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Guache Marques

   ENTREVISTAS
  Correio da Bahia - 2003
  Portal Cyberartes - 2005
  Canal Assembléia - 2011
DEPOIMENTO PARA CATÁLOGO | SALVADOR 450 ANOS
Guache Marques



Nascido em Feira de Santana, Salvador foi a cidade que escolhi para morar,
fascinado por sua beleza geográfica, seus encantos e seus aspectos culturais.
Desde o tempo da Escola de Belas Artes até hoje, são 35 anos dedicados à arte e
aos prazeres de uma capital que acolhe bem a todos aqueles que nela buscam
inspiração. Aqui se respira africanidade e, assim como muitos outros artistas,
reconheço o alcance universal dessa cultura. Por isso, na fase atual, o meu
trabalho tem se voltado para a interpretação dos signos afro, ressaltando o seu
lado mágico-simbólico. A intenção é ir além da simples representação, procurando
passar nas pinturas atuais, de texturas e cores vibrantes, toda a aura de magia e
mistério que me servem de inspiração, numa leitura contemporânea.




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REPORTAGENS, ENTREVISTAS
agosto de 2011
ENTREVISTAS
Correio da Bahia - 2003
Portal Cyberartes - 2005
Canal Assembléia - 2011
Entrevista para o
                                       Correio da Bahia
                                       Justino Marinho (Artista Plástico e Crítico de Arte / ABCA)



                                       “AFRICAE | 2003”
                                       EXPOSIÇÃO ITINERANTE
                                       Projeto ARTE/SOFITEL
                                       da Galeria Prova do Artista
                                       Salvador Bahia
                                       Hotel Sofitel Salvador
                                       Hotel Sofitel Rio de Janeiro
                                       Hotel Sofitel Costa do Sauípe




Justino - O que você vai mostrar nesta exposição?
Guache Marques - Nesta mostra individual preparei 20 novas pinturas, em diversos
formatos tendo como tema auto-sugerido a influência africana na arte e na cultura baiana.
Denominei “AFRICAE” que significa o termo genitivo de África-mãe. São signos, emblemas
e ferramentas de orixás estilizados, trabalhados com cores vibrantes evocando os ritos
afro e sua magia. Uma exposição que remete à ancestralidade e suas interlocuções com
as diferentes épocas e movimentos, do tradicional ao contemporâneo. Revisito assim o
sagrado e o profano, os contatos entre Brasil e África.
Desde 1994 que venho fazendo um trabalho voltado para esta temática com várias
exposições realizadas daí o convite da Galeria PROVA DO ARTISTA para realizá-la como
parte do Projeto Arte Sofitel desenvolvido pela mesma. Será realizada no dia 18 de março
de 2005, sexta-feira, no HOTEL SOFITEL / SALVADOR às 19 horas e ficará todo o mês de
março. A mesma exposição seguirá para o SOFITEL do Rio de Janeiro com mais alguns
trabalhos com data prevista para abertura em 15 de junho de 2005 e, posteriormente, será
exposta em Costa do Sauípe também no Hotel Sofitel.
Justino - Como surgiram essas influências africanas no seu trabalho?
Guache Marques - Naturalmente. Através da observação das obras de mestres que se
dedicavam ao tema, no período que frequentei a Escola de Belas Artes da UFBa como
aluno; da experiência como professor das oficinas do MAM ao fazer litogravuras em que já
era clara essa abordagem, e também pelo fato de ser morador de uma cidade, em sua
maioria de descendência negra, onde essa cultura é bastante difundida e valorizada.
Sempre me identifiquei com a Bahia, desde o ingresso no curso da EBA e essa identidade
sempre acompanhou a minha obra. Creio serem estas algumas das razões que foram
suficientes para buscar essa referência na minha pintura. Assim como assinalou em um
texto sobre meu trabalho o poeta e crítico de arte Claudius Portugal quando diz que:
“Guache reinterpreta uma cultura que nenhum de nós, aqui vivendo, podemos evitar em
nossas vidas, quanto mais em nosso imaginário”. Penso mesmo que “vivendo numa
cidade como Salvador onde a presença da cultura e da etnia africana é encontrada em
toda esquina em suas danças, ritos, cores e magia, traduzida numa arte de símbolos e
signos vigorosa como é a nossa, eu não poderia deixar de me tocar com a abrangência
dessa observação no meu imaginário”. Creio que todo artista baiano, consciente dessa
realidade e sintonizado com o seu tempo, é tocado por esse cotidiano. É, a partir dessa
ligação, atento aos costumes e cultura de um povo e com olhos pra enxergar o mundo a
partir da sua própria aldeia, que o artista se torna universal na sua busca.
Olhando um pouco para trás, encontro em trabalhos de outras fases os elementos que
vieram dar na interpretação contemporânea dessa simbologia. Já fiz em desenhos,
xilogravuras e litogravuras, como aluno e depois como professor das Oficinas de Arte em
Série do MAMBa na década de 80, trabalhos com essa temática. Mesmo as figuras dos
meus primeiros desenhos a pastel e lápis na Escola de Belas Artes da Ufba apontavam
para a necessidade de fazer uma releitura contemporânea dos signos e emblemas dessa
africanidade dispersos aqui e ali na minha obra. O que faço é observar o cotidiano ao meu
redor e transpor para as pinturas atuais esse material “coletado”.

Justino - Todos os trabalhos foram feitos especificamente para esta exposição?
Guache Marques – Não. Por questões de adaptação ao espaço da mostra, vou também
expor trabalhos de grandes formatos que fizeram parte da sala especial no Conjunto
Cultural da Caixa por ocasião do V Mercado Cultural em dezembro de 2003. Esses
trabalhos, em seu conjunto, foram premiados pela UNESCO com o Prêmio de Fomento
das Artes, criado para premiar novos artistas na América Latina.
Justino - Como é a experiência de tratar de um tema tão explorado e na maioria das
vezes, de forma equivocada?
Guache Marques – Embora tenha me dedicado a esse trabalho já há algum tempo, me
incomoda a idéia de ser estigmatizado apenas por essa poética afro, justamente por isso
que você diz: de ser um tema bastante explorado, pois já passei por outras fases.
Mas defendo aqueles que dela se aproximam assim como tenho feito. As pessoas
desconhecem que existe uma tradição e, como assinalou o saudoso poeta Ildásio Tavares
num texto sobre meu trabalho: “...cumpre conhecer os seus signos”. Temos visto grandes
artistas se apropriarem do tema e outros o banalizarem com leituras equivocadas. Até
mesmo, folclóricas. Felizmente são poucos e estes se preocupam apenas em fazer
trabalhos pra turista ver e comprar. Mas, convenhamos, em todo tema acontecem essas
diluições, sempre em nome de qualquer coisa, menos da arte. Até mesmo as instalações
modernas se ressentem desse equívoco. Vemos nos salões e bienais por aí afora
arremedos de arte feitos em nome da contemporaneidade. Um prosaico alfinete fincado na
parede e lá está a grande obra, escolhida entre centenas de outras a querer nos dizer que
não passamos de meros e passivos espectadores, estupefactos com os caminhos do
espetáculo e da banalização que a arte tem tomado nos últimos tempos. Uma lástima e
um retrocesso quando se diz que qualquer um pode ser artista. Janela escancarada pra
um bando que não sabe nada e atira a esmo, aproveitando a porra-louquice do momento.
Todo mundo agora é videomaker, com resultados pífios. Felizmente, como toda regra tem
exceções, vemos nesses mesmos salões alguns artistas baianos sobressaírem-se
provando que o que importa mesmo é a “excelência” daquilo que se faz. Em outro
período, tive uma preocupação social com os desígnios do homem contemporâneo, suas
vicissitudes, em desenhos e gravuras das décadas de 70 e 80, mas, esta fase passou
momentaneamente dando lugar à pintura.
Penso com isso que nada é definitivo e, futuramente, posso me voltar para novos
questionamentos, outras poéticas.

Justino - No seu trabalho a cor sempre foi muito predominante. Nestas últimas obras,
parece que você está exercendo alguma restrição à grande profusão de cores. Isso é
uma coisa consciente, proposital?
Guache Marques – A cor para mim é vibração e no meu trabalho já é quase uma “marca”
junto com a textura cavada no gesso que consigo com a utilização de diversos materiais
como goivas, esponjas, cabos do próprio pincel, tudo com o intuito de conseguir texturas.
Na técnica em acrílica que realizo, com aplicação de massa acrílica, pigmentos e veladuras
sucessivas de tinta, busco uma proximidade com o tema da exposição, e isto me deixou
inteiramente à vontade para usar cores fortes. Mas “maneirei” um pouco e usei uma quase
monocromia com predominância de amarelos e ocres. A intenção é limpar mais o trabalho
no futuro, aproximar mais, dar um ‘close’. Como dizem os críticos: arte é síntese.
Série Arquétipos e Arquetípicos.
                           Um olhar sobre as idiosincrasias humanas, 1982
Lápis grafite, nanquim, lápis de cor e tinta acrílica sobre papel fotográfico “N”
                                        Dimensões da foto original: 70 x 90 cm
Justino - O que é mais importante passar para o público: uma simbologia ou a vibração
de um colorido que remete às origens africanas?
Guache Marques – As duas coisas adquirem, a meu ver, o mesmo peso. Como você
mesmo diz: o colorido intenso remete à nossa matriz de origem africana, mas, o que,
realmente, me atrai é traduzir através da forma, a estilização dessa simbologia como fez o
mestre Rubem Valentim, guardando-se aí a enorme distância que nos separa, é claro.
Essa é, modestamente, a minha busca. Cor e forma se misturam e daí é que nasce o signo,
cavado à exaustão nos relevos da pintura.
O crítico de arte e artista plástico Caius Marcellus, é esclarecedor quando fala sobre estes
signos na minha obra: “É claro que não se pode ignorar a presença dos signos pintados –
estão aí simplesmente e, ademais, traçados com um vigor e uma clareza que preservam
prontamente reconhecível a sua procedência. Restam, entretanto, formalmente depurados,
não mais atrelados ao contexto original do qual foram arrancados. Do símbolo emotivo só
vestígios subsistem: a abstração os esteriliza; dir-se-ia que tal símbolo é o objeto a ser
consumido, e então a operação pictórica consiste em fazê-lo recuar”.
Portanto, cor e forma caminham de mãos dadas nessa minha pintura. Uma não viveria sem a
outra nessa exposição e juntas, dão o toque de magia e mistério tão próprias das nossas
manifestações religiosas e populares.

Justino - Na verdade as pessoas reduzem a África a alguns poucos símbolos de assimila-
ção mais fácil ou a figuras humanas caracterizadas como orixás. Você esteve preocupado
em buscar um conhecimento mais profundo nesse continente tão cheio de contradições?
Guache Marques – Tal é a importância dentro do contexto artístico brasileiro da arte africana,
que se criou recentemente o Museu Afro-Brasileiro em São Paulo, com curadoria do artista
plástico baiano Emanoel Araújo, para mostrar e catalogar a infinidade de peças que formam
um vasto acervo para futuras gerações e aqui, na Bahia, temos vários museus que se
ocupam em mostrar a nossa descendência cultural e religiosa. Temos a Casa do Benin, a
Casa de Angola, o Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira – MUNCAB, Museu Afro-
Brasileiro da Universidade Federal da Bahia, enfim.
Dentro de toda a iconografia e simbologia da arte africana temos a representação de vários
elementos. O artista tem apenas que se inspirar e a partir deste conteúdo elaborar a sua obra
única. Se assim não fosse, seria difícil termos a maravilhosa síntese emblemática de um
Rubem Valentim ou a força criativa das esculturas monumentais dos Exus de Mário Cravo
em Pituaçu, a magnífica abordagem ritualística do tema em Mestre Didi, a excelência técnica
de um Juarez Paraiso, e ainda o Emanoel Araujo, só para citar apenas os maiores.
Nessa mostra continuo fazendo os signos e ferramentas de orixás estilizadas de outras
mostras, onde se respira africanidade e baianidade, reconhecendo assim o alcance universal
dessa cultura, e entendendo que todo artista que aspira desvendar a autêntica natureza das
coisas tem que buscar as suas raízes.
Justino - A figura humana não passa mais pelo seu trabalho?
Guache Marques – Nessa fase, até agora, não senti a necessidade de usar a figura
humana. Posso até pensar nessa possibilidade futuramente o que é perfeitamente viável.
Mesmo porque sempre usei a figura humana em outras fases e numa delas cheguei a
extrapolar para estereótipos e simulacros da figura, numa abstração figurativa, através do
desenho esboçado a partir da observação fortuita da fotografia da silhuetas de peixes
secos, encontrados nas feiras livres. Tudo para passar aquilo que me predispunha a fazer
na época que era dar uma visão distorcida do ser humano, revelando os seus arquétipos,
num mundo competitivo e desigual com uma clara inspiração Baconiana.

Justino - Você costuma dar nomes a cada obra ou prefere fazer uma referência ao
conjunto?
Guache Marques – Para esta exposição dei títulos a cada obra, porém acho melhor colo-
car um título da série no conjunto de obras, dar um título à exposição, dar uma “cara” para
a produção daquele período. Creio que ajuda a quem vê a obra a fazer uma leitura. Mas
não é uma necessidade. A obra de arte tem seus próprios mecanismos de se fazer valer
pela estética, pela poética e pela forma do que está ali realizado para fruição do especta-
dor. E é a partir do próprio conhecimento de quem vê que é estabelecida essa interação.

Justino - Você, um dos artistas expoentes da geração 70, como vê esse pessoal nos
dias atuais. Parece que a grande parte anda meio sumida?
Guache Marques – Interessante a vida. “Cada um no seu cada qual” como diriam alguns.
Os artistas são por natureza arredios e adoram viver isolados com a sua arte. Acho que
acontece com todos e com os artistas da chamada geração 70, não seria diferente. Cada
um está no seu atelier fazendo sua arte. Tenho acompanhado a evolução de alguns que
permanecem intrépidos na sua busca por uma arte que enalteça a Bahia e a projete no
cenário artístico brasileiro. E também me alegra o fato de que isto aconteça com as novas
gerações em sua busca por entender um mundo cada vez mais complexo, sempre com a
preocupação com o contemporâneo.
Entrevista para o
                                    Portal Cyberartes
                                    Justino Marinho (Artista Plástico e Crítico de Arte / ABCA)




Como é o seu processo criativo? Alguns artistas fazem esboços seguidos, cada vez
mais elaborados, antes de partirem para o trabalho final. Outros simplesmente fazem
tudo de uma só vez. Como acontece com você?
Guache Marques – Atualmente faço croquis imediatos, alguns esboços em papel, ou utilizo
programas de computador como o Photoshop e parto para fazer o trabalho já com uma
base do que pretendo. A experiência adquirida nos possibilita agir dessa maneira. Daí
nasce o projeto do trabalho seja ele desenho, pintura ou até mesmo escultura e instalação.
Agora, do ponto de vista do estilo, do conteúdo, essas coisas, creio que a obra de todo
artista deve-se a uma volta às suas origens, e toda a influência que teve ao seu redor. Aí
está localizada a fonte de inspiração que norteará o trabalho daqueles que se dispuserem
a essa busca. Comigo aconteceu mais ou menos dessa forma. O meu trabalho desde o
tempo em que ingressei na Escola de Belas Artes para fazer o curso de Artes Plásticas na
Universidade Federal da Bahia, primou pela execução de um desenho que já me acom-
panhava desde pequeno quando fazia histórias em quadrinhos e desenhava alguns super-
heróis. Na escola aprimorei a minha técnica e aprendi como utilizar o desenho de forma
profissional. Fiz realismo fantástico nos diversos desenhos a bico de pena em nanquim
ilustrando livros de poesia e desenhos a pastel seco com tema social. Depois me interessei
pela gravura chegando a ser professor das Oficinas de Arte em Série do Museu de Arte
Moderna da Bahia na década de 80 e atualmente me dedico à pintura acrílica sobre tela.
Na época da escola, o realismo fantástico e o surrealismo me serviram como fonte de
inspiração pra traduzir aquilo que eu via e já fazia parte do meu imaginário. Com o tempo
essas preocupações com o estilo foram se pulverizando e dando lugar a uma observação
mais comedida do universo artístico, tendo a escola, através de alguns dos seus professo-
res, exercido, a princípio, uma grande influência que mais tarde viria a ser dissipada com
outras informações adquiridas.
Você trabalha com sua arte todos os dias? Trabalha somente quando tem vontade,
quando acontece inspiração ou sente a obrigação de produzir?
Guache Marques – Todos os dias é claro, e sempre buscando a inspiração! Essa coisa de
só trabalhar quando tem vontade (sic!) é para os políticos corruptos de Brasília! Encaro o
trabalho artístico como outro qualquer e, aliás, só acredito no artista que pense e execute
cotidianamente o seu trabalho mantendo essa disciplina com a sua arte. O exercício diário
lhe dará experiência para desenvolver aquilo que pretende cada vez mais e melhor, atento
à própria evolução da arte e sua contemporaneidade.
Toda a minha produção, a princípio, está à venda mesmo porque vivo do que faço, mas
acontece de ficar algumas vezes com um ou outro trabalho que mais me toca, o filho mais
dileto. Porém, no site, no blog e nos catálogos que fiz para o portal www.calameo.org, as
obras que mostro neles compreendem várias fases e já foram adquiridas, quase todas, por
galerias ou colecionadores. Só estão lá no site como registro da minha produção.

Como foi o início? É artista desde criança? Como foi a decisão de que iria ser artista?
Guache Marques – Optei por artes plásticas desde cedo vendo exposições em museus da
minha cidade, Feira de Santana, no interior da Bahia. Desde o inicio desenhava cartazes,
histórias em quadrinhos e os próprios colegas me pediam sempre para desenhar retratos e
outras coisas. Comecei também muito cedo a aprender a disciplina do desenho num
escritório de engenharia e arquitetura a desenhar plantas de casa numa época em que não
havia o AutoCAD (programa que hoje faz isso. A tal moleza de hoje em dia!). Era tudo na
mão e com esse aprendizado o traçado do meu desenho já apontava para algumas
questões que, mais tarde viriam a aparecer em minhas obras, ou seja, uma preocupação
em compor geometricamente o espaço da obra. Como sou canhoto, penei para me adap-
tar a alguns instrumentos como ‘aranha’ para normografar plantas, réguas, pranchetas
pois tudo era fabricado para destros.
Quanto à decisão mesmo de ser artista foi de supetão. Estava até certa altura dos meus
estudos em dúvida se seria arquiteto (por causa da grana que acreditava ser maior) e artes
plásticas (por acreditar que só através dela o homem pode interagir com o mundo de
forma sensível e apontar caminhos). Claro que deu artes plásticas e fiquei com os resquí-
cios da minha atividade como desenhista arquitetônico, que foi aportar no designer
gráfico. Fico feliz que seja assim porque hoje me sinto mais preparado para entender os
conceitos estéticos que norteiam qualquer obra de arte seja ela desenho, gravura, pintura,
escultura ou mesmo instalações, pois estudei com afinco e essa “régua e compasso” tem
sido de grande utilidade. Porisso, verifico hoje um caos no ensino e isto abrange também
as artes plásticas. A formação é primordial para que se entenda o que está por vir.
Hoje, é artista atirando a esmo pra todo lado pra ver se cola sem saber o princípio de
nada. E os críticos tecendo elogios a essa aventura tresloucada, a esse espetáculo banal.
Como você está encarando sua vida como artista hoje? Você é artista por inteiro ou
isso ocupa só as horas vagas?
Guache Marques – Exponho regularmente e tenho o respeito e a admiração da crítica e dos
artistas pelo que tenho feito. A esta altura, com mais de 30 anos de atividades artísticas,
tenho uma carreira na qual constam exposições na Europa (Paris e Londres), na China
(Macau) e na América do Sul (Buenos Ayres). Recentemente fiz exposição individual em
Salvador e no Rio de Janeiro pelo projeto Arte/Sofitel da Galeria Prova do Artista no Hotel
Sofitel. Conquistei no V Mercado Cultural (evento bienal organizado pelo Instituto Via
Magia / Salvador) o prêmio de Fomento às Artes concedido pela UNESCO para a América
Latina na categoria Artes Plásticas. Possuo trabalhos em coleções particulares na Europa
e Estados Unidos. Já fui professor de litogravura e xilogravura nas Oficinas de Arte em
Série do MAM / Bahia; conto com centenas de coletivas e várias individuais no meu
currículo, enfim, creio que estas realizações, embora poucas, me realizam pois o artista
precisa deste reconhecimento pra poder “tocar” a sua obra sempre em busca de uma arte
que aponte para novos caminhos. Também participei de júri em salões da Fundação
Cultural do Estado da Bahia e Prêmio Braskem de Artes em Salvador.
Acontece que também sou designer gráfico da TVE/Irdeb em Salvador e divido o meu
tempo entre essa atividade e a artística propriamente dita. Como designer crio marcas,
logotipos, cartazes, folders, enfim uma outra vertente do ato da criação artística. Ainda
bem que essas duas atividades interagem convertendo-se numa única preocupação
artística.
Qual é a fixação? Muitos artistas têm fixação por longos períodos ou pela vida inteira,
mesmo quando as fases vão se sucedendo. Às vezes é um tema, às vezes é uma cor,
às vezes é um tipo de rabisco que está sempre presente. Existe isso?
Guache Marques - Consigo distinguir a textura extremamente pessoal que utilizo, como um
elemento presente em quase todas as pinturas. Pra dizer a verdade existe, na medida em
que realizo já há bastante tempo, trabalhos numa técnica mista na qual utilizo massa
acrílica, gesso acrílico e busco texturas através de procedimentos diversos. O trabalho se
realiza a partir desta integração de vários materiais que fazem às vezes de ponta seca
abrindo traços e formas na massa acrílica antes da secagem: goivas, pregos, cabos de
pincéis, etc, que juntos à pesquisa de outras maneiras de elaborar a obra, dão o toque
final do trabalho contemporâneo que busco.
Tenho atualmente um tema que desenvolvo já há algum tempo que é o tema afro. Vários
artistas brasileiros se debruçam ou debruçaram sobre este tema e cada um, à sua
maneira, faz um trabalho onde as nossas referências afro-descendentes são lembradas.
É um tema vasto. Alguns signos, emblemas, ferramentas de orixás estão presentes na
minha obra atual. Estilizo e busco novas formas plásticas de representar esses signos em
minha pintura.
Devo também salientar que o meu trabalho passou por algumas fases que vieram dar
nesta pesquisa afro. Antes havia uma preocupação mais com o realismo fantástico da
década de 70, posteriormente um enfoque social por conta dessa época vivida, um tempo
onde as liberdades eram cerceadas e o artista encontrava apenas no seu trabalho uma
forma de gritar.

O que você gostaria que as pessoas que olham o seu trabalho soubessem sobre a sua
pessoa.
Guache Marques - Não sei se o que faço passa ao observador a pessoa simples que sou.
Penso que sou particularmente altruísta. Gosto de ajudar de alguma maneira as pessoas
que de mim se aproximam. A rigor isto não está “dito” no trabalho. É da minha personali-
dade e a linguagem artística se ocupa de outras verdades, outras estéticas.
Este é um assunto realmente interessante: vida e obra deveriam interagir para um bom
entendimento do que o artista pretende com a sua arte. Temos exemplos os mais variados
de uma correlação amistosa entre a obra e o artista nas artes plásticas brasileiras. Vemos
em Iberê Camargo, por exemplo, um grande artista de temperamento irascível e uma
pintura abstrata agressiva de gestos e cores que corresponde a essa personalidade. Mas
esta é uma observação isolada. Não procuro associar a obra ao temperamento dos artis-
tas. Prefiro ver apenas a obra e tento conseguir dela só a leitura pertinente às questões
intrínsecas da arte. Mas os exemplos dessa interação, obra e personalidade são vários na
história da arte e o gênio Van Gogh encarna seu exemplo mais profundo.
Como é a vida? Filhos? Família? Como é o cotidiano?
Guache Marques - Levo uma vida relativamente simples. Trabalho cotidianamente na
TVE/Bahia como designer gráfico e faço arte, articulando meu tempo entre essas duas
atividades. Moro com a minha esposa e companheira há três anos. Ela é analista de
sistemas e eu artista e designer. Assim, tenho um pé na informática, o que faz das nossas
conversas sempre um aprendizado a mais. As artes plásticas na verdade é o que ocupa
mais o meu pensamento no dia a dia e a busca é interminável por novas formas de agir e
pensar arte.
Filhos, claro! Tenho uma menina maravilhosa de dois aninhos que me ajuda a ver o sentido
da vida e tudo mais com suas peripécias, perguntas e doce sabedoria.

Quais endereços devemos divulgar? E-mail, página, telefone, etc.
Guache Marques - Tenho um site que está sendo feito num escritório de desenvolvimento
de sites e tão logo esteja pronto divulgo o endereço. Enquanto isso não acontece,
mantenho na internet três endereços que dão uma boa visão daquilo que faço. São eles:
www.guache.blogger.com.br (blog com fotos, trabalhos de várias fases - desenhos a pastel
seco, bicos de pena, gravuras, foto-desenhos e pinturas, links para museus e galerias
importantes, além de curiosidades sobre arte, e espaço para comentários dos internautas);
www.flickr.net/photos/guachemarques (vários trabalhos postados cotidianamente, fotos
pessoais, álbuns e textos) e www.calameo.org (portal de Portugal que disponibiliza espaço
para o artista colocar catálogos com fotos, quadros e textos, monografias, ensaios, etc).
No Calameo estão seis catálogos sobre a minha obra, currículo, exposições e textos
críticos.

Alguma coisa curiosa para ser contada?
Guache Marques - Nenhum fato ou procedimento curioso. Não considero mania e sim
disciplina e profissionalismo o fato de gostar de ter o atelier sempre limpo, com as tintas e
outros materiais sempre arrumados por questão de espaço pra trabalhar. Só sei trabalhar
assim. Tenho de estar bem com a minha cabeça livre das preocupações para poder me
concentrar melhor no trabalho. O artista é, também, um visionário.
Série Ilustração para livro de histórias afro
                      Arte Digital (infogravura)
Existiram fases nítidas na carreira?
Guache Marques - Creio que sim, embora o estudo da obra do artista seja uma tarefa para
os críticos de arte. Mas, consigo “ver” até aqui, no meu trabalho, cinco momentos ou
fases que se interligam. Todo artista possui características que vão acompanhá-lo em toda
a sua carreira, independente das fases. Antes e durante o tempo que cursei artes na
EBA/UFBA, realizei desenhos a nanquim em bicos de pena num período em que estava
em voga o realismo fantástico e Darcílio Lima, um cearense que tinha um trabalho
fantástico e morava na Europa, foi uma das minhas primeiras inspirações. Fiz também
desenhos a pastel seco e lápis de cor com ênfase num trabalho voltado para o social, seu
lado inusitado. Costumo dizer que o que vi durante o período da ditadura foi determinante
para mim e vários outros artistas, daí a conotação política no início. Uma coisa da qual não
poderíamos nos desvencilhar assim tão fácil. Vivíamos um período de cerceamento das
liberdades e isto, nos afetava de alguma maneira. Na década de 80 fiz gravuras como
aluno e, mais tarde, como professor das Oficinas de Arte em Série do MAM/BA. Em
meados da década de 80, elaborei um trabalho diferente, que evocava um discurso sobre
a natureza humana, fruto de uma pesquisa feita a partir da observação casual de fotogra-
fias, onde estavam estampadas a silhueta de vários peixes ressecados, desses que são
vendidos nas feiras livres, chamados popularmente de “mirorós”, ou ainda “trespassados
de dor”. Um fato corriqueiro mas que deve ser mencionado aqui é que este trabalho
originou-se a partir da observação de uma foto desses peixes ‘secos’, jogada fora, já sem
utilidade, pelo amigo e fotógrafo franco-brasileiro, Renato Assis. Ao vê-la, como que num
estalo, ocorreu-me a idéia de trabalhar com lápis grafite, nanquim e tinta acrílica, dando-
lhe novas conotações pois já possuia conhecimento do método que Salvador Dali denomi-
nou de “paranóico crítico”, que consiste em ver imagens por associação, onde elas não
aparentam estar, nascendo daí uma configuração que remetia a um discurso áspero sobre
a condição humana. A utilização da distorção da figura animal para falar da insipidez
humana é recorrente em minha obra e, acredito, na de alguns surrealistas. Estas fotos
remetiam para uma observação de arquétipos do homem que, uma vez trabalhadas com
nanquim, lápis grafite e tinta acrílica na própria foto em papel “N”, alterando-a, davam uma
visão distorcida do ser humano, revelando o seu lado esconso, animal, num mundo cada
vez mais competitivo e desigual.
A pintura que veio a fazer parte do meu trabalho no início da década de 90, com o inter-
esse cada vez maior por novos materiais e novos procedimentos. As pinturas desse
período se revestem de um estudo da temática afro-brasileira onde magia e mistério me
servem como fontes constantes de inspiração. Como disse, estas “fases” interligam-se
através de detalhes que foram sendo aproveitados, de uma técnica para outra.
Enfim, várias técnicas foram assimiladas ao longo da minha carreira e, ultimamente, tenho
me interessado pela arte digital, fazendo uma releitura de instantes da minha obra.
O que o torna diferente dos outros artistas? Como você descreve a sua arte?
Guache Marques - Não me acho diferente. Tenho um estilo e uma forma de ser e
de ver as coisas por um ângulo bem peculiar. A origem, a família, o estudo e
toda a vivência de uma pessoa a tornam única em meio a todas as outras e
creio que minha história de vida está calcada nesses princípios. Mas o surreal-
ismo e o realismo fantástico presentes nos primeiros trabalhos e também as
foto-desenhos, diferenciavam meu trabalho dos demais no período da EBA,
justamente por isso. Observar e transmutar, de acordo com esse legado e sua
consequente realização.
Já o meu trabalho atual descrevo como pintura abstrato-figurativa, se é que
devemos rotular hoje em dia com algum ismo a produção da arte que alguém
faz. Os trabalhos dessa fase em pintura são executados em tinta acrílica, gesso
e massa acrílica de maneira muito pessoal, obtendo texturas na própria tela e
estas texturas é que dão forma aos signos, tendo como tema a influência
africana na arte e na cultura brasileira. São signos, símbolos, emblemas e ferra-
mentas de orixás estilizadas em pinturas de cores vibrantes evocando os ritos
afro e sua magia. Trabalhos que remetem à ancestralidade e suas interlocuções.
Busco referências nos signos da cultura afro-baiana e desenvolvo esta fase com
o objetivo de ir às suas raízes para daí trazer a inspiração de todo esse imag-
inário, ressaltando, através da forma e da cor, o seu lado mágico-simbólico.
Por fim, gostaria de ressaltar que “vivendo numa cidade como Salvador, onde a
presença da cultura e da etnia africana é encontrada em cada esquina, em suas
danças, ritos, cores e magia, não poderia deixar de me tocar com a abrangência
dessa observação no meu imaginário de artista sintonizado com a minha época
e sua contemporaneidade”. Como diria o poeta e antropólogo Ildásio Tavares,
“...existe uma Tradição, cumpre conhecer seus signos.”

Quais os planos para o futuro, como artista?
Guache Marques - A intenção de todo ser humano comprometido com aquilo
que faz é superar adversidades e, no caso dos artistas, “tocar” sua obra visando
sempre um mundo melhor e mais digno no qual os homens se entendam. A
“arma” (no bom sentido, claro!) que tenho para tornar possível isto, é através do
meu comprometimento como artista e da minha arte. Aliás, acredito que só na
arte seja possível essa compreensão mútua entre os homens. Nela encontro a
força necessária para uma vida digna. Ao mesmo tempo em que estou atento a
evolução recente das artes, as instalações, performances enfim, acompanho o
meu tempo como artista antenado e penso que a arte deve evoluir sempre. Pois
acredito que o artista é também, um repórter do seu tempo.
Trecho de entrevista
                         concedida ao crítico
                         de arte Claudius Portugal
                         para o portal Canal Assembléia
                         Por Claudius Portugal
                         www.canalassembleia.ba.gov.br

“Pra falar do meu encontro com a arte, tenho que me reportar à infância na cidade de
Feira de Santana, onde nasci em 54 e estudei até 73. Esta cidade tão pródiga em nomes
quando se fala de artes plásticas e literatura. Lá temos o Grupo Hera, liderado durante
muitos anos pelo grande poeta Antonio Brasileiro, hoje membro da Academia de Letras da
Bahia e outros grandes e premiados poetas como o Roberval Pereyr e até mesmo o Juraci
Dórea que além de ser um dos maiores artistas locais, também escreve. Nas Artes Plásti-
cas temos Raimundo Oliveira, Caetano Dias, Juraci Dórea, César Romero, Gil Mário.

Vivi minha infância e adolescência lá, filho de torneiro mecânico e mãe dona de casa.
Lembro, que meus primeiros contatos com o desenho se deram na escola, onde era
requisitado pelas professoras para ilustrar aulas de Biologia e Geografia com desenhos a
giz de mapas, células, abelhas, personagens da história do Brasil, etc., no quadro negro e,
também de desenhar com gravetos na areia após a chuva, lances de futebol, goleiros em
grandes dimensões. Não tenho registros dessa atividade, apenas na memória. Assim
como das revistas em quadrinhos que fazia pra vender.

Fui acometido de uma polio aos três meses no braço direito e essa circunstância me fez
aprender a usar a mão esquerda o que passei a fazer com bastante praticidade. A rigor,
não escreveria com a esquerda, mas, como existia o “dom” do desenho, ao longo do
tempo houve a adaptação.

Aos 15 anos aconteceu um fato que mudou o rumo da família. Perdi meu pai num acidente
na fábrica de algodão onde ele trabalhava. Foram anos duros pra mim. Aos 16 na 2a. série
de ginásio, ao ver os meus cadernos de desenho e matemática feitos de forma primorosa,
a minha professora de Matemática Irma Amorim, me encaminhou ao grande e saudoso
arquiteto Amélio Amorim, um dos maiores que Feira já teve. Lá aprendi os rudimentos de
uma atividade que a rigor, não viria a seguir. A de desenhar plantas de casa. A régua e o
compasso quem me deu foi este arquiteto, com quem trabalhei por quatro anos em seu
escritório. Mas não seguiria a carreira de arquiteto. A arte já estava instaurada no meu
pensamento e após alguma indecisão entre ser arquiteto e artista plástico, fiquei com a
segunda opção por motivos da paixão, da intuição, da percepção, enfim.
Costumava visitar o Museu de Artes após as aulas e via com volúpia a coleção dos ingle-
ses, doada à Feira por Assis Chateaubriand, numa passagem pela cidade. Coleção impor-
tante que hoje integra o acervo do Museu Regional de Arte-MRA/CUCA.
ESCOLA DE BELAS ARTES

Ao ingressar Na Escola de Belas Artes, encontrei-me com os mestres Juarez Paraiso,
Riolan Coutinho e Jamison Pedra que foram, a princípio, minhas referências nos primeiros
trabalhos a bico de pena e desenho a pastel seco, notadamente Juarez de quem por
algum tempo me vi influenciado pela sua incrível arte, seu desenho, sua gravura e pintura,
vigorosos de quem, até hoje, sou admirador.
As minhas criações desse período da escola se revestem das preocupações do que se
fazia em outros centros e o desenho a nanquim se tornou a minha primeira manifestação
artística com ênfase no realismo fantástico em voga na época através de Darcílio Lima, um
cearense que vivia na Europa.
Desse tempo guardo na memória os bons momentos da escola, a companhia dos colegas
Zivé Giudice, Florival Oliveira, Vauluizo Bezerra, Murilo, Bel Borba, Araripe, dentre outros.
Consegui o primeiro lugar no Salão Universitário Nordestino de Artes Visuais no TCA,
concorrendo com esses grandes nomes que hoje aí estão. São desse período os desen-
hos a pastel seco, que aconteceram pela necessidade de acrescentar cor aquilo que fazia.

AS FASES E ESTILO

Passei por algumas técnicas até chegar às pinturas e info-gravuras atuais.

Bicos de pena ou desenhos a nanquim
Quando entrei na escola carregava comigo a bagagem do desenho. E aprimorei os
desenhos a lápis evoluindo para o nanquim. Naquela época o desenho tinha mais valor e
um artista costumava ser respeitado por essa técnica e seu desenvolvimento e não por
peripécias do espetáculo como se vê hoje.

Pastel seco e lápis Caran Dache
Um necessidade de colocar cor nos trabalhos. Os trabalhos dessa fase mostram um
envolvimento social e as figuras desenhadas esmurram o ar como que num grito de
liberdade. Meu grito interior, por assim dizer. Nasceram trabalhos que manifestavam a
minha inquietação ao que acontecia no mundo e no cotidiano das pessoas. Essa
observação me parece ter origem nas opções políticas do meu pai e meu tio, que
conversavam muito sobre esses assuntos, tendo o meu tio, inclusive, sendo morto pela
ditadura, o que na época, me chocou bastante.

Gravuras
São do período como aluno e logo após como Professor Orientador das Oficinas de
Expressão Plástica do MAMBa. Aí fiz algumas litogravuras e xilos que enalteciam uma
busca pelo afro. Mais tarde elementos dessa observação apareciam nas pinturas com os
signos.

Foto-desenhos
Uma pesquisa insólita e solitária. Ao ver uma foto do fotógrafo e amigo Renato Assis, hoje
na França, morando em Paris, jogada fora por ele mesmo, num balde de lixo, perguntei-lhe
se a foto não mais lhe interessava e com resposta positiva, a levei pra casa, ainda
machucada e desenhei a lápis. Aprofundei essa pesquisa com idas à Feira de São Joa-
quim junto com o próprio fotógrafo Renato para comprar e ali mesmo fotografar os peixes
“mirorós” ou “trespassados de dor” - nome interessante que costumavam dar a esses
peixes - vendidos em “enfieiras” para serem usados salgados como tira-gosto. Vi
naquelas fotos a possibilidade de fazer um discurso que despisse o homem das suas
vicissitudes, que evocasse a sua contraditória condição humana, do homem como arqué-
tipo de si mesmo. Com nanquim, lápis de cor e tinta acrílica alterava a aparência primordial
dessas fotos de peixes. A crítica de arte Matilde Mattos chegou a escrever um artigo
falando sobre a utilização por parte de alguns artistas da figura e da silhueta de animais
para daí elaborar um discurso sobre a realidade “distorcida” do homem moderno. Esse
trabalho nasce e se desenvolve num período de grande admiração de pelas obras incríveis
e distorcidas do grande artista Francis Bacon.

Pinturas
Como que num moto continuum, a busca por novas técnicas e formas de ver, sentir e
interpretar o mundo ao redor, encontrei na pintura, digamos assim, um refúgio, um local
onde aportar o resultado das minhas idas e vindas; minhas inquietações. O resultado é
uma pintura cavada no gesso que utiliza de diversos materiais, veladuras de tinta acrílica,
inclusive lixa, para realizar um trabalho focado, a princípio, no afro e na simbologia
indígena. Nossas riquezas culturais. Aqui, os vestígios de incisões feitas no gesso e na
massa acrílica ainda mole, resistem e encetam texturas que são a matéria primordial dessa
atividade. A partir daí, vemos um colocar e tirar de tintas e traços, enfim, até o resultado
final.

Arte Digital
A Arte Digital, Computacional, ou mesmo Info-gravuras, são um capricho meu de revisitar
alguns trabalhos que fiz passando por diversas técnicas. É uma técnica relativamente nova
e a faço por puro deleite. Pretendo numa próxima exposição mostrar alguns resultados.
NOTAS DE AUTORES DIVERSOS
Sobre a Arte
A arte é um conceito mutante entre a razão e a intuição, inquietante na maioria das vezes,
que espelha e reflete o mundo em seus desdobramentos e complexidades.
Arte é construída de história. As múltiplas leituras que se possam fazer do universo
artístico, aguçam nossos sentidos e iluminam nossa compreensão do mundo.
A completude de um trabalho se dá quando alguém o vê. Daí nasce uma relação que tem
muito a ver com o grau de conhecimento e informação de quem a observa. Senão o
discurso artístico cai no vazio da ignorância.

A Poética
Cada artista possui a sua poética, e é a partir dela que se comunica com o mundo e seus
amplos questionamentos. É a explicitação dos seus sentimentos perante o mundo contem-
porâneo que interage primeiro consigo próprio e depois com os outros. Portanto o interior
de cada artista é que o torna ímpar perante a arte que se faz no mundo. Ou seja, a arte
reflete o significado da nossa existência, do espírito e da condição humanas.

Texto de Ronaldo Brito
“O raciocínio do artista atravessa o gesto criador inaugural para seguir o percurso
problemático do mundo. O resultado, este sim, vai constituir a obra de arte, o resíduo de
todas as mediações: uma carga de conflitos, construções e desconstruções.

A Mídia
Todos viramos mídia. Tudo virou mídia. E mídia é um meio condutor. De conteúdo humano.
O que é fantástico. Enquanto no século XV precisava-se de décadas para um pequeno
salto na indústria gráfica, hoje as revoluções são por minuto. A velocidade está na alma do
novo século, e precisamos nos adequar a ela. A única forma de ter esse caos criativo como
aliado é entrar no fluxo e inovar. Se você pensa que sabe tudo, está obsoleto”.

Arte Conceitual
Assim como em todas as outras áreas artísticas, as Artes Plásticas vivem constantemente
em um impasse ético e estético. Assistimos diariamente a uma verdadeira guerra entre o
mau gosto e o que é estética e eticamente admissível para quem possui um certo bom
senso. Com o movimento de Arte Conceitual que se originou no final da década de 60,
passamos a ter contato com uma nova estética, onde a beleza plástica cedia lugar à ideia.

Essa nova estética já havia sido antecipada com brilhantismo - numa tentativa de romper
com os dogmas da pura representação - por artistas como Marcel Duchamp, Alberto Burri,
Antonio Tápies, entre outros. Ganhou fôlego ao longo das ultimas três décadas e até hoje
somos brindados com obras que, em nome do conceito, utiliza-se de materiais como lixo,
insetos, carne crua, cadáveres de animais em decomposição e toda sorte de bizarrices, até
reproduções. Um verdadeiro festival do espetáculo da banalidade que virou as artes
ultimamente. E assim continua.
guache marques |                                              currículo
Guache Marques é natural de Feira de Santana (janeiro de 1954).
Desde o início na EBA (Escola de Belas Artes da UFBA) em 1974 com os desenhos a nanquim e pastel seco, até as
pinturas e arte digital atuais passando, ainda, pelas gravuras e fotos-desenho nas oficinas do MAM nos anos 80, tem
desenvolvido, um trabalho voltado para o entendimento do homem, seus desígnios, suas vicissitudes, suas crenças e mitos.
Tem elaborado em suas pinturas um discurso que hoje apresenta acentuadas preocupações com a nossa identidade
mestiça e nossa cultura de tradições e contemporaneidade evocando as raízes de um cotidiano que ele mesmo vivencia
através da releitura de signos da cultura afro e indígena, onde magia e mistério lhe servem como fontes constantes de
inspiração.

Ultimamente dedicando-se à arte digital, além da pintura e do desenho, Guache tem diversificado ainda mais a sua atuação
nas artes plásticas. Já transitou com desenvoltura por diversas técnicas como os desenhos a nanquim e pastel seco dos
anos 70, com premiações no Gabinete Português de Leitura em Salvador (1º prêmio em desenho) em 1975 e em 1978 no I
Salão Universitário de Artes Visuais no TCA (1º prêmio de aquisição em desenho); assim como na década de 80 com as
fotos-desenho e gravuras nas Oficinas do MAM; e também as premiadas pinturas dos anos 90 com o prêmio de Fomento às
Artes concedido pela UNESCO em 2003 no Mercado Cultural com sala especial no Conjunto Cultural da Caixa. Recebeu
ainda, prêmios em instalações no Encontro de arte da FUNCISA (Fundação Cidade de Salvador) em 1976 e Bienal do
Recôncavo da Fundação Danneman, em co-autoria, em 1991. A Arte Digital chega pra inserir sua obra numa nova mídia e
completar o elenco de novas técnicas, demonstrando assim, as preocupações do artista com o seu tempo.

Consta no seu currículo, individuais na Galeria GAFFES em Feira com desenhos em 1974, na Galeria ACBEU com pinturas
em 1998 e 2002, no MAC em Feira de Santana em 2008 com pinturas e arte digital e no Projeto Arte/Sofitel da Galeria Prova
do Artista em 2004/Salvador, 2005/Rio de Janeiro e 2006/Costa do Sauípe com pinturas e arte digital, além de dezenas de
coletivas em Salvador, Buenos Ayres, Coritiba, Rio de Janeiro, Macau (China) e Paris.
Participou ainda de diversas exposições; no Museu de Arte da Bahia - Geração 70 / Salão de Artes Visuais e Tropicália no
MAMBa/ coletiva em Buenos Aires durante a Semana de Intercâmbio Cultural Brasil-Argentina / coletiva pelo projeto Arts
Plastiques d"aujourd"hui em Paris-França / pelo projeto Arte Arte Salvador 450 anos no MAM, Macau/China, Porto/Portugal,
Curitiba e Museu da Cidade em Salvador / coletiva Brazilians On The Move Exhibition em Londres na Galeria Tavid / expo
Bahian Artists Exposition - W. K. Kellogg Fundation no ICBA Salvador / expo coletiva e acervo Faraimará - Homenagem aos
70 Anos de Mãe Stela - llé Axé Opô Afonjá / Projeto de Revitalização do Parque Histórico de Cabaceiras - Museu Castro
Alves - Muritiba/BA / Arte Comestível em Salvador e Feira de Santana / expo coletiva 2334 no Casarão do Pelô / Circuito
das Artes.

Realizou diversos painéis coletivos em Salvador, destacando-se o da Biblioteca Central da UFBA, Secretaria de Administra-
ção no Centro Administrativo, Escola Polivalente do Cabula, Artistas em Defesa do Parque São Bartolomeu, Projeto
Natureza Viva - Dia Mundial do Meio Ambiente, além de doações para campanhas em prol da Irmandade da Boa Morte em
Cachoeira, pela preservação da Ararinha Azul, em defesa do Parque São Bartolomeu, em homenagem aos 70 anos de Mãe
Stela do Ilê Axé Opô Afonjá.

Possui quadros em acervo do MAMBa (Museu de Arte Moderna da Bahia), MAB (Museu de Arte da Bahia), Museu de Castro
Alves em Muritiba, ACBEU (Associação Cultural Brasil Estados Unidos), Faculdade de Geologia - Pavilhão de Aulas da
UFBA, Gabinete Português de Leitura, Museu Regional de Feira de Santana/MRA/CUCA, Museu de Arte
Contemporânea/MAC em Feira, Pinacoteca do CDL Clube dos Dirigentes Lojistas – Feira de Santana/BA. Utilizando as
técnicas de bico de pena e pastel seco, fez ilustrações para a Revista Exu (publicação da Fundação Casa de Jorge Amado),
Revista da Bahia, livro de contos “Dona Cici, A Contadora de Histórias, alem de diversos livros de poesia. Como Designer
Gráfico, criou logomarcas, cartazes e folders para várias instituições.

Fez parte da comissão julgadora do IV Salão Regional de Artes Plásticas em Valença pela Fundação Cultural do Estado da
Bahia em 2004 e do Prêmio Braskem de Cultura e Arte em 2007. Designer Gráfico do Irdeb/TVE Bahia.
resumo | alguns textos críticos
“ A impressão do conjunto é de que o artista, não obstante a serenidade da pessoa, habita fantástico mundo de uma civilização tribal em permanente festa.
Pois a profusão de cores fortes é característica dominante em sua obra, no que revela um equilíbrio admirável.”
Gláucia Lemos, 2011 | Crítica de Arte (pós graduação UFBa) | Escritora ( Academia de Letras da Bahia e União Brasileira de Escritores/SP)

“ É claro que não se pode ignorar a presença dos signos pintados – estão aí simplesmente e, ademais, traçados com um vigor e uma clareza que
preservam prontamente reconhecível a sua procedência. Restam, entretanto, formalmente depurados, não mais atrelados ao contexto original do qual
foram arrancados. Do símbolo emotivo só vestígios subsistem: a abstração os esteriliza.”
Caius Marcellus, 2010 | Artista Plástico, Musicista


“ Uma trajetória histórica e um artista que sabe lidar com a matéria plástica.”
Aldo Tripodi, 2005 | Crítico de Arte, Poeta, Ensaísta


“ Nos trabalhos atuais de Guache Marques, a figura propriamente dita, desapareceu, deixando um grafismo, realizado de forma pessoal, no qual
transparece a simbologia do misticismo baiano. As cores estão cada vez mais vibrantes e diversificadas e o apuro técnico segue o seu ritmo cada
vez mais atraente.”
Justino Marinho, 2004 | Artista Plástico | Crítico de Arte


"... nossa relação com sua arte deve atravessar a visceralidade de sua expressão... que chega hoje a um abstracionismo/figurativo com o referencial
nos signos afro-brasileiros, sejam religiosos ou profanos, reinterpretando uma cultura que nenhum de nós, aqui vivendo, podemos evitar em nossas
vidas, quanto mais em nosso imaginário”.
Claudius Portugal, 2002 | Poeta, Ensaísta e Crítico de Arte


“ Nas composições que estrutura dentro do espaço de cada tela, não é a forma explícita dos signos que revelam o tema... Seus trabalhos desta série
revelam o que é real para ele na nossa cultura: a força da fé e do rito que paira entre o sensual e o espiritual, o sincretismo religioso que nos leva a
ver em torno das formas monumentais e icônicas, uma auréola sacra que tanto envolve o peji quanto o santuário”.
Matilde Matos, 2002 | Crítica de Arte | Membro da A.I.C.A. e A.B.C.A.

“... a sua linguagem registra impressões, seu olhar sobre o real, o cotidiano. Trata-se de uma grande riqueza artística, razão pela qual a Câmara
Municipal de Salvador registra votos de louvor ao pintor e reconhecimento ao seu talento que tanto honra os soteropolitanos.
Javier Alfaya, 1998 | Presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer na Câmara Municipal de Salvador

" Guache, por detrás de sua aparente linearidade e economia, aponta para um dos traços mais marcantes do pós-moderno, que é o compromisso
dialético com a raiz."
Ildásio Tavares, 1998 | Poeta e Crítico de Arte

“ Seus trabalhos perderam muito da suavidade cromática, em que jà era evidente a prioridade ao mundo interior do artista. Mas quem pode ser
suave face a nossa controvertida realidade? São pinturas fortes e originais, sugerindo uma fusão fortuita do comportamento natural com a
selvageria psicológica.”
Matilde Matos, 1988 | Crítica de Arte | Membro da A.I.C.A. e A.B.C.A.


” Sua obra foge ao discurso fácil do homem feliz. Antes, sem rodeios, mostra o seu lado mais esconso e vil - aquilo que nos constrange. Com um
apurado domínio técnico, trabalhando com pastel e tinta acrílica, o artista vai nos dando conta da despersonalização a que o poder tem
submetido o homem.”
Washington Queiroz, 1986 | Poeta e Antropólogo Social


“ Guache Marques despe o homem de seus valores morais, tirando-o do pedestal da escala zoológica e discursa amplamente sobre o seu lado burlesco...
mostrando toda sua crueza, em todos os jogos que a raça humana se propõe a jogar e sustenta a análise da competição desenfreada do homem,
contra si próprio.”
Kássia Maria, 1985 | Jornalista
referências bibliográficas

Revista Veracidade__________________________________________________________________
Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente (SEDHAM)
Salvador/Ba - Ano 6 No. 10 - Dezembro de 2010 - págs 97 a 110

Livro 50 Anos de Arte na Bahia - Matilde Matos__________________________________________
Dezembro de 2010 - págs 196, 197, 242 e 243

Revista Viver Bahia_________________________________________________________________
Revista de Turismo da Bahia - Ano I, No. 6 - Fevereiro de 2008 - págs 32 e 33

Arte/Arte Salvador 450 Anos_________________________________________________________
Catálogo com texto - págs 104 e 105

Catálogo com Obras do Acervo do ACBEU_____ ________________________________________
Salvador/Bahia - 2003 - págs 96 e 97

Pinacoteca da CDL_________________________________________________________________
Centro de Dirigentes Logistas em Feira de Santana - págs 38, 39, 40 e 41

Revista da ADEMI/BA_______________________ ________________________________________
Associação de Emp. do Mercado Imobiliário da Bahia - Ano 4 No. 23 - 2005 - págs 66 e 67

Correio da Bahia___________________________________________________________________
Caderno Folha da Bahia - Entrevista de 08 de março de 2005

Livro/Catálogo 100 Artistas Plásticos da Bahia__________________________________________
Galeria Prova do Artista - Patrocinio COPENE - pág. 59

Revista Dendê de Cultura e Arte______________ ________________________________________
Nº 7 - págs. 20 e 21

Jornal Soterópolis__________________________________________________________________
Ano 1 No. 4 - pág. 4
CONTATOS
 Fones:      55 71 9936 6264                        |   55 71 3116 7431
                                         EMAILS

                            guachemarques@hotmail.com
                            guachemarques@yahoo.com.br
                             guachemarques@gmail.com


                              ENDEREÇOS NA WEB

http://www.canalassembleia.ba.gov.br/DetalhesVideo.aspx?ProgramacaoID=2006
 entrevista de 42 minutos, concedida a Claudius Portugal para o Portal Canal Assembléia
        com o depoimento de vários artistas sobre artes e seus questionamentos.

                              www.guache.blogger.com.br
   blogsite com textos, links para museus e galerias e obras de todas as fases do artista.

                http://www.cyberartes.com.br/artigo/?i=582&m=44
                página do artista no CIBERARTES, site sobre artes plásticas

                    http://www.expoart.com.br/guachemarques/
 página do artista no EXPOART, site com ensaios, críticas, links e obras de diversos artistas.

              http://www.facebook.com/home.php#!/Guachemarques
            página do artista com textos, links variados, álbuns e curiosidades.

                   http://www.flickr.com/photos/guachemarques/
          página do artista no site do Yahoo com fotos e álbuns compartilhados.

                       http://www.arteatual.net/art-guache.htm
página do artista no site ARTE ATUAL. Obras, biografia e links para vários museus e galerias.

               http://pt.calameo.com/read/0003755181c2a08d3f74a
        página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de pintura.

               http://pt.calameo.com/read/0003755182b94555c9f53
      página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Arte Digital.

                http://pt.calameo.com/read/000375518f5ddf5e3ea36
    página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Foto-desenhos.

                http://pt.calameo.com/read/0003755180d27a83ce6ff
       página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Gravuras.

               http://pt.calameo.com/read/00037551898daec6d64ba
página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Desenhos a Pastel Seco.

               http://pt.calameo.com/read/000375518767cf3106a39
 página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Desenhos a Nanquim.
REPORTAGENS_Guache Marques

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REPORTAGENS_Guache Marques

  • 1. Guache Marques ENTREVISTAS Correio da Bahia - 2003 Portal Cyberartes - 2005 Canal Assembléia - 2011
  • 2. DEPOIMENTO PARA CATÁLOGO | SALVADOR 450 ANOS Guache Marques Nascido em Feira de Santana, Salvador foi a cidade que escolhi para morar, fascinado por sua beleza geográfica, seus encantos e seus aspectos culturais. Desde o tempo da Escola de Belas Artes até hoje, são 35 anos dedicados à arte e aos prazeres de uma capital que acolhe bem a todos aqueles que nela buscam inspiração. Aqui se respira africanidade e, assim como muitos outros artistas, reconheço o alcance universal dessa cultura. Por isso, na fase atual, o meu trabalho tem se voltado para a interpretação dos signos afro, ressaltando o seu lado mágico-simbólico. A intenção é ir além da simples representação, procurando passar nas pinturas atuais, de texturas e cores vibrantes, toda a aura de magia e mistério que me servem de inspiração, numa leitura contemporânea. Copyright by Guache Marques REPORTAGENS, ENTREVISTAS agosto de 2011
  • 3. ENTREVISTAS Correio da Bahia - 2003 Portal Cyberartes - 2005 Canal Assembléia - 2011
  • 4.
  • 5. Entrevista para o Correio da Bahia Justino Marinho (Artista Plástico e Crítico de Arte / ABCA) “AFRICAE | 2003” EXPOSIÇÃO ITINERANTE Projeto ARTE/SOFITEL da Galeria Prova do Artista Salvador Bahia Hotel Sofitel Salvador Hotel Sofitel Rio de Janeiro Hotel Sofitel Costa do Sauípe Justino - O que você vai mostrar nesta exposição? Guache Marques - Nesta mostra individual preparei 20 novas pinturas, em diversos formatos tendo como tema auto-sugerido a influência africana na arte e na cultura baiana. Denominei “AFRICAE” que significa o termo genitivo de África-mãe. São signos, emblemas e ferramentas de orixás estilizados, trabalhados com cores vibrantes evocando os ritos afro e sua magia. Uma exposição que remete à ancestralidade e suas interlocuções com as diferentes épocas e movimentos, do tradicional ao contemporâneo. Revisito assim o sagrado e o profano, os contatos entre Brasil e África. Desde 1994 que venho fazendo um trabalho voltado para esta temática com várias exposições realizadas daí o convite da Galeria PROVA DO ARTISTA para realizá-la como parte do Projeto Arte Sofitel desenvolvido pela mesma. Será realizada no dia 18 de março de 2005, sexta-feira, no HOTEL SOFITEL / SALVADOR às 19 horas e ficará todo o mês de março. A mesma exposição seguirá para o SOFITEL do Rio de Janeiro com mais alguns trabalhos com data prevista para abertura em 15 de junho de 2005 e, posteriormente, será exposta em Costa do Sauípe também no Hotel Sofitel.
  • 6. Justino - Como surgiram essas influências africanas no seu trabalho? Guache Marques - Naturalmente. Através da observação das obras de mestres que se dedicavam ao tema, no período que frequentei a Escola de Belas Artes da UFBa como aluno; da experiência como professor das oficinas do MAM ao fazer litogravuras em que já era clara essa abordagem, e também pelo fato de ser morador de uma cidade, em sua maioria de descendência negra, onde essa cultura é bastante difundida e valorizada. Sempre me identifiquei com a Bahia, desde o ingresso no curso da EBA e essa identidade sempre acompanhou a minha obra. Creio serem estas algumas das razões que foram suficientes para buscar essa referência na minha pintura. Assim como assinalou em um texto sobre meu trabalho o poeta e crítico de arte Claudius Portugal quando diz que: “Guache reinterpreta uma cultura que nenhum de nós, aqui vivendo, podemos evitar em nossas vidas, quanto mais em nosso imaginário”. Penso mesmo que “vivendo numa cidade como Salvador onde a presença da cultura e da etnia africana é encontrada em toda esquina em suas danças, ritos, cores e magia, traduzida numa arte de símbolos e signos vigorosa como é a nossa, eu não poderia deixar de me tocar com a abrangência dessa observação no meu imaginário”. Creio que todo artista baiano, consciente dessa realidade e sintonizado com o seu tempo, é tocado por esse cotidiano. É, a partir dessa ligação, atento aos costumes e cultura de um povo e com olhos pra enxergar o mundo a partir da sua própria aldeia, que o artista se torna universal na sua busca. Olhando um pouco para trás, encontro em trabalhos de outras fases os elementos que vieram dar na interpretação contemporânea dessa simbologia. Já fiz em desenhos, xilogravuras e litogravuras, como aluno e depois como professor das Oficinas de Arte em Série do MAMBa na década de 80, trabalhos com essa temática. Mesmo as figuras dos meus primeiros desenhos a pastel e lápis na Escola de Belas Artes da Ufba apontavam para a necessidade de fazer uma releitura contemporânea dos signos e emblemas dessa africanidade dispersos aqui e ali na minha obra. O que faço é observar o cotidiano ao meu redor e transpor para as pinturas atuais esse material “coletado”. Justino - Todos os trabalhos foram feitos especificamente para esta exposição? Guache Marques – Não. Por questões de adaptação ao espaço da mostra, vou também expor trabalhos de grandes formatos que fizeram parte da sala especial no Conjunto Cultural da Caixa por ocasião do V Mercado Cultural em dezembro de 2003. Esses trabalhos, em seu conjunto, foram premiados pela UNESCO com o Prêmio de Fomento das Artes, criado para premiar novos artistas na América Latina.
  • 7. Justino - Como é a experiência de tratar de um tema tão explorado e na maioria das vezes, de forma equivocada? Guache Marques – Embora tenha me dedicado a esse trabalho já há algum tempo, me incomoda a idéia de ser estigmatizado apenas por essa poética afro, justamente por isso que você diz: de ser um tema bastante explorado, pois já passei por outras fases. Mas defendo aqueles que dela se aproximam assim como tenho feito. As pessoas desconhecem que existe uma tradição e, como assinalou o saudoso poeta Ildásio Tavares num texto sobre meu trabalho: “...cumpre conhecer os seus signos”. Temos visto grandes artistas se apropriarem do tema e outros o banalizarem com leituras equivocadas. Até mesmo, folclóricas. Felizmente são poucos e estes se preocupam apenas em fazer trabalhos pra turista ver e comprar. Mas, convenhamos, em todo tema acontecem essas diluições, sempre em nome de qualquer coisa, menos da arte. Até mesmo as instalações modernas se ressentem desse equívoco. Vemos nos salões e bienais por aí afora arremedos de arte feitos em nome da contemporaneidade. Um prosaico alfinete fincado na parede e lá está a grande obra, escolhida entre centenas de outras a querer nos dizer que não passamos de meros e passivos espectadores, estupefactos com os caminhos do espetáculo e da banalização que a arte tem tomado nos últimos tempos. Uma lástima e um retrocesso quando se diz que qualquer um pode ser artista. Janela escancarada pra um bando que não sabe nada e atira a esmo, aproveitando a porra-louquice do momento. Todo mundo agora é videomaker, com resultados pífios. Felizmente, como toda regra tem exceções, vemos nesses mesmos salões alguns artistas baianos sobressaírem-se provando que o que importa mesmo é a “excelência” daquilo que se faz. Em outro período, tive uma preocupação social com os desígnios do homem contemporâneo, suas vicissitudes, em desenhos e gravuras das décadas de 70 e 80, mas, esta fase passou momentaneamente dando lugar à pintura. Penso com isso que nada é definitivo e, futuramente, posso me voltar para novos questionamentos, outras poéticas. Justino - No seu trabalho a cor sempre foi muito predominante. Nestas últimas obras, parece que você está exercendo alguma restrição à grande profusão de cores. Isso é uma coisa consciente, proposital? Guache Marques – A cor para mim é vibração e no meu trabalho já é quase uma “marca” junto com a textura cavada no gesso que consigo com a utilização de diversos materiais como goivas, esponjas, cabos do próprio pincel, tudo com o intuito de conseguir texturas. Na técnica em acrílica que realizo, com aplicação de massa acrílica, pigmentos e veladuras sucessivas de tinta, busco uma proximidade com o tema da exposição, e isto me deixou inteiramente à vontade para usar cores fortes. Mas “maneirei” um pouco e usei uma quase monocromia com predominância de amarelos e ocres. A intenção é limpar mais o trabalho no futuro, aproximar mais, dar um ‘close’. Como dizem os críticos: arte é síntese.
  • 8. Série Arquétipos e Arquetípicos. Um olhar sobre as idiosincrasias humanas, 1982 Lápis grafite, nanquim, lápis de cor e tinta acrílica sobre papel fotográfico “N” Dimensões da foto original: 70 x 90 cm
  • 9. Justino - O que é mais importante passar para o público: uma simbologia ou a vibração de um colorido que remete às origens africanas? Guache Marques – As duas coisas adquirem, a meu ver, o mesmo peso. Como você mesmo diz: o colorido intenso remete à nossa matriz de origem africana, mas, o que, realmente, me atrai é traduzir através da forma, a estilização dessa simbologia como fez o mestre Rubem Valentim, guardando-se aí a enorme distância que nos separa, é claro. Essa é, modestamente, a minha busca. Cor e forma se misturam e daí é que nasce o signo, cavado à exaustão nos relevos da pintura. O crítico de arte e artista plástico Caius Marcellus, é esclarecedor quando fala sobre estes signos na minha obra: “É claro que não se pode ignorar a presença dos signos pintados – estão aí simplesmente e, ademais, traçados com um vigor e uma clareza que preservam prontamente reconhecível a sua procedência. Restam, entretanto, formalmente depurados, não mais atrelados ao contexto original do qual foram arrancados. Do símbolo emotivo só vestígios subsistem: a abstração os esteriliza; dir-se-ia que tal símbolo é o objeto a ser consumido, e então a operação pictórica consiste em fazê-lo recuar”. Portanto, cor e forma caminham de mãos dadas nessa minha pintura. Uma não viveria sem a outra nessa exposição e juntas, dão o toque de magia e mistério tão próprias das nossas manifestações religiosas e populares. Justino - Na verdade as pessoas reduzem a África a alguns poucos símbolos de assimila- ção mais fácil ou a figuras humanas caracterizadas como orixás. Você esteve preocupado em buscar um conhecimento mais profundo nesse continente tão cheio de contradições? Guache Marques – Tal é a importância dentro do contexto artístico brasileiro da arte africana, que se criou recentemente o Museu Afro-Brasileiro em São Paulo, com curadoria do artista plástico baiano Emanoel Araújo, para mostrar e catalogar a infinidade de peças que formam um vasto acervo para futuras gerações e aqui, na Bahia, temos vários museus que se ocupam em mostrar a nossa descendência cultural e religiosa. Temos a Casa do Benin, a Casa de Angola, o Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira – MUNCAB, Museu Afro- Brasileiro da Universidade Federal da Bahia, enfim. Dentro de toda a iconografia e simbologia da arte africana temos a representação de vários elementos. O artista tem apenas que se inspirar e a partir deste conteúdo elaborar a sua obra única. Se assim não fosse, seria difícil termos a maravilhosa síntese emblemática de um Rubem Valentim ou a força criativa das esculturas monumentais dos Exus de Mário Cravo em Pituaçu, a magnífica abordagem ritualística do tema em Mestre Didi, a excelência técnica de um Juarez Paraiso, e ainda o Emanoel Araujo, só para citar apenas os maiores. Nessa mostra continuo fazendo os signos e ferramentas de orixás estilizadas de outras mostras, onde se respira africanidade e baianidade, reconhecendo assim o alcance universal dessa cultura, e entendendo que todo artista que aspira desvendar a autêntica natureza das coisas tem que buscar as suas raízes.
  • 10. Justino - A figura humana não passa mais pelo seu trabalho? Guache Marques – Nessa fase, até agora, não senti a necessidade de usar a figura humana. Posso até pensar nessa possibilidade futuramente o que é perfeitamente viável. Mesmo porque sempre usei a figura humana em outras fases e numa delas cheguei a extrapolar para estereótipos e simulacros da figura, numa abstração figurativa, através do desenho esboçado a partir da observação fortuita da fotografia da silhuetas de peixes secos, encontrados nas feiras livres. Tudo para passar aquilo que me predispunha a fazer na época que era dar uma visão distorcida do ser humano, revelando os seus arquétipos, num mundo competitivo e desigual com uma clara inspiração Baconiana. Justino - Você costuma dar nomes a cada obra ou prefere fazer uma referência ao conjunto? Guache Marques – Para esta exposição dei títulos a cada obra, porém acho melhor colo- car um título da série no conjunto de obras, dar um título à exposição, dar uma “cara” para a produção daquele período. Creio que ajuda a quem vê a obra a fazer uma leitura. Mas não é uma necessidade. A obra de arte tem seus próprios mecanismos de se fazer valer pela estética, pela poética e pela forma do que está ali realizado para fruição do especta- dor. E é a partir do próprio conhecimento de quem vê que é estabelecida essa interação. Justino - Você, um dos artistas expoentes da geração 70, como vê esse pessoal nos dias atuais. Parece que a grande parte anda meio sumida? Guache Marques – Interessante a vida. “Cada um no seu cada qual” como diriam alguns. Os artistas são por natureza arredios e adoram viver isolados com a sua arte. Acho que acontece com todos e com os artistas da chamada geração 70, não seria diferente. Cada um está no seu atelier fazendo sua arte. Tenho acompanhado a evolução de alguns que permanecem intrépidos na sua busca por uma arte que enalteça a Bahia e a projete no cenário artístico brasileiro. E também me alegra o fato de que isto aconteça com as novas gerações em sua busca por entender um mundo cada vez mais complexo, sempre com a preocupação com o contemporâneo.
  • 11. Entrevista para o Portal Cyberartes Justino Marinho (Artista Plástico e Crítico de Arte / ABCA) Como é o seu processo criativo? Alguns artistas fazem esboços seguidos, cada vez mais elaborados, antes de partirem para o trabalho final. Outros simplesmente fazem tudo de uma só vez. Como acontece com você? Guache Marques – Atualmente faço croquis imediatos, alguns esboços em papel, ou utilizo programas de computador como o Photoshop e parto para fazer o trabalho já com uma base do que pretendo. A experiência adquirida nos possibilita agir dessa maneira. Daí nasce o projeto do trabalho seja ele desenho, pintura ou até mesmo escultura e instalação. Agora, do ponto de vista do estilo, do conteúdo, essas coisas, creio que a obra de todo artista deve-se a uma volta às suas origens, e toda a influência que teve ao seu redor. Aí está localizada a fonte de inspiração que norteará o trabalho daqueles que se dispuserem a essa busca. Comigo aconteceu mais ou menos dessa forma. O meu trabalho desde o tempo em que ingressei na Escola de Belas Artes para fazer o curso de Artes Plásticas na Universidade Federal da Bahia, primou pela execução de um desenho que já me acom- panhava desde pequeno quando fazia histórias em quadrinhos e desenhava alguns super- heróis. Na escola aprimorei a minha técnica e aprendi como utilizar o desenho de forma profissional. Fiz realismo fantástico nos diversos desenhos a bico de pena em nanquim ilustrando livros de poesia e desenhos a pastel seco com tema social. Depois me interessei pela gravura chegando a ser professor das Oficinas de Arte em Série do Museu de Arte Moderna da Bahia na década de 80 e atualmente me dedico à pintura acrílica sobre tela. Na época da escola, o realismo fantástico e o surrealismo me serviram como fonte de inspiração pra traduzir aquilo que eu via e já fazia parte do meu imaginário. Com o tempo essas preocupações com o estilo foram se pulverizando e dando lugar a uma observação mais comedida do universo artístico, tendo a escola, através de alguns dos seus professo- res, exercido, a princípio, uma grande influência que mais tarde viria a ser dissipada com outras informações adquiridas.
  • 12. Você trabalha com sua arte todos os dias? Trabalha somente quando tem vontade, quando acontece inspiração ou sente a obrigação de produzir? Guache Marques – Todos os dias é claro, e sempre buscando a inspiração! Essa coisa de só trabalhar quando tem vontade (sic!) é para os políticos corruptos de Brasília! Encaro o trabalho artístico como outro qualquer e, aliás, só acredito no artista que pense e execute cotidianamente o seu trabalho mantendo essa disciplina com a sua arte. O exercício diário lhe dará experiência para desenvolver aquilo que pretende cada vez mais e melhor, atento à própria evolução da arte e sua contemporaneidade. Toda a minha produção, a princípio, está à venda mesmo porque vivo do que faço, mas acontece de ficar algumas vezes com um ou outro trabalho que mais me toca, o filho mais dileto. Porém, no site, no blog e nos catálogos que fiz para o portal www.calameo.org, as obras que mostro neles compreendem várias fases e já foram adquiridas, quase todas, por galerias ou colecionadores. Só estão lá no site como registro da minha produção. Como foi o início? É artista desde criança? Como foi a decisão de que iria ser artista? Guache Marques – Optei por artes plásticas desde cedo vendo exposições em museus da minha cidade, Feira de Santana, no interior da Bahia. Desde o inicio desenhava cartazes, histórias em quadrinhos e os próprios colegas me pediam sempre para desenhar retratos e outras coisas. Comecei também muito cedo a aprender a disciplina do desenho num escritório de engenharia e arquitetura a desenhar plantas de casa numa época em que não havia o AutoCAD (programa que hoje faz isso. A tal moleza de hoje em dia!). Era tudo na mão e com esse aprendizado o traçado do meu desenho já apontava para algumas questões que, mais tarde viriam a aparecer em minhas obras, ou seja, uma preocupação em compor geometricamente o espaço da obra. Como sou canhoto, penei para me adap- tar a alguns instrumentos como ‘aranha’ para normografar plantas, réguas, pranchetas pois tudo era fabricado para destros. Quanto à decisão mesmo de ser artista foi de supetão. Estava até certa altura dos meus estudos em dúvida se seria arquiteto (por causa da grana que acreditava ser maior) e artes plásticas (por acreditar que só através dela o homem pode interagir com o mundo de forma sensível e apontar caminhos). Claro que deu artes plásticas e fiquei com os resquí- cios da minha atividade como desenhista arquitetônico, que foi aportar no designer gráfico. Fico feliz que seja assim porque hoje me sinto mais preparado para entender os conceitos estéticos que norteiam qualquer obra de arte seja ela desenho, gravura, pintura, escultura ou mesmo instalações, pois estudei com afinco e essa “régua e compasso” tem sido de grande utilidade. Porisso, verifico hoje um caos no ensino e isto abrange também as artes plásticas. A formação é primordial para que se entenda o que está por vir. Hoje, é artista atirando a esmo pra todo lado pra ver se cola sem saber o princípio de nada. E os críticos tecendo elogios a essa aventura tresloucada, a esse espetáculo banal.
  • 13. Como você está encarando sua vida como artista hoje? Você é artista por inteiro ou isso ocupa só as horas vagas? Guache Marques – Exponho regularmente e tenho o respeito e a admiração da crítica e dos artistas pelo que tenho feito. A esta altura, com mais de 30 anos de atividades artísticas, tenho uma carreira na qual constam exposições na Europa (Paris e Londres), na China (Macau) e na América do Sul (Buenos Ayres). Recentemente fiz exposição individual em Salvador e no Rio de Janeiro pelo projeto Arte/Sofitel da Galeria Prova do Artista no Hotel Sofitel. Conquistei no V Mercado Cultural (evento bienal organizado pelo Instituto Via Magia / Salvador) o prêmio de Fomento às Artes concedido pela UNESCO para a América Latina na categoria Artes Plásticas. Possuo trabalhos em coleções particulares na Europa e Estados Unidos. Já fui professor de litogravura e xilogravura nas Oficinas de Arte em Série do MAM / Bahia; conto com centenas de coletivas e várias individuais no meu currículo, enfim, creio que estas realizações, embora poucas, me realizam pois o artista precisa deste reconhecimento pra poder “tocar” a sua obra sempre em busca de uma arte que aponte para novos caminhos. Também participei de júri em salões da Fundação Cultural do Estado da Bahia e Prêmio Braskem de Artes em Salvador. Acontece que também sou designer gráfico da TVE/Irdeb em Salvador e divido o meu tempo entre essa atividade e a artística propriamente dita. Como designer crio marcas, logotipos, cartazes, folders, enfim uma outra vertente do ato da criação artística. Ainda bem que essas duas atividades interagem convertendo-se numa única preocupação artística.
  • 14. Qual é a fixação? Muitos artistas têm fixação por longos períodos ou pela vida inteira, mesmo quando as fases vão se sucedendo. Às vezes é um tema, às vezes é uma cor, às vezes é um tipo de rabisco que está sempre presente. Existe isso? Guache Marques - Consigo distinguir a textura extremamente pessoal que utilizo, como um elemento presente em quase todas as pinturas. Pra dizer a verdade existe, na medida em que realizo já há bastante tempo, trabalhos numa técnica mista na qual utilizo massa acrílica, gesso acrílico e busco texturas através de procedimentos diversos. O trabalho se realiza a partir desta integração de vários materiais que fazem às vezes de ponta seca abrindo traços e formas na massa acrílica antes da secagem: goivas, pregos, cabos de pincéis, etc, que juntos à pesquisa de outras maneiras de elaborar a obra, dão o toque final do trabalho contemporâneo que busco. Tenho atualmente um tema que desenvolvo já há algum tempo que é o tema afro. Vários artistas brasileiros se debruçam ou debruçaram sobre este tema e cada um, à sua maneira, faz um trabalho onde as nossas referências afro-descendentes são lembradas. É um tema vasto. Alguns signos, emblemas, ferramentas de orixás estão presentes na minha obra atual. Estilizo e busco novas formas plásticas de representar esses signos em minha pintura. Devo também salientar que o meu trabalho passou por algumas fases que vieram dar nesta pesquisa afro. Antes havia uma preocupação mais com o realismo fantástico da década de 70, posteriormente um enfoque social por conta dessa época vivida, um tempo onde as liberdades eram cerceadas e o artista encontrava apenas no seu trabalho uma forma de gritar. O que você gostaria que as pessoas que olham o seu trabalho soubessem sobre a sua pessoa. Guache Marques - Não sei se o que faço passa ao observador a pessoa simples que sou. Penso que sou particularmente altruísta. Gosto de ajudar de alguma maneira as pessoas que de mim se aproximam. A rigor isto não está “dito” no trabalho. É da minha personali- dade e a linguagem artística se ocupa de outras verdades, outras estéticas. Este é um assunto realmente interessante: vida e obra deveriam interagir para um bom entendimento do que o artista pretende com a sua arte. Temos exemplos os mais variados de uma correlação amistosa entre a obra e o artista nas artes plásticas brasileiras. Vemos em Iberê Camargo, por exemplo, um grande artista de temperamento irascível e uma pintura abstrata agressiva de gestos e cores que corresponde a essa personalidade. Mas esta é uma observação isolada. Não procuro associar a obra ao temperamento dos artis- tas. Prefiro ver apenas a obra e tento conseguir dela só a leitura pertinente às questões intrínsecas da arte. Mas os exemplos dessa interação, obra e personalidade são vários na história da arte e o gênio Van Gogh encarna seu exemplo mais profundo.
  • 15. Como é a vida? Filhos? Família? Como é o cotidiano? Guache Marques - Levo uma vida relativamente simples. Trabalho cotidianamente na TVE/Bahia como designer gráfico e faço arte, articulando meu tempo entre essas duas atividades. Moro com a minha esposa e companheira há três anos. Ela é analista de sistemas e eu artista e designer. Assim, tenho um pé na informática, o que faz das nossas conversas sempre um aprendizado a mais. As artes plásticas na verdade é o que ocupa mais o meu pensamento no dia a dia e a busca é interminável por novas formas de agir e pensar arte. Filhos, claro! Tenho uma menina maravilhosa de dois aninhos que me ajuda a ver o sentido da vida e tudo mais com suas peripécias, perguntas e doce sabedoria. Quais endereços devemos divulgar? E-mail, página, telefone, etc. Guache Marques - Tenho um site que está sendo feito num escritório de desenvolvimento de sites e tão logo esteja pronto divulgo o endereço. Enquanto isso não acontece, mantenho na internet três endereços que dão uma boa visão daquilo que faço. São eles: www.guache.blogger.com.br (blog com fotos, trabalhos de várias fases - desenhos a pastel seco, bicos de pena, gravuras, foto-desenhos e pinturas, links para museus e galerias importantes, além de curiosidades sobre arte, e espaço para comentários dos internautas); www.flickr.net/photos/guachemarques (vários trabalhos postados cotidianamente, fotos pessoais, álbuns e textos) e www.calameo.org (portal de Portugal que disponibiliza espaço para o artista colocar catálogos com fotos, quadros e textos, monografias, ensaios, etc). No Calameo estão seis catálogos sobre a minha obra, currículo, exposições e textos críticos. Alguma coisa curiosa para ser contada? Guache Marques - Nenhum fato ou procedimento curioso. Não considero mania e sim disciplina e profissionalismo o fato de gostar de ter o atelier sempre limpo, com as tintas e outros materiais sempre arrumados por questão de espaço pra trabalhar. Só sei trabalhar assim. Tenho de estar bem com a minha cabeça livre das preocupações para poder me concentrar melhor no trabalho. O artista é, também, um visionário.
  • 16. Série Ilustração para livro de histórias afro Arte Digital (infogravura)
  • 17. Existiram fases nítidas na carreira? Guache Marques - Creio que sim, embora o estudo da obra do artista seja uma tarefa para os críticos de arte. Mas, consigo “ver” até aqui, no meu trabalho, cinco momentos ou fases que se interligam. Todo artista possui características que vão acompanhá-lo em toda a sua carreira, independente das fases. Antes e durante o tempo que cursei artes na EBA/UFBA, realizei desenhos a nanquim em bicos de pena num período em que estava em voga o realismo fantástico e Darcílio Lima, um cearense que tinha um trabalho fantástico e morava na Europa, foi uma das minhas primeiras inspirações. Fiz também desenhos a pastel seco e lápis de cor com ênfase num trabalho voltado para o social, seu lado inusitado. Costumo dizer que o que vi durante o período da ditadura foi determinante para mim e vários outros artistas, daí a conotação política no início. Uma coisa da qual não poderíamos nos desvencilhar assim tão fácil. Vivíamos um período de cerceamento das liberdades e isto, nos afetava de alguma maneira. Na década de 80 fiz gravuras como aluno e, mais tarde, como professor das Oficinas de Arte em Série do MAM/BA. Em meados da década de 80, elaborei um trabalho diferente, que evocava um discurso sobre a natureza humana, fruto de uma pesquisa feita a partir da observação casual de fotogra- fias, onde estavam estampadas a silhueta de vários peixes ressecados, desses que são vendidos nas feiras livres, chamados popularmente de “mirorós”, ou ainda “trespassados de dor”. Um fato corriqueiro mas que deve ser mencionado aqui é que este trabalho originou-se a partir da observação de uma foto desses peixes ‘secos’, jogada fora, já sem utilidade, pelo amigo e fotógrafo franco-brasileiro, Renato Assis. Ao vê-la, como que num estalo, ocorreu-me a idéia de trabalhar com lápis grafite, nanquim e tinta acrílica, dando- lhe novas conotações pois já possuia conhecimento do método que Salvador Dali denomi- nou de “paranóico crítico”, que consiste em ver imagens por associação, onde elas não aparentam estar, nascendo daí uma configuração que remetia a um discurso áspero sobre a condição humana. A utilização da distorção da figura animal para falar da insipidez humana é recorrente em minha obra e, acredito, na de alguns surrealistas. Estas fotos remetiam para uma observação de arquétipos do homem que, uma vez trabalhadas com nanquim, lápis grafite e tinta acrílica na própria foto em papel “N”, alterando-a, davam uma visão distorcida do ser humano, revelando o seu lado esconso, animal, num mundo cada vez mais competitivo e desigual. A pintura que veio a fazer parte do meu trabalho no início da década de 90, com o inter- esse cada vez maior por novos materiais e novos procedimentos. As pinturas desse período se revestem de um estudo da temática afro-brasileira onde magia e mistério me servem como fontes constantes de inspiração. Como disse, estas “fases” interligam-se através de detalhes que foram sendo aproveitados, de uma técnica para outra. Enfim, várias técnicas foram assimiladas ao longo da minha carreira e, ultimamente, tenho me interessado pela arte digital, fazendo uma releitura de instantes da minha obra.
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  • 19. O que o torna diferente dos outros artistas? Como você descreve a sua arte? Guache Marques - Não me acho diferente. Tenho um estilo e uma forma de ser e de ver as coisas por um ângulo bem peculiar. A origem, a família, o estudo e toda a vivência de uma pessoa a tornam única em meio a todas as outras e creio que minha história de vida está calcada nesses princípios. Mas o surreal- ismo e o realismo fantástico presentes nos primeiros trabalhos e também as foto-desenhos, diferenciavam meu trabalho dos demais no período da EBA, justamente por isso. Observar e transmutar, de acordo com esse legado e sua consequente realização. Já o meu trabalho atual descrevo como pintura abstrato-figurativa, se é que devemos rotular hoje em dia com algum ismo a produção da arte que alguém faz. Os trabalhos dessa fase em pintura são executados em tinta acrílica, gesso e massa acrílica de maneira muito pessoal, obtendo texturas na própria tela e estas texturas é que dão forma aos signos, tendo como tema a influência africana na arte e na cultura brasileira. São signos, símbolos, emblemas e ferra- mentas de orixás estilizadas em pinturas de cores vibrantes evocando os ritos afro e sua magia. Trabalhos que remetem à ancestralidade e suas interlocuções. Busco referências nos signos da cultura afro-baiana e desenvolvo esta fase com o objetivo de ir às suas raízes para daí trazer a inspiração de todo esse imag- inário, ressaltando, através da forma e da cor, o seu lado mágico-simbólico. Por fim, gostaria de ressaltar que “vivendo numa cidade como Salvador, onde a presença da cultura e da etnia africana é encontrada em cada esquina, em suas danças, ritos, cores e magia, não poderia deixar de me tocar com a abrangência dessa observação no meu imaginário de artista sintonizado com a minha época e sua contemporaneidade”. Como diria o poeta e antropólogo Ildásio Tavares, “...existe uma Tradição, cumpre conhecer seus signos.” Quais os planos para o futuro, como artista? Guache Marques - A intenção de todo ser humano comprometido com aquilo que faz é superar adversidades e, no caso dos artistas, “tocar” sua obra visando sempre um mundo melhor e mais digno no qual os homens se entendam. A “arma” (no bom sentido, claro!) que tenho para tornar possível isto, é através do meu comprometimento como artista e da minha arte. Aliás, acredito que só na arte seja possível essa compreensão mútua entre os homens. Nela encontro a força necessária para uma vida digna. Ao mesmo tempo em que estou atento a evolução recente das artes, as instalações, performances enfim, acompanho o meu tempo como artista antenado e penso que a arte deve evoluir sempre. Pois acredito que o artista é também, um repórter do seu tempo.
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  • 21. Trecho de entrevista concedida ao crítico de arte Claudius Portugal para o portal Canal Assembléia Por Claudius Portugal www.canalassembleia.ba.gov.br “Pra falar do meu encontro com a arte, tenho que me reportar à infância na cidade de Feira de Santana, onde nasci em 54 e estudei até 73. Esta cidade tão pródiga em nomes quando se fala de artes plásticas e literatura. Lá temos o Grupo Hera, liderado durante muitos anos pelo grande poeta Antonio Brasileiro, hoje membro da Academia de Letras da Bahia e outros grandes e premiados poetas como o Roberval Pereyr e até mesmo o Juraci Dórea que além de ser um dos maiores artistas locais, também escreve. Nas Artes Plásti- cas temos Raimundo Oliveira, Caetano Dias, Juraci Dórea, César Romero, Gil Mário. Vivi minha infância e adolescência lá, filho de torneiro mecânico e mãe dona de casa. Lembro, que meus primeiros contatos com o desenho se deram na escola, onde era requisitado pelas professoras para ilustrar aulas de Biologia e Geografia com desenhos a giz de mapas, células, abelhas, personagens da história do Brasil, etc., no quadro negro e, também de desenhar com gravetos na areia após a chuva, lances de futebol, goleiros em grandes dimensões. Não tenho registros dessa atividade, apenas na memória. Assim como das revistas em quadrinhos que fazia pra vender. Fui acometido de uma polio aos três meses no braço direito e essa circunstância me fez aprender a usar a mão esquerda o que passei a fazer com bastante praticidade. A rigor, não escreveria com a esquerda, mas, como existia o “dom” do desenho, ao longo do tempo houve a adaptação. Aos 15 anos aconteceu um fato que mudou o rumo da família. Perdi meu pai num acidente na fábrica de algodão onde ele trabalhava. Foram anos duros pra mim. Aos 16 na 2a. série de ginásio, ao ver os meus cadernos de desenho e matemática feitos de forma primorosa, a minha professora de Matemática Irma Amorim, me encaminhou ao grande e saudoso arquiteto Amélio Amorim, um dos maiores que Feira já teve. Lá aprendi os rudimentos de uma atividade que a rigor, não viria a seguir. A de desenhar plantas de casa. A régua e o compasso quem me deu foi este arquiteto, com quem trabalhei por quatro anos em seu escritório. Mas não seguiria a carreira de arquiteto. A arte já estava instaurada no meu pensamento e após alguma indecisão entre ser arquiteto e artista plástico, fiquei com a segunda opção por motivos da paixão, da intuição, da percepção, enfim. Costumava visitar o Museu de Artes após as aulas e via com volúpia a coleção dos ingle- ses, doada à Feira por Assis Chateaubriand, numa passagem pela cidade. Coleção impor- tante que hoje integra o acervo do Museu Regional de Arte-MRA/CUCA.
  • 22. ESCOLA DE BELAS ARTES Ao ingressar Na Escola de Belas Artes, encontrei-me com os mestres Juarez Paraiso, Riolan Coutinho e Jamison Pedra que foram, a princípio, minhas referências nos primeiros trabalhos a bico de pena e desenho a pastel seco, notadamente Juarez de quem por algum tempo me vi influenciado pela sua incrível arte, seu desenho, sua gravura e pintura, vigorosos de quem, até hoje, sou admirador. As minhas criações desse período da escola se revestem das preocupações do que se fazia em outros centros e o desenho a nanquim se tornou a minha primeira manifestação artística com ênfase no realismo fantástico em voga na época através de Darcílio Lima, um cearense que vivia na Europa. Desse tempo guardo na memória os bons momentos da escola, a companhia dos colegas Zivé Giudice, Florival Oliveira, Vauluizo Bezerra, Murilo, Bel Borba, Araripe, dentre outros. Consegui o primeiro lugar no Salão Universitário Nordestino de Artes Visuais no TCA, concorrendo com esses grandes nomes que hoje aí estão. São desse período os desen- hos a pastel seco, que aconteceram pela necessidade de acrescentar cor aquilo que fazia. AS FASES E ESTILO Passei por algumas técnicas até chegar às pinturas e info-gravuras atuais. Bicos de pena ou desenhos a nanquim Quando entrei na escola carregava comigo a bagagem do desenho. E aprimorei os desenhos a lápis evoluindo para o nanquim. Naquela época o desenho tinha mais valor e um artista costumava ser respeitado por essa técnica e seu desenvolvimento e não por peripécias do espetáculo como se vê hoje. Pastel seco e lápis Caran Dache Um necessidade de colocar cor nos trabalhos. Os trabalhos dessa fase mostram um envolvimento social e as figuras desenhadas esmurram o ar como que num grito de liberdade. Meu grito interior, por assim dizer. Nasceram trabalhos que manifestavam a minha inquietação ao que acontecia no mundo e no cotidiano das pessoas. Essa observação me parece ter origem nas opções políticas do meu pai e meu tio, que conversavam muito sobre esses assuntos, tendo o meu tio, inclusive, sendo morto pela ditadura, o que na época, me chocou bastante. Gravuras São do período como aluno e logo após como Professor Orientador das Oficinas de Expressão Plástica do MAMBa. Aí fiz algumas litogravuras e xilos que enalteciam uma busca pelo afro. Mais tarde elementos dessa observação apareciam nas pinturas com os signos. Foto-desenhos Uma pesquisa insólita e solitária. Ao ver uma foto do fotógrafo e amigo Renato Assis, hoje na França, morando em Paris, jogada fora por ele mesmo, num balde de lixo, perguntei-lhe se a foto não mais lhe interessava e com resposta positiva, a levei pra casa, ainda
  • 23. machucada e desenhei a lápis. Aprofundei essa pesquisa com idas à Feira de São Joa- quim junto com o próprio fotógrafo Renato para comprar e ali mesmo fotografar os peixes “mirorós” ou “trespassados de dor” - nome interessante que costumavam dar a esses peixes - vendidos em “enfieiras” para serem usados salgados como tira-gosto. Vi naquelas fotos a possibilidade de fazer um discurso que despisse o homem das suas vicissitudes, que evocasse a sua contraditória condição humana, do homem como arqué- tipo de si mesmo. Com nanquim, lápis de cor e tinta acrílica alterava a aparência primordial dessas fotos de peixes. A crítica de arte Matilde Mattos chegou a escrever um artigo falando sobre a utilização por parte de alguns artistas da figura e da silhueta de animais para daí elaborar um discurso sobre a realidade “distorcida” do homem moderno. Esse trabalho nasce e se desenvolve num período de grande admiração de pelas obras incríveis e distorcidas do grande artista Francis Bacon. Pinturas Como que num moto continuum, a busca por novas técnicas e formas de ver, sentir e interpretar o mundo ao redor, encontrei na pintura, digamos assim, um refúgio, um local onde aportar o resultado das minhas idas e vindas; minhas inquietações. O resultado é uma pintura cavada no gesso que utiliza de diversos materiais, veladuras de tinta acrílica, inclusive lixa, para realizar um trabalho focado, a princípio, no afro e na simbologia indígena. Nossas riquezas culturais. Aqui, os vestígios de incisões feitas no gesso e na massa acrílica ainda mole, resistem e encetam texturas que são a matéria primordial dessa atividade. A partir daí, vemos um colocar e tirar de tintas e traços, enfim, até o resultado final. Arte Digital A Arte Digital, Computacional, ou mesmo Info-gravuras, são um capricho meu de revisitar alguns trabalhos que fiz passando por diversas técnicas. É uma técnica relativamente nova e a faço por puro deleite. Pretendo numa próxima exposição mostrar alguns resultados.
  • 24. NOTAS DE AUTORES DIVERSOS Sobre a Arte A arte é um conceito mutante entre a razão e a intuição, inquietante na maioria das vezes, que espelha e reflete o mundo em seus desdobramentos e complexidades. Arte é construída de história. As múltiplas leituras que se possam fazer do universo artístico, aguçam nossos sentidos e iluminam nossa compreensão do mundo. A completude de um trabalho se dá quando alguém o vê. Daí nasce uma relação que tem muito a ver com o grau de conhecimento e informação de quem a observa. Senão o discurso artístico cai no vazio da ignorância. A Poética Cada artista possui a sua poética, e é a partir dela que se comunica com o mundo e seus amplos questionamentos. É a explicitação dos seus sentimentos perante o mundo contem- porâneo que interage primeiro consigo próprio e depois com os outros. Portanto o interior de cada artista é que o torna ímpar perante a arte que se faz no mundo. Ou seja, a arte reflete o significado da nossa existência, do espírito e da condição humanas. Texto de Ronaldo Brito “O raciocínio do artista atravessa o gesto criador inaugural para seguir o percurso problemático do mundo. O resultado, este sim, vai constituir a obra de arte, o resíduo de todas as mediações: uma carga de conflitos, construções e desconstruções. A Mídia Todos viramos mídia. Tudo virou mídia. E mídia é um meio condutor. De conteúdo humano. O que é fantástico. Enquanto no século XV precisava-se de décadas para um pequeno salto na indústria gráfica, hoje as revoluções são por minuto. A velocidade está na alma do novo século, e precisamos nos adequar a ela. A única forma de ter esse caos criativo como aliado é entrar no fluxo e inovar. Se você pensa que sabe tudo, está obsoleto”. Arte Conceitual Assim como em todas as outras áreas artísticas, as Artes Plásticas vivem constantemente em um impasse ético e estético. Assistimos diariamente a uma verdadeira guerra entre o mau gosto e o que é estética e eticamente admissível para quem possui um certo bom senso. Com o movimento de Arte Conceitual que se originou no final da década de 60, passamos a ter contato com uma nova estética, onde a beleza plástica cedia lugar à ideia. Essa nova estética já havia sido antecipada com brilhantismo - numa tentativa de romper com os dogmas da pura representação - por artistas como Marcel Duchamp, Alberto Burri, Antonio Tápies, entre outros. Ganhou fôlego ao longo das ultimas três décadas e até hoje somos brindados com obras que, em nome do conceito, utiliza-se de materiais como lixo, insetos, carne crua, cadáveres de animais em decomposição e toda sorte de bizarrices, até reproduções. Um verdadeiro festival do espetáculo da banalidade que virou as artes ultimamente. E assim continua.
  • 25. guache marques | currículo Guache Marques é natural de Feira de Santana (janeiro de 1954). Desde o início na EBA (Escola de Belas Artes da UFBA) em 1974 com os desenhos a nanquim e pastel seco, até as pinturas e arte digital atuais passando, ainda, pelas gravuras e fotos-desenho nas oficinas do MAM nos anos 80, tem desenvolvido, um trabalho voltado para o entendimento do homem, seus desígnios, suas vicissitudes, suas crenças e mitos. Tem elaborado em suas pinturas um discurso que hoje apresenta acentuadas preocupações com a nossa identidade mestiça e nossa cultura de tradições e contemporaneidade evocando as raízes de um cotidiano que ele mesmo vivencia através da releitura de signos da cultura afro e indígena, onde magia e mistério lhe servem como fontes constantes de inspiração. Ultimamente dedicando-se à arte digital, além da pintura e do desenho, Guache tem diversificado ainda mais a sua atuação nas artes plásticas. Já transitou com desenvoltura por diversas técnicas como os desenhos a nanquim e pastel seco dos anos 70, com premiações no Gabinete Português de Leitura em Salvador (1º prêmio em desenho) em 1975 e em 1978 no I Salão Universitário de Artes Visuais no TCA (1º prêmio de aquisição em desenho); assim como na década de 80 com as fotos-desenho e gravuras nas Oficinas do MAM; e também as premiadas pinturas dos anos 90 com o prêmio de Fomento às Artes concedido pela UNESCO em 2003 no Mercado Cultural com sala especial no Conjunto Cultural da Caixa. Recebeu ainda, prêmios em instalações no Encontro de arte da FUNCISA (Fundação Cidade de Salvador) em 1976 e Bienal do Recôncavo da Fundação Danneman, em co-autoria, em 1991. A Arte Digital chega pra inserir sua obra numa nova mídia e completar o elenco de novas técnicas, demonstrando assim, as preocupações do artista com o seu tempo. Consta no seu currículo, individuais na Galeria GAFFES em Feira com desenhos em 1974, na Galeria ACBEU com pinturas em 1998 e 2002, no MAC em Feira de Santana em 2008 com pinturas e arte digital e no Projeto Arte/Sofitel da Galeria Prova do Artista em 2004/Salvador, 2005/Rio de Janeiro e 2006/Costa do Sauípe com pinturas e arte digital, além de dezenas de coletivas em Salvador, Buenos Ayres, Coritiba, Rio de Janeiro, Macau (China) e Paris. Participou ainda de diversas exposições; no Museu de Arte da Bahia - Geração 70 / Salão de Artes Visuais e Tropicália no MAMBa/ coletiva em Buenos Aires durante a Semana de Intercâmbio Cultural Brasil-Argentina / coletiva pelo projeto Arts Plastiques d"aujourd"hui em Paris-França / pelo projeto Arte Arte Salvador 450 anos no MAM, Macau/China, Porto/Portugal, Curitiba e Museu da Cidade em Salvador / coletiva Brazilians On The Move Exhibition em Londres na Galeria Tavid / expo Bahian Artists Exposition - W. K. Kellogg Fundation no ICBA Salvador / expo coletiva e acervo Faraimará - Homenagem aos 70 Anos de Mãe Stela - llé Axé Opô Afonjá / Projeto de Revitalização do Parque Histórico de Cabaceiras - Museu Castro Alves - Muritiba/BA / Arte Comestível em Salvador e Feira de Santana / expo coletiva 2334 no Casarão do Pelô / Circuito das Artes. Realizou diversos painéis coletivos em Salvador, destacando-se o da Biblioteca Central da UFBA, Secretaria de Administra- ção no Centro Administrativo, Escola Polivalente do Cabula, Artistas em Defesa do Parque São Bartolomeu, Projeto Natureza Viva - Dia Mundial do Meio Ambiente, além de doações para campanhas em prol da Irmandade da Boa Morte em Cachoeira, pela preservação da Ararinha Azul, em defesa do Parque São Bartolomeu, em homenagem aos 70 anos de Mãe Stela do Ilê Axé Opô Afonjá. Possui quadros em acervo do MAMBa (Museu de Arte Moderna da Bahia), MAB (Museu de Arte da Bahia), Museu de Castro Alves em Muritiba, ACBEU (Associação Cultural Brasil Estados Unidos), Faculdade de Geologia - Pavilhão de Aulas da UFBA, Gabinete Português de Leitura, Museu Regional de Feira de Santana/MRA/CUCA, Museu de Arte Contemporânea/MAC em Feira, Pinacoteca do CDL Clube dos Dirigentes Lojistas – Feira de Santana/BA. Utilizando as técnicas de bico de pena e pastel seco, fez ilustrações para a Revista Exu (publicação da Fundação Casa de Jorge Amado), Revista da Bahia, livro de contos “Dona Cici, A Contadora de Histórias, alem de diversos livros de poesia. Como Designer Gráfico, criou logomarcas, cartazes e folders para várias instituições. Fez parte da comissão julgadora do IV Salão Regional de Artes Plásticas em Valença pela Fundação Cultural do Estado da Bahia em 2004 e do Prêmio Braskem de Cultura e Arte em 2007. Designer Gráfico do Irdeb/TVE Bahia.
  • 26. resumo | alguns textos críticos “ A impressão do conjunto é de que o artista, não obstante a serenidade da pessoa, habita fantástico mundo de uma civilização tribal em permanente festa. Pois a profusão de cores fortes é característica dominante em sua obra, no que revela um equilíbrio admirável.” Gláucia Lemos, 2011 | Crítica de Arte (pós graduação UFBa) | Escritora ( Academia de Letras da Bahia e União Brasileira de Escritores/SP) “ É claro que não se pode ignorar a presença dos signos pintados – estão aí simplesmente e, ademais, traçados com um vigor e uma clareza que preservam prontamente reconhecível a sua procedência. Restam, entretanto, formalmente depurados, não mais atrelados ao contexto original do qual foram arrancados. Do símbolo emotivo só vestígios subsistem: a abstração os esteriliza.” Caius Marcellus, 2010 | Artista Plástico, Musicista “ Uma trajetória histórica e um artista que sabe lidar com a matéria plástica.” Aldo Tripodi, 2005 | Crítico de Arte, Poeta, Ensaísta “ Nos trabalhos atuais de Guache Marques, a figura propriamente dita, desapareceu, deixando um grafismo, realizado de forma pessoal, no qual transparece a simbologia do misticismo baiano. As cores estão cada vez mais vibrantes e diversificadas e o apuro técnico segue o seu ritmo cada vez mais atraente.” Justino Marinho, 2004 | Artista Plástico | Crítico de Arte "... nossa relação com sua arte deve atravessar a visceralidade de sua expressão... que chega hoje a um abstracionismo/figurativo com o referencial nos signos afro-brasileiros, sejam religiosos ou profanos, reinterpretando uma cultura que nenhum de nós, aqui vivendo, podemos evitar em nossas vidas, quanto mais em nosso imaginário”. Claudius Portugal, 2002 | Poeta, Ensaísta e Crítico de Arte “ Nas composições que estrutura dentro do espaço de cada tela, não é a forma explícita dos signos que revelam o tema... Seus trabalhos desta série revelam o que é real para ele na nossa cultura: a força da fé e do rito que paira entre o sensual e o espiritual, o sincretismo religioso que nos leva a ver em torno das formas monumentais e icônicas, uma auréola sacra que tanto envolve o peji quanto o santuário”. Matilde Matos, 2002 | Crítica de Arte | Membro da A.I.C.A. e A.B.C.A. “... a sua linguagem registra impressões, seu olhar sobre o real, o cotidiano. Trata-se de uma grande riqueza artística, razão pela qual a Câmara Municipal de Salvador registra votos de louvor ao pintor e reconhecimento ao seu talento que tanto honra os soteropolitanos. Javier Alfaya, 1998 | Presidente da Comissão de Educação, Cultura, Esporte e Lazer na Câmara Municipal de Salvador " Guache, por detrás de sua aparente linearidade e economia, aponta para um dos traços mais marcantes do pós-moderno, que é o compromisso dialético com a raiz." Ildásio Tavares, 1998 | Poeta e Crítico de Arte “ Seus trabalhos perderam muito da suavidade cromática, em que jà era evidente a prioridade ao mundo interior do artista. Mas quem pode ser suave face a nossa controvertida realidade? São pinturas fortes e originais, sugerindo uma fusão fortuita do comportamento natural com a selvageria psicológica.” Matilde Matos, 1988 | Crítica de Arte | Membro da A.I.C.A. e A.B.C.A. ” Sua obra foge ao discurso fácil do homem feliz. Antes, sem rodeios, mostra o seu lado mais esconso e vil - aquilo que nos constrange. Com um apurado domínio técnico, trabalhando com pastel e tinta acrílica, o artista vai nos dando conta da despersonalização a que o poder tem submetido o homem.” Washington Queiroz, 1986 | Poeta e Antropólogo Social “ Guache Marques despe o homem de seus valores morais, tirando-o do pedestal da escala zoológica e discursa amplamente sobre o seu lado burlesco... mostrando toda sua crueza, em todos os jogos que a raça humana se propõe a jogar e sustenta a análise da competição desenfreada do homem, contra si próprio.” Kássia Maria, 1985 | Jornalista
  • 27. referências bibliográficas Revista Veracidade__________________________________________________________________ Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente (SEDHAM) Salvador/Ba - Ano 6 No. 10 - Dezembro de 2010 - págs 97 a 110 Livro 50 Anos de Arte na Bahia - Matilde Matos__________________________________________ Dezembro de 2010 - págs 196, 197, 242 e 243 Revista Viver Bahia_________________________________________________________________ Revista de Turismo da Bahia - Ano I, No. 6 - Fevereiro de 2008 - págs 32 e 33 Arte/Arte Salvador 450 Anos_________________________________________________________ Catálogo com texto - págs 104 e 105 Catálogo com Obras do Acervo do ACBEU_____ ________________________________________ Salvador/Bahia - 2003 - págs 96 e 97 Pinacoteca da CDL_________________________________________________________________ Centro de Dirigentes Logistas em Feira de Santana - págs 38, 39, 40 e 41 Revista da ADEMI/BA_______________________ ________________________________________ Associação de Emp. do Mercado Imobiliário da Bahia - Ano 4 No. 23 - 2005 - págs 66 e 67 Correio da Bahia___________________________________________________________________ Caderno Folha da Bahia - Entrevista de 08 de março de 2005 Livro/Catálogo 100 Artistas Plásticos da Bahia__________________________________________ Galeria Prova do Artista - Patrocinio COPENE - pág. 59 Revista Dendê de Cultura e Arte______________ ________________________________________ Nº 7 - págs. 20 e 21 Jornal Soterópolis__________________________________________________________________ Ano 1 No. 4 - pág. 4
  • 28. CONTATOS Fones: 55 71 9936 6264 | 55 71 3116 7431 EMAILS guachemarques@hotmail.com guachemarques@yahoo.com.br guachemarques@gmail.com ENDEREÇOS NA WEB http://www.canalassembleia.ba.gov.br/DetalhesVideo.aspx?ProgramacaoID=2006 entrevista de 42 minutos, concedida a Claudius Portugal para o Portal Canal Assembléia com o depoimento de vários artistas sobre artes e seus questionamentos. www.guache.blogger.com.br blogsite com textos, links para museus e galerias e obras de todas as fases do artista. http://www.cyberartes.com.br/artigo/?i=582&m=44 página do artista no CIBERARTES, site sobre artes plásticas http://www.expoart.com.br/guachemarques/ página do artista no EXPOART, site com ensaios, críticas, links e obras de diversos artistas. http://www.facebook.com/home.php#!/Guachemarques página do artista com textos, links variados, álbuns e curiosidades. http://www.flickr.com/photos/guachemarques/ página do artista no site do Yahoo com fotos e álbuns compartilhados. http://www.arteatual.net/art-guache.htm página do artista no site ARTE ATUAL. Obras, biografia e links para vários museus e galerias. http://pt.calameo.com/read/0003755181c2a08d3f74a página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de pintura. http://pt.calameo.com/read/0003755182b94555c9f53 página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Arte Digital. http://pt.calameo.com/read/000375518f5ddf5e3ea36 página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Foto-desenhos. http://pt.calameo.com/read/0003755180d27a83ce6ff página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Gravuras. http://pt.calameo.com/read/00037551898daec6d64ba página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Desenhos a Pastel Seco. http://pt.calameo.com/read/000375518767cf3106a39 página do artista no site português CALAMEO. Catálogo virtual de Desenhos a Nanquim.