2004 en anpad aspectos epistemológicos do dilema teoria prática

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2004 en anpad aspectos epistemológicos do dilema teoria prática

  1. 1. Aspectos Epistemológicos do Dilema Teoria-Prática no Ensino de Administração deEmpresasAutoria: Samuel Cruz dos SantosResumo Este artigo busca, à luz da análise de trechos das Diretrizes Curriculares dos Cursos deGraduação em Administração de Empresas e da leitura de autores de Metodologia de Pesquisa eTeoria Geral de Administração, descaracterizar a importância atribuída à possível dicotomiateoria-prática no ensino de Administração de Empresas. Discute-se, com exemplos de autoresclássicos em Administração e Metodologia e com considerações contemporâneas, se procede ainquietação presente na maioria dos centros de ensino de Administração de Empresas em relaçãoa uma abordagem mais prática para os cursos. As considerações levam em conta, basicamente, aliteratura de ciências sociais no que diz respeito à Metodologia e a análise do problema parte,precisamente, da definição de Administração de Empresas como ciência social. A conclusão éque o debate encontra-se fora do foco, deslocado de seu eixo se forem adotados determinadosprincípios metodológicos.1. Introdução O ano de 2004 testemunha um importante acontecimento para o ensino de Administraçãode Empresas no Brasil, pois foi publicada no Diário Oficial da União de 04/03/2004 a Resolução01, de 01/02, que institui as Diretrizes Curriculares dos Cursos de Administração de Empresas noPaís. Pela própria natureza da área de conhecimento e por sua juventude como ciência, aAdministração de Empresas é, nos termos de Bourdieu (1994), objeto em construção, ciência emvias de se fazer. Como as demais ciências sociais, carece o pesquisador em Administração deEmpresas de vigilância epistemológica em vários graus1 e de um posicionamento diante de seuobjeto de estudo que imprime ao trabalho de pesquisar dificuldades extremas. O Conselho Federal de Administração destaca, em trabalho que sintetiza a história doscursos de Administração de Empresas no Brasil, que “os cursos de administração no Brasil têmuma história muito curta, principalmente se comparamos com os EUA, onde os primeiros cursosna área se iniciaram no final do século passado, com a criação da Wharton School, em 1881. Em1952, ano em que se iniciava o ensino de administração no Brasil, os Estados Unidos jáformavam em torno de 50 mil bacharéis, 4 mil mestres e 100 doutores, por ano, emadministração”.2 Verifica-se, portanto, que não somente os cursos têm história recente no Brasil,como também, ainda que tenham sido iniciados em 1881 nos Estados Unidos, a área é bastantejovem.Entretanto, embora de história relativamente curta, a Administração de Empresas no Brasilassiste à expansão acentuada do número de cursos e, conseqüentemente, do número deprofissionais formados ano a ano. Em função deste crescimento acentuado, o estabelecimento das diretrizes curriculares éfundamental para dotar o estudante de instrumentos eficazes para viabilizar a objetivação, anecessária ruptura e o necessário rigor diante do objeto de estudo. Em Administração, como nasdemais ciências sociais, “a influência das noções comuns é tão forte que as técnicas de 1
  2. 2. objetivação devem ser utilizadas para realizar efetivamente uma ruptura que, na maior parte dasvezes, é mais professada que concretizada.”3. A ruptura, portanto, faz-se necessária para a construção do objeto de estudo para além dasaparências imediatas. A aparente dissociação entre Administração de Empresas e umaperspectiva teórica mais apurada paira como uma nuvem persistente entre os estudantes degraduação e, certamente, atua no sentido contrário desta necessária ruptura. A expectativa apriori parece ser a de um curso eminentemente prático, voltado para o mercado ou qualquer dostermos usual e largamente empregados entre os estudantes de Administração. Parece necessário reafirmar, permanentemente, para os alunos de Administração deEmpresas o caráter de ciência social de sua área. Como tal, trata-se de ciência por fazer, de objetoa construir no decorrer da prática. Em termos mais precisos ainda, trata-se da impossibilidade daseparação entre teoria e prática. Não há, por certo, um mundo da prática que não tenha como seupano de fundo a teoria do social, a teoria administrativa. Não há, pois, como ignorar a interaçãoprofunda, indissociável entre teoria e prática. Não há, nesta afirmação, qualquer adesãometodológica que, a priori, eleja esta ou aquela corrente de pensamento. Há, provavelmente, umaopção materialista em detrimento do idealismo subjetivo nos termos de Lefebvre (1991),destacando-se, nas palavras do autor, que “ A separação metafísica entre sujeito e objeto – que,ao mesmo tempo, coloca o problema e o torna insolúvel – reproduz e agrava, nas condições daconsciência moderna, a separação imaginária, o desdobramento fictício entre a parte lúcida denosso ser (a alma, o espírito) e a parte “natural” (o corpo, o mundo).Para eliminar esse problema insolúvel, basta considerar a relação em questão como um fato,tomando-a tal como se apresenta: o sujeito e o objeto, o pensamento e a natureza, são diferentesmas ligados, através de um liame que é uma interação incessante.”4 Desta forma, o objetivo deste trabalho é, à luz das Diretrizes Curriculares para os Cursosde Graduação em Administração de Empresas, negar a existência do que se estabeleceu como umgrande mote dos cursos: a necessidade de ter um curso voltado para o mercado ou, de forma maisamena, a necessidade de interação entre teoria e prática.2. Alguns Aspectos Metodológicos Este artigo estruturou-se a partir da leitura de vários autores nos campos da Metodologiada Pesquisa e da Teoria Geral de Administração e da constatação, a partir da leitura das DiretrizesCurriculares dos Cursos de Graduação em Administração de Empresas, de certa dissonânciainterna no texto da Resolução se confrontado com algumas questões básicas de metodologiacientífica. Obviamente, não há a expectativa de que um texto legal, que segue determinadasnormas jurídicas em sua confecção, seja um tratado metodológico. Entretanto, parte-se dapremissa de que a norma reflete a posição dominante em determinado momento sobre o assuntoem questão e, desta forma, busca-se, no espírito da lei, a interpretação desta posição. A partir da leitura das Diretrizes, alguns artigos, os que mais esclareciam a questão dainteração teoria-prática em Administração de Empresas, foram destacados e, a partir do aporteteórico de autores citados no decorrer deste artigo, algumas considerações de ordem oraepistemológica, ora de método foram feitas. 2
  3. 3. A escolha dos autores não seguiu um padrão pré-determinado de filiação a uma ou outracorrente metodológica. O único fio condutor foi considerar a Administração de Empresas comociência social. Alguma inclinação foi feita no sentido de privilegiar a metodologia sociológicapela crença em sua generalidade, porém, no que guarda de especificidade, foi preservada a leituraespecífica da Administração de Empresas de seu objeto de estudo. Assim, autores como PierreBourdieu, Jean-Claude Chamboredon, Jean-Claude Passeron, Henri Lefebvre, Émile Durkheimforam utilizados como fontes de algumas considerações. Outros autores, como Pedro Demo,Michel Thiollent, entre outros, foram utilizados, embora não necessariamente citados no corpo dotexto, como fontes de método e metodologia. No campo da Teoria Geral de Administração, osexemplos foram colhidos de Frederick Winslow Taylor, Henri Fayol, Peter Drucker e outros.Adicionalmente, buscou-se a utilização de pesquisa recente como exemplo da impossibilidade dedissociação teoria-prática nos termos explicados nas seções que se seguem. A escolha dos autores de metodologia, embora não esgote as abordagens existentes sobreo tema, não se constitui em grande defeito, visto que o foco do trabalho está na questão teoria-prática e, em que pesem algumas diferenças conceituais, vários pensadores em metodologiapoderiam ser escolhidos para exemplificar o que se pretende. Por fim, vale, uma vez mais, ressaltar que a escolha dos artigos do texto das DiretrizesCurriculares foi feita de acordo com a necessidade da análise da fraqueza de utilização do termo“curso mais voltado para a prática” no ensino de Administração. Tal fato, entretanto, nãosignificou uma leitura descontextualizada, mas, sim, direcionada ao fim pretendido. Tal escolhanão introduz viés pelo simples fato de não se pretender uma análise das Diretrizes Curriculares,mas apenas tê-las como pano de fundo para a questão que se propõe.3. Diretrizes Curriculares - Epistemologia e Análise3.1 – Considerações Epistemológicas Não há, aqui, a intenção de conciliar pensamentos antagônicos em uma espécie de síntesesem sentido que una teorias ou metodologias de coerências e lógicas internas mutuamenteexcludentes, mas apenas ressaltar aspectos de diferentes visões de mundo, de diferentes noçõessobre como lidar com o objeto de estudo, que podem auxiliar a reflexão sobre o ensino deAdministração de Empresas e, certamente, podem ajudar no esforço epistemológico da área deAdministração. É uma pretensa síntese, descompromissada com a história da ciência, masousada, por certo, exatamente por isso. Assim, reafirmo com outras palavras, não é preocupaçãodeste artigo discutir a metodologia, o empirismo, o positivismo, o estruturalismo, ofuncionalismo, o sistemismo, a dialética, o racionalismo aplicado, o existencialismo ou qualqueroutra corrente metodológica. Ainda que citações de pensadores e autores filiados a uma ou outracorrentes sejam feitas, não se trata da defesa pessoal da metodologia em si, mas daexemplificação necessária ao esclarecimento da proposta. O foco está no trato do ensino daAdministração de Empresas como ciência social e, de partida, complexo, não se devendosubmeter a uma única abordagem, dando ao aluno a oportunidade de conhecer e promover anecessária ruptura com o senso comum, não lhe facultando, ao término do curso, a possibilidadede apenas ter a seu dispor o senso comum erudito, instruído, porém distante do rigor que requer aAdministração de Empresas em suas diversas áreas de conhecimento. 3
  4. 4. Nesta busca pela descrição da interação teoria-prática em Administração, nada há de novona afirmação que muitos fazem sobre a relação da teoria com o mercado. Deixo de lado adiscussão do conceito de mercado por não ser objeto do presente estudo e o tomo como sendo odo mercado de trabalho que, ainda vago, dá-nos a idéia do que se quer expressar: a interaçãoentre o que é ensinado em sala de aula e a aplicabilidade do conjunto final na prática do dia-a-diaempresarial. Demo (1985) destaca que “A pesquisa prática é aquela que se faz através do testeprático de possíveis idéias ou posições teóricas. (...) Todavia, a prática tem a função maisessencial de representar o lado político das ciências sociais. Aí, a própria omissão é umaprática, porquanto há de significar o favorecimento da situação vigente. (...) Freqüentementedizemos que na prática a teoria é outra. Isto não quer somente dizer que pode sempre haverdissonância entre os dois níveis, mas principalmente que um não se faz sem outro. Nada melhorpara a teoria que uma boa prática e vice-versa. (...). Quem imagina conhecer adequadamente arealidade, já não tem o que pesquisar, ou melhor, tornou-se dogmático e deixou o espaço daciência. (...) Cada ciência social dedica-se a uma faceta da realidade. É uma das formas de vê-la. Ao mesmo tempo, não se dedicando a outras facetas, inevitavelmente deturpa a realidade, seperder de vista que é uma faceta entre outras.”5 A busca quase implacável de algo que venha a ser qualificado como a perfeita articulaçãoteoria-prática revela um absurdo em si mesmo. Não há teoria dissociada da prática ou prática semteoria associada. Há, não obstante, o desconhecimento inconsciente de que a prática se dá a partirde determinado aporte teórico e de que a teoria só faz sentido se o objeto a que se refere estiverpresente. Nada havia de dissociação nas observações de Taylor acerca do controle e doplanejamento do trabalho quando afirmava que “os trabalhadores que são controlados apenaspelas ordens e disciplinas gerais não são adequadamente controlados, porque eles estão atadosaos reais processos de trabalho(...) Para mudar essa situação, o controle sobre o processo detrabalho deve passar às mãos da gerência, não apenas num sentido formal, mas pelo controle efixação de cada fase do processo, inclusive seu modo de execução.”6 Ora, nada há de tão somente teórico na observação ou tão somente prático. Trata-se daanálise do trabalho e de seu controle ou, fazendo-se uma extensão da interpretação, daconstatação do trabalho morto e da necessidade de sua minimização. Sabe-se que as observaçõesde Taylor, assim como as de Fayol, apenas para citar dois clássicos, surgiram da análise teóricada realidade em que viviam. De tal análise, emergem conclusões acerca do melhor receituário daAdministração Científica. Concorde-se ou não com tal receituário, fato é que emerge da teoriasubjacente à análise taylorista. Negar tal fato é negar todo a análise do sistema capitalista feita atéo início do século XX. Não é admissível, obviamente, supor que Taylor jamais tenha ouvido falarda obra de Marx ou que Fayol, e este ainda mais, por sua formação mais erudita, ignorasse AdamSmith e a divisão do trabalho. Assim, não há que se falar em teoria e prática dissociadas, poisseria como dissociar corpo e cabeça.3.2 – Análise das Diretrizes Curriculares – Aspectos do Binômio Teoria-Prática Destaco, a seguir, as principais questões julgadas dignas de nota nas DiretrizesCurriculares do curso de Administração de Empresas. Para cada destaque, algumas considerações 4
  5. 5. e ponderações são feitas com base em autores devidamente citados, sempre buscando o foco nodilema teoria-prática. 3.2.1 – Projeto Pedagógico O parágrafo primeiro do art. 2º das Diretrizes Curriculares do curso de Administração deEmpresas estabelece que o projeto pedagógico do curso, além da clara concepção do curso degraduação em Administração, com suas peculiaridades, seu currículo pleno e suaoperacionalização, abrangerá, sem prejuízo de outros, elementos estruturais. Tais elementosseriam, entre outros, os objetivos gerais do curso, contextualizados em relação às suas inserçõesinstitucional, política, geográfica e social, as condições objetivas de oferta e a vocação do curso,as formas de realização da interdisciplinaridade, os modos de integração entre teoria e prática, oscursos de pós-graduação lato sensu, nas modalidades especialização integrada e/ou subseqüente àgraduação, de acordo com o surgimento das diferentes manifestações teórico-práticas etecnológicas aplicadas às Ciências da Administração, e de aperfeiçoamento, de acordo com asefetivas demandas do desempenho profissional, o incentivo à pesquisa, como necessárioprolongamento da atividade de ensino e como instrumento para a iniciação científica e a inclusãoopcional de trabalho de conclusão de curso sob as modalidades monografia, projeto de iniciaçãocientífica ou projetos de atividades centrados em área teórico-prática ou de formação profissional,na forma como estabelecer o regulamento próprio. Vários são os destaques possíveis no conjunto destacado. Entretanto, para nossopropósito, vale ressaltar a ênfase no binômio teoria-prática. Primeiramente, fala-se em “modos de integração entre teoria e prática”. Uma vez mais,ratifico a posição de que, apesar de útil didaticamente, tal distinção não faz sentido. Não há cursode Administração de Empresas possível sem que teoria e prática estejam em constante interação.Não há possibilidade de tal curso sem que teoria e prática, fazendo aqui um paralelo com aformulação de Lefebvre apresentada anteriormente sobre sujeito e objeto em interação incessante,estejam em permanente integração, em constante e dialético envolvimento. Obviamente, a letrada lei necessita de tal distinção, de tal afirmação, porém, trazendo a questão para a análiseepistemológica, não há sentido lógico na distinção. A segunda menção diz respeito ao “surgimento das diferentes manifestações teórico-práticas e tecnológicas aplicadas às Ciências da Administração”. Neste caso, há avanço e recuona proposição. Em primeiro lugar, avança-se ao falar em manifestações teórico-práticas, estandoos dois últimos termos, no texto das Diretrizes, ligados por hífen. Ora, as manifestações são,poranto, teórico-práticas e, não, teóricas e/ou práticas. Confirma-se, neste caso, nossa afirmaçãode que não há sentido na separação. Entretanto, o texto da norma separa do binômio teórico-práticas as manifestações tecnológicas. Entende-se, então, que manifestações tecnológicas nãoseriam nem teóricas nem práticas ou que seriam uma coisa ou outra. Neste caso, há retrocesso naexposição. As manifestações tecnológicas são, obviamente, partes da interação teoria-prática enão podem, fora desta, ser consideradas. Por fim, ao tratar do trabalho de conclusão de curso como elemento estrutural do projetopedagógico, diz o texto da norma que os projetos poderão ser de “atividades centradas em áreateórico-prática”. A pergunta que subsiste é: se não for de uma atividade centrada em áreateórico-prática, será de que tipo de atividade? É evidente que se trata de reduzir a questão a uma 5
  6. 6. separação inconcebível entre a teoria, que seria, por exemplo, a prescrição de Peter Drucker aotratar da Administração por Objetivos:“O desempenho esperado de um gerente deve ser o reflexo do que se espera quanto à realizaçãodos objetivos da empresa; seus resultados devem ser medidos pela contribuição que dêem para oêxito do negócio. O administrador tem de saber e entender o que as metas da empresa esperamdele em termos de desempenho e o seu superior deve saber que contribuição pode exigir eesperar dele e deve julgá-lo de conformidade com a mesma.”7 A prática, então, seria a aplicação da prescrição, o ato de estabelecer as metas, dedescrevê-las, de medir os resultados. Ora, em tal prática, está presente a teoria proposta porDrucker. Na elaboração teórica de Drucker, esteve presente a observação da práticaadministrativa de acordo com sua ótica. Não há, portanto, atividade que não seja centrada emárea teórico-prática. Tal concepção remete à idéia, muito presente nos debates dos cursos deGraduação em Administração de Empresas, sobre o que deve ser objeto das monografias deconclusão de curso, se algo aplicado a uma empresa específica ou uma discussão teórica nocampo da Administração. Parece-me que, embora entenda o espírito da questão, a mesma estádeslocada. Seja qual for o modelo adotado, não há possibilidade de sobrevivência da teoria perse, isolada no mundo, nem da prática que não tenha atrás de si ou como seu duplo, a teoria. Podemos fazer o exercício contrário: o que dizer do dia-a-dia das organizações, seriaprático somente ou teórico-prático? É teórico-prático e não tem como ser diferente. Asorganizações, embora não enunciem princípios de Administração de Empresas a todo momento,estão em constante utilização quer de princípios, quer de aportes teóricos outros. Um exemplobastante ilustrativo é o resultado da pesquisa realizada pela Spencer Stuart, consultoria emrecursos humanos, com oito mil executivos de várias partes do mundo e que apontou cincopadrões de comportamento em todos os executivos “que construíram uma carreira extraordinária,definida como aquela que conjuga sucesso e felicidade. Além deles, o levantamento analisououtros dois grupos de executivos com bom nível de êxito: os “médios” e os “bem-sucedidos”8.De acordo com a pesquisa, é a seguinte a síntese dos padrões de comportamento: Quadro 1 Os Cinco Padrões dos Executivos com Carreira Extraordinária91. Eles entendem como o valor é criado na organização e gerenciam suas carreiras de acordo com a cadeia de valor.Há três fases de valor: a potencial (em que os empregadores os contratam pelo que farão), a da experiência (quandoos empregadores os contratam para pôr à prova seus sucessos passados) e a da colheita (na qual esses executivosaproveitam o conhecimento desenvolvido em anos anteriores). Isso os leva a construir o valor pessoal em cada faseda carreira.2. Eles praticam a liderança benevolente ao não forçarem seu caminho para o topo, e sim ao serem naturalmenteconduzidos para lá, por mentores, subordinados, chefes, colegas etc. Isso acontece porque eles se dedicam aosoutros.3. Eles superam o paradoxo da permissão, ou seja, fazem além daquilo que lhes foi autorizado. Assim, resolvem odilema de não conseguir um cargo sem ter experiência e, ao mesmo tempo, de não obter experiência sem ter umcargo.4. Eles se diferenciam utilizando o princípio de desempenho 20/80, em que dedicam 80% de seus recursos paracumprir suas metas e 20% para criar idéias de ruptura e vanguarda e gerar um impacto previsto. 6
  7. 7. 5. Eles não administram sua carreira de maneira “micro” e sim de forma macro, pois gravitam em torno das coisasem que são os melhores e que os apaixonam, e trabalham com pessoas de quem gostam e por quem têm respeito. Embora não seja o foco deste artigo, vale ressaltar que, de acordo com a pesquisa e naspalavras de James Citrin, diretor da consultoria responsável pelos resultados, “a habilidade paraaplicar os cinco padrões de maneira uniforme e constante conduz inevitavelmente ao sucesso”.10 A análise que nos importa é, precisamente, a da constatação da construção teórico-prática,presente na determinação de fases da cadeia de valor, na construção do conceito de liderançabenevolente, na do paradoxo da permissão e na do princípio de desempenho 20/80. Taisconceitos não estão, como descritos, em manuais de Administração de Empresas e também nãoserão encontrados nas leituras dos denominados teóricos de Administração. Entretanto, trata-sede construções prático-teóricas e não será surpresa vê-las, no futuro e com a devida elaboração,nos manuais de Administração de Empresas. 3.2.2 – O Perfil do Administrador, suas Competências e Habilidades Diz o art. 4º das Diretrizes Curriculares que o Curso de Graduação em Administraçãodeve possibilitar a formação profissional que revele, entre outras, as seguintes competências ehabilidades:a) desenvolver raciocínio lógico, crítico e analítico para operar com valores e formulaçõesmatemáticas presentes nas relações formais e causais entre fenômenos produtivos,administrativos e de controle, bem assim expressando-se de modo crítico e criativo diante dosdiferentes contextos organizacionais e sociais;b) ter iniciativa, criatividade, determinação, vontade política e administrativa, vontade deaprender, abertura às mudanças e consciência da qualidade e das implicações éticas do seuexercício profissional;c) desenvolver capacidade de transferir conhecimentos da vida e da experiência cotidianas para oambiente de trabalho e do seu campo de atuação profissional, em diferentes modelosorganizacionais, revelando-se profissional adaptável. O ato de expressar-se de modo crítico e criativo diante dos diferentes contextosorganizacionais e sociais, preconizado pelas Diretrizes como competências/habilidades doadministrador nada mais é do que o da interação teoria-prática a que me refiro todo o tempo.Nada mais reflete do que a dinâmica subjacente à prática administrativa, derivada do próprioambiente mutável, e a necessidade de interação entre sujeito e objeto nos termos de Lefebvre.Assim, segundo o autor, um esboço inicial de uma teoria do conhecimento, muito útil neste pontoda análise, seria sumarizado da seguinte forma:i. A suposição de um objeto real exterior, “a natureza ou matéria penetrada progressivamente –no curso da história da prática, da ciência e da filosofia – pelo “sujeito” humano ativo, cujasrepresentações, imagens e idéias correspondem ao objetivo de modo mais ou menos exato;”11 7
  8. 8. ii. A idéia de que o ser humano é um “sujeito-objeto”, pois “ele pensa, é “sujeito”, mas suaconsciência não se separa de uma existência objetiva”12;iii. O sujeito e o objeto são intrinsecamente ligados, embora sejam distintos. Trata-se da “lutaincessante no seio de sua própria unidade”.13 O sujeito, administrador, e o objeto, a organização em qualquer de suas dimensões, estãoem constante interação, em incessante luta. Desta interação, nasce ou se nutre a práticaadministrativa. São dimensões teórico-práticas que emergem ao mesmo tempo para a obtenção daexpressão criativa preconizada como habilidade/competência do administrador. Adicionalmente, a habilidade/competência para transferir conhecimentos da vida e daexperiência cotidianas para o ambiente de trabalho não revela apenas, como destaca o texto dasDiretrizes, um profissional adaptável. Revela um sujeito que não se dissocia de si mesmo, quecarrega consigo todas as dimensões de sua própria vida. Revela, ainda, o caráterindiscutivelmente social da Administração de Empresas e a necessidade de vigilânciaepistemológica por parte dos administradores. É ao mesmo tempo vantagem e desvantagem paraos administradores. É também, porém não somente, na transferência de conhecimentos e daexperiência cotidiana que corremos o risco das prenoções, que podemos conduzir a análise sem onecessário rigor. A título de ilustração, vale lembrar a exposição de Durkheim (1984), quandotrata das prenoções como obstáculo epistemológico: “Quantas vezes não se mostram tãoperigosas quanto inadequadas! Não é, portanto, elaborando-as, seja lá de que maneira for, quechegaremos a descobrir as leis da realidade. Pelo contrário, constituem como um véu que seinterpõe entre as coisas e nós, acabando por dissimulá-las a nós tanto mais quanto maistransparente julgamos ser tal véu. (...) As noções que acabamos de citar são as notiones vulgaresou praenotiones, consideradas [por Bacon] como a base de todas as ciências nas quais tomam olugar dos fatos. São os idola, espécie de fantasmas que desfiguram o verdadeiro aspecto dascoisas e que, no entanto, consideramos como sendo as próprias coisas.”14 É exatamente por ser a Administração de Empresas não somente uma ciência social, masuma recente ciência social, que a preocupação com as prenoções advindas da análise sociológicatorna-se fundamental. Quando se defende a utilização da experiência cotidiana, obviamente nãose está defendendo a utilização de experiência que não se preste a contribuir para odesenvolvimento do binômio teoria-prática, que não alimente e se alimente desta interação.4. Conclusões É ponto quase pacífico, ao utilizarmos o senso comum, que cursos de Administração deEmpresas devem estar voltados para o mercado. Tal fato sequer seria passível de discussão casoconsiderássemos que, mesmo fora do senso comum, dado o aporte teórico-metodológicodestacado neste artigo e supondo ser o mercado, como o conjunto das organizações, o objeto daprópria Administração. Neste sentido, o debate sobre um possível descolamento teoria-prática éinfértil. Entretanto, existe a demonstração, através de pesquisas realizadas junto aos formandos,da relativa insatisfação com o curso. Em 2001, por exemplo, 54,1% dos alunos que fizeram aavaliação do MEC afirmaram que a principal contribuição do curso foi a formação profissional.Entretanto, 37,9% afirmaram que quase raramente foram oferecidas aulas práticas e 44,6% se 8
  9. 9. referiram a aulas teóricas que continham, em média, 40 alunos em sala de aula. Por outro lado,39,2% afirmaram que a capacidade lógica e de análise crítica foi a habilidade melhordesenvolvida, enquanto 41,6% disseram que em poucas disciplinas foram solicitados a realizaratividades de pesquisa como estratégia de aprendizagem. Pode estar nesta última informação umapista do que se necessita. Atividades de pesquisa certamente promovem, de forma mais explícita,a percepção do aluno quanto a indissociabilidade teoria-prática. Outras pesquisas apontam para uma certa crise de identidade derivada, possivelmente, deuma formação excessivamente genérica, o que levaria à necessidade de uma formação maispragmática. Não há, neste caso, incompatibilidade com o que se disse neste artigo. A exigênciade uma estrutura curricular em sintonia com as exigências do mercado, certamente, não écontraditória com a idéia de que são indissociáveis a prática e a teoria. Foi com a intenção dedemonstrar tal fato que o exemplo mais contemporâneo da consultoria em recursos humanos foiapresentado e foi elaborada uma suposição de que, em dado momento, as observações surgidasna prática do mercado que, conforme destacado, não está dissociada da teoria, estejam refletidasnos manuais de Administração de Empresas. Desta forma, a contribuição deste artigo está na sugestão de reposicionamento do debatesobre teoria e prática em Administração de Empresas, debate este que pode dar lugar aaprimoramentos curriculares constantes não porque os cursos são teóricos, mas porque sãodinâmicos em relação ao seu objeto, mantêm com este uma relação de interação constante,incessante, absolutamente essencial do ponto de vista da atualização da Administração deEmpresas como ciência social aplicada. È neste contexto que se deve inserir o debate e, não, emum falso conteúdo que leva a crer que exista a possibilidade de disciplinas serem teóricas edisciplinas serem práticas. Reafirma-se, portanto, a impossibilidade de tal construção, visto quenão há prática administrativa sem teoria administrativa que a suporte e não há teoriaadministrativa sobre um vazio, um vácuo, um social que não se defina, que exista apenas noslaboratórios de empreendedorismo ou algo do gênero. Somente com tal consciência, os númerosrelativos à percepção de alunos sobre a existência de excesso de disciplinas teóricas ouinsuficiência de disciplinas práticas poderá ser alterada. A difusão desta abordagem, certamente,permitirá aos administradores que se formam, perceber sua formação para além de uma simplesaplicação prática, de algo imediato. Permitirá que a formação seja, de fato, uma formação voltadaà administração da mudança, da mudança constante, e que a percepção de mundo seja condizentecom um mundo da novidade. Nas palavras de Robert Fossaert, em sua análise sobre o mundo noséculo XXI, citado por Santos (1998), “...qu’est-ce qu’un monde? En quoi peut-il être nouveau,c’est-à-dire différent du monde précédent? Autrement dit: comment reconnaît-on un systèmemondial original parmi lês mondes dont l’histoire a gardé trace?” “o que é um mundo? Em queel epode ser novo, quer dizer, diferente do mundo precedente? Em outras palavras: comopodemos reconhecer um sistema mundial original entre os mundos dos quais a história guardourastro?”15 Transpondo as considerações para o mundo administrativo, é em um mundo novo acada período de tempo que o administrador se encontra, em um mundo que guarda, por certo, pparadigma anterior, porém surge com fatos novos, com novas estruturas e com novas demandas.Este administrador é um ser eminentemente teórico-prático ou está destinado a desaparecer nasmudanças constantes, já que a incapacidade de adaptação e de busca de soluções para o novo, oinusitado, não faz parte de sua formação se esta for pragmática, voltada, exclusivamente (ouprincipalmente) para aspectos aplicativos da Administração de Empresas. Afinal, as aplicações,dadas as mudanças, nascem fadadas à renovação ou à superação. A formação, portanto, não pode 9
  10. 10. ser hermética a ponto de pretender-se válida para um longo período de tempo. Deve ser, então,teórico-prática no sentido aqui apresentado.5. BibliografiaARMSTRONG, D. A gerência através de historias. Rio de Janeiro: Campus, 1996.Estados Unidos, do Japão e da Europa. Rio de Janeiro: Campus, 1997.BOURDIEU, P., CHAMBOREDON, J-C. & PASSERON, J-C. Ofício de Sociólogo:Metodologia da Pesquisa na Sociologia. 4.ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2004.BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.CHIAVENATO, I. Teoria geral da administração. São Paulo: McGraw-Hill, 1987.CHIAVENATO, I. Administração: teoria, processo e prática. São Paulo: Atlas, 1985.CONSELHO FEDERAL DE ADMINISTRAÇÃO. Site: www.cfa.org.br.CORADI, C. D. Teorias da administração de empresas. São Paulo: Perspectiva, 1998.CUPANI, A A crítica ao positivismo e o futuro da filosofia. Florianópolis: UFSC,1995.DECARTES, R. O discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 1998.DEMO, P. Introdução à metodologia da ciência. São Paulo: Atlas, 1985.DRUCKER, P. F. As fronteiras da administração: onde as decisões do amanhã estão sendodeterminadas hoje. São Paulo: Pioneira, 1988.DRUCKER, P. F. A prática da administração de empresas. São Paulo: Pioneira, 1981.DRUCKER, P. F. Sociedade pós-capitalista. São Paulo: Pioneira, 1993.DURKHEIM, E. . As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1984.FAYOL, H. Administração industrial e geral: previsão, organização, comando, coordenação econtrole. São Paulo: Atlas, 1997.HAIRE, M. Teoria da organização moderna. São Paulo: Atlas, 1966.HANDY, C.. A era do paradoxo. São Paulo: Makron, 1995.HANDY, C. B. Deuses da administração: como enfrentar as constantes mudanças da culturaempresa. Rio de Janeiro: Saraiva, 1994.HSM MANAGEMENT. Número 43, Vol.2, Março-Abril de 2004LEFEBVRE, Henri. Lógica Formal/Lógica Dialética. 5.ed. Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira, 1991.MAXIMIANO, A C. A . Teoria geral da administração: da escola científica à competitividade emeconomia globalizada. São Paulo: Atlas, 1998.MINTZBERG, H. Criando organizações eficazes: estrutura em cinco configurações. São Paulo:Atlas, 1998.PETERS, T. J., WATERMAN JR, R. H.. Vencendo a crise: como o bom senso empresarial podesupera-la. São Paulo: Harbra, 1986.PETERS, T. Prosperando no caos. São Paulo: Harbra, 1989.SANTOS, Rita de Cássia L.F.TAYLOR, F. W. Princípios de administração científica. São Paulo: Atlas, 1998.WOOD JÚNIOR, T. Mudança organizacional: aprofundando temas atuais em administração. SãoPaulo: Atlas, 1995. ZIEMER, R. Mitos organizacionais: o poder invisível na vida das empresas. São Paulo: Atlas,1997.THIOLLENT, M. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 1988.WEBER, M. Metodologia das ciências sociais. São Paulo: Cortez, 1998. 10
  11. 11. 1 Para uma discussão do conceito de vigilância epistemológica e de seus graus, ver BOURDIEU,P., CHAMBOREDON, J-C. & PASSERON, J-C. Ofício de Sociólogo: Metodologia da Pesquisana Sociologia. 4.ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2004.2 Para uma descrição completa do histórico, ver o site do Conselho Federal de Administração:www.cfa.org.br3 BOURDIEU, P., CHAMBOREDON, J-C. & PASSERON, J-C.op.cit.p.24.4 Lefebvre, H. Lógica Formal/Lógica Dialética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991,5.ed., p.55-565 Demo, P. Introdução à Metodologia da Ciência. São Paulo: Atlas, 1985, p.276 Braverman, H. Trabalho e Capital Monopolista. Rio de Janeiro: Zahar, 1977, p. 98.7 Apud Chiavenato, I. CHIAVENATO, I. Teoria geral da administração. São Paulo: McGraw-Hill, 1987.8 HSM MANAGEMENT. Número 43, Vol.2, Março-Abril de 2004, p. 130.9 Transcrito e adaptado de HSM Management. Op. cit., p. 134.10 HSM Management. Op.cit., p. 130.11 Lefebvre, H. op.cit, p. 7012 Id.,ibid., p.7113 Id.,ibid., p.7114 Durkheim, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1984.15 Santos, R.C.L.F. A Formação da Realidade Econômica: Para Além do Pensamento Linear.Brasília: UnB, 1998, p.9 11

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