificativa22. Utilizar a arte na educação só faz enriquecer a proposta de trabalho,proporcionando ao educando a visão de quão artísticas são as manifestações da culturaafricana no Brasil, principalmente do candomblé: “A vida social enobreceu-se e refinou-se sob a evidente influência de um ideal estético, as várias cerimônias da vida (...)religiosa colorem-se com arte, num nexo concreto em que a beleza não é separável doresto, do culto, da convenção, do símbolo.” (PAREYSON, 2001, p. 30) Não hápossibilidade de dissociar a arte das celebrações do candomblé: “Essas minorias trazemculturas, portanto arte, e desenvolvem-na em sua comunidade. Acredito ser importanteque a arte que eles fazem e sua peculiaridade seja reconhecida, analisada e registrada”(SMITH. In: BARBOSA, 2008, p.33) O que devemos fazer é utilizar essa culturaressaltando suas significações culturais em prol do processo ensino–aprendizagem,21 VIGOTSKI, 2001.22 STRAZZACAPPA, 2006. 32
  34. 34. enfatizando que a interpretação das obras artísticas não é estática, de modo que semprenos deparamos com uma variável, imposta pelo nosso inconsciente: A verdadeira natureza da arte sempre implica algo que transforma, que superação sentimento comum, e aquele mesmo medo, aquela mesma dor, aquela mesma inquietação, quando suscitadas pela arte, implicam o algo a mais acima daquilo que nelas está contido. (VIGOTSKI, 2001, p. 307) Neste processo, a educação se torna dinâmica, suprimindo o senso comum, quedifunde a idéia de que arte é somente aquela produzida por uma “elite” artística alheiaao mundo exterior e, obras de arte são aquelas expostas nos museus que figuram, doponto de vista comportamental do adolescente, espaços monótonos, onde não se podeconversar, correr, enfim em espaço de repressão. Apontar as diversas artes oriundas dopopular, bem como as expressões do candomblé na cultura brasileira é fazer com que oeducando comece a observar à sua volta elementos artísticos que são passíveis devalorização, passando a observar seu cotidiano, atribuindo-lhes significados positivos,reconhecendo e afirmando sua cultura. Portanto “a arte na educação, como expressãopessoal e como cultura, é um importante instrumento para a identificação cultural e odesenvolvimento individual.” (BARBOSA, 2008, p. 99) Para melhor situar o presente trabalho na temática da atualidade brasileira eapontar a pertinência da abordagem do tema, nos remetemos à Lei no 9.394, de 20 dedezembro de 1996, que inclui no currículo oficial da rede de ensino “História e CulturaAfro-Brasileira”, sendo alterada pela Lei no 10.639, de 09 de janeiro de 2003, recebendosua versão final por meio da Lei nº 11.645, de 10 março de 2008, abarcando nãosomente história e cultura afro-brasileira, mas também história e cultura indígena: O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. (BRASIL. lei nº 11.645, 10 de março de 2008) A criação desta lei foi uma medida da União que podemos considerar comocontraditória, pois estas matérias já deveriam ser trabalhadas no conteúdo normal.Portanto, o que podemos constatar é que há um processo de “embranquecimento” danossa memória, pois os ícones históricos no que tange a política, a cultura, ao social,citados nos processo de ensino, são em sua maioria brancos, de modo que já deveria ter 33
  35. 35. sido reconhecida a importância de outras etnias na constituição cultural brasileira. Fatoque não é exclusivo do Brasil, pois, o governo colombiano, diante da mesmaproblemática, em 1993 (três anos antes da criação da lei no Brasil) sancionou a “lei 70”- de comunidades negras da Colômbia, que assegura o ensino das práticas, história ecultura dos negros. Entretanto, mesmo tardia, a criação da lei em nosso país vemauxiliar um processo de recuperação e valorização da memória indígena e africana, oque ocorre espontaneamente nas celebrações do candomblé, nas quais são resgatadasnão só a memória, mas também a cultura do povo africano e, no caso do candomblé decaboclo, além disso, nos deparamos com a valorização de traços da cultura aborígene(indígena). 8.1 – Inteligência musical “Negro entoou um canto de revolta pelos ares” 23 Entendemos como inteligência musical a capacidade que indivíduos têm deassimilar assuntos e temas por meio de músicas, possuindo facilidade rítmica, sendopredispostos a tocar instrumentos e cantar. A música sempre teve seu espaço garantidona constituição cultural da humanidade, são raros os povos que não possuem nenhumamanifestação musical, que por sua vez, é uma importante agente de sociabilidade einteração, pois muitos ritmos suscitam euforia e alegria, amor e desencanto. A música éconsiderada uma forma de arte, por conseguinte, atinge o inconsciente, agindo por meiodos sentidos, causando diversos tipos de emoções. Encontramos a gênese da sonoridade,não no ser humanos racional, mas na própria natureza, onde as ondas ao “quebrarem” napraia executam certa sonoridade, e a mitologia iorubana24 atribui a Iemanjá (a rainha domar) este som; o vento, ao soprar por entre as árvores regido por Iansã; as cachoeiras deOxum; passando de sonoridades para a música oriunda do “canto dos pássaros” que“proporciona um vínculo com outras espécies. Evidências de várias culturas apóiam anoção de que a música é uma faculdade universal.” (GARDNER, 1995, p.23) Como sabemos, a cultura africana alterou o espaço geográfico em que se inseriu,re-significando vários aspectos da cultura vigente e um destes aspectos foi a música:“As sonoridades, ritmos, danças e gestos são fatores distintivos das culturas africanas e23 Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro. “O Canto das Três Raças”. Gravada por Clara Nunes, no disco“O Canto das Três Raças” no ano de 1976.24 Elementos míticos oriundos da África, que fundamentam o candomblé. 34
  36. 36. revolucionaram a música nos diversos países onde essa presença chegou.” (SALES. In:BARBOSA, 2008, p.185) Daí a relevância de se tratar deste assunto, pois a músicabrasileira de um modo geral foi altamente influenciada por ritmos africanos, sobretudopelo candomblé, que possui como uma das bases de suas celebrações a música, sendoimpossível a existência da musicalidade brasileira sem se levar em conta ritmosafricanos. Na inteligência musical serão trabalhadas músicas compostas ou interpretadas apartir de canções de umbanda e candomblé que foram incorporadas à cultura musicalbrasileira, considerando que as músicas africanas são fundamentalmente rítmicas e,portanto, plenamente musicais25. Ressaltando que estas músicas, foram gravadas ecomercializadas por seus intérpretes, despidas de toda a sua significação religiosa parase tornarem produtos culturais, que na atualidade, pela ampla difusão tornaram-seelementos da cultura global brasileira. Os intérpretes e compositores que difundiram ocandomblé como cultura brasileira são inúmeros, mas no presente trabalho nos atemos acinco artistas que auxiliaram neste processo, que são: Martinho da Vila, Maria Bethânia,Vinicius Moraes e Baden Powell, Clara Nunes e Rita Ribeiro. Levando emconsideração que o intento do trabalho é abordar os temas por meio da arte/educação,vale lembrar que os meios artísticos não são somente figuração do tema trabalhado, maspossuem uma valoração estética, pois: “Arte e utilidade, beleza e funcionalidade nascemjuntos.” (PAREYSON, 2001, p. 54) O Interprete e compositor Martinho da Vila gravou se primeiro disco em 1969,com músicas de samba, que como vimos, têm influência direta do ritmo semba –executados nos terreiros em celebrações do candomblé. Este trabalho ainda nãocontinha um teor alto de religiosidade africana, mas, cita um procedimento ritualísticodo candomblé, conhecido como festa, na música “Casa de bamba”, composta por ele:“Macumba lá na minha casa/ Tem galinha preta, azeite de dendê/ Mas ladainha lá naminha casa/ Tem reza bonitinha e canjiquinha pra comer”. No disco gravado em 1974 –“Canta, canta, minha gente”, Martinho transpôs para o disco pontos (músicas) dareligião umbanda, como observamos na música “Festa de umbanda”: O sino da Igrejinha/ Faz belém blem blam/ Deu meia-noite/ O galo já cantou/ Seu tranca rua/ Que é dono da gira/ Oi corre gira/ Que ogum mandou/ Tem pena dele/ Benedito tenha dó/ Ele é filho de Zambi/ Ô São Benedito tenha dó/ Tem pena dele Nanã/ Tenha dó/ Ele é filho de Zambi/ Ô Zambi tenha dó/ Foi numa tarde serena/ Lá nas matas da25 SODRÉ, 1998. 35
  37. 37. Jurema/ Que eu vi o caboclo bradar/ Quiô/ Quiô, quiô, quiô, quiera/ Sua mata está em festa/ Saravá seu mata virgem/ Que ele é rei da floresta/ Vestimenta de caboclo/ É samambaia/ Saia caboclo/ Não me atrapalha/ Saia do meio/ Da samambaia. Na referida música, Martinho da Vila assume a adaptação da música, mas não acomposição, que está como domínio público. O Tranca Rua é a entidade umbandísticaresponsável por zelar pelas pessoas que ficam na rua depois da meia noite, sendo “donoda gira”. Jurema é uma cabocla, aborígene que cuida das matas e florestas como todosos caboclos. Dando continuidade a analise dos referidos artistas, expomos que MariaBethânia foi reconhecida no cenário brasileiro por não esconder sua religiosidade,exaltando suas crenças por meio de canções. Seu primeiro disco foi datado de 1965, massomente em 1969 em seu 4º trabalho que gravou músicas referentes ao candomblé como“Dia dois de Fevereiro” de Dorival Caymmi: “Dia dois de fevereiro/ Dia de festa nomar/ Eu quero ser o primeiro/ A saudar Iemanjá”. Dia em que milhares de devotos vãoao mar entregar “oferendas” - “O presente que eu mandei pra ela/ De cravos e rosasvingou/ Chegou, chegou, chegou/ Afinal que o dia dela chegou”. Em 1970, Bethâniagravou dois pontos - utilizados nas celebrações do candomblé, a autoria de ambasconsta como domínio público adaptado pela Cantora: “Ponto de Iansã” no dialeto iorubá- “Oya, Oya, olha ê!/ Olha a Matamba de karoká zingue/ Oya, Oya, Olha ê!/ Olha aMatamba de Kakoká zingue ô.”, e “Ponto de Oxossi”: “O galo cantou/ Ta chegando ahora/ Oxalá ta me chamando/ Caçador já vai embora.”. Oxalá é, na mitologia, o criadorda terra, portanto, todos os orixás lhe devem obediência, inclusive Oxossi que é caçadore senhor das matas (PRANDI, 2001). Em 1971, grava “Ponto de Oxum” composição deToquinho e Vinícius de Moraes: “Nhem-nhem-nhem/ Nhem-nhem ô xorodô/ É o mar, éo mar/ Fé-fé xorodô/ Xangô vivia em guerra/ Conhecia toda terra/ Tinha ao seu ladoIansã pra lhe ajudar/ Oxum era rainha,/ Na mão direita tinha/ O seu espelho onde vivia/A se mirar”. Na mitologia iorubana, que fundamenta o candomblé, bem como nassociedades africanas antes da escravidão, era permitido ao homem possuir váriasesposas, Xangô era casado com Iansã, depois se casou com Oxum, que é a orixá dabeleza e da fertilidade, apresenta alto grau de vaidade se preocupando com sua beleza,por isso anda com espelho para se mirar (VERGER, 1981). Em 2009, a cantora gravouo cd “Encanteria”, dedicado a elementos da musicalidade popular, na música “Feita naBahia” composta por Roque Ferreira, a cantora faz um apanhado de sua religiosidade: 36
  38. 38. Fui feita na Bahia/ Num terreiro de Oxum/ Os tambores sagrados/ Bateram pra mim/ Me banhei com guiné, alfazema e dandá/ Defumei com quarô, benjoin/ E de pano da costa/ Batizei no Bonfim/ Um velho preto alaketo me disse/ Que foi lá de Keto que eu vim/ Eu já vim predestinada pra cantar assim/ Sou iluminada, eu sou/ Sou de Keto sim/ Sou iluminada, eu sou/ Sou de Keto sim. O termo “feita” faz alusão ao ritual de virar o santo, ou seja, se iniciar nocandomblé, a música completa com os passos de purificação para estar preparada paratal evento, o “velho preto alketo” diz respeito ao “pai de santo” figura respeitada, notopo da hierarquia do território terreiro. O cantor e compositor Vinicius de Moraes se uniu com o instrumentista BadenPowell em 1966 e gravaram um disco que entrou pra história da música e nos interessapelo fato de ter marcado a inserção da cultura africana no mercado fonográfico e, porconseguinte, no espaço profano. Com elementos de exaltação em uma genuínaafricanidade brasileira, o disco intitulado de “Afro-Sambas”, reúne onze músicas queem suas letras e seus ritmos fazem alusão ao candomblé e umbanda. Na música “Cantode Ossanha” contam a história do Orixá que “vivia numa guerra não declarada contraOrunmilá, procurando sempre enganá-lo, preparando armadilhas, para transtorno dovelho.” (PRANDI, 2001, p. 161) O homem que diz "dou" não dá/ Porque quem dá mesmo não diz/ O homem que diz "vou" não vai/ Porque quando foi já não quis/ O homem que diz "sou" não é/ Porque quem é mesmo é "não sou"/ O homem que diz "estou" não está/ Porque ninguém está quando quer/ Coitado do homem que cai/ No canto de Ossanha, traidor/ Coitado do homem que vai/ Atrás de mandinga de amor/ Vai, vai, vai, vai, não vou/ Vai, vai, vai, vai, não vou/ Que eu não sou ninguém de ir/ Em conversa de esquecer/ A tristeza de um amor que passou/ Não, eu só vou se for pra ver/ Uma estrela aparecer/ Na manhã de um novo amor/ Amigo sinhô Saravá/ Xangô me mandou lhe dizer/ Se é canto de Ossanha, não vá/ Que muito vai se arrepender/ Pergunte pro seu Orixá/ Amor só é bom se doer (...) Na música “Canto para Xangô” do mesmo disco, percebemos a importânciadada a Xangô, o filho direto de Oxalá, orixá da Justiça, que carrega consigo ummachado de duas lâminas, possuidor do Axé: Eu vim de bem longe/ Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim/ Sou filho de Rei/ Muito lutei pra ser o que eu sou/ Eu sou negro de cor/ Mas tudo é só amor em mim/ Tudo é só amor para mim/ Xangô Agodô/ Hoje é tempo de amor/ Hoje é tempo de dor, em mim Xangô Agodô/ Salve, Xangô, meu Rei Senhor Salve, meu orixá/ Tem sete cores sua cor/ Sete dias para a gente amar (...) 37
  39. 39. A cor deste orixá é o branco, por isso a designação “tem sete cores sua cor”, seudia da semana é sexta-feira, em que todos os devotos devem se privar de bebidasalcoólicas, sexo, e por obrigação devem usar indumentária branca em respeito ao “Rei”. No contexto da exaltação da cultura afro-brasileira está a cantora Clara Nunes,que, durante sua vida foi devota fervorosa da umbanda e a maioria de seus trabalhoscontinham alusão à religiosidade iorubana: Clara Nunes surgiu como uma espécie de “reedição” da baiana de Carmen Miranda, imprimindo-lhe um conteúdo religioso mais evidente. Apresentava-se, freqüentemente, descalça e vestida de “filha-de-santo” estilizada, usando saia rodada de renda branca, colares e figas, pulseiras e, na cabeça, diademas de conchas, palhas e flores. (AMARAL; SILVA, 2006, p. 210) Na música “Guerreira”, composta por João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro,gravada pela cantora no disco “Guerreira” em 1978, os autores fazem um apanhado davida da artista, mostrando sua religiosidade, dizendo ser: “Filha de Angola, de Ketu eNagô”, afirmando ainda na canção: “Não sou de brincadeira/ Canto pelos sete cantos/Não temo quebrantos/ Porque eu sou guerreira/ Dentro do samba eu nasci,/ Me criei, meconverti/ E ninguém vai tombar a minha bandeira (...) Eu sambo pela noite inteira/ Atéamanhã de manhã/ Sou a mineira guerreira/ Filha de Ogum com Iansã.” Encontramosneste trecho a afirmação de sua africanidade e, sobretudo, um orgulho de ser partícipedesta cultura, expondo o nome de seus “pais” no candomblé. As religiões africanas sãocerceadas por superstições que auxiliam o bom andamento da vida de seus adeptos, amúsica “Banho de manjericão”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, gravada nodisco “Esperança” em 1979 “mostra uma síntese das mais conhecidas maneiras de selivrar do mal e obter proteção” (AMARAL. SILVA, 2006, p. 210) Como observamos: Eu vou me banhar / De manjericão / Vou sacudir a poeira do corpo batendo com a mão / E vou voltar lá pro meu congado / Pra pedir pro santo pra rezar quebranto e cortar mau-olhado / Eu vou bater na madeira três vezes com o dedo cruzado / Vou pendurar uma figa no aço do meu cordão / Em casa um galho de arruda é que corta / Um copo d’água no canto da porta / A vela acesa e uma pimenteira no portão / E com vovó Maria que tem simpatia pra corpo fechado / É com Pai Benedito que benze os aflitos com o toque de mão / E Pai Antônio cura desengano(...) A cantora e compositora Rita Ribeiro gravou em 2006 o cd “Tecnomacumba”que consiste na união entre músicas com influência do candomblé e da umbanda comelementos da música técno - eletrônica. Re-significando toda a sonoridade das músicas,proporcionando um toque contemporâneo à religiosidade afro-brasileira. Na música que 38

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