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A
Revoluçã
o
do Local
GLOBALIZAÇÃO
GLOCALIZAÇÃO
LOCALIZAÇÃO
Augusto de Franco
A REVOLUÇÃO DO
LOCAL
Globalização | Glocalização |
Localização
2
Por que a volta ao local, em uma época de
globalização, está se afirmando como uma
alternativa de indução ao desenvolvimento
que promete transformar milenares relações
políticas e sociais de dominação.
3
“Em um universo infinito,
local pode abranger algo tão gigantesco
que sua mente se encolhe diante dele”.
Frank Herbert, 1976
em “Os Filhos de Duna”.
4
Apresentação
Estamos diante de uma grande mudança social, talvez a
mais profunda mudança no “corpo” e no “metabolismo” da
sociedade humana que já tenha ocorrido na nossa
civilização. Essa mudança não é inexorável, mas as
condições para que ela ocorra começaram a se constelar a
partir do final do século passado.
Estou falando de algo que nunca aconteceu antes. Estou
falando de uma condição geral, configurada pela co-
presença de vários fatores interdependentes, que permite a
manifestação de um fenômeno novo, uma espécie de
alteração profunda na morfologia e na dinâmica desses
sistemas complexos compostos por coletivos humanos
estáveis afastados do estado de equilíbrio que chamamos
de sociedade.
5
Não se pode saber de antemão para onde tal mudança vai
nos levar. Tudo dependerá dos movimentos sociais e das
opções políticas que fizermos. Nenhum desfecho, portanto,
está determinado. Todavia, existe agora uma possibilidade
que não existia antes.
Não estou dizendo que tal mudança profunda vai acontecer
necessariamente. Estou dizendo que essa mudança
profunda, que agora tem chances de acontecer, poderá de
fato ser consumada se conseguirmos ensaiar e replicar
padrões de organização social e modos de regulação
política compatíveis, que permitam que ela aconteça. Caso
contrário, ocorrerá, por certo, sempre alguma mudança,
provavelmente incremental, mas ela não será tão
significativa ao ponto de representar uma transformação
profunda do modo como estamos vivendo nos últimos
séculos e, talvez até, nos últimos milênios.
Estou falando de uma mudança que depende, portanto, de
algumas formas de agenciamento e que não ocorrerá
espontaneamente, na ausência de certo tipo de
comportamento social e de atuação política de agentes
humanos. Assim, não é descabido encarar essa mudança
social como uma revolução mesmo, para além dos sentidos
metafóricos em que freqüentemente essa palavra tem sido
empregada (como, por exemplo, quando se fala em
“revolução da informática” ou em “revolução tecnológica”).
Pois bem, que mudança social profunda é essa, que
revolução é essa que pode se realizar nas condições atuais
do mundo globalizado e que não poderia ter ocorrido em
outras épocas?
Essa mudança se chama ‘localização’, no sentido “forte”
desse conceito e da hipótese que o sustenta, a qual
constitui, assim, o tema central da presente investigação.
Essa hipótese, em termos sucintos, é a seguinte.
Localidades tendem a se tornar holografias do planeta à
medida que reflorescem comunidades no mundo
globalizado. A revolução planetária (já aventada por Edgar
6
Morin) é também uma revolução comunitária, que aponta
para um novo desenho do mundo, cujo sentido é o da
formação de uma nova sociedade cosmopolita global
(planetária) como uma rede de comunidades (sócio-
territoriais e virtuais – subnacionais e transnacionais)
interdependentes. Essa é a mudança social que queremos
interpretar como uma verdadeira revolução: a revolução do
local.
Quando tornamos pequeno um mundo pela localização
aumentamos o seu “poder social”. É como se
concentrássemos esse “poder”, incrementando os valores
de variáveis como freqüência ou velocidade de
processamento, possibilitando mais feedbacks, mais laços
de retroalimentação capazes de amplificar estímulos, por
pequenos que sejam. Um mundo localizado é um mundo
onde ocorreu uma espécie de big crunch social que (ao
contrário do modelo do big bang cosmogônico) diminuiu
drasticamente as distâncias!
Tal redução das distâncias muda a qualidade dos
fenômenos que ocorrem no “meio social” porquanto altera
propriedades desse meio (como a isotropia, por exemplo).
Pode-se dizer que a sociedade torna-se mais “social” no
sentido de que aumenta o seu “poder social” – ou seja, o
meio torna-se mais condutor, mais favorável à replicação
de padrões de comportamento – à medida que sua tessitura
aumenta e, portanto, que seu tamanho diminui. A partir de
certo grau de tessitura (ou de certo ‘tamanho de mundo’)
surge o que chamamos de comunidade.
Mas as comunidades (de projeto) em um mundo globalizado
não têm quase nada a ver com as comunidades tradicionais
(de herança) que conhecemos em um mundo cujas partes
estavam isoladas. Em um mundo interligado por laços de
interdependência, onde existam múltiplos caminhos entre
seus nodos-elementos, comunidades assumem um papel
diferente. Nesse tipo de mundo novos comportamentos
sociais usinados dentro de âmbitos comunitários podem se
espalhar pela rede, contaminando o sistema como um todo
a medida que podem ser amplificados por laços de
7
realimentação de reforço de sorte a modificar o
comportamento de outros agentes do sistema ao induzi-los
a realizar cópias dos “programas” gerados.
A medida que surgem comunidades globalizadas,
globalização do local tende a ser igual a localização do
global. E um mundo totalmente globalizado passa a ser um
mundo totalmente localizado. O local não-globalizado pode
ser um mundo até maior do que o mundial (no sentido de
planetário) globalizado. Mas o local conectado é o mundo
todo.
Isso só é possível ocorrer agora em vista de uma novidade:
o fenômeno complexo, atualmente em curso no mundo, que
chamamos, em geral superficialmente, de globalização e
que é, na verdade, uma glocalização; ou seja, a novidade
da mudança social que tem como fulcro a possibilidade
inédita da conexão global-local na emergente sociedade-
rede.
Pois bem. Minha investigação dos últimos anos está
levando a uma conclusão surpreendente. Desde que exista
a possibilidade de conexão global-local, para que o
processo de localização se desencadeie é preciso apenas
que a população de uma localidade, conectada entre si
segundo um padrão de rede e regulando seus conflitos de
modo democrático-participativo, o assuma
cooperativamente. O mais surpreendente, porém, é que
parece não ser necessário que toda a população de uma
localidade se comporte desse modo, nem – como fomos
levados a acreditar por vários motivos que não vêm agora
ao caso – que a maioria dessa população esteja engajada
nessa tarefa.
Por certo, para cada configuração particular haverá uma
quantidade e uma qualidade mínimas de “massa crítica”
detonadora, vamos dizer assim. E talvez não possamos
conhecer, completamente e de antemão, nem os valores
nem as características dessa “massa crítica” para que tal
processo seja detonado em cada localidade. Mas uma coisa
é certa: quanto mais elementos ela englobar, quanto mais
8
tramada “por dentro” e conectada “para fora” ela estiver,
mais chances teremos de que o processo venha a
acontecer.
Sei que tais idéias ainda soam estranhas para boa parte da
análise sociológica. E, na verdade, embora não pareça,
estou falando de política.
Mas para entender o que estou dizendo, caro leitor, não há
outra maneira senão acompanhar os resultados dessa
investigação.
Primavera de 2003
Augusto de Franco
Índice
Introdução
Capitulo Um | Globalização
Entendendo a globalização
Globalização e neoliberalismo
Globalização e capitalismo
Globalização e fundamentalismos laicos (de mercado e de
Estado)
Globalização e mudança social
Globalização irreversível
Globalização inédita
Globalização, ordem e desordem
Globalização insuficiente
Globalização em disputa
Globalização e glocalização
9
Capítulo Dois | Glocalização
Entendendo a glocalização
Glocalização e nova realidade glocal: ‘planeta-e-
comunidade’
Glocalização em disputa
Glocalização e Estado-nação
Glocalização e localização
Capítulo Três | Localização
Entendendo a localização
Localização e glocalização
Localização e ‘tamanho do mundo’
Localização e ‘poder social’
Localização e geração de identidade
Localização e transformação de utopia em topia
Localização e globalização
Localização e glocalização
Localização em disputa
Localização e revolução do local
Epílogo | Localização e desenvolvimento
Textos (excertos, transcrições e comentários)
Texto 1 |Castells e a ‘Galáxia da Internet’
Texto 2 |Held & McGrew e as variantes na política da
globalização
Texto 3 |A Carta da Terra
Texto 4 |Guéhenno, o fim da democracia e o futuro da
liberdade
Texto 5 | Bobbit e a emergência do Estado-mercado
Texto 6 | Small-World Networks: transformando o vasto
mundo em um mundo pequeno
Texto 7 | O recente experimento sobre Small-World de Peter
Dodds, Roby Muhamad e Duncan Watts
Texto 8 | Manzano e a ciência do local como ciência da
singularidade
Texto 9 | Beck e a aliança em favor da atividade
comunitária
10
Texto 10 | Local e global: as cidades na globalização
segundo Manuel Castells & Jordi Borja
Texto 11 | Michael Shuman e o ideário do localismo
Texto 12 | Offe e a sinergia entre Estado, mercado e
comunidade
Diagramas
Diagrama 1 | Variantes na política da globalização:
diagrama de Held-McGrew (2002)
Diagrama 2 | Variantes na política da globalização:
diagrama de Held-McGrew (2002) modificado por Franco
(2003)
Diagrama 3 | Variantes na política da localização
Introdução
Há uma mudança social em curso no mundo. Essa
mudança, que está na base do processo de globalização
atual, tem um duplo sentido. Um sentido “macro”, que
incide na dimensão planetária, e um sentido “micro”, que
incide na dimensão local. Até agora temos colocado ênfase
no sentido “macro”, sobretudo nas transformações
econômicas, tecnológicas, políticas e culturais que estão
ocorrendo em escala global (daí os novos termos em voga:
11
‘globalismo’, ‘globalidade’ e ‘globalização’) associadas à
uma emergente ‘sociedade cosmopolita global’. Não temos
percebido adequadamente, porém, as mudanças
silenciosas, muitas vezes subterrâneas, que estão
acontecendo na dimensão local e que estão provocando um
reflorescimento da perspectiva comunitária. Talvez porque
se trate de uma mudança fragmentada, dispersa, que ainda
não logrou constituir um ator, um interlocutor, uma
plataforma, uma justificativa teórica – o que, de resto,
jamais ocorrerá mesmo, porque a fragmentação e a
dispersão fazem parte da sua própria natureza.
Como temos mais dificuldade para pensar sem um padrão
de ordem preexistente (ou como não percebemos
facilmente a ordem emergente em sistemas complexos, a
ordem subjacente ao caos ou, ainda, como não
compreendemos o processo que o escritor americano de
ficção científica, Frank Herbert, resumiu na frase: “não
reunir é a derradeira ordenação”) (1), colocamos menos
ênfase nesse sentido “micro”, sobretudo nas
transformações sociais que estão ocorrendo em escala local
(daí a menor divulgação de termos como ‘glocalização’ e
‘localização’) associadas a um novo “corpo” (em rede) e a
um novo “metabolismo” (democrático-participativo)
emergentes em comunidades que estão se constituindo
neste momento em várias partes do planeta.
Ora, para perceber tais mudanças é necessário vê-las de
outra maneira. Para perceber o que mudou é preciso,
assim, ver o que mudou na nossa maneira-de-ver o que
mudou. Foi somente quando mudou a nossa maneira de
ver, que começamos a perceber o que está mudando em
termos sociais, as transformações que estão ocorrendo no
tecido íntimo das sociedades em virtude da germinação de
algumas práticas seminais e de algumas idéias seminais
sobre tais práticas.
Tão recente é o fenômeno que as pessoas ainda não estão
entendendo a profundidade e a abrangência da mudança. O
mundo realmente mudou... Mas a mudança mais
12
significativa de todas será – quando florescer – aquela que
foi semeada nos anos 90.
Para continuar com a metáfora da semente, podemos dizer
que os anos 80 foram anos de preparação da terra. Os anos
90 foram anos de semeadura. A primeira década do século
21 não será, ainda, de pleno florescimento – porém, em
grande parte, de germinação: o tempo em que o grão tem
que morrer. Por isso, ao que tudo indica, será uma era de
(aparente) retrocesso em vários campos e em vários
lugares, de recrudescimento do estatismo, da retomada de
velhos paradigmas de administração pública e de velhos
padrões de relação entre Estado e sociedade – e isso de
várias maneiras, patrocinadas por atores conflitantes e em
circunstâncias contraditórias. Assim, Bush (belicista) e o
Fórum Social Mundial (pacifista, pelo menos
instrumentalmente, para se opor às pretensões neo-
imperiais do atual belicismo norte-americano) impulsionado
este último, entre outros, por alguns segmentos da
esquerda estatista, no Brasil, fazem parte, provavelmente,
do mesmo fenômeno (muito embora o Fórum Social Mundial
seja, ele mesmo, um exemplo eloqüente dos aspectos
positivos do atual processo de globalização ao juntar, de
forma inédita, múltiplos setores de uma sociedade civil
mundial). É difícil compreender essas coisas porquanto
pensamos a partir do confronto de ideologias e não a partir
de (conceitos sobre) padrões de relacionamento. Achamos
que se alguém é “de esquerda” estará necessariamente no
pólo oposto aos que são “de direita”. Todavia, quando o
assunto é o protagonismo estatal (ou seja, um padrão de
relação definido entre Estado e sociedade no qual o Estado
está “sobre” a sociedade, relacionando-se com esta última
como se ela fosse o seu dominium), não percebemos que,
desse ponto de vista, em geral, ambos – os “de esquerda” e
os “de direita” – encontram-se freqüentemente no mesmo
pólo.
O canteiro para a semeadura dos anos 90 foi preparado
sobre os destroços do Muro de Berlim. Mas o ressurgimento
da perspectiva autocrática e guerreira do novo império
americano representa uma reação à queda dos muros (e
13
isso, ao que parece, não apenas em sentido simbólico:
basta ver, por exemplo, a ereção – em curso neste
momento em que escrevo – do muro de Sharon). Pior,
representa uma proliferação dos muros, agora – salvo no
triste caso acima – desmaterializados e incorporados à nova
paisagem mundial de vez que o inimigo tornou-se invisível
e onipresente e é preciso, portanto, estar-se protegido
contra ele a todo tempo e em qualquer lugar. Os primeiros
dez anos do nosso milênio serão, ao que tudo indica, para
usar a expressão poética da velha linguagem alquímica,
anos de nigredo: aqui ocorrerá a putrefactio, a mortificatio,
a ‘obra em negro’. Para os alquimistas, todavia, isso não era
motivo para desânimo. Pelo contrário, como diz um
antiqüíssimo texto (“O Rosário dos Filósofos”, de 1593):
“quando vires tua matéria enegrecer, rejubila-te: porque
esse é o início da obra” (2). Oxalá haja um paralelo
qualquer com nossa situação atual.
Mas vamos voltar aos anos 90, os anos de semeadura.
Foram os anos onde emergiu ou foi percebida mais
claramente a nova realidade de uma esfera pública não-
estatal. Foram os anos em que se verificou um crescimento
espantoso do chamado terceiro setor. Foram os anos da
Internet e das redes sociais. Foram anos em que se gestou
e experimentou um novo paradigma da administração
pública, a descentralização e os programas inovadores:
focalizados, flexíveis, que desencadeiam inovações capazes
de alterar seu desenho original, baseados em múltiplas
parcerias, preocupados com monitoramento e avaliação
constantes e voltados para a conquista da sustentabilidade.
Sobretudo – e essa talvez seja a sua característica mais
relevante – os anos 90 foram anos, conquanto marcados
por numerosos conflitos regionais e locais, sem-guerra
global, ou melhor, sem um “estado de guerra” (“quente” ou
“fria”) generalizado no mundo. Com efeito, entre 1991 e
2001, entre a derrocada da URSS e o atentado ao World
Trade Center, transcorreu a década na qual, como assinalou
Friedman (ainda em 1999), o sistema da guerra fria foi
substituído pelo que ele denominou de “sistema da
globalização” (3).
14
No Brasil e no mundo, a década de 1990 foi marcada pelo
surgimento ou pelo aparecimento, em um cenário mais
visível, de grandes novidades. No que diz respeito à uma
nova concepção de desenvolvimento, tema final do
presente livro, tais novidades podem ser identificadas por
algumas visões ou concepções e por algumas idéias ou
conceitos que não compareciam antes, ou que só se
desenvolveram depois, no final da década de 80 (as quais –
em muitos casos – ainda continuam emergindo e se
desenvolvendo).
Dentre tais concepções e idéias novas citaria aqui, em
primeiro lugar – por ordem de importância lógica ou
metodológica e não cronológica – a concepção sistêmica,
sobretudo a concepção dos sistemas complexos
adaptativos, trazendo consigo as idéias de sustentabilidade
como função de integração e como conservação da
adaptação. (É preciso ver que o Santa Fe Institute, fundado
pelo físico Murray Gell-Man em 1984, em 1987 começou a
pesquisar coletivamente a economia como sistema
complexo adaptativo, mas somente na década de 1990
pôde apresentar resultados mais significativos no tocante a
uma nova visão sistêmica sobre as interações sociais) (4).
Em segundo lugar, colocaria a hipótese da existência de
vários fatores do desenvolvimento – não como
externalidades, porém com o mesmo status de
centralidade, os quais foram interpretados, assim, como
outros tipos de “capitais” – e sobretudo o conceito de
capital social. Nos anos 90 surgiu a maior parte das teorias
do capital social, inclusive aquelas baseadas no suposto da
(ou na aposta na) capacidade da sociedade humana de
gerar ordem espontaneamente a partir da cooperação.
Em terceiro lugar, a idéia de cooperação e de
cooperatividade sistêmica como elementos sem os quais a
competição e a competitividade sistêmica levam a
crescimento concentrador e, portanto, a crescimento sem
desenvolvimento.
15
Em quarto lugar, a idéia da sociedade rede (é bom lembrar
que a obra principal de Castells – que melhor identificou tal
fenômeno – é um fruto dos anos 90), o desenvolvimento de
uma nova disciplina de análise das redes sociais (Social
Network Analysis), o surgimento das redes P2P e do
encurtamento do tamanho do mundo em virtude do
aumento da conectividade (‘small-world networks’) (5).
Em quinto lugar, a idéia da radicalização ou democratização
da democracia, da democracia em tempo real, democracia
digital ou cyberdemocracy, e a compreensão das relações
intrínsecas entre desenvolvimento e política; quer dizer, a
concepção de desenvolvimento como mudança social.
Em sexto lugar, a idéia de um novo padrão de relação
Estado-Sociedade que leva em conta a existência e o papel
estratégico, para o desenvolvimento, da nova sociedade
civil, ou seja, daquele conjunto de entes e processos extra-
estatais e extra-mercantis, também chamado recentemente
de terceiro setor.
Em sétimo lugar a compreensão do fenômeno complexo
chamado de globalização e a idéia de glocalização.
Em oitavo lugar o reflorescimento da perspectiva
comunitária, a ‘volta ao local’, a revolução do local e a
reformulação da idéia original de glocalização como
localização (ou seja, a idéia de que “o local conectado é o
mundo todo” – esta última, porém, já fruto dos primeiros
anos do terceiro milênio).
As inovações introduzidas, especialmente nos anos 90, na
maneira de ver a mudança social que agora interpretamos
como desenvolvimento, constituem apenas um exemplo.
Outros exemplos, semelhantes, poderiam ser encontrados
em outros campos. Desse exemplo, porém, devemos reter a
lição de que não se pode entender a globalização e não se
pode captar plenamente o sentido das mudanças em curso
no mundo atual se não se compreender a década de 1990 e
se não se compreender as mudanças na maneira-de-ver as
mudanças introduzidas na década de 1990.
16
Pois bem. A maneira linear e unívoca de ver as mudanças,
que procura sempre emparelhar fator-causa com
modificação-efeito, não nos permite ver as constelações de
múltiplos fatores interdependentes que co-originam as
transformações, entendidas como mudanças de estado de
um sistema complexo. Na maneira linear de ver, por
exemplo, achamos que a globalização é um fenômeno que
só se verifica no plano internacional, no relacionamento
entre realidades de dimensão mundial. Assim,
freqüentemente deixamos de ver que o aspecto global pode
estar presente em dimensões locais, no plano subnacional e
que, simultaneamente, aspectos locais podem estar
presentes na dimensão global.
Mas, como já assinalou Giddens, “é errado pensar que a
globalização afeta unicamente os grandes sistemas, como a
ordem financeira mundial. A globalização não diz respeito
apenas ao que está “lá fora”, afastado e muito distante do
indivíduo. É também um fenômeno que se dá “aqui dentro”,
influenciando aspectos íntimos e pessoais de nossas vidas...
A globalização não somente puxa para cima, mas também
empurra para baixo, criando novas pressões por autonomia
local” (6). Avançando mais nessa linha de raciocínio,
Giddens percebeu que “a globalização é a razão do
ressurgimento de identidades culturais locais em várias
partes do mundo” (7).
O fenômeno da globalização atual – disse ainda Giddens,
em outra ocasião –intensifica as “relações sociais em escala
mundial que ligam localidades distantes de tal maneira que
acontecimentos locais são modelados por eventos
ocorrendo a milhas de distância e vice-versa. Este é um
processo dialético porque tais acontecimentos locais podem
se deslocar em uma direção anversa às relações muito
distanciadas que os modelam”. Assim, ele conclui: “a
transformação local é tanto parte da globalização quanto a
extensão lateral das conexões sociais através do tempo e
do espaço” (8).
17
Com efeito, Manuel Castells assinalou como uma das
características dos movimentos sociais contemporâneos, o
fato de que, “cada vez mais, o poder funciona em redes
globais e as pessoas vivenciam e constroem seus valores,
suas trincheiras de resistência e suas alternativas em
sociedades locais. O grande problema que se coloca é
como, desde o local, se pode controlar o global, como, a
partir da minha vivência e da minha relação com o meu
mundo local, que é onde eu estou, onde eu vivo, posso me
opor à globalização, à destruição do meio ambiente, ao
massacre do Terceiro Mundo em termos econômicos. Como
se pode fazer isso? Pois bem, a Internet permite a
articulação dos projetos alternativos locais em protestos
globais, que acabam aterrizando em algum lugar, por
exemplo, em Seattle, Washington, Praga, etc., porém que
se constituem, se organizam e se desenvolvem a partir da
conexão pela Internet, que dizer, de uma conexão global,
de movimentos locais e de vivências locais. A Internet é a
conexão global-local, que é a nova forma de controle e de
mobilização social em nossa sociedade” (9).
Isso tudo talvez tenha um sentido mais profundo do que
parece à primeira vista. O significativo, aqui, é que o core
da globalização atual não é a expansão dos fenômenos
para uma escala global em si... mas a simultaneidade entre
global e local que ocorre em virtude da possibilidade da
conexão global-local. Ora, a conexão global-local só é
possível por intermédio das redes. São as redes, portanto, a
“chave” para entender a globalização. É a sociedade-rede o
fulcro de tudo e não o fato do mundo ser global porque
reproduz fenômenos semelhantes no conjunto do globo
terrestre, porque alguém come um Big Mac adaptado ao
sabor chinês em Nanquim ou manda e-mails da África
usando o Outlook Express traduzido para o inglês do
Zimbábue, ainda que essas coisas também ocorram em
virtude da conexão global-local.
Para usar os termos de Pierre Levy, a ‘aldeia global’
midiática (e “molar”) de Marshall McLuhan sugere o mundo
virando um local. A ‘sociedade-rede’ (“molecular”) de
Manuel Castells sugere cada local virando o mundo,
18
holograficamente (embora Castells, ao que eu saiba, não
possa ser responsabilizado por esta formulação). Uma frase
surgida em recente discussão na AED resume bem o ponto:
“o local conectado é o mundo todo”.
Para decifrar o enigma é preciso perceber a simultaneidade
dos processos de ‘globalização’ – e – ‘localização’, ou
melhor, o processo complexo de ‘globalização-e-
localização’, que está possibilitando o mundo virar um só
local e um só local virar o mundo todo.
Este texto é sobre isso.
Resumindo
Há uma mudança social em curso no mundo dos últimos
anos.
O aspecto mais visível dessa mudança é o que estamos
chamando de globalização. O que está acontecendo de fato
é uma glocalização. O que menos se vê (ou o que ainda não
se vê tão claramente), entretanto, é a localização.
Com o objetivo de mostrar que a volta ao local, em uma
época de globalização, está se afirmando como uma
alternativa de indução ao desenvolvimento que promete
transformar milenares relações políticas e sociais de
dominação, vamos elencar 23 proposições para uma
exposição ordenada.
Sobre a globalização
1 – O fenômeno da globalização é separável da ideologia
mercadocêntrica que acompanhou as primeiras tentativas
de conceitualizá-lo.
2 – A globalização não é um fenômeno exclusivamente
econômico.
19
3 – Não poderemos compreender adequadamente o que é a
globalização enquanto não nos desvencilharmos de visões
mercadocêntricas e estadocêntricas. Porque a globalização
é, fundamentalmente, um fenômeno da (uma mudança
global na) sociedade.
4 – O novo ambiente político mundial e a inovação
tecnológica que têm possibilitado o surgimento do
fenômeno que interpretamos como globalização é
acompanhado por uma mudança social em sentido amplo
(ou seja, no sentido “micro”, relativo ao “corpo” e ao
“metabolismo” das sociedades, isto é, aos padrões de
organização e aos modos de regulação de conflitos; e no
sentido “macro”, cultural-civilizacional), interagindo, todos
esses fatores, em um mesmo processo de “co-originação
dependente”.
5 – A globalização é um fenômeno irreversível. Ao que ela
vai levar, contudo, depende da evolução do sistema diante
da bifurcação que se defronta na atualidade.
6 – A globalização é inédita: está criando algo que nunca
existiu antes.
7 – A globalização não é uma ordem, mas um processo de
desconstituição da velha ordem.
8 – “A saída democrática para a crise atual exige mais
globalização e não menos globalização” (Giddens, 2001)
(10).
9 – A globalização está em disputa e essa disputa não é
somente entre os neoliberais (favoráveis) e os estatistas
(contrários), mas envolve uma diversidade de posições
variantes e conforma novos campos políticos de
convergência que superam tal contradição.
10 – Não se pode captar plenamente o sentido do processo
se não se compreender que a globalização é,
simultaneamente, uma localização do mundo e uma
20
mundialização do local; ou seja, é uma ‘glocalização’ (mas
não exatamente no sentido do marketing, que foi atribuído
pelos economistas japoneses que inventaram o termo no
final da década de 1980 e nem apenas nos sentidos que lhe
atribuiu seu principal divulgador, Roland Robertson, a partir
de meados dos anos 90).
Sobre a glocalização
11 – A glocalização é uma planetarização e uma
comunitarização.
12 – A glocalização está em disputa e essa disputa é,
fundamentalmente, uma disputa entre o ‘local separado’ e
o ‘local conectado’, entre ‘dependência x independência’,
por um lado e ‘interdependência’, por outro.
13 – O Estado não vai desaparecer na transição histórica
atualmente em curso, senão que será transformado, mas
não é certo se tal transformação será necessariamente
glocalizante. O destino da forma atual do Estado-nação está
em disputa e essa disputa é a mesma disputa que se trava
em torno da glocalização.
14 – Assim como foi necessário utilizar um novo conceito (o
de ‘globalização’) para entender as mudanças que estão
ocorrendo na dimensão global, torna-se também necessário
gerar outro conceito (o de ‘localização’) para entender as
mudanças que estão ocorrendo coetaneamente na
dimensão local. Como as duas coisas constituem aspectos
do mesmo processo de glocalização ou de emersão da
realidade glocal, isso significa que a glocalização confere
um novo status ao local que, para ser revelado, exige
também um novo construct e uma nova hipótese: a
hipótese (no sentido “forte”) da ‘localização’.
21
Sobre a localização
15 – O local é necessariamente o pequeno, mas não no
sentido territorial ou populacional e sim no sentido daquilo
que foi tornado pequeno por força de alta “tramatura”
social.
16 – Quanto mais conectado é o mundo menor ele é, porém
mais potente socialmente ele é (small is powerful).
17 – Localização não significa isolamento, mas um campo
configurado com certo grau de estabilidade para permitir a
conservação e a reprodução de uma mesma dinâmica
endógena.
18 – Localizar não é encontrar um local, é criar um local.
19 – Globalização do local tende a ser igual a localização do
global.
20 – Localidades tendem a se tornar holografias do planeta
à medida que reflorescem comunidades no mundo
globalizado.
21 – A localização está em disputa e essa disputa tenderá a
pautar, em futuro próximo, os embates políticos dentro do
Estado-nação.
22 – A localização é o aspecto objetivo da revolução do
local, enquanto que seu aspecto subjetivo é a existência de
uma crescente variedade de agentes, conectados em rede
e dedicados a promover movimentos sociais de resistência
e de geração de identidade – que dão origem a
comunidades de projeto – a partir das novas temáticas do
ambientalismo, dos direitos humanos e da cidadania, do
feminismo, do ecumenismo e do pacifismo, do
fortalecimento da sociedade civil e da promoção do
voluntariado e, sobretudo, dedicados ao experimentalismo
inovador que se desenvolve em torno de processos de
22
democracia participativa em redes sociais e de indução ao
desenvolvimento integrado e sustentável, sistemas sócio-
produtivos e de sócio-economia alternativa ou solidária,
ensaiados em escala local.
23 – A volta ao local, em uma época de globalização, está se
afirmando como uma alternativa de indução ao
desenvolvimento que promete transformar milenares
relações políticas e sociais de dominação.
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Herbert, Frank (1969). O Messias de Duna. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1985.
(2) Moya, Miguel Angel Muñoz (ed.) (1986). “El Rosário de los
filósofos”. Barcelona: Muñoz Moya y Montraveta, 1986.
(3) Friedman, Thomas L. (1999). O Lexus e a Oliveira. Rio de Janeiro:
Objetiva, 1999.
(4) http://www.santafe.edu/
(5) Cf. Texto 6 e Texto 7
(6) Giddens, Anthony (1999). Mundo em descontrole. Rio de Janeiro:
Record, 2000.
(7) Idem.
(8) Giddens, Anthony (1990). As conseqüências da modernidade. São
Paulo: Editora Unesp, 1991.
(9) Castells, Manuel (2002). “A Internet e a Sociedade Rede”.
http://campus.uoc.es/web/cat/index.html.
(10) Giddens, Anthony (2001). “O fim da globalização?”. Brasília:
Correio Braziliense, 04/10/2001.
23
Capítulo Um | Globalização
24
Entendendo a globalização
Conquanto seja possível tecer inumeráveis análises dos
diferentes aspectos econômicos, tecnológicos e culturais da
globalização, não é muito fácil chegar a uma compreensão
global do fenômeno.
Grande parte das análises disponíveis não dá conta de
captar o fenômeno da globalização no que ele tem de
inédito. Essas análises são, em geral, fragmentadas,
porquanto se baseiam em visões desfocadas: quer, por um
lado, por uma certa euforia mercadocêntrica; ou quer, por
outro lado, por reações estadocêntricas.
É preciso ver que o conceito de ‘globalização’ surgiu no
marketing e, só depois, foi incorporado e recuperado por
outras disciplinas. Já havia uma proto-ideologia (que Beck
chama de “globalismo” e quase todo mundo chama de
neoliberalismo) embutida no conceito inicial (1). Fomos
apresentados ao tema da globalização (ou introduzidos na
25
sua problemática) a partir de pontos de vista totalmente ou
predominantemente mercadocêntricos. Na seqüência veio a
crítica sociológica, da sociologia política baseada,
sobretudo, na sociologia econômica. Essa crítica, ao
desvelar a ideologia presente na visão inicial, se constituiu,
muitas vezes, como uma rejeição do conceito e, não raro,
como uma reação ao próprio fenômeno objetivo que o
conceito (a idéia de globalização) queria captar. Assim, a
crítica ao conceito transformou-se, em parte, em uma
estiolante disputa (ideologizada) entre ideologias,
contrapondo uma visão contra-liberal à visão neoliberal,
uma perspectiva estadocêntrica àquel’outra,
mercadocêntrica. Entrementes, o fenômeno mesmo, na sua
integralidade e naquilo que lhe poderia conferir caráter
distintivo de outros fenômenos sociais, passava (quase)
despercebido.
Todavia, para entrar de fato no assunto é preciso partir da
pergunta: qual é o fenômeno que está ocorrendo no mundo
dos últimos anos e que estamos interpretando como
globalização? O mercado financeiro, as multinacionais, o
terrorismo internacional, a indústria do entretenimento, o
McDonalds, a CNN, a Internet – tudo isso sugere que o
mundo está vivendo uma nova época ou passando por um
processo de mudança que foi chamado de globalização.
Em primeiro lugar é preciso responder se está ou não está
havendo tal mudança, que tipo de mudança é essa, qual a
sua profundidade e abrangência e qual o seu sentido.
Existem pessoas que acham que não está havendo
mudança alguma significativa ou, pelo menos, alguma que
mereça atenção especial. O mundo já teria passado por
várias globalizações, desde a era dos descobrimentos e até
antes.
Existem pessoas que acham que a mudança é de natureza
fundamentalmente tecnológica e que são as novas
máquinas que estão introduzindo novos comportamentos.
Existem pessoas que acham que a mudança atual decorre
da liberação das forças de mercado que, pela primeira vez,
26
estão podendo expressar toda a sua capacidade destrutiva-
criativa sem as peias impostas pelas regulações
normativas, heterônomas e exógenas, provenientes do
antiquado Estado-nação.
Existem pessoas que acham que tudo não passa de uma
tentativa das grandes corporações transnacionais para
dominar o mundo, o que vai acabar configurando uma
realidade social mundial composta por algumas ilhas de
alto desenvolvimento tecnológico, fortemente protegidas,
em um mar de pobreza e exclusão.
E existem pessoas que acham que tudo se explica por tal
ou qual combinação de todos ou de alguns desses fatores:
um pouco disso, um pouco daquilo.
Parto do princípio de que não é possível compreender a
globalização se não se admitir que há uma mudança em
curso no mundo, tão profunda e abrangente como talvez
jamais tenha ocorrido antes na história conhecida. Como
disse Giddens “a globalização não é um acidente em nossas
vidas hoje. É uma mudança de nossas próprias
circunstâncias de vida. É o modo como vivemos agora” (2).
Essa mudança é de natureza social. Ultrapassando as
fronteiras dos Estados nacionais, ela está gerando um novo
tipo de sociedade no mundo. Uma nova sociedade está
sendo criada. Como sustenta Giddens, está sendo criado
“algo que nunca existiu antes, uma sociedade cosmopolita
global” (3). E, como escreveu Thompson, “uma nova cultura
planetária está surgindo juntamente com a nossa nova
economia globalizada” (4).
Creio que é necessário insistir nesse ponto de partida da
análise. Uma nova sociedade está sendo criada. Ela
começou a ser gestada depois da Segunda Guerra, foi se
configurando internamente (ou tomando corpo, como
embrião, ainda no ventre da velha sociedade) a partir do
final dos anos 60, mas só obteve os recursos técnicos e as
condições políticas para vir à luz a partir do final dos anos
80.
27
A mudança em curso, por certo, é social, mas em um
sentido amplo, ou seja: no sentido “micro”, relativo ao
“corpo” e ao “metabolismo” das sociedades, isto é, aos
padrões de organização e aos modos de regulação de
conflitos; e no sentido “macro”, cultural-civilizacional.
Todavia, conquanto o processo de globalização seja
irreversível e conquanto o seu sentido geral seja o da
conformação de uma nova configuração planetária, não é
certo a que lugar ele levará. O mundo se encontra diante
de uma bifurcação e tanto pode avançar, como supõe
Thompson, “na transição da era de uma economia industrial
global de Estados-nações territoriais para uma ecologia
cultural planetária de sistemas de governança noéticos”
(5), quanto pode retroceder para formas autoritárias, com
um recrudescimento do estatismo que tenderá a reinstaurar
a velha ordem do “estado de guerra” em âmbito planetário,
baseada em novos complexos-pólos pós-industriais
militares de alta tecnologia.
Com efeito, sucedendo os promissores sinais de
globalização política pós-guerra fria, surgidos sobretudo nos
anos 90, os primeiros anos do terceiro milênio apontam
para um retrocesso, com o recrudescimento do velho
estatismo. Como tive oportunidade de escrever seis dias
depois do atentado ao World Trade Center, “se a ‘America’s
new war’ se generalizar, haverá, certamente, um retrocesso
no fortalecimento da sociedade civil e no processo de sua
mundialização, bem como uma contração da esfera pública,
sobretudo da emergente esfera pública não-estatal – a
novidade mais importante desta passagem, que estamos
vivendo, para o novo milênio, na transição da sociedade
hierárquica para uma sociedade em rede” (6).
Neste capítulo vamos ver que o fenômeno da globalização é
separável da ideologia mercadocêntrica que acompanhou
as primeiras tentativas de conceitualizá-lo. Que a
globalização não é um fenômeno exclusivamente
econômico. Que não poderemos compreender
adequadamente o que é a globalização enquanto não nos
28
desvencilharmos de visões mercadocêntricas e
estadocêntricas (de vez que a globalização é,
fundamentalmente, um fenômeno da – uma mudança
global na – sociedade).
Vamos ver ainda que o novo ambiente político mundial e a
inovação tecnológica que têm possibilitado o surgimento do
fenômeno que interpretamos como globalização é
acompanhado por uma mudança social em sentido amplo
(ou seja, no sentido “micro”, relativo ao “corpo” e ao
“metabolismo” das sociedades, isto é, aos padrões de
organização e aos modos de regulação de conflitos; e no
sentido “macro”, cultural-civilizacional), interagindo, todos
esses fatores, em um mesmo processo de “co-originação
dependente”.
Em seguida vamos ver por quê a globalização é um
fenômeno irreversível (conquanto ao que ela vai levar,
dependa da evolução do sistema diante da bifurcação que
se defronta na atualidade). Por quê a globalização é inédita:
está criando algo que nunca existiu antes. Por quê a
globalização não é uma ordem, mas um processo de
desconstituição da velha ordem. E por quê, como disse
Giddens, “a saída democrática para a crise atual exige mais
globalização e não menos globalização” (7). E ainda, por
quê a globalização está em disputa e quais são as forças
políticas que se confrontam ou se defrontam hoje no
cenário internacional.
Por último, lançando uma ponte para o capítulo seguinte,
vamos interrogar por quê não se pode captar plenamente o
sentido do processo se não se compreender que a
globalização é, simultaneamente, uma localização do
mundo e uma mundialização do local; ou seja, é uma
‘glocalização’ (mas não exatamente no sentido do
marketing, que foi atribuído pelos economistas japoneses
que inventaram o termo no final da década de 1980 e nem
apenas nos sentidos que lhe atribuiu seu principal
divulgador, Roland Robertson, a partir de meados dos anos
90) (8).
29
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Beck, Ulrich (1998). O que é globalização? São Paulo: Paz e Terra,
1999.
(2) Giddens, Anthony (1999). Mundo em descontrole. Rio de Janeiro:
Record, 2000.
(3) Idem.
(4) Thompson, William Irwing (2001). “Cultural History and Complex
Dynamical Systems” in Transforming History: a Curriculum for
Cultural Evolution. MA: Lindisfarne Books, 2001.
(5) Idem.
(6) Franco, Augusto (2001). “A ‘America’s new war’ e o
recrudescimento do velho estatismo”:
http://www.augustodefranco.org/conteudo.php?cont=textos&id=P24
(7) Giddens, Anthony (2001). “O fim da globalização?”. Brasília:
Correio Braziliense, 04/10/2001.
(8) Ver Capítulo 2.
Globalização e neoliberalismo
O fenômeno da globalização é separável da
ideologia mercadocêntrica que acompanhou as
primeiras tentativas de conceitualizá-lo.
Embora o termo ‘globalismo’ já figure no dicionário Webster
desde 1943 e embora a idéia de que vivemos em uma
“aldeia global” tenha sido introduzida, para captar o
impacto das novas tecnologias de comunicação em nossas
vidas, por Marshall McLuhan, em 1962 (no livro “A Galáxia
de Gutemberg”), a palavra ‘globalização’, com a sua
conotação atual, foi utilizada pela primeira vez em 1983,
por Theodore Levitt, em um artigo de dez páginas intitulado
“A Globalização dos Mercados”, publicado pela Harvard
Business Review (em 1o
de maio de 1983). No entanto,
30
Levitt não poderia ter, àquela época, a dimensão plena do
fenômeno que hoje chamamos de globalização. Ele estava
detectando um importante sinal: a convergência dos
mercados do mundo. “Em todas as partes – escreveu Levitt
– a mesma coisa é vendida e da mesma forma” (1).
Mas conquanto Levitt tivesse introduzido o termo
‘globalização’ em 1983, ele só foi popularizado em 1990,
com a publicação do livro “O Mundo Sem Fronteiras: Poder e
Estratégia na Economia Interligada” de Kenichi Ohmae (2).
É significativo que tanto o introdutor do tema quanto o seu
principal divulgador tenham encarado o fenômeno do ponto
de vista da racionalidade mercantil. Também é significativo
que ambos pareciam estar especialmente interessados em
extrair, das novas tendências que lograram perceber,
orientações para a gestão empresarial e para o marketing.
O livro de Ohmae, por exemplo, tinha como subtítulo:
“Lições de gerenciamento na nova lógica do mercado
global”. Ohmae acreditava que a globalização constituía
uma nova etapa no desenvolvimento das multinacionais.
Ele imaginou que as multinacionais acabariam evoluindo
para formas de gestão integrada em escala mundial e que
isso as levaria a estabelecer, segundo seus próprios
interesses, as novas regas do jogo global, tornando
obsoleto inclusive o papel do Estado-nação. Com efeito, em
1995, Ohmae lançou outro livro (“O Fim do Estado-Nação”),
que tinha como subtítulo: “Como o Capital, as Corporações,
os Consumidores e a Comunicação estão reformatando os
mercados globais” (3).
Fomos, assim, como já assinalei, apresentados ao tema
(e/ou introduzidos na problemática) da globalização a partir
de pontos de vista ou totalmente ou predominantemente
mercadocêntricos.
Evidentemente, vários pesquisadores logo descobriram que
o fenômeno era muito mais complexo do que simplesmente
uma globalização dos mercados. Entretanto, a maior parte
dos que escreveram sobre o tema na primeira e até, às
vezes, na segunda metade da década de 90, ainda
31
conferiam um peso bastante destacado ao fator econômico,
talvez porque, juntamente com o processo de globalização
em si, ocorria também, como fenômeno acompanhante, a
emersão de uma ideologia (e de uma euforia)
mercadocêntrica.
Globalismo, globalidade e globalização
Ulrich Beck, por exemplo, em 1998, (em “O que é
globalização?”), fez uma distinção entre globalismo,
globalidade e globalização. Globalismo seria a ideologia do
domínio (mundial) do mercado (sobre as demais esferas da
realidade social), ou seja, o neoliberalismo (correspondendo
mais ou menos ao que eu chamo de perspectiva
mercadocêntrica ou mercadocentrismo). Globalidade se
referiria ao reconhecimento de que já vivemos em uma
sociedade mundial, na qual há diversidade sem unidade –
uma realidade irreversível, segundo ele, em virtude da
conjunção de vários fatores ou motivos. Globalização, por
sua vez, seria uma denominação genérica para os
processos pelos quais os Estados nacionais sofrem a
interferência cruzada de atores transnacionais em todos os
campos (soberania, identidade, redes de comunicação,
chances de poder e orientações políticas). A globalização
seria, assim, uma “sociedade mundial sem Estado mundial
e sem governo mundial”, uma nova forma global de
capitalismo, desorganizado, na qual “não há poder
hegemônico ou regime internacional econômico ou
político”. Por isso, a globalização desencadeia um
movimento contrário de defesa do Estado (social ou
nacional) contra a invasão do mercado mundial (4).
Ora, se reconhecemos que existe uma realidade social
objetiva (chamada de “globalidade”, como quer Beck ou,
simplesmente, de “sociedade cosmopolita global”, como
prefere Giddens), então é óbvio que o fenômeno da
globalização é separável da ideologia mercadocêntrica
(globalista em temos econômicos ou neoliberal) que
acompanhou as primeiras tentativas de conceitualizá-lo.
32
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Levitt, Theodore (1983). “The Globalization of Markets” in Harvard
Business Review (May 1, 1983).
(2) Ohmae, Kenich (1990). The Borderless World. New York: Harper &
Row, 1990.
(3) Ohmae, Kenich (1995). O fim do Estado-Nação. Rio de Janeiro:
Campus, 1996 (orig. The End of the Nation State: How Region States
Harness the Prosperity of the Global Economy. Free Press, McMillan,
Inc., May 1995).
(4) Beck, Ulrich (1998). O que é globalização? São Paulo: Paz e Terra,
1999.
33
Globalização e capitalismo
A globalização não é um fenômeno exclusivamente
econômico.
Na segunda metade da década de 90 começaram a
aparecer também outros pontos de vista sobre a
globalização, que pagavam menos tributos ao reducionismo
da visão econômica. Pesquisadores como Anthony Giddens,
David Held, Anthony McGrew e Manuel Castells, entre
outros, começaram a ver que o fenômeno não se restringia
ao aspecto exclusivamente econômico, como continuaram
enfatizando alguns organismos financeiros (como o FMI e,
até os dias de hoje, os seus críticos, de esquerda ou de
direita – inclusive alguns de seus antigos funcionários, como
Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001, para o
qual, em suma, quando alguém fala de globalização está se
referindo a “remoção das barreiras ao livre comércio e a
maior integração das economias nacionais”) (1).
No final do século passado, Anthony Giddens (1999) já
havia considerado um erro ver a globalização como um
“fenômeno quase exclusivamente em termos econômicos...
A globalização – escreveu ele – é política, tecnológica e
cultural, tanto quanto econômica” (2). Outros
pesquisadores, por sua vez, começaram a perceber que o
fenômeno da globalização tinha raízes mais antigas (uma
parte das quais, talvez a mais significativa, lançada uns dez
anos antes da “descoberta” de Levitt) e só começou a se
revelar de fato, naquilo que tinha de mais inédito e
surpreendente, uns dez anos depois da publicação do “A
Globalização dos Mercados”.
34
Pois bem. Afirmei acima que para analisar corretamente o
processo de globalização é preciso admitir, como ponto de
partida, que uma nova sociedade está sendo criada. Ela
começou a ser gestada depois da Segunda Guerra, foi se
configurando internamente (ou tomando corpo, como
embrião, ainda no ventre da velha sociedade) a partir do
final dos anos 60, mas só obteve os recursos técnicos e as
condições políticas para vir à luz a partir do final dos anos
80.
A conjunção desses dois fatores, no dealbar dos anos 90,
possibilitou uma mudança tão rápida no funcionamento da
sociedade humana em nível global, como jamais se viu na
história. Creio ser essa mudança o fenômeno que
interpretamos atualmente como globalização.
Inovação tecnológica e condições políticas
favoráveis
Com efeito, as inovações tecnológicas que possibilitaram o
atual processo de globalização surgiram na década de
1970, com a revolução das TICs (tecnologias de informação
e comunicação). Por um lado, com o surgimento dos
primeiros satélites de órbita estacionária, que viabilizaram
a comunicação em tempo real entre dois pontos quaisquer
do planeta (e, depois, da fibra ótica, da transmissão
eletromagnética em uma faixa maior de freqüências, da
utilização do laser, da telefonia digital etc.). E, por outro
lado, com a invenção do microprocessador e do
microcomputador. A união, sinérgica, dessas duas
tecnologias, possibilitou que pessoas pudessem se conectar
com pessoas superando as barreiras do tempo e do espaço.
No entanto, tudo isso somente veio a ocorrer, em escala
significativa, vinte anos depois, em meados da década de
1990, por meio de uma rede de redes de computadores
capazes de se comunicar entre si chamada Internet.
35
Simultaneamente, as condições políticas que permitiram
que o atual processo de globalização ocorresse, só se
reuniram a partir da queda do Muro. Nesse aspecto tinha
razão Thomas Friedman quando disse, em 1999, que “o
mundo vagaroso, estável e fragmentado da Guerra Fria, que
dominara o cenário internacional desde 1945, foi
substituído por um novo e bem lubrificado sistema
interconectado, chamado globalização” (3). Para Friedman,
“a globalização é o sistema internacional que substituiu o
sistema da Guerra Fria”, no qual os Estados-nações
detinham em suas mãos a quase totalidade da capacidade
ordenadora (4).
Difusão mundial do capitalismo
Embora enfatize a importância das condições políticas, a
visão de Thomas Friedman ainda é centrada
predominantemente no mercado, sobretudo na combinação
de livre mercado com inovação tecnológica. Para ele “a
idéia que dá impulso à globalização é o capitalismo de livre
mercado – quanto maior a liberdade de atuação das forças
de mercado e quanto mais ampla a abertura da economia
para o livre comércio e para a competição, mais eficiente e
mais próspera será a economia. A globalização significa a
difusão do capitalismo de livre mercado para praticamente
todos os países do mundo. A globalização também conta
com o seu próprio conjunto de regras de economia –
normas que giram em torno da abertura, da
desregulamentação e da privatização da economia” (5).
Friedman, como se vê – e ele não esconde – está possuído
por aquela ideologia que Ulrich Beck chama de ‘globalismo’.
Para se deixar possuir por tal ideologia é necessário, antes
de qualquer interpretação do fenômeno da globalização
como triunfo do liberalismo, aderir à crença de que o
capitalismo de livre mercado constitui a alternativa mais
eficaz de organização social.
36
Visões como essa, evidentemente, geraram e continuam
gerando fortíssimas reações por parte daqueles que não
têm motivos para aderir a tal crença (seja porque já
abraçaram utopias igualitárias, seja porque já estão
suficientemente impregnados por ideologias contrárias,
baseadas no papel suficiente do Estado como protagonista
único e exclusivo do processo de organização das
sociedades); e também por parte daqueles que, como
registrou o próprio Friedman, “foram violentados ou
deixados para trás pelo novo sistema” (6).
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Stiglitz, Joseph (2002). A globalização e seus malefícios. São Paulo:
Futura, 2003.
(2) Giddens, Anthony (1999). Mundo em descontrole. Rio de Janeiro:
Record, 2000. Anthony Giddens considerou um erro ver a globalização
como um “fenômeno quase exclusivamente em termos econômicos...
A globalização é política, tecnológica e cultural, tanto quanto
econômica”. Para Giddens as mudanças em curso no mundo atual
“estão criando algo que nunca existiu antes, uma sociedade
cosmopolita global. Somos a primeira geração a viver nessa
sociedade, cujos contornos até agora só podemos perceber
indistintamente. Ela está sacudindo nosso modo de vida atual, não
importa o que sejamos. Não se trata – pelo menos no momento – de
uma ordem global conduzida por uma vontade humana coletiva. Ao
contrário, ela está emergindo de uma maneira anárquica, fortuita,
trazida por uma mistura de influências... A globalização não é um
acidente em nossas vidas hoje. É uma mudança de nossas próprias
circunstâncias de vida. É o modo como vivemos agora”. Assim, para
Giddens, “é errado pensar que a globalização afeta unicamente os
grandes sistemas, como a ordem financeira mundial. A globalização
não diz respeito apenas ao que está “lá fora”, afastado e muito
distante do indivíduo. É também um fenômeno que se dá “aqui
dentro”, influenciando aspectos íntimos e pessoais de nossas vidas...
A globalização não somente puxa para cima, mas também empurra
para baixo, criando novas pressões por autonomia local. O sociólogo
americano Daniel Bell descreve isso muito bem quando diz que a
nação se torna não só pequena demais para resolver os grandes
problemas, como também grande demais para resolver os
pequenos”. Avançando mais nessa linha de raciocínio, Giddens
percebe que “a globalização é a razão do ressurgimento de
identidades culturais locais em várias partes do mundo”.
37
(3) Friedman, Thomas L. (1999). O Lexus e a Oliveira. Rio de Janeiro:
Objetiva, 1999. Mais adiante veremos que a queda do Muro é um
evento cujas conotações simbólicas são muito mais profundas e
abrangentes do que parecem à primeira vista. A queda do Muro de
Berlim representa a queda de muitos outros muros, o fim de muitas
separações, ou seja, da ausência de múltiplos caminhos... É, em certo
sentido, uma dessacralização do mundo (sagrado = separado), ou
seja, uma des-hierarquização (de vez que a hierarquia constitui-se
sempre como uma ordem sacerdotal, quer dizer, sagrada),
caracterizada pela existência de caminhos únicos. A possibilidade da
conexão em rede – ou seja, da existência de múltiplos caminhos – foi,
aqui, o fator-chave.
(4) Idem.
(5) Idem-idem.
(6) Ibidem.
38
Globalização e fundamentalismos laicos
(de mercado e de Estado
Não poderemos compreender adequadamente o
que é a globalização enquanto não nos
desvencilharmos de visões mercadocêntricas e
estadocêntricas. Porque a globalização é,
fundamentalmente, um fenômeno da (uma
mudança global na) sociedade.
A visão de Friedman, conquanto (como frisei
anteriormente), tenha o mérito de reconhecer a dimensão
política da globalização como processo de mudança ora em
curso no mundo, é claramente mercadocêntrica. Ele não se
pergunta se alguma coisa (e que tipo de coisa) mudou no
desenho da sociedade civil e nos seus padrões de
relacionamento com o Estado e com o mercado, para
permitir que a conjunção de inovação tecnológica com livre
mercado, sob condições políticas favoráveis – com o fim do
sistema de “muros” da guerra-fria “que dividia todo o
mundo” e a introdução da ‘www’ (World Wide Web) “que
une todo o mundo” – pudesse assumir uma dimensão
planetária, alterando o antigo equilíbrio do sistema global
(1).
Partindo de pressupostos semelhantes aos de Friedman,
muita gente tenta explicar a globalização a partir do
mercado, imaginando talvez que alguma coisa como uma
39
acumulação ou incubação de forças econômicas,
represadas politicamente durante 40 anos e sem meios
técnicos para se expressar, de repente, quando as
condições (políticas e técnicas) foram favoráveis, tivesse
irrompido à luz do dia. Nas explicações dessas pessoas os
comportamentos e as normas sociais são, por certo,
alterados por tal fenômeno, mas o fenômeno em si mesmo
não é explicado pela alteração da estrutura e da dinâmica
social, por mudanças no “corpo” e no “metabolismo” das
sociedades e nem por mudanças culturais-civilizacionais. É
como se as forças de mercado tivessem um
comportamento autônomo, uma dinâmica imanente,
inerente apenas à sua própria “esfera” e não fossem
construídas historicamente pela experiência concreta das
sociedades humanas.
Por outro lado, os que se contrapõem a essa visão, em geral
também não fazem tais perguntas e não tentam investigar
o que mudou na sociedade para produzir o fenômeno.
Reagem à ideologia ‘globalista’ (neoliberal) com uma outra
ideologia, simetricamente posta, contraliberal: o estatismo.
A cruzada estatista contra o neoliberalismo
No afã de resistir às mudanças, introduzidas em especial a
partir dos anos 90, no padrão de relação Estado-sociedade,
a luta contra a globalização assumiu assim, em grande
parte, a feição ideológica de uma cruzada contra o
chamado neoliberalismo.
O estatismo (ou estadocentrismo) imagina a sociedade
como dominium do Estado. Imagina que o Estado não só
detém mas deve deter eternamente o monopólio do
público. Imagina, hobbesianamente, que o Estado deve ser
o supremo regulador dos conflitos sociais. E imagina, em
alguns casos, que o Estado deva ser o protagonista único e
exclusivo das mudanças sociais.
40
Ora, para quem pensa dessa maneira não pode mesmo
haver ameaça maior do que a globalização. Porque a
globalização ameaça de fato o velho status do Estado-
nação. Todavia, os que se deixaram impregnar pela
ideologia estatista deveriam parar e perguntar: qual é
mesmo o problema para a sociedade humana? O fato de
estarmos entrando em contato com realidades que não
podem mais ser adequadamente enfrentadas pelas
tradicionais estruturas políticas nacionais e pelos sistemas
de governança atuais, não deveria significar que,
necessariamente, está indo tudo por água a baixo. Deveria
significar, isso sim, que temos pela frente a imensa tarefa
de reconstruir novas estruturas e novos sistemas que dêem
conta de enfrentar os novos desafios.
Globalidade irreversível
Beck lista oito motivos que tornam a globalidade
irreversível:
“1) ampliação geográfica e crescente interação do comércio
internacional, a conexão global dos mercados financeiros e
o crescimento do poder das companhias transnacionais.
2) A ininterrupta revolução dos meios tecnológicos de
informação e comunicação.
3) A exigência, universalmente imposta, por direitos
humanos – ou seja, o princípio (do discurso) democrático.
4) As correntes icônicas da indústria cultural global.
5) A política mundial pós-internacional e policêntrica – em
poder e número... com uma quantidade cada vez maior de
atores transnacionais (companhias, organizações não-
governamentais, uniões nacionais).
6) A questão da pobreza mundial.
41
7) A destruição ambiental mundial.
8) Conflitos transculturais localizados” (2).
A esta lista poderíamos acrescentar outros tantos itens que
comparecem na nova realidade do mundo globalizado e
que, de algum modo, estão associados aos desafios para os
quais o velho sistema de Estados-nações não está
preparado:
1’) A volta ao local, ou o reflorescimento da perspectiva
comunitária como alternativa de desenvolvimento,
revelando a inadeqüabilidade do Estado-nação para
interagir com as peculiaridades dos processos locais. Como
assinalou Daniel Bell: a nação se tornou, simultaneamente,
pequena demais para resolver os grandes problemas e
grande demais para resolver os pequenos. Como exemplos
poderíamos citar, no primeiro caso, as questões ambientais
e as questões relacionadas aos direitos humanos, que
ultrapassam os fronteiras nacionais; e, no segundo caso, as
questões, sobretudo políticas, relacionadas ao
desenvolvimento local (que questionam as cadeias
clientelistas de intermediação de recursos públicos que
sustentam todo o sistema político).
2’) O terrorismo internacional, a lavagem de dinheiro e os
paraísos fiscais, o narcotráfico e os tráficos de armas, de
nascituros e crianças para adoção ilegal, de pessoas para
prostituição ou trabalho forçado e de órgãos.
3’) A incapacidade do Estado-nação de reprimir as novas
dimensões coletivas da criminalidade e o questionamento e
a deslegitimação – na prática de milícias, gangues, grupos
separatistas – do monopólio da violência por parte do
Estado.
4’) A produção de armas de destruição em massa,
sobretudo as nucleares, químicas e biológicas (mas
também as de altíssima tecnologia, como as
eletromagnéticas) nas mãos de países autocráticos e nas
mãos de grandes potências com pretensões imperiais.
42
5’) As ameaças à paz mundial representadas pela velha
noção de soberania (como vem revelando atualmente as
insanidades do grupo belicista que ascendeu ao poder nos
USA com George W. Bush e as novas ideologias perversas
urdidas e difundidas por esse grupo, como, por exemplo, a
doutrina da preempção ou da guerra preventiva).
6’) As novas doenças endêmicas e pandêmicas,
provavelmente causadas por uma intervenção antrópica
desarmonizante no meio ambiente natural (como a malária
amazônica resultante de desmatamento e as viroses da
“zona quente” da África subsaariana).
7’) O colapso da política nacional baseada no sistema de
representação, ou seja, o esgotamento e a perda de
legitimidade das democracias realmente existentes
(transformando os processos de eleição de governantes e
legisladores, como diz Thompson, em uma espécie de
“cruzamento do entretenimento, dos esportes
televisionados e da gestão de celebridades na cultura
popular da ilusão compartilhada...” (3).
8’) A exarcebação de fundamentalismos religiosos (em
maior parte ligados à correntes sectárias do islamismo, mas
não só) e laicos, como o fundamentalismo de mercado (com
a ampla intoxicação pelo neoliberalismo dos policymakers e
decisores de vários países do mundo, disseminando visões
ideológicas, pretensamente científicas, segundo as quais o
ser humano seria naturalmente ou intrinsecamente
competitivo e desenhando políticas públicas que não levam
em conta o papel da cooperação) e o fundamentalismo de
Estado (com o amplo recrudescimento do estatismo, a
partir, inclusive, de uma reação contra-liberal ao processo
de globalização por parte de tendências políticas de direita
e de esquerda, disseminando uma cultura adversarial e
visões pervertidas segundo as quais não existem
propriamente problemas senão culpados, de vez que a
sociedade humana é tomada como um campo
inexoravelmente vincado pela relação amigo x inimigo e
fazendo política de oposição na base do “quanto pior para o
43
país comandado pelo inimigo melhor para mim” ou, quando
na situação, desenhando políticas públicas como políticas
exclusivamente estatais que, igualmente, não levam em
conta o papel da cooperação).
(A esta nova lista ainda poderiam ser acrescentados alguns
outros itens, como o protecionismo dos países ricos e as
demais assimetrias do mercado internacional, ou seja,
como lembra Stiglitz, as injustiças do sistema comercial
global e a hipocrisia das organizações econômicas
internacionais quando fingem que estão “ajudando países
em desenvolvimento ao forçá-los a abrir seus mercados
para as mercadorias das nações industrializadas e
desenvolvidas, ao mesmo tempo que essas nações
protegem seus próprios mercados”) (4).
Para enfrentar esses novos desafios de maneira
responsável, é necessário abandonar tanto a visão eufórica
do globalismo econômico, que imagina que o livre jogo das
forças de mercado levará, por si só, ao melhor dos mundos,
quanto a visão reativa, estadocêntrica, que imagina que o
fim da capacidade de impor, vertical e heteronomamente,
uma ordem previamente concebida ao caos social,
signifique alguma coisa como a volta à barbárie. Para fazer
isso é preciso partir de uma visão proativa, que aceita o
desafio da mudança da realidade, tal como ela se afigura
(com os seus aspectos negativos e positivos, ainda que, no
momento, mais negativos do que positivos) e procura fluir
junto com ela para captar o seu sentido, conhecer as suas
tendências e interagir positivamente com as novas
configurações de atores que ela enseja.
A nova sociedade civil
Para falar de novos atores, se o processo chamado de
globalização não modificasse o comportamento dos
Estados-nacionais, não poderia estar emergindo, não pelo
menos com a intensidade e a velocidade que verificamos
na década de 1990, uma nova sociedade civil (o chamado
terceiro setor). Igualmente, o reflorescimento da
44
perspectiva comunitária – um dos sinais mais promissores
dos tempos atuais – não poderia estar ocorrendo se o velho
Estado-nação permanecesse tal como era antes. Foi preciso
abalá-lo, desconstruir a ideologia que justificava a sua
autosuficiência, de certo modo vergar a sua espinha dorsal
– sua pretensão de onipotência e sua ambição de
onipresença na sociedade – para que houvesse um pouco
mais de ar para respirar... e as pessoas, então, respirando
por seu próprio esforço (fora dos “balões de oxigênio da
grande incubadeira-Estado”), pudessem se agrupar para
pensar e agir por si mesmas.
É assim que está emergindo, em toda parte em que as
condições políticas o permitem, uma nova sociedade civil.
Pessoas se associando a outras pessoas para fazer coisas
que, voluntariamente, estão a fim de fazer – e, cada vez
mais, de maneira independente de raça e credo, de língua e
costumes, de território e nação – não, predominantemente,
para ganhar alguma coisa, levar alguma vantagem, destruir
algum concorrente ou eliminar algum inimigo. Isso significa
que estamos avançando, na prática, para a perspectiva
inédita de um mundo onde seja desejável e possível a
cooperação, um ‘mundo (pelo menos em parte e sob certas
condições) de colaboradores’, ao invés do ‘mundo (apenas)
de competidores’ (dos neoliberais) ou do ‘mundo vincado
pela relação amigo x inimigo’ (dos estatistas).
Com efeito, a cooperação é (para usar uma expressão
marxiana) mais ‘conforme ao ser social’ da nova sociedade
civil (ou do terceiro setor) do que ao ser social do mercado
ou ao ser social do Estado. Por isso, a emergência do
terceiro setor (crescentemente acompanhada do
reconhecimento do seu papel estratégico para o
desenvolvimento social) é um fenômeno muito significativo
dentro do processo de globalização.
Como qualquer pessoa inteligente pode facilmente
perceber, isso nada tem a ver com perspectivas
privatizantes ou com a derruição do Estado pregada pelo
pensamento neoliberal ou a ele atribuída. Tem a ver com
uma nova perspectiva sociocêntrica, publicizante mas não
45
estatizante, que está podendo surgir no contexto atual do
processo de globalização, mesmo que os efeitos desse
processo tenham se mostrado, até o momento, em grande
parte, perversos.
Portanto, para compreender adequadamente o que é a
globalização temos que centrar o foco na sociedade e não
apenas no mercado ou somente no Estado, desvencilhando-
nos dessas duas “drogas pesadas” que turvam o
pensamento, ou seja, das ideologias mercadocêntricas e
estadocêntricas: o neoliberalismo e o estatismo,
respectivamente.
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Friedman, Thomas L. (1999). O Lexus e a Oliveira. Rio de Janeiro:
Objetiva, 1999.
(2) Beck, Ulrich (1998). O que é globalização? São Paulo: Paz e Terra,
1999.
(3) “À medida que a política do governo representativo é
transformada em esporte e entretenimento pela mídia eletrônica, em
um ambiente em que as pessoas ficam livres para votar na
celebridade mais bem-sucedida na captação de recursos e na
propaganda, a civilização tradicional volta a assumir formas
distorcidas de estágios anteriores – subculturas acadêmicas de
filosofias pós-modernas não populares e obscurantistas em
universidades, cultos a gurus de autoridade carismática em religiões
medievais e gangues de adolescentes de dominação primata”). Cf.
Thompson, William Irwin. “Cultural History and Complex Dinamical
Systems” in “Transforming History: a Curriculum for Cultural
Evolution” (MA: Lindisfarne Books, 2001).
(4) Stiglitz, Joseph (2002). A globalização e seus malefícios. São Paulo:
Futura, 2003.
Globalização e mudança social
46
O novo ambiente político mundial e a inovação
tecnológica que têm possibilitado o surgimento do
fenômeno que interpretamos como globalização é
acompanhado por uma mudança social em sentido
amplo (ou seja, no sentido “micro”, relativo ao
“corpo” e ao “metabolismo” das sociedades, isto é,
aos padrões de organização e aos modos de
regulação de conflitos; e no sentido “macro”,
cultural-civilizacional), interagindo, todos esses
fatores, em um mesmo processo de “co-originação
dependente”.
A partir de meados da década de 1990, alguns
pesquisadores compreenderam também que as inovações
tecnológicas que possibilitaram a ocorrência do processo
atualmente chamado de globalização não determinaram,
stricto sensu, este processo, senão que permitiram que ele
acontecesse com as características que de fato apresenta
no final do século 20 e início do século 21 e que o
distinguem de outras possíveis ou imaginadas
“globalizações” pelas quais teria passado o mundo em
épocas pretéritas.
Por certo a globalização atual, dominada pelo fato da
interligação crescente das economias nacionais sob a
influência devastadora de um mercado financeiro livre de
qualquer regulação normativa, acarreta muitas injustiças
comerciais e sociais. O fenômeno global que chamamos de
globalização, no entanto, é muito maior do que isso. Não se
trata, como ainda imagina boa parte da velha esquerda, de
um plano urdido pelas corporações transnacionais, que
estão na vanguarda do processo de internacionalização da
economia mundial, para dominar o mundo. Trata-se do
surgimento de novas condições, sem as quais seria
impossível o fluxo interativo de informação e conhecimento
que tem permitido, inclusive, que os poderosos complexos
47
financeiros e comerciais possam se internacionalizar e se
integrar e tentar dominar o mundo. Mas que permite,
também, a percepção compartilhada de problemas e
perspectivas globais e o surgimento de novos atores
globais, como a nova sociedade civil mundial que está
emergindo na atualidade.
Inovação tecnológica e mudança social
Muitas vezes interpretamos essas condições como recursos
técnicos: o surgimento das redes telemáticas que
possibilitam a interação em tempo real, dando uma
qualidade inédita ao processo de globalização do final do
século 20, que o diferencia qualitativamente das antigas
globalizações possivelmente já ocorridas em outras épocas,
como na era das navegações, por exemplo. No entanto, é
preciso ver – e isso faz toda a diferença em termos de
análise – que tais condições são sociais. O fundamental
aqui, como veremos mais adiante, não é o fato das redes
telemáticas serem telemáticas (inovação tecnológica
resultante da sinergização entre tecnologias de
comunicação em tempo real com tecnologias
miniaturizadas de informação em tempo real, amplamente
disponibilizadas) e sim o fato de serem redes (inovação
social no padrão de organização).
Os avanços técnicos que estão possibilitando a existência
de um mundo em tempo real – ou seja, de um mundo sem
distância – cumprem um importante papel, de fato, mas a
direção do seu desenvolvimento responde ao surgimento de
novas relações sociais e não o inverso. Quando se inventa
um novo hardware ou um novo software que permitem que
tal ou qual operação seja feita entre grupos humanos é
porque essa operação atende ou corresponde a um padrão
de comportamento dado pela configuração e pela dinâmica
desses grupos – uma necessidade, um desejo coletivo,
enfim uma possibilidade de vida ou convivência social
admissível ou apropriável por eles.
48
Em outras palavras, são as relações sociais que
determinam, em grandes linhas, os contornos e as
características do campo dentro do qual surge a inovação
tecnológica. Isso vale tanto para a tecnologia hidráulica dos
egípcios, há 4 mil anos, quanto para a tecnologia atual das
redes de computadores. Com efeito, como lembra
Thompson (no excelente artigo “História cultural e sistemas
dinâmicos complexos”, 2001), cada uma das bifurcações ou
transformações culturais... [pelas quais passou a
humanidade], desde as ferramentas da Idade da Pedra até
os computadores, não constitui simplesmente uma
mudança tecnológica. A própria inovação tecnológica é algo
profundamente embutido em diversos sistemas de valores
e símbolos, de modo que uma nova ferramenta pode surgir
em sincronia com uma nova forma de sistema de governo e
também como uma nova forma de espiritualidade. Em
contraste com a história mais linear da tecnologia, a
história cultural preocupa-se com o complexo sistema
dinâmico no qual a flutuação biológica natural, as restrições
ecológicas e os sistemas de comunicação e organização
social interagem em um processo de “co-originação
dependente” (1).
Mais ou menos nessa mesma linha, conquanto referindo-se
especificamente à Internet, Manuel Castells assinalou, no
início de 2002, que “as tecnologias são produzidas por seu
processo histórico de constituição e não simplesmente
pelos seus desenhos originais enquanto tecnologia... A
Internet é um instrumento que desenvolve mas não muda
os comportamentos. São os comportamentos que se
apropriam da Internet e, portanto, se amplificam e se
potencializam a partir do que são. Isso não significa que a
Internet não seja importante, mas significa que não é a
Internet que muda o comportamento e sim que é o
comportamento o que muda a Internet” (2) (cf. Texto 1).
Ora, a esta altura da discussão, a pergunta que deve ser
feita é a seguinte: qual é a mudança social (em sentido
amplo, ou seja, no sentido “micro”, relativo a estrutura e a
dinâmica das sociedades e no sentido “macro”, cultural-
civilizacional) acompanhante – vamos dizer assim – das
49
novas condições políticas mundiais e da inovação
tecnológica que têm possibilitado o surgimento do
fenômeno que interpretamos como globalização? Esse é o
ponto.
Acho que é possível mostrar que no sentido “micro”, a
mudança social acompanhante das novas condições
políticas mundiais e da inovação tecnológica que têm
possibilitado a manifestação do fenômeno que
interpretamos como globalização é uma mudança
democratizante e aponta, dessarte, na direção de novas
redes pactuadas de conversações, de um novo
“metabolismo” (um novo modo de regular conflitos no
interior do sistema formado por agentes que interagem em
termos de cooperação e competição) e de um novo “corpo”
compatível com esse novo “metabolismo” (ou seja, um
novo padrão de organização, caracterizado pela existência
de caminhos múltiplos entre os agentes, de conexões
“horizontais” – isto é, de redes). Nesses termos, o sentido
da grande mudança é o da emergência de cada vez mais
redes e a emergência das redes, portanto, constitui a chave
para entender a mudança social que está na base do
fenômeno que chamamos de globalização.
Penso ser possível mostrar também que, no sentido
“macro”, a mudança social acompanhante do surgimento
do novo ambiente político mundial que se esboça a partir
da queda do Muro e que, juntamente com a inovação
tecnológica, tem possibilitado a manifestação do fenômeno
que interpretamos como globalização é o surgimento de
uma nova cultura planetária, uma cultura conforme àquilo
que Giddens chamou de “sociedade cosmopolita global”,
uma cultura que só foi possível emergir na nova ambiência
política pós-guerra-fria e que – aqui está toda a dificuldade
para a análise – acompanha sim os movimentos da nova
economia globalizada, porém pode apontar para outra
direção, diferente daquela captável pela visão
mercadocêntrica ou proposta pelo ‘globalismo’ como
ideologia neoliberal.
50
Assim, há quem anteveja que o processo de emersão dessa
nova cultura tenha outro sentido. Thompson, por exemplo,
acredita que “estamos testemunhando o surgimento de
complexos sistemas noéticos de governança nos quais os
seres humanos estão se agrupando em redes eletrônicas
globais de consciência. Máquinas que antes eram externas
a nós estão se tornando arquiteturas íntimas do nosso
envolvimento com outras mentes, outras culturas, outros
corpos celestiais” (3).
Com efeito, as coisas estão tão imbricadas – novo ambiente
político mundial, inovação tecnológica, nova cultura
correspondente a uma sociedade cosmopolita global, nova
morfologia da sociedade-rede e novos processos
democrático-participativos ensaiados sobretudo em âmbito
local – que torna-se muito difícil para a análise linear da
velha sociologia (que procura relacionar causa e efeito por
meio de relações unívocas ou bi-unívocas e confunde
causação com anterioridade temporal) captar o fenômeno
em sua globalidade. Mas a globalização, como, aliás, diz o
termo, é um fenômeno que só se deixa captar por uma
visão da sua globalidade enquanto sistema complexo
interagente que co-evolui com seus componentes,
relacionados entre si por processos de co-originação com
múltiplos laços de interdependência.
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Thompson, William Irwin (2001). “Cultural History and Complex
Dinamical Systems” in “Transforming History: a Curriculum for
Cultural Evolution”. MA: Lindisfarne Books, 2001.
(2) Castells, Manuel (2002). “A Internet e a Sociedade Rede”.
http://campus.uoc.es/web/cat/index.html.
(3) Thompson; op. cit.
51
Texto 1 | Castells e a ‘Galáxia da Internet’
“A Internet é um instrumento que desenvolve mas não
muda os comportamentos. São os comportamentos que se
apropriam da Internet e, portanto, se amplificam e se
potencializam a partir do que são. Isso não significa que a
Internet não seja importante, mas significa que não é a
Internet que muda o comportamento e sim que é o
comportamento o que muda a Internet”.
Tomando como exemplo a tecnologia da Internet, Manuel
Castells, na aula inaugural do programa de doutorado sobre
sociedade da informação e do conhecimento, proferida em
fevereiro de 2002 na Universidade Aberta da Catalunha
(UOC), intitulada “A Internet e a Sociedade Rede” (1) afirma
que “a Internet [que não passa de “uma rede de redes de
computadores capazes de se comunicar entre si”] é o
tecido de nossas vidas neste momento... No entanto, essa
tecnologia é muito mais do que uma tecnologia. É um meio
de comunicação, de interação e de organização social”.
Castells comenta a famosa idéia de que “a Internet é algo
incontrolável, algo libertário, etc., por causa da tecnologia”.
Para ele, “isso ocorre porque esta tecnologia foi desenhada,
ao longo da sua história, com tal intenção. Quer dizer, como
um instrumento de comunicação livre, criado de forma
múltipla por pessoas, setores e pesquisadores inovadores,
que queriam que ela fosse um instrumento de comunicação
livre. Creio, nesse sentido, que as tecnologias são
produzidas por seu processo histórico de constituição e não
simplesmente pelos seus desenhos originais enquanto
tecnologia... A Internet é um instrumento que desenvolve
mas não muda os comportamentos. São os
52
comportamentos que se apropriam da Internet e, portanto,
se amplificam e se potencializam a partir do que são. Isso
não significa que a Internet não seja importante, mas
significa que não é a Internet que muda o comportamento e
sim que é o comportamento o que muda a Internet”.
Castells conclui dizendo que “a Internet é a própria
sociedade, expressa os processos sociais, os interesses
sociais, os valores sociais, as instituições sociais... A
especificidade da Internet é que ela constitui a base
material e tecnológica da sociedade rede, é a infraestrutura
tecnológica e o meio organizativo que permite o
desenvolvimento de uma série de novas formas de relação
social que não têm sua origem na Internet, que são fruto de
uma série de mudanças históricas, porém que não
poderiam desenvolver-se sem a Internet. Essa sociedade
rede é a sociedade que eu analiso como uma sociedade
cuja estrutura social está construída em torno de redes de
informação a partir da tecnologia da informação
microeletrônica estruturada na Internet. Porém a Internet,
nesse sentido, não é simplesmente uma tecnologia, é o
meio de comunicação que constitui a forma organizativa de
nossas sociedades... A Internet é o coração de um novo
paradigma sociotécnico que constitui, na realidade, a base
material de nossas vidas e de nossas formas de relação, de
trabalho e de comunicação. O que a Internet faz é
processar a virtualidade e transformá-la em nossa
realidade, constituindo a sociedade rede, que é a sociedade
em que vivemos”.
Com efeito, Manuel Castells, assinalou como uma das
características dos movimentos sociais contemporâneos, o
fato de que, “cada vez mais, o poder funciona em redes
globais e as pessoas vivenciam e constroem seus valores,
suas trincheiras de resistência e suas alternativas em
sociedades locais. O grande problema que se coloca é
como, desde o local, se pode controlar o global, como, a
partir da minha vivência e da minha relação com o meu
mundo local, que é onde eu estou, onde eu vivo, posso me
opor à globalização, à destruição do meio ambiente, ao
massacre do Terceiro Mundo em termos econômicos. Como
53
se pode fazer isso? Pois bem, a Internet permite a
articulação dos projetos alternativos locais em protestos
globais, que acabam aterrissando em algum lugar, por
exemplo, em Seattle, Washington, Praga, etc., porém que
se constituem, se organizam e se desenvolvem a partir da
conexão pela Internet, que dizer, de uma conexão global,
de movimentos locais e de vivências locais. A Internet é a
conexão global-local, que é a nova forma de controle e de
mobilização social em nossa sociedade”.
No livro “The Internet Galaxy: Reflections on Internet,
Business and Society” (Oxford: Oxford University Press,
2001) Manuel Castells já havia tecido reflexões sobre a
Internet, os negócios e a sociedade (2). O nome da obra
evoca, obviamente o célebre livro de MacLuhan: “assim
como a difusão da máquina impressora no Ocidente criou o
que MacLuhan chamou de a “Galáxia de Gutenberg”,
ingressamos agora em um novo mundo de comunicação: a
Galáxia da Internet”, afirma Castells.
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Castells, Manuel (2002). “A Internet e a Sociedade Rede”.
http://campus.uoc.es/web/cat/index.html.
(2) O livro foi publicado no Brasil com o mesmo nome. Cf. Castells,
Manuel (2001). A Galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os
negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
Globalização irreversível
A globalização é um fenômeno irreversível. Ao que
ela vai levar, contudo, depende da evolução do
sistema diante da bifurcação que se defronta na
atualidade.
54
Entendido como um processo de desconstituição do antigo
sistema mundial baseado no Estado-nação, parece óbvio
que a globalização é um processo irreversível. Temos hoje
outros atores internacionais, além do Estado-nação. Do
ponto de vista econômico, como assinala Friedman, “os
países... ainda são de enorme importância, hoje em dia;
mas também o são os supermercados e os indivíduos com
superpoderes. É impossível compreender o sistema da
globalização ou a primeira página dos jornais, sem a visão
da interação complexa entre esses três agentes: os Estados
em choque com os Estados, os Estados em choque com o
supermercados, e os supermercados e Estados em choque
com os indivíduos com superpoderes” (1).
Eliminar esses outros sujeitos que atuam na cena
internacional, devolvendo ao Estado-nação um papel
semelhante ao que cumpria antes da queda do Muro, para
tomarmos um referencial político, não parece ser uma
tarefa possível. Para o mal ou para o bem (melhor seria
dizer: para o mal e para o bem), o processo de globalização
interligou as unidades sócio-territoriais do planeta, os
diversos mundos que antes podiam viver mais ou menos
isolados, de tal forma e com tal intensidade que, voltar a
estados anteriores de separação, implicaria realizar uma
tarefa impossível: seria necessário não apenas cortar as
conexões, proibir os meios de comunicação globais e os
meios de transporte de pessoas e objetos senão, também,
apagar a memória das duas últimas décadas. Isso para não
falar na desarrumação que tal tentativa de re-
compartimentação nas unidades nacionais acarretaria na
economia global, no desenvolvimento científico e
tecnológico, na política internacional e, inclusive, na
estabilidade sócio-política mundial. Assim, parece razoável
afirmar que a globalização é um processo irreversível. No
entanto, tal não significa que ela nos levará para um lugar
determinado, ou melhor, determinável a priori.
É bom frisar: conquanto o processo de globalização seja
irreversível e conquanto o seu sentido geral seja o da
conformação de uma nova configuração planetária, não é
55
certo a que lugar ele levará. O mundo se encontra diante
de uma bifurcação e tanto pode avançar, como supõe
Thompson, “na transição da era de uma economia industrial
global de Estados-nações territoriais para uma ecologia
cultural planetária de sistemas de governança noéticos”,
quanto pode retroceder para formas autoritárias, com um
recrudescimento do estatismo que tenderá a reinstaurar a
velha ordem do “estado de guerra” em âmbito planetário,
baseada em novos complexos-pólos pós-industriais
militares de alta tecnologia (2).
Bifurcação
Mas o conceito de ‘bi-furcação’ não deve ser entendido
literalmente como a existência de apenas duas alternativas,
do tipo ‘civilização ou barbárie’ ou ‘ordem ou caos’.
Bifurcação é o ponto crítico em que o sistema pode “optar”
entre mais de um futuro possível. Atingido esse ponto
crítico, a descrição determinista entra em colapso,
tornando-se impossível prever o estado futuro do sistema.
Tudo indica que o mundo atingiu ou está atingindo esse
ponto crítico na passagem do século 20 para o século 21.
Existem vários futuros possíveis para além do bom cenário
das ‘redes eletrônicas de consciência’ e do mau cenário
‘Blade Runner’, ainda que – por algum motivo que não
deveria ser tão desprezado pelos analistas – mais de 90%
das tentativas de antecipação da literatura de ficção
científica apontem para cenários do tipo Blade Runner.
Todavia, a mudança macro-cultural em curso, a mudança,
como assinala Thompson, “da nossa matriz de identidade
de uma cultura de desejo de compra econômica e fervor
patriótico para uma nova cultura planetária, na qual a
ciência e a espiritualidade [um novo tipo de espiritualidade
pós-religiosa] são os país diplóides de uma nova matriz de
consciência” está gerando uma reação que introduz a bi-
polaridade. Isso dá a impressão de que só existem duas
alternativas.
56
Essa reação é o fato mais preocupante nos dias de hoje,
porquanto não se trata propriamente apenas de uma
reação à globalização (ou às suas más conseqüências, o
que seria justificável) e sim, também, de uma reação às
melhores promessas da globalidade. Os fundamentalismos
religiosos (mas também os laicos, como o neoliberalismo e
o estatismo) e as reações terroristas nacionalistas ao que
Thompson chama de ‘planetização’ (e que outros, como
Edgar Morin, por exemplo, chamam de ‘planetarização’),
constituem ameaças gravíssimas. “Como a Inquisição e a
Contra-Reforma – escreve ele – essas explosões
reacionárias podem prejudicar muito e atrasar a
transformação cultural por séculos a fio. Se a humanidade
pode ou não ascender para uma identidade transcultural,
na qual a ciência e um novo tipo de espiritualidade pós-
religiosa possam reintroduzir a consciência plenamente
individuada da pessoa em um cosmos multidimensional, é a
questão dos nossos tempos” (3).
O que vai acontecer, não se pode saber de antemão. O jogo
está sendo jogado.
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Friedman, Thomas L. (1999). O Lexus e a Oliveira. Rio de Janeiro:
Objetiva, 1999.
(2) Thompson, William Irwin (2001). “Cultural History and Complex
Dinamical Systems” in “Transforming History: a Curriculum for
Cultural Evolution”. MA: Lindisfarne Books, 2001.
(3) Idem.
57
Globalização inédita
A globalização é inédita: está criando algo que
nunca existiu antes.
Há quem afirme que o mundo já passou por várias
globalizações. Citam-se, freqüentemente, a globalização
ocorrida na época dos descobrimentos ou, ainda, a
globalização dos primeiros anos do século 20. Os que dizem
isso estão, obviamente, pensando a partir da economia,
estão pensando em termos de ampliação e de integração
de mercados.
Ora, mesmo desse ponto de vista, a globalização atual é
um fenômeno único. Antes de qualquer coisa porque, antes,
jamais havia se conformado a constelação particular de
fatores políticos e tecnológicos que possibilitou a
globalização atual. Por exemplo, não se poderia sequer
pensar em um mercado financeiro que funcionasse em
58
todos os lugares do planeta simultaneamente, quer dizer,
em tempo real. Primeiro porque as condições políticas do
mundo anterior não o permitiriam. Segundo porque a
tecnologia disponível não o permitiria.
Mas a razão fundamental e mais substantiva é,
simplesmente, porque, antes, não estava acontecendo a
mudança social, em sentido amplo, atualmente em curso.
Ou seja, não estava ocorrendo, no nível “macro”, a
transição para uma cultura global e, no nível “micro”, a
emergência de padrões de organização em rede e de
modos de regulação democrático-participativos – fatores
sem os quais, é bom frisar, a inovação tecnológica atual
certamente não teria tomado a direção que tomou. Basta
apontar um exemplo: não teríamos a Internet, não, pelo
menos, com a estrutura e o funcionamento libertários que a
caracterizam, porque as pessoas que desenharam essa
rede de redes de computadores teriam feito,
historicamente, outras escolhas, condicionadas por outra
imagem de ordem, por outros padrões de organização e por
outros princípios de regulação, avessos às possibilidades de
imprevisibilidade e de holarquia. Essas pessoas não
poderiam suportar conviver com a idéia do caos e
dificilmente iriam produzir algo que ninguém pudesse, a
rigor, controlar, a partir de um modelo preexistente de
ordem, de cima ou de fora. Não porque não pudessem
reunir disposição emocional (ou a vontade) ou capacidade
intelectual (ou os conhecimentos necessários) para fazer
isso e sim porque não teriam nenhuma experiência de
mudança nessa direção capaz de mobilizá-las e inspirá-las,
nenhum precedente concreto que conformasse um novo
“lugar” a partir do qual tais escolhas fizessem sentido.
A globalização atual, portanto, é única. A
descompartimentação que ela promove está ensejando o
surgimento de uma coisa que jamais existiu antes no
mundo: um novo tipo de sociedade, uma sociedade
cosmopolita global, organizada em rede e capaz de
possibilitar a interação entre seus nodos em tempo real.
59
Globalização, ordem e desordem
A globalização não é uma ordem, mas um processo
de desconstituição da velha ordem.
60
A globalização não é ainda a transição para uma nova
ordem mundial (embora possa levar à essa transição), mas
uma desconstituição do mundo assentado na velha ordem
do Estado-nação. Como diz Beck, é “uma sociedade
mundial sem Estado mundial e sem governo mundial” (1). E
como assinala Giddens, “não se trata de uma ordem global
conduzida por uma vontade humana coletiva” (2).
Para alguns, isso é um verdadeiro horror. Grande parte das
reações fundamentalistas à globalização (e, na verdade, à
globalidade), sobretudo as laicas, apóiam-se na idéia de
ordem. São reações de fundo hobbesiano. Elas partem da
idéia de que se não houver uma ordem pré-existente,
previamente concebida e adotada por um sujeito particular
que, falando em nome de um bem comum universal, lhe dê
o direito e a capacidade de impô-la, vertical e
heteronomamente, às sociedades, será a volta à barbárie
ou o caos. Como tal sujeito (único e exclusivo) é o Estado,
trata-se de uma visão estadocêntrica que, não raro, reúne
agentes de direita e de esquerda no mesmo pólo reativo.
As sociedades humanas são tomadas, por tal visão, como
sociedades em estado de natureza (e uma natureza que se
comporta darwinisticamente). Não existe sociedade civil a
não ser como dominium do Estado. Deixadas a si mesmas
as sociedades se fragmentarão em virtude da ausência de
uma instância superior reguladora dos conflitos gerados
pela inexorável competição entre os humanos. Os conflitos
não são regulados por processos políticos (ex parte
populis), por modos de regulação societários e sim por
sujeitos pretensamente situados acima da sociedade. O fim
(isto é, o sentido) da política (ex parte principis) é a ordem
(Hobbes) e não a liberdade (Spinoza). A competição é
inerente à natureza humana enquanto que a cooperação é
o resultado de um aprendizado (e de uma racionalização
visando obter vantagens a longo prazo). Em suma, a
sociedade humana é incapaz de gerar ordem
espontaneamente a partir da cooperação.
61
Ora, se a ordem não pode ser gerada espontaneamente, ela
tem que ser imposta por alguém. O mal maior, então, não é
a ordem injusta e sim a não-ordem. O caos é o demônio, a
deusa-dragão Tiamat (a deusa do caos) que deve ser
cortada por Marduk (o deus da ordem) com a espada que
separa, que reintroduz continuamente todo tipo de
compartimentação. Com efeito, grande parte das críticas
estatistas, de direita ou de esquerda, à globalização, são
pautadas pelo tema do confronto com a desordem
internacional gerada por tal processo. São reações à
desordem, como se a ordem anterior e compartimentada do
velho “sistema de muros” do Estado-nação fosse alguma
maravilha ou algo que merecesse ser preservado. Mesmo
os relatórios elaborados por segmentos da sociedade civil
mundial (como os do Social Watch) adotam essa
perspectiva, o que nos dá uma medida de quão
profundamente estão fundeadas no subsolo dos
preconceitos as visões ideológicas de boa parte dos que se
opõem a globalização por medo de uma globalidade não-
controlável, ou seja, por horror ao caos.
É bom repetir: a globalização não é um processo de
constituição de uma nova ordem mundial. Talvez seja até
mais por isso, e não porque tal processo estivesse
construindo uma nova ordem injusta, que ela – ao ameaçar
a velha ordem (o sistema de equilíbrio de poder
internacional protagonizado pelo Estado-nação) sem
colocar nada no lugar – aterrorize tanto os cavaleiros da
ordem do Estado.
Todavia, a desarrumação do mundo que está sendo
promovida pela globalização (com conseqüências adversas,
por certo, para a qualidade de vida da maior parte da
população mundial, pelo menos nesse primeiro momento)
é, provavelmente, a única chance (ou uma chance) de
desconstituir uma ordem injusta que impede a
planetização, obstrui a vigência da democracia no plano
internacional e possibilita a reprodução de enclaves
autocráticos constituídos por Estados nacionais separados e
escudados por velhas noções de soberania (3).
62
A opinião pública mundial não tem mais aceitado que, em
nome da soberania, um Estado particular prenda, torture ou
elimine suas minorias políticas, discrimine seus habitantes
por razões religiosas, raciais ou de gênero, ou provoque
catástrofes ambientais. Isso significa que uma nova cultura
planetária está surgindo, impulsionada pelos novos
movimentos sociais globais emergentes, em defesa da
democracia e dos direitos humanos, das minorias sociais e
do meio ambiente. A emersão desses novos movimentos
sociais – democráticos, pacifistas, ecumênicos, feministas,
ecológicos e comunitaristas – ampliou a participação
popular, levando-a de uma perspectiva predominantemente
econômica e corporativa, setorial e compartimentada sócio-
territorialmente, para uma perspectiva mais universal e
global.
Os riscos da ordem imposta
O risco, visível hoje claramente, é que em nome da defesa
desses valores, um Estado particular se invista
unilateralmente no direito de regular o mundo todo e de
normatizar, a partir do seu próprio poder militar e da sua
capacidade econômica, a vida dos outros povos do planeta.
Por isso, é melhor que a globalização seja mesmo “uma
sociedade mundial sem Estado mundial e sem governo
mundial” e que tal processo não esteja instaurando “uma
ordem global conduzida por uma vontade humana coletiva”
particular, até enquanto não se reúnam as condições para a
consolidação de uma nova instância (ou de uma nova
dinâmica, talvez seja melhor dizer assim) democrática
internacional.
Um governo mundial democrático, nos moldes atuais (com
um parlamento e uma instância executiva mundiais ou algo
equivalente), pode não ser, contudo, a melhor alternativa.
Pois, ao que tudo indica, não se trata de transplantar a
realidade política vigente no interior dos atuais Estados-
nações considerados democráticos, para o plano
internacional. A democracia realmente existente no interior
das repúblicas e dos governos representativos modernos
63
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  • 2. Augusto de Franco A REVOLUÇÃO DO LOCAL Globalização | Glocalização | Localização 2
  • 3. Por que a volta ao local, em uma época de globalização, está se afirmando como uma alternativa de indução ao desenvolvimento que promete transformar milenares relações políticas e sociais de dominação. 3
  • 4. “Em um universo infinito, local pode abranger algo tão gigantesco que sua mente se encolhe diante dele”. Frank Herbert, 1976 em “Os Filhos de Duna”. 4
  • 5. Apresentação Estamos diante de uma grande mudança social, talvez a mais profunda mudança no “corpo” e no “metabolismo” da sociedade humana que já tenha ocorrido na nossa civilização. Essa mudança não é inexorável, mas as condições para que ela ocorra começaram a se constelar a partir do final do século passado. Estou falando de algo que nunca aconteceu antes. Estou falando de uma condição geral, configurada pela co- presença de vários fatores interdependentes, que permite a manifestação de um fenômeno novo, uma espécie de alteração profunda na morfologia e na dinâmica desses sistemas complexos compostos por coletivos humanos estáveis afastados do estado de equilíbrio que chamamos de sociedade. 5
  • 6. Não se pode saber de antemão para onde tal mudança vai nos levar. Tudo dependerá dos movimentos sociais e das opções políticas que fizermos. Nenhum desfecho, portanto, está determinado. Todavia, existe agora uma possibilidade que não existia antes. Não estou dizendo que tal mudança profunda vai acontecer necessariamente. Estou dizendo que essa mudança profunda, que agora tem chances de acontecer, poderá de fato ser consumada se conseguirmos ensaiar e replicar padrões de organização social e modos de regulação política compatíveis, que permitam que ela aconteça. Caso contrário, ocorrerá, por certo, sempre alguma mudança, provavelmente incremental, mas ela não será tão significativa ao ponto de representar uma transformação profunda do modo como estamos vivendo nos últimos séculos e, talvez até, nos últimos milênios. Estou falando de uma mudança que depende, portanto, de algumas formas de agenciamento e que não ocorrerá espontaneamente, na ausência de certo tipo de comportamento social e de atuação política de agentes humanos. Assim, não é descabido encarar essa mudança social como uma revolução mesmo, para além dos sentidos metafóricos em que freqüentemente essa palavra tem sido empregada (como, por exemplo, quando se fala em “revolução da informática” ou em “revolução tecnológica”). Pois bem, que mudança social profunda é essa, que revolução é essa que pode se realizar nas condições atuais do mundo globalizado e que não poderia ter ocorrido em outras épocas? Essa mudança se chama ‘localização’, no sentido “forte” desse conceito e da hipótese que o sustenta, a qual constitui, assim, o tema central da presente investigação. Essa hipótese, em termos sucintos, é a seguinte. Localidades tendem a se tornar holografias do planeta à medida que reflorescem comunidades no mundo globalizado. A revolução planetária (já aventada por Edgar 6
  • 7. Morin) é também uma revolução comunitária, que aponta para um novo desenho do mundo, cujo sentido é o da formação de uma nova sociedade cosmopolita global (planetária) como uma rede de comunidades (sócio- territoriais e virtuais – subnacionais e transnacionais) interdependentes. Essa é a mudança social que queremos interpretar como uma verdadeira revolução: a revolução do local. Quando tornamos pequeno um mundo pela localização aumentamos o seu “poder social”. É como se concentrássemos esse “poder”, incrementando os valores de variáveis como freqüência ou velocidade de processamento, possibilitando mais feedbacks, mais laços de retroalimentação capazes de amplificar estímulos, por pequenos que sejam. Um mundo localizado é um mundo onde ocorreu uma espécie de big crunch social que (ao contrário do modelo do big bang cosmogônico) diminuiu drasticamente as distâncias! Tal redução das distâncias muda a qualidade dos fenômenos que ocorrem no “meio social” porquanto altera propriedades desse meio (como a isotropia, por exemplo). Pode-se dizer que a sociedade torna-se mais “social” no sentido de que aumenta o seu “poder social” – ou seja, o meio torna-se mais condutor, mais favorável à replicação de padrões de comportamento – à medida que sua tessitura aumenta e, portanto, que seu tamanho diminui. A partir de certo grau de tessitura (ou de certo ‘tamanho de mundo’) surge o que chamamos de comunidade. Mas as comunidades (de projeto) em um mundo globalizado não têm quase nada a ver com as comunidades tradicionais (de herança) que conhecemos em um mundo cujas partes estavam isoladas. Em um mundo interligado por laços de interdependência, onde existam múltiplos caminhos entre seus nodos-elementos, comunidades assumem um papel diferente. Nesse tipo de mundo novos comportamentos sociais usinados dentro de âmbitos comunitários podem se espalhar pela rede, contaminando o sistema como um todo a medida que podem ser amplificados por laços de 7
  • 8. realimentação de reforço de sorte a modificar o comportamento de outros agentes do sistema ao induzi-los a realizar cópias dos “programas” gerados. A medida que surgem comunidades globalizadas, globalização do local tende a ser igual a localização do global. E um mundo totalmente globalizado passa a ser um mundo totalmente localizado. O local não-globalizado pode ser um mundo até maior do que o mundial (no sentido de planetário) globalizado. Mas o local conectado é o mundo todo. Isso só é possível ocorrer agora em vista de uma novidade: o fenômeno complexo, atualmente em curso no mundo, que chamamos, em geral superficialmente, de globalização e que é, na verdade, uma glocalização; ou seja, a novidade da mudança social que tem como fulcro a possibilidade inédita da conexão global-local na emergente sociedade- rede. Pois bem. Minha investigação dos últimos anos está levando a uma conclusão surpreendente. Desde que exista a possibilidade de conexão global-local, para que o processo de localização se desencadeie é preciso apenas que a população de uma localidade, conectada entre si segundo um padrão de rede e regulando seus conflitos de modo democrático-participativo, o assuma cooperativamente. O mais surpreendente, porém, é que parece não ser necessário que toda a população de uma localidade se comporte desse modo, nem – como fomos levados a acreditar por vários motivos que não vêm agora ao caso – que a maioria dessa população esteja engajada nessa tarefa. Por certo, para cada configuração particular haverá uma quantidade e uma qualidade mínimas de “massa crítica” detonadora, vamos dizer assim. E talvez não possamos conhecer, completamente e de antemão, nem os valores nem as características dessa “massa crítica” para que tal processo seja detonado em cada localidade. Mas uma coisa é certa: quanto mais elementos ela englobar, quanto mais 8
  • 9. tramada “por dentro” e conectada “para fora” ela estiver, mais chances teremos de que o processo venha a acontecer. Sei que tais idéias ainda soam estranhas para boa parte da análise sociológica. E, na verdade, embora não pareça, estou falando de política. Mas para entender o que estou dizendo, caro leitor, não há outra maneira senão acompanhar os resultados dessa investigação. Primavera de 2003 Augusto de Franco Índice Introdução Capitulo Um | Globalização Entendendo a globalização Globalização e neoliberalismo Globalização e capitalismo Globalização e fundamentalismos laicos (de mercado e de Estado) Globalização e mudança social Globalização irreversível Globalização inédita Globalização, ordem e desordem Globalização insuficiente Globalização em disputa Globalização e glocalização 9
  • 10. Capítulo Dois | Glocalização Entendendo a glocalização Glocalização e nova realidade glocal: ‘planeta-e- comunidade’ Glocalização em disputa Glocalização e Estado-nação Glocalização e localização Capítulo Três | Localização Entendendo a localização Localização e glocalização Localização e ‘tamanho do mundo’ Localização e ‘poder social’ Localização e geração de identidade Localização e transformação de utopia em topia Localização e globalização Localização e glocalização Localização em disputa Localização e revolução do local Epílogo | Localização e desenvolvimento Textos (excertos, transcrições e comentários) Texto 1 |Castells e a ‘Galáxia da Internet’ Texto 2 |Held & McGrew e as variantes na política da globalização Texto 3 |A Carta da Terra Texto 4 |Guéhenno, o fim da democracia e o futuro da liberdade Texto 5 | Bobbit e a emergência do Estado-mercado Texto 6 | Small-World Networks: transformando o vasto mundo em um mundo pequeno Texto 7 | O recente experimento sobre Small-World de Peter Dodds, Roby Muhamad e Duncan Watts Texto 8 | Manzano e a ciência do local como ciência da singularidade Texto 9 | Beck e a aliança em favor da atividade comunitária 10
  • 11. Texto 10 | Local e global: as cidades na globalização segundo Manuel Castells & Jordi Borja Texto 11 | Michael Shuman e o ideário do localismo Texto 12 | Offe e a sinergia entre Estado, mercado e comunidade Diagramas Diagrama 1 | Variantes na política da globalização: diagrama de Held-McGrew (2002) Diagrama 2 | Variantes na política da globalização: diagrama de Held-McGrew (2002) modificado por Franco (2003) Diagrama 3 | Variantes na política da localização Introdução Há uma mudança social em curso no mundo. Essa mudança, que está na base do processo de globalização atual, tem um duplo sentido. Um sentido “macro”, que incide na dimensão planetária, e um sentido “micro”, que incide na dimensão local. Até agora temos colocado ênfase no sentido “macro”, sobretudo nas transformações econômicas, tecnológicas, políticas e culturais que estão ocorrendo em escala global (daí os novos termos em voga: 11
  • 12. ‘globalismo’, ‘globalidade’ e ‘globalização’) associadas à uma emergente ‘sociedade cosmopolita global’. Não temos percebido adequadamente, porém, as mudanças silenciosas, muitas vezes subterrâneas, que estão acontecendo na dimensão local e que estão provocando um reflorescimento da perspectiva comunitária. Talvez porque se trate de uma mudança fragmentada, dispersa, que ainda não logrou constituir um ator, um interlocutor, uma plataforma, uma justificativa teórica – o que, de resto, jamais ocorrerá mesmo, porque a fragmentação e a dispersão fazem parte da sua própria natureza. Como temos mais dificuldade para pensar sem um padrão de ordem preexistente (ou como não percebemos facilmente a ordem emergente em sistemas complexos, a ordem subjacente ao caos ou, ainda, como não compreendemos o processo que o escritor americano de ficção científica, Frank Herbert, resumiu na frase: “não reunir é a derradeira ordenação”) (1), colocamos menos ênfase nesse sentido “micro”, sobretudo nas transformações sociais que estão ocorrendo em escala local (daí a menor divulgação de termos como ‘glocalização’ e ‘localização’) associadas a um novo “corpo” (em rede) e a um novo “metabolismo” (democrático-participativo) emergentes em comunidades que estão se constituindo neste momento em várias partes do planeta. Ora, para perceber tais mudanças é necessário vê-las de outra maneira. Para perceber o que mudou é preciso, assim, ver o que mudou na nossa maneira-de-ver o que mudou. Foi somente quando mudou a nossa maneira de ver, que começamos a perceber o que está mudando em termos sociais, as transformações que estão ocorrendo no tecido íntimo das sociedades em virtude da germinação de algumas práticas seminais e de algumas idéias seminais sobre tais práticas. Tão recente é o fenômeno que as pessoas ainda não estão entendendo a profundidade e a abrangência da mudança. O mundo realmente mudou... Mas a mudança mais 12
  • 13. significativa de todas será – quando florescer – aquela que foi semeada nos anos 90. Para continuar com a metáfora da semente, podemos dizer que os anos 80 foram anos de preparação da terra. Os anos 90 foram anos de semeadura. A primeira década do século 21 não será, ainda, de pleno florescimento – porém, em grande parte, de germinação: o tempo em que o grão tem que morrer. Por isso, ao que tudo indica, será uma era de (aparente) retrocesso em vários campos e em vários lugares, de recrudescimento do estatismo, da retomada de velhos paradigmas de administração pública e de velhos padrões de relação entre Estado e sociedade – e isso de várias maneiras, patrocinadas por atores conflitantes e em circunstâncias contraditórias. Assim, Bush (belicista) e o Fórum Social Mundial (pacifista, pelo menos instrumentalmente, para se opor às pretensões neo- imperiais do atual belicismo norte-americano) impulsionado este último, entre outros, por alguns segmentos da esquerda estatista, no Brasil, fazem parte, provavelmente, do mesmo fenômeno (muito embora o Fórum Social Mundial seja, ele mesmo, um exemplo eloqüente dos aspectos positivos do atual processo de globalização ao juntar, de forma inédita, múltiplos setores de uma sociedade civil mundial). É difícil compreender essas coisas porquanto pensamos a partir do confronto de ideologias e não a partir de (conceitos sobre) padrões de relacionamento. Achamos que se alguém é “de esquerda” estará necessariamente no pólo oposto aos que são “de direita”. Todavia, quando o assunto é o protagonismo estatal (ou seja, um padrão de relação definido entre Estado e sociedade no qual o Estado está “sobre” a sociedade, relacionando-se com esta última como se ela fosse o seu dominium), não percebemos que, desse ponto de vista, em geral, ambos – os “de esquerda” e os “de direita” – encontram-se freqüentemente no mesmo pólo. O canteiro para a semeadura dos anos 90 foi preparado sobre os destroços do Muro de Berlim. Mas o ressurgimento da perspectiva autocrática e guerreira do novo império americano representa uma reação à queda dos muros (e 13
  • 14. isso, ao que parece, não apenas em sentido simbólico: basta ver, por exemplo, a ereção – em curso neste momento em que escrevo – do muro de Sharon). Pior, representa uma proliferação dos muros, agora – salvo no triste caso acima – desmaterializados e incorporados à nova paisagem mundial de vez que o inimigo tornou-se invisível e onipresente e é preciso, portanto, estar-se protegido contra ele a todo tempo e em qualquer lugar. Os primeiros dez anos do nosso milênio serão, ao que tudo indica, para usar a expressão poética da velha linguagem alquímica, anos de nigredo: aqui ocorrerá a putrefactio, a mortificatio, a ‘obra em negro’. Para os alquimistas, todavia, isso não era motivo para desânimo. Pelo contrário, como diz um antiqüíssimo texto (“O Rosário dos Filósofos”, de 1593): “quando vires tua matéria enegrecer, rejubila-te: porque esse é o início da obra” (2). Oxalá haja um paralelo qualquer com nossa situação atual. Mas vamos voltar aos anos 90, os anos de semeadura. Foram os anos onde emergiu ou foi percebida mais claramente a nova realidade de uma esfera pública não- estatal. Foram os anos em que se verificou um crescimento espantoso do chamado terceiro setor. Foram os anos da Internet e das redes sociais. Foram anos em que se gestou e experimentou um novo paradigma da administração pública, a descentralização e os programas inovadores: focalizados, flexíveis, que desencadeiam inovações capazes de alterar seu desenho original, baseados em múltiplas parcerias, preocupados com monitoramento e avaliação constantes e voltados para a conquista da sustentabilidade. Sobretudo – e essa talvez seja a sua característica mais relevante – os anos 90 foram anos, conquanto marcados por numerosos conflitos regionais e locais, sem-guerra global, ou melhor, sem um “estado de guerra” (“quente” ou “fria”) generalizado no mundo. Com efeito, entre 1991 e 2001, entre a derrocada da URSS e o atentado ao World Trade Center, transcorreu a década na qual, como assinalou Friedman (ainda em 1999), o sistema da guerra fria foi substituído pelo que ele denominou de “sistema da globalização” (3). 14
  • 15. No Brasil e no mundo, a década de 1990 foi marcada pelo surgimento ou pelo aparecimento, em um cenário mais visível, de grandes novidades. No que diz respeito à uma nova concepção de desenvolvimento, tema final do presente livro, tais novidades podem ser identificadas por algumas visões ou concepções e por algumas idéias ou conceitos que não compareciam antes, ou que só se desenvolveram depois, no final da década de 80 (as quais – em muitos casos – ainda continuam emergindo e se desenvolvendo). Dentre tais concepções e idéias novas citaria aqui, em primeiro lugar – por ordem de importância lógica ou metodológica e não cronológica – a concepção sistêmica, sobretudo a concepção dos sistemas complexos adaptativos, trazendo consigo as idéias de sustentabilidade como função de integração e como conservação da adaptação. (É preciso ver que o Santa Fe Institute, fundado pelo físico Murray Gell-Man em 1984, em 1987 começou a pesquisar coletivamente a economia como sistema complexo adaptativo, mas somente na década de 1990 pôde apresentar resultados mais significativos no tocante a uma nova visão sistêmica sobre as interações sociais) (4). Em segundo lugar, colocaria a hipótese da existência de vários fatores do desenvolvimento – não como externalidades, porém com o mesmo status de centralidade, os quais foram interpretados, assim, como outros tipos de “capitais” – e sobretudo o conceito de capital social. Nos anos 90 surgiu a maior parte das teorias do capital social, inclusive aquelas baseadas no suposto da (ou na aposta na) capacidade da sociedade humana de gerar ordem espontaneamente a partir da cooperação. Em terceiro lugar, a idéia de cooperação e de cooperatividade sistêmica como elementos sem os quais a competição e a competitividade sistêmica levam a crescimento concentrador e, portanto, a crescimento sem desenvolvimento. 15
  • 16. Em quarto lugar, a idéia da sociedade rede (é bom lembrar que a obra principal de Castells – que melhor identificou tal fenômeno – é um fruto dos anos 90), o desenvolvimento de uma nova disciplina de análise das redes sociais (Social Network Analysis), o surgimento das redes P2P e do encurtamento do tamanho do mundo em virtude do aumento da conectividade (‘small-world networks’) (5). Em quinto lugar, a idéia da radicalização ou democratização da democracia, da democracia em tempo real, democracia digital ou cyberdemocracy, e a compreensão das relações intrínsecas entre desenvolvimento e política; quer dizer, a concepção de desenvolvimento como mudança social. Em sexto lugar, a idéia de um novo padrão de relação Estado-Sociedade que leva em conta a existência e o papel estratégico, para o desenvolvimento, da nova sociedade civil, ou seja, daquele conjunto de entes e processos extra- estatais e extra-mercantis, também chamado recentemente de terceiro setor. Em sétimo lugar a compreensão do fenômeno complexo chamado de globalização e a idéia de glocalização. Em oitavo lugar o reflorescimento da perspectiva comunitária, a ‘volta ao local’, a revolução do local e a reformulação da idéia original de glocalização como localização (ou seja, a idéia de que “o local conectado é o mundo todo” – esta última, porém, já fruto dos primeiros anos do terceiro milênio). As inovações introduzidas, especialmente nos anos 90, na maneira de ver a mudança social que agora interpretamos como desenvolvimento, constituem apenas um exemplo. Outros exemplos, semelhantes, poderiam ser encontrados em outros campos. Desse exemplo, porém, devemos reter a lição de que não se pode entender a globalização e não se pode captar plenamente o sentido das mudanças em curso no mundo atual se não se compreender a década de 1990 e se não se compreender as mudanças na maneira-de-ver as mudanças introduzidas na década de 1990. 16
  • 17. Pois bem. A maneira linear e unívoca de ver as mudanças, que procura sempre emparelhar fator-causa com modificação-efeito, não nos permite ver as constelações de múltiplos fatores interdependentes que co-originam as transformações, entendidas como mudanças de estado de um sistema complexo. Na maneira linear de ver, por exemplo, achamos que a globalização é um fenômeno que só se verifica no plano internacional, no relacionamento entre realidades de dimensão mundial. Assim, freqüentemente deixamos de ver que o aspecto global pode estar presente em dimensões locais, no plano subnacional e que, simultaneamente, aspectos locais podem estar presentes na dimensão global. Mas, como já assinalou Giddens, “é errado pensar que a globalização afeta unicamente os grandes sistemas, como a ordem financeira mundial. A globalização não diz respeito apenas ao que está “lá fora”, afastado e muito distante do indivíduo. É também um fenômeno que se dá “aqui dentro”, influenciando aspectos íntimos e pessoais de nossas vidas... A globalização não somente puxa para cima, mas também empurra para baixo, criando novas pressões por autonomia local” (6). Avançando mais nessa linha de raciocínio, Giddens percebeu que “a globalização é a razão do ressurgimento de identidades culturais locais em várias partes do mundo” (7). O fenômeno da globalização atual – disse ainda Giddens, em outra ocasião –intensifica as “relações sociais em escala mundial que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a milhas de distância e vice-versa. Este é um processo dialético porque tais acontecimentos locais podem se deslocar em uma direção anversa às relações muito distanciadas que os modelam”. Assim, ele conclui: “a transformação local é tanto parte da globalização quanto a extensão lateral das conexões sociais através do tempo e do espaço” (8). 17
  • 18. Com efeito, Manuel Castells assinalou como uma das características dos movimentos sociais contemporâneos, o fato de que, “cada vez mais, o poder funciona em redes globais e as pessoas vivenciam e constroem seus valores, suas trincheiras de resistência e suas alternativas em sociedades locais. O grande problema que se coloca é como, desde o local, se pode controlar o global, como, a partir da minha vivência e da minha relação com o meu mundo local, que é onde eu estou, onde eu vivo, posso me opor à globalização, à destruição do meio ambiente, ao massacre do Terceiro Mundo em termos econômicos. Como se pode fazer isso? Pois bem, a Internet permite a articulação dos projetos alternativos locais em protestos globais, que acabam aterrizando em algum lugar, por exemplo, em Seattle, Washington, Praga, etc., porém que se constituem, se organizam e se desenvolvem a partir da conexão pela Internet, que dizer, de uma conexão global, de movimentos locais e de vivências locais. A Internet é a conexão global-local, que é a nova forma de controle e de mobilização social em nossa sociedade” (9). Isso tudo talvez tenha um sentido mais profundo do que parece à primeira vista. O significativo, aqui, é que o core da globalização atual não é a expansão dos fenômenos para uma escala global em si... mas a simultaneidade entre global e local que ocorre em virtude da possibilidade da conexão global-local. Ora, a conexão global-local só é possível por intermédio das redes. São as redes, portanto, a “chave” para entender a globalização. É a sociedade-rede o fulcro de tudo e não o fato do mundo ser global porque reproduz fenômenos semelhantes no conjunto do globo terrestre, porque alguém come um Big Mac adaptado ao sabor chinês em Nanquim ou manda e-mails da África usando o Outlook Express traduzido para o inglês do Zimbábue, ainda que essas coisas também ocorram em virtude da conexão global-local. Para usar os termos de Pierre Levy, a ‘aldeia global’ midiática (e “molar”) de Marshall McLuhan sugere o mundo virando um local. A ‘sociedade-rede’ (“molecular”) de Manuel Castells sugere cada local virando o mundo, 18
  • 19. holograficamente (embora Castells, ao que eu saiba, não possa ser responsabilizado por esta formulação). Uma frase surgida em recente discussão na AED resume bem o ponto: “o local conectado é o mundo todo”. Para decifrar o enigma é preciso perceber a simultaneidade dos processos de ‘globalização’ – e – ‘localização’, ou melhor, o processo complexo de ‘globalização-e- localização’, que está possibilitando o mundo virar um só local e um só local virar o mundo todo. Este texto é sobre isso. Resumindo Há uma mudança social em curso no mundo dos últimos anos. O aspecto mais visível dessa mudança é o que estamos chamando de globalização. O que está acontecendo de fato é uma glocalização. O que menos se vê (ou o que ainda não se vê tão claramente), entretanto, é a localização. Com o objetivo de mostrar que a volta ao local, em uma época de globalização, está se afirmando como uma alternativa de indução ao desenvolvimento que promete transformar milenares relações políticas e sociais de dominação, vamos elencar 23 proposições para uma exposição ordenada. Sobre a globalização 1 – O fenômeno da globalização é separável da ideologia mercadocêntrica que acompanhou as primeiras tentativas de conceitualizá-lo. 2 – A globalização não é um fenômeno exclusivamente econômico. 19
  • 20. 3 – Não poderemos compreender adequadamente o que é a globalização enquanto não nos desvencilharmos de visões mercadocêntricas e estadocêntricas. Porque a globalização é, fundamentalmente, um fenômeno da (uma mudança global na) sociedade. 4 – O novo ambiente político mundial e a inovação tecnológica que têm possibilitado o surgimento do fenômeno que interpretamos como globalização é acompanhado por uma mudança social em sentido amplo (ou seja, no sentido “micro”, relativo ao “corpo” e ao “metabolismo” das sociedades, isto é, aos padrões de organização e aos modos de regulação de conflitos; e no sentido “macro”, cultural-civilizacional), interagindo, todos esses fatores, em um mesmo processo de “co-originação dependente”. 5 – A globalização é um fenômeno irreversível. Ao que ela vai levar, contudo, depende da evolução do sistema diante da bifurcação que se defronta na atualidade. 6 – A globalização é inédita: está criando algo que nunca existiu antes. 7 – A globalização não é uma ordem, mas um processo de desconstituição da velha ordem. 8 – “A saída democrática para a crise atual exige mais globalização e não menos globalização” (Giddens, 2001) (10). 9 – A globalização está em disputa e essa disputa não é somente entre os neoliberais (favoráveis) e os estatistas (contrários), mas envolve uma diversidade de posições variantes e conforma novos campos políticos de convergência que superam tal contradição. 10 – Não se pode captar plenamente o sentido do processo se não se compreender que a globalização é, simultaneamente, uma localização do mundo e uma 20
  • 21. mundialização do local; ou seja, é uma ‘glocalização’ (mas não exatamente no sentido do marketing, que foi atribuído pelos economistas japoneses que inventaram o termo no final da década de 1980 e nem apenas nos sentidos que lhe atribuiu seu principal divulgador, Roland Robertson, a partir de meados dos anos 90). Sobre a glocalização 11 – A glocalização é uma planetarização e uma comunitarização. 12 – A glocalização está em disputa e essa disputa é, fundamentalmente, uma disputa entre o ‘local separado’ e o ‘local conectado’, entre ‘dependência x independência’, por um lado e ‘interdependência’, por outro. 13 – O Estado não vai desaparecer na transição histórica atualmente em curso, senão que será transformado, mas não é certo se tal transformação será necessariamente glocalizante. O destino da forma atual do Estado-nação está em disputa e essa disputa é a mesma disputa que se trava em torno da glocalização. 14 – Assim como foi necessário utilizar um novo conceito (o de ‘globalização’) para entender as mudanças que estão ocorrendo na dimensão global, torna-se também necessário gerar outro conceito (o de ‘localização’) para entender as mudanças que estão ocorrendo coetaneamente na dimensão local. Como as duas coisas constituem aspectos do mesmo processo de glocalização ou de emersão da realidade glocal, isso significa que a glocalização confere um novo status ao local que, para ser revelado, exige também um novo construct e uma nova hipótese: a hipótese (no sentido “forte”) da ‘localização’. 21
  • 22. Sobre a localização 15 – O local é necessariamente o pequeno, mas não no sentido territorial ou populacional e sim no sentido daquilo que foi tornado pequeno por força de alta “tramatura” social. 16 – Quanto mais conectado é o mundo menor ele é, porém mais potente socialmente ele é (small is powerful). 17 – Localização não significa isolamento, mas um campo configurado com certo grau de estabilidade para permitir a conservação e a reprodução de uma mesma dinâmica endógena. 18 – Localizar não é encontrar um local, é criar um local. 19 – Globalização do local tende a ser igual a localização do global. 20 – Localidades tendem a se tornar holografias do planeta à medida que reflorescem comunidades no mundo globalizado. 21 – A localização está em disputa e essa disputa tenderá a pautar, em futuro próximo, os embates políticos dentro do Estado-nação. 22 – A localização é o aspecto objetivo da revolução do local, enquanto que seu aspecto subjetivo é a existência de uma crescente variedade de agentes, conectados em rede e dedicados a promover movimentos sociais de resistência e de geração de identidade – que dão origem a comunidades de projeto – a partir das novas temáticas do ambientalismo, dos direitos humanos e da cidadania, do feminismo, do ecumenismo e do pacifismo, do fortalecimento da sociedade civil e da promoção do voluntariado e, sobretudo, dedicados ao experimentalismo inovador que se desenvolve em torno de processos de 22
  • 23. democracia participativa em redes sociais e de indução ao desenvolvimento integrado e sustentável, sistemas sócio- produtivos e de sócio-economia alternativa ou solidária, ensaiados em escala local. 23 – A volta ao local, em uma época de globalização, está se afirmando como uma alternativa de indução ao desenvolvimento que promete transformar milenares relações políticas e sociais de dominação. NOTAS E REFERÊNCIAS (1) Herbert, Frank (1969). O Messias de Duna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (2) Moya, Miguel Angel Muñoz (ed.) (1986). “El Rosário de los filósofos”. Barcelona: Muñoz Moya y Montraveta, 1986. (3) Friedman, Thomas L. (1999). O Lexus e a Oliveira. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. (4) http://www.santafe.edu/ (5) Cf. Texto 6 e Texto 7 (6) Giddens, Anthony (1999). Mundo em descontrole. Rio de Janeiro: Record, 2000. (7) Idem. (8) Giddens, Anthony (1990). As conseqüências da modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 1991. (9) Castells, Manuel (2002). “A Internet e a Sociedade Rede”. http://campus.uoc.es/web/cat/index.html. (10) Giddens, Anthony (2001). “O fim da globalização?”. Brasília: Correio Braziliense, 04/10/2001. 23
  • 24. Capítulo Um | Globalização 24
  • 25. Entendendo a globalização Conquanto seja possível tecer inumeráveis análises dos diferentes aspectos econômicos, tecnológicos e culturais da globalização, não é muito fácil chegar a uma compreensão global do fenômeno. Grande parte das análises disponíveis não dá conta de captar o fenômeno da globalização no que ele tem de inédito. Essas análises são, em geral, fragmentadas, porquanto se baseiam em visões desfocadas: quer, por um lado, por uma certa euforia mercadocêntrica; ou quer, por outro lado, por reações estadocêntricas. É preciso ver que o conceito de ‘globalização’ surgiu no marketing e, só depois, foi incorporado e recuperado por outras disciplinas. Já havia uma proto-ideologia (que Beck chama de “globalismo” e quase todo mundo chama de neoliberalismo) embutida no conceito inicial (1). Fomos apresentados ao tema da globalização (ou introduzidos na 25
  • 26. sua problemática) a partir de pontos de vista totalmente ou predominantemente mercadocêntricos. Na seqüência veio a crítica sociológica, da sociologia política baseada, sobretudo, na sociologia econômica. Essa crítica, ao desvelar a ideologia presente na visão inicial, se constituiu, muitas vezes, como uma rejeição do conceito e, não raro, como uma reação ao próprio fenômeno objetivo que o conceito (a idéia de globalização) queria captar. Assim, a crítica ao conceito transformou-se, em parte, em uma estiolante disputa (ideologizada) entre ideologias, contrapondo uma visão contra-liberal à visão neoliberal, uma perspectiva estadocêntrica àquel’outra, mercadocêntrica. Entrementes, o fenômeno mesmo, na sua integralidade e naquilo que lhe poderia conferir caráter distintivo de outros fenômenos sociais, passava (quase) despercebido. Todavia, para entrar de fato no assunto é preciso partir da pergunta: qual é o fenômeno que está ocorrendo no mundo dos últimos anos e que estamos interpretando como globalização? O mercado financeiro, as multinacionais, o terrorismo internacional, a indústria do entretenimento, o McDonalds, a CNN, a Internet – tudo isso sugere que o mundo está vivendo uma nova época ou passando por um processo de mudança que foi chamado de globalização. Em primeiro lugar é preciso responder se está ou não está havendo tal mudança, que tipo de mudança é essa, qual a sua profundidade e abrangência e qual o seu sentido. Existem pessoas que acham que não está havendo mudança alguma significativa ou, pelo menos, alguma que mereça atenção especial. O mundo já teria passado por várias globalizações, desde a era dos descobrimentos e até antes. Existem pessoas que acham que a mudança é de natureza fundamentalmente tecnológica e que são as novas máquinas que estão introduzindo novos comportamentos. Existem pessoas que acham que a mudança atual decorre da liberação das forças de mercado que, pela primeira vez, 26
  • 27. estão podendo expressar toda a sua capacidade destrutiva- criativa sem as peias impostas pelas regulações normativas, heterônomas e exógenas, provenientes do antiquado Estado-nação. Existem pessoas que acham que tudo não passa de uma tentativa das grandes corporações transnacionais para dominar o mundo, o que vai acabar configurando uma realidade social mundial composta por algumas ilhas de alto desenvolvimento tecnológico, fortemente protegidas, em um mar de pobreza e exclusão. E existem pessoas que acham que tudo se explica por tal ou qual combinação de todos ou de alguns desses fatores: um pouco disso, um pouco daquilo. Parto do princípio de que não é possível compreender a globalização se não se admitir que há uma mudança em curso no mundo, tão profunda e abrangente como talvez jamais tenha ocorrido antes na história conhecida. Como disse Giddens “a globalização não é um acidente em nossas vidas hoje. É uma mudança de nossas próprias circunstâncias de vida. É o modo como vivemos agora” (2). Essa mudança é de natureza social. Ultrapassando as fronteiras dos Estados nacionais, ela está gerando um novo tipo de sociedade no mundo. Uma nova sociedade está sendo criada. Como sustenta Giddens, está sendo criado “algo que nunca existiu antes, uma sociedade cosmopolita global” (3). E, como escreveu Thompson, “uma nova cultura planetária está surgindo juntamente com a nossa nova economia globalizada” (4). Creio que é necessário insistir nesse ponto de partida da análise. Uma nova sociedade está sendo criada. Ela começou a ser gestada depois da Segunda Guerra, foi se configurando internamente (ou tomando corpo, como embrião, ainda no ventre da velha sociedade) a partir do final dos anos 60, mas só obteve os recursos técnicos e as condições políticas para vir à luz a partir do final dos anos 80. 27
  • 28. A mudança em curso, por certo, é social, mas em um sentido amplo, ou seja: no sentido “micro”, relativo ao “corpo” e ao “metabolismo” das sociedades, isto é, aos padrões de organização e aos modos de regulação de conflitos; e no sentido “macro”, cultural-civilizacional. Todavia, conquanto o processo de globalização seja irreversível e conquanto o seu sentido geral seja o da conformação de uma nova configuração planetária, não é certo a que lugar ele levará. O mundo se encontra diante de uma bifurcação e tanto pode avançar, como supõe Thompson, “na transição da era de uma economia industrial global de Estados-nações territoriais para uma ecologia cultural planetária de sistemas de governança noéticos” (5), quanto pode retroceder para formas autoritárias, com um recrudescimento do estatismo que tenderá a reinstaurar a velha ordem do “estado de guerra” em âmbito planetário, baseada em novos complexos-pólos pós-industriais militares de alta tecnologia. Com efeito, sucedendo os promissores sinais de globalização política pós-guerra fria, surgidos sobretudo nos anos 90, os primeiros anos do terceiro milênio apontam para um retrocesso, com o recrudescimento do velho estatismo. Como tive oportunidade de escrever seis dias depois do atentado ao World Trade Center, “se a ‘America’s new war’ se generalizar, haverá, certamente, um retrocesso no fortalecimento da sociedade civil e no processo de sua mundialização, bem como uma contração da esfera pública, sobretudo da emergente esfera pública não-estatal – a novidade mais importante desta passagem, que estamos vivendo, para o novo milênio, na transição da sociedade hierárquica para uma sociedade em rede” (6). Neste capítulo vamos ver que o fenômeno da globalização é separável da ideologia mercadocêntrica que acompanhou as primeiras tentativas de conceitualizá-lo. Que a globalização não é um fenômeno exclusivamente econômico. Que não poderemos compreender adequadamente o que é a globalização enquanto não nos 28
  • 29. desvencilharmos de visões mercadocêntricas e estadocêntricas (de vez que a globalização é, fundamentalmente, um fenômeno da – uma mudança global na – sociedade). Vamos ver ainda que o novo ambiente político mundial e a inovação tecnológica que têm possibilitado o surgimento do fenômeno que interpretamos como globalização é acompanhado por uma mudança social em sentido amplo (ou seja, no sentido “micro”, relativo ao “corpo” e ao “metabolismo” das sociedades, isto é, aos padrões de organização e aos modos de regulação de conflitos; e no sentido “macro”, cultural-civilizacional), interagindo, todos esses fatores, em um mesmo processo de “co-originação dependente”. Em seguida vamos ver por quê a globalização é um fenômeno irreversível (conquanto ao que ela vai levar, dependa da evolução do sistema diante da bifurcação que se defronta na atualidade). Por quê a globalização é inédita: está criando algo que nunca existiu antes. Por quê a globalização não é uma ordem, mas um processo de desconstituição da velha ordem. E por quê, como disse Giddens, “a saída democrática para a crise atual exige mais globalização e não menos globalização” (7). E ainda, por quê a globalização está em disputa e quais são as forças políticas que se confrontam ou se defrontam hoje no cenário internacional. Por último, lançando uma ponte para o capítulo seguinte, vamos interrogar por quê não se pode captar plenamente o sentido do processo se não se compreender que a globalização é, simultaneamente, uma localização do mundo e uma mundialização do local; ou seja, é uma ‘glocalização’ (mas não exatamente no sentido do marketing, que foi atribuído pelos economistas japoneses que inventaram o termo no final da década de 1980 e nem apenas nos sentidos que lhe atribuiu seu principal divulgador, Roland Robertson, a partir de meados dos anos 90) (8). 29
  • 30. NOTAS E REFERÊNCIAS (1) Beck, Ulrich (1998). O que é globalização? São Paulo: Paz e Terra, 1999. (2) Giddens, Anthony (1999). Mundo em descontrole. Rio de Janeiro: Record, 2000. (3) Idem. (4) Thompson, William Irwing (2001). “Cultural History and Complex Dynamical Systems” in Transforming History: a Curriculum for Cultural Evolution. MA: Lindisfarne Books, 2001. (5) Idem. (6) Franco, Augusto (2001). “A ‘America’s new war’ e o recrudescimento do velho estatismo”: http://www.augustodefranco.org/conteudo.php?cont=textos&id=P24 (7) Giddens, Anthony (2001). “O fim da globalização?”. Brasília: Correio Braziliense, 04/10/2001. (8) Ver Capítulo 2. Globalização e neoliberalismo O fenômeno da globalização é separável da ideologia mercadocêntrica que acompanhou as primeiras tentativas de conceitualizá-lo. Embora o termo ‘globalismo’ já figure no dicionário Webster desde 1943 e embora a idéia de que vivemos em uma “aldeia global” tenha sido introduzida, para captar o impacto das novas tecnologias de comunicação em nossas vidas, por Marshall McLuhan, em 1962 (no livro “A Galáxia de Gutemberg”), a palavra ‘globalização’, com a sua conotação atual, foi utilizada pela primeira vez em 1983, por Theodore Levitt, em um artigo de dez páginas intitulado “A Globalização dos Mercados”, publicado pela Harvard Business Review (em 1o de maio de 1983). No entanto, 30
  • 31. Levitt não poderia ter, àquela época, a dimensão plena do fenômeno que hoje chamamos de globalização. Ele estava detectando um importante sinal: a convergência dos mercados do mundo. “Em todas as partes – escreveu Levitt – a mesma coisa é vendida e da mesma forma” (1). Mas conquanto Levitt tivesse introduzido o termo ‘globalização’ em 1983, ele só foi popularizado em 1990, com a publicação do livro “O Mundo Sem Fronteiras: Poder e Estratégia na Economia Interligada” de Kenichi Ohmae (2). É significativo que tanto o introdutor do tema quanto o seu principal divulgador tenham encarado o fenômeno do ponto de vista da racionalidade mercantil. Também é significativo que ambos pareciam estar especialmente interessados em extrair, das novas tendências que lograram perceber, orientações para a gestão empresarial e para o marketing. O livro de Ohmae, por exemplo, tinha como subtítulo: “Lições de gerenciamento na nova lógica do mercado global”. Ohmae acreditava que a globalização constituía uma nova etapa no desenvolvimento das multinacionais. Ele imaginou que as multinacionais acabariam evoluindo para formas de gestão integrada em escala mundial e que isso as levaria a estabelecer, segundo seus próprios interesses, as novas regas do jogo global, tornando obsoleto inclusive o papel do Estado-nação. Com efeito, em 1995, Ohmae lançou outro livro (“O Fim do Estado-Nação”), que tinha como subtítulo: “Como o Capital, as Corporações, os Consumidores e a Comunicação estão reformatando os mercados globais” (3). Fomos, assim, como já assinalei, apresentados ao tema (e/ou introduzidos na problemática) da globalização a partir de pontos de vista ou totalmente ou predominantemente mercadocêntricos. Evidentemente, vários pesquisadores logo descobriram que o fenômeno era muito mais complexo do que simplesmente uma globalização dos mercados. Entretanto, a maior parte dos que escreveram sobre o tema na primeira e até, às vezes, na segunda metade da década de 90, ainda 31
  • 32. conferiam um peso bastante destacado ao fator econômico, talvez porque, juntamente com o processo de globalização em si, ocorria também, como fenômeno acompanhante, a emersão de uma ideologia (e de uma euforia) mercadocêntrica. Globalismo, globalidade e globalização Ulrich Beck, por exemplo, em 1998, (em “O que é globalização?”), fez uma distinção entre globalismo, globalidade e globalização. Globalismo seria a ideologia do domínio (mundial) do mercado (sobre as demais esferas da realidade social), ou seja, o neoliberalismo (correspondendo mais ou menos ao que eu chamo de perspectiva mercadocêntrica ou mercadocentrismo). Globalidade se referiria ao reconhecimento de que já vivemos em uma sociedade mundial, na qual há diversidade sem unidade – uma realidade irreversível, segundo ele, em virtude da conjunção de vários fatores ou motivos. Globalização, por sua vez, seria uma denominação genérica para os processos pelos quais os Estados nacionais sofrem a interferência cruzada de atores transnacionais em todos os campos (soberania, identidade, redes de comunicação, chances de poder e orientações políticas). A globalização seria, assim, uma “sociedade mundial sem Estado mundial e sem governo mundial”, uma nova forma global de capitalismo, desorganizado, na qual “não há poder hegemônico ou regime internacional econômico ou político”. Por isso, a globalização desencadeia um movimento contrário de defesa do Estado (social ou nacional) contra a invasão do mercado mundial (4). Ora, se reconhecemos que existe uma realidade social objetiva (chamada de “globalidade”, como quer Beck ou, simplesmente, de “sociedade cosmopolita global”, como prefere Giddens), então é óbvio que o fenômeno da globalização é separável da ideologia mercadocêntrica (globalista em temos econômicos ou neoliberal) que acompanhou as primeiras tentativas de conceitualizá-lo. 32
  • 33. NOTAS E REFERÊNCIAS (1) Levitt, Theodore (1983). “The Globalization of Markets” in Harvard Business Review (May 1, 1983). (2) Ohmae, Kenich (1990). The Borderless World. New York: Harper & Row, 1990. (3) Ohmae, Kenich (1995). O fim do Estado-Nação. Rio de Janeiro: Campus, 1996 (orig. The End of the Nation State: How Region States Harness the Prosperity of the Global Economy. Free Press, McMillan, Inc., May 1995). (4) Beck, Ulrich (1998). O que é globalização? São Paulo: Paz e Terra, 1999. 33
  • 34. Globalização e capitalismo A globalização não é um fenômeno exclusivamente econômico. Na segunda metade da década de 90 começaram a aparecer também outros pontos de vista sobre a globalização, que pagavam menos tributos ao reducionismo da visão econômica. Pesquisadores como Anthony Giddens, David Held, Anthony McGrew e Manuel Castells, entre outros, começaram a ver que o fenômeno não se restringia ao aspecto exclusivamente econômico, como continuaram enfatizando alguns organismos financeiros (como o FMI e, até os dias de hoje, os seus críticos, de esquerda ou de direita – inclusive alguns de seus antigos funcionários, como Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001, para o qual, em suma, quando alguém fala de globalização está se referindo a “remoção das barreiras ao livre comércio e a maior integração das economias nacionais”) (1). No final do século passado, Anthony Giddens (1999) já havia considerado um erro ver a globalização como um “fenômeno quase exclusivamente em termos econômicos... A globalização – escreveu ele – é política, tecnológica e cultural, tanto quanto econômica” (2). Outros pesquisadores, por sua vez, começaram a perceber que o fenômeno da globalização tinha raízes mais antigas (uma parte das quais, talvez a mais significativa, lançada uns dez anos antes da “descoberta” de Levitt) e só começou a se revelar de fato, naquilo que tinha de mais inédito e surpreendente, uns dez anos depois da publicação do “A Globalização dos Mercados”. 34
  • 35. Pois bem. Afirmei acima que para analisar corretamente o processo de globalização é preciso admitir, como ponto de partida, que uma nova sociedade está sendo criada. Ela começou a ser gestada depois da Segunda Guerra, foi se configurando internamente (ou tomando corpo, como embrião, ainda no ventre da velha sociedade) a partir do final dos anos 60, mas só obteve os recursos técnicos e as condições políticas para vir à luz a partir do final dos anos 80. A conjunção desses dois fatores, no dealbar dos anos 90, possibilitou uma mudança tão rápida no funcionamento da sociedade humana em nível global, como jamais se viu na história. Creio ser essa mudança o fenômeno que interpretamos atualmente como globalização. Inovação tecnológica e condições políticas favoráveis Com efeito, as inovações tecnológicas que possibilitaram o atual processo de globalização surgiram na década de 1970, com a revolução das TICs (tecnologias de informação e comunicação). Por um lado, com o surgimento dos primeiros satélites de órbita estacionária, que viabilizaram a comunicação em tempo real entre dois pontos quaisquer do planeta (e, depois, da fibra ótica, da transmissão eletromagnética em uma faixa maior de freqüências, da utilização do laser, da telefonia digital etc.). E, por outro lado, com a invenção do microprocessador e do microcomputador. A união, sinérgica, dessas duas tecnologias, possibilitou que pessoas pudessem se conectar com pessoas superando as barreiras do tempo e do espaço. No entanto, tudo isso somente veio a ocorrer, em escala significativa, vinte anos depois, em meados da década de 1990, por meio de uma rede de redes de computadores capazes de se comunicar entre si chamada Internet. 35
  • 36. Simultaneamente, as condições políticas que permitiram que o atual processo de globalização ocorresse, só se reuniram a partir da queda do Muro. Nesse aspecto tinha razão Thomas Friedman quando disse, em 1999, que “o mundo vagaroso, estável e fragmentado da Guerra Fria, que dominara o cenário internacional desde 1945, foi substituído por um novo e bem lubrificado sistema interconectado, chamado globalização” (3). Para Friedman, “a globalização é o sistema internacional que substituiu o sistema da Guerra Fria”, no qual os Estados-nações detinham em suas mãos a quase totalidade da capacidade ordenadora (4). Difusão mundial do capitalismo Embora enfatize a importância das condições políticas, a visão de Thomas Friedman ainda é centrada predominantemente no mercado, sobretudo na combinação de livre mercado com inovação tecnológica. Para ele “a idéia que dá impulso à globalização é o capitalismo de livre mercado – quanto maior a liberdade de atuação das forças de mercado e quanto mais ampla a abertura da economia para o livre comércio e para a competição, mais eficiente e mais próspera será a economia. A globalização significa a difusão do capitalismo de livre mercado para praticamente todos os países do mundo. A globalização também conta com o seu próprio conjunto de regras de economia – normas que giram em torno da abertura, da desregulamentação e da privatização da economia” (5). Friedman, como se vê – e ele não esconde – está possuído por aquela ideologia que Ulrich Beck chama de ‘globalismo’. Para se deixar possuir por tal ideologia é necessário, antes de qualquer interpretação do fenômeno da globalização como triunfo do liberalismo, aderir à crença de que o capitalismo de livre mercado constitui a alternativa mais eficaz de organização social. 36
  • 37. Visões como essa, evidentemente, geraram e continuam gerando fortíssimas reações por parte daqueles que não têm motivos para aderir a tal crença (seja porque já abraçaram utopias igualitárias, seja porque já estão suficientemente impregnados por ideologias contrárias, baseadas no papel suficiente do Estado como protagonista único e exclusivo do processo de organização das sociedades); e também por parte daqueles que, como registrou o próprio Friedman, “foram violentados ou deixados para trás pelo novo sistema” (6). NOTAS E REFERÊNCIAS (1) Stiglitz, Joseph (2002). A globalização e seus malefícios. São Paulo: Futura, 2003. (2) Giddens, Anthony (1999). Mundo em descontrole. Rio de Janeiro: Record, 2000. Anthony Giddens considerou um erro ver a globalização como um “fenômeno quase exclusivamente em termos econômicos... A globalização é política, tecnológica e cultural, tanto quanto econômica”. Para Giddens as mudanças em curso no mundo atual “estão criando algo que nunca existiu antes, uma sociedade cosmopolita global. Somos a primeira geração a viver nessa sociedade, cujos contornos até agora só podemos perceber indistintamente. Ela está sacudindo nosso modo de vida atual, não importa o que sejamos. Não se trata – pelo menos no momento – de uma ordem global conduzida por uma vontade humana coletiva. Ao contrário, ela está emergindo de uma maneira anárquica, fortuita, trazida por uma mistura de influências... A globalização não é um acidente em nossas vidas hoje. É uma mudança de nossas próprias circunstâncias de vida. É o modo como vivemos agora”. Assim, para Giddens, “é errado pensar que a globalização afeta unicamente os grandes sistemas, como a ordem financeira mundial. A globalização não diz respeito apenas ao que está “lá fora”, afastado e muito distante do indivíduo. É também um fenômeno que se dá “aqui dentro”, influenciando aspectos íntimos e pessoais de nossas vidas... A globalização não somente puxa para cima, mas também empurra para baixo, criando novas pressões por autonomia local. O sociólogo americano Daniel Bell descreve isso muito bem quando diz que a nação se torna não só pequena demais para resolver os grandes problemas, como também grande demais para resolver os pequenos”. Avançando mais nessa linha de raciocínio, Giddens percebe que “a globalização é a razão do ressurgimento de identidades culturais locais em várias partes do mundo”. 37
  • 38. (3) Friedman, Thomas L. (1999). O Lexus e a Oliveira. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. Mais adiante veremos que a queda do Muro é um evento cujas conotações simbólicas são muito mais profundas e abrangentes do que parecem à primeira vista. A queda do Muro de Berlim representa a queda de muitos outros muros, o fim de muitas separações, ou seja, da ausência de múltiplos caminhos... É, em certo sentido, uma dessacralização do mundo (sagrado = separado), ou seja, uma des-hierarquização (de vez que a hierarquia constitui-se sempre como uma ordem sacerdotal, quer dizer, sagrada), caracterizada pela existência de caminhos únicos. A possibilidade da conexão em rede – ou seja, da existência de múltiplos caminhos – foi, aqui, o fator-chave. (4) Idem. (5) Idem-idem. (6) Ibidem. 38
  • 39. Globalização e fundamentalismos laicos (de mercado e de Estado Não poderemos compreender adequadamente o que é a globalização enquanto não nos desvencilharmos de visões mercadocêntricas e estadocêntricas. Porque a globalização é, fundamentalmente, um fenômeno da (uma mudança global na) sociedade. A visão de Friedman, conquanto (como frisei anteriormente), tenha o mérito de reconhecer a dimensão política da globalização como processo de mudança ora em curso no mundo, é claramente mercadocêntrica. Ele não se pergunta se alguma coisa (e que tipo de coisa) mudou no desenho da sociedade civil e nos seus padrões de relacionamento com o Estado e com o mercado, para permitir que a conjunção de inovação tecnológica com livre mercado, sob condições políticas favoráveis – com o fim do sistema de “muros” da guerra-fria “que dividia todo o mundo” e a introdução da ‘www’ (World Wide Web) “que une todo o mundo” – pudesse assumir uma dimensão planetária, alterando o antigo equilíbrio do sistema global (1). Partindo de pressupostos semelhantes aos de Friedman, muita gente tenta explicar a globalização a partir do mercado, imaginando talvez que alguma coisa como uma 39
  • 40. acumulação ou incubação de forças econômicas, represadas politicamente durante 40 anos e sem meios técnicos para se expressar, de repente, quando as condições (políticas e técnicas) foram favoráveis, tivesse irrompido à luz do dia. Nas explicações dessas pessoas os comportamentos e as normas sociais são, por certo, alterados por tal fenômeno, mas o fenômeno em si mesmo não é explicado pela alteração da estrutura e da dinâmica social, por mudanças no “corpo” e no “metabolismo” das sociedades e nem por mudanças culturais-civilizacionais. É como se as forças de mercado tivessem um comportamento autônomo, uma dinâmica imanente, inerente apenas à sua própria “esfera” e não fossem construídas historicamente pela experiência concreta das sociedades humanas. Por outro lado, os que se contrapõem a essa visão, em geral também não fazem tais perguntas e não tentam investigar o que mudou na sociedade para produzir o fenômeno. Reagem à ideologia ‘globalista’ (neoliberal) com uma outra ideologia, simetricamente posta, contraliberal: o estatismo. A cruzada estatista contra o neoliberalismo No afã de resistir às mudanças, introduzidas em especial a partir dos anos 90, no padrão de relação Estado-sociedade, a luta contra a globalização assumiu assim, em grande parte, a feição ideológica de uma cruzada contra o chamado neoliberalismo. O estatismo (ou estadocentrismo) imagina a sociedade como dominium do Estado. Imagina que o Estado não só detém mas deve deter eternamente o monopólio do público. Imagina, hobbesianamente, que o Estado deve ser o supremo regulador dos conflitos sociais. E imagina, em alguns casos, que o Estado deva ser o protagonista único e exclusivo das mudanças sociais. 40
  • 41. Ora, para quem pensa dessa maneira não pode mesmo haver ameaça maior do que a globalização. Porque a globalização ameaça de fato o velho status do Estado- nação. Todavia, os que se deixaram impregnar pela ideologia estatista deveriam parar e perguntar: qual é mesmo o problema para a sociedade humana? O fato de estarmos entrando em contato com realidades que não podem mais ser adequadamente enfrentadas pelas tradicionais estruturas políticas nacionais e pelos sistemas de governança atuais, não deveria significar que, necessariamente, está indo tudo por água a baixo. Deveria significar, isso sim, que temos pela frente a imensa tarefa de reconstruir novas estruturas e novos sistemas que dêem conta de enfrentar os novos desafios. Globalidade irreversível Beck lista oito motivos que tornam a globalidade irreversível: “1) ampliação geográfica e crescente interação do comércio internacional, a conexão global dos mercados financeiros e o crescimento do poder das companhias transnacionais. 2) A ininterrupta revolução dos meios tecnológicos de informação e comunicação. 3) A exigência, universalmente imposta, por direitos humanos – ou seja, o princípio (do discurso) democrático. 4) As correntes icônicas da indústria cultural global. 5) A política mundial pós-internacional e policêntrica – em poder e número... com uma quantidade cada vez maior de atores transnacionais (companhias, organizações não- governamentais, uniões nacionais). 6) A questão da pobreza mundial. 41
  • 42. 7) A destruição ambiental mundial. 8) Conflitos transculturais localizados” (2). A esta lista poderíamos acrescentar outros tantos itens que comparecem na nova realidade do mundo globalizado e que, de algum modo, estão associados aos desafios para os quais o velho sistema de Estados-nações não está preparado: 1’) A volta ao local, ou o reflorescimento da perspectiva comunitária como alternativa de desenvolvimento, revelando a inadeqüabilidade do Estado-nação para interagir com as peculiaridades dos processos locais. Como assinalou Daniel Bell: a nação se tornou, simultaneamente, pequena demais para resolver os grandes problemas e grande demais para resolver os pequenos. Como exemplos poderíamos citar, no primeiro caso, as questões ambientais e as questões relacionadas aos direitos humanos, que ultrapassam os fronteiras nacionais; e, no segundo caso, as questões, sobretudo políticas, relacionadas ao desenvolvimento local (que questionam as cadeias clientelistas de intermediação de recursos públicos que sustentam todo o sistema político). 2’) O terrorismo internacional, a lavagem de dinheiro e os paraísos fiscais, o narcotráfico e os tráficos de armas, de nascituros e crianças para adoção ilegal, de pessoas para prostituição ou trabalho forçado e de órgãos. 3’) A incapacidade do Estado-nação de reprimir as novas dimensões coletivas da criminalidade e o questionamento e a deslegitimação – na prática de milícias, gangues, grupos separatistas – do monopólio da violência por parte do Estado. 4’) A produção de armas de destruição em massa, sobretudo as nucleares, químicas e biológicas (mas também as de altíssima tecnologia, como as eletromagnéticas) nas mãos de países autocráticos e nas mãos de grandes potências com pretensões imperiais. 42
  • 43. 5’) As ameaças à paz mundial representadas pela velha noção de soberania (como vem revelando atualmente as insanidades do grupo belicista que ascendeu ao poder nos USA com George W. Bush e as novas ideologias perversas urdidas e difundidas por esse grupo, como, por exemplo, a doutrina da preempção ou da guerra preventiva). 6’) As novas doenças endêmicas e pandêmicas, provavelmente causadas por uma intervenção antrópica desarmonizante no meio ambiente natural (como a malária amazônica resultante de desmatamento e as viroses da “zona quente” da África subsaariana). 7’) O colapso da política nacional baseada no sistema de representação, ou seja, o esgotamento e a perda de legitimidade das democracias realmente existentes (transformando os processos de eleição de governantes e legisladores, como diz Thompson, em uma espécie de “cruzamento do entretenimento, dos esportes televisionados e da gestão de celebridades na cultura popular da ilusão compartilhada...” (3). 8’) A exarcebação de fundamentalismos religiosos (em maior parte ligados à correntes sectárias do islamismo, mas não só) e laicos, como o fundamentalismo de mercado (com a ampla intoxicação pelo neoliberalismo dos policymakers e decisores de vários países do mundo, disseminando visões ideológicas, pretensamente científicas, segundo as quais o ser humano seria naturalmente ou intrinsecamente competitivo e desenhando políticas públicas que não levam em conta o papel da cooperação) e o fundamentalismo de Estado (com o amplo recrudescimento do estatismo, a partir, inclusive, de uma reação contra-liberal ao processo de globalização por parte de tendências políticas de direita e de esquerda, disseminando uma cultura adversarial e visões pervertidas segundo as quais não existem propriamente problemas senão culpados, de vez que a sociedade humana é tomada como um campo inexoravelmente vincado pela relação amigo x inimigo e fazendo política de oposição na base do “quanto pior para o 43
  • 44. país comandado pelo inimigo melhor para mim” ou, quando na situação, desenhando políticas públicas como políticas exclusivamente estatais que, igualmente, não levam em conta o papel da cooperação). (A esta nova lista ainda poderiam ser acrescentados alguns outros itens, como o protecionismo dos países ricos e as demais assimetrias do mercado internacional, ou seja, como lembra Stiglitz, as injustiças do sistema comercial global e a hipocrisia das organizações econômicas internacionais quando fingem que estão “ajudando países em desenvolvimento ao forçá-los a abrir seus mercados para as mercadorias das nações industrializadas e desenvolvidas, ao mesmo tempo que essas nações protegem seus próprios mercados”) (4). Para enfrentar esses novos desafios de maneira responsável, é necessário abandonar tanto a visão eufórica do globalismo econômico, que imagina que o livre jogo das forças de mercado levará, por si só, ao melhor dos mundos, quanto a visão reativa, estadocêntrica, que imagina que o fim da capacidade de impor, vertical e heteronomamente, uma ordem previamente concebida ao caos social, signifique alguma coisa como a volta à barbárie. Para fazer isso é preciso partir de uma visão proativa, que aceita o desafio da mudança da realidade, tal como ela se afigura (com os seus aspectos negativos e positivos, ainda que, no momento, mais negativos do que positivos) e procura fluir junto com ela para captar o seu sentido, conhecer as suas tendências e interagir positivamente com as novas configurações de atores que ela enseja. A nova sociedade civil Para falar de novos atores, se o processo chamado de globalização não modificasse o comportamento dos Estados-nacionais, não poderia estar emergindo, não pelo menos com a intensidade e a velocidade que verificamos na década de 1990, uma nova sociedade civil (o chamado terceiro setor). Igualmente, o reflorescimento da 44
  • 45. perspectiva comunitária – um dos sinais mais promissores dos tempos atuais – não poderia estar ocorrendo se o velho Estado-nação permanecesse tal como era antes. Foi preciso abalá-lo, desconstruir a ideologia que justificava a sua autosuficiência, de certo modo vergar a sua espinha dorsal – sua pretensão de onipotência e sua ambição de onipresença na sociedade – para que houvesse um pouco mais de ar para respirar... e as pessoas, então, respirando por seu próprio esforço (fora dos “balões de oxigênio da grande incubadeira-Estado”), pudessem se agrupar para pensar e agir por si mesmas. É assim que está emergindo, em toda parte em que as condições políticas o permitem, uma nova sociedade civil. Pessoas se associando a outras pessoas para fazer coisas que, voluntariamente, estão a fim de fazer – e, cada vez mais, de maneira independente de raça e credo, de língua e costumes, de território e nação – não, predominantemente, para ganhar alguma coisa, levar alguma vantagem, destruir algum concorrente ou eliminar algum inimigo. Isso significa que estamos avançando, na prática, para a perspectiva inédita de um mundo onde seja desejável e possível a cooperação, um ‘mundo (pelo menos em parte e sob certas condições) de colaboradores’, ao invés do ‘mundo (apenas) de competidores’ (dos neoliberais) ou do ‘mundo vincado pela relação amigo x inimigo’ (dos estatistas). Com efeito, a cooperação é (para usar uma expressão marxiana) mais ‘conforme ao ser social’ da nova sociedade civil (ou do terceiro setor) do que ao ser social do mercado ou ao ser social do Estado. Por isso, a emergência do terceiro setor (crescentemente acompanhada do reconhecimento do seu papel estratégico para o desenvolvimento social) é um fenômeno muito significativo dentro do processo de globalização. Como qualquer pessoa inteligente pode facilmente perceber, isso nada tem a ver com perspectivas privatizantes ou com a derruição do Estado pregada pelo pensamento neoliberal ou a ele atribuída. Tem a ver com uma nova perspectiva sociocêntrica, publicizante mas não 45
  • 46. estatizante, que está podendo surgir no contexto atual do processo de globalização, mesmo que os efeitos desse processo tenham se mostrado, até o momento, em grande parte, perversos. Portanto, para compreender adequadamente o que é a globalização temos que centrar o foco na sociedade e não apenas no mercado ou somente no Estado, desvencilhando- nos dessas duas “drogas pesadas” que turvam o pensamento, ou seja, das ideologias mercadocêntricas e estadocêntricas: o neoliberalismo e o estatismo, respectivamente. NOTAS E REFERÊNCIAS (1) Friedman, Thomas L. (1999). O Lexus e a Oliveira. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. (2) Beck, Ulrich (1998). O que é globalização? São Paulo: Paz e Terra, 1999. (3) “À medida que a política do governo representativo é transformada em esporte e entretenimento pela mídia eletrônica, em um ambiente em que as pessoas ficam livres para votar na celebridade mais bem-sucedida na captação de recursos e na propaganda, a civilização tradicional volta a assumir formas distorcidas de estágios anteriores – subculturas acadêmicas de filosofias pós-modernas não populares e obscurantistas em universidades, cultos a gurus de autoridade carismática em religiões medievais e gangues de adolescentes de dominação primata”). Cf. Thompson, William Irwin. “Cultural History and Complex Dinamical Systems” in “Transforming History: a Curriculum for Cultural Evolution” (MA: Lindisfarne Books, 2001). (4) Stiglitz, Joseph (2002). A globalização e seus malefícios. São Paulo: Futura, 2003. Globalização e mudança social 46
  • 47. O novo ambiente político mundial e a inovação tecnológica que têm possibilitado o surgimento do fenômeno que interpretamos como globalização é acompanhado por uma mudança social em sentido amplo (ou seja, no sentido “micro”, relativo ao “corpo” e ao “metabolismo” das sociedades, isto é, aos padrões de organização e aos modos de regulação de conflitos; e no sentido “macro”, cultural-civilizacional), interagindo, todos esses fatores, em um mesmo processo de “co-originação dependente”. A partir de meados da década de 1990, alguns pesquisadores compreenderam também que as inovações tecnológicas que possibilitaram a ocorrência do processo atualmente chamado de globalização não determinaram, stricto sensu, este processo, senão que permitiram que ele acontecesse com as características que de fato apresenta no final do século 20 e início do século 21 e que o distinguem de outras possíveis ou imaginadas “globalizações” pelas quais teria passado o mundo em épocas pretéritas. Por certo a globalização atual, dominada pelo fato da interligação crescente das economias nacionais sob a influência devastadora de um mercado financeiro livre de qualquer regulação normativa, acarreta muitas injustiças comerciais e sociais. O fenômeno global que chamamos de globalização, no entanto, é muito maior do que isso. Não se trata, como ainda imagina boa parte da velha esquerda, de um plano urdido pelas corporações transnacionais, que estão na vanguarda do processo de internacionalização da economia mundial, para dominar o mundo. Trata-se do surgimento de novas condições, sem as quais seria impossível o fluxo interativo de informação e conhecimento que tem permitido, inclusive, que os poderosos complexos 47
  • 48. financeiros e comerciais possam se internacionalizar e se integrar e tentar dominar o mundo. Mas que permite, também, a percepção compartilhada de problemas e perspectivas globais e o surgimento de novos atores globais, como a nova sociedade civil mundial que está emergindo na atualidade. Inovação tecnológica e mudança social Muitas vezes interpretamos essas condições como recursos técnicos: o surgimento das redes telemáticas que possibilitam a interação em tempo real, dando uma qualidade inédita ao processo de globalização do final do século 20, que o diferencia qualitativamente das antigas globalizações possivelmente já ocorridas em outras épocas, como na era das navegações, por exemplo. No entanto, é preciso ver – e isso faz toda a diferença em termos de análise – que tais condições são sociais. O fundamental aqui, como veremos mais adiante, não é o fato das redes telemáticas serem telemáticas (inovação tecnológica resultante da sinergização entre tecnologias de comunicação em tempo real com tecnologias miniaturizadas de informação em tempo real, amplamente disponibilizadas) e sim o fato de serem redes (inovação social no padrão de organização). Os avanços técnicos que estão possibilitando a existência de um mundo em tempo real – ou seja, de um mundo sem distância – cumprem um importante papel, de fato, mas a direção do seu desenvolvimento responde ao surgimento de novas relações sociais e não o inverso. Quando se inventa um novo hardware ou um novo software que permitem que tal ou qual operação seja feita entre grupos humanos é porque essa operação atende ou corresponde a um padrão de comportamento dado pela configuração e pela dinâmica desses grupos – uma necessidade, um desejo coletivo, enfim uma possibilidade de vida ou convivência social admissível ou apropriável por eles. 48
  • 49. Em outras palavras, são as relações sociais que determinam, em grandes linhas, os contornos e as características do campo dentro do qual surge a inovação tecnológica. Isso vale tanto para a tecnologia hidráulica dos egípcios, há 4 mil anos, quanto para a tecnologia atual das redes de computadores. Com efeito, como lembra Thompson (no excelente artigo “História cultural e sistemas dinâmicos complexos”, 2001), cada uma das bifurcações ou transformações culturais... [pelas quais passou a humanidade], desde as ferramentas da Idade da Pedra até os computadores, não constitui simplesmente uma mudança tecnológica. A própria inovação tecnológica é algo profundamente embutido em diversos sistemas de valores e símbolos, de modo que uma nova ferramenta pode surgir em sincronia com uma nova forma de sistema de governo e também como uma nova forma de espiritualidade. Em contraste com a história mais linear da tecnologia, a história cultural preocupa-se com o complexo sistema dinâmico no qual a flutuação biológica natural, as restrições ecológicas e os sistemas de comunicação e organização social interagem em um processo de “co-originação dependente” (1). Mais ou menos nessa mesma linha, conquanto referindo-se especificamente à Internet, Manuel Castells assinalou, no início de 2002, que “as tecnologias são produzidas por seu processo histórico de constituição e não simplesmente pelos seus desenhos originais enquanto tecnologia... A Internet é um instrumento que desenvolve mas não muda os comportamentos. São os comportamentos que se apropriam da Internet e, portanto, se amplificam e se potencializam a partir do que são. Isso não significa que a Internet não seja importante, mas significa que não é a Internet que muda o comportamento e sim que é o comportamento o que muda a Internet” (2) (cf. Texto 1). Ora, a esta altura da discussão, a pergunta que deve ser feita é a seguinte: qual é a mudança social (em sentido amplo, ou seja, no sentido “micro”, relativo a estrutura e a dinâmica das sociedades e no sentido “macro”, cultural- civilizacional) acompanhante – vamos dizer assim – das 49
  • 50. novas condições políticas mundiais e da inovação tecnológica que têm possibilitado o surgimento do fenômeno que interpretamos como globalização? Esse é o ponto. Acho que é possível mostrar que no sentido “micro”, a mudança social acompanhante das novas condições políticas mundiais e da inovação tecnológica que têm possibilitado a manifestação do fenômeno que interpretamos como globalização é uma mudança democratizante e aponta, dessarte, na direção de novas redes pactuadas de conversações, de um novo “metabolismo” (um novo modo de regular conflitos no interior do sistema formado por agentes que interagem em termos de cooperação e competição) e de um novo “corpo” compatível com esse novo “metabolismo” (ou seja, um novo padrão de organização, caracterizado pela existência de caminhos múltiplos entre os agentes, de conexões “horizontais” – isto é, de redes). Nesses termos, o sentido da grande mudança é o da emergência de cada vez mais redes e a emergência das redes, portanto, constitui a chave para entender a mudança social que está na base do fenômeno que chamamos de globalização. Penso ser possível mostrar também que, no sentido “macro”, a mudança social acompanhante do surgimento do novo ambiente político mundial que se esboça a partir da queda do Muro e que, juntamente com a inovação tecnológica, tem possibilitado a manifestação do fenômeno que interpretamos como globalização é o surgimento de uma nova cultura planetária, uma cultura conforme àquilo que Giddens chamou de “sociedade cosmopolita global”, uma cultura que só foi possível emergir na nova ambiência política pós-guerra-fria e que – aqui está toda a dificuldade para a análise – acompanha sim os movimentos da nova economia globalizada, porém pode apontar para outra direção, diferente daquela captável pela visão mercadocêntrica ou proposta pelo ‘globalismo’ como ideologia neoliberal. 50
  • 51. Assim, há quem anteveja que o processo de emersão dessa nova cultura tenha outro sentido. Thompson, por exemplo, acredita que “estamos testemunhando o surgimento de complexos sistemas noéticos de governança nos quais os seres humanos estão se agrupando em redes eletrônicas globais de consciência. Máquinas que antes eram externas a nós estão se tornando arquiteturas íntimas do nosso envolvimento com outras mentes, outras culturas, outros corpos celestiais” (3). Com efeito, as coisas estão tão imbricadas – novo ambiente político mundial, inovação tecnológica, nova cultura correspondente a uma sociedade cosmopolita global, nova morfologia da sociedade-rede e novos processos democrático-participativos ensaiados sobretudo em âmbito local – que torna-se muito difícil para a análise linear da velha sociologia (que procura relacionar causa e efeito por meio de relações unívocas ou bi-unívocas e confunde causação com anterioridade temporal) captar o fenômeno em sua globalidade. Mas a globalização, como, aliás, diz o termo, é um fenômeno que só se deixa captar por uma visão da sua globalidade enquanto sistema complexo interagente que co-evolui com seus componentes, relacionados entre si por processos de co-originação com múltiplos laços de interdependência. NOTAS E REFERÊNCIAS (1) Thompson, William Irwin (2001). “Cultural History and Complex Dinamical Systems” in “Transforming History: a Curriculum for Cultural Evolution”. MA: Lindisfarne Books, 2001. (2) Castells, Manuel (2002). “A Internet e a Sociedade Rede”. http://campus.uoc.es/web/cat/index.html. (3) Thompson; op. cit. 51
  • 52. Texto 1 | Castells e a ‘Galáxia da Internet’ “A Internet é um instrumento que desenvolve mas não muda os comportamentos. São os comportamentos que se apropriam da Internet e, portanto, se amplificam e se potencializam a partir do que são. Isso não significa que a Internet não seja importante, mas significa que não é a Internet que muda o comportamento e sim que é o comportamento o que muda a Internet”. Tomando como exemplo a tecnologia da Internet, Manuel Castells, na aula inaugural do programa de doutorado sobre sociedade da informação e do conhecimento, proferida em fevereiro de 2002 na Universidade Aberta da Catalunha (UOC), intitulada “A Internet e a Sociedade Rede” (1) afirma que “a Internet [que não passa de “uma rede de redes de computadores capazes de se comunicar entre si”] é o tecido de nossas vidas neste momento... No entanto, essa tecnologia é muito mais do que uma tecnologia. É um meio de comunicação, de interação e de organização social”. Castells comenta a famosa idéia de que “a Internet é algo incontrolável, algo libertário, etc., por causa da tecnologia”. Para ele, “isso ocorre porque esta tecnologia foi desenhada, ao longo da sua história, com tal intenção. Quer dizer, como um instrumento de comunicação livre, criado de forma múltipla por pessoas, setores e pesquisadores inovadores, que queriam que ela fosse um instrumento de comunicação livre. Creio, nesse sentido, que as tecnologias são produzidas por seu processo histórico de constituição e não simplesmente pelos seus desenhos originais enquanto tecnologia... A Internet é um instrumento que desenvolve mas não muda os comportamentos. São os 52
  • 53. comportamentos que se apropriam da Internet e, portanto, se amplificam e se potencializam a partir do que são. Isso não significa que a Internet não seja importante, mas significa que não é a Internet que muda o comportamento e sim que é o comportamento o que muda a Internet”. Castells conclui dizendo que “a Internet é a própria sociedade, expressa os processos sociais, os interesses sociais, os valores sociais, as instituições sociais... A especificidade da Internet é que ela constitui a base material e tecnológica da sociedade rede, é a infraestrutura tecnológica e o meio organizativo que permite o desenvolvimento de uma série de novas formas de relação social que não têm sua origem na Internet, que são fruto de uma série de mudanças históricas, porém que não poderiam desenvolver-se sem a Internet. Essa sociedade rede é a sociedade que eu analiso como uma sociedade cuja estrutura social está construída em torno de redes de informação a partir da tecnologia da informação microeletrônica estruturada na Internet. Porém a Internet, nesse sentido, não é simplesmente uma tecnologia, é o meio de comunicação que constitui a forma organizativa de nossas sociedades... A Internet é o coração de um novo paradigma sociotécnico que constitui, na realidade, a base material de nossas vidas e de nossas formas de relação, de trabalho e de comunicação. O que a Internet faz é processar a virtualidade e transformá-la em nossa realidade, constituindo a sociedade rede, que é a sociedade em que vivemos”. Com efeito, Manuel Castells, assinalou como uma das características dos movimentos sociais contemporâneos, o fato de que, “cada vez mais, o poder funciona em redes globais e as pessoas vivenciam e constroem seus valores, suas trincheiras de resistência e suas alternativas em sociedades locais. O grande problema que se coloca é como, desde o local, se pode controlar o global, como, a partir da minha vivência e da minha relação com o meu mundo local, que é onde eu estou, onde eu vivo, posso me opor à globalização, à destruição do meio ambiente, ao massacre do Terceiro Mundo em termos econômicos. Como 53
  • 54. se pode fazer isso? Pois bem, a Internet permite a articulação dos projetos alternativos locais em protestos globais, que acabam aterrissando em algum lugar, por exemplo, em Seattle, Washington, Praga, etc., porém que se constituem, se organizam e se desenvolvem a partir da conexão pela Internet, que dizer, de uma conexão global, de movimentos locais e de vivências locais. A Internet é a conexão global-local, que é a nova forma de controle e de mobilização social em nossa sociedade”. No livro “The Internet Galaxy: Reflections on Internet, Business and Society” (Oxford: Oxford University Press, 2001) Manuel Castells já havia tecido reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade (2). O nome da obra evoca, obviamente o célebre livro de MacLuhan: “assim como a difusão da máquina impressora no Ocidente criou o que MacLuhan chamou de a “Galáxia de Gutenberg”, ingressamos agora em um novo mundo de comunicação: a Galáxia da Internet”, afirma Castells. NOTAS E REFERÊNCIAS (1) Castells, Manuel (2002). “A Internet e a Sociedade Rede”. http://campus.uoc.es/web/cat/index.html. (2) O livro foi publicado no Brasil com o mesmo nome. Cf. Castells, Manuel (2001). A Galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. Globalização irreversível A globalização é um fenômeno irreversível. Ao que ela vai levar, contudo, depende da evolução do sistema diante da bifurcação que se defronta na atualidade. 54
  • 55. Entendido como um processo de desconstituição do antigo sistema mundial baseado no Estado-nação, parece óbvio que a globalização é um processo irreversível. Temos hoje outros atores internacionais, além do Estado-nação. Do ponto de vista econômico, como assinala Friedman, “os países... ainda são de enorme importância, hoje em dia; mas também o são os supermercados e os indivíduos com superpoderes. É impossível compreender o sistema da globalização ou a primeira página dos jornais, sem a visão da interação complexa entre esses três agentes: os Estados em choque com os Estados, os Estados em choque com o supermercados, e os supermercados e Estados em choque com os indivíduos com superpoderes” (1). Eliminar esses outros sujeitos que atuam na cena internacional, devolvendo ao Estado-nação um papel semelhante ao que cumpria antes da queda do Muro, para tomarmos um referencial político, não parece ser uma tarefa possível. Para o mal ou para o bem (melhor seria dizer: para o mal e para o bem), o processo de globalização interligou as unidades sócio-territoriais do planeta, os diversos mundos que antes podiam viver mais ou menos isolados, de tal forma e com tal intensidade que, voltar a estados anteriores de separação, implicaria realizar uma tarefa impossível: seria necessário não apenas cortar as conexões, proibir os meios de comunicação globais e os meios de transporte de pessoas e objetos senão, também, apagar a memória das duas últimas décadas. Isso para não falar na desarrumação que tal tentativa de re- compartimentação nas unidades nacionais acarretaria na economia global, no desenvolvimento científico e tecnológico, na política internacional e, inclusive, na estabilidade sócio-política mundial. Assim, parece razoável afirmar que a globalização é um processo irreversível. No entanto, tal não significa que ela nos levará para um lugar determinado, ou melhor, determinável a priori. É bom frisar: conquanto o processo de globalização seja irreversível e conquanto o seu sentido geral seja o da conformação de uma nova configuração planetária, não é 55
  • 56. certo a que lugar ele levará. O mundo se encontra diante de uma bifurcação e tanto pode avançar, como supõe Thompson, “na transição da era de uma economia industrial global de Estados-nações territoriais para uma ecologia cultural planetária de sistemas de governança noéticos”, quanto pode retroceder para formas autoritárias, com um recrudescimento do estatismo que tenderá a reinstaurar a velha ordem do “estado de guerra” em âmbito planetário, baseada em novos complexos-pólos pós-industriais militares de alta tecnologia (2). Bifurcação Mas o conceito de ‘bi-furcação’ não deve ser entendido literalmente como a existência de apenas duas alternativas, do tipo ‘civilização ou barbárie’ ou ‘ordem ou caos’. Bifurcação é o ponto crítico em que o sistema pode “optar” entre mais de um futuro possível. Atingido esse ponto crítico, a descrição determinista entra em colapso, tornando-se impossível prever o estado futuro do sistema. Tudo indica que o mundo atingiu ou está atingindo esse ponto crítico na passagem do século 20 para o século 21. Existem vários futuros possíveis para além do bom cenário das ‘redes eletrônicas de consciência’ e do mau cenário ‘Blade Runner’, ainda que – por algum motivo que não deveria ser tão desprezado pelos analistas – mais de 90% das tentativas de antecipação da literatura de ficção científica apontem para cenários do tipo Blade Runner. Todavia, a mudança macro-cultural em curso, a mudança, como assinala Thompson, “da nossa matriz de identidade de uma cultura de desejo de compra econômica e fervor patriótico para uma nova cultura planetária, na qual a ciência e a espiritualidade [um novo tipo de espiritualidade pós-religiosa] são os país diplóides de uma nova matriz de consciência” está gerando uma reação que introduz a bi- polaridade. Isso dá a impressão de que só existem duas alternativas. 56
  • 57. Essa reação é o fato mais preocupante nos dias de hoje, porquanto não se trata propriamente apenas de uma reação à globalização (ou às suas más conseqüências, o que seria justificável) e sim, também, de uma reação às melhores promessas da globalidade. Os fundamentalismos religiosos (mas também os laicos, como o neoliberalismo e o estatismo) e as reações terroristas nacionalistas ao que Thompson chama de ‘planetização’ (e que outros, como Edgar Morin, por exemplo, chamam de ‘planetarização’), constituem ameaças gravíssimas. “Como a Inquisição e a Contra-Reforma – escreve ele – essas explosões reacionárias podem prejudicar muito e atrasar a transformação cultural por séculos a fio. Se a humanidade pode ou não ascender para uma identidade transcultural, na qual a ciência e um novo tipo de espiritualidade pós- religiosa possam reintroduzir a consciência plenamente individuada da pessoa em um cosmos multidimensional, é a questão dos nossos tempos” (3). O que vai acontecer, não se pode saber de antemão. O jogo está sendo jogado. NOTAS E REFERÊNCIAS (1) Friedman, Thomas L. (1999). O Lexus e a Oliveira. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. (2) Thompson, William Irwin (2001). “Cultural History and Complex Dinamical Systems” in “Transforming History: a Curriculum for Cultural Evolution”. MA: Lindisfarne Books, 2001. (3) Idem. 57
  • 58. Globalização inédita A globalização é inédita: está criando algo que nunca existiu antes. Há quem afirme que o mundo já passou por várias globalizações. Citam-se, freqüentemente, a globalização ocorrida na época dos descobrimentos ou, ainda, a globalização dos primeiros anos do século 20. Os que dizem isso estão, obviamente, pensando a partir da economia, estão pensando em termos de ampliação e de integração de mercados. Ora, mesmo desse ponto de vista, a globalização atual é um fenômeno único. Antes de qualquer coisa porque, antes, jamais havia se conformado a constelação particular de fatores políticos e tecnológicos que possibilitou a globalização atual. Por exemplo, não se poderia sequer pensar em um mercado financeiro que funcionasse em 58
  • 59. todos os lugares do planeta simultaneamente, quer dizer, em tempo real. Primeiro porque as condições políticas do mundo anterior não o permitiriam. Segundo porque a tecnologia disponível não o permitiria. Mas a razão fundamental e mais substantiva é, simplesmente, porque, antes, não estava acontecendo a mudança social, em sentido amplo, atualmente em curso. Ou seja, não estava ocorrendo, no nível “macro”, a transição para uma cultura global e, no nível “micro”, a emergência de padrões de organização em rede e de modos de regulação democrático-participativos – fatores sem os quais, é bom frisar, a inovação tecnológica atual certamente não teria tomado a direção que tomou. Basta apontar um exemplo: não teríamos a Internet, não, pelo menos, com a estrutura e o funcionamento libertários que a caracterizam, porque as pessoas que desenharam essa rede de redes de computadores teriam feito, historicamente, outras escolhas, condicionadas por outra imagem de ordem, por outros padrões de organização e por outros princípios de regulação, avessos às possibilidades de imprevisibilidade e de holarquia. Essas pessoas não poderiam suportar conviver com a idéia do caos e dificilmente iriam produzir algo que ninguém pudesse, a rigor, controlar, a partir de um modelo preexistente de ordem, de cima ou de fora. Não porque não pudessem reunir disposição emocional (ou a vontade) ou capacidade intelectual (ou os conhecimentos necessários) para fazer isso e sim porque não teriam nenhuma experiência de mudança nessa direção capaz de mobilizá-las e inspirá-las, nenhum precedente concreto que conformasse um novo “lugar” a partir do qual tais escolhas fizessem sentido. A globalização atual, portanto, é única. A descompartimentação que ela promove está ensejando o surgimento de uma coisa que jamais existiu antes no mundo: um novo tipo de sociedade, uma sociedade cosmopolita global, organizada em rede e capaz de possibilitar a interação entre seus nodos em tempo real. 59
  • 60. Globalização, ordem e desordem A globalização não é uma ordem, mas um processo de desconstituição da velha ordem. 60
  • 61. A globalização não é ainda a transição para uma nova ordem mundial (embora possa levar à essa transição), mas uma desconstituição do mundo assentado na velha ordem do Estado-nação. Como diz Beck, é “uma sociedade mundial sem Estado mundial e sem governo mundial” (1). E como assinala Giddens, “não se trata de uma ordem global conduzida por uma vontade humana coletiva” (2). Para alguns, isso é um verdadeiro horror. Grande parte das reações fundamentalistas à globalização (e, na verdade, à globalidade), sobretudo as laicas, apóiam-se na idéia de ordem. São reações de fundo hobbesiano. Elas partem da idéia de que se não houver uma ordem pré-existente, previamente concebida e adotada por um sujeito particular que, falando em nome de um bem comum universal, lhe dê o direito e a capacidade de impô-la, vertical e heteronomamente, às sociedades, será a volta à barbárie ou o caos. Como tal sujeito (único e exclusivo) é o Estado, trata-se de uma visão estadocêntrica que, não raro, reúne agentes de direita e de esquerda no mesmo pólo reativo. As sociedades humanas são tomadas, por tal visão, como sociedades em estado de natureza (e uma natureza que se comporta darwinisticamente). Não existe sociedade civil a não ser como dominium do Estado. Deixadas a si mesmas as sociedades se fragmentarão em virtude da ausência de uma instância superior reguladora dos conflitos gerados pela inexorável competição entre os humanos. Os conflitos não são regulados por processos políticos (ex parte populis), por modos de regulação societários e sim por sujeitos pretensamente situados acima da sociedade. O fim (isto é, o sentido) da política (ex parte principis) é a ordem (Hobbes) e não a liberdade (Spinoza). A competição é inerente à natureza humana enquanto que a cooperação é o resultado de um aprendizado (e de uma racionalização visando obter vantagens a longo prazo). Em suma, a sociedade humana é incapaz de gerar ordem espontaneamente a partir da cooperação. 61
  • 62. Ora, se a ordem não pode ser gerada espontaneamente, ela tem que ser imposta por alguém. O mal maior, então, não é a ordem injusta e sim a não-ordem. O caos é o demônio, a deusa-dragão Tiamat (a deusa do caos) que deve ser cortada por Marduk (o deus da ordem) com a espada que separa, que reintroduz continuamente todo tipo de compartimentação. Com efeito, grande parte das críticas estatistas, de direita ou de esquerda, à globalização, são pautadas pelo tema do confronto com a desordem internacional gerada por tal processo. São reações à desordem, como se a ordem anterior e compartimentada do velho “sistema de muros” do Estado-nação fosse alguma maravilha ou algo que merecesse ser preservado. Mesmo os relatórios elaborados por segmentos da sociedade civil mundial (como os do Social Watch) adotam essa perspectiva, o que nos dá uma medida de quão profundamente estão fundeadas no subsolo dos preconceitos as visões ideológicas de boa parte dos que se opõem a globalização por medo de uma globalidade não- controlável, ou seja, por horror ao caos. É bom repetir: a globalização não é um processo de constituição de uma nova ordem mundial. Talvez seja até mais por isso, e não porque tal processo estivesse construindo uma nova ordem injusta, que ela – ao ameaçar a velha ordem (o sistema de equilíbrio de poder internacional protagonizado pelo Estado-nação) sem colocar nada no lugar – aterrorize tanto os cavaleiros da ordem do Estado. Todavia, a desarrumação do mundo que está sendo promovida pela globalização (com conseqüências adversas, por certo, para a qualidade de vida da maior parte da população mundial, pelo menos nesse primeiro momento) é, provavelmente, a única chance (ou uma chance) de desconstituir uma ordem injusta que impede a planetização, obstrui a vigência da democracia no plano internacional e possibilita a reprodução de enclaves autocráticos constituídos por Estados nacionais separados e escudados por velhas noções de soberania (3). 62
  • 63. A opinião pública mundial não tem mais aceitado que, em nome da soberania, um Estado particular prenda, torture ou elimine suas minorias políticas, discrimine seus habitantes por razões religiosas, raciais ou de gênero, ou provoque catástrofes ambientais. Isso significa que uma nova cultura planetária está surgindo, impulsionada pelos novos movimentos sociais globais emergentes, em defesa da democracia e dos direitos humanos, das minorias sociais e do meio ambiente. A emersão desses novos movimentos sociais – democráticos, pacifistas, ecumênicos, feministas, ecológicos e comunitaristas – ampliou a participação popular, levando-a de uma perspectiva predominantemente econômica e corporativa, setorial e compartimentada sócio- territorialmente, para uma perspectiva mais universal e global. Os riscos da ordem imposta O risco, visível hoje claramente, é que em nome da defesa desses valores, um Estado particular se invista unilateralmente no direito de regular o mundo todo e de normatizar, a partir do seu próprio poder militar e da sua capacidade econômica, a vida dos outros povos do planeta. Por isso, é melhor que a globalização seja mesmo “uma sociedade mundial sem Estado mundial e sem governo mundial” e que tal processo não esteja instaurando “uma ordem global conduzida por uma vontade humana coletiva” particular, até enquanto não se reúnam as condições para a consolidação de uma nova instância (ou de uma nova dinâmica, talvez seja melhor dizer assim) democrática internacional. Um governo mundial democrático, nos moldes atuais (com um parlamento e uma instância executiva mundiais ou algo equivalente), pode não ser, contudo, a melhor alternativa. Pois, ao que tudo indica, não se trata de transplantar a realidade política vigente no interior dos atuais Estados- nações considerados democráticos, para o plano internacional. A democracia realmente existente no interior das repúblicas e dos governos representativos modernos 63