Carl Sagan - Contato

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Contato com extraterrestres não é sinônimo de homenzinhos verdes desembarcando de um disco voador. É muito mais: sinais captados num radiotelescópio podem conter mensagens capazes de nos fazer repensar toda a nossa concepção da vida e do Universo. Esse é o ponto de partida de Carl Sagan, que, aliando as tensões da melhor literatura ao conhecimento científico mais avançado, compõe um romance que pode provocar em nós todas as reações - menos a indiferença.

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Carl Sagan - Contato

  1. 1. CARL SAGAN CONTATORomanceTradução:DONALDSON M. GARSCHAGEN5" reimpressàoCOMPANHIA DAS LETRAS-Copyright © 1985 by Carl SaganTítulo original:ContactCapa:João Baptista da Costa AguiarFoto de capa:Agência KeystonePreparação:Carlos Alberto InadaRevisão:Sérgio deMoura SantosAna Paula CástellaniDados Internacionais de Catalogaçào na Puhlicaçào (c:ne)(Câmara Brasileira do Livro, s. Brasil)Sagan, Carl. 1934-1997.Contato : romance ; Carl Sagan ; traduçào DonaldsonM. Garschagen. -Stio Paulo : Companhia clas Letras. 1997.Título original: Contact.isw ft-71(i4-C99-G1. Romance norte-americano t. Título97-3767 cno-813.índice, para catalogo sistemático:1. Romances : Século 20 : Literatura norte-americana813.52 Século 20 : Romances . Literatura none-americanaa1351999Todos os direitos desta edição réservados àEDITORA SCHWARCZ LTDA.Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 7204532-002 - São Paulo - sPTelefone: (Oll) 866-0801Fax:(O11) 866-0814e-mail: coletras@mtecnetsp.com.brPara Alexandra,que chegará à maioridadepor ocasião do Milênio.Oxalá leguemos à tua geraçãoum mundo melhor do que este que recebemos.
  2. 2. ÍNDICEParte 1A MENSAGEM1. Números transcendentais ................................................. 112. Luz coerente ..................................................................... 223. Ruído branco .. 464. Números primos ................................................................ 655. Algoritmo decriptográfico ................................................ 796. Palimpsesto ....................................................................... 937. O etanol em W-3 ............................................................... 1118. Acesso aleatório ................................................................ 12ü9. O numinoso .. . 144Parte 2A MÁQUINA10. Precessão dos equinôcios ................................................ 15711. O Consórcio Mundial da Mensagem ................................ 17412. O isômetro um-delta ......................................................... 19513. Babilônia ........................................................................... 20814. Oscilador harmônico.o ............................,........................... 22715. Tarugo de érbio .,......,....................................................... 24816. Os Sábios de Ozônio ........................................................ 27017. O sonho das formigas ....................................................... 28618. Superunificação ................................................................ 299Parte 3A GALÁXIA19. Singularidade nua ............................................................. 31520. Estação Central ................................................................. 33021. Causalidade ...................................................................... 35922. Gilamesh ......................................................................... 37823. Reprogramação ................................................................. 38524. A assinatura do artista ....................................................... 407Nota do autor .................................................................... 415Parte 1A MENSAGEMMeu coração vacila como uma folhinha.Osplanetas rodopiam em meussonhos.As estrelas assediam minha janela.Giro em meu sono.Minha cama é um planeta quente.Marvin Mercer, Escola Pública 153, quinto grau,Harlem, Nova York, (1981)1NÚMEROS TRANSCENDENTAISPequena mosca,Com minha mãoBruta, cortei
  3. 3. Teu jogo vão.Não serei, mosca,Um igual teu?Ou nào és tuHomem, como eu?Pois amo a dança,Canções, bebida,Até que a mão cegaMe corta a vida.William Blake, Songs of experience, "The fly" [Amosca], estrofes 1-3 (1795)A julgar pelos padrões humanos, aquilo não poderia, demodo algum, ser artificial: tinha as dimensôes de um mun-do. No entanto, possuía forma tào estranha e complicada,tinha nitidamente, finalidade tão complexa, que só poderiaser a expressão de uma idéia. Deslizando em órbita polar emtorno da enorme estrela branco-azulada, assemelhava-se aum imenso e imperfeito poliedro no qual estivessem incrus-tadas milhões de cracas em,forma de prato. Cada um dospratos apontava para determinada parte do céu. Todas as11constelações estavam sendo acompanhadas. O mundopolié-drico vinha desempenhando sua função enigmática haviaeras e eras. Era pacientíssimo. Podia esperar eternamente.Quando a tiraram para fora, ela não chorou nem um pouco.Sua testa, pequena, estava franzida, e logo seus olhos se arrega-laram. Olhou para as luzes brilhantes, para as figuras vestidas debranco e de verde, para a mulher deitada na mesa, abaixo dela.Sons de certa forma familiares pareceram envolvê-la. Em seu ros-to havia uma expressão insólita para um recém-nascido - per-plexidade, talvez.Aos dois anos de idade, ela erguia as mãos sobre a cabeça epedia, muito doce: "Papai, subir". Os amigos do pai manifestavamsurpresa. O bebê era uma criatura educada. "Não se trata de edu-cação", explicava ele. "Ela chorava quando queria que a pegásse-mos. Por isso, um dia eu lhe disse: `Ellie, não precisa chorar. Digaapenas: Papai, subir". As crianças são sabidas. Não é, Prinça?"Assim, agora ela estava no alto, a uma altitude estonteante,encarapitada nos ombros do pai e se agarrando a seus cabelos jáum tanto ralos. A vida era melhor ali em cima, muito mais segurado que quando ela rastejava por uma floresta de pernas. Lá embai-xo ela podia ser pisada, podia perder-se. Agarrou-se ao pai commais força.Deixando os macacos, viraram uma esquina e deram com umimenso bicho de pernas compridas, pintalgado e de pescoço com-prido, com chifrinhos na cabeça. "O pescoço é tão comprido quea voz não consegue sair", disse o pai. Ela sentiu pena da infeliz
  4. 4. criatura, condenada ao silêncio. Entretanto,, sentiu-se tambémfeliz pela existência do bicho, exultante com o fato de existiremtais prodígios."Vamos, Ellie", insistiu a mãe, com suavidade. Havia umacadência melodiosa na voz tão conhecida. "Leia aquilo." A tia nãohavia acreditado que Ellie, aos três anos, já soubesse ler. As his-torinhas, afirmava ela, tinham sido decoradas. Estavam agorapasseando pelo centro da cidade, num dia fresco de março, e12haviam parado diante de uma vitrine. Lá dentro, uma pedra, ver-melha como vinho borgonha, cintilava ao sol. "Jo-a-lhe-ri-a", leuEllie devagar, pronunciando bem as sílabas.Tomada de culpa, ela entrou no quarto de hóspedes. O ve-lho rádio Motorola estava na prateleira, onde ela se lembrava detê-lo visto. Era muito grande e pesado, e, apertando-o ao peito,quase o deixou cair. Na parte de trás estavam escritas as palavras"Perigo. Não remova a tampa". Mas ela sabia que, se o rádio nãoestivesse ligado à rede de energia, não haveria perigo. Pondo a lín-gua entre os lábios, ela retirou os parafusos e expôs as entranhasdo aparelho. Tal como suspeitava, não havia minúsculas orques-tras e locutores em miniatura a levarem suas pequeninas vidas naexpectativa do momento em que alguém ligasse o rádio. Em vezdisso, havia lá dentro belos tubos de vidro, um pouco parecidoscom lâmpadas. Alguns se assemelhavam às igrejas de Moscou,que ela vira num livro de figuras. Os dentes de suas bases ajus-tavam-se perfeitamente a receptáculos em que se encaixavam.Com a tampa traseira removida e o botão ligado, ela meteu oplugue numa tomada da parede próxima. Se não tocasse no apa-relho, se nem chegasse perto dele, como lhe poderia fazer mal?Passados alguns momentos, as lampadazinhas começaram abrilhar, mas não houve nenhum som. O rádio estava estragado etinha sido aposentado alguns anos antes, trocado por um modelomais moderno. Uma das lampadazinhas não estava acesa. Elatirou o plugue da tomada e arrancou a lâmpada teimosa de seureceptáculo. Havia dentro do vidro um quadrado metálico, ligadoa fios pequeníssimos. A eletricidade corre pelos fios, pensou elavagamente. Primeiro, entretanto, precisava entrar na lâmpada.Um dos dentes parecia torto, e com um pouco de esforço ela con-seguiu endireitá-lo. Recolocando a lampadazinha no lugar e tor-nando a ligar o aparelho à tomada, ela ficou feliz ao vê-la começara brilhar, e um mar de estática se agitou em torno dela. Olhandopara a porta fechada com um sobressalto, ela abaixou o volume.Virou o botão em que estava escrito "sintonia" e encontrou umavoz falando de modo muito agitado; até onde ela conseguia com-preender, falava de uma máquina russa que estava no céu, giran-13do interminavelmente em torno da Terra. Interminavelmente, pen-
  5. 5. sou ela. Tornou a girar o botão, procurando outras estações. De-pois de algum tempo, temendo ser descoberta, desligou o apare-Iho, aparafusou a tampa traseira sem apertar muito e, com maiordificuldade ainda, levantou o rádio e o repôs na prateleira.Ao sair do quarto de hóspedes, um pouco sem fôlego, encon-trou a mãe e se sobressaltou novamente."Tudo bem, Ellie?""Tudo bem, mamãe."Simulava naturalidade, mas seu coração estava descompas-sado e suas mãos suavam. Instalou-se num de seus lugares pre-diletos no quintalzinho, com a cabeça apoiada nos joelhos, e sepôs a pensar no interior do rádio. Seriam todas aquelas lâmpadasrealmente necessárias? Que aconteceria se a gente retirasse aslâmpadas, uma a uma? Certa vez ouvira o pai chamá-las de válvu-las. Que acontecia dentro de uma válvula? Estariam realmentevazias de ar - o pai dissera "válvulas de vácuo"... Como é que amúsica das orquestras e a voz dos locutores entravam no rádio?Gostavam de dizer: "Está no ar". O rádio era carregado pelo ar?Que acontece dentro do aparelho de rádio quando a gente mudade estação? Que era "sintonia"? Por que é preciso ligar o aparelhoà rede elétrica? Seria possível desenhar uma espécie de mapamostrando como a eletricidade corre pelo rádio? Uma pessoapoderia desmontar o aparelho sem se machucar? Poderia montá-lo de novo?"Ellie, que você andou fazendo?", perguntou a mãe, passan-do em direção ao varal com roupas na mão."Nada, mamáe. Só estou pensando."Por ocasião de seu décimo verão, foi levada, nas férias, paravisitar dois primos que detestava, num grupo de cabanas junto aum lago na península setentrional de Michigan. O motivo peloqual pessoas que viviam à beira de um lago no Wisconsin eramcapazes de perder cinco horas viajando de carro até um lago noMichigan era para ela algo incompreensível. Sobretudo para verdois garotos. bobos, que mais pareciam nenéns. Só tinham dez eonze anos. Uns verdadeiros chatos. Como era possível que seu14pai, que tanto seinteressava por ela em outros assuntos, pudessedesejar que a filha brincasse dia após dia com idiotas? Ellie passouo verão a evitá-los.Numa noite sem luar, quente e abafada, saiu caminhandodepois do jantar, sozinha, na direção do atracadouro. Uma lanchatinha acabado de passar, e o bote do tio estava amarrado ao cais,balançando de leve nas águas iluminadas apenas pelas estrelas.Com exceçáo de cigarras distantes e de um grito quase subliminarque ecoava do outro lado do lago, tudo era silêncio. Ellie ergueuos olhos para o céu pontilhado de estrelas e sentiu o coração dis-parar.
  6. 6. Sem olhar para baixo, e com apenas a mão estendida a orien-tá-la, encontrou uma área de relva macia e se deitou. Havia no céuuma fogueira de estrelas. Milhares delas, na maioria piscando,algumas brilhantes e firmes. Olhando com cuidado, era possíveldistinguir ligeiras nuances de cor. Aquela brilhante lá... não eraazulada?Ellie novamente tateou o chão sob si, sólido, firme... tran-qüilizante. Cautelosamente, sentou-se, olhando para a esquerda epara a direita, para cima e para baixo, cobrindo toda a vasta exten-são do lago. Podia avistar ambas as margens. O mundo só é planona aparência, pensou ela. Na verdade, é redondo. É uma imensabola... girando no meio do céu... uma vez por dia. Tentou imaginá-lo a rodar, com milhões de pessoas coladas a ele, falando em lín-guas diferentes, usando roupas engraçadas, todas presas à mesmabola.Estendeu a mão outra vez e tentou sentir a rotaçáo. Poderia,quem sabe, senti-la só um pouquinho. Do outro lado do lago, umaestrela brilhante piscava entre as copas mais altas das árvores. Sea pessoa apertasse os olhos, veria raios de luz saindo dela. Aper-tando um pouco mais, os raios mudavam, obedientemente, decomprimento e de forma. Estaria apenas imaginando coisas ou...A estrela estava agora, sem nenhuma dúvida, sobre as árvores.Somente alguns minutos antes, estava aparecendo e sumindoentre a galharia. Agora estava mais alta, disso não restava dúvida.Era isso que queriam dizer quando falavam que uma estrela esta-va subindo, disse ela consigo mesma. A Terra estava girando nadireçào oposta. Num dos extremos do céu, as estrelas estavam15subindo. Aquele lado era chamado de leste. No outro extremo docéu, atrás dela, além das cabanas, as estrelas se punham. Aquelelado chamava-se oeste. A cada dia, a Terra dava uma volta com-pleta ao redor de si própria, e as mesmas estrelas surgiam de novo,no mesmo lugar.Mas, se uma coisa grande como a Terra fazia uma rotação pordia, tinha de estar girando a uma velocidade espantosamente alta.Todas as pessoas que ela conhecia deviam estar rodopiando comuma rapidez inacreditável. Naquele momento ela teve a impressãode poder verdadeiramente sentir a Terra girando - não apenasimaginar aquilo em sua cabeça, mas realmente senti-lo na boca doestômago. Era como descer num elevador veloz. Virou a cabeçaainda mais para trás, de modo a que seu campo de visão não fos-se contaminado por nenhuma coisa terrena, até não enxergar nadasenão o céu negro e as estrelas coruscantes. De maneira agradá-vel, foi tomada pela sensação atordoante de que o melhor a fazerseria agarrar-se aos tufos de grama de ambos os lados de seu cor-po e segurar-se com força, do contrário cairia no céu, seu corpi-nho minúsculo se perderia na imensa esfera lá embaixo.
  7. 7. Chegou mesmo a emitir um grito antes de conseguir abafá-locom o pulso. Foi assim que seus primos conseguiram encontrá-la.Descendo a encosta aos pulos, encontraram no rosto dela umainusitada mistura de vergonha e surpresa, que prontamenteassimilaram, ansiosos que estavam por achar algum pequenomalfeito que pudessem levar de volta e oferecer aos pais dela.O livro era melhor que o filme. Para começar, tinha muitomais coisas. E algumas das figuras eram bem diferentes das ima-gens do filme. Em ambos, porém, Pinóquio - um boneco de pau,de tamanho natural, que por artes mágicas ganhava vida - usavauma espécie de gibão, e parecia haver cavilhas em suas juntas. Nomomento em que Gepeto está dando os toques finais emPinóquio, ele vira as costas ao boneco e é imediatamente atiradoao chão por um chute bem colocado. Naquele instante chega oamigo do carpinteiro e lhe pergunta o que está fazendo prostradono chão. Gepeto responde, com dignidade: "Estou ensinando oalfabeto às formigas".16Ellie achava isso extremamente gozado, e tinha enorme prazerem contar o episódio aos amigos. No entanto, a cada vez que nar-rava o caso, pairava uma pergunta não formulada na fímbria de suaconsciência: seria realmente possível ensinar o alfabeto às formi-gas? E alguém desejaria fazer isso? Deitar-se junto a centenas deinsetos capazes de rastejar por toda a pele da pessoa, e até mesmopicá-la? De qualquer maneira, o que as formigas poderiam saber?Às vezes ela se levantava no meio da noite para ir ao banheiroe lá encontrava o pai, só com as calças do pijama, com o pescoçovirado para cima, e uma espécie de aristocrático desdém acom-panhando o creme de barbear em seu lábio superior. "Oi, Prinça",ele dizia. Era um diminutivo de Princesa, e ele adorava chamá-ladaquele jeito. Por que o pai fazia a barba de noite, quando nãohavia ninguém para ver se estava com a barba por fazer ou não?"Porque", explicava ele, sorrindo, "sua mãe vai saber." Anos depoisela descobriu que só havia entendido essa resposta jocosa pelametade. Seus pais na época estavam apaixonados um pelo outro.Depois da aula, fora de bicicleta até um parquinho à beira dolago. De uma bolsa presa à bicicleta tirou o Manual do amadorde rádio e Um ianque na corte do reiArtur. Depois de um instantede reflexão, decidiu-se pelo segundo. O herói de Mark Twainlevara uma pancada na cabeça, acordando na Inglaterra arturiana.Talvez fosse tudo um sonho ou um delírio. Mas talvez fosse ver-dadeiro. Seria possível retroceder no tempo? Com a cabeça enfia-da nos joelhos, Ellie procurou uma de suas passagens favoritas;aquela em que o herói é, pela primeira vez, capturado por umhomem de armadura, que o toma por um doido que fugiu do hos-pício do lugar. Ao chegarem ao topo da colina, vêem uma cidadediante deles:
  8. 8. "Bridgeport? ", perguntei..."Camelot ", disse ele.Ela olhou para o lago azul, tentando visualizar uma cidadeque poderia passar tanto pela Bridgeport do século xIx como pelaCamelot do século vI, quando a mãe correu até ela.17"Procurei você por toda parte. Por que nunca está num lugarem que possa encontrá-la? Ah, Ellie", murmurou a mãe, "aconte-ceu uma coisa terrível."Na sétima série estavam estudando o "pi". Era uma letra gre-ga parecida com a arquitetura em Stonehenge, na Inglaterra: doispilares verticais ligados por uma barra em cima . Se alguémmedia a circunferência de um círculo e depois a dividia pelodiâmetro desse círculo, isso era pi. Em casa, Ellie pegou a tampade um vidro de maionese, passou um barbante em sua volta, esti-cou o barbante e, com uma régua, mediu a circunferência do cír-culo. Fez a mesma coisa com o diâmetro e, efetuando uma longaconta, dividiu um número pelo outro. Obteve 3,21. Aquilo pare-ceu bastante simples.No dia seguinte, o professor, sr. Weisbrod, ensinou que eraigual a aproximadamente 22/7, ou cerca de 3,1416. Na verdade,porém, se a pessoa desejasse exatidão, era um número decimalque continuava crescendo a vida toda, sem parar, nunca repetindoa seqüência de algarismos. A vida toda, pensou Ellie. Levantou amão. Estavam no começo do ano letivo e ela não havia feito ne-nhuma pergunta naquela aula."Como é que se pode saber que os decimais continuam a vidatoda, sem acabar?""É assim porque é", disse o professor, com certa rispidez."Mas por quê? Como é que o senhor sabe? Como se pode con-tar casas decimais a vida toda?""Srta. Arroway." O professor estava consultando a lista dechamada. "Essa pergunta é boba. Está nos fazendo perder tempo."Ninguém jamais dissera antes que uma pergunta de Ellie eraboba, e ela rompeu em lágrimas. Billy Horstman, que se sentavaa seu lado, teve um gesto de simpatia e lhe segurou a mão. Poucotempo antes seu pai havia sido processado por mexer nos hodr-metros dos carros usados que vendia, de modo que Billy era sen-sível a humilhaçoes públicas. Ellie saiu da sala aos prantos.Depois de terminadas as aulas, ela foi de bicicleta à bibliote-ca de uma universidade próxima, a fim de consultar livros dematemática. Pelo que pôde discernir do que leu, a pergunta que18fizera não era tão boba assim. Segundo a Bíblia, os antigos he-breus haviam considerado que pi era exatamente igual a três. Osgregos e romanos, que sabiam muitas coisas de matemática, nãotinham nenhuma idéia de que os algarismos de pi prosseguissem
  9. 9. eternamente, sem repetição. Na verdade, isso só havia sidodescoberto há 250 anos. Como se poderia esperar que ela sou-besse se não podia fazer perguntas? Entretanto, o sr. Weisbrod ti-nha razão com relação aos primeiros algarismos. Pi não era 3,21.Talvez a tampa do vidro de maionese estivesse um pouco amas-sada e não constituísse um círculo perfeito. Ou talvez ela não hou-vesse realizado a mensuração com o cuidado necessário. Noentanto, mesmo que tivesse exercido todo o cuidado possível,nào poderiam esperar que ela fosse capaz de medir um númeroinfinito de decimais.Havia, porém, outra possibilidade. Podia-se calcularpi coma exatidão que se desejasse. Conhecendo uma coisa chamada cál-culo, podiam-se determinar fórmulas de pi que permitiriam cal-culá-lo com qualquer número de decimais que se desejasse, des-de que houvesse tempo para isso. O livro fornecia fórmulas de pidividido por quatro. Algumas dessas fórmulas eram absoluta-mente ininteligíveis para Ellie. Outras, no entanto, a deixaramdeslumbrada: /4, dizia o livro, era o mesmo que 1- 1/3 + 1/5-1/7..., com as frações continuando eternamente. Rapidamente, elaprocurou fazer o cálculo, somando e subtraindo as frações alter-nadamente. A soma saltava de um lado para outro, desde umpouco ais que /4 até um pouco menos que /4, mas depois dealgum tempo ela pôde perceber que essa série de números seguiauma trilha lenta em direção à resposta correta. Nunca se poderiachegar exatamente ao objetivo, mas se podia chegar tão próximoquanto se desejasse, desde que se tivesse uma paciência enorme.Pareceu a Ellie um milagre que todos os círculos do mundoestivessem ligados a essa série de frações. Como era possível queos círculos conhecessem frações? Ellie tomou a resoluçào deaprender cálculo.O livro dizia mais uma coisa: pi era chamado de número"transcendental". Não existia nenhuma equação, contendo núme-ros comuns, que fosse capaz de dar pi, a menos que essa equaçãofosse infinitamente longa . Ellie já havia aprendido por si mesma19um pouco de álgebra e sabia o que significava isso. E mais: pi nãoera o único número transcendental. Na realidade, existia umainfinidade de núimeros transcendentais. Mais ainda: existiaminfinitamente mais números transcendentais do que númerosordinários, mesmo que pi fosse o único deles de que ela já haviaouvido falar. Em mais de um sentido, pi estava ligado ao infinito.Ellie tinha captado um vislumbre de algo majestoso. Ocultaentre todos os números ordinários, havia uma infinidade denúmeros transcendentais de cuja presença uma pessoa jamais sus-peitaria se não sondasse a matemática a fundo. A todo momentoum deles, como pi, surgia inesperadamente na vida cotidiana.Entretanto, a maioria deles - um número infinito deles, ela frisou
  10. 10. para si mesma - estava escondida, cuidando da própria vida, equase certamente passava despercebida ao irascível sr. Weisbrod.Ela compreendeu John Staughton logo que o viu. Constituíapara Ellie um mistério impenetrável que sua mãe chegasse a pen-sar em se casar com ele - não importa que só tivessem passadodois anos desde a morte do pai. Staughton era um homemrazoavelmente bem-apessoado, e era capaz de fingir, quando sedispunha a isso, que realmente se interessava pelas pessoas. Noentanto, era um déspota. Nos fins de semana, obrigava os alunosa trabalharem no jardim da casa nova para onde se haviam muda-do, e depois, quando iam embora, zombava deles. Disse a Ellieque ela estava apenas começando o segundo grau e não deveriaolhar duas vezes para nenhum daqueles rapazes. Staughton eraum homem muito cheio de si. Ellie tinha certeza de que, sendoprofessor, ele secretamente desprezava seu falecido pai, que foraapenas um lojista. Deixara claro que o interesse por rádio eeletrônica não ficava bem a uma moça, que com aquilo ela nãoconseguiria marido, que pretender aprender física era uma idéiatola e disparatada. "Pretensiosa", foi como se referiu a ela. Elliesimplesmente não tinha talento para aquilo. Eis um fato objetivoao qual era melhor habituar-se. Ele lhe dizia isso para seu própriobem. Mais tarde haveria de lhe agradecer por isso. Afinal de con-tas, ele era professor-adjunto de física. Sabia que tipo de pessoase saía bem nessa atividade. Esses sermões sempre a deixavam20furiosa, muito embora nunca - apesar de Staughton recusar-se aacreditarnisso-tivesse pretendido seguir uma carreira científica.Ele não era um homem delicado, como fora seu pai, nemfazia idéia do que fosse senso de humor. Quando alguém a supu-nha filha de Staughton, Ellie se sentia ofendida. Nem a mãe nemo padrasto jamais sugeriram que ela mudasse o nome paraStaughton; sabiam qual seria a reação.Vez por outra o homem demonstrava certo calor humano,como na época em que ela se achava convalescendo de uma ope-ração de amígdalas num quarto de hospital e ele lhe levara ummagnífico caleidoscópio."Quando é que vão fazer a operação?", perguntara ela, umtanto sonolenta."Já fizeram", respondera Staughton. "Você vai ficar bem."Para Ellie, era inquietante que blocos inteiros de tempo pudessemser roubados sem seu conhecimento, e jogou a culpa nele, mes-mo percebendo que aquela era uma atitude infantil.A possibilidade de que sua mãe realmente o amasse era-lheinconcebível. Devia ter se casado com ele por solidão, por fraque-za. Precisava de alguém que cuidasse dela. Ellie jurou que jamaisaceitaria uma situação de dependência. O pai de Ellie tinha mor-rido, sua mãe se distanciara e Ellie sentia-se exilada na casa de um
  11. 11. tirano. Não havia mais ninguém que a chamasse de Prinça.Ela ansiava por escapar."Bridgeport?", perguntei."Camelot", disse ele.212LUZ COERENTEDesde que adquiri o uso da razão, minha incli-naçào para o saber tem sido tão forte e violentaque nem as censuras de outras pessoas [...] nemminhaspróprias reflexões[...] têm sido capazes dedeter esse impulso natural de que Deus me dotou.Somente Ele deve saber porquê; e Ele sabe tambémque Lhe tenho suplicado que tire a luz de naeuentendimento, deixando-me apenas o suficientepara seguir Sua lei, pois qualquer coisa além dis-so é excessiva numa mulher, segundo certas pes-soas. E outras dizem mesmo que é nocivo.Juana Ines de La Cruz, Resposta ao biapo dePuehla(1C91), que lhe criticara a atividade dou-ta como imprópria ao seu sexo.Desejo propor à consideração benevolente doleitor uma doutrina que, creio, poderá parecerparadoxal e subversiva. A doutrina em questào éa seguinte. é inconveniente acreditar em qual-querproposição se não existir nenhuma frasepara que a suponhamos verdadeira. Devo admi-tir, naturalmente, que, se tal opinião se dissemi-nasse, haveria de transformar completamentenossa vida social e nosso sistema político; comoambas as coisas são, atualmente, consideradasirrepreensíveis, isso deve pesar contra minhadoutrina.Bertrand Russel, Ensaios cépticos, I (1928)22A estrela branco-azulada era circundada, à altura de seuplano equatorial, por um vasto anel de destroços em órbita-rochas egelo, metais e substâncias orgânicas-, avermelha-dos na periferia e azulados mais próximo da estrela. Opoliedro que tinha as dimensões de um mundo precipitou-sepor uma brecha nos anéis e saiu do outro lado. No plano doanel, havia sido intermitentemente obscurecido por blocosgelados e montanhas. Agora, entretanto, seguindo sua tra-jetória na direção de um ponto acima do pólo oposto daestrela, a luz do Sol faiscava em seus milhões de apêndices emforma de prato. Olhando com todo o cuidado, era possívelperceber um deles realizando um ligeiro ajuste de mira. Mas
  12. 12. não se veria a rajada de ondas de rádio que jorrava dalirumo àsprofundezas do espaço.Durante toda a existência da humanidade na Terra, o céuestrelado havia sido uma companhia e uma inspiração. As estre-las eram reconfortantes. Pareciam demonstrar que o firmamentofora criado para a alegria e a instrução dos seres humanos. Essapatética presunção tornou-se a sabedoria convencional em todoo planeta. Nenhuma cultura estava livre dela. Algumas pessoasencontravam no céu uma saída para a sensibilidade religiosa.Muitas se sentiam esmagadas e apequenadas pela glória e pelaescala do universo. Outras ainda eram estimuladas aos maisabsurdos desvarios da imaginação.No mesmo momento em que o homem descobriu a escala douniverso e verificou que suas mais loucas fantasias eram, na rea-lidade, insignificantes em comparação às verdadeiras dimensõesaté de nossa própria galáxia, a Via Láctea, ele como que tomoumedidas para que seus descendentes ficassem inteiramenteimpossibilitados de ver as estrelas. Durante 1 milhão de anos, osseres humanos haviam crescido com um conhecimento pessoalcotidiano da abóbada do firmamento. Nos últimos milhares deanos tinham começado a construir cidades e a emigrar para elas.Nas últimas décadas a maior parte da humanidade abandonara avida rural. À proporção que a tecnologia avançava e as cidades sepoluíam, as estrelas desapareciam das noites. Novas geraçõeschegavam à maturidade desconhecendo inteiramente o céu quehavia transfixado seus antepassados e estimulado a era moderna23da ciência e da tecnologia. Sem sequer perceberem, no momentoem que a astronomia entrou numa época áurea, a maioria das pes-soas se afastou do céu, num isolacionismo cósmico que só termi-nou com o alvorecer da exploração espacial.Ellie levantava o olhar para Vênus e imaginava que fosse ummundo mais ou menos parecido com a Terra - povoado deplantas, animais e civilizações, mas diferentes das espécies aquiexistentes. Nos arrabaldes da cidade, pouco depois do pôr-do-sol, ela examinava o céu e prestava atenção àquele firme pontode luz. Em comparação com as nuvens próximas, logo acimadela e ainda iluminadas pelo Sol, Vênus parecia um poucoamarelo. Ela tentava imaginar o que se passava ali. Ficava naspontas dos pés e fitava o planeta como se olhasse de cima parabaixo. Às vezes quase se convencia de que realmente podia vê-lo; um turbilhão de bruma amarela sumia de repente, e umaimensa cidade de cristal se revelava por um instante. Carros aé-reos corriam entre flechas cristalinas. Às vezes ela se imaginavadando uma olhada num daqueles veículos e obtendo um vis-lumbre de um deles. Ou imaginava um jovem, olhando para umbrilhante ponto de luz azul em seu céu, pondo-se nas pontas dos
  13. 13. pés e especulando sobre os habitantes da Terra. Era uma idéiairresistível: um planeta cálido e tropical, transbordante de vidainteligente, e logo ali.Ellie admitia aprender coisas de cor, mas sabia que isso seria,no máximo, uma educação oca. Fazia o mínimo necessário paraser aprovada em seus cursos, e cuidava de outros interesses. Con-seguiu autorização para passar os períodos livres e algumas horasdepois das aulas no que chamavam de "oficina" - uma pequenafãbrica, suja e atulhada de coisas, criada quando a escola dedica-va mais atenção à "educação profissional" do que agora estava namoda. "Educação profissional" significava, mais que qualqueroutra coisa, trabalhar com as mãos. Havia ali tornos, furadeiras eoutras máquinas de que ela não podia aproximar-se, pois, qual-quer que fosse sua habilidade, ela era ainda "uma menina". Comrelutância, concederam-lhe permissão para levar avante seus pro-jetos pessoais na área da "oficina" dedicada à eletrônica. Ellie24construiu receptores de rádio mais ou menos a partir do nada, edepois passou para uma coisa mais interessante.Produziu uma máquina cifradora. Era rudimentar, mas fun-cionava. Era capaz de tomar qualquer mensagem escrita em inglêse transformá-la, através de uma simples cifra de substituição, emalgaravia. Construir uma máquina que fizesse o inverso - con-verter uma mensagem cifrada em linguagem clara quando não sedispunha da chave de substituição - era muito mais difícil. Podia-se aqui se fazer a máquina realizar todas as substituições possíveis (A sig-nilicando B, A significando C, A significando D...) ou se podia lem-brar que em toda língua algumas letras são mais utilizadas do queoutras. Podia-se ter uma idéia da freqüência das letras pelo tama-nho dos compartimentos para cada letra nas mesas de compo-sição manual da sala de tipografia ao lado. "Era o IN sHRDLLJ", diziam para os rapazes da tipografia, dando uma boa aproximação da ordemdas doze letras mais freqüentes em inglês. Ao se decifrar uma men- sagem longa, a letra mais comum provavelmente representava oE. Certas consoantes tendiam a aparecer juntas, descobriu Ellie; jáas vogais distribuíam-se de modo mais ou menos fortuito. Apalavra de três letras mais comum em inglês era o artigo definido,"the". Se no interior de uma palavra aparecia uma letra interpostaentre um T e um E, quase certamente era H. Não sendo, podia-seapostar num R ou numa vogal. Ellie deduziu outras regras e pas-sou longas horas contando a freqüência das letras em vários livrosde texto, antes de descobrir que essas tabelas de freqüência játeriam sido compiladas e publicadas. Sua máquina criptográficadestinava-se apenas a seu próprio prazer. Ellie não a usava paratransmitir mensagens secretas a amigos. Sentia-se insegura quan-to às pessoas com quem poderia falar sobre esses interesseseletrônicos e criptográficos; os meninos se tornavam irrequietos
  14. 14. ou gabolas, e as garotas olhavam para ela de um jeito estranho.Soldados norte-americanos estavam combatendo num lugardistante chamado Vietnam. A cada mês, ao que parecia, maisjovens eram arrebanhados nas ruas ou nas fazendas e embarcadospara o Vietnam. Quanto mais coisas ela ficava sabendo a respeitodas origens desssa guerra, e quanto mais ela escutava os pronuncia-25mentos públicos dos governantes do país, mais irritada se torna-va. O presidente e o Congresso estavam mentindo e matando,pensava ela consigo mesma, e quase todo mundo aceitava issopassivamente. O fato de seu padrasto defender as posições ofi-ciais - ele falava de coisas como obrigações derivadas de trata-dos, teorias do dominó e simples agressão comunista - apenasfortalecia sua atitude. Ellie começou a assistir a reuniões e comí-cios na universidade próxima. As pessoas que ela conhecia ali pa-reciam muito mais inteligentes, amistosas e mais gentedo que seuscanhestros e insípidos companheiros de escola secundária. JohnStaughton primeiro a advertiu e depois a proibiu de se juntar aosuniversitários. Não haveriam de respeitá-la, disse. Iriam apro-veitar-se dela. Ellie estava simulando uma vivência que não tinhae jamais teria. Seu modo de se vestir era ridículo. Uniformes mi-litares de campanha não eram roupas apropriadas para uma moça,e constituíam uma caricatura, uma hipocrisia, para quem afirmavaopor-se à intervenção americana no Sudeste asiático.Apesar de suas débeis exortações a Ellie e Staughton para quenão "brigassem", sua mâe pouco participava dessas discussòes.Em particular, ela pedia a Ellie que obedecesse ao padrasto, quefosse "boazinha". A essa altura, Ellie suspeitava que Staughton secasara com sua màe por causa do seguro do pai. Que outro moti-vo haveria? Evidentemente ele não mostrava nenhum sinal deamá-la - nem estava disposto a ser "bonzinho". Certo dia, toma-da de alguma agitação, sua mâe pediu-lhe que fizesse uma coisaque agradaria a todos eles: freqüentar a escola bíblica dominical.Enquanto seu pai, cético com relação às religiões, era vivo, nun-ca se falara em escola bíblica. Como poderia sua mãe ter se casa-do com Staughton? A pergunta cresceu dentro dela pela milésimavez. A escola dominical, insistiu sua mãe, ajudaria a instilar nela asvirtudes convencionais; entretanto, o mais importante é que issomostraria a Staughton que Ellie estava disposta a transigir umpouco. Por amor à mãe, e também por pena dela, Ellie aquiesceu.Assim, todos os domingos, durante a maior parte de um anoletivo, Ellie freqüentou as reuniões de um grupo de debates numaigreja próxima. Era uma das denominações protestantes respei-tãveis, não maculadas por um evangelismo desordenado. Haviaalguns secundaristas, uns poucos adultos e muitas mulheres de26
  15. 15. meia-idade; a instrutora era a esposa do pastor. Ellie nunca havialido a Bíblia a sério antes e se inclinara a aceitar a opinião do pai,talvez carregada de certa implicância, de que se tratava de "his-tórias bárbaras misturadas com contos de fadas". Por isso, duranteo fim de semana que precedeu a primeira aula, leu o que lhe pare-ceram ser as partes importantes do Velho Testamento, procuran-do manter uma atitude de boa vontade. Percebeu desde logo quehavia duas narrativas da Criação, diferentes e mutuamente con-traditórias, nos dois primeiros capítulos do Gênesis. Não entendiacomo era possível ter havido luz e dias antes de ser feito o Sol, elhe foi difícil imaginar exatamente com quem Caim se havia casa-do. Ao ler as histórias de Lot e de suas filhas, de Abraão e de Sarano Egito, do casamento de Diná, de Jacó e de Esaú, sentiu-se estu-pefata. Admitia que a covardia pudesse acontecer no mundo real-que os filhos pudessem ludibriar um pai idoso, que um homempudesse dar um pusilânime assentimento à sedução da esposapelo rei, ou até mesmo estimular a violação das filhas. No entan-to, nesse livro sagrado não havia uma única palavra de protestocontra tais absurdos. Na verdade, parecia que os crimes eramaprovados, até elogiados.Quando começaram as aulas, ela estava ansiosa para discutiressas inquietantes contradições, queria um esclarecimento doDesígnio de Deus ou ao menos uma explicação do motivo peloqual esses crimes não eram condenados pelo autor ou Autor dolivro. No entanto, decepcionou-se. A mulher do pastor contem-porizou. Por uma razão ou por outra, essas histórias nunca maisvieram à tona nos debates posteriores. Quando Ellie pergüntoucomo as criadas da filha do faraó puderam afirmar, olhando derelance, que a criancinha na cesta de vime era hebréia, a profes-sora corou violentamente e pediu a Ellie que não fizesse pergun-tas indecorosas. (Naquele momento, Ellie começou a entender arazão.Quando chegaram ao Novo Testamento, cresceu a inquie-tação de Ellie. Mateus e Lucas narravam a ascendência de Jesus atéo rei Davi. Entretanto, para Mateus havia 28 gerações entre Davi eJesus; para Lucas, 43. Quase não havia nomes comuns às duas lis-tas. Como era possível que tanto Mateus como Lucas fossem aPalavra de Deus? As genealogias contraditórias pareceram a Ellie27uma tentativa óbvia de cumprir a profecia de Isaías post facto. Nolaboratório de química, isso se chamava "cozinhar os dados". Ellieficou profundamente comovida com o Sermão da Montanha,extremamente desapontada com a exortação para dar a César oque é de César e furiosa depois que a instrutora por duas vezespassou por cima de suas perguntas a respeito do sentido de "Nãovim trazer a paz, mas a espada". Disse à mãe aflita que havia feitoo melhor que podia,. mas que nem cavalos xucros tornariam a
  16. 16. arrastá-la a aulas bíblicas.Ellie estava deitada em sua cama. Era uma noite quente deverão. Elvis cantava "One night with you, thats what Im begginfor". Os garotos da escola secundária pareciam dolorosamenteimaturos, e era difícil - sobretudo por causa das determinaçõese proibições do padrasto - estabelecer um relacionamento firmecom os jovens universitários que ela conhecera em palestras ereuníões. Relutantemente, admitía que John Staughton tinharazão pelo menos numa coisa: quase sem exceção, os rapazesinclinavam-se para a exploração sexual. Ao mesmo tempo, pare-ciam muito mais vulneráveis, emocionalmente, do que ela haviaesperado. Talvez uma coisa provocasse a outra.Tinha a sensação de que não entraria para uma universi-dade, embora estivesse resolvida a sair de casa. Staughton nãopagaria para que estudasse em lugar algum, e as débeis inter-cessões de sua mãe eram inúteis. No entanto, Ellie obtivera resul-tados espetaculares nos exames de qualificação para o ensinosuperíor, e para surpresa sua os professores lhe comunicaram serpossível que universidades famosas lhe oferecessem bolsas. Elahavia respondido várias questões de múltipla escolha por pal-pite, e achava que acertara na sorte. Se uma pessoa sabe muitopouco, apenas o suficiente para escolher entre as duas respostasmais prováveis, e marca ao acaso dez questões seguidas, temmais ou menos uma possibilidade em mil de acertar todas as dez,dizia ela a si mesma. No caso de vinte questões seguidas, a pro-babilidade é de uma em 1 milhão. No entanto, mais ou menos 1milhão de jovens havíam prestado aqueles exames. .Alguém ti-nha de ter sorte.28Cambridge, Massachusetts, parecia longe o suficiente parafugir à influência de John Staughton, mas bastante perto para quenas férias ela pudesse visitar a mãe - que encarava a situaçãocomo um difícil meio-termo entre abandonar a filha e irritar o mari-do ainda mais. Ellie surpreendeu a si mesma ao escolher Harvard,de preferência o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).Chegou para o período de orientação. Era uma moça bonita,de cabelos escuros e estatura mediana, com um sorriso enviesa-do; e estava ansiosa por aprender tudo que pudesse. Começoudisposta a ampliar sua instrução, matriculando-se no maior nú-mero possível de cursos, além daqueles que constituíam seusinteresses básicos: matemática, física e engenharia. Entretanto,havia um problema com relação a seus interesses básicos. Era-lhedifícil discutir física, e mais ainda participar de debates sobre oassunto, com seus colegas de classe, predominantemente do sexomasculino. A princípio eles prestavam uma espécie de desatençãoseletiva às suas observações. Seguia-se uma ligeira pausa e con-tinuavam como se ela nada houvesse dito. Vez por outra regis-
  17. 17. travam suas observações, até mesmo a elogiavam, mas mesmoassim continuavam em frente, inabaláveis. Ellie tinha razoávelconvicção de que seus comentários não eram de maneira algumatolos, e não desejava ser ignorada, menos ainda ser alternada-mente ignorada e tratada com superioridade. Sabia que em parte-mas apenas em parte - isso se devia à fraqueza de sua voz. Porisso passou a usar uma voz de física, uma voz profissional: clara,competnte e vários decibéis acima do tom normal da conversa.Com tal voz, era importante estar correta. Tinha de escolher osmomentos certos para intervir. Era difícil falar por muito tempocom essa voz, pois às vezes ela corria o risco de cair na gargalha-da. Por isso, aos poucos começou a fazer intervenções breves, àsvezes incisivas, em geral suficientes para atrair a atenção dos cole-gas; depois podia continuar a falar, durante algum tempo, numtom de voz mais normal. Toda vez que se encontrava num novogrupo tinha de conquistar novamente seu direito de simplesmentemeter a colher na conversa. Nenhum dos rapazes jamais percebeuque ela enfrentava esse problema.Vez por outra, num exercício de laboratório ou num semi-nário, o professor dizia: "Rapazes, vamos em frente", e, perceben-29do a insatisfação de Ellie, acrescentava: "Desculpe, srta. Arroway,mas é que eu penso na senhorita como um dos rapazes". O má-ximo elogio que eram capazes de fazer consistia em não a con-siderar ostensivamente feminina.Ellie tinha de lutar contra a tendência a formar uma perso-nalidade demasiado agressiva ou tornar-se uma completa misan-tropa. Em dado momento, percebeu a situação estranha. Mi-santropo é a pessoa que detesta todas as demais, e não apenas oshomens. E decerto havia uma palavra para designar uma pessoaque não gosta de mulheres: misógino. No entanto, os lexicógra-fos, todos homens, haviam deixado de criar uma palavra que de-signasse a aversão aos homens. Quase todos eles eram homens,pensou ela, e tinham sido incapazes de imaginar que houvessenecessidade dessa palavra.Mais do que muitas de suas colegas, Ellie sofrera enorme car-ga de repressão familiar. Suas novas liberdades - intelectuais,sociais e sexuais- eram inebriantes. Numa época em que muitosde seus contemporâneos, rapazes e moças, optavam por um ves-tuário que minimizava a distinção entre os sexos, ela aspirava auma elegância de traje e maquilagem que representava um ônuspara seu limitado orçamento. Havia maneiras mais efetivas dedeixar claras as posições políticas, pensava. Cultivava algumasamigas chegadas e criou várias inimigas, que a detestavam peloseu modo de se vestir, suas idéias políticas e religiosas ou o vigorcom que defendia suas opiniões. A competência e o prazer que
  18. 18. demonstrava em relação à ciência eram vistos com reprovaçãopor muitas outras moças, no geral talentosas. Algumas, porém, aencaravam como aquilo que os matemáticos chamam de teoremade existência - uma demonstração de que uma mulher pode,com certeza, destacar-se no campo da ciência - ou até mesmocomo modelo de conduta.No auge da revolução sexual, ela realizava experiências comcrescente entusiasmo, mas verificava que intimidava seus pos-síveis amantes. As ligações que estabelecia tendiam a durar mesesou menos. A alternativa parecia ser disfarçar seus interesses ereprimir suas opiniões, coisa que ela havia resolutamente se recu-sado a fazer no segundo grau. A imagem da mãe, condenada a umencarceramento resignado e acomodatício, perseguia Ellie. E ela30começou a pensar em homens que não estivessem ligados à vidauniversitária e científica.Algumas mulheres, ao que parecia, eram inteiramente desti-tuídas de malícia e concediam seus afetos sem um único instantede reflexão consciente. Outras se dispunham a uma campanha deprecisão militar, prevendo situações de emergência e posições derecuo, com o único intuito de "fisgar" um homem desejável. Apalavra desejávelrevelava tudo, pensava Ellie. O pobre coitado naverdade não era desejado, apenas "desejável" - um plausívelobjeto de interesse na opinião de tais moças, que armavam todaessa deplorável charada. A maioria das mulheres, refletia, coloca-va-se num meio-termo, buscando conciliar suas paixões comaquilo que acreditavam ser sua conveniência a longo prazo.Talvez houvesse comunicações ocasionais entre o amor e o egoís-mo que escapassem à observação do consciente. No entanto, asimples idéia de uma captura calculada a fazia estremecer. Nesseassunto, concluiu, ela se colocava ao lado da espontaneidade. Foiquando conheceu Jesse.O rapaz com quem ela havia saído a levara a um bar perto dapraça Kenmore. Jesse estava lá cantando rhythm and hlues etocando guitarra. A maneira como ele cantava e se movimentavadeixava claro o que faltara a Ellie até então. Na noite seguinte elavoltou sozinha. Sentou-se à mesa mais próxima e ficaram de olhosgrudados um no outro durante as duas apresentações de Jesse.Dois meses depois estavam vivendo juntos.Só quando os compromissos profissionais de Jesse o levavama Hartford ou Bangor é que Ellie conseguia realizar algum traba-Iho. Passava os dias com os outros estudantes: rapazes que tra-ziam, pendurada nos cintos, a última geração de réguas de cálcu-lo; rapazes com lapiseiras de plástico no bolso da camisa; rapazesempertigados, de riso nervoso; rapazes sérios que dedicavamtodos os momentos em que não estavam dormindo à tarefa de setornarem cientistas. Inteiramente absorvidos que estavam em
  19. 19. sondarem os recônditos da natureza, eram quase néscios no quedizia respeito aos relacionamentos humanos comuns, área naqual, apesar de todos os seus conhecimentos, pareciam desastra-30dos e rasos. Talvez a busca infatigável da ciência fosse tão exaus-tiva, tão competitiva, que não sobrava tempo para eles se tor-narem seres humanos por inteiro. Ou talvez suas deficiências so-ciais os tivessem conduzido a campos em que esse problema nãofosse notado. A não ser pela ciência, Ellie nào os considerava boacompanhia.De noite havia Jesse, saltando e gritando suas cançòes, umaespécie de força da natureza que dominara a vida de Ellie.Durante o ano que passaram juntos ela não se lembrava de umaúnica noite em que ele lhe houvesse proposto irem dormir. Elenada sabia de física ou matemática, mas se encontrava inteira-mente desperto dentro do universo, e durante algum tempo omesmo aconteceu com Elllie.Ela sonhava em conciliar os dois mundos. Tinha fantasias demúsicos e físicos atuando em harmonioso concerto social. Entre-tanto, as reuniôes que organizava eram sem graça e terminavamcedo.Certo dia Jesse lhe disse que queria um bebê. Ele se tornariaum homem sério, se aquietaria, arranjaria um emprego fixo.Talvez até pensasse em se casar."Um bebê?", perguntou Ellie. "Mas eu teria de deixar a esco-la. Ainda tenho anos pela frente, antes de terminar o meu curso.Se eu tivesse um filho, nunca poderia voltar à escola.""É", respondeu ele, "mas nós teríamos um filho. Você nãoteria a escola, mas teria outra coisa.""Jesse, eu preciso da escola", disse Ellie.Jesse deu de ombros, mas ela sentiu que a vida em comumque partilhavam começava a ruir. Ficaram juntos ainda algunsmeses, mas tudo na verdade fora resolvido naquele breve diálo-go. Despediram-se com um beijo e Jesse partiu para a Califórnia.Nunca mais ela ouviu sua voz.No fim da década de 60, a União Soviética conseguiu fazercom que veículos espaciais pousassem na superfície de Vênus.Foram esses os primeiros engenhos da espécie humana a pousar,em condições de funcionamento, em outro planeta. Mais de dezanos antes, radioastrônomos americanos, confinados à Terra,32haviam descoberto ser Vênus uma intensa fonte de radioemis-sões. A explicaçáo mais difundida para isso era que a atmosferade Vênus capturava o calor, através de um efeito estufa em escalaplanetária. Segundo essa concepção, a superfície do planeta erade um calor sufocante, demasiado quente para cidades de cristale venusianos imaginativos. Ansiosa por alguma outra explicação,
  20. 20. Ellie procurava em vão imaginar meios pelos quais a radioemis-são pudesse provir de uma altitude elevada sobre uma clementesuperfície venusiana. Alguns astrônomos, em Harvard e no MIT,afirmavam que nenhuma das alternativas imaginadas poderiaexplicar as emissões. A Ellie, a idéia de um efeito estufa tão colos-sal parecia improvável e, por algum motivo, odiosa; Vênus seriaum planeta que se deixara degenerar. Quando, porém, as navesvenera puseram a funcionar um termômetro, este registrou umatemperatura suficientemente alta para fundir o estanho ou ochumbo. Ellie imaginou as cidades de cristal se liquefazendo(embora Vênus não fosse, afinal, tão quente), sua superfície trans-formada em lágrimas de silicato. Era uma romântica. Sabia dissohavia anos.Ao mesmo tempo, entretanto, tinha de admirar o poder daradioastronomia. Os astrônomos tinham ficado em casa, assesta-do seus radiotelescópios para Vênus e medido a temperatura dasuperfície do planeta quase com a mesma precisão das sondas;enera, treze anos depois. Desde que se entendia por gente, elase sentira fascinada pela eletricidade e pela eletrônica. Entretan-to, foi essa a primeira vez que ficou profundamente impressiona-da com a radioastronomia. O observador permanece com toda asegurança em seu próprio planeta e aponta seu telescópio, comseus acessórios eletrônicos; as informações sobre outros mundoschegam através das antenas. Ellie ficou maravilhada com a idéia.Começou a fazer visitas ao modesto radiotelescópio da uni-versidade, em Harvard, e por fim recebeu um convite para ajudarnas observações e nas análises de dados. Foi aceita como assis-tente remunerada, durante o verão, no Observatório Nacional deRadioastronomia de Green Bank, na Virgínia Ocidental, e, aochegar ali, contemplou com êxtase o primeiro radiotelescópio,construído por Grote Reber em seu quintal de Wheaton, Illinois,no ano de 1938; agora ele servia como um lembrete do que um33amador dedicado pode realizar. Reber fora capaz de detectar aradioemissão proveniente do centro da galáxia quando ninguémpor perto estava dando partida no automóvel e nenhuma máquinade diatermia estava funcionando. O núcleo da galáxia era muitomais poderoso, mas a máquina diatérmica se achava muito maispróxima.O clima de paciente investigação e as ocasionais recompen-sas, na forma de modestas descobertas, eram-lhe agradáveis.Estavam tentando medir em que grau o número de fontes de rádioextragalácticas distantes aumentava conforme sondavam cadavez mais profundamente o espaço. Ellie começou a pensar emmodos mais eficientes de detectar débeis sinais de rádio. No de-vido tempo, formou-se com louvor em Harvard e prosseguiu seusestudos, matriculando-se num curso de pós-graduação em
  21. 21. radioastronomia no outro extremo do país, no Instituto de Tec-nologia da Califórnia.Durante um ano foi orientada por David Drumlin, homemtido em todo o mundo como brilhante e que gozava da fama denão tolerar incompetentes, mas que no fundo era um daqueleshomens que se podem encontrar no ápice de toda profissão:vivem em estado de contínua ansiedade, temerosos de quealguém, em algum lugar, se mostre mais capaz do que eles. Drum-lin ensinou a Ellie alguma coisa da essência da disciplina, emespecial seus fundamentos teóricos. Ainda que, inexplicavel-mente, fosse considerado atraente pelas mulheres, Ellie verificouque com freqüência ele se mostrava agressivo e tendia a levar tudopara o lado pessoal. Ela era demasiado romântica, dizia Drumlin.O universo segue rigorosamente suas próprias leis. O que umcientista deve fazer é pensar como o universo, e não dar asas ãspróprias predisposições românticas (e a anseios femininos juve-nis, disse ele certa vez) com relação ao cosmo. Tudo que não sejaproibido pelas leis do universo, garantiu ele - citando palavrasde um colega da instituição -, é compulsório. No entanto,prosseguiu, quase tudo é proibido. Ellie o fitava enquanto elefazia sua preleção, tentando entender aquela insólita combinaçãode traços de personalidade. Via um homem em excelente forma34física: cabelos prematuramente grisalhos, sorriso sardônico, ócu-los de leitura encavalados na ponta do nariz, gravata-borboleta,queixo quadrado e resquícios do anasalado sotaque de Montana.A idéia que ele fazia de diversão consistia em convidar seusalunos e alguns professores assistentes para jantar (ao contráriodo padrasto de Ellie, que gostava de se ver cercado por estu-dantes, mas achava impróprio convidá-los para jantar). Drumlindemonstrava um extremado sentido de territorialidade intelec-tual, conduzindo a conversa para temas em que era tido e havidocomo especialista, e então descartando de imediato qualqueropinião divergente. Depois do jantar, com freqüência ele subme-tia os convidados a uma exibição de slides, nos quais o dr. D.aparecia mergulhando em Cozumel, em Tobago ou nos recifes dacosta australiana. Era comum ele ser fotografado sorrindo para acâmara e acenando, mesmo debaixo da água. Vez por outra, sur-gia uma imagem submarina de sua colega cientista, a dra. HelgaBork. (A mulher de Drumlin sempre fazia objeção a esses slides,alegando, o que era razoável, que a maioria dos presentes já osvira em jantares anteriores. Na realidade, os presentes já tinhamvisto todos os slides. Drumlin respondia exaltando as virtudes daatlética dra. Bork, e a humilhação de sua mulher aumentava.)Muitos estudantes aceitavam intrepidamente a exibição, procu-rando alguma coisa que tivessem deixado de observar antes entreos corais e os espinhentos ouriços-do-mar. Outros se remexiam,
  22. 22. embaraçados, ou prestavam atenção no creme de abacate.Para os estudantes, uma tarde animada consistia em seremconvidados, em grupos de dois ou três, para levá-lo de carro àbeira de um penhasco perto de Pacific Palisades. Preso à sua asa-delta, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, elesaltava do precipício em direção ao mar tranqüilo, cento e poucosmetros abaixo. A tarefa deles era descer de carro a estradalitorânea para ir buscá-lo. Drumlin lhes agradecia com um sorrisoexultante. Outros eram convidados a acompanhá-lo em seusvôos, mas poucos aceitavam. Drumlin levava vantagem na com-petição, e se deliciava com isso. Outros professores viam os estu-dantes como recursos para o futuro, como seus sucessores in-telectuais, encarregados de transmitir a tocha do saber à futurageração. Drumlin, porém, sentia Ellie, tinha uma concepção dife-35rente. Para ele, os estudantes eram como pistoleiros. Não haviameio de adivinhar qual deles poderia, a qualquer momento,desafiá-lo pelo título de "Atirador Mais Rápido do Oeste". Tinhamde ser mantidos em seus lugares. Drumlin nunca se atrevera a lhepassar uma cantada, porém mais cedo ou mais tarde, tinha cer-teza, tentaria.No segundo ano de Ellie na Cal Tech, Peter Valerian voltou àinstituição, depois de um ano no exterior. Era um homem delica-do e despretensioso. Ninguém, e muito menos ele próprio, o con-siderava especialmente brilhante. No entanto, tinha uma respeitá-vel folha de serviços na área da radioastronomia, pois, explicavaele quando lhe perguntavam, "dava duro". Havia em sua carreiracientífica apenas um lado ligeiramente desabonador: era fascina-do pela possibilidade de inteligência extraterrestre. A cada mem-bro do corpo docente, ao que parecia, era permitido um ponto fra-co: Drumlin voava de asa-delta, Valerian acreditava na vida emoutros planetas. Outros freqüentavam bares em que garotas fa-ziam topless, cultivavam plantas carnívoras ou se dedicavam a umacoisa chamada meditação transcendental. Valerian havia refletidoa respeito da inteligência extraterrestre -I T- durante mais tem-po e com mais afinco, e em muitos casos com mais cuidado, do quequalquer outra pessoa. À medida que Ellie o conhecia melhor,parecia-lhe que a I.T proporcionava a Valerian um fascínio, umafantasia, que contrastava muito com o marasmo de sua vida pes-soal. Para ele, essa reflexão sobre a inteligência extraterrestre nãoera trabalho, mas lazer. Sua imaginação voava alto.Ellie adorava escutá-lo. Era como penetrar no País das Ma-ravilhas ou na Cidade das Esmeraldas. Na verdade, era até me-lhor, pois ao fim de suas especulaçôes havia a idéia de que talvezaquilo fosse mesmo realidade, que poderia acontecer. Um dia,divagava Ellie, um dos grandes radiotelescópios poderia receberuma mensagem de verdade, e não apenas em fantasia. Num sen-
  23. 23. tido, porém, era pior, pois Valerian, tal como Drumlin com re-lação a outros temas, frisava repetidamente que era preciso con-frontar a especulação com a sóbria realidade física. Era umaespécie de peneira que separava a rara especulação útil de tor-rentes de absurdos. Tanto os extraterrestres como sua tecnolo-gia tinham de obedecer rigorosamente às leis da natureza, fato36esse que prejudicava seriamente muitas perspectivas encanta-doras. Mas o que saía dessa peneira e sobrevivía à mais céticaanálise física e astronómica poderia até ser verdadeiro. Não sepodia ter certeza, é claro. Decerto haveria possibilidades que ti-nham passado despercebidas, que pessoas mais hábeis um diahaveríam de computar.Valerian gostava de salientar que estamos presos à nossaépoca, à nossa cultura e â nossa biologia, que somos, por defini-ção, muito límitados quando nos dispomos a imaginar criaturas ecivilizações fundamentalmente diferentes. E como elas haviamevoluído separadamente, em mundos muito diferentes, era forço-so que fossem muito diferentes de nós. Era possível que seresmuito mais avançados do que nós dispusessem de tecnologiasinimagináveis - na verdade, ísso era quase inevítãvel - e atémesmo novas leis físicas. Constituía irremediável estreiteza deespírito, dizia ele, enquanto caminhavam por uma série de arcosque lembravam um quadro de De Chirico, ímaginar que todas asleis importantes da física tivessem sido descobertas no momentoem que nossa geração começou a se debruçar sobre o problema.Haveria uma física do século xxI e uma física do século xxn, e atéuma física do Quarto Mílênio. Poderíamos, talvez, estar ridicula-mente impossibilitados de chegar a imaginar os meios de comu-nicação de uma civilização muito diferente.No entanto, ele sempre repisava, os extraterrestres deviamsaber como somos atrasados. Se fôssemos um pouco mais adian-tados, já saberiam de nossa existência. Estávamos apenas come-çando a caminhar com os dois pés, descobrimos o fogo na quar-ta-feira passada e só ontem topamos com a dinâmica newtoníana,as equaçòes de Maxwell, os radiotelescópios e pistas da superu-nificação das leis da física. Valerian tinha certeza de que eles nãodiFicultariam as coisas para nós. Procurariam facilitá-las, pois, sedesejassem comunicar-se com palermas, teriam de lhes fazer con-cessões. Era por isso, pensava, que teria uma possibilidade efeti-va se algum dia chegasse realmente uma mensagem. A falta debrílhantismo dele representava, com efeito, a sua força. Ele sabia- estava convicto disso - o que sabiam os palermas.Como tema de sua tese de doutorado, Ellie escolheu, com aanuência do corpo docente, o aperfeiçoamento dos sensíveis37receptores empregados nos radiotelescópios. Com isso, ela pode-
  24. 24. ria lançar mão de seu talento para a eletrônica, fugiria da propen-são de Drumlin para a teorização e ficaria livre para prosseguir suasdiscussôes com Valerian - sem, no entanto, dar o passo, profis-sionalmente perigoso, de trabalhar com ele no campo da inteligên-cia extraterrestre. Esse assunto era demasiado especulativo parauma tese de doutorado. O padrasto de Ellie se habituara a criticara grande variedade de interesses dela, tachando-os de irrealistica-mente ambiciosos ou, vez por outra, descrevendo-os como irre-mediavelmente triviais. Quando tomou conhecimento, da boca deoutras pessoas, da tese que ela havia escolhido (a essa altura, Elliejá não falava mais com ele), disse que o tema era irrelevante.Ellie estava trabalhando no maserde rubi. O rubi compõe-sepredominantemente de alumina, substância de transparênciaquase perfeita. A coloração vermelha decorre de uma pequenaimpureza de cromo, distribuída pelo cristal de alumina. Quandoo rubi é submetido a um forte campo magnético, os átomos decromo aumentam sua energia ou, como gostam de dizer os físicos,são levados a um estado de excitação. Ellie adorava imaginartodos os pequenos átomos de cromo sendo conduzidos a umaatividade febril em cada amplificador, postos em frenesi paraservir a uma boa causa prática - amplificar um débil sinal derádio. Quanto mais forte era o campo magnético, mais excitadosficavam os átomos. Assim, o maserpodia ser ajustado de maneiraa se tornar particularmente sensível a determinada freqüência derádio. Ellie descobriu um meio de produzir rubis com impurezasprovocadas pela presença de lantanídeos, além de átomos de cro-mo, e com isso um maser podia ser sintonizado em uma faixa defreqüência mais estreita, tornando-se capaz de detectar um sinalmuito mais fraco que os masers anteriores. Seu detector tinha deficar imerso em hélio líquido. Ela instalou o novo instrumento emum dos radiotelescópios da Cal Tech, no vale Owens, e detectou,em freqüências inteiramente novas, aquilo que os astrônomoschamam de radiação de fundo - o remanescente do espectro derádio da imensa explosão que deu início a nosso universo, ochamado big-bang."Vamos expor as coisas pela ordem", dizia ela a si própria."Peguei um gás inerte que existe no ar, transformei-o em líquido,38introduzi algumas impurezas num rubi, liguei-o a um magneto edetectei as fornalhas da criação."E Ellie balançava a cabeça, atônita. Para uma pessoa queignorasse os princípios básicos da física, aquilo poderia pareceruma arrogante e pretensiosa necromancia. Como explicar a coisaaos melhores cientistas de mil anos atrás, que conheciam o ar, osrubis e os ímãs, mas não o hélio líquido, a emissão estimulada eas bombas de fluxos supercondutores? Na verdade, recordava-seEllie, eles não tinham a mínima idéia do que fosse o espectro de
  25. 25. rádio. Nem mesmo imaginavam um espectro - salvo vagamente,quando contemplavam um arco-íris. Não sabiam que a luz era for-mada por ondas. Como podíamos esperar compreender a ciênciade uma civilização mil anos à nossa frente?Era necessário produzir rubis em grandes quantidades, poissomente alguns apresentavam as propriedades requeridas. Ne-nhum deles chegava a ter as características das gemas utilizadasem joalheria, e em geral eram pequeníssimos. No entanto, Elliepassou a usar alguns dos maiores. Combinavam bem com a tona-lidade morena de sua pele. Mesmo que a pedra fosse cuidadosa-mente lapidada, podia-se perceber alguma anomalia quando elaera engastada num anel ou num broche: a maneira estranha, porexemplo, como refletia a luz em certos ângulos, ou uma máculacor de pêssego em meio ao vermelho. Ela explicava aos amigosnão cientistas que gostava de rubis, mas não podia comprá-los.Nisso, assemelhava-se um pouco ao cientista que, tendo desco-berto o caminho bioquímico da fotossíntese das plantas verdes,usou pelo resto da vida agulhas de pinheiro ou um raminho de sal-sa na lapela. Os colegas, por respeito a seu desenvolvimentoprofissional, consideravam aquilo uma pequena idiossincrasia.Os grandes radiotelescópios do mundo são construídos emlocais remotos pelo mesmo motivo que levou Paul Gauguin a via-jar para o Taiti: para funcionarem bem, precisam estar distantes dacivilização. Com o aumento do tráfego de rádio, civil e militar, osradiotelescópios tiveram de se esconder - por exemplo, fugirampara um obscuro vale em Porto Rico ou se exilaram num vastodeserto do Novo México ou do Casaquistão. À medida que a inter-39ferência de transmissôes de rádio continuar a crescer, fará cadavez mais sentido montar os telescópios fora da Terra. Os cientistasque trabalham nesses observatórios isolados tendem a ser cabeçu-dos e obstinados. Os cônjuges os abandonam, os filhos saem decasa na primeira oportunidade, mas os astrônomos toleram tudo.Raramente se consideram pessoas sonhadoras. Os cientistas queformam os quadros permanentes dos observatórios remotos ten-dem a ser os práticos, os experimentalistas, os especialistas quesabem quase tudo a respeito de projetos de antenas e análise dedados, mas muito menos sobre quasares e pulsares. Em termosgerais, não ansiaram pelas estrelas na infância; estavam ocupadosdemais consertando o carburador do carro da família.Depois de obter seu doutorado, Ellie aceitou uma nomeaçãocomo auxiliar de pesquisa no Observatório de Arecibo, um enor-me prato de 307 metros de diâmetro, fixado ao solo de um valecarstenítico nos contrafortes da regiáo noroeste de Porto Rico. Tra-balhando no maior radiotelescópio do planeta, estava ansiosa porutilizar seu detector de maserpara examinar o maior núnero pos-sível de objetos astronômicos - planetas e estrelas próximos, o
  26. 26. centro da galáxia, pulsares e quasares. Na qualidade de membroefetivo do quadro do observatório, caberia a ela uma cota signi-ficativa de tempo de observação. O acesso aos grandes radiote-lescópios é motivo de acirrada competição, pois hâ muito maisprojetos de pesquisa importantes do que disponibilidade de tem-po e instalaçôes. Por conseguinte, a reserva do telescópio aoquadro residente é uma vantagem que não tem preço. Para muitosdos astrônomos, essa é a única razão pela qual se conformam emviver nesses lugares ermos.Além disso, Ellie tinha esperanç a de estudar algumas estrelaspróximas, em busca de possíveis sinais de vida inteligente. Comseu sistema de deteção, seria possível escutar as emissôes derádio de um planeta como a Terra, mesmo que ele estivesse situa-do a alguns anos-luz de distância. E uma sociedade avançada quetivesse a intenção de se comunicar conosco certamente possuiriauma potência de transmissão muito superior à nossa. Se Arecibo,utilizado como telescópio-radar, era capaz de transmitir ummegawatt de potência para um local específico no espaço, umacivilização apenas um pouco mais avançada do que a nossa pode-40ria, pensava Ellie, transmitir uma centena de megawatts ou mais.Se estivessem realizando transmissões intencionais para a Terracom um telescópio das mesmas dimensões do de Arecibo, mascom um transmissor de cem megawatts, Arecibo deveria ser capazde detectá-las em praticamente qualquer lugar da Via Láctea.Quando refletia cuidadosamente sobre a questão da busca deinteligência extraterrestre, Ellie ficava surpresa com a distânciaexistente entre o que poderia ser feito e o que havia sido feito. Osrecursos até então dedicados a isso eram irrisórios, pensava. Noentanto, era-lhe difícil imaginar um problema científico de maiorimportância.Os habitantes do lugar chamavam o radiotelescópio de Areci-bo de "El Radar". De maneira geral, sua função era desconhecida,mas ele proporcionava mais de cem empregos, o que era impor-tantíssimo. As moças do lugar eram mantidas a distância dosastrônomos, alguns dos quais podiam ser vistos a qualquer horado dia ou da noite, cheios de energia nervosa, praticando corridana pista circular em torno do prato. Em conseqüência disso, asatençòes que se concentraram em Ellie quando ela ali chegou,embora não de todo mal recebidas, logo se tornaram um empeci-Iho à sua pesquisa.Era grande a beleza física do lugar. Ao crepúsculo, ela olha-va pelas janelas de controle e via nuvens tempestuosas pairandosobre o outro lado do vale, pouco além de uma das três imensastorres das quais pendiam os pavilhões de alimentação e seurecém-instalado sistema de maser. No alto de cada torre, uma luzvermelha servia de advertência a qualquer avião que por acaso se
  27. 27. houvesse desviado para aquela rota. Às quatro da manhã ela saíaum pouco para respirar ar puro e se esforçava para entender umdenso coro de milhares de sapos terrestres, ali chamados coquis,uma onomatopéia de seu coaxar lamurioso.Alguns astrônomos moravam perto do observatório, mas oisolamento, a que se acresciam o desconhecimento do espanhole a inexperiência com qualquer outra cultura, tendia a fazer comque eles e suas esposas se recolhessem à solidão e ao marasmo.Outros tinham decidido morar na Base Ramey, da Força Aérea,onde havia a única escola da região em que o ensino era mi-nistrado em inglês. Entretanto, o percurso de uma hora e meia41também acentuava a sensação de isolamento. As reiteradas amea-ças por parte de separatistas porto-riquenhos, erroneamenteconvencidos de que o observatório desempenhava algumafunção militar importante, aumentavam ainda mais a impressãode histeria reprimida, de circunstâncias controladas apenas porum fio.Depois de muitos meses, Valerian fez uma visita ao obser-vatório. Ostensivamente, estava ali para proferir uma palestra,mas Ellie sabia que em parte seu objetivo consistia em verificarcomo ela vinha se saindo e proporcionar um simulacro de apoiopsicológico. Suas pesquisas tinham ido muito bem. Ela haviadescoberto o que parecia ser um novo complexo de nuvens mo-leculares interestelares e obtivera alguns dados excelentes sobreo pulsar no centro da nebulosa de Câncer. Tinha até mesmocompletado a mais rigorosa pesquisa já realizada em busca desinais provenientes de algumas dezenas de estrelas próximas,mas sem nenhum resultado positivo. Constatara uma ou duasregularidades suspeitas. Observara novamente as estrelas emquestão, mas nada encontrara de extraordinário. Quando seobserva um número suficiente de estrelas, cedo ou tarde a inter-ferência terrestre ou a concatenação de ruídos aleatórios produzuma configuração que por um momento faz o coração palpitar.O observador se acalma e realiza nova investigação; se a situa-ção não serepete, considera a espúria. Tal disciplina era essen-cial para que Ellie preservasse algum equilíbrio emocional comrelação ao que estava procurando. Estava resolvida a ser tãoobjetiva quanto possível, sem perder o senso de deslumbra-mento que a levara até ali.Com o pouco que tinha no refrigerador comunitário, ela ha-via preparado um lanche simples de piquenique, e Valerian sesentou a seu lado na beirada do prato do telescópio. A distância,viam-se trabalhadores consertando ou substituindo painéis, calça-dos com um tipo especial de sapatos de neve para não rasgaremas lâminas de alumínio e caírem no solo lá embaixo. Valerian esta-va feliz com os resultados que Ellie havia obtido. Trocaram ame-
  28. 28. nidades, falaram sobre colegas e novidades científicas. A conver-sa encaminhou-se para a PIEr, sigla que começava a ser usada paradesignar a pesquisa de inteligência extraterrestre.42"Já pensou em trabalhar nisso em regime de tempo integral,Ellie?", perguntou Valerian."Não tenho pensado muito nisso. Mas, na realidade, não éviável, não é mesmo? Ao que eu saiba, não existe em todo o mun-do uma só instalação de grande porte dedicada à PIET em tempointegral.""Não, mas pode vir a existir. Há uma possibilidade de quedezenas de pratos adicionais venham a ser acrescentados à Gran-de Bateria, e com isso ela se tornaria um observatório especial paraa PrET. Teriam de realizar alguma coísa de radioastronomia con-vencional também, é claro. Seria um interferômetro excelente. Éapenas uma possibilidade, é claro, depende de haver um ínteressepolítico efetivo e, na melhor das hipóteses, só se concretizarádaqui a alguns anos. Mas vale a pena pensar no assunto.""Peter, acabei de examinar umas quarenta e poucas estrelaspróximas, mais ou menos do mesmo tipo espectral do Sol. Usei alinha de hidrogênio de 21 centímetros, que todo mundo diz ser afreqüência óbvia, uma vez que o hidrogênio é o elemento maiscomum no universo e assim por diante. E fiz isso com o instru-mental e os critérios mais precisos já utilizados. Não houve nemsombra de sinal. Talvez não haja ninguém lá. Talvez tudo isso sejaperda de tempo.""Como vida em Vênus? Essas palavras sào ditadas pelo desa-pantamentcz Vênus é um pontinho perdido no universo. É ape-nas um planeta. Entretanto, existem bilhões de estrelas na galá-xia. Você examinou somente um punhado delas. Não acha que éum pouco cedo para desístir? Você solucionou apenas um bi-lionésimo do problema. Provavelmente muito menos do que isso,se levar em conta as outras freqüências.""Eu sei, eu sei. Mas você não tem a sensação de que, se elesexistem em alguma parte, existem por toda parte? Se sujeitos real-mente avançados vivem a mil anos-luz de distância, por que nãodisporiam de um posto avançado em nosso quintal? Você sabemuito bem que poderia trabalhar na ITE eternamente sem jamaisse convencer de ter completado a pesquisa.""Você está começando a falar igual a Dave Drumlin. Se nãopudermos localizá-los durante a vida dele, Drumlin não está inte-ressado. Estamos apenas começando a hIET. trocê sabe quantas43possibilidades existem. Este é o momento de deixarmos todasas possibilidades em aberto. Este é o momento de sermos otimis-tas. Se vivêssemos em qualquer época anterior da história huma-na, poderíamos pensar a respeito disso durante toda a nossa vida
  29. 29. sem podermos fazer absolutamente nada para encontrar a respos-ta. Entretanto, vivemos numa época diferente. Esta é a primeiravez em que alguém dispõe da possibilidade de procurar inteligên-cia extraterrestre. Você construiu o detector capaz de procurar ci-vilizações nos planetas de milhões de outras estrelas. Ninguémestá garantindo sucesso. Mas você é capaz de imaginar algumaquestão mais importante do que essa? Imagine que eles estejamlá, enviando sinais para nós, e que ninguém na Terra esteja escu-tando. Isso seria uma brincadeira de mau gosto, uma coisagrotesca. Você não teria vergonha de nossa civilização se, sendocapazes de prestar atençào, nós não nos dispuséssemos a isso?"Duzentas e cinqüenta e seis imagens do lado esquerdo domundo passaram pela esquerda. Duzentas e cinqüenta e seis ima-gens do lado direito do mundo passaram pela direita. Ela integroutodas as 512 imagens num mosaico da área que a cercava. Estavaimersa numa floresta de grandes lâminas ondulantes, algumasverdes, outras estioladas, quase todas maiores do que ela. Entre-tanto, não tinha dificuldade de escalá-las e descer do outro lado,às vezes balançando-se precariamente sobre uma lâmina inclina-da, caindo sobre a almofada macia formada por lâminas horizon-tais, embaixo, e depois seguindo adiante sem vacilar. Sabia queestava seguindo sua trilha em linha reta. Era uma trilha sedutora-mente nova. Se realmente levava ao que ela pensava, não lhe cus-taria nada escalar um obstáculo cem ou mil vezes mais alto. Nãoprecisava de ganchos ou cordas; a natureza a equipara para aqui-lo. O chão à sua frente exalava um odor que fora deixado ali haviapouco, decerto por outro batedor do seu clã. A trilha levaria a ali-mento; quase sempre isso acontecia. O alimento apareceria es-pontaneamente. Os batedores o localizavam e marcavam a trilha. Elae suas companheiras o traziam. Às vezes o alimento era umacriatura parecida com ela; às vezes era um grumo amorfo oucristalino. De vez em quando era tão grande que exigia o traba-44lho de muitas de seu clã a fim de transportã-lo para casa, carre-gando-o e o empurrando sobre as lâminas dobradas. Ela estalouas mandíbulas, na expectativa."O que mais me preocupa", prosseguiu Ellie, "é o contrário,a possibilidade de que eles não estejam tentando. Poderiamcomunicar-se conosco, tudo bem, mas não o fazem porque nãovêem nenhum sentido nisso. É como..." Ellie olhou para a beira-da da toalha que haviam estendido sobre a grama. "...como asformigas. Elas ocupam o mesmo espaço que nós. Têm muito oque fazer, coisas com que se ocuparem. Num determinado nível,têm plena percepção do ambiente em que se acham. Mas nós nãotentamos nos comunicar com elas. Por isso, não creio que elas te-nham a mais remota idéia de que existimos."
  30. 30. Uma formiga grande, mais ativa que suas companheiras,havia subido para cima da toalha e seguia resolutamente ao lon-go da diagonal de um dos quadrados vermelhos e brancos. Supri-mindo uma leve pontada de asco, Ellie deu-lhe um piparote quea mandou de volta ã grama - onde era seu lugar.453RUÍDO BRANCODoces são as melodias que se ouvem; mas as nãoouvidas são ainda mais doces.John Keats, "Ode sobre uma urna grega" (1820)As mais cruéis mentiras são, muitas vezes, ditasem silêncio.Robert Louis Stevenson, Virginibuspuerisque(1881)Os pulsos vinham percorrendo, havia anos, o imensurávelabismo entre as estrelas. Vez por outra, interceptavam umanuvem irregulardegás epoeira, e um pouco da energia eraabsoruida ou dispersada. O restante prosseguia na direçãooriginal. À frente deles havia um débil fulgor amarelado,cujo brilho aumentava aos poucos entre as demais luzesinflexíveis. Ainda que para olhos humanos não passasse deum ponto, era o objeto mais brilhante no espaço negro. Ospulsos estavam encontrando um enxame de gigantescasbolas de neve.Uma mulher esbelta, em seus trinta e tantos anos, entrou noedifício administrativo do Programa Argus. Os olhos, grandes ebem separados, suavizavam a estrutura óssea angulosa de seu ros-to. Os cabelos escuros e compridos estavam presos na nuca poruma fivela de tartaruga. Vestida com blusa de linha e saia cáqui,seguiu por um corredor no primeiro andar e entrou por uma por-46ta na qual se lia "E. Arroway, diretora". No momento em queretirou o polegar da fechadura dactiloscópica, um observadoratento poderia ter reparado em sua mão direita um anel com umapedra vermelha, estranhamente leitosa, engastada de maneiraamadorística. Depois de acender uma lâmpada de mesa, elaprocurou numa gaveta, dela tirando finalmente um par de fonesde ouvido. Ao lado de sua mesa, mal iluminada, havia uma citaçãodas Parábolas de Franz Kafka:Possuem as Sereias arma ainda maisfatalqueseucanto: osilêncio...É concehível que alguém possa ter escapadoàs suas canções;mas de seu silêncio, decerto jamais.Apagando a lâmpada com um movimento da mão, ela caminhoupara a porta na semi-obscuridade.
  31. 31. Na sala de controle, verificou rapidamente que tudo estavaem ordem. Pela janela, podia ver alguns dos 131 radiotelescópiosque se estendiam por dezenas de quilômetros no deserto doNovo México, como uma estranha espécie de flor mecânica volta-da para o céu. Passava pouco do meio-dia e ela ficara acordadaaté tarde na noite anterior. A radioastronomia pode ser realizadadurante o dia, pois o ar não dispersa as ondas de rádio prove-nientes do Sol, como faz com a luz visível. Para um radiotelescó-pió apontado para qualquer parte do firmamento, a não ser paramuito perto do Sol, o céu é negro como breu. Ele capta apenas asfontes de radio.Do outro lado da atmosfera terrestre, do outro lado do céu,há um universo fervilhante de radioemissão. Estudando as ondasde rádio, pode-se aprender sobre os planetas, as estrelas e asgaláxias, sobre a composição das grandes nuvens de moléculasorgânicas que vagueiam entre as estrelas, sobre a origem, aevolução e o destino do universo. Entretanto, todas essas emis-sões de rádio são naturais - são causadas por processos físicos,por elétrons que giram no campo magnético interestelar, pormoléculas que colidem umas com as outras ou ainda pelos ecosremotos da Grande Explosão, desviados para o vermelho -, des-de os raios gama da origem do universo até as dóceis e gélidasondas de rádio que preenchem todo o espaço em nossa época.47Durante as poucas décadas em que os seres humanos vinhampraticando a radioastronomia, nunca se recebera um sinal ver-dadeiro das profundezas do espaço, alguma coisa fabricada, arti-ficial, construída por uma mente diferente da nossa. Já houveraalarmes falsos. A variação regular, no tempo, da radioemissão dosiquasares e, principalmente, dos pulsares havia sido a princípioconsiderada - de maneira tímida, temerosa - uma espécie desinal emitido por outros seres, ou talvez um farol de radionave-gação para naves exóticas que singrassem os espaços entre asestrelas. No entanto, descobrira-se que eram outra coisa - tãoexôtica, quem sabe, como sinais de seres pensantes no céu estre-lado. Os quasares pareciam ser tremendas fontes de energia, talvezrelacionadas a colossais buracos negros nos centros de galáxias, emuitos deles remontavam a mais da metade do tempo de existên-cia do universo. Os pulsares são núcleos atômicos, em rápidarotação, do tamanho de uma cidade. E houvera ainda outrasmensagens, substanciosas e enigmáticas, que com efeito eraminteligentes, mas não muito extraterrestres. Os céus estavam ago-ra pontilhados de secretos sistemas militares de radar e satélites decomunicação que se achavam fora do alcance da grande maioriados radioastrônomos civis. Às vezes se comportavam como ver-dadeiros bandidos, náo atentando para os acordos internacionais
  32. 32. de telecomunicações. Não existiam apelações nem punições. Devez em quando, todas as nações negavam responsabilidade. Masnunca houvera um sinal genuíno emitido por extraterrestres.E no entanto a origem da vida parecia agora ser de explicaçãotão fácil - e existiam tantos sistemas planetários, tantos mundose tantos bilhões de anos disponíveis para a evolução biológica -que era difícil acreditar que a vida e a inteligência não pululassemna galáxia. O Projeto Argus era a maior instalação, em todo o mun-do, devotada à pesquisa de inteligência extraterrestre através dorádio. As ondas de rádio viajavam à velocidade da luz, que pare-cia ser a velocidade máxima possível no universo. Eram fáceis deser geradas e detectadas. Até mesmo civilizações tecnológicasmuito atrasadas, como a da Terra, deviam tropeçar no rádio logono início da exploração do mundo físico. Mesmo com a rudimen-tar tecnologia de rádio disponível - fazia somente algumasdécadas que fora inventado o radiotelescópio -, era possível a48comunicação com uma civilização idêntica no centro da galáxia.Contudo, tantos eram os lugares no céu a serem examinados, etantas as freqüências em que uma civilização extraterrestre pode-ria estar transmitindo, que se fazia necessário um programapaciente e sistemático de observação. Fazia mais de quatro anosque o Projeto Argus funcionava a pleno vapor. Tinha havidodefeitos de instrumentação, brincadeiras, rebates falsos, espe-ranças. Mas nada de mensagens."Boa tarde, dra. Arroway."O engenheiro sorriu-lhe amistosamente, e ela respondeucom um aceno. Todos os 131 telescópios do Projeto Argus eramcontrolados por computadores. Por si só, o sistema varria lenta-mente o céu, verificando se não havia defeitos mecânicos oueletrônicos, comparando os dados fornecidos por diferentes ele-mentos da bateria de telescópios. A dra. Arroway dirigiu o olharpara o analista de um bilhão de canais, um banco de circuitosehtrônicos que cobria toda uma parede, e para a imagem visualdo espectrômetro.Na verdade, não sobrava para os astrônomos e técnicos muitoo que fazer enquanto o conjunto de telescópios varria vagarosa-mente o céu, ano após ano. Se detectava alguma coisa de interesse,automaticamente fazia soar um alarme, chamando os cientistas denoite em suas camas, se houvesse necessidade. Se isso acontecia,a dra. Arroway se apressava a determinar se a causa era alguma fa-lha de instrumentos ou uma engenhoca espacial americana ousoviética. Ao lado dos engenheiros, imaginava meios de melhorara sensibilidade do equipamento. Havia alguma configuração cons-tante, alguma regularidade na emissão? Ela desviava alguns dosradiotelescópios para o exame de objetos astronômicos exóticos,descobertos recentemente por outros observatórios. Ajudava os
  33. 33. integrantes do quadro e os visitantes em projetos não relacionadoscom a IET. Viajava a Washington a fim de fazer com que o órgãoque lhe fornecia verbas, a Fundação Nacional de Ciências, se man-tivesse interessado. Dava algumas palestras públicas sobre o Pro-jeto Argus - no Rotary Club de Socorro ou na Universidade doNovo México, em Albuquerque -, e de vez em quando recebia49um jornalista diligente que chegava, muitas vezes sem ser anuncia-do, àqueles confins do Novo México.Ellie tinha de tomar cuidado para não ser tragada pelo tédio.Seus colegas de trabalho eram simpáticos, mas-mesmo excluin-do-se a impropriedade de uma estreita relação pessoal com umprofissional que nominalmente lhe estava subordinado-ela nãose sentia atraída a estabelecer verdadeiras ligações afetivas. Hou-vera alguns relacionamentos breves, ardentes porém passageiros,com homens do lugar, não ligados ao Argus. Também nessa áreade sua vida, uma espécie de cansaço, de lassidão, a invadira.Sentou-se diante de uma das mesas e colocou os fones deouvido. Era futilidade e presunção, sabia, imaginar que ela, ope-rando em um ou dois canais, fosse detectar uma configuração seo vasto sistema de computaçáo, que monitorava um bilhão decanais, não o fizera. No entanto, isso lhe proporcionava a modes-ta ilusão de ser útil. Recostou-se, com os olhos semicerrados euma expressão quase sonhadora envolvendo-lhe os contornos dorosto. Ela é realmente linda, o técnico permitiu-se pensar.Como de hábito, Ellie ouviu uma espécie de estática, um con-tínuo ruído aleatório ressonante. Certa vez, enquanto escutavauma parte do céu que incluía a estrela Ac + 79 3gg, em Cassiopéia,tivera a impressão de ouvir uma espécie de canto sedutor, quesumia e voltava, mas que não chegou a convencê-la de que hou-vesse realmente alguma coisa ali. Era rumo àquela estrela que anave voyagerl, então na vizinhança da órbita de Netuno, acabariapor seguir. A nave transportava um disco fonõgráfico de ouro, noqual estavam registradas saudações, fotografias e canções da Ter-ra. Estariam eles, porventura, enviando-nos seus cantos à veloci-dade da luz, enquanto nós lhes mandávamos os nossos com ummilésimo dessa velocidade? Em outros momentos, como agora,quando a estática patentemente carecia de regularidade, ela recor-dava o famoso axioma de Shannon sobre a teoria da informação:a mensagem codificada de maneira mais eficiente era indistin-guível do ruído se o receptor não dispusesse, de antemão, da chavepara a decodificação. Rapidamente, ela mexeu em alguns botõesna mesa à sua frente, cotejando entre si duas das freqüências debanda estreita. Nada. Prestou atenção aos dois planos de polariza-ção das ondas de rádio, e depois ao contraste entre a polarização50linear e a circular. Havia um bilhão de canais entre os quais esco-
  34. 34. lher. Poder-se-ia passar a vida toda tentando competir com o com-putador, escutando com os ouvidos e o cérebro humanos, pateti-camente limitados, em busca de uma regularidade.Os seres humanos estão bem equipados, ela sabia, para dis-cernir regularidades sutis que realmente existem; mas tendemtambém a imaginá-las onde se acham inteiramente ausentes.Sobrevínha às vezes uma ou outra seqüência de pulsos, como sea estática ganhasse forma, que por um instante produziam um rit-mo sincopado ou uma breve melodia. Ellie comutou para um parde radiotelescópios orientados para uma conhecida fonte galácti-ca de rádío. Ouviu um glissando descendente nas radiofreqüên-cias, um "assovio" em razão da dispersão das ondas de rádio porelétrons no tênue gás interestelar entre a fonte de rádio e a Terra.Quanto mais pronunciado era o glissando, mais elétrons se inter-punham e mais distante estava a fonte da Terra. Ela havia feito issocom tamanha freqüência que, só por ouvir um desses silvos pelaprimeira vez, era capaz de fazer uma avaliação exata de sua dis-tância. Aquela, calculou, devia localizar-se a aproximadamentemil anos-luz - muito além do aglomerado de estrelas próximas,mas ainda perfeitamente dentro dos limites da grande galáxia daVia Láctea.Ellie retornou à modalidade de varredura celeste do ProjetoArgus. Nenhuma regularidade. Era como se um músico prestasseatenção ao ronco de uma tormenta distante. Os ocasionais reta-lhos de regularidade a atormentavam e se intrometiam em suamemória com tanta insistêncía que às vezes ela era forçada arecorrer às fitas gravadas de determinada observação a fim de con-ferir se havia alguma coisa que seu cérebro tivesse captado e quepassara despercebida aos computadores.Durante toda a sua vida, os sonhos tinham sido seus amigos.Em geral eram sonhos pormenorizados, bhem estruturados, vívi-dos. Ela via bem de perto o rosto do pai ou a parte traseira de umvelho receptor de rádio, e o sonho lhe oferecia pormenoresvisuais completos. Sempre fora capaz de recordar seus sonhos, atéas menores minúcias, a não ser sob pressão extrema, como antesde fazer a exposição oral de sua tese de doutorado ou quando elae Jesse estavam se separando. Agora, entretanto, enfrentava difi-51culdades para relembrar as imagens de seus sonhos. E, descon-certantemente, começou a sonhar com sons, como as pessoascegas de nascença. Nas primeiras horas da manhã seu incons-ciente gerava um tema ou cantilena que ela nunca havia escuta-do. Ellie acordava, dava uma ordem audível à luz em sua mesi-nha-de-cabeceira, pegava a caneta deixada ali de propósito,riscava um pentagrama e anotava a melodia no papel. De quandoem vez, após um estafante dia de trabalho, ela a reproduzia nogravador e se punha a imaginar se a teria ouvido em Ofiúco ou em
  35. 35. Capricórnio. Pesarosamente, admitia para si mesma que estavasendo perseguida pelos elétrons e pelos buracos móveis quehabitam os sintonizadores e os amplificadores, bem como pelaspartículas carregadas e pelos campos magnéticos do frio e tênuegás entre as estrelas que cintilam a distância.Era uma nota única, reiterada, aguda e áspera em suas bor-das. Levou um momento para reconhecê-la. A seguir, teve certezade que fazia 35 anos que não a escutava. Era a polia metálica dovaral, que rangia a cada vez que sua mãe dava um puxão e pu-nha outro avental recém-lavado para secar ao sol. Quando meni-na, adorava ver aquele batalhão de prendedores de roupas emmarcha; e quando não havia ninguém por perto, enterrava o ros-to nos lençóis que tinham acabado de secar. O cheiro, a um sótempo doce e cáustico, a encantava. Estaria agora sentindo umaexalação daquele odor? Lembrou-se de si mesma rindo, afastan-do-se dos lençóis em passos vacilantes, enquanto a mãe, com ummovimento gracioso, a erguia - até o céu, parecia - e a car-regava dali na dobra do braço, como se ela própria fosse umatrouxinha de roupas a serem arrumadas com capricho na cômodado quarto dos pais."Dra. Arroway? Dra. Arroway?" O técnico olhava para suaspálpebras trêmulas e lhe observava a respiração leve. Ellie piscouduas vezes, retirou os fones e lhe dirigiu um sorriso de desculpa.Às vezes seus colegas tinham de falar muito alto para serem ouvi-dos, por causa do ruído amplificado das emissões cósmicas. Porsua vez, ela compensava o volume do ruído - detestava removeros fones de ouvido para conversas breves - gritando também.52Quando se achava suficientemente preocupada, uma casual tro-ca de amenidades pareceria a um observador inexperiente o frag-mento de uma discussão feroz e imotivada que houvesse surgidoinesperadamente no silêncio do vasto radiobservatório. Agora,entretanto, ela disse apenas: "Desculpe. Acho que cochilei"."O dr. Drumlin está ao telefone. Está no escritório de Jack edisse que tem um encontro marcado com a senhora.""Santo Deus, esqueci."Com o passar dos anos, o brilhantismo do dr. Drumlin per-manecera inabalável, mas nele se notavam várias idiossincrasiasnão demonstradas quando Ellie fora orientada por ele, durantealgum tempo, na Cal Tech. Por exemplo, ele adquirira agora o há-bito embaraçoso de verificar, quando não se julgava observado,se estava com a braguilha aberta. À medida que passava o tempo,ele se tornava cada vez mais convicto de que os extraterrestres nãoexistiam, ou ao menos que eram demasiado raros ou se achavamdistantes demais para serem detectados. Tinha vindo ao Argus afim de proferir a palestra científica semanal. Ellie, porém, desco-briu que sua visita tinha também outra finalidade. Drumlin es-
  36. 36. crevera uma carta à Fundação Nacional de Ciências, na qual reco-mendava que o Argus interrompesse sua pesquisa de inteligênciaextraterrestre e se dedicasse em tempo integral a uma radioas-tronomia mais convencional. Tirou-a de um bolso interno e insis-tiu com Ellie para que a lesse."Mas só estamos trabalhando nisso há quatro anos e meio.Examinan,os menos de um terço do céu setentrional. Este é oprimeiro levantamento capaz de estudar todo o mínimo de ruídode rádio nos comprimentos de banda ideais. Por que haveríamosde parar agora?""Não, Ellie, isso é interminável. Daqui a doze anos você con-tinuará sem encontrar sinal algum. Você argumentará então queum outro observatório Argus tem de ser construído, a um custo decentenas de milhões de dólares, na Austrália ou na Argentina, afim de observar o céu meridional. E, quando isso fracassar, vocêhá de falar na construção de um parabolóide com um alimentadorem queda livre, em órbita terrestre, a fim de captar ondas mi-limétricas. Você sempre será capaz de imaginar algum tipo deobservação que não tenha sido realizado. Sempre inventará uma53explicação para o fato de os extraterrestres gostarem de transmi-tir em algum lugar onde não olhamos.""Ah, Dave, já discutimos isso centenas de vezes. Se fracas-sarmos, teremos aprendido alguma coisa sobre a raridade da vidainteligente... ou pelo menos da vida inteligente que pensa comonós e deseja comunicar-se com civilizações atrasadas como a nos-sa. E, se tivermos êxito, tiramos a sorte grande. Não se pode ima-ginar descoberta mais importante.""Há projetos de primeira linha para os quais não existe dis-ponibilidade de observatórios. Muita gente está estudando aevolução dos quasares, os pulsares binários, as cromosferas deestrelas próximas e até aquelas loucas proteínas interestelares.Esses projetos estão esperando na fila porque este observatórioaqui, que é o mais completo do mundo, está sendo utilizado quasesó para a IET.""Setenta e cinco por cento para a IET, Dave, e 25 por centopara a radioastronomia de rotina.""Não diga que é de rotina. Temospossibilidade de pesquisara época em que as galáxias sè formavam, ou talvez uma épocabem anterior. Podemos examinar os núcleos de nuvens molecu-lares gigantes e os buracos negros nos centros das galáxias. Esta-mos na iminência de uma revolução na astronomia, e você estáatrapalhando.""Dave, procure não levar as coisas para o lado pessoal. Senão existisse apoio público para a IET, o Argus nunca teria sidoconstruído. A idéia do Argus não foi minha. Você sabe que meescolheram como diretora quando os últimos quarenta pratos

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