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Carlos (Clube do Rei). O mais potente pra mim
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1000 casas

  1. 1. PATROCÍNIO
  2. 2. 1000 CASAS
  3. 3. 1000 241240 casas O Projeto 1000 CASAS surgiu a partir de mais de uma questão: o que as pessoas estão fazendo em casa enquanto um espetáculo acontece? Como um espetáculo poderia vir a acontecer nessas CASAS como inversão da situação público x privado? Como poderíamos testar um tipo de performatividade que embaralhasse os papéis de artista e espectador, e que viesse a operar na situação “estar em casa” como parte determinante dessa performatividade? Foi um tiro no escuro, mas com a determinação de um tiro certeiro. O Ministério da Cultura e a Petrobras aprovaram o projeto que nos possibilitou entrar nessas CASAS, e talvez como metáfora da situação “casa”, nos permitiu a continuidade do projeto Núcleo do Dirceu e a permanência do Galpão do Dirceu, como lugar “casa” para muitos artistas e espectadores da cidade. A impressão acinzentada e grande de um Google Maps do bairro do Dirceu foi afixada na parede. Alfinetes coloridos marcavam os pontos de exploração–as primeiras CASAS–como pontos marcados em uma pele, um lugar- corpo a ser dissecado lentamente. As escolhas de abordagens e alvos se davam na mesa– lugar tóxico onde nos afeta o outro–numa convulsão de idéias e propósitos. Seriam visitas marcadas por telefone ou “assaltos” de corpo aberto, ou seja, bater de porta em porta ou espreitar as casas a partir da mercearia da esquina. Os alvos eram idosos, animais, artistas, moto-taxistas, fronteiras e zonas de risco, CASAS sem muro ou com muro de azulejo, violência doméstica, fetiche sexual, morte, engessamento, emergência. Falávamos de uma “terceira performatividade” como algo a ser buscado entre uma forma de atuação mais estruturada e um tipo de visita espontânea. Um lugar-margem para essas performances que se dariam inevitavelmente entre o que é público e o que é privado, e quase sem distinção entre o artista e o espectador, e sim como possibilidade de inversão espontânea desses papéis durante a ação performática. E isso virou piada entre nós. A terceira performatividade passou a ser a válvula de escape da situação desconhecida a que nos propúnhamos enfrentar nessas CASAS. Seguíamos com as discussões e ideias vinham aos montes, mas pareciam não ecoar no que conhecíamos como modo de pensar e fazer. As abordagens se complexificavam a medida que nos dávamos conta de que essa era – de toda maneira e felizmente – a performatividade do encontro. A partir de nossos encontros em volta da mesa essas mil CASAS foram se alastrando como terreno de proximidade e urgência, de estranheza e afeição, de embate com o que não conhecíamos mas já estávamos fazendo. O sol a pino lá fora e os artistas saindo para trabalhar nas CASAS, voltando com as primeiras estórias, os números, os inúmeros “nãos” recebidos, os nomes, as idades, as particularidades desses que foram os verdadeiros protagonistas do projeto: o povo do Dirceu. A minha ação com a “Catatônica” surgiu da necessidade de parar para escutar uma casa, decupar o tempo naquele espaço, deixar que o sons, as pessoas, os cheiros, o cotidiano daquele lugar fosse suspenso por alguns instantes. Suspenso numa quase imobilidade, numa quase invisibilidade do que normalmente se dar a ver ali. Era uma incorporação ao contrário, ao invés de receber, o corpo destituía, e essa ausência esvaziada no corpo buscava interceptar o que quer que fosse daquelas CASAS, para transfigurar a realidade daquele momento comum. Era um desligar, um turn off, um estar temporariamente fora de si, para talvez assim permitir algum outro possível. Elielson Pacheco me acompanhou nas ações da Catatônica, catatônico ao meu lado. Podia escutar a sua respiração, ver os dedos se dobrando para abotoar o brinco pendente da orelha, o quimono japonês levemente brilhoso sendo tirado de uma bolsa de pano. Flutuávamos ali juntos muitas vezes com as caras contra o muro - mundos ausentes paralelos em escuta - enquanto o movimento seguia dentro e fora das CASAS. Era uma dança ausente, quase desmaterializada, no meio do material de construção de um teatro domiciliar, na anti-sala de um terreiro religioso, numa academia de ballet ou debaixo das prateleiras dos produtos de limpeza de uma cozinha, enquanto do lado de fora um homem solitário ouvia trechos entrecortados de músicas de amor a toda altura no som do carro estacionado. Com Elielson foi um dueto, um pás-des-deux desfigurado, uma solidão compartilhada, uma dança, uma dança, uma dança. O projeto 1000 CASAS aconteceu como um carrossel disparado ou uma peste doce que se alastra silenciosamente. Fomos nos dando conta pouco a pouco, nos encharcando daquela condição de artista domiciliar, daquela troca de papéis entre o artista e o morador, da criação de um ambiente performático – sensível, ritualístico, político – possível, ali naquelas mil CASAS distintas, mas tão absolutamente comuns. O cheiro do feijão na panela de pressão, o chiado tão particular, a quase onipresença do feijão na panela em tantas CASAS, marcou mais do que a fome, deu a ver a vontade de comer. Deflagrou mais do que a miséria institucionalizada pelas imagens clichês de periferia de terceiro mundo, mas uma rápida e dinâmica subjetivação da própria realidade por parte dos protagonistas-moradores-visitados- artistas-espectadores em uma reafirmação potente da vida. MARCELO EVELIN IZABELLE FROTA Sempre ouvi minha mãe dizendo que o lugar onde ela mais se sente segura é na sua casa. Ela diz que a pior coisa do mundo é adoecer fora de casa e que, se ela viaja ou sai de casa por um tempo, ela não consegue saciar algumas de suas necessidades fisiológicas. O caso da minha mãe pode até parecer exagero, mas a casa é realmente o lugar onde nos sentimos mais confortáveis, onde colocamos nossos investimentos, nossa família, nossos segredos, nossos planos, nossas lembranças. Cada canto de uma casa tem milhões de histórias com ele relacionadas. A casa muda conforme a gente muda, às vezes nem nos damos conta. Então vemos uma foto muito antiga e percebemos que ela nem se parece mais com o que era antes. A arte também tem se tornado um lugar de conforto. Desde o surgimento das vanguardas modernistas até os dias de hoje já se experimentou de quase tudo na arte. Criamos como se estivéssemos inventando algo novo. No entanto, na maioria das vezes apenas copiamos padrões já existentes. Com isso, criamos códigos de pertencimento para a arte contemporânea, mas mantemos o discurso de que nela tudo pode. Performar dentro da casa de uma pessoa que nem conhecemos é sair totalmente do comum e do confortável, é fugir dos padrões engessados da arte, é se abrir para o inesperado. Por mais planejada que seja a ação, nunca podemos prever o que vai acontecer. A AÇÃO começa e o telefone toca, o cachorro late, o menino chora, o feijão queima, o homem faz cara feia, enfim, tudo acontece. A obra perde seu caráter sublime e distante pra virar parte daquele ambiente cotidiano. Ao mesmo tempo, o ambiente cotidiano se carrega de questões e relações nunca antes experimentadas por nenhuma das partes. A obra passa a ser sobre a importância daquele instante. Uma moça entra na casa de um desconhecido com um estojo de maquiagem e a foto de uma mulher espancada pelo marido. Pede a quem a recebe que, usando
  4. 4. 1000 243242 casas a maquiagem, reproduza em seu rosto hematomas semelhantes aos da foto. Inicialmente as pessoas recuam, travam, mas se dispõem a fazer. No decorrer da AÇÃO, a conversa atravessa as experiências das pessoas com esse tipo de violência. Muitas vezes elas relatam fatos ocorridos com elas próprias ou com pessoas bem próximas, como parentes e amigos. Fiz essa AÇÃO dentro da minha casa, com a minha mãe. A obra e a nossa vida não tinham mais nenhuma distinção. A AÇÃO se misturou com a nossa relação, com as nossas lembranças, com o espelho que eu vejo nela, com a criança que ela vê em mim. O projeto 1000 casas mudou a nossa maneira de entender a arte e a relação entre artista e espectador. Vimos de outra maneira o velho conceito que diz que quando criamos uma obra ela não é mais nossa, é do mundo, tem vida própria, aberta para a percepção de quem a vê. Cavaleiro contemporâneo Oh MOTOBOY! Ao entardecer tu me levas, O farol do teu cavalo acende, brilha... E o sobe e desce da lombada nos embala. Às vezes, cavalgas devagarinho, Enganas o tempo (que já não sei medir), No sentimento de desfrutarmos nosso passeio. Às vezes, colocas o pé e afunda, O vento rasga mais forte, Deixando embaraços e dúvidas para trás. Oh MOTOBOY! Tua rotina é arriscada, eu sei. Corres com tua vida pela cidade, Levando pessoas de carne e asas, desejo e solidão. Voando pela noite vazia, Quando a velocidade nos esfria a pele, Tuas palavras aquecem nosso encontro. Emburacando por veredas de terra batida Vais revelando caminhos que sacodem, É onde meu corpo cola no teu. Oh MOTO, meu querido BOY! Quando me levas onde preciso ir, Ninguém mais faz sentir o que você me traz. Catas Atônitas, Esquecidas, Nos Cantos, Lentas, Em casas de artista, Sem função, Não acompanhando o ritmo da vida, Em estado de choque, Contemplativas, Incorporadas, Perdidas, Minimamente travestidas, Companheiras de solidão, Peruca berinjela e brincos tipo asteca, Errantes, Encontram: Shana, um corpo mudo em chamas, Leo, bailarino espacati do absurdo, Seu toin, hacker pai de santo, Izaká e seu vizinho a lonely boy ELIELSON PACHECO ELIELSON PACHECO CLEYDE SILVA O projeto 1000 Casas foi por dois anos meu carro chefe artístico, onde pude trazer a tona questões que há algum tempo me debatia com elas. No início não tive a percepção do quanto esse projeto poderia se tornar tão complexo e subjetivo, mas sempre tive a certeza de que seria muito importante e urgente. 1000 Casas, o que seria entrar em 1000 Casas? Como seria entrar na intimidade dessas pessoas e performar a partir de algo que você trouxe pra compartilhar, pra deixar de ser seu e passar a ser do outro? Muitas vezes ir com a intenção de performar para os moradores da casa e de repente passar a ser público e o morador ser o performer, ou até mesmo criar uma situação de troca imediata onde juntos são público e performer ao mesmo tempo. Quando se quebra essa barreira Artista/ Espectador é que a arte ganha intensidade na sua expressão e realmente age. Para o público: transforma o estranho/arte em uma nova forma de percepção cotidiana, já para o artista: ganha um amigo, um ouvinte, um olhar, uma nova forma de agir em seus conceitos de fazer/agir/criar. Nos primeiros meses a proposta foi trabalhar partindo de três eixos: a priori cada artista teria que criar uma ação performática que partisse do desejo artístico de cada um, é como se nós tivéssemos que criar uma situação para estar junto com o morador, muitas vezes falávamos que ação era apenas um pretexto para que o acontecimento pudesse acontecer. A proposta que coloquei na mesa surgiu da necessidade de dançar BREAKING dialogando com os objetos da casa visitada, trouxe como mais um elemento pra se trabalhar a música do Roberto Carlos – Todos Estão Surdos, a música estava transformada, mixada com break beat* (é uma técnica que trabalha com dois discos iguais e um mixe que caracteriza pelos samplers de ritmo base de rap, funk e eletro). Percebia que tinha uma relação com o grande Dirceu, pois todo o dia ao meio dia tocava na rádio uma hora especial do REI Roberto
  5. 5. 1000 245244 casas Carlos (Clube do Rei). O mais potente pra mim em trazer o Roberto Carlos não foi pra focar nele nem mesmo seria interessante pra mim naquele momento, mas apenas como relação entre o momento de rei que ele obtinha dentro da cidade e o GRANDE Dirceu como lugar independente, autônomo. Rei de certa forma porque o bairro tem um poder diante dos outros por ser mais dinâmico, diverso, e isso dava para as pessoas que moravam no Grande Dirceu uma arrogância de como se colocar diante dos outros bairros. E isso me chamava atenção enquanto algo pra pensar. Além dessas formas de poder entre o Rei Roberto Carlos e o Grande Dirceu fiquei por um bom tempo me questionando sobre só dançar BREAKING. Pra mim só dançar não era suficiente, talvez porque só dançar fosse muito direto e “eficiente”, não conseguia ver abertura pra ir pra outro lugar, pra mergulhar na subjetividade da coisa. O que eu não entendia é que a dança é por ela mesma, ou seja, a dança como fisicalidade não precisa necessariamente de alguma coisa que legitime ela, a dança em si já é uma coisa. Acredito também que nessa fisicalidade tem uma energia, uma vibe, uma disponibilidade em estar ali presente naquele momento. Pensando nisso e revisitando uma das maiores experiências durante o projeto 1000 Casas, que foi visitar minha própria casa assistindo a ação do Marcelo Evelin a Catatônica. Meu pai comentava sobre baiar ele dizia que o estado que eles se encontravam era sobre uma energia, ao terminar Marcelo pediu que explicasse mais, ele disse que é uma sessão de giros em volta da guna (tronco) pra receber os guias (espíritos) e que tem um entre, de ficar dividido em dois mundos: o real e o espiritual e ficamos um bom tempo questionando e relacionando sobre a energia de baiar com a de performar, e esse estado em que a pessoa se encontra é muito parecido com o quando a pessoa está performando. Passamos pelo segundo eixo que chamamos de documentalidade, que sai do lugar de registro e se concentra no assunto do encontro entre o performer e o morador da casa. Não era sobre a foto sair perfeita no sentido de qualidade estética, mas era sobre captar a fragilidade daquele único momento que não tinha só um propositor. Todo esse processo não cabia somente virtuosismo porque parte de uma simplicidade subjetiva do humano. Acredito que muita coisa que fizemos de material de vídeo, foto e texto do 1000 casas não foi aproveitada como conceito, como algo que realmente pudéssemos ter degustado e não só colocado pra dentro da barriga. Sempre achei a metáfora panela de pressão perfeita para o momento que estávamos vivendo no projeto 1000 Casas. Na verdade se algum dia alguém me perguntar qual imagem eu daria que mais se aproxime com a cara do Núcleo do Dirceu eu falaria panela de pressão, porque é muito coerente com a forma como trabalhamos e principalmente como vivíamos naquele momento. Uma pressão de cada um com cada um, e da gente com qualquer possibilidade de respiração outra. E foi a partir disso que instalação-performance surgiu, todo o processo foi diretamente ligado a essa colocação, que pra mim foi muito bom ter vivido e estar vivendo essas experiências porque além de todas essas pressões citadas tem uma pressão da gente com a gente mesmo e isso é muito real. É uma preparação para o mundo e com o mundo sem superficialidade. 1000 casas: um pouco de minha experiência lá! Tocar “we are the champions” no 1000 casas me colocou num lugar de artista que eu queria, me inspirou musicalmente, e a música veio como um novo item que agora também faz parte da minha experiência. Fazer o que quer no lugar que quer é uma possibilidade que me faz ter autonomia. Os estudos desenvolvidos no inicio do ano de 2011, afinação, performatividade, abordagem, documentalidade, ação performática, vejo como uma estrutura pra se formalizar, projetar aquilo tudo que me atravessa dentro desse contexto. É complicado definir nomenclaturas pra construir esse contexto artístico, mas escolher o que está me instigando no momento é um norte, um caminho. Assim, com algumas palavras, plano de evacuação, evacuações, MARILYN MONROE, extremidades, afunilei e procurei transformar numa apresentação pra essas casas. MARILYN sentada suando esperando seu marido no deserto. É uma cena que eu não vi, mas talvez se a visse não teria o mesmo caldo, as mesmas motivações que me fizeram conectar, transformar, afinar as imagens pra relacionar com o plano de evacuação. Escolhi fazer a ação nas casas das extremidades. As cinco primeiras com exceção de uma, são exatamente na mais ao norte, mais ao sul, mais ao leste, mais ao oeste. Essa uma, a moradora, não autorizou a feitura e fiz na casa ao lado, quebrando o sistema que eu havia proposto como ponto de partida. Não foi um grande problema. Mas as extremidades me interessam pela vulnerabilidade desse espaço que acaba se tornando potente. Não sei explicar como se dá, mas periferia vibra, as pessoas são vivas. Talvez eu defenda esse contexto que me criei e me crio, mas é isso. Em algum momento dessa ação pergunto o que a pessoa salva de dentro da casa se naquele momento acontecesse uma catástrofe que destruísse sua casa. Escolhi fazer essa pergunta por que acho coerente com a situação de risco presente nessas casas de extremidades. A priori queria saber quais objetos seriam salvos, descobri que nessas famílias existe um vinculo familiar muito forte. Ou as pessoas salvavam filhos, o avô, algum ente da família ou algo que tem haver com elas, uma foto, etc. A MARILYN como ícone subverte esse lugar, durante um tempo busquei aprofundar, estudar o que gera essa subversão performaticamente , esse contraste. Tive abertura pra não tentar chegar a “uma” conclusão, o que me deu muitas “outras” conclusões. Tive muitas dúvidas em relação ao que preciso mostrar como resultado, como obra, pra quem assistia na casa, e no espetáculo também. Busquei avaliar e reconhecer tudo que foi gerado ali. Apostei em algo frágil e subjetivo, por que minha juventude está assim. A bola de sabão foi o que encontrei como proposta de performatividade. Era bem abstrato, sem clareza. Conversar com colegas de trabalho sobre o que está passando, buscar referência, saber escutar foi essencial pra que eu pudesse confiar no meu instinto de artista e tocar a coisa pra frente, descobrindo pouco a pouco o que faz sentido. Autonomia o tempo todo em transição, em dúvida, se perguntando. É o ponto em que estou e quero estar dentro desses 2 anos de 1000 casas. Isso é o que consigo reconhecer. Não ser bboy, nem músico, nem guitarrista, mas estar em conexão com tudo isso. Se for preciso, faço uma session ou componho uma música, mas é uma constante transição que te tira do eixo e te faz produzir a partir da inutilidade presente no contexto. A dita obra que eu preparei pra apresentar nas casas, se fragiliza pela desconvencionalidade do espaço, que não é comum para se apresentar, como um teatro com um palco. Nas primeiras experiências foi impactante lidar com aquele público que era também proprietário do lugar. O espectador que naturalmente, sem uma prepotência, confronta e questiona a obra e gera ali uma situação que foge do controle, negociando CESAR COSTA
  6. 6. 1000 247246 casas sempre, um princípio de movimentação e complexidade tanto do artista como do espectador, que foi importante de sentir pra produzir ao longo do projeto subjetividade de artista em transição. Lembro-me de uma casa que eram três casas dentro de um terreno, e tinha numa rede preguiçosa um homem com mais ou menos 60 anos, que me deu a entender que ele era o chefe daquelas casas, e a dona da casa, mesmo me autorizando a fazer a ação lá, teve de pedir pra ele. E ele permaneceu deitado na rede e autorizou a ação, que mesmo antes já havia começado. Tinha pássaros em gaiolas. A porta da frente estava trancada, e fomos pro quintal. Ela se posicionou dentro da casa de um jeito que queria que a ação acontecesse fora da casa. Levei um tempo pra ir pra dentro da casa, por que entendo que faz sentido pro projeto estar lá dentro. Houve esse tempo de negociação que é grande parte da performance. A presença do artista ali é vulnerável e potente como criação de/em arte. Falar sobre 1000 casas é também se lembrar de muito tempo perdido ou mal aproveitado, não dá pra voltar atrás, mas dá pra agir e fazer todo trabalho que tiver pra fazer. Refletir ainda, fazer significar. É utópico, temos preguiça, vaidade, ego, mas a vibração dos perceptos e a possibilidade de o tempo todo fazer conexões, exercitar a loucura. Chamo de loucura, mas é na verdade uma disposição pra ser artista. Acho maturidade muito parecido com autonomia e a mente divagante em meio a tanta informação me deixa destontiado, com dificuldade de fazer escolhas, fragmentando e fragilizando a minha produção de artista. 1000 casas foi um projeto muito importante e vou incorporar pra sempre tudo que foi vivido lá. Descobri que AZULEJO tem origem na palavra árabe azzelij, que significa pequena pedra polida. Eu achava que vinha de Portugal, pois foi lá, nas suas grandes e históricas construções que o azulejo deixou de ser um simples elemento decorativo e é considerado hoje como uma das produções mais originais da cultura portuguesa. Isso durou por cinco séculos e sua influencia chegou ao Brasil como conseqüência natural do processo de colonização. AZULEJO sempre me lembra Athos Bulcão e recentemente também a Adriana Varejão. Os grandes casarões revestidos de azulejos (azuis) ainda são memória de um Brasil colonial, marcam importantes momentos da arquitetura brasileira, são cartão postal de muitas cidades. Ainda hoje podemos ver em cidades mais antigas como São Luís as grandes casas dos senhores ricos com fachadas azuis azulejadas. O AZULEJO é um elemento de baixo custo e com grande potencial de qualificar esteticamente uma construção – estetizar a existência! Ele não desbota como as tintas, é impermeabilizante, previne a umidade, é um revestimento “frio” (ótimo para o nosso calor) e desde sempre vem com status embutido. Status de casa de rico, coisa boa e chique, influência européia. Tem a ver também com assepsia, nosso velho hábito de banhar e lavar a casa. Assim a fachada está sempre lavada e a casa tá sempre bem apresentada. Agora os AZULEJOS são outros: aqueles antes feitos para cozinhas e banheiros agora revestem muitas fachadas: padronagens geométricas, ponto de cruz, o famoso desenho das calçadas de Copacabana, textura imitação de pedra. É um costume presente em muitas cidades nordestinas, talvez mais presentes nas áreas de classe média baixa. E como não poderia deixar de ser, achei muitas casas de azulejo no grande Dirceu. Notei em todas as casas que entrei que o azulejo tem a ver com um status de melhora de vida, com uma situação que tem acontecido cada vez mais neste “Brasil sem pobreza”. Uma vontade de ser mostrar bonito para os olhos dos outros, assim como fazemos quando vamos escolher uma roupa para sair. Um cartão de visita. Uma boa impressão. Lembrando da arrogância presente nos moradores do bairro, penso que deixar sua casa bonita da porta pra fora tem muito a ver com vaidade. Escolhi as casas vaidosas. Queria saber o que tinha lá dentro. Que corpos se constroem nestas casas? A curiosidade e a estética destas casas me fizeram escolhê-las como lugar de propor uma performance e um encontro, dentre as tantas moradias possíveis. Aquelas inúmeras fachadas que eu nem conhecia me atraíam de alguma forma. Eram lugares – pequenos universos - para me alimentar como artista, ser artista em cada encontro, fazer pesquisa, conhecer por dentro, entrar na intimidade, procurar semelhanças, saciar a vontade de conhecer o lugar mais íntimo das pessoas. Eu queria criar/vestir/inventar o corpo daquelas casas. E reinventar o meu também. Casa sempre tem a ver com corpo assim como arquitetura tá perto da dança. São relações co-dependentes e co-influenciadas. Fui também atrás de acúmulo e consumo. Se o Google sabe quem a gente é pelos sites que visitamos, imagina o tanto de informação em forma de objetos tem no lugar em que moramos? A cor da parede, a estampa da xícara, os detalhes nas almofadas, a estante da sala, a cor dos móveis da cozinha, os quadros e pôsteres na parede, a cor do sofá e as plantas. Fiquei espantada com a disponibilidade encontrada nos moradores, que escancaravam suas intimidades. Muita cor, alegria e espaço naquelas casas. Tinha uma que era toda de cerâmica preta na frente que eu não consegui visitar. Mas ainda lembro-me dela no meio do dia como uma fotografia. Quando menos esperava, eu já estava na cozinha, criando meu monstro com as panelas recém lavadas e os bichos de pelúcia das crianças (exercício de cara de pau também, quando chegava alguém no meio da visita). Depois de um tempo, os próprios moradores entendiam a lógica e me ajudavam na construção do corpobjeto. Tiravam fotos, davam espaço para passar, ligavam o ventilador, traziam a tesoura pra cortar e as vezes um suco de cajá também. Ou ficavam indiferentes. Talvez por não saber como agir, talvez por não ter mesmo nada a ser feito. Era a imprevisibilidade e a potência do encontro real. Dança feita de objetos recolhidos e grudados no corpo ao som e com a ajuda de fita crepe. Sempre surgia uma conversa informal, passeávamos por vários assuntos importantes e desimportantes. As nossas visitas muitas vezes não eram visitas de desconhecidos, parecia mais visita de vizinho, de parente. Ser recebido de toalha amarrada ou camisola era comum. Chamar as crianças para ver também. “A gente é evangélico, tem problema?” a senhora perguntou para mim. Muitos nãos também aconteceram. Muitos mesmo. Não por falta de tempo era o mais comum (mesmo você notando que a pessoa não estava ocupada). Não por medo, por causa da religião, porque o homem –marido e dono da casa- não estava em casa e não iria gostar. Mas quando tinha o não, tinha antes uma conversa, um encontro, que às vezes era tão importante quanto entrar na casa e realizar a performance. Convencer um estranho a entrar na casa dele e pegar seus objetos já era a performance. Ela acontecia de alguma forma mesmo com o não. Era sempre o mesmo monstro de objetos. Sempre tinha vassoura e bicho de pelúcia, mas nunca era igual. Cada casa tinha uma cor. Cada monstro tinha uma cor e uma corporalidade. Mobilidade na imobilidade. As possibilidades são mais interessantes quando vêm da impossibilidade? Talvez sejam mais gostosas. Café Muller. Lembrança da última visita numa casa que era também salão de beleza. O artista que é visita e o morador que JANAÍNA LOBO
  7. 7. 1000 249248 casas é anfitrião. O lugar do artista confrontado. O lugar do espectador confrontado. Uma peformatividade terceira. Não tem hora pra começar nem terminar. Assim como a vida. Receita para um bom FEIJÃO Ingredientes: Feijão, azeite, alho, sal, aguá, farinha branca, pinta e uma panela de pressão babadeira. Modo de preparo: Vá para frente de um espelho, de preferência que não esteja quebrado, pois segundo supersticiosos dá azar, não que eu acredite, mas pra prevenir evito, pois beleza é fundamental. Passe um pó compacto e logo em seguida um lápis de olho pra dar uma realçada no olhar! Coloque seu salto, ponha um picumã e diga: eu sou bonita! Pra quem não precisa, uma chapinha e uma escova já resolve (a loka rsrs). Va pra frente do fogão, dê uma generosa batida de cabelo pra aquecer. Baixou a bonita? Agora ligue seu fogão, ponha o azeite na panela de pressão, em seguida o alho, deixe dourar. Delicadamente sensual segurando uma vasilha retire o FEIJÃO do saco e refolgue junto ao alho. Ponha umas pitadinhas de sal e vá mexendo, mexendo, mexendo, vai que de repente, do nada, surge marilyn monroe peladinho, ai você foca o olhar em sua bundinha roliça... Biiiicha olha o FEIJÃO! Ponha água, de preferência quente, pra acelerar o cozimento, tampe a panela com muita atenção para não causar nenhum acidente ou sair ar. Dê uma olhada no relógio, perceba e escute o que acontece a sua volta: sempre tem aquela pessoa tesoura que passa o dia todo falando, a gatita solitária se consolando com sua cadeira e seu estojo de maquiagem, a menininha miúda brincando de ser grande, o que dá cambalhotas super aguniado, a que roda, roda que você cansa, o que adora tirar um retrato sem pedir licença, o apaixonado por um corpo artificial, a bonita que você não entende e que adora uma calcinha diferente, a bicha cabeluda, a que só pega se for fardado, a mãe de todos, a quenga chefe e por aí vai. Sente-se em cima de uma mesa, se joga na Físicos e artistas podem ter muita coisa em comum. Essencialmente eles lidam com o que ainda não foi visto, dito, imaginado, com as possibilidades do real. Alguns físicos estudam a infância do universo, eles estão de alguma maneira coletando “material” e buscando pistas do que fomos (cosmologia). A verdade é que eles estão em grande parte na construção do que é incerto, do duvidoso, do talvez. Imaginando e propondo ao mundo um corpo a partir de um osso ou dois, uma estrela a partir de um registro de frequência ou feixezinho de luz. Gosto de pensar que eles não estão apenas descobrindo algo, eles estão mesmo é inventando, CRIANDO o que existiu…. re-construindo o que literalmente nós sequer supomos. E só porque eles imaginam com poderia ter sido, é que pode pode passar a “vir a ser de fato”. Tem um físico no youtube, que afirma que a cosmologia precisa entender o pequeno pra só depois entender o grande . E o Dirceu é mesmo um planeta. A gente começou assim, da menor casa, a nossa, para a imensidão macro do «Grande Dirceu». Nos primeiros meses alguns artistas passaram simplesmente a morar aqui, na casa 001, o Galpão. Uma ocupação permanente de algumas semanas. O espaço nem era mais público, nem privado, nem era mais só o lugar de trabalho e ao mesmo tempo não era o «meu lugar». A gente pensava numa obra que surgisse de um acontecimento, de um encontro, sem uma autoria, que emergisse da incerteza e da potência de uma relação, de um confronto, de uma mistura. E esse imput foi nos levando a muitos lugares. Foi me levando há muitos lugares. Foi me levando para um desejo despretensioso e simples: performar para cinco homens do Dirceu. E assim eu cheguei em alguns quintais. O quintal de uma casa é o lugar do fundo, do que muitas vezes está escondido, do entulho, do que eu não uso com freqüência, do que está quebrado, danificado, ou mesmo, onde estão as coisas que podem ir ao lixo, onde geralmente colocamos o que “não serve pinta e arraze no vogue da madonna! Com a amiga que você adora gongar e azucrinar o juízo. Os minutos passam... Bicha se toque! Volte a si, a panela de pressão está truando, tá na hora de abri-la. Vá retirando o vapor aos poucos, imagine seu leonardo de caprio e você no titanic, cabelos ao vapor se sentindo realizada. Ponha o FEIJÃO em uma cumbuca com um punhado de farinha branca e, pra quem preferir, complemente com gostas de pimenta vermelha, e sirva rapidamente (antes do tempo esgotar) para não esfriar. Alguém quer um feijãozinho aí? YANG DALLAS LAYANE HOLANDA
  8. 8. 1000 251250 casas tanto”. Um lugar de acúmulo e memória. É um lugar cheio de AUSÊNCIA onde não se vai nem com tanta frequência, onde não estamos a maior parte do tempo, é quase de uma não-permanência. Quintal é a parte externa da casa, é mais vulnerável, é o cú. Tem outra topografia, geralmente um outro chão, e na maior parte do tempo nem é tão limpo e organizado como a parte de dentro …. é assim aberto, não está tão normalizado “para” funcionar ou “receber” como uma sala. No quintal existe menos controle, lá é por onde se foge ou se invade é onde a gente se esconde quando brinca. Penso que a arte opera muito aí, no quintal da gente. Durante dois anos “peguei algum” sol e me aproximei de histórias, figuras, corpos, objetos, imagens, hábitos, bichos, posturas, dizeres, porta-retratos e calçadas…. Ainda que mediada pela câmera, pela tela branca do computador, pelo mouse da edição, capturar essas experiências, entrar nessas casas sempre foi como entrar em outros lugares dentro de mim mesma. Que eu nem sabia que existiam antes. No princípio foi complicado propor uma ação artística para esse projeto pelo tamanho dele e por ser uma coisa tão nova e complexa para criar naquele momento e ir às casas das pessoas pra performar, não foi tarefa fácil. Interessei-me em trabalhar na proposta que o Jacob Alves trouxe - o plano de evacuação - de ter que sair de um local como casa, apartamento, escola em uma situação de EMERGÊNCIA. A partir disso eu propus visitar casas que foram construídas muito próximas a linha do metrô, onde os moradores estão sujeitos a qualquer momento a um acidente, que seria o metrô invadir a casa porque o bairro não tem boas ferrovias e nem manutenção adequada para garantir uma segurança. Eu me coloquei a criar uma ação performática que trabalhasse partindo dessa idéia de EMERGÊNCIA e pensando na terceira performatividade (que nós artistas do núcleo pesquisamos quando falamos em criar ação), é um estado que se dá a partir do momento que estamos organizando os materiais pra ir visitar as casas até o momento em que estamos performando. Passamos por três abordagens, servia como estratégia pra entrar nas casas: visita - a gente agendava antes, marcava a ação na casa; assalto - escolhíamos o bairro, a rua e fazíamos a ação imediatamente; e arrastão - combinávamos com todos e cada pessoa fazia sua ação em uma casa da mesma rua, fechávamos a rua. A performance já se dava na simples ação de bater na porta da casa, é uma negociação com o morador, ter que oferecer uma ação performática e de conseguir fazer que ele aceite, não é sobre convencer o morador mas apenas tentar seduzir e ter abertura pra que ele possa dizer que não quer que a ação seja feita lá. Tudo isso já era um trabalho incrível, uma sensação de vitória, principalmente para mim que peguei muitos nãos, mas quem aceitava a ação na casa se colocava muito disponível de estar presente ali, atento, ansioso, curioso e com desejo de fazer muitas perguntas. Percebia também que muitas pessoas se sentiam importantes por ser uma dessas casas que o projeto visitou e que receberam uma apresentação exclusiva de artistas. O Projeto 1000 casas trabalha bastante no conhecimento das pessoas sobre o que elas pensam que seja arte ou qual imagem que elas têm de um espetáculo de dança. Além disso, vejo como uma grande formação de platéia e também de artista, principalmente porque me senti em vários conflitos com relação à performance: o que é real e não real, o que seria realmente fazer uma ação artística para pessoas e vivenciar momentos únicos com essas pessoas dentro da casa delas e poder deixar essas pessoas confortáveis para comentar e fazer perguntas. Tudo isso era muito bom porque alimentava e me dava muito motivação para que a ação pudesse ficar aberta. A performance foi se transformando a cada casa que eu visitava, eu sempre estava colocando questões pra a partir dali os materiais pudessem fazer sentido . Eu perguntava para o morador o que ele salvaria se ele estivesse em uma situação de risco de ter que sair de casa urgentemente se tivesse poucos segundos para evacuar. A resposta deles era o ponto de partida para eu dançar e improvisar no espaço apertado ou grande da casa, eu trabalhava a partir do que eles salvariam disso na minha dança, como álbum de fotografias do casamento da família, quadros, os filhos, a mãe, violão, geladeira. Numa casa que visitei, perguntei para Rosário, moradora do bairro Alto da Ressurreição, ela me respondeu que não salvaria nada, só ela mesma, e também falou um ditado – vão-se os anéis e ficam-se os dedos. Outra casa que visitei tinha um quadro gigante da atriz Daniela Perez, que foi assinada brutalmente com 18 golpes de punhal pelo ator Guilherme de Pádua e sua esposa Paula Nogueira Thomaz. A dona Albertina salvaria o quadro, que ela era muito fã, e isso tudo dava o gás e a energia para fazer e como a audiência se colocasse dentro da ação. É diferente de qualquer outro ambiente como palco, rua, estúdio porque não é um espaço previsível. O morador se apropriava da ação e o melhor é que o artista não estava em uma posição maior do que a audiência, os dois estavam no mesmo lugar de se confrontar. O mais interessante é que mesmo que você tivesse algo já pronto para fazer tinha a possibilidade de algo ou alguém interferir e a ação era quebrada por alguma coisa que acontecia. Alguém chegava a casa, o cachorro, o pedreiro passava, realmente a performance trabalhava aqui e agora. Isso potencializa o indivíduo como espectador na própria casa dele. ALEXANDRE SANTOS
  9. 9. 1000 253252 casas Só me interessa o que não é meu. ¡Viva Oswald de Andrade! Nesse momento essa frase me parece completamente diferente do que eu já tinha imaginado na vida. Nesse exato momento a frase da primeira linha é um convite para um encontro, mas quem convida é você! Como a gente se faz agente? A Gente Agente Eu Você Ela Ele Tu Nós Vós Elas Eles A rapaziada toda Eu sinto que o processo de trabalho do 1000 casas foi temperado por uma questão, e que fez toda a diferença no feijão. A questão é: como produzir uma performatividade do encontro? Na verdade isso não foi discutido teórica- filosófica-cientificamente, eu inventei essa pergunta agora. Mas sinto que vivemos essa pergunta, discutimos corpo a corpo da maneira que podemos. Foi surpreendente ver os artistas que faziam as ações nas casas dos moradores do Dirceu chegando cansados, muitas vezes putos, muitas vezes exauridos tendo que ir de volta para suas casas descansar o resto do dia. Essa exaustão não era produzida apenas pela movimentação aeróbica dos artistas, pois essa em geral era muito simples, mas também pelos «nãos» recebidos de moradores do Dirceu e a dificuldade de lidar com o contexto da casa. Nós estávamos exaustos SUBJETIVA- OBJETIVAMENTE, ou seja, era visível pra gente, a rapaziada toda que conjuga o verbo, que estávamos cansados. Será se estamos disponíveis para a certeza de um «não» em nosso dia? De ser impedido de trabalhar? Como lidar com o fato de que a TV adormece Entrei em casas de pessoas de 70 anos durante dois anos no projeto 1000casas, e me embrulhava de papel para falar de MORTE. Não que eu entenda que só pessoas de 70 anos possam morrer, mas porque nessa idade as pessoas costumam dizer que o relógio tá contando mais rápido. Era sobre banalizar a MORTE, tornando-a um assunto comum, na verdade, a morte era o pretexto pra falar de vida, e do que ainda é possível fazer diante do corpo coagido pela única verdade absoluta do homem (morte),do corpo que está no presente e não pára,que continua e recria o próprio percurso. A Performance,era o encontro ,a abordagem,e todo movimento da casa. Tudo que viesse acontecer se diluía numa ação performática, não apenas num entendimento do ordinário virando arte, mas como a liga do artista e do espectador que se reforça principalmente quando o lugar deixa de ser de um ou do outro, e passa a acontecer a partir de um objeto, de um assunto ou mesmo do silêncio desse encontro. Quanto menos preparado ou cheio de saber você como artista está, a dança vibra e vibra! O entendimento de dança apenas pelo movimento despenca. Por que dançar/perfomar não está movido apenas por embasamentos teóricos e pelo corpo treinado do performer, mas pela zona frágil do encontro, do quanto as pessoas estão disponíveis em estar juntas, nem que seja por pouco tempo, do enfrentamento do risco do que pode acontecer, daquilo que não estamos preparados. Falo do corpo poroso, da necessidade de se apropriar da realidade, de sair do que é seguro, ou seja, é a vulnerabilidade de estar no lugar não convencional, no lugar do outro e de como se utilizar disso para criar o espaço que você precisa para existir, para um público que não espera na cadeira de um teatro, que não lhe conhece e abre a porta da casa, mesmo cercado pelo medo que a violência gera, na incerteza de estar sendo enganado CAIO CÉSAR SORAYA PORTELA a gente? [O que aliás faz da TV uma delicia!] Como não querer saber novidade da Avenida Brasil? Como propor para o morador um encontro artístico? A pergunta do Marcelo é maravilhosa, qual é a sua posição de artista? Nessa casa? Nesse exato momento. ¡Agora! Qual é a posição do espectador? Como lidar com um sujeito te confidenciando que batia na mulher dele? E você sozinha com ele! Quem é o espectador e o artista? Como acreditar numa bolinha de sabão? Como lidar com um corpo em chamas na sua frente? Como propor um acontecimento na casa? Como encontrar o homem da sua vida num quintal alheio? A gente tem casa! GALPÃO DO DIRCEU Como propor um encontro para alguém que não te quer? Ou que você não quer ver agora? Como lidar com o encontro? Como propor um momento de delírio diante da aridez da vida cotidiana? Entende? Por isso, acho que, meio ao deus dará, fomos construindo um treinamento do encontro. Por todas essas perguntas e afirmações, que parecem perguntas genéricas ou intrínsecas a nós os artistas, Oh, tragédia! Mas também porque o ambiente de uma casa grita as dificuldades cotidianas. 1000 casas Caminhando O sol pelando Urubu voando De 1 a 1000 TV, comida pra fazer, sofá, foto de família, bichos de pelúcia, animal de estimação, pai, mãe, vó, vô, os mino, conta pra pagar, uns livros, a bíblia, arrumar a sala, lavar a cozinha, ir trabalhar, o conforto do sonho da casa própria, salário no fim do mês, desdobro, um teto seguro, cadeados, assalto, casais, amor, amigos, a pessoa que você ama, pessoas que você precisa tolerar, artista dentro de casa etc e tal... pelo artista que quer lhe dar uma dança de presente, e isso até pode ser confundido como tática de vendedores ambulantes. Portanto, dançar numa casa pode ter um público no início e outro no final, e a sala de estar vira o camarote, com uma dança particular, tipo marcação homem a homem. A dança acontecia no lugar da TV, no meio da faxina, no meio dos santos, do cisco pra apanhar, tendo a panela de pressão como fundo musical e as roupas caídas no chão. Embora o teatro fosse nossa ligação, dissolviam-se as barreiras entre artista e espectador, o público e o privado. A permissão de performar é nesse caso quase como a vontade de gritar, de vomitar, é construir a partir do que você tem, de provar do risco do não saber o que encontrar e ver quanto e quão poroso você é ou se permite ser, de ficcionar a sua realidade e a do outro. Perfomar só é possível no momento em que não há algo a ser revelado, ou quando me dá, como artista, propriedade de dizer para as pessoas o que não tenho coragem de dizer, como eu ando pensando as coisas do mundo. Não entrei em algumas casas porque jesus/religião não permite. Não entrei porque alguém da casa tinha MORRIDO assassinado e a dor era grande. Não entrei porque a dona da casa tava ocupada naquele momento. Não entrei porque certo senhor estava sentado na calçada, fica pra próxima - me disse ele. Não entrei numa casa vizinha do galpão de uma senhora porque o filho dela disse que ela não tinha interesse. Não entrei porque esse negócio de arte não era com eles. Não entrei porque as pessoas não me conheciam. Não entrei porque não tinha serventia. 1000 casas
  10. 10. 1000 255254 casas A Sharon é um brinquedo sexual e “companheira” de um artista solitário, que conversa e cuida da boneca como se ela fosse uma artista, com direito a banho de shampoo de luxo e passeios noturnos na coroa da curva São Paulo (praia artificial tipo piscinão de ramos do bairro Dirceu). Em troca, a boneca cumpre a função para a qual foi fabricada: servir como substituta para suprir os desejos artísticos de seu dono. À medida que vai tomando consciência de que está viva, e aproveitando a ausência do seu dono até a noite, a bela de plástico lança- se em caminhadas exploratórias pelo bairro descobrindo pessoas e uma existência que jamais imaginou. O artista de Sharon precisa da artificialidade do seu corpo para suprir a necessidade que tem de corpos de carne que, artisticamente, não o satisfazem mais. Corpos de carne não satisfazem mais ninguém nesse mundo. O corpo de Sharon é uma morada, moradia de desejo, moradia de um corpo possível. É uma mulher artista que demora quarenta e cinco segundos quando inspira e um minuto e trinta e sete segundos para suspirar. Ela é eficiente e cruel como as mulheres de Jodorowsky. « Joga pedra na Sharon que ela é feita para apanhar, ela é boa de cuspir». É hora de matar Sharon! Ela deita e esvazia sobre meu corpo, que tem dificuldades de respirar, que sente dores no peito, que sofre de apnéia, que sofre por amores que nunca perdeu e nunca existiram, que é corpo de homem, grande, que chora pelo cachorro que morreu, pela hora da morte, pela antropofagia do cú, que guarda segredo em si. Ela está sobre o olhar de quem tenta ser público, mas se incomoda por entender que é cúmplice. Depois Sharon é devorada por um cachorro qualquer e esquartejada em um chuveiro que lava o sangue que nunca existiu. É hora de falar de Carem. Carem já foi comprada morta. Ao contrário de Sharon, que me ensinou a criar, Carem me ensinou a fazer. Mas o problema com Carem era porque Câmera sujeitada, corporizada(corporificada), viva! O que dizer de um artista que propõe ir de encontro ao espectador, sair da passiva e confortável espera da coxia ou daquele enquadramento que vai se 'completar' e mais ainda, dispor-se a promover a ele (espectador) entrada a esse dispositivo mágico chamado câmera. Na ação esse se torna o objeto comum a ambos. E agora quem é o artista? O atirador ou o alvo? ambos estão performando, a câmera provoca e influencia o movimento de ambos. A revelação do cosmo privado, da vida alheia, daquilo que ainda não foi visto pelo olhar de um outro, a fragilidade e a instabilidade desse lugar que não é tão somente de um nem de outro. Esses disparos insistentes da fotográfica instauram um ritmo na ação, uma metralhadora que ao invés de lançar projeteis, captura frames daquilo que reluz no ambiente. A câmera revelando diversas nuances de si, para além da mera função de captar o visível, mas também servindo de amplificador de idéias, como prótese desse olhar moderno, que pela liquidez da vida tenta a todo custo registrar, documentar aquilo que amanha será ontem. JACOB ALVES JELL CARONE ela já tinha profissão (empregada doméstica) e por mais que estivesse nua, nunca tirava o típico lenço da cabeça. Com ela brinquei de ser homem e a espanquei na mesa de madeira do lado do feijão, que rugia descontrolado e era sensível com as batidas. O feijão era o grito de Carem. A cada batida a pele de Carem se confundia com a mesa. Foi com ela que gritei e, como artista, bati por amor, o amor que tínhamos um pelo outro e pela necessidade e a inquietação de criar algo. Foi a primeira violência, linda, que era dança, que era nossa, dançamos tanto que ela partiu, e ainda hoje dançamos, como gigantes nas casinhas, agora todas são Carem. As Carens presentes não se espantavam com tal violência. Os homens sim, eles julgavam. Elas entendiam, talvez até se apaixonavam. Ironicamente tinha uma ligação entre as Carens, as Paulistas, Cariocas, Teresinenses, as do mundo. Na verdade percebi que todos são Carem, mas ninguém e tão Carem quanto eu, que de tanto ser Carem nao sou nem metade do quando gostaria de ser, porque meu corpo é artificial e eu, como ser humano, sempre o julguei como melhor. Foi isso que entendi de Carem. Até o dia em que Carem me beijou, disse palavras secas e passou a mandar em mim. Agora sou o corpo artificial de Carem.
  11. 11. 1000256 NÚCLEO DO DIRCEU É allexandre santos, caio césar, césar costa, cleyde silva, elielson pacheco, izabelle frota, jell carone, jacob alves, janaína lobo, layane holanda, marcelo evelin, regina veloso, soraya portela e yang dallas. TAMBÉM PARTICIPARAM DESTE PROJETO cipó alvarenga, danielle soares, datan izaká, juliana frança, leo nabuco. AGRADECIMENTOS andrez lean guizze, associação panorama/ dança pra cacilda, bomber crew, café e família, cristina espírito santo, danielzinho, deborah moraes, eduardo bonito, eduardo saron, espedito sobrinho, fábio pitombeira, fernanda porto, heldon tajra/1a. classe turismo, isabel zarzuela, itaú cultural, josé adécio, josé elias tajra, kayo arruda, layo bulhão, luana vasconcelos, luiz veloso, maria humilde, maria alves, mark deputter, marquim moto-táxi, mavi veloso, moradores das casas visitadas, nayse lopez, reginaldo carvalho, renata fernandes, sérgio matos/ agência de músicos, shana de sousa, silva neto/luz & arte, sônia sobral, suely rolnik, teatro maria matos, theo francia, thelma bonavita, vitor cesar, weyla carvalho. casas
  12. 12. REALIZAÇÃO PATROCÍNIOAPOIO

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