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Ser TÃO Ser

Se o povo soubesse o valor que ele tem...

Resistência
Viajante
Realidade
Povo
Casa
Migração
Terra
Direito
Impacto
Campinho
Humanidade...
Comunidade
		Bahia
	Medo
			Ciclo
	Favela
Dureza
		Opressão
	Perseverança
	     Não sobrou Buchada do Costela
	Luz
		Cachorro
Realidade surreal
			Rotina
	     Gente bicho
			Polícia.                                 Publicação do Buraco d`Oráculo
			– A última                                    ano IV :: nº 25 :: set/12
			REPRESSÃO.                                 Distribuição Gratuita
O que será feito no projeto                                                                                    Editorial

Narrativas do Trabalho II                                                                                      O jornal A Gargalhada, que surge na
                                                                                                               perspectiva de divulgar os projetos do
                                                                                                               Buraco d`Oráculo e como prestação de
                                                                                                               contas públicas da realização de seus
                                                                                                               projetos, tem se tornado uma referência
       O projeto Narrativas de Trabalho II
                                                                                                               para o público e os artistas, inclusive fora
está sendo desenvolvido na região de São
Miguel Paulista e Itaim Paulista, extremo                                                                      de São Paulo, pois seu conteúdo nunca se
leste da cidade de São Paulo. São diversas                                                                     restringiu ao fazer do grupo. Ao contrário,
as ações que o compõe, desde a reunião do                                                                      sempre se buscou ampliar as discussões,
material produzido no projeto anterior, bem                                                                    sobretudo sobre o teatro de rua. Com esse
como o estudo sobre a precarização do tra-                                                                     objetivo, foi ampliada a quantidade de
balho, o teatro épico, estudo da música e o                                                                    páginas e a tiragem e a mesma sempre
aperfeiçoamento artístico dos integrantes                                                                      fica disponibilizada no site do grupo,
do grupo. Por isso, o projeto apresenta duas                                                                   para que pessoas que não tiveram
ações norteadoras: a) uma ação artística e b)                                                                  acesso ao conteúdo impresso possa tê-
uma ação pedagógica; que são divididas em                                                                      lo virtualmente. O objetivo é partilhar e
três etapas.                                                                                                   ampliar a discussão.
       A ação artística é a forma de manter
                                                                                                               Nessa edição as discussões passam
o grupo em relação com as comunidades e é
                                                                                                               pelo teatro documentário, sobre o uso da
composto de uma mostra teatral – 7ª Mostra
                                                                                                               música no teatro de rua, sobre políticas
de Teatro de São Miguel Paulista –, a ser re-
                                                                                                               públicas, entre outros. Apesar de
alizada em dezembro de 2012; e a circulação
do espetáculo que será produzido no desen-                                                                     parecerem díspares, os assuntos estão
volver do projeto. O espetáculo, inicialmente                                                                  interligados, pois a reflexão impulsiona o
nominado de Opera do Trabalho, será criado                                                                     nosso fazer, que, por sua vez só avança
juntamente com atores e não atores da região,                                                                  se o Estado investe, retornando o ciclo a
que participarão de uma oficina preparatória,                                                                  nova reflexão.
a ser iniciada em novembro próximo. Ainda             se discutirá o assunto tratado no espetáculo
                                                      (precarização do trabalho) ou aspectos esté-             A Gargalhada está no ar! Boa leitura!
dentro da ação artística, tem o aperfeiçoa-
mento técnico dos integrantes do grupo, que           ticos.
recebem aulas de corpo, percussão, canto e                   Como forma de registro do processo
de instrumentos musicais.                             será publicada três edições de A Gargalha-
       No que diz respeito à ação pedagógi-           da, que o leitor tem em mãos, com tiragens
ca, a mesma é composta de uma oficina tea-            de seis mil exemplares cada.
tral para até 20 pessoas, que receberão aulas                Por fim, o projeto prever a manutenção
teóricas e práticas, como forma de prepará-           da sede do grupo, Casa d`Oráculo, e produ-               Poesia da Capa

-los para o espetáculo a ser criado. Além dis-        ção de novo espetáculo, que cumprirá diver-              Criada coletivamente pelo Sarau Quilombaque, após a
so, como complemento teórico, ainda haverá            sas apresentações nas comunidades e outros               apresentação do espetáculo Ser TÃO Ser – narrativas
mais três encontros do Café Teatral, em que           pontos da cidade de São Paulo.                           da outra margem (a 99ª), dentro da programação da IV
                                                                                                               Mostra de Teatro de Rua da Zona Norte, realizada pelo
                                                                                                               Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo.



 Expediente:
 Buraco d`Oráculo: Adailton Alves, Edson Paulo Souza, Heber Humberto Teixeira, Lu Coelho e Selma Pavanelli | Colaboradores: Fernando Kinas, Jadiel Lima,
 Jussara Trindade, Sarau Quilombaque. | Projeto gráfico: Maurício F. Santana. | Contato: buracodoraculo@yahoo.com.br
 www.buracodoraculo.com.br | www.buracodoraculo.blogspot.com | Tel.: (11) 98152-4483 / 98188-3670 | Tiragem: 6000 exemplares


 2
Ser TÃO 100

    O negocio não está na partida e nem na
                chegada, está na travessia.
                                J. G. Rosas

       A soma de 100 apresentações do             fizeram as comunidades percorridas, mas não      zona leste, que fomos trocar experiências.
espetáculo Ser TÃO Ser – narrativas da outra      tínhamos o caminho, a forma do espetáculo.       Dessa forma, Ser TÃO Ser é o sertão que já
margem alcançada pelo Buraco d`Oráculo,           Tínhamos em mãos histórias de luta de um         estava dentro de nós desde o nosso inicio
torna-se um marco na trajetória do espetáculo     povo desterritorializado, aguerrido e jogado à   enquanto grupo de teatro de rua.
e do grupo. Desde agosto de 2009, quando          margem de uma grande cidade. Queríamos                   As      primeiras       apresentações
teve sua estreia, o Ser TÃO ser já percorreu      mostrar esse povo, trazê-lo para o centro de     do espetáculo foram feitas ainda em
48 cidades de sete estados das cinco regiões      nosso trabalho. Então o recorte escolhido,       meio a acertos, em que retirávamos ou
do país. Sabemos que o número alcançado           foi a luta por um pedaço de chão: a moradia.     acrescentávamos novos elementos. Muita
é pouco se comparado a espetáculos que            Essa questão social esteve presente em quase     coisa ficou para trás nas primeiras investidas
cumprem seguidas temporadas em espaços            todas as histórias colhidas em mais de 80        na rua. Inúmeros parceiros foram consultados
fechados. No entanto, se não esquecermos          horas de vídeo gravado e outras tantas escutas   como provocadores, em um exercício de
que Ser TÃO Ser é um espetáculo de rua, e         em trajetos e conversas com os parceiros         escuta, de maneira a adquirirmos elementos
que a cada nova apresentação – assim como         envolvidos direta ou indiretamente com o         para a construção de um trabalho que fosse
os feirantes – nos deslocamos e montamos          projeto. Como afirmou Leon Tolstoi: “Cante       verdadeiro e levasse à a reflexão por meio
a estrutura, apresentamos e tornamos              tua aldeia e cantarás o mundo”. Decidimos        das histórias contadas. Levamos à cena o
a guardar tudo, a quantidade de 100               cantar o nosso pedaço de chão, pois nos          humano, construído de forma narrativa e
apresentações é muito significativa. Além         identificamos como seres desterritorializados,   poética, sem perder o questionamento e a
disso, produzido em grupo, fruto de intenso       afinal todos os integrantes do grupo fazem       provocação necessária, a quem se propõe
trabalho técnico e reflexivo, apresenta, por      parte de algum tipo de sertão.                   usar o teatro como veículo de transformação.
meio de sua temática, a tomada de partido                 O Ser TÃO Ser pode ser considerado o             Mesmo com todo empenho e
da classe trabalhadora, tão marginalizada.        trabalho mais autoral do grupo, mas ele não      dedicação depositados na sua construção
Nesse percurso, estimamos que um público          está isolado na história de quase 15 anos        do espetáculo, sempre pairou uma dúvida
de 25.000 pessoas já tenha presenciado o          de Buraco d`Oráculo. Desde o inicio, cada        em relação a sua longevidade. Não sabíamos
espetáculo. Dessa forma, podemos considerar       projeto, cada novo trabalho é continuidade,      ao certo a estrada que iríamos percorrer
que a trajetória percorrida ao longo destas 100   desdobramento dos anteriores. Não                com esse trabalho. Queríamos, é certo - e
apresentações, firma a certeza do caminho         renegamos nada que tenhamos feitos               continua a disposição - ampliar as relações
escolhido pelo Buraco d`Oráculo.                  anteriormente, mesmo os equívocos. As            com os movimentos sociais, sobretudo os de
       O espetáculo é resultado de um             tomadas de decisões erradas fazem parte de       moradia, para levar esse espetáculo, porém
profundo mergulho em histórias coletadas em       nossa trajetória contínua de aprendizado e       esse caminho foi ainda pouco percorrido.
seis comunidades da região do extremo leste       amadurecimento. Para chegar ao Ser TÃO           Por outro lado, frequentamos a programação
da cidade de São Paulo, realizada dentro do       Ser foi necessário percorrer um caminho          de diversos festivais e instituições culturais,
projeto “10 Anos: a cidade, a comunidade e        que solidificasse a história do grupo, o         sempre levando a discussão da luta por
as pessoas na trajetória do Buraco”, graça aos    entendimento político e histórico no qual        moradia, sempre atual em um país de muita
recursos do Programa de Fomento ao Teatro         estamos inseridos e, principalmente, uma         exclusão.
para a Cidade de São Paulo. Ao iniciar o          aproximação e uma relação com o nosso
projeto tínhamos a certeza do que queríamos       público. Foi com o público da periferia, mais                                  Edson Paulo
ver em cena: os sujeitos históricos que           especificamente de São Miguel Paulista, na                          Ator do Buraco d`Oráculo.

                                                                                                                                               3
e,
            ad ta
         lidm u s e
     ica ge sc va d ro
    sma , eno es t
  u i ra : d ea
                                                                        distanciado da cena, mas pelo deslocamento
                                                                        do espetáculo no espaço e pela participação


M o a a t
                                                                        ativa daqueles que o acompanhavam, em
                                                                        seus movimentos e sons.


         c d
  onnibilio noa
 s cê i ã ru
                                                                                É a partir da ideia dessa recepção
                                                                        multissensorial - por parte não só de um
                                                                        espectador, mas um espectador-ouvinte - que



       s
                                                                        defendo aqui a necessidade de ampliarmos


     sepç de
                                                                        os nossos canais perceptivos, aprofundando


   o
                                                                        o entendimento do espetáculo de teatro
                                 O verbete recepção é definido pelo


 pec
                                                                        de rua de modo a percebê-lo como uma
                         Dicionário de Teatro de Patrice Pavis –        arte capaz de abranger simultaneamente
                         importante obra de referência para os


 r
                                                                        várias camadas de recepção igualmente
                         estudos teatrais da atualidade - como          importantes. Não se trata, evidentemente,
                         “interpretação da obra pelo espectador” e      de substituir uma primazia (visual) por outra
                         “análise dos processos mentais, intelectuais   (auditiva), mas de mergulhar mais fundo
                         e emotivos da compreensão do espetáculo”.      na obra de arte, e absorver o fenômeno
      Jussara Trindade   Mas, ainda que logo a seguir o autor utilize   teatral por outras vias que a modernidade
                         como recurso explicativo uma imagem do         renascentista, em seu ideal de Ciência,
                         espectador como que imerso “num banho          frequentemente deixou à sua margem. Trata-
                         de imagens e sons”, ao desenvolver suas        se de compreender o espetáculo teatral de
                         considerações sobre os códigos perceptivos     rua como obra artística essencialmente
                         da recepção a atividade teatral é descrita     audiovisual, e não apenas visual.
                         apenas dentro de um quadro referencial
                                                                                Nesse sentido, o caminho que
                         visual, corroborando a tendência de
                                                                        proponho abordar é o sonoro-musical, ou
                         apreensão do espetáculo ainda sob os
                                                                        seja, o da audição e da escuta – dimensão
                         parâmetros da perspectiva - conceito da
                                                                        sensorial que transcende o fenômeno
                         pintura que inseriu, no palco renascentista,
                                                                        estritamente acústico, para abranger esferas
                         o princípio cartesiano de separação radical
                                                                        mais amplas do humano, inscritas também
                         entre observador e objeto observado, entre
                                                                        no social, no cultural, no urbano e no
                         espetáculo e espectador.
                                                                        contemporâneo. Se o “ouvir”, possibilitado
                                 Numa época ávida por explicações       pelo aparelho auditivo, cumpre uma função
                         científicas, a noção de perspectiva ofereceu   fisiológica, o ato da “escuta” vai além e se
                         ao teatro burguês meios de criar, sobre um     converte num meio para a atribuição de
                         painel plano colocado no fundo da cena,        sentido do mundo, pois é também uma
                         a ilusão da profundidade em um palco           construção histórico-cultural e, como tal,
                         espacialmente limitado. A inovação trouxe      condicionada pela época na qual está
                         o espaço tridimensional para dentro das        inserida (HARNONCOURT, 1998). Ou seja,
                         salas teatrais, substituindo a visão real      aquilo que ouvimos como “som” também
                         da vida cotidiana pela ilusão “realística”     nos informa sobre a realidade circundante,
                         do ponto de vista do espectador ideal,         ajudando-nos a lembrar, associar, raciocinar,
                         sentado no centro da plateia. Desta forma,     tomar decisões; enfim, a sobreviver no
                         o teatro burguês não teve mais qualquer        mundo e, também, transformá-lo.
                         necessidade de espaços abertos, pois podia
                                                                                A multidimensionalidade do teatro
                         inventar o seu próprio mundo “real” a partir
                                                                        de rua coloca em questão a noção teatral de
                         das leis da perspectiva visual. Enquanto
                                                                        recepção enquanto processo estritamente
                         isso, do lado de fora das salas fechadas, o
                                                                        visual, o que poderia ser sintetizado na ideia
                         teatro que se realizava em espaços públicos
                                                                        de escuta cênica como um modo de recepção
                         da cidade permanecia atuando a partir de
                                                                        próprio dessa modalidade, uma vez que na
                         uma realidade multidimensional, dada não
                                                                        rua o espectador mantém com o espetáculo
                         pela ótica de um observador estático e
                                                                        uma relação mais complexa do que aquela
4
que foi historicamente definida pelo palco                A noção de imagem sonora permite-       memória afetiva; enfim, alcançar dimensões
renascentista. Em meio aos múltiplos e             nos vislumbrar a complexa rede de relações     inacessíveis apenas pelo verbal/conceitual.
incontroláveis estímulos – especialmente           que se estabelecem entre espetáculo                    Estudos de semiologia musical,
visuais e sonoros – presentes no espaço            e espectador-ouvinte a partir de uma           como os do etnomusicólogo Jean-Jacques
urbano, o teatro de rua é potencialmente           escuta cênica, pois diferentes maneiras        Nattiez, levam à identificação de uma
um centro para o qual tende a convergir a          de se utilizar de elementos musicais num       “sintaxe musical” – um sistema de relações
atenção de um público que, a princípio, se         espetáculo evocam também diferentes            formais entre os elementos constituintes
encontra ali de passagem; e a musicalidade         imagens sonoras. Por isso, a musicalidade      do fenômeno musical (melodia, harmonia,
do espetáculo é um fator essencial neste           do teatro de rua pode ir muito além da         estilos) - e uma “semântica musical” que
processo, motivo pelo qual muitos teatristas       simples utilização de “música” como um         relaciona as sensações auditivas a outras
de rua tornam-se, também, atores-músicos.          recurso acessório da cena. O impacto das       esferas, além da sensorial: emoção, cultura,
       Frequentemente, é a música –                imagens sonoras produzidas pelos atores        ideologia. Para o pesquisador, há dois níveis
mobilizada pela escuta cênica – o fator            contribui para multiplicar, polifonicamente,   de recepção musical: no primeiro, mais
determinante através do qual o espectador          os sentidos do espetáculo, possibilitando      consciente, o ouvinte percebe sensações
eventual da rua se sente atraído pelo espetáculo   ainda a economia de elementos cênicos          físicas; no segundo, mais profundo, as
e decide interromper o seu trajeto cotidiano       que o ambiente frequentemente ruidoso          sensações se ligam a sentimentos. Além
para assisti-lo, ou mesmo acompanhá-lo num         do espaço aberto não favorece, como a          disso, se por um lado procedimentos sonoro-
cortejo. É amiúde pela musicalidade que um         palavra e o diálogo. Uma simples canção        musicais podem ser empregados numa
espetáculo de rua obtém sucesso no desafio de      pode tornar desnecessária uma longa            cena teatral com o propósito de suscitar
instaurar, no ambiente caótico e fragmentado       explicação ao público e potencializar,         no público associações como as descritas
da cidade contemporânea, um espaço cênico          com os seus elementos musicais (o ritmo,       por Nattiez, por outro cumprem também a
capaz de religar o cidadão às suas matrizes        a melodia, o timbre dos instrumentos           função de organizar sonoramente o jogo dos
mais profundas, restaurando o seu sentido          musicais utilizados, o trabalho vocal), os     atores, pois a música de cena favorece ao
de pertencimento a uma comunidade, a um            sentidos menos explícitos, as associações      ator manter-se plenamente consciente dos
lugar.                                             com outros fatos que se deseja mencionar, a    laços existentes entre cada trecho, frase
       Mas, a que se poderia atribuir esta                                                        musical, tonalidade de uma canção, e o
notável capacidade? Segundo pesquisas no                                                          ritmo, a duração e intensidade de uma cena
campo da neurologia e da psicoacústica,                                                           ou mesmo do espetáculo como um todo.
estímulos sonoro-musicais criam imagens                                                                   Deste modo, a escuta cênica das
sonoras na mente do ouvinte.                                                                      imagens sonoras produzidas na cena
       Originalmente, a noção de imagem                                                           teatral de rua parece ser um caminho
sonora se relaciona com um tipo de                                                                através do qual é possível transcender os
construção mental pré-conceitual, pois                                                            limites bidimensionais de uma recepção
é, basicamente, um padrão de impulsos                                                             estritamente visual (FLÜSSER, 2002) e
neurais interpretado pelo cérebro como a                                                          expandir os canais de recepção para uma
percepção sensível daquilo que é captado                                                          apreensão multidimensional do espetáculo -
pelo ouvido. As imagens sonoras – ou seja, as                                                     principalmente através de sua musicalidade
imagens mentais evocadas por sonoridades                                                          - uma vez que a percepção do som pelo
– formam-se no córtex cerebral onde são                                                           ser humano se dá por todas as direções,
identificadas, armazenadas na memória e,                                                          diferentemente da percepção visual que
eventualmente, enviadas a outros centros                                                          é prioritariamente frontal (e em menor
cerebrais (ROEDERER, 2002). É por isso                                                            medida, lateral).
que, ao escutarmos um dobrado, o badalo                                                                   Todas estas possibilidades em torno
de um sino ou um estampido, podemos                                                               da musicalidade do teatro de rua, aqui
experimentar sensações de alegria,                                                                apenas esboçadas, apontam para a ideia
nostalgia e medo, antes mesmo de podermos                                                         de que esta modalidade possui aspectos
visualizar mentalmente e racionalizar sobre                                                       estéticos e exigências técnicas diferentes
as imagens mentais decorrentes dessas                                                             daquelas que a sociedade ocidental moderna
percepções auditivas: uma cena de circo, a                                                        acostumou-nos a compreender como sendo
igreja convocando os fiéis para a missa e um                                                      as “do” teatro e que, a rigor, foram erigidas
tiro.                                                                                             para atender ao teatro das salas fechadas.
                                                                                                                                            5
A atualidade
Por isso, apresenta-se para o teatro de rua o
desafio de construir as próprias referências,
com base em suas especificidades


                                                     política
estruturais, como aporte imprescindível
para o desenvolvimento de atividades de
pesquisa estética, análise do espetáculo


                                                    do teatro
e crítica teatral, voltadas especificamente
para a modalidade.



                                                documentário
                                                                              Fernando Kinas



                                                            	 teatro
                                                            O                documentário,     ou
                                                    documental, constitui um conjunto de ideias
                                                    e práticas teatrais complexo e estimulante,
                                                    seja sob o ponto de vista estético, quanto
                                                    social. Pouco estudado e praticado no
                        Jussara Trindade            Brasil, suas possibilidades de utilização
  Doutora em teatro pela Unirio; integrante         continuam, portanto, insuficientemente
  do Núcleo Brasileiro de Pesquisadores de          exploradas. Para investigar a atualidade
                             Teatro de Rua.         desta modalidade teatral seria preciso aliar
                                                    a investigação teórica com a análise da
                                                    produção teatral contemporânea, brasileira
                                                    e estrangeira. Esta tarefa poderia, ainda,
                                                    contribuir para a reflexão geral a respeito
                                                    de temas que lhe são correlatos: novas
Referências bibliográficas                          exigências no trabalho de interpretação,
                                                    impacto no ensino teatral, relação com a
FLÜSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta:           crítica especializada, alterações na recepção
ensaios para uma futura filosofia da                e caráter inter ou transdisciplinar.
fotografia. Rio de Janeiro: Relume, 2002.                   A matriz europeia do teatro
HARNOUNCOURT, Nikolaus. O discurso                  documentário – existem formas muito
dos sons: caminhos para uma nova                    variadas de teatro documentário, da América
compreensão musical. Rio de Janeiro: Jorge          Latina à Ásia – tem um ponto de inflexão
Zahar Ed., 1998.                                    nos anos 1960, com a obra do dramaturgo
NATTIEZ, Jean-Jacques. Etnomusicologia              Peter Weiss (1916-1982). Para ele, o teatro
e significações musicais. Tradução de               documentário filia-se à tradição do teatro
Silvana Zilli Bomskov. In: Per Musi. Revista        político e realista (proletkult, agitprop,
Acadêmica de Música. Programa de Pós-               experimentos teatrais de Piscator, peças
Graduação em Música da Universidade                 didáticas de Brecht). Mesmo não sendo
Federal de Minas Gerais, nº 10, jul-dez/2004,       precursor – diretores russos e alemães dos
p. 5-30.                                            anos 1920 já tinham dado exemplos destas
PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São           práticas –, Weiss introduziu de forma radical
Paulo: Perspectiva, 2003.                           o “documento” na cena (atas, relatórios,
ROEDERER, Juan. Introdução à Física e               estatísticas, comunicados da bolsa,
Psicofísica da Música. São Paulo: Editora           entrevistas, balanços bancários, cartas,
da Universidade de São Paulo, 2002.                 reportagens).
 6
Embora defendendo a recusa de             sobre a libertação da Angola, Canto do          possível, é inegável a recusa da imitação, a
toda forma de invenção (certamente uma            Fantoche Lusitano).                             ruptura com a ilusão cênica e o interesse pelo
reação ao status quo teatral da sua época), o             Apesar    de    diferentes     visões   exame das estruturas sociais no lugar dos
teatro documentário, tal como proposto por        artísticas e políticas relacionadas ao          embates entre subjetividades. Mesmo se há
Weiss, mantém a condição de obra artística:       teatro documentário, entre as quais não         dificuldades em evitar o elemento ficcional,
“Mesmo quando tenta se liberar do quadro          se pode ignorar aquela que deriva da vaga       como afirma Bernard Dort3, Weiss e Kipphardt
que faz dele um meio artístico, mesmo             pós-moderna, pode-se afirmar que parte          (cf. O caso Oppenheimer), aproximam-se da
quando abandona as categorias estéticas           importante delas apontam na direção da          exposição imediata (não mediada) dos fatos.
(...) o teatro documentário é no final das        inteligibilidade da atualidade, isto é, a       Este trabalho dramatúrgico, sobretudo no
contas um produto artístico e deve sê-lo, se      realidade pode e deve ser explicada. Cabe,      caso de Peter Weiss, não parece ter sido
quiser justificar sua existência.”1 Para Weiss,   então, localizar e estudar experiências         inteiramente absorvido e desenvolvido pelas
o teatro documentário mostra “a imagem            teatrais inspiradas nesta matriz (tanto sob     novas gerações.
de uma parcela da realidade arrancada ao          o ponto de vista formal, como político) que             No entanto, hoje são frequentes os
fluxo contínuo da vida” e tem como objetivo       participam desta tarefa de compreensão do       trabalhos cênicos que exploram a utilização
“estabelecer um modelo das contradições           momento histórico atual.                        do material documental em cena, indício da
reais”. Evidentemente, na continuação direta              O teatro documentário é, portanto,      atualidade desta modalidade teatral. Nossa
da tradição brechtiana, este mecanismo deve       uma forma artística veiculadora de              hipótese, confirmada por inúmeros casos
revelar a condição histórica da atualidade e a    potenciais novas formas e novos conteúdos,      recentes, no Brasil e no exterior (Luis Antônio
possibilidade da sua alteração. A tarefa deste    neste sentido, ele está em sintonia com         - Gabriela, de Nelson Baskerville; Accidens,
tipo de teatro seria, então, fazer a crítica      o rearranjo que caracteriza o teatro            matar para comer, de Rodrigo Garcia; Genova
radical da camuflagem, da falsificação da         contemporâneo das últimas décadas. Uma          01, de Fausto Paravidino; Rwanda 94, de
realidade e da mentira.                           das vertentes deste debate diz respeito         Jacques Delcuvellerie; O interrogatório, de
        Esta proposta teatral, pelas suas         à recusa do regime ficcional canônico.          Eduardo Wotzik; Tableau com existências
opções formais e de conteúdo, pretende            Anatol Rosenfeld, na época em que estas         marginais, de Björn Auftrag e Stefanie Lorey),
investigar a realidade social, opondo-se,         experiências estavam no apogeu (década          é de que há, simultaneamente, referência
portanto, à desinformação e às diferentes         de 1960), afirmou que “tanto Hochhuth           ao modelo histórico de teatro documentário
estratégias de opressão e dominação. É            [escritor e dramaturgo alemão, nascido          e exploração de novas possibilidades. Os
preciso lembrar que Peter Weiss nasceu            em 1931] como outros expoentes do teatro        resultados estéticos e políticos destas
em plena Primeira Guerra Mundial, viveu           documentário procuram eliminar, na medida       experiências, evidentemente, são desiguais.
a Segunda e escreveu sob o impacto da             do possível, o elemento ficcional”.2 Ainda              Peter Weiss sistematizou e exercitou
Guerra do Vietnã e das lutas anticoloniais        que um puro teatro de relatório, pela própria   um tipo de teatro que, segundo ele mesmo,
(Weiss escreveu, por exemplo, uma peça            natureza do dispositivo teatral, não pareça     abandonou “os cânones estéticos do teatro




                                                                                                  1 Peter Weiss, “Notes sur le théâtre documentaire”, in Discour
                                                                                                  sur la genèse et le déroulement de la très longue guerre de libé-
                                                                                                  ration du Vietnam illustrant la nécessité de la lutte armée des
                                                                                                  opprimés contre leurs oppresseurs, Paris, Seuil, 1968, p. 10. As
                                                                                                  próximas citações são igualmente deste texto.

                                                                                                  2 Anatol Rosenfeld, “O teatro documentário”, in Prismas do
                                                                                                  teatro, São Paulo, Perspectiva, 2008, p. 122.

                                                                                                  3 Cf. Bernard Dort, O teatro e sua realidade, São Paulo, Pers-
                                                                                                  pectiva, 1977, pp. 28-30.
                                                                                                                                                              7
tradicional” e desenvolveu “novas técnicas




                                                                                                                    Popular de Arte e Ciência –
                                                                                                                    do que vivi, do que aprendi
                                                                                                                    Congresso da Universidade
adaptadas às novas situações”4. Seria
importante, agora, identificar e estudar estas
novas possibilidades do teatro documentário




                                                                                                                    Sobre a experiência no II
contemporâneo. O surgimento nos últimos
anos de coletivos teatrais que rejeitam os




                                                                                                                    e do que me contaram
padrões da produção canônica e comercial




                                                                                                                    Sem Culto à Culpa
mostram o vigor da produção atual. Muitos
destes grupos dialogam explicitamente com
a tradição do teatro documentário. Analisar
estas contribuições significa também extrair
reflexões capazes de extrapolar o âmbito
restrito em que elas ocorrem. Do conjunto
destas experiências pode-se vislumbrar                                    Fernando Kinas
um modo de trabalho cênico e de reflexão                 Doutor em Teatro pela Universidade




                                                                                                                    Ocupa Nise
capazes de servir como referência para a           Sorbonne Nouvelle e Universidade de São
ação teatral crítica.                            Paulo. Dirige desde 1996 a Kiwi Companhia
        Seria preciso destacar alguns              de Teatro/Cooperativa Paulista de Teatro.
fenômenos       relacionados      ao    teatro
documentário, como a reorganização da
ação do ator/atriz em função de exigências
diversas daquelas feitas pelo teatro
dramático, uma vez que são alteradas
noções como as de personagem, conflito
intersubjetivo, progressão e desenlace. Via
de regra, estes marcadores clássicos do
teatro perdem sua centralidade. Reflexos
importantes destas práticas teatrais
documentais também podem ser percebidas
na recepção, já que o público estaria menos
preparado para lidar com estas propostas
cênicas avessas ao teatro “aristotélico”.                                                                                Durante 21 dias, e alguns mais, o
Temas correlatos também mereceriam                                                                                Ocupa Nise reuniu artistas, cientistas,
análise mais detida, como a relação entre                                                                         curadores, cidadãos e alguns bichos
teatro documentário e performance; o “efeito                                                                      transeuntes – enfim, loucos para saudar
do real” (a expressão, no âmbito do cinema,                                                                       a expressividade e a própria Loucura,
foi usada, entre outros, por Ismail Xavier5);                                                                     homenageando e aprendendo com os
o retorno, potencial, ao subjetivismo (teatro                                                                     ensinamentos de Spinoza, Nise da Silveira,
biográfico, de depoimento ou confessional);                                                                       Nelson Vaz, Amir Haddad e outras(os)
as revisões da fronteira entre arte e vida e o                                                                    educadoras(es) da cultura e da arte popular.
reivindicado “fracasso da representação” (cf.,                                                                           Internos em um plasma às vezes
por exemplo, as produções do Rimini Protokoll,                                                                    leve, às vezes denso, experimentamos o
Forced Entertainment e coletivo LFKs).                                                                            prazer de nos surpreender a cada momento,
        Um programa de estudo se apresenta                                                                        por cada momento de sensibilidade que
e suas implicações são potencialmente                                                                             nos embelezava. Neste clima, o hospital
ricas. Para que isto aconteça é decisivo                                                                          psiquiátrico Dom Pedro II – no bairro de
não desvincular as esferas formais e de                                                                           Engenho de Dentro (pra fora), Rio de Janeiro
conteúdo, estabelecer uma base conceitual                                                                         – recebeu experiências e relatos vindos de
sólida e ancorar a análise na realidade          4 Peter Weiss, op. cit., p. 14.                                  todos os cantos, práticas corporais, plásticas,
social, definindo campo, valores e horizonte                                                                      sonoras e espirituais, momentos de cuidado
                                                 5 Cf. Ismail Xavier, Iracema: o cinema-verdade vai ao teatro.
políticos.                                       In: Devires - Cinema e Humanidades, v.2. n. 1, 2004, p. 70-85.   e de cura.
 8
Não haveria como sair de lá intacto,
sem toques, sem ranhuras, sem se cortar,
sem provocações internas ou à flor dos
tatos. Avisava Ray Lima: “Estamos mexendo
em cacho de marimbondo”. Assim, as
manifestações foram aparecendo, como um
enxame ou a maré que vem enchendo até
transbordar.
       No início, de mansinho, alguns
calados, alguns já com empolgação, os
protagonistas do espetáculo-terapia-festa-
novela começaram a contar quem são, de
onde vieram, as marcas do cotidiano e de um     grau em que as mostram conscientemente                   Sem gritos, pra poder ouvir todo
outro mundo – mágico, surreal, que os rodeia    ou não. Chegamos a uma malha onde não              mundo e atrair quem se diz estar externo.
e que se faz presente, mareando aquele local.   mais impera o objetivo fajuto, cerceado pelo       Ou se gritarmos, que nosso grito seja como
São os atores-personagens principais sem        subliminar malicioso e triste.                     um murmúrio, um afago!:
nem estrelar numa megaprodução fantástica              Desatamos nós por nós, até que nossa                  “Escuta, escuta
de Hollywood ou numa falsa realidade como       rede livre fez encontrar em nossa arte, em                   O outro, a outra já vem
a do Big Brother. Não precisam. Eles são        nosso teatro, em nossa vida, o objetivo e o                  Escuta, acolhe
as estrelas de suas próprias vidas. De suas     subjetivo. E é tão bonito quando entendemos                  Cuidar do outro faz bem”.
luzes traduzem, como singelas e grandiosas      também a subjetividade, quando tornamos                      (Ray Lima)
oferendas, as poesias, composições,             claras as nossas linguagens.                               Por passar momentos tão intensos de
cantorias, danças, pinturas, o humor, o                Não precisamos mais estar certos.           transformação, de criação, de filosofia-ação,
amor. Vão modificando suas caricaturas,         O campo que escolhemos adentrar, porque            de místicas que não conhecia, não me sinto
desconstruindo e reconstruindo o espaço         muito novo e inovador, é recheado de               reabilitado. Pois a questão não é estar apto
e as energias como artesãos. Grandes            incertezas. A nossa clareza tem de ser             para se integrar novamente e ser aceitado no
Arquitetos do Universo, Gadú! O imenso mar      livre da certeza cartesiana recriminadora,         “mundo dos normais” – o mundo capitalista,
que nos apresentaram, esses mergulhadores,      opressora, anti-diversificadora. No mundo          que faz com que arregalemos nossos olhos
nadadores e pescadores geniais, mareia          certinho, é esta a certeza que domina: às          para um cardápio de espantos, que desvenda
agora nossas vidas!                             vezes rígida como uma parede de aço; às            os mistérios, a profundeza e os segredos das
       Nós fomos pra chuva! E dançamos          vezes flexibilíssima, como quando se pode          coisas, dos sentimentos, até nos tornarmos
para ela, que nos banhou, amoleceu os           vender e comprar a verdade.                        contempladores estáticos, consumidores
recantos ainda rígidos do nosso corpo, da                                                          manipulados e manipuladores, encarcerados
                                                       Ter clareza não é ter certeza. É a partir
nossa mente; lavando a sujeira acumulada                                                           e torturadores.
                                                da incerteza, da dúvida, que construímos
de anos: lixo orgânico, lixo industrial, lixo   a coragem e o compromisso plenos, a                        A terapia ocupacional que começa a
hospitalar, lixo nuclear, lixo visual, lixo     disposição de lidar com a obscuridade e os         se desenvolver não tem relação com a simples
sonoro, lixo intraorgânico, lixo mental – dos   devaneios. Precisamos então ter clareza do         reabilitação. Ela dialoga com a construção
quais ainda não nos livramos, também            que queremos, do que compreendemos e               de outro sentido para o mundo, ou mesmo
porque é uma terapia, uma luta pra ser          do que ainda não, de quando entrar ou do           outro universo: é a medicina/ciência/modo
travada um dia após o outro.                    que fazer quando entrar ou se não entrar em        de vida que permite que cada um descubra e
       A cura é árdua e às vezes dolorosa.      cena, das nossas escolhas.                         transforme suas realidades, suas essências e
Ficar abstinente do individualismo, das                                                            se comunique, sem preconceitos, com as do
                                                       Muito inquietante o que está se
mentiras do conformismo me deixou com o                                                            outro. É a revolução que cada um se propõe
                                                construindo, não? Mas não podemos nos
ego, a alma e as carnes à mostra. Cada apelo                                                       a fazer em si e que constrói, a partir da
                                                aperrear. Como Vitor Pordeus me alerta:
por carinho e cuidado, cada palavra sincera,                                                       expressividade dessa mudança, a revolução
                                                “Não é pra enlouquecer”, não pela ansiedade
cada olhar vai nos perfurando, extraindo,                                                          coletiva.
                                                e pelo escândalo. Nosso grito não é grito
gota por gota, o veneno que nos seca. Vamos     de guerra. Não queiramos travar uma nova                   A luta que aqui se trava não se firma
religando nossa sensibilidade.                  guerra. Muitos dos que estão lá fora esperam       em enfrentar inimigos, não se contenta em
       Agora olhamos as pessoas na rua          por isso, se preparando para vender mais           buscar as culpas e as desculpas. “Desculpa
e enxergamos todas as suas loucuras, no         armas no seu podre mercado.                        cú”, como me diz uma amiga. A luta está
                                                                                                   em não haver culpa nenhuma e sim em que
                                                                                                                                             9
eu mesmo tenho um problema pra resolver,
um compromisso para cumprir, caminhos
inteiros a seguir, milhares de escolhas a
                                                                         II Seminário Amazônico
fazer. E tudo isso em uma vida apenas. E
uma vida que não acaba.                                                       de Teatro de Rua                                                     6
        Que sejamos mais livres e que
descubramos onde em nós essa liberdade                                                                                                     Adailtom Alves Teixeira
ainda não foi conquistada, buscando aprendê-
la logo em seguida. Que mergulhemos fundo                                                 A história da sociedade capitalista é a história da inclusão de todos os indivíduos
no oceano que nos foi apresentado e no                                                     e de todas as coisas no mercado ou a redução de todos e de tudo à condição de
qual muitos já viviam. Que subamos um                                                                                                                            mercadoria.
pouco à superfície, quando precisarmos                                                                               Marilena Chauí. Cidadania cultural: o direito à cultura
respirar, olhar pro céu e mergulhemos de
novo. Que estejamos dispostos, mesmo
que nunca prontos, a receber, se comunicar                                 Todos sabem, ou deveriam saber,
e respeitar o outro, quem quer que seja,                           que governar não é o mesmo que ter o
de maneira incondicional. Que sejamos                              poder para fazer o que bem entende, mas
incondicionalíssimos.                                              sim encaminhar os projetos daqueles que
        Gratidão a todos, por tudo!                                realmente detêm o poder. Marilena Chauí
        “Nós podemos ir até onde nós                               – que foi gestora da cultura na cidade de
quisermos” – Judith (entidade Naná, Rei                            São Paulo de 1989 a 1992, quando o Partido
Reginaldo Terra e gerente do Hotel da                              dos Trabalhadores (PT) ganhou a primeira
Loucura).                                                          eleição nessa cidade – afirma que para os
        Jadiel Lima, Maraguape-CE, 12 de                           dirigentes do PT a cultura é vista sob três
agosto de 2012.                                                    aspectos: como saber de especialistas,
                                                                   campo das belas-artes e instrumento de
                                                                   agitação política.
                                                                           Na primeira, a cultura é vista pelo
Reginaldo/Dona Judite/Nanã - Interno que se tornou o “gerente do
Hotel da Loucura”, durante o Ocupanise.                            viés da competência, isto é, poucos sabem
                                                                   e muitos recebem passivamente, logo, faz
                                                                   parte da ideologia dominante. No segundo,
                                                                   campo das belas-artes (teatro, dança,
                                                                   música etc.), a cultura é vista como própria
                                                                   dos talentosos, daqueles que receberam
                                                                   formação específica. Assim, é espetáculo,
                                                                   entretenimento, não se valoriza a criação e
                                                                   seu processo, mas os resultados. O terceiro
                                                                   reúne os dois anteriores, com o objetivo de                No entanto, ainda segundo a
                                                                   persuadir as massas; coloca-se a serviço da         pensadora, a cultura e a esquerda tem laços
                                                                   política.                                           indissolúveis e se faz necessário um trabalho
                                                                           Questiona Chauí, em Cidadania               crítico que desvele a realidade e engaje
                                                                   cultural:                                           novos sujeitos na transformação social.
                                                                            Qual o paradoxo? Em lugar de                            Para a esquerda, a cultura é a
                                                                            tomar a cultura como uma das                            capacidade de decifrar as formas
                                                                            chaves da prática social e política                     da produção social da memória e
                                                                            da esquerda, os dirigentes petistas                     do esquecimento, das experiências,
                                                                            deixam de lado a dimensão crítica e                     das ideias e dos valores, da produção
                                                                            reflexiva do pensamento e das artes                     das obras do pensamento e das obras
                                                                            e simplesmente aderem à concepção                       de arte e, sobretudo, é a esperança
                                                                            instrumental da cultura, própria da                     racional de que dessas experiências
                                                                            sociedade capitalista (2010: 9-10).                     e ideias, desses valores e obras

 10
surja um sentido libertário, com                                                       democrática? Mas quantos brasileiros tem
           força para orientar novas práticas                                                     acesso e dominam as ferramentas digitais?
           e políticas das quais possa nascer                                                     Muitas são as perguntas.
           outra sociedade (CAHUÍ, 2010: 8-9).
                                                                                                         Para completar a tragédia farsesca,
Por isso mesmo, a cultura permite                                                                 existe um refluxo dos movimentos culturais,
desvelar a luta de classes, possibilitando                                                        cansados de esmurrar as pontas de facas
a contraposição à oficialidade, criando, a                                                        sempre afiadas. Como diria certo camarada:
partir da memória, outros símbolos, outros                                                        que fazer?7
espaços.
        Muitos Podem pensar que doze
anos de governo do partido supracitado,
pareciam caminhar dentro dessa proposta,                 Apesar     das    três    dimensões,
mas não. Devido à extensão do texto,             simbólica, cidadã e econômica, o horizonte
também não vamos nos debruçar sobre              maior é o aspecto econômico, isto é, a cultura
todos os supostos avanços e nem sobre            como mercadoria. Por isso a ênfase na tal da
todos os retrocessos. Mas, peguemos um           economia criativa, indústrias criativas, entre
exemplo, sem esmiuçá-lo item por item: as        outras. Portanto, a cultura não é vista como
Metas do Plano Nacional de Cultura (PNC).        direito e como processo do desenvolvimento
As metas são uma orientação, um norte das        humano, mas pela ótica do econômico.
ações do governo federal e deveriam estar        O objetivo é atingir 4,5% do PIB (Produto
valendo desde 2011, com validade até 2020.       Interno Bruto). A cultura é mercadoria. Em
É uma “experimentação” do que deve vir a         sendo mercadoria, não é para todos, é para
ser a cultura brasileira. Mas nem mesmo o        quem pode comprar; e também não será
prazo foi cumprindo, tudo só começará pra        qualquer um que poderá criar, apenas “os
                                                                                                                  Adailtom Alves Teixeira
valer em 2013.                                   criativos”, “os empreendedores”. Portanto,
                                                 entra na ótica já apontada por Marilena            Mestre em Artes pela Unesp; membro do
        Mesmo assim, o prazo não é o maior
                                                 Chauí. É sempre bom se questionar: em                 Núcleo Brasileiro de Pesquisadores de
problema, mas o norte apontado pelo
                                                 quais bolsos irão parar esses 4,5% do PIB?       Teatro de Rua; articulador da RBTR; ator do
próprio PNC. Criado em conjunto com a
                                                 Provavelmente nos bolsos dos mesmos                                 grupo Buraco d`Oráculo.
sociedade civil, por meio de conferências
e outros mecanismos participativos, o            privilegiados, isto é, daqueles que já são os
documento deveria, em tese, expressar a          donos das tais indústrias criativas. Claro
vontade da sociedade civil, ou pelo menos        que um artista ou outro possa furar esse
daqueles que se envolveram diretamente           cerco da economia criativa, tornando-se
na construção do mesmo. Mas não é bem            uma exceção (que existe para confirmar a         6 Texto produzido como início das reflexões na Roda
                                                 regra), este será destacado, justamente para     3 – Políticas Públicas Para as Artes, ocorrida no dia
assim. E não sabemos onde nós, sociedade
                                                                                                  25/07/12, ao lado do Rio Madeira, no Complexo da Es-
civil, perdemos a mão, onde as coisas se         demonstrar como o projeto é maravilhoso e
                                                                                                  trada de Ferro Madeira Mamoré – Porto Velho/RO.
embaralharam e começaram a apontar               “democrático”. Afinal o capitalismo já faz
em outra direção. Muitos trabalharam,            isso há séculos: só os melhores conseguem;       7 Apesar do aparente cansaço, a sociedade civil conti-
pensaram, discutiram, visando criar um           e a ideologia faz muitos crer que basta lutar    nua organizada e mobilizada, pois sabem que qualquer
                                                 para se sair vencedor.                           conquista para os trabalhadores só vem com muita luta.
documento que norteasse a política cultural
                                                                                                  Em relação aos artistas que escolheram os espaços pú-
brasileira, no sentido do desenvolvimento                Para completar a tragédia ou a farsa     blicos abertos – que não se enganam em relação aos
humano. No entanto, o resultado final parece     (e claro que faz parte do pacote, a ditadura     novos caminhos que parece seguir a política cultural de
que já estava pronto a partir de práticas        burguesa sempre vem travestida de                nosso país –, tem demonstrado vigor de sua organiza-
contrárias ao sentimento de sua construção.      democracia), existe um falso diálogo entre o     ção. No Seminário Amazônico de Teatro de Rua, havia
                                                                                                  articuladores de 13 estados do Brasil. E lá, em mais uma
Se somarmos a organização e o processo           governo e a sociedade civil, que mesmo com
                                                                                                  tentativa, foi criada a campanha nacional “Dilma, não
de construção, foram décadas de luta. Para       tanta grita de todos os lados, faz ouvidos       desmanche! Dialogue Já.” A perspectiva é que todos os
quê? Para transformar o PNC e as ações daí       moucos. O último exemplo é o processo            seguimentos culturais abracem a campanha e apresente
decorrentes no que se combatia. Afinal o         eleitoral para o CNPC (Conselho Nacional         as suas reivindicações. Talvez seja insuficiente, mas não
PNC aponta para a uma prática mundial:           de Política Cultural), eminentemente             se pode parar de lutar. Ainda no seguimento de teatro de
                                                                                                  rua, está agendado de 13 a 16 de setembro de 2012 o XI
a reinvenção do capitalismo por meio da          excludente, apesar de vir sob a aparência
                                                                                                  Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, que ocor-
cultura.                                         de democrático. Afinal a internet não é          rerá na cidade de João Pessoa-PB.
                                                                                                                                                      11
vem aí
         VII Mostra de Teatro
         de São Miguel Paulista

               07A16DEZ2012.
               Serão 12 espetáculos de teatro de rua!
               Vila Mara e Cidade Nova,
               São Miguel Paulista – São Paulo-SP




                                                                 Oficina de Teatro de Rua
                                                                                   duração de seis meses

                                                                                    Inscrições no site:
                                                                      www.buracodoraculo.com.br/oficina




realização     Maiores informações (11) 98188-3670 / 98152-4483
               www.buracodoraculo.com.br | www.buracodoraculo.blogspot.com | buracodoraculo@yahoo.com.br

                                                                         Apoio

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O JORNAL A GARGALHADA - TEXTO JADIEL LIMA

  • 1. Ser TÃO Ser Se o povo soubesse o valor que ele tem... Resistência Viajante Realidade Povo Casa Migração Terra Direito Impacto Campinho Humanidade... Comunidade Bahia Medo Ciclo Favela Dureza Opressão Perseverança Não sobrou Buchada do Costela Luz Cachorro Realidade surreal Rotina Gente bicho Polícia. Publicação do Buraco d`Oráculo – A última ano IV :: nº 25 :: set/12 REPRESSÃO. Distribuição Gratuita
  • 2. O que será feito no projeto Editorial Narrativas do Trabalho II O jornal A Gargalhada, que surge na perspectiva de divulgar os projetos do Buraco d`Oráculo e como prestação de contas públicas da realização de seus projetos, tem se tornado uma referência O projeto Narrativas de Trabalho II para o público e os artistas, inclusive fora está sendo desenvolvido na região de São Miguel Paulista e Itaim Paulista, extremo de São Paulo, pois seu conteúdo nunca se leste da cidade de São Paulo. São diversas restringiu ao fazer do grupo. Ao contrário, as ações que o compõe, desde a reunião do sempre se buscou ampliar as discussões, material produzido no projeto anterior, bem sobretudo sobre o teatro de rua. Com esse como o estudo sobre a precarização do tra- objetivo, foi ampliada a quantidade de balho, o teatro épico, estudo da música e o páginas e a tiragem e a mesma sempre aperfeiçoamento artístico dos integrantes fica disponibilizada no site do grupo, do grupo. Por isso, o projeto apresenta duas para que pessoas que não tiveram ações norteadoras: a) uma ação artística e b) acesso ao conteúdo impresso possa tê- uma ação pedagógica; que são divididas em lo virtualmente. O objetivo é partilhar e três etapas. ampliar a discussão. A ação artística é a forma de manter Nessa edição as discussões passam o grupo em relação com as comunidades e é pelo teatro documentário, sobre o uso da composto de uma mostra teatral – 7ª Mostra música no teatro de rua, sobre políticas de Teatro de São Miguel Paulista –, a ser re- públicas, entre outros. Apesar de alizada em dezembro de 2012; e a circulação do espetáculo que será produzido no desen- parecerem díspares, os assuntos estão volver do projeto. O espetáculo, inicialmente interligados, pois a reflexão impulsiona o nominado de Opera do Trabalho, será criado nosso fazer, que, por sua vez só avança juntamente com atores e não atores da região, se o Estado investe, retornando o ciclo a que participarão de uma oficina preparatória, nova reflexão. a ser iniciada em novembro próximo. Ainda se discutirá o assunto tratado no espetáculo (precarização do trabalho) ou aspectos esté- A Gargalhada está no ar! Boa leitura! dentro da ação artística, tem o aperfeiçoa- mento técnico dos integrantes do grupo, que ticos. recebem aulas de corpo, percussão, canto e Como forma de registro do processo de instrumentos musicais. será publicada três edições de A Gargalha- No que diz respeito à ação pedagógi- da, que o leitor tem em mãos, com tiragens ca, a mesma é composta de uma oficina tea- de seis mil exemplares cada. tral para até 20 pessoas, que receberão aulas Por fim, o projeto prever a manutenção teóricas e práticas, como forma de prepará- da sede do grupo, Casa d`Oráculo, e produ- Poesia da Capa -los para o espetáculo a ser criado. Além dis- ção de novo espetáculo, que cumprirá diver- Criada coletivamente pelo Sarau Quilombaque, após a so, como complemento teórico, ainda haverá sas apresentações nas comunidades e outros apresentação do espetáculo Ser TÃO Ser – narrativas mais três encontros do Café Teatral, em que pontos da cidade de São Paulo. da outra margem (a 99ª), dentro da programação da IV Mostra de Teatro de Rua da Zona Norte, realizada pelo Núcleo Pavanelli de Teatro de Rua e Circo. Expediente: Buraco d`Oráculo: Adailton Alves, Edson Paulo Souza, Heber Humberto Teixeira, Lu Coelho e Selma Pavanelli | Colaboradores: Fernando Kinas, Jadiel Lima, Jussara Trindade, Sarau Quilombaque. | Projeto gráfico: Maurício F. Santana. | Contato: buracodoraculo@yahoo.com.br www.buracodoraculo.com.br | www.buracodoraculo.blogspot.com | Tel.: (11) 98152-4483 / 98188-3670 | Tiragem: 6000 exemplares 2
  • 3. Ser TÃO 100 O negocio não está na partida e nem na chegada, está na travessia. J. G. Rosas A soma de 100 apresentações do fizeram as comunidades percorridas, mas não zona leste, que fomos trocar experiências. espetáculo Ser TÃO Ser – narrativas da outra tínhamos o caminho, a forma do espetáculo. Dessa forma, Ser TÃO Ser é o sertão que já margem alcançada pelo Buraco d`Oráculo, Tínhamos em mãos histórias de luta de um estava dentro de nós desde o nosso inicio torna-se um marco na trajetória do espetáculo povo desterritorializado, aguerrido e jogado à enquanto grupo de teatro de rua. e do grupo. Desde agosto de 2009, quando margem de uma grande cidade. Queríamos As primeiras apresentações teve sua estreia, o Ser TÃO ser já percorreu mostrar esse povo, trazê-lo para o centro de do espetáculo foram feitas ainda em 48 cidades de sete estados das cinco regiões nosso trabalho. Então o recorte escolhido, meio a acertos, em que retirávamos ou do país. Sabemos que o número alcançado foi a luta por um pedaço de chão: a moradia. acrescentávamos novos elementos. Muita é pouco se comparado a espetáculos que Essa questão social esteve presente em quase coisa ficou para trás nas primeiras investidas cumprem seguidas temporadas em espaços todas as histórias colhidas em mais de 80 na rua. Inúmeros parceiros foram consultados fechados. No entanto, se não esquecermos horas de vídeo gravado e outras tantas escutas como provocadores, em um exercício de que Ser TÃO Ser é um espetáculo de rua, e em trajetos e conversas com os parceiros escuta, de maneira a adquirirmos elementos que a cada nova apresentação – assim como envolvidos direta ou indiretamente com o para a construção de um trabalho que fosse os feirantes – nos deslocamos e montamos projeto. Como afirmou Leon Tolstoi: “Cante verdadeiro e levasse à a reflexão por meio a estrutura, apresentamos e tornamos tua aldeia e cantarás o mundo”. Decidimos das histórias contadas. Levamos à cena o a guardar tudo, a quantidade de 100 cantar o nosso pedaço de chão, pois nos humano, construído de forma narrativa e apresentações é muito significativa. Além identificamos como seres desterritorializados, poética, sem perder o questionamento e a disso, produzido em grupo, fruto de intenso afinal todos os integrantes do grupo fazem provocação necessária, a quem se propõe trabalho técnico e reflexivo, apresenta, por parte de algum tipo de sertão. usar o teatro como veículo de transformação. meio de sua temática, a tomada de partido O Ser TÃO Ser pode ser considerado o Mesmo com todo empenho e da classe trabalhadora, tão marginalizada. trabalho mais autoral do grupo, mas ele não dedicação depositados na sua construção Nesse percurso, estimamos que um público está isolado na história de quase 15 anos do espetáculo, sempre pairou uma dúvida de 25.000 pessoas já tenha presenciado o de Buraco d`Oráculo. Desde o inicio, cada em relação a sua longevidade. Não sabíamos espetáculo. Dessa forma, podemos considerar projeto, cada novo trabalho é continuidade, ao certo a estrada que iríamos percorrer que a trajetória percorrida ao longo destas 100 desdobramento dos anteriores. Não com esse trabalho. Queríamos, é certo - e apresentações, firma a certeza do caminho renegamos nada que tenhamos feitos continua a disposição - ampliar as relações escolhido pelo Buraco d`Oráculo. anteriormente, mesmo os equívocos. As com os movimentos sociais, sobretudo os de O espetáculo é resultado de um tomadas de decisões erradas fazem parte de moradia, para levar esse espetáculo, porém profundo mergulho em histórias coletadas em nossa trajetória contínua de aprendizado e esse caminho foi ainda pouco percorrido. seis comunidades da região do extremo leste amadurecimento. Para chegar ao Ser TÃO Por outro lado, frequentamos a programação da cidade de São Paulo, realizada dentro do Ser foi necessário percorrer um caminho de diversos festivais e instituições culturais, projeto “10 Anos: a cidade, a comunidade e que solidificasse a história do grupo, o sempre levando a discussão da luta por as pessoas na trajetória do Buraco”, graça aos entendimento político e histórico no qual moradia, sempre atual em um país de muita recursos do Programa de Fomento ao Teatro estamos inseridos e, principalmente, uma exclusão. para a Cidade de São Paulo. Ao iniciar o aproximação e uma relação com o nosso projeto tínhamos a certeza do que queríamos público. Foi com o público da periferia, mais Edson Paulo ver em cena: os sujeitos históricos que especificamente de São Miguel Paulista, na Ator do Buraco d`Oráculo. 3
  • 4. e, ad ta lidm u s e ica ge sc va d ro sma , eno es t u i ra : d ea distanciado da cena, mas pelo deslocamento do espetáculo no espaço e pela participação M o a a t ativa daqueles que o acompanhavam, em seus movimentos e sons. c d onnibilio noa s cê i ã ru É a partir da ideia dessa recepção multissensorial - por parte não só de um espectador, mas um espectador-ouvinte - que s defendo aqui a necessidade de ampliarmos sepç de os nossos canais perceptivos, aprofundando o o entendimento do espetáculo de teatro O verbete recepção é definido pelo pec de rua de modo a percebê-lo como uma Dicionário de Teatro de Patrice Pavis – arte capaz de abranger simultaneamente importante obra de referência para os r várias camadas de recepção igualmente estudos teatrais da atualidade - como importantes. Não se trata, evidentemente, “interpretação da obra pelo espectador” e de substituir uma primazia (visual) por outra “análise dos processos mentais, intelectuais (auditiva), mas de mergulhar mais fundo e emotivos da compreensão do espetáculo”. na obra de arte, e absorver o fenômeno Jussara Trindade Mas, ainda que logo a seguir o autor utilize teatral por outras vias que a modernidade como recurso explicativo uma imagem do renascentista, em seu ideal de Ciência, espectador como que imerso “num banho frequentemente deixou à sua margem. Trata- de imagens e sons”, ao desenvolver suas se de compreender o espetáculo teatral de considerações sobre os códigos perceptivos rua como obra artística essencialmente da recepção a atividade teatral é descrita audiovisual, e não apenas visual. apenas dentro de um quadro referencial Nesse sentido, o caminho que visual, corroborando a tendência de proponho abordar é o sonoro-musical, ou apreensão do espetáculo ainda sob os seja, o da audição e da escuta – dimensão parâmetros da perspectiva - conceito da sensorial que transcende o fenômeno pintura que inseriu, no palco renascentista, estritamente acústico, para abranger esferas o princípio cartesiano de separação radical mais amplas do humano, inscritas também entre observador e objeto observado, entre no social, no cultural, no urbano e no espetáculo e espectador. contemporâneo. Se o “ouvir”, possibilitado Numa época ávida por explicações pelo aparelho auditivo, cumpre uma função científicas, a noção de perspectiva ofereceu fisiológica, o ato da “escuta” vai além e se ao teatro burguês meios de criar, sobre um converte num meio para a atribuição de painel plano colocado no fundo da cena, sentido do mundo, pois é também uma a ilusão da profundidade em um palco construção histórico-cultural e, como tal, espacialmente limitado. A inovação trouxe condicionada pela época na qual está o espaço tridimensional para dentro das inserida (HARNONCOURT, 1998). Ou seja, salas teatrais, substituindo a visão real aquilo que ouvimos como “som” também da vida cotidiana pela ilusão “realística” nos informa sobre a realidade circundante, do ponto de vista do espectador ideal, ajudando-nos a lembrar, associar, raciocinar, sentado no centro da plateia. Desta forma, tomar decisões; enfim, a sobreviver no o teatro burguês não teve mais qualquer mundo e, também, transformá-lo. necessidade de espaços abertos, pois podia A multidimensionalidade do teatro inventar o seu próprio mundo “real” a partir de rua coloca em questão a noção teatral de das leis da perspectiva visual. Enquanto recepção enquanto processo estritamente isso, do lado de fora das salas fechadas, o visual, o que poderia ser sintetizado na ideia teatro que se realizava em espaços públicos de escuta cênica como um modo de recepção da cidade permanecia atuando a partir de próprio dessa modalidade, uma vez que na uma realidade multidimensional, dada não rua o espectador mantém com o espetáculo pela ótica de um observador estático e uma relação mais complexa do que aquela 4
  • 5. que foi historicamente definida pelo palco A noção de imagem sonora permite- memória afetiva; enfim, alcançar dimensões renascentista. Em meio aos múltiplos e nos vislumbrar a complexa rede de relações inacessíveis apenas pelo verbal/conceitual. incontroláveis estímulos – especialmente que se estabelecem entre espetáculo Estudos de semiologia musical, visuais e sonoros – presentes no espaço e espectador-ouvinte a partir de uma como os do etnomusicólogo Jean-Jacques urbano, o teatro de rua é potencialmente escuta cênica, pois diferentes maneiras Nattiez, levam à identificação de uma um centro para o qual tende a convergir a de se utilizar de elementos musicais num “sintaxe musical” – um sistema de relações atenção de um público que, a princípio, se espetáculo evocam também diferentes formais entre os elementos constituintes encontra ali de passagem; e a musicalidade imagens sonoras. Por isso, a musicalidade do fenômeno musical (melodia, harmonia, do espetáculo é um fator essencial neste do teatro de rua pode ir muito além da estilos) - e uma “semântica musical” que processo, motivo pelo qual muitos teatristas simples utilização de “música” como um relaciona as sensações auditivas a outras de rua tornam-se, também, atores-músicos. recurso acessório da cena. O impacto das esferas, além da sensorial: emoção, cultura, Frequentemente, é a música – imagens sonoras produzidas pelos atores ideologia. Para o pesquisador, há dois níveis mobilizada pela escuta cênica – o fator contribui para multiplicar, polifonicamente, de recepção musical: no primeiro, mais determinante através do qual o espectador os sentidos do espetáculo, possibilitando consciente, o ouvinte percebe sensações eventual da rua se sente atraído pelo espetáculo ainda a economia de elementos cênicos físicas; no segundo, mais profundo, as e decide interromper o seu trajeto cotidiano que o ambiente frequentemente ruidoso sensações se ligam a sentimentos. Além para assisti-lo, ou mesmo acompanhá-lo num do espaço aberto não favorece, como a disso, se por um lado procedimentos sonoro- cortejo. É amiúde pela musicalidade que um palavra e o diálogo. Uma simples canção musicais podem ser empregados numa espetáculo de rua obtém sucesso no desafio de pode tornar desnecessária uma longa cena teatral com o propósito de suscitar instaurar, no ambiente caótico e fragmentado explicação ao público e potencializar, no público associações como as descritas da cidade contemporânea, um espaço cênico com os seus elementos musicais (o ritmo, por Nattiez, por outro cumprem também a capaz de religar o cidadão às suas matrizes a melodia, o timbre dos instrumentos função de organizar sonoramente o jogo dos mais profundas, restaurando o seu sentido musicais utilizados, o trabalho vocal), os atores, pois a música de cena favorece ao de pertencimento a uma comunidade, a um sentidos menos explícitos, as associações ator manter-se plenamente consciente dos lugar. com outros fatos que se deseja mencionar, a laços existentes entre cada trecho, frase Mas, a que se poderia atribuir esta musical, tonalidade de uma canção, e o notável capacidade? Segundo pesquisas no ritmo, a duração e intensidade de uma cena campo da neurologia e da psicoacústica, ou mesmo do espetáculo como um todo. estímulos sonoro-musicais criam imagens Deste modo, a escuta cênica das sonoras na mente do ouvinte. imagens sonoras produzidas na cena Originalmente, a noção de imagem teatral de rua parece ser um caminho sonora se relaciona com um tipo de através do qual é possível transcender os construção mental pré-conceitual, pois limites bidimensionais de uma recepção é, basicamente, um padrão de impulsos estritamente visual (FLÜSSER, 2002) e neurais interpretado pelo cérebro como a expandir os canais de recepção para uma percepção sensível daquilo que é captado apreensão multidimensional do espetáculo - pelo ouvido. As imagens sonoras – ou seja, as principalmente através de sua musicalidade imagens mentais evocadas por sonoridades - uma vez que a percepção do som pelo – formam-se no córtex cerebral onde são ser humano se dá por todas as direções, identificadas, armazenadas na memória e, diferentemente da percepção visual que eventualmente, enviadas a outros centros é prioritariamente frontal (e em menor cerebrais (ROEDERER, 2002). É por isso medida, lateral). que, ao escutarmos um dobrado, o badalo Todas estas possibilidades em torno de um sino ou um estampido, podemos da musicalidade do teatro de rua, aqui experimentar sensações de alegria, apenas esboçadas, apontam para a ideia nostalgia e medo, antes mesmo de podermos de que esta modalidade possui aspectos visualizar mentalmente e racionalizar sobre estéticos e exigências técnicas diferentes as imagens mentais decorrentes dessas daquelas que a sociedade ocidental moderna percepções auditivas: uma cena de circo, a acostumou-nos a compreender como sendo igreja convocando os fiéis para a missa e um as “do” teatro e que, a rigor, foram erigidas tiro. para atender ao teatro das salas fechadas. 5
  • 6. A atualidade Por isso, apresenta-se para o teatro de rua o desafio de construir as próprias referências, com base em suas especificidades política estruturais, como aporte imprescindível para o desenvolvimento de atividades de pesquisa estética, análise do espetáculo do teatro e crítica teatral, voltadas especificamente para a modalidade. documentário Fernando Kinas teatro O documentário, ou documental, constitui um conjunto de ideias e práticas teatrais complexo e estimulante, seja sob o ponto de vista estético, quanto social. Pouco estudado e praticado no Jussara Trindade Brasil, suas possibilidades de utilização Doutora em teatro pela Unirio; integrante continuam, portanto, insuficientemente do Núcleo Brasileiro de Pesquisadores de exploradas. Para investigar a atualidade Teatro de Rua. desta modalidade teatral seria preciso aliar a investigação teórica com a análise da produção teatral contemporânea, brasileira e estrangeira. Esta tarefa poderia, ainda, contribuir para a reflexão geral a respeito de temas que lhe são correlatos: novas Referências bibliográficas exigências no trabalho de interpretação, impacto no ensino teatral, relação com a FLÜSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: crítica especializada, alterações na recepção ensaios para uma futura filosofia da e caráter inter ou transdisciplinar. fotografia. Rio de Janeiro: Relume, 2002. A matriz europeia do teatro HARNOUNCOURT, Nikolaus. O discurso documentário – existem formas muito dos sons: caminhos para uma nova variadas de teatro documentário, da América compreensão musical. Rio de Janeiro: Jorge Latina à Ásia – tem um ponto de inflexão Zahar Ed., 1998. nos anos 1960, com a obra do dramaturgo NATTIEZ, Jean-Jacques. Etnomusicologia Peter Weiss (1916-1982). Para ele, o teatro e significações musicais. Tradução de documentário filia-se à tradição do teatro Silvana Zilli Bomskov. In: Per Musi. Revista político e realista (proletkult, agitprop, Acadêmica de Música. Programa de Pós- experimentos teatrais de Piscator, peças Graduação em Música da Universidade didáticas de Brecht). Mesmo não sendo Federal de Minas Gerais, nº 10, jul-dez/2004, precursor – diretores russos e alemães dos p. 5-30. anos 1920 já tinham dado exemplos destas PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São práticas –, Weiss introduziu de forma radical Paulo: Perspectiva, 2003. o “documento” na cena (atas, relatórios, ROEDERER, Juan. Introdução à Física e estatísticas, comunicados da bolsa, Psicofísica da Música. São Paulo: Editora entrevistas, balanços bancários, cartas, da Universidade de São Paulo, 2002. reportagens). 6
  • 7. Embora defendendo a recusa de sobre a libertação da Angola, Canto do possível, é inegável a recusa da imitação, a toda forma de invenção (certamente uma Fantoche Lusitano). ruptura com a ilusão cênica e o interesse pelo reação ao status quo teatral da sua época), o Apesar de diferentes visões exame das estruturas sociais no lugar dos teatro documentário, tal como proposto por artísticas e políticas relacionadas ao embates entre subjetividades. Mesmo se há Weiss, mantém a condição de obra artística: teatro documentário, entre as quais não dificuldades em evitar o elemento ficcional, “Mesmo quando tenta se liberar do quadro se pode ignorar aquela que deriva da vaga como afirma Bernard Dort3, Weiss e Kipphardt que faz dele um meio artístico, mesmo pós-moderna, pode-se afirmar que parte (cf. O caso Oppenheimer), aproximam-se da quando abandona as categorias estéticas importante delas apontam na direção da exposição imediata (não mediada) dos fatos. (...) o teatro documentário é no final das inteligibilidade da atualidade, isto é, a Este trabalho dramatúrgico, sobretudo no contas um produto artístico e deve sê-lo, se realidade pode e deve ser explicada. Cabe, caso de Peter Weiss, não parece ter sido quiser justificar sua existência.”1 Para Weiss, então, localizar e estudar experiências inteiramente absorvido e desenvolvido pelas o teatro documentário mostra “a imagem teatrais inspiradas nesta matriz (tanto sob novas gerações. de uma parcela da realidade arrancada ao o ponto de vista formal, como político) que No entanto, hoje são frequentes os fluxo contínuo da vida” e tem como objetivo participam desta tarefa de compreensão do trabalhos cênicos que exploram a utilização “estabelecer um modelo das contradições momento histórico atual. do material documental em cena, indício da reais”. Evidentemente, na continuação direta O teatro documentário é, portanto, atualidade desta modalidade teatral. Nossa da tradição brechtiana, este mecanismo deve uma forma artística veiculadora de hipótese, confirmada por inúmeros casos revelar a condição histórica da atualidade e a potenciais novas formas e novos conteúdos, recentes, no Brasil e no exterior (Luis Antônio possibilidade da sua alteração. A tarefa deste neste sentido, ele está em sintonia com - Gabriela, de Nelson Baskerville; Accidens, tipo de teatro seria, então, fazer a crítica o rearranjo que caracteriza o teatro matar para comer, de Rodrigo Garcia; Genova radical da camuflagem, da falsificação da contemporâneo das últimas décadas. Uma 01, de Fausto Paravidino; Rwanda 94, de realidade e da mentira. das vertentes deste debate diz respeito Jacques Delcuvellerie; O interrogatório, de Esta proposta teatral, pelas suas à recusa do regime ficcional canônico. Eduardo Wotzik; Tableau com existências opções formais e de conteúdo, pretende Anatol Rosenfeld, na época em que estas marginais, de Björn Auftrag e Stefanie Lorey), investigar a realidade social, opondo-se, experiências estavam no apogeu (década é de que há, simultaneamente, referência portanto, à desinformação e às diferentes de 1960), afirmou que “tanto Hochhuth ao modelo histórico de teatro documentário estratégias de opressão e dominação. É [escritor e dramaturgo alemão, nascido e exploração de novas possibilidades. Os preciso lembrar que Peter Weiss nasceu em 1931] como outros expoentes do teatro resultados estéticos e políticos destas em plena Primeira Guerra Mundial, viveu documentário procuram eliminar, na medida experiências, evidentemente, são desiguais. a Segunda e escreveu sob o impacto da do possível, o elemento ficcional”.2 Ainda Peter Weiss sistematizou e exercitou Guerra do Vietnã e das lutas anticoloniais que um puro teatro de relatório, pela própria um tipo de teatro que, segundo ele mesmo, (Weiss escreveu, por exemplo, uma peça natureza do dispositivo teatral, não pareça abandonou “os cânones estéticos do teatro 1 Peter Weiss, “Notes sur le théâtre documentaire”, in Discour sur la genèse et le déroulement de la très longue guerre de libé- ration du Vietnam illustrant la nécessité de la lutte armée des opprimés contre leurs oppresseurs, Paris, Seuil, 1968, p. 10. As próximas citações são igualmente deste texto. 2 Anatol Rosenfeld, “O teatro documentário”, in Prismas do teatro, São Paulo, Perspectiva, 2008, p. 122. 3 Cf. Bernard Dort, O teatro e sua realidade, São Paulo, Pers- pectiva, 1977, pp. 28-30. 7
  • 8. tradicional” e desenvolveu “novas técnicas Popular de Arte e Ciência – do que vivi, do que aprendi Congresso da Universidade adaptadas às novas situações”4. Seria importante, agora, identificar e estudar estas novas possibilidades do teatro documentário Sobre a experiência no II contemporâneo. O surgimento nos últimos anos de coletivos teatrais que rejeitam os e do que me contaram padrões da produção canônica e comercial Sem Culto à Culpa mostram o vigor da produção atual. Muitos destes grupos dialogam explicitamente com a tradição do teatro documentário. Analisar estas contribuições significa também extrair reflexões capazes de extrapolar o âmbito restrito em que elas ocorrem. Do conjunto destas experiências pode-se vislumbrar Fernando Kinas um modo de trabalho cênico e de reflexão Doutor em Teatro pela Universidade Ocupa Nise capazes de servir como referência para a Sorbonne Nouvelle e Universidade de São ação teatral crítica. Paulo. Dirige desde 1996 a Kiwi Companhia Seria preciso destacar alguns de Teatro/Cooperativa Paulista de Teatro. fenômenos relacionados ao teatro documentário, como a reorganização da ação do ator/atriz em função de exigências diversas daquelas feitas pelo teatro dramático, uma vez que são alteradas noções como as de personagem, conflito intersubjetivo, progressão e desenlace. Via de regra, estes marcadores clássicos do teatro perdem sua centralidade. Reflexos importantes destas práticas teatrais documentais também podem ser percebidas na recepção, já que o público estaria menos preparado para lidar com estas propostas cênicas avessas ao teatro “aristotélico”. Durante 21 dias, e alguns mais, o Temas correlatos também mereceriam Ocupa Nise reuniu artistas, cientistas, análise mais detida, como a relação entre curadores, cidadãos e alguns bichos teatro documentário e performance; o “efeito transeuntes – enfim, loucos para saudar do real” (a expressão, no âmbito do cinema, a expressividade e a própria Loucura, foi usada, entre outros, por Ismail Xavier5); homenageando e aprendendo com os o retorno, potencial, ao subjetivismo (teatro ensinamentos de Spinoza, Nise da Silveira, biográfico, de depoimento ou confessional); Nelson Vaz, Amir Haddad e outras(os) as revisões da fronteira entre arte e vida e o educadoras(es) da cultura e da arte popular. reivindicado “fracasso da representação” (cf., Internos em um plasma às vezes por exemplo, as produções do Rimini Protokoll, leve, às vezes denso, experimentamos o Forced Entertainment e coletivo LFKs). prazer de nos surpreender a cada momento, Um programa de estudo se apresenta por cada momento de sensibilidade que e suas implicações são potencialmente nos embelezava. Neste clima, o hospital ricas. Para que isto aconteça é decisivo psiquiátrico Dom Pedro II – no bairro de não desvincular as esferas formais e de Engenho de Dentro (pra fora), Rio de Janeiro conteúdo, estabelecer uma base conceitual – recebeu experiências e relatos vindos de sólida e ancorar a análise na realidade 4 Peter Weiss, op. cit., p. 14. todos os cantos, práticas corporais, plásticas, social, definindo campo, valores e horizonte sonoras e espirituais, momentos de cuidado 5 Cf. Ismail Xavier, Iracema: o cinema-verdade vai ao teatro. políticos. In: Devires - Cinema e Humanidades, v.2. n. 1, 2004, p. 70-85. e de cura. 8
  • 9. Não haveria como sair de lá intacto, sem toques, sem ranhuras, sem se cortar, sem provocações internas ou à flor dos tatos. Avisava Ray Lima: “Estamos mexendo em cacho de marimbondo”. Assim, as manifestações foram aparecendo, como um enxame ou a maré que vem enchendo até transbordar. No início, de mansinho, alguns calados, alguns já com empolgação, os protagonistas do espetáculo-terapia-festa- novela começaram a contar quem são, de onde vieram, as marcas do cotidiano e de um grau em que as mostram conscientemente Sem gritos, pra poder ouvir todo outro mundo – mágico, surreal, que os rodeia ou não. Chegamos a uma malha onde não mundo e atrair quem se diz estar externo. e que se faz presente, mareando aquele local. mais impera o objetivo fajuto, cerceado pelo Ou se gritarmos, que nosso grito seja como São os atores-personagens principais sem subliminar malicioso e triste. um murmúrio, um afago!: nem estrelar numa megaprodução fantástica Desatamos nós por nós, até que nossa “Escuta, escuta de Hollywood ou numa falsa realidade como rede livre fez encontrar em nossa arte, em O outro, a outra já vem a do Big Brother. Não precisam. Eles são nosso teatro, em nossa vida, o objetivo e o Escuta, acolhe as estrelas de suas próprias vidas. De suas subjetivo. E é tão bonito quando entendemos Cuidar do outro faz bem”. luzes traduzem, como singelas e grandiosas também a subjetividade, quando tornamos (Ray Lima) oferendas, as poesias, composições, claras as nossas linguagens. Por passar momentos tão intensos de cantorias, danças, pinturas, o humor, o Não precisamos mais estar certos. transformação, de criação, de filosofia-ação, amor. Vão modificando suas caricaturas, O campo que escolhemos adentrar, porque de místicas que não conhecia, não me sinto desconstruindo e reconstruindo o espaço muito novo e inovador, é recheado de reabilitado. Pois a questão não é estar apto e as energias como artesãos. Grandes incertezas. A nossa clareza tem de ser para se integrar novamente e ser aceitado no Arquitetos do Universo, Gadú! O imenso mar livre da certeza cartesiana recriminadora, “mundo dos normais” – o mundo capitalista, que nos apresentaram, esses mergulhadores, opressora, anti-diversificadora. No mundo que faz com que arregalemos nossos olhos nadadores e pescadores geniais, mareia certinho, é esta a certeza que domina: às para um cardápio de espantos, que desvenda agora nossas vidas! vezes rígida como uma parede de aço; às os mistérios, a profundeza e os segredos das Nós fomos pra chuva! E dançamos vezes flexibilíssima, como quando se pode coisas, dos sentimentos, até nos tornarmos para ela, que nos banhou, amoleceu os vender e comprar a verdade. contempladores estáticos, consumidores recantos ainda rígidos do nosso corpo, da manipulados e manipuladores, encarcerados Ter clareza não é ter certeza. É a partir nossa mente; lavando a sujeira acumulada e torturadores. da incerteza, da dúvida, que construímos de anos: lixo orgânico, lixo industrial, lixo a coragem e o compromisso plenos, a A terapia ocupacional que começa a hospitalar, lixo nuclear, lixo visual, lixo disposição de lidar com a obscuridade e os se desenvolver não tem relação com a simples sonoro, lixo intraorgânico, lixo mental – dos devaneios. Precisamos então ter clareza do reabilitação. Ela dialoga com a construção quais ainda não nos livramos, também que queremos, do que compreendemos e de outro sentido para o mundo, ou mesmo porque é uma terapia, uma luta pra ser do que ainda não, de quando entrar ou do outro universo: é a medicina/ciência/modo travada um dia após o outro. que fazer quando entrar ou se não entrar em de vida que permite que cada um descubra e A cura é árdua e às vezes dolorosa. cena, das nossas escolhas. transforme suas realidades, suas essências e Ficar abstinente do individualismo, das se comunique, sem preconceitos, com as do Muito inquietante o que está se mentiras do conformismo me deixou com o outro. É a revolução que cada um se propõe construindo, não? Mas não podemos nos ego, a alma e as carnes à mostra. Cada apelo a fazer em si e que constrói, a partir da aperrear. Como Vitor Pordeus me alerta: por carinho e cuidado, cada palavra sincera, expressividade dessa mudança, a revolução “Não é pra enlouquecer”, não pela ansiedade cada olhar vai nos perfurando, extraindo, coletiva. e pelo escândalo. Nosso grito não é grito gota por gota, o veneno que nos seca. Vamos de guerra. Não queiramos travar uma nova A luta que aqui se trava não se firma religando nossa sensibilidade. guerra. Muitos dos que estão lá fora esperam em enfrentar inimigos, não se contenta em Agora olhamos as pessoas na rua por isso, se preparando para vender mais buscar as culpas e as desculpas. “Desculpa e enxergamos todas as suas loucuras, no armas no seu podre mercado. cú”, como me diz uma amiga. A luta está em não haver culpa nenhuma e sim em que 9
  • 10. eu mesmo tenho um problema pra resolver, um compromisso para cumprir, caminhos inteiros a seguir, milhares de escolhas a II Seminário Amazônico fazer. E tudo isso em uma vida apenas. E uma vida que não acaba. de Teatro de Rua 6 Que sejamos mais livres e que descubramos onde em nós essa liberdade Adailtom Alves Teixeira ainda não foi conquistada, buscando aprendê- la logo em seguida. Que mergulhemos fundo A história da sociedade capitalista é a história da inclusão de todos os indivíduos no oceano que nos foi apresentado e no e de todas as coisas no mercado ou a redução de todos e de tudo à condição de qual muitos já viviam. Que subamos um mercadoria. pouco à superfície, quando precisarmos Marilena Chauí. Cidadania cultural: o direito à cultura respirar, olhar pro céu e mergulhemos de novo. Que estejamos dispostos, mesmo que nunca prontos, a receber, se comunicar Todos sabem, ou deveriam saber, e respeitar o outro, quem quer que seja, que governar não é o mesmo que ter o de maneira incondicional. Que sejamos poder para fazer o que bem entende, mas incondicionalíssimos. sim encaminhar os projetos daqueles que Gratidão a todos, por tudo! realmente detêm o poder. Marilena Chauí “Nós podemos ir até onde nós – que foi gestora da cultura na cidade de quisermos” – Judith (entidade Naná, Rei São Paulo de 1989 a 1992, quando o Partido Reginaldo Terra e gerente do Hotel da dos Trabalhadores (PT) ganhou a primeira Loucura). eleição nessa cidade – afirma que para os Jadiel Lima, Maraguape-CE, 12 de dirigentes do PT a cultura é vista sob três agosto de 2012. aspectos: como saber de especialistas, campo das belas-artes e instrumento de agitação política. Na primeira, a cultura é vista pelo Reginaldo/Dona Judite/Nanã - Interno que se tornou o “gerente do Hotel da Loucura”, durante o Ocupanise. viés da competência, isto é, poucos sabem e muitos recebem passivamente, logo, faz parte da ideologia dominante. No segundo, campo das belas-artes (teatro, dança, música etc.), a cultura é vista como própria dos talentosos, daqueles que receberam formação específica. Assim, é espetáculo, entretenimento, não se valoriza a criação e seu processo, mas os resultados. O terceiro reúne os dois anteriores, com o objetivo de No entanto, ainda segundo a persuadir as massas; coloca-se a serviço da pensadora, a cultura e a esquerda tem laços política. indissolúveis e se faz necessário um trabalho Questiona Chauí, em Cidadania crítico que desvele a realidade e engaje cultural: novos sujeitos na transformação social. Qual o paradoxo? Em lugar de Para a esquerda, a cultura é a tomar a cultura como uma das capacidade de decifrar as formas chaves da prática social e política da produção social da memória e da esquerda, os dirigentes petistas do esquecimento, das experiências, deixam de lado a dimensão crítica e das ideias e dos valores, da produção reflexiva do pensamento e das artes das obras do pensamento e das obras e simplesmente aderem à concepção de arte e, sobretudo, é a esperança instrumental da cultura, própria da racional de que dessas experiências sociedade capitalista (2010: 9-10). e ideias, desses valores e obras 10
  • 11. surja um sentido libertário, com democrática? Mas quantos brasileiros tem força para orientar novas práticas acesso e dominam as ferramentas digitais? e políticas das quais possa nascer Muitas são as perguntas. outra sociedade (CAHUÍ, 2010: 8-9). Para completar a tragédia farsesca, Por isso mesmo, a cultura permite existe um refluxo dos movimentos culturais, desvelar a luta de classes, possibilitando cansados de esmurrar as pontas de facas a contraposição à oficialidade, criando, a sempre afiadas. Como diria certo camarada: partir da memória, outros símbolos, outros que fazer?7 espaços. Muitos Podem pensar que doze anos de governo do partido supracitado, pareciam caminhar dentro dessa proposta, Apesar das três dimensões, mas não. Devido à extensão do texto, simbólica, cidadã e econômica, o horizonte também não vamos nos debruçar sobre maior é o aspecto econômico, isto é, a cultura todos os supostos avanços e nem sobre como mercadoria. Por isso a ênfase na tal da todos os retrocessos. Mas, peguemos um economia criativa, indústrias criativas, entre exemplo, sem esmiuçá-lo item por item: as outras. Portanto, a cultura não é vista como Metas do Plano Nacional de Cultura (PNC). direito e como processo do desenvolvimento As metas são uma orientação, um norte das humano, mas pela ótica do econômico. ações do governo federal e deveriam estar O objetivo é atingir 4,5% do PIB (Produto valendo desde 2011, com validade até 2020. Interno Bruto). A cultura é mercadoria. Em É uma “experimentação” do que deve vir a sendo mercadoria, não é para todos, é para ser a cultura brasileira. Mas nem mesmo o quem pode comprar; e também não será prazo foi cumprindo, tudo só começará pra qualquer um que poderá criar, apenas “os Adailtom Alves Teixeira valer em 2013. criativos”, “os empreendedores”. Portanto, entra na ótica já apontada por Marilena Mestre em Artes pela Unesp; membro do Mesmo assim, o prazo não é o maior Chauí. É sempre bom se questionar: em Núcleo Brasileiro de Pesquisadores de problema, mas o norte apontado pelo quais bolsos irão parar esses 4,5% do PIB? Teatro de Rua; articulador da RBTR; ator do próprio PNC. Criado em conjunto com a Provavelmente nos bolsos dos mesmos grupo Buraco d`Oráculo. sociedade civil, por meio de conferências e outros mecanismos participativos, o privilegiados, isto é, daqueles que já são os documento deveria, em tese, expressar a donos das tais indústrias criativas. Claro vontade da sociedade civil, ou pelo menos que um artista ou outro possa furar esse daqueles que se envolveram diretamente cerco da economia criativa, tornando-se na construção do mesmo. Mas não é bem uma exceção (que existe para confirmar a 6 Texto produzido como início das reflexões na Roda regra), este será destacado, justamente para 3 – Políticas Públicas Para as Artes, ocorrida no dia assim. E não sabemos onde nós, sociedade 25/07/12, ao lado do Rio Madeira, no Complexo da Es- civil, perdemos a mão, onde as coisas se demonstrar como o projeto é maravilhoso e trada de Ferro Madeira Mamoré – Porto Velho/RO. embaralharam e começaram a apontar “democrático”. Afinal o capitalismo já faz em outra direção. Muitos trabalharam, isso há séculos: só os melhores conseguem; 7 Apesar do aparente cansaço, a sociedade civil conti- pensaram, discutiram, visando criar um e a ideologia faz muitos crer que basta lutar nua organizada e mobilizada, pois sabem que qualquer para se sair vencedor. conquista para os trabalhadores só vem com muita luta. documento que norteasse a política cultural Em relação aos artistas que escolheram os espaços pú- brasileira, no sentido do desenvolvimento Para completar a tragédia ou a farsa blicos abertos – que não se enganam em relação aos humano. No entanto, o resultado final parece (e claro que faz parte do pacote, a ditadura novos caminhos que parece seguir a política cultural de que já estava pronto a partir de práticas burguesa sempre vem travestida de nosso país –, tem demonstrado vigor de sua organiza- contrárias ao sentimento de sua construção. democracia), existe um falso diálogo entre o ção. No Seminário Amazônico de Teatro de Rua, havia articuladores de 13 estados do Brasil. E lá, em mais uma Se somarmos a organização e o processo governo e a sociedade civil, que mesmo com tentativa, foi criada a campanha nacional “Dilma, não de construção, foram décadas de luta. Para tanta grita de todos os lados, faz ouvidos desmanche! Dialogue Já.” A perspectiva é que todos os quê? Para transformar o PNC e as ações daí moucos. O último exemplo é o processo seguimentos culturais abracem a campanha e apresente decorrentes no que se combatia. Afinal o eleitoral para o CNPC (Conselho Nacional as suas reivindicações. Talvez seja insuficiente, mas não PNC aponta para a uma prática mundial: de Política Cultural), eminentemente se pode parar de lutar. Ainda no seguimento de teatro de rua, está agendado de 13 a 16 de setembro de 2012 o XI a reinvenção do capitalismo por meio da excludente, apesar de vir sob a aparência Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, que ocor- cultura. de democrático. Afinal a internet não é rerá na cidade de João Pessoa-PB. 11
  • 12. vem aí VII Mostra de Teatro de São Miguel Paulista 07A16DEZ2012. Serão 12 espetáculos de teatro de rua! Vila Mara e Cidade Nova, São Miguel Paulista – São Paulo-SP Oficina de Teatro de Rua duração de seis meses Inscrições no site: www.buracodoraculo.com.br/oficina realização Maiores informações (11) 98188-3670 / 98152-4483 www.buracodoraculo.com.br | www.buracodoraculo.blogspot.com | buracodoraculo@yahoo.com.br Apoio