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  1. 1. GRACILIANO RAMOS MEMÓRIAS DO CÁRCERE Volume I Editora Record________________________________________ 1Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  2. 2. PRIMEIRA PARTE VIAGENS________________________________________ 2Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  3. 3. 1 RESOLVO-ME a contar, depois de muitahesitação, casos passados há dez anos – e, antes decomeçar, digo os motivos porque silenciei eporque me decido. Não conservo notas: algumasque tomei foram inutilizadas, e assim, com odecorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez maisdifícil, quase impossível, redigir esta narrativa.Além disso, julgando a matéria superior às minhasforças, esperei que outros mais aptos seocupassem dela. Não vai aqui falsa modéstia,como adiante se verá. Também me afligiu a idéiade jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces,com os nomes que têm no registro civil.Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo,fazer do livro uma espécie de romance; mas teriaeu o direito de utilizá-las em históriapresumivelmente verdadeira? Que diriam elas sese vissem impressas, realizando atos esquecidos,repetindo palavras contestáveis e obliteradas? Restar-me-ia alegar que o DIP, a polícia,enfim, os hábitos de um decênio de arrocho, meimpediram o trabalho. Isto, porém, seria injustiça.________________________________________ 3Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  4. 4. Nunca tivemos censura prévia em obra de arte.Efetivamente se queimaram alguns livros, masforam. raríssimos esses autos-de-fé. Em geral areação se limitou a suprimir ataques diretos,palavras de ordem, tiradas demagógicas, e distoescasso prejuízo veio à produção literária. Certos escritores se desculpam de nãohaverem forjado coisas excelentes por falta deliberdade -talvez ingênuo recurso de justificarinépcia ou preguiça. Liberdade completa ninguémdesfruta: começamos oprimidos pela sintaxe eacabamos às voltas com a Delegacia de OrdemPolítica e Social, mas, nos estreitos limites a quenos coagem a gramática e a lei, ainda nospodemos mexer. Não será impossível acharmosnas livrarias libelos terríveis contra a repúblicanovíssima, às vezes com louvores dossustentáculos dela, indulgentes ou cegos,. Nãocaluniemos o nosso pequenino fascismotupinambá: se o fizermos, perderemos qualquervestígio de autoridade e, quando formos verazes,ninguém nos dará crédito. De fato ele não nosimpediu escrever. Apenas nos suprimiu o desejode entregar-nos a esse exercício.________________________________________ 4Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  5. 5. Os homens do primado espiritual viviambem, tratavam do corpo, mas nós, desgraçadosmaterialistas, alojados em quarto de pensão, comoratos em tocas, a pão e laranja, como se diz naminha terra, quase nos reduzimos a simplesespíritos. E como outros espíritos miúdosdependiam de nós, e era preciso calçá-los, vesti-los, alimentá-los, mandá-los ouvir cantigas edecorar feitos patrióticos, abandonamos as tarefasde longo prazo, caímos na labuta diária, contandolinhas, fabricamos artigos, sapecamos traduções,consertamos engulhando produtos alheios. Dealguma forma nos acanalhamos. Porque foi queum dos meus livros saiu tão ruim, pior que osoutros? pergunta o crítico honesto. E alinhaexplicações inaceitáveis. Nada disso: acho que éruim porque está mal escrito. E está mal escritoporque não foi emendado, não se cortou pelomenos a terça parte dele. Aqui findo o resumo dos empecilhos atéhoje apresentados à narração que inicio. Terão elesdesaparecido? Alguns se atenuaram, outros semodificaram, determinam o que impediam,converteram-se em razões contrárias. Estareipróximo dos homens gordos do primado________________________________________ 5Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  6. 6. espiritual? Poderei refestelar-me? Não, felizmente.Se me achasse assim, iria roncar, pensar naeternidade. Quem dormiu no chão deve lembrar-sedisto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeirasduras, escrever em tábuas estreitas. Escreverátalvez asperezas, mas é delas que a vida é feita:inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze.Contudo é indispensável um mínimo detranqüilidade, é necessário afastar as miseriazinhasque nos envenenam. Fisicamente estamos emrepouso. Engano. O pensamento foge da folhameio rabiscada. Que desgraças inomináveis evergonhosas nos chegarão amanhã? Tereidesviado esses espectros? Ignoro. Sei é que, seobtenho sossego bastante para trabalhar um mês,provavelmente conseguirei meio de trabalhar outromês. Estamos livres das colaborações de jornais edas encomendas odiosas? Bem. Demais jápodemos enxergar luz a distância, emergimoslentamente daquele mundo horrível de treva emorte. Na verdade estávamos mortos, vamosressuscitando. O receio de cometer indiscrição exibindo empúblico pessoas que tiveram comigo convivênciaforçada já não me apoquenta. Muitos desses________________________________________ 6Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  7. 7. antigos companheiros distanciaram se, apagaram-se. Outros permaneceram junto a mim, ou vãoreaparecendo ao cabo de longa ausência, alteram-se, completam-se, avivam recordações meiosconfusas – e não vejo inconveniência em mostrá-los. Alguns reclamam a tarefa, consideram-nadever, oferecem-me dados, relembram figurasdesaparecidas, espicaçam-me por todos os meios.Acho que estão certos: a exigência se fixa,domina-me. Há entre eles homens de váriasclasses, das profissões mais diversas, muito altas emuito baixas, apertados nelas como em estojos.Procurei observá-los onde se acham, nessasbainhas em que a sociedade os prendeu. Alimitação impediu embaraços e atritos, levou-me acompreendê-los, senti-los, estimá-los, não arriscarjulgamentos precipitados. E quando isto não foipossível, às vezes me acusei. Ser-me-iadesagradável ofender alguém com esta exumação.Não ofenderei, suponho. E, refletindo, digo a mimmesmo que, se isto acontecer, não experimentareio desagrado. Estou a descer para a cova, estenovelo de casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentidão – e provavelmente istoserá publicação póstuma, como convém a um livro________________________________________ 7Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  8. 8. de memórias. Realmente há entre os meuscompanheiros sujeitos de mérito, capazes de fazersobre os sucessos a que vou referir-me obrasvaliosas. Mas são especialistas, eruditos,inteligências confinadas à escrupulosa análise dopormenor, olhos afeitos a investigações emprofundidade. Há também narradores, e um já nosdeu há tempo excelente reportagem, dessas emque é preciso dizer tudo com rapidez. Em relaçãoa eles, acho-me por acaso em situação vantajosa.Tenho exercido vários ofícios, esqueci todos, eassim posso mover-me sem nenhumconstrangimento. Não me agarram métodos, nadame força a exames vagarosos. Por outro lado, nãome obrigo a reduzir um panorama, sujeitá-lo adimensões regulares, atender ao paginador e aohorário do passageiro do bonde. Posso andar paraa direita e para a esquerda como um vagabundo,deter-me em longas paradas, saltar passagensdesprovidas de interesse, passear, correr, voltar alugares conhecidos. Omitirei acontecimentosessenciais ou mencioná-los-ei de relance, como seos enxergasse pelos vidros pequenos de umbinóculo; ampliarei insignificâncias, repeti-las-eiaté cansar, se isto me parecer conveniente.________________________________________ 8Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  9. 9. E aqui chego à última objeção que meimpus. Não resguardei os apontamentos obtidosem largos dias e meses de observação: nummomento de aperto fui obrigado a atirá-los naágua. Certamente me irão fazer falta, mas terá sidouma perda irreparável? Quase me inclino a suporque foi bom privar-me desse material. Se eleexistisse, ver-me-ia propenso a consultá-lo a cadainstante, mortificar-me-ia por dizer com rigor ahora exata de uma partida, quantas demoradastristezas se aqueciam ao sol pálido, em manhã debruma, a cor das folhas que tombavam dasárvores, num pátio branco, a forma dos montesverdes, tintos de luz, frases autênticas, gestos,gritos, gemidos. Mas que significa isso? Essascoisas verdadeiras podem não ser verossímeis. Ese esmoreceram, deixá-las no esquecimento:valiam pouco, pelo menos imagino que valiampouco. Outras, porém, conservaram-se, cresceram,associaram-se, e é inevitável mencioná-las.Afirmarei que sejam absolutamente exatas?Leviandade. Em conversa ouvida na rua, aausência de algumas sílabas me levou a conclusãofalsa – e involuntariamente criei um boato. Estareimentindo? Julgo que não. Enquanto não se________________________________________ 9Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  10. 10. reconstituírem as sílabas perdidas, o meu boato, senão for absurdo, permanece e é possível que essessons tenham sido eliminados por brigarem com oresto do discurso. Quem sabe se eles aí não seencaixaram com intuito de logro? Nesse casohavia conveniência em suprimi-los, distinguiralém deles uma verdade superior a outra verdadeconvencional e aparente, uma verdade expressa derelance nas fisionomias. Um sentido recusou apercepção de outro, substituiu-a. Onde estará oerro? Nesta reconstituição de fatos velhos, nesteesmiuçamento, exponho o que notei, o que julgoter notado. Outros devem possuir lembrançasdiversas. Não as contesto, mas espero que nãorecusem as minhas: conjugam-se, completam-se eme dão hoje impressão de realidade. Formamosum grupo muito complexo, que se desagregou. Derepente nos surge a necessidade urgente derecompô-lo. Define-se o ambiente, as figuras sedelineiam, vacilantes, ganham relevo, a açãocomeça. Com esforço desesperado arrancamos decenas confusas alguns fragmentos. Dúvidasterríveis nos assaltam. De que modo reagiram oscaracteres em determinadas circunstâncias? O atoque nos ocorre, nítido, irrecusável, terá sido________________________________________ 10Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  11. 11. realmente praticado? Não será incongruência?Certo a vida é cheia de incongruências, masestaremos seguros de não nos havermosenganado? Nessas vacilações dolorosas, às vezesnecessitamos confirmação, apelamos parareminiscências alheias, convencemo-nos de que aminúcia discrepante não é ilusão. Difícil ésabermos a causa dela, desenterrarmospacientemente as condições que a determinaram.Como isso variava em excesso, era natural quevariássemos também, apresentássemos falhas. Fizo possível por entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes arelativa grandeza, enxergar nos seus defeitos asombra dos meus defeitos. Foram apenas bonspropósitos: devo ter-me revelado com freqüênciaegoísta e mesquinho. E esse desabrochar desentimentos maus era a pior tortura que nospodiam infligir naquele ano terrível. Desgosta-me usar a primeira pessoa. Se setratasse de ficção, bem: fala um sujeito mais oumenos imaginário; fora daí é desagradável adotaro pronomezinho irritante, embora se façammalabarismos por evitá-lo. Desculpo-me alegandoque ele me facilita a narração. Além disso não________________________________________ 11Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  12. 12. desejo ultrapassar o meu tamanho ordinário.Esgueirar-me-ei para os cantos obscuros, fugirei àsdiscussões, esconder-me-ei prudente por detrásdos que merecem patentear-se.________________________________________ 12Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  13. 13. 2 NO COMEÇO de 1936, funcionário naInstrução Pública de Alagoas, tive a notícia de quemisteriosos telefonemas, com veladas ameaças,me procuravam o endereço. Desprezei as ameaças:ordinariamente o indivíduo que tenciona ofenderoutro não o avisa. Mas os telefonemascontinuaram. Mandei responder que me achava narepartição diariamente, das nove horas ao meio-dia, das duas às cinco da tarde. Não era o quepretendiam. Nada de requerimentos: queriamvisitar-me em casa. Pedi que não metransmitissem mais essas tolices, com certezapicuinhas de algum inimigo débil, e esqueci-as:nem um minuto supus que tivessem cunho oficial.Algum tempo depois um amigo me procurou coma delicada tarefa de anunciar-me, gastando elogiose panos mornos, que a minha permanência naadministração se tornara impossível. Não mesurpreendi. Pelo meu cargo haviam passado emdois anos oito sujeitos. Eu conseguira agüentar-meali mais de três anos, e isto era espantoso.Ocasionara descontentamentos, decerto cometera________________________________________ 13Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  14. 14. numerosos erros, não tivera a habilidadenecessária de prestar serviços a figurões, haviasuprimido nas escolas o Hino de Alagoas, umaestupidez com solecismos, e isto se consideravaimpatriótico. O aviso que me traziam era, pois,razoável, e até devia confessar-me grato por mehaverem conservado tanto tempo. Lembro-me perfeitamente da cena. Ogabinete pequeno se transformara numa espécie deloja: montes de fazenda e cadernos, queoferecíamos às crianças pobres. Findo oexpediente, sucedia retardar-me ali, a escrever,esquecia-me do tempo, e às vezes, meia-noite, oguarda vinha dizer-me que iam fechar o portão doPalácio. Parte do meu último livro fora compostono bureau largo, diante de petições, de números doLiteratura Internacional. Naquela noite, acanhado,olhando pelas janelas os canteiros do jardim, asárvores da Praça dos Martírios, Rubem meexplicava que Osman Loureiro, o governador, seachava em dificuldade: não queria demitir-me semmotivo, era necessário o meu afastamentovoluntário. Ora, motivo há sempre, motivo searranja. Evidentemente era aquilo início de umaperseguição que Osman não podia evitar:________________________________________ 14Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  15. 15. constrangido por forças consideráveis, vergava; sequisesse resistir, naufragaria. Não presumi quenele houvesse perfídia. Sempre se revelararazoável, nunca entre nós houvera choque.Provavelmente se perturbava como eu. Converseicom Rubem, sem melindres, revolvendo asgavetas, procurando papéis meus. Os integralistasserravam de cima, era o diabo. Demissão ninguémme forçaria a pedir. Havia feito isso várias vezes,inutilmente; agora não iria acusar-me. Dessem-nade qualquer jeito, por conveniência de serviço. Despedi-me de Rubem Loureiro e deixeisobre o bureau os volumes do LiteraturaInternacional. Essa matéria, na safadeza e naburrice dominantes naquela época, render-me-iatalvez um processo. Iriam dr. Sidrônio e Luccarini,meus companheiros de trabalho, passar vexamespor minha causa? Não. Dr. Sidrônio era católico,não escrevia, como eu, livros perigosos nem segastava em palestras inconvenientes nos cafés.Provavelmente me substituiria. Luccarini tinhasido meu inimigo. Apanhado certa vez em falta ecensurado, replicara-me:________________________________________ 15Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  16. 16. – Eu também já mandei. Mas quando queriadizer isso que o senhor está dizendo, chamava osujeito particularmente. – Ora essa! O senhorchega tarde, larga a banca e vive passeando pelasseções alheias em público. Luccarini voltara ao seu lugar e durante trêsmeses fora de uma pontualidade irritante. Era oprimeiro a chegar, o último a sair, não se levantavanem para ir ao mictório. Também não fazia nada,inércia completa. Na rua, se me via, fechava acara, enrugava-se com dignidade excessiva. Issonão tinha importância, mas o procedimento narepartição irritava-me. – Como vai Luccarini? perguntava Osman. –Pessimamente. É um preguiçoso. Osman contradizia-me e gabava aquelainutilidade. Não me conformava. E dera graças aDeus quando Luccarini se ausentara, passara seismeses no Recife, curando uma sinusite, com todosos vencimentos. Ao voltar, agradecera-me umobséquio não feito, apresentara-me um relatórionão encomendado, insinuara-me a compra de umfichário e o abandono daqueles horríveiscalhamaços onde o registro das professoras se________________________________________ 16Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  17. 17. fragmentava e confundia. Agora trabalhavademais, em poucos meses corrigira aquelabalbúrdia. Saí do Palácio, atordoado. Eximia-me deobrigações cacetes, mas isso continuava aaperrear-me, juntava-se a amolações domésticas ea planos vagos. Sentia desgosto e vergonha,desejava ausentar-me para muito longe, não pensarem despachos e informações. Andei pelas ruas,tomei o bonde. Transeuntes e passageirospareciam conhecer o desagradável sucesso, ler-meno rosto a inquietação. Evitava considerar-mevítima de uma injustiça: deviam ter razão pararepelir-me. Seria bom que ela se publicasse nojornal, isto desviaria comentários maliciosos.Esforçava-me por julgar aquilo umainsignificância. Já me havia achado em situaçãopior, sem emprego, numa cama de hospital, abarriga aberta, filhos pequenos, o futuro bemcarregado. Tinha agora uns projetos literários,indecisos. Certamente não se realizariam, masanulavam desavenças conjugais intempestivas, quese vinham amiudando e intensificando sem causa.A lembrança dessas querelas, somada aostelefonemas e à demissão, azedou-me a viagem a________________________________________ 17Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  18. 18. Pajuçara. Indispensável refugiar-me no romanceconcluído, imaginá-lo na livraria, despertandoalgum interesse, possibilitando ainda uma vezmudança de profissão. A última, encerrada meiahora antes, tinha sido um horror: o regulamento, ohorário, o despacho, o decreto, a portaria, ainiqüidade, o pistolão, sobretudo a certeza desermos uns desgraçados trambolhos, de quasenada podermos fazer na sensaboria da rotina. Senão me houvessem despedido assim de chofre,com um recado, humilhantemente, poderia atéjulgar aquilo um benefício. O essencial era retirar-me de Alagoas enunca mais voltar, esquecer tudo, coisas, fatos epessoas. Alagoas não me fizera mal nenhum, mas,responsabilizando-a pelos meus desastres, devoter-me involuntariamente considerado autor dequalquer obra de vulto, não reconhecida. Modereia explosão de vaidade besta: impossível contrapor-me a homens e terra, a todos os homens e a toda aterra, vinte e oito mil quilômetros quadrados e ummilhão de habitantes. Essa horrível presunção deselvagem tinha um mérito: vedava-me identificarinimigos, dirigir ódio a alguém. O ódio sedispersava, diluía-se, era uma indeterminada________________________________________ 18Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  19. 19. repugnância morna, alcançava os edifícios, omorro do Farol, o Aterro, a praia, coqueiros enavios repisados no último romance, inédito, feitoaos arrancos, com largos intervalos. Certaspassagens desse livro não me descontentavam,mas era preciso refazê-lo, suprimir repetiçõesinúteis, eliminar pelo menos um terço dele.Necessário meter-me no interior, passar mesestrancado, riscando linhas, condensandoobservações espalhadas. Não, porém, no interiorde Alagoas: indispensável fugir a indivíduos queme conhecessem. Era pouco não tornar a pôr ospés no Palácio dos Martírios: queria evitarindiscretos que me houvessem visto manuseandoos horríveis papéis sujos. Não me lembrava das pessoas. Osman, dr.Sidrônio e Luccarini eram sujeitos decentes. Mas aengrenagem onde havíamos entrado nos sujava. Tudo uma porcaria. Tolice reconhecer que aprofessora rural, doente e mulata, merecia sertrazida para a cidade e dirigir um grupo escolar:fazendo isso, dávamos um salto perigoso,descontentávamos incapacidades abundantes.Essas incapacidades deviam aproveitar-se dequalquer modo, cantando hinos idiotas,________________________________________ 19Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  20. 20. emburrando as crianças. O emburramento eranecessário. Sem ele, como se poderiam agüentarpolíticos safados e generais analfabetos?Necessário reconhecer que a professora mulatanão havia sido transferida e elevada por mim: foratransferida por uma idéia, pela idéia de aproveitarelementos dignos, mais ou menos capazes. Issodesaparecia. E os indivíduos que haviamconcorrido para isso desapareciam também.Excelente que Osman, em cima, e Luccarini,embaixo, continuassem. Não continuariam muitotempo. Ficava a estupidez: “Ouviram do Ipirangaas margens plácidas.” Para que meter semelhanteburrice na cabeça das crianças, Deus do céu?Realmente eu havia sido ali uma excrescência,uma excrescência agora amputada, a rodar nobonde, a olhar navios e coqueiros. De certo modoas ameaças dos telefonemas me agradavam:embora indeterminadas, indicavam mudanças,forçar-me-iam a azeitar as articulações perras.Conservara-me regulamentar e besta mais de trêsanos, numa cadeira giratória, manejando carimbos,assinando empenhos, mecânico, a deferir eindeferir de acordo com as informações de seuBenedito, realmente obedecendo a seu Benedito.________________________________________ 20Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  21. 21. Que diabo me fariam? Imaginei um desacato, tirosou facadas, em hora de movimento, no relógiooficial. Osman me perguntara certa vez: – Você anda desarmado? Em que é que vocêconfia, criatura? Depois disso José Auto me emprestara umrevólver, mas o revólver tinha apenas três balas ede ordinário ficava nas gavetas, era difícilencontrá-lo. Fora um alívio a restituição. Ia fazer-me falta quando me agredissem. Foi o queimaginei: uma agressão pública, muitosintegralistas atacando-me, furando-me, partindo-me as costelas, os braços e a cabeça. Recolhi-me. Na casinha de Pajuçara fiquei até amadrugada consertando as últimas páginas doromance. Os consertos não me satisfaziam:indispensável recopiar tudo, suprimir as repetiçõesexcessivas. Alguns capítulos não me pareciammuito ruins, e isto fazia que os defeitos medonhosavultassem. O meu Luís da Silva era umafalastrão, vivia a badalar à toa reminiscências dainfância, vendo cordas em toda a parte. Aqueleassassinato, realizado em vinte e sete dias deesforço, com razoável gasto de café e aguardente,________________________________________ 21Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  22. 22. dava-me impressão de falsidade. Realmente eu eraum assassino bem chinfrim. O delírio final seatamancara numa noite, e fervilhava deredundâncias. Enfim não era impossível canalizaresses derramamentos. O diabo era que no livroabundavam desconexões, talvez irremediáveis.Necessário ainda suar muito para minorar as falhasevidentes. Mas onde achar sossego? Minha mulhervivia a atenazar-me com uma ciumeira incrível,absolutamente desarrazoada. Eu devia enganá-la evingar-me, se tivesse jeito para essas coisas.Agora, com a demissão, as contendas iriamacirrar-se, enfurecer-me, cegar-me, inutilizar-medias inteiros, deixar-me apático e vazio,aborrecendo o manuscrito. Largara-o duas vezes,estivera um ano sem vê-lo, machucara folhas erasgara folhas. As interrupções e as discórdiassucessivas deviam ser causa daqueles altos ebaixos, daquelas impropriedades. Convenienteisolar-me, a idéia da viagem continuava aperseguir-me. De que modo realizá-la? Havia umapenca de filhos, alguns bem miúdos. E restava-mena carteira um conto e duzentos. Apenas.________________________________________ 22Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  23. 23. 3 NO DIA seguinte, 3 de março, entregueipela manhã os originais a d. Jeni, datilógrafa. Aomeio-dia uma parenta me visitou – e este casoinsignificante exerceu grande influência na minhavida, talvez haja desviado o curso dela. Essapessoa indiscreta deu-me conselhos e aludiu acrimes vários praticados por mim. Agradeci epedi-lhe que me denunciasse, caso ainda não otivesse feito. A criatura respondeu-me com quatropedras na mão e retirou-se. Minha mulher deurazão a ela e conseguiu arrastar-me a um dosacessos de desespero que ultimamente seamiudavam. Como era possível trabalhar emsemelhante inferno? Nesse ponto surgiu Luccarini.Entrou sem pedir licença, atarantado, cochichourapidamente que iam prender-me e era urgenteafastar-me de casa, recebeu um abraço e saiu. Ótimo. Num instante decidi-me. Não mearredaria, esperaria tranqüilo que me viessembuscar. Se quisesse andar alguns metros, chegariaà praia, esconder-me-ia por detrás de uma duna, lá________________________________________ 23Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  24. 24. ficaria em segurança. Se me resolvesse a tomar obonde, iria até o fim da linha, saltaria emBebedouro, passaria o resto do dia a percorreraqueles lugares que examinei para escrever oantepenúltimo capítulo do romance. Não valia apena. Expliquei em voz alta que não valia a pena.Entrei na sala de jantar, abri uma garrafa deaguardente, sentei-me à mesa, bebi alguns cálices,a monologar, a dar vazão à raiva que me assaltara.Propriamente não era monólogo: minha mulherreplicava com estridência. Escapava-me asignificação da réplica, mas a voz aguda meendoidecia, furava-me os ouvidos. Não conheçopior tortura que ouvir gritos. Devia existir umarazão econômica para esse desconchavo: asminhas finanças equilibravam-se com dificuldade,evitávamos reuniões, festas, passeios. De fato asprivações não me inquietavam. Minha mulher,porém, sentia-se lesada, o que me fazia perder osestribos. De repente um ciúme insensato. Aincongruência me arrancava a palavra dura: – Que estupidez! Naquele momento a idéia da prisão dava-mequase prazer: via ali um princípio de liberdade.________________________________________ 24Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  25. 25. Eximira-me do parecer, do ofício, da estampilha,dos horríveis cumprimentos ao deputado e aosenador; iria escapar a outras maçadas, gotasespessas, amargas, corrosivas. Na verdadesuponho que me revelei covarde e egoísta: váriascrianças exigiam sustento, a minha obrigação erapermanecer junto a elas, arranjar-lhes por qualquermeio o indispensável. Desculpava-me afirmandoque isto se havia tornado impossível. Que diabo iafazer, perseguido, a rolar de um canto para outro,em sustos, mudando o nome, a barba longa, areduzir-me, a endividar-me? Se a vida comum eraruim, essa que Luccarini me oferecera numsussurro, a tremura e a humilhação constante, davaengulhos. Além disso eu estava curioso de saber aargüição que armariam contra mim. Bebendoaguardente, imaginava a cara de um juiz,entretinha-me em longo diálogo, e saía-me,perfeitamente, como sucede em todas as conversasinteriores que arquiteto. Uma compensação: nasexteriores sempre me dou mal. Com franqueza,desejei que na acusação houvesse algumfundamento. E não vejam nisto bazófia oumentirás: na situação em que me achava justifica-se a insensatez. A cadeia era o único lugar que me________________________________________ 25Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  26. 26. proporcionaria o mínimo de tranqüilidadenecessária para corrigir o livro. O meuprotagonista se enleara nesta obsessão: escreverum romance além das grades úmidas e pretas.Convenci-me de que isto seria fácil: enquanto oshomens de roupa zebrada compusessem botões depunho e caixinhas de tartaruga, eu ficaria largashoras em silêncio, a consultar dicionários,riscando linhas, metendo entrelinhas nos papéisdatilografados por d. Jeni. Deixar-me-iam ficar atéconcluir a tarefa? Afinal a minha pretensão nãoera tão absurda como parece. Indivíduos tímidos,preguiçosos, inquietos, de vontade fraca habituam-se ao cárcere. Eu, que não gosto dê andar, nuncavejo a paisagem, passo horas fabricando miudezas,embrenhando-me em caraminholas, porque nãohaveria de acostumar-me também? Não seria mauque achassem nos meus, atos algum, involuntário,digno de pena. É desagradável representarmos opapel de vítima. – Coitado! É degradante. Demais estaria eu certo de nãohaver cometido falta grave? Efetivamente nãotinha lembrança, mas ambicionara com fúria ver a________________________________________ 26Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  27. 27. desgraça do capitalismo, pregara-lhe alfinetes,únicas armas disponíveis, via com satisfação osmuros pichados, aceitava as opiniões de Jacob.Isso constituiria um libelo mesquinho, quetestemunhas falsas ampliariam. Tinha o direito deinsurgir-me contra os depoimentos venenosos? Deforma nenhuma. Não há nada mais precário que ajustiça. E se quisessem transformar em obras osmeus pensamentos, descobririam com facilidadematéria para condenação. Não me repugnava aidéia de fuzilar um proprietário por serproprietário. Era razoável que a propriedade mecastigasse as intenções. Fui ao banheiro, tomei um longo banho.Tolice vivermos a apurar responsabilidades.Muitas coisas nos acontecem por acaso, e às vezesnos chegam vantagens por acaso. Julgava é quenão me deteriam nem uma semana. Dois ou trêsdias depois me mandariam embora, dando-meexplicações. Um engano. Findo o banho, preparei-me para sair. Em seguida meti alguma roupabranca na valise, mandei comprar muito cigarro efósforo.________________________________________ 27Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  28. 28. D. Irene, diretora de um. grupo escolarvizinho, apareceu à tarde. Envergonhei-me detocar na demissão, e falamos sobre assuntosdiversos. Aí, me chegaram dois telegramas. Umencerrava . insultos; no outro, certo candidatoprejudicado felicitava a instrução alagoana pelomeu afastamento. Rasguei os papéis, disposto aesquecê-los. Sumiram-se na verdade os nomes dossignatários e as expressões injuriosas, ter-se-iatalvez a pequena infâmia esvaído inteiramente senão contrastasse com a presença de d. Irene ali nasala. O que me interessava no momento era oesforço despendido por ela em três anos. Talvezisso houvesse concorrido para embranquecer-lheos cabelos, dar-lhe aquela gravidade atenta. Nãosorria nunca. E sob o penteado grisalho o rostomoço tinha uma beleza fria No estabelecimentodela espalhavam-se a princípio duzentos e poucosmeninos, das famílias mais arrumadas de Pajuçara.Numa campanha de quinze dias, por becos, ruelas,cabanas de pescadores, d. Irene enchera a escola.Aumentado o material, divididas as aulas em doisturnos, mais de oitocentas crianças haviamsuperlotado o prédio, exibindo farrapos, arrastando________________________________________ 28Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  29. 29. tamancos. Ao vê-las, um interventor disseraindignado: – Convidam-me para assistir a umaexposição de misérias. E alguém respondera. – É o que podemos expor Calçados e vestidos pela caixa escolar, osgarotos se haviam apresentado com decência.Lembrava-me da lufa-lufa necessária paramodificá-los, ria-me pensando em Flora Ferrazsentada no chão, às oito horas da noite, aexperimentar sapatos em negrinhos. Avizinhando-me dela, repelira-me com raiva: – O senhor tem coragem de me dar a mão?Estou suja. Desde a manhã aqui pegando os pésdestes moleques! Quatro dessas criaturinhas arrebanhadasnesse tempo, beiçudas e retintas, haviam obtido asmelhores notas nos últimos exames. – Que nos dirão os racistas, d. Irene? Na fronte calma de d. Irene esboçava-se umaligeira ruga, e eu admirava-lhe a dignidade________________________________________ 29Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  30. 30. simples, a decisão rigorosa de abelha-mestra.Apesar de sentir prazer em ouvi-la, desejava queela se retirasse: inquietava-me saber que aqualquer momento viriam buscar-me, e isto aperturbaria. Depois a notícia daquela visita comcerteza lhe ocasionaria prejuízos. Levantava-me,procurava um meio de afastá-la, os ouvidosabertos aos rumores da rua. Afinal, cerca de setehoras, um automóvel deslizou na areia, deteve-se àporta – e um oficial do exército, espigado, escuro,cafuz ou mulato, entrou na sala. – Que demora, tenente! Desde o meio-diaestou à sua espera. – Não é possível, objetou o rapazempertigando-se. – Como não? Está aqui a valise pronta, nãofalta nada. O sujeitinho deu um passo àretaguarda, fez meia-volta, aprumou-se, encarou-me. Tinha-lhe observado esse curioso sestro ummês antes, na repartição, onde me surgirapleiteando a aprovação de uma sobrinhareprovada. Eu lhe mostrara um ofício em que adiretora do Grupo Escolar de Penedo contavadireito aquele negócio: a absurda pretensão de se________________________________________ 30Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  31. 31. nomear para uma aluna banca especial fora detempo. – Impossível, tenente. Isso é anti-regulamentar. Demais, se a garota não conseguiuaprender num ano, certamente não foi recuperarem dias o tempo perdido. Sua sobrinha não énenhum gênio, suponho. O tenente recuara, rodara sobre oscalcanhares, perfilara-se em atitude perfeitamentemilitar e replicara com absoluta impudência: – É o que ela é. Um gênio. Posso afirmar-lheque é gênio. E voltara a repetir o mesmo pedido, usandoas mesmas palavras. Depois de meia hora demarchas e contramarchas cansativas, fizera asaudação, a última reviravolta, abrira a portinholae deixara o gabinete em passos rítmicos. No diaseguinte regressara com uma carta derecomendação, repisara a exigência, leraimpenetrável o regulamento e o ofício, ouvira arecusa fatal – e, no fim do resumo do casoenfadonho, o recuo, o movimento circular, oaprumo, a solicitação invariável, o obtuso louvorda sobrinha:________________________________________ 31Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  32. 32. – Um gênio, eu garanto. Admita que ela sejarealmente um gênio. Gastara-me a paciência e irritara-me. Agora,finda a pirueta, olhando a valise, prova de que nãohaviam sabido guardar segredo, encolheu osombros, sorriu, excessivamente gentil: – Vai apenas essa maleta? Aqui entre nósposso dizer: acho bom levar mais roupa. É umconselho. – Obrigado, tenente. Comecei a perceber que as minhasprerrogativas bestas de pequeno-burguês iamcessar, ou tinham cessado. Retirei da mesa trêslivros chegados na véspera, pelo correio. Despedime. D. Irene se espantava, talvez semcompreender bem a significação exata daquilo.Meus filhos mais velhos, agitados e pálidos,fingiam calma. Beijei as crianças, sossegadas.Procurei na cara de minha mulher sinal de medo.Em vão: nem dessa vez nem de outras lhe percebinenhum receio. Nos momentos mais difíceissempre a vi corajosa, e isto a diferençava dosparentes, em geral pusilânimes. Depois do conflitoda manhã serenara, assistira calada aos________________________________________ 32Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  33. 33. preparativos, sem acreditar talvez na realização da,Diante da cabriola e do sorriso do mulato, pareceudespertar, mas não revelou susto. Uma perguntame verrumava o espírito: porque vinha prender-meo sujeito que um mês antes me fora amolar cominsistências desarrazoadas? – Quando quiser, tenente. Saímos da sala e entramos no automóvel,um grande carro oficial.________________________________________ 33Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  34. 34. 4 RODAMOS em silêncio, atravessamos obairro de Jaraguá e a cidade. Não me lembro dehaver dito uma palavra ao tenente. Ignorava odestino que me reservavam, mas isto não medespertava nenhuma curiosidade. Fastio, quaseindiferença, a vaga compreensão de ter caídonuma ratoeira suja, a suspeita de mesquinharia eridículo no incidente medíocre. Porque estava alijunto de mim aquele sujeito? Balançando nasmolas doces, impossibilitado de bater oscalcanhares, retesar a espinha, fazer a meia-volta ea continência, anulava-se. A pergunta mentalsurgida em casa continuava a espicaçar-me. Certoele não havia determinado a minha prisão, mas eracurioso encarregar-se de efetuá-la. Sem meincomodar com essa pequena vingança, penseinoutras, vi o país influenciado pelos tenentes queexecutam piruetas, pelas sobrinhas dos tenentesque executam piruetas. Desejariam os poderespúblicos que eu mandasse aprovar com dolo asobrinha do tenente, em Penedo? Não me________________________________________ 34Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  35. 35. exigiriam expressamente a safadeza, mas deviamexistir numerosos tenentes e numerosas sobrinhas,e a conjugação dessas miuçalhas mandava para asgrades um pai de família, meio funcionário, meioliterato. Chegamos ao quartel do 20.º Batalhão.Estivera ali em 1930, envolvera-me estupidamentenuma conspiração besta com um coronel, ummajor e um comandante de polícia, e vinte equatro horas depois achava-me preso e só.Dezesseis cretinos de um piquete de Agildo Baratahaviam fingido querer fuzilar-me. Um dossoldadinhos que me acompanhavam chorava comoum desgraçado. Parecera-me então que ademagogia tenentista, aquele palavrório chocho,nos meteria no atoleiro. Ali estava o resultado:ladroagens, uma onda de burrice a inundar tudo,confusão, mal-entendidos, charlatanismo,energúmenos microcéfalos vestidos de verde aesgoelar-se em discursos imbecis, a semeardelações. O levante do 3.° Regimento e arevolução de Natal haviam desencadeado umaperseguição feroz. Tudo se desarticulava, sombriopessimismo anuviava as almas, tínhamos aimpressão de viver numa bárbara colônia alemã.________________________________________ 35Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  36. 36. Pior: numa colônia italiana. Mussolini era umgrande homem, e escritores nacionais celebravamnas folhas as virtudes do óleo de rícino. Aliteratura fugia da terra, andava num ambiente desonho e loucura, convencional, copiava figurinosestranhos, exibia mamulengos que os leitoresrecebiam com bocejos e indivíduos sagazeselogiavam demais. O romance abandonava opalavrão, adquiria boas maneiras, tentava comoveras datilógrafas e as mocinhas das casas de quatromil e quatrocentos. Uma beatice exageradaqueimava incenso defumando letras e artescorrompidas, e a crítica policial farejava quadros epoemas, entrava nas escolas, denunciavaextremismos. Um professor era chamado àdelegacia: – “Esse negócio de africanismo éconversa. O senhor quer inimizar os pretos com aautoridade constituída.” O Congresso apavorava-se, largava bambo as leis de arrocho – e vivíamosde fato numa ditadura sem freio. Esmorecida aresistência, dissolvidos os últimos comícios,mortos ou torturados operários e pequeno-burgueses comprometidos, escritores e jornalistasa desdizer-se, a gaguejar, todas as poltronices a________________________________________ 36Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  37. 37. inclinar-se para a direita, quase nada poderíamosfazer perdidos na multidão de carneiros. Pensando nessas coisas, desci do automóvel,atravessei o pátio, que, em 1930, vira cheio deentusiasmos enfeitados com braçadeirasvermelhas. Numa saleta, um rapaz me recebeu emsilêncio, conduziu-me a outra saleta onde haviauma cama e desapareceu. O mulato fez a últimaviravolta e desapareceu também. A porta ficou umsoldado com fuzil. Evidentemente as minhasreflexões tendiam a justificar a inércia, afacilidade com que me deixara agarrar. Se todos ossujeitos perseguidos fizessem como eu, não teriahavido uma só revolução no mundo.Revolucionário chinfrim. Desculpava-me a idéiade não pertencer a nenhuma organização, de serinteiramente incapaz de realizar tarefas práticas.Impossível trabalhar em conjunto. As minhasarmas, fracas e de papel, só podiam ser manejadasno isolamento. No íntimo havia talvez o incertodesejo de provocar a nova justiça inquisitorial,perturbar acusadores, exibir em tudo aquiloembustes e patifarias. Essa vaidade tola deviabasear-se na suposição de que enxergariam emmim um indivíduo, com certo número de direitos.________________________________________ 37Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  38. 38. Logo ao chegar, notei que me despersonalizavam.O oficial de dia recebera-me calado. E a sentinelaestava ali encostada ao fuzil, em mecânicachateação, como se não visse ninguém. Sentado na cama, o chapéu em cima davalise, abri com o pente as páginas dos trêsvolumes que trouxera: Território Humano de JoséGeraldo Vieira, Gente Nova de Agrippino Griecoe Dois Poetas de Otávio de Faria. Li a primeirafolha do primeiro umas três vezes, inutilmente.Conservei esses livros muitos meses,acompanharam-me por diversos lugares, foramremoídos, esfacelaram-se, pulverizaram-se; hoje,com esforço, consigo recordar algumas passagensde um deles. Nada afinal do que eu havia suposto: ointerrogatório, o diálogo cheio de alçapões,alguma carta apreendida, um romance com riscose anotações, testemunhas sumiram-se. Não meacusavam, suprimiam-me. Bem. Provavelmenteseria inquirido no dia seguinte, acareado,transformado em autos. Que horas seriam? Estirei-me no colchão, vestido, o livro de José Geraldoaberto sobre o estômago vazio. Em jejum desde________________________________________ 38Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  39. 39. manhã, mas isto apenas me causava uma vagatontura e escurecia a vista. E concorria talvez paradificultar a compreensão do texto. Virando acabeça, percebia à esquerda o soldado imóvel.Essa precaução me parecia tão burlesca e tãoestúpida que interrompia a leitura vã, ria-me,apesar de tudo. Sentava-me, acendia um cigarro.Naturalmente não havia cinzeiro, esses luxos decivilização tinham desaparecido. Burlesco.Recebera a notícia ao meio-dia, lavara-me, vestira-me, lera dois telegramas desaforados, conversarasó, com minha mulher e com d. Irene. Tinham-mefeito esperar sete horas. E ali estava com sentinelaà vista. Para quê? Não era mais simples trancarema porta? Aquele dispêndio inútil de energiacorroborava o desfavorável juízo que eu formarada inteligência militar. De novo me deitava,pegava a brochura, soltava-a, cobria os olhos como chapéu por causa da luz, tornava a levantar-me,acendia outros cigarros. Já no cimento seacumulavam pontas. Nenhum relógio navizinhança. Apenas os indeterminados rumoresnoturnos da caserna: um apito, vozes remotas,confusas. O sujeito firme, encostado ao fuzil. Iriapassar ali a noite, dormir em pé? Eu não tinha________________________________________ 39Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  40. 40. sono, mas ele, coitado, com certeza engoliabocejos, amolava-se. Enfim que significação tinhaaquilo? Pretenderiam manifestar-me deferência,considerar-me um sujeito pernicioso demais, queera preciso vigiar, ou queriam apenasdesenferrujar as molas de um recruta desocupado?Compreenderia ele que era uma excrescência,ganhava cãibras à toa, equilibrando-se ora numaperna, ora noutra? Se não fosse obrigado adesentorpecer-se e dar-me um tiro em caso defuga, aquela extensa vigília só tinha o fim deembrutecê-lo na disciplina. Procurei um mictório, nas paredes lisas,cheguei-me à porta, desci à calçada, passei emfrente do manequim teso, sem me decidir aperguntar-lhe quantos metros o fio que meamarrava poderia estender-se: provavelmente, nasfunções de espantalho, a criatura emudecia.Avizinhei-me do pátio coberto de manchas desombra e luz. Regressei ao cabo de um minuto,busquei o lavatório, achei uma pequena moringa eum copo. A higiene satisfazia-se com isso. Volteia estender-me no colchão, fatigado, cochilei algumtempo, confundi o real e o imaginário, os olhosprotegidos pela aba do chapéu. Despertava,________________________________________ 40Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  41. 41. fumava, distinguia o estafermo e o fuzil,imaginava, olhando-os de perto, vendo a carrancae o brilho do metal, que haviam sido ali postospara amedrontar-me. Recurso infantil: conjetureicrianças barbadas, ingênuas e maliciosas. O pobrehomem devia estar cansado. Seria o mesmo docomeço ou teria vindo outro durante os cochilos?Havia-me escapado a substituição. Também meescapavam próximos rumores possíveis: gemidosdo vento nas árvores do pátio, a marcha lenta daronda. Realmente não me lembro de árvores nemda ronda: isto é suposição. Esqueci pormenores,ou não os observei. Ter-me-ia revelado inquieto? Pouco meimportava o conceito que a sentinela pudesse terdos meus movimentos excessivos, nem me ocorriaque o infeliz, tão parado, tivesse conceitos. Mas naverdade a inquietação era puramente física: difícilpermanecer num lugar; precisão de levantar-me,sentar-me, deitar-me. fumar; a ligeira sonolênciaperturbada vezes sem conta e a leitura das mesmaspáginas de José Geraldo Vieira Parecia-me faltar aum dever. Habituara-me a ler todos os livros queme remetiam, ali estavam três a desafiar-me emlonga insônia, e era-me impossível fixar a atenção________________________________________ 41Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  42. 42. neles. As idéias partiam-se a cada instante,desagregavam-se. Picadas no estômago. Fome.Não, não era fome: nem conseguiria mastigarqualquer coisa. Só pensar em comida me davaenjôo. Interiormente achava-me tranqüilo. Ouantes, achava-me indiferente. Sumia-se até acuriosidade inicial. Que peça me iriam pregar nodia seguinte? Julgo que não perguntei isso.Realmente era desagradável continuar naquelasaleta nua, a procurar nas paredes um lavatório eum mictório inexistentes. Mas noutro cantoarranjar-me-ia. Operava-se assim, em poucashoras, a transformação que a cadeia nos impõe: aquebra da vontade. E não me espantei quando,manhãzinha, me vieram tirar de uma levemodorra: – Prepare-se para viajar. Saltei da cama; utilizando o copo e amoringa, escovei os dentes, lavei o rosto, molheios cabelos; penteei-me, agarrei a valise e os trêsvolumes: – Está bem.________________________________________ 42Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  43. 43. 5 A SAÍDA encontrei o Tavares, conhecidovelho do tempo de rapaz, agora investigador dapolícia. Disse-me que tinha ordem de levar-me aoRecife e perguntou-me se que ria um carro. Apergunta revelava estranha sovinice: pareceu-meque, preso, não me cabia pagar transporte; e, sefôssemos a pé, não alcançaríamos o trem. Senti-me lesado, mas respondi afirmativamente – e foiesta a última relação que tive com os poderespúblicos de Alagoas. Saltamos na estação da Great Western.Quereriam obrigar-me a comprar passagem? Nãofalaram nisso – e respirei, isento deresponsabilidades. Na plataforma vi chegar umhomenzinho moreno, cheio de tiques risonhos, quesegurava uma grande mala e se apresentou:capitão Mata, meu companheiro de viagem. – Vai conduzir-me ao Recife? Não, ia também conduzido. Entramos novagão de primeira classe. Na antevéspera________________________________________ 43Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  44. 44. Sebastião Hora, médico, presidente da AliançaNacional, fora metido entre operários, atravessaraa cidade carregando a bagagem e viajara desegunda, com as portas trancadas. Ao sentar-me,descobri minha mulher na lufa-lufa dospassageiros. Vinha pálida e chorava aquele chorofácil, sereno, que não lhe contrai um músculo,choro superficial, tão diferente dos meus: arrancosinteriores, repuxos medonhos no diafragma,ordinariamente sem lágrimas. Diante do rostomolhado e calmo, as desavenças esmoreceram.Perturbado, gaguejei algumas recomendaçõessobre a mudança dela para a casa do pai, falei nascrianças e, lembrando-me de que a deixara semrecursos, abri a carteira, exibi o conteúdo eentreguei-lhe metade. Levava comigo seiscentosmil-réis, pois não sabia em que apertos me iriaachar. Aconselhei-a a vender os móveis e umapequena propriedade que tínhamos. Pensei noromance inédito e, receando buscas, pedi-lhe que,ao recebê-lo de d. Jeni, guardasse o manuscritonuma casa e a cópia noutra. Esgotados essesassuntos, pus-me a repisá-los, constrangido,desgostoso com o pranto sossegado, invariável,acusando-me interiormente de ter sido grosseiro________________________________________ 44Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  45. 45. na véspera. Recebi um pacote de troços miúdos emeti-o na valise. Numa portinhola adiante, capitãoMata despedia-se alegremente de umas senhorasdespreocupadas, naturais, como se julgassem aprisão dele um fato comum, acidente de quartel.Derradeiro apito, derradeiro abraço, derradeirasrepetições, um solavanco – e achei-me curvadopara fora, a agitar o braço, vendo uma figurabranca e imóvel decrescer até sumir-se. Nenhuma saudade, nenhuma dessasmeiguices românticas, enervadoras: sentia-meatordoado, como se me dessem um murro nacabeça. Julgava-me autor de várias culpas, masnão sabia determiná-las. Arrependia-mevagamente de asperezas e injustiças, ao mesmotempo supunha-me fraco, a escorregar emcondescendências inúteis, , e queria endurecer ocoração, eliminar o passado, fazer com ele o quefaço quando emendo um período – riscar,engrossar os riscos e transformá-los em borrões,suprimir todas as letras, não deixar vestígio deidéias obliteradas. Aquela viagem era uma dádivaimprevista. Estivera a desejá-la intensamente,considerando-a difícil, quase irrealizável, ealcançava-a de repente. Sucedera-me um desastre,________________________________________ 45Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  46. 46. haviam pretendido causar-me grande mal – o male o desastre ofereciam-me um princípio delibertação. Os dois choques seguidos, desempregoe cadeia, e também os telegramas ofensivos eramúteis: perturbavam-me, embrulhavam casosenfadonhos, obrigavam-me a um salto arriscado, enessa deslocação datas e fisionomias se toldavamde espessa névoa. Parecia-me que saldava umadívida, me livrava de pesos interiores. Qualquerfavor acaso ali recebido findava.. Bom que medeixassem partir esquecido e em silêncio:estávamos quites. E nesse ajuste de contasfiguravam governo e particulares. Sem guardarressentimento, aliviava-me de obrigações.Voltando-me, percebi ao meu lado o capitão Mata,expansivo, amável, a dizer-me coisas que nãoentendi bem. Formei sobre elas um juízo confuso,alterei-o e corrigi-me depois, mas a princípio,desatento e mudo, com certeza dei ao rapaz umaimpressão lastimosa. Confessou-me que estavainocente e era vítima de enredos e maroteiras doscolegas; necessitava repisar isto, como se eu fossejulgá-lo– estava inocente. Oficial de políciarebelde a entusiasmos, poeta por vocação. Comoprofissional, ficara alguns meses no Rio, em________________________________________ 46Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  47. 47. estágio lembrado com júbilo, mas fora comodiletante que aí se notabilizara: num jantar, entrecamaradas, recitara versos da sua lavra, e isto lhedera largo prestígio. Essas informaçõesmisturavam-se a trechos de paisagem, diluíam-se,recompunham-se. . Algumas sílabas que euentremeava no solilóquio poderiam dar-lheaparência de conversa – e assim abrandamos parteda viagem. Logo nas primeiras estações três conhecidossurgiram, patentearam-se, ofereceram-me asúltimas imagens que levei daquela terra. Se o meucompanheiro não falasse demais, sempre aexplicar-se, a justificar-se, sem dificuldades nostomariam como passageiros comuns: oinvestigador, discreto, de nenhum modo noscomprometia. Mas as explicações e asjustificações nos marcaram, chamaram a atençãode Benon Maia Gomes, diretor do Serviço deAlgodão depois da bagunça de 1930; nesse tempome aparecia às vezes na Imprensa Oficial, onde eubocejava a olhar, sob um telheiro próximo, umhomem que enchia dornas e uma mulher quelavava garrafas. Durante uns minutos de parada,Benon Maia Gomes censurou-me acrimonioso a________________________________________ 47Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  48. 48. desordem. Estava convencido de que o meutrabalho era uma desgraça. Murmurou eremurmurou, carrancudo, sombrio: -Desordem, desorganização. Mordi os beiços, contive-me, preguei osolhos num ponto afastado, imobilizei-me até que otrem se pôs em marcha. Outro conhecido, tambémvisto de relance numa estação, foi o deputado Joséda Rocha. Ao ter conhecimento da infeliz notícia,recuou, temendo manchar-se, exclamouarregalado: – Comunista! Espanto, imenso desprezo, a convicção deachar-se na presença de um traidor. Absurdo: eunão podia considerar-me comunista, pois nãopertencia ao Partido; nem era razoável agregar-meà classe em que o bacharel José da Rocha,usineiro, prosperava. Habituara-me cedo a odiaressa classe, e não escondia o ódio Embora isto nãolhe causasse nenhum prejuízo, era natural que, emhora de paixões acirradas, ela quisesse eliminar-me. O assombro do usineiro me pasmava – eéramos duas surpresas. Nascido na propriedade eagüentando-se lá, sempre a serrar de cima,conquistando posições, bacharel, deputado, etc.,________________________________________ 48Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  49. 49. não via razão para descontentamentos. Com umsobressalto doloroso notava que eles existiam.Então os cérebros alheios funcionavam, efuncionavam contra os seus interesses, asmoendas, os vácuos, os dínamos e os canaviais.Uma palavra apenas, e nela indignação, asco, umaraiva fria manifesta em rugas ligeiras: – Comunista! Este resumo aniquilava-me. Ingrato. Equalquer acréscimo, gesto ou vocábulo eraredundância. O terceiro encontro foi com MiguelBaptista, com quem me correspondera quandotrabalhava na Prefeitura de Palmeira dos índios eele, diretor da Instrução Pública, fazia orecenseamento da população escolar. Agora, juizde direito no interior, viajava para a sua comarca.Entrou no carro, abraçou-me em silêncio e foisentar-se a pequena distância, de costas para mim.Não me olhou uma vez. No ponto dedesembarque, entregues os pacotes ao carregador,veio abraçar-me de novo: – Adeus, Fulano. Até a volta. Confundi-me,gaguejei: – Não, Baptista, eu não volto.________________________________________ 49Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  50. 50. – Volta, sim. Isso é um equívoco, não temimportância. Dentro de uma semana tudo seesclarece. Adeus, seja feliz. Foi pouco mais oumenos o que ele disse – e isto dissipou negrumes,hoje me dá uma recordação amável daquele dia.Na ausência de Baptista, indaguei-me. Se osnossos papéis estivessem trocados, haveria euprocedido como ele, acharia a maneiraconveniente de expressar um voto generoso?Talvez não. Acanhar-me-ia, atirar-lhe-ia de longeuma saudação oblíqua, fingir-me-ia desatento.Essas descobertas de caracteres estranhos melevam a comparações muito penosas: analiso-me esofro. No calor e na poeira, o capitão Mataparolava distraindo-se e distraindo-me. Recitouum soneto, de que não percebi logo o intuitosatírico. Caprichava na sintaxe, metrificava ironiasà segurança pública: e em 1936 esse desrespeitopodia considerar-se uma espécie de comunismo.No princípio da tarde o investigador Tavaresacompanhou-me ao restaurante, mas o cheiro dacomida me nauseava. Pedi cigarros e conhaque.Fumava sem descontinuar, a provisão do tabacosumia-se rapidamente na valise. E necessitava________________________________________ 50Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  51. 51. beber. Isto não me abria o apetite. As picadas noestômago haviam desaparecido, e umentorpecimento se alargava, dava-me a impressãode que o órgão se extinguiria e eu viveria bem semcomer. A tontura da noite se sumira também:achava-me lúcido, a memória funcionavaregularmente, e se Tavares não fosse da polícia,agradar-me-ia conversar com ele, recordar assobrinhas do padre Raul, Pontal-da-Barra, casosda mocidade. O que fiz foi confiar-lhe um bilhetepara minha mulher. Na atrapalhação da partida,esquecera-me de um aviso importante. De fato nãohavia importância, mas ali, ausentando-me domundo, começava a dar às coisas valores novos.Sucedia um desmoronamento. Indispensávelretirar dele migalhas de vida, cultivá-las e ampliá-las. De outro modo, seria o desastre completo, omergulho definitivo. Assim, lembrei-me de umacarta recebida poucos dias antes da Argentina.Benjamin Garay andava a traduzir-me um livro, adizer que o traduzia, e forçava-me a gastar papel etempo numa correspondência longa. Ultimamenteme exigira colaboração para não sei que revista deBuenos Aires. Pensei num conto deixado nagaveta sapecado, cheio de abundantes minúcias________________________________________ 51Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  52. 52. exasperadoras, e, a lápis, em pedacinhos de papelarrancados da carteira, sugeri a minha mulher quetirasse duas cópias dele e mandasse uma a Garay.Bebendo conhaque, vendo em colinas e planíciesdesdobrarem-se canaviais, parecia-me haverescrito a alguém que se tivesse desligado quasecompletamente de mim. Na verdade a separaçãonão era completa. Os desgostos diários e aserenidade lacrimosa da manhã fundiam-senaquele torpor que principiava iro estômago, sealargava, mergulhava todo o corpo em sombriaindiferença. Mas havia os filhos: precisava cuidardeles. Como? Ali a rodar nos trilhos da GreatWestern, os versos de Bandeira ecoando no ganzáda locomotiva: “Passa boi, passa boiada”, usinassucedendo-se no campo verde, a do dr. José daRocha e as de outros doutores, achava-me inútil,preguiçoso e estúpido. O desejo de fazer um livro na cadeiaarrefecia; contudo apegava-me a ele, por não meocorrer outro. Talvez aquela confusão sédissipasse, uma confusão esquisita: as idéias mechegavam nítidas, fugiam, voltavam, eramsubstituídas, atropelavam-se; impossível fixá-las;coisas muito claras que se partiam. Tudo por causa________________________________________ 52Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  53. 53. daquele deslocamento. Devia ser isto: horríveis asmudanças. A usina do deputado José da Rocha; aopinião severa de Benon Maia Gomes; um tenentemulato a perfilar-se, depois a girar num corrupio:– “Um gênio, é o que ela é”; Rubem Loureirotransmitindo-me um recado custoso de Osman, nogabinete cheio de peças de fazenda, processos évolumes do Literatura Internacional; a nobreza deMiguel Baptista, exposta num rápido cochicho;indispensável arranjar um livro, a lápis, empedaços de papel, frustrar com ele a monotonia daprisão. Este último pensamento vinha sempre,teimoso, não havia meio de suprimi-lo. Dar-me-iam a tranqüilidade necessária para fazer o livro?Provavelmente não dariam. Agadanhavam-me é,depois de uma noite de insônia, despachavam-mepara o Recife. Que diabo queriam de mim noRecife? Capricho. Certamente me forçariam ainterrogatórios morosos, testemunhas diriamcobras e lagartos, afinal me chegaria umacondenação de vulto. Sem dúvida. Quais seriam osmeus crimes? Não havia reparado nos enxertos em1935 arrumados na constituição. Num deles iriaembrulhar-me. A conjetura de que me largariam________________________________________ 53Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  54. 54. ao cabo de dois ou três dias, por falta de provas,sumiu-se. Aquela transferência anunciava demora. Em frente a mim, os cotovelos na mesa,Tavares, sonolento, bocejava com dignidadebovina. Nenhuma aparência de cão de guarda: umboi. De espaço a espaço mugia uma questão, a queeu respondia por monossílabos, afirmando ounegando com a cabeça. Voltei ao carro de primeiraclasse, diligenciei entreter-me com as divagaçõesdo meu companheiro. Não conseguia, porém,dispensar-lhe atenção: mudo e chocho, isento decuriosidade, andava aos saltos no tempo, brocasagudas verrumando-me o interior. Burrice imaginar que me séria possívelatamancar um romance além das grades. Nemconseguia meio de consertar o que d. Jenidatilografava. Isto me afligia: defeitos por todos oscantos, prosa derramada e insípida. O conto quehavia ficado na gaveta precisava tambémnumerosas emendas, cortes, substituições.Entretanto eu o mandava copiar e remeter a umpaís estrangeiro, coisa que, no meu juízo perfeito,não faria. E já aí tínhamos uma pequena amostrado que nos oferecia o absolutismo novo, sem________________________________________ 54Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  55. 55. disfarces, dentes arreganhados, brutal: orebaixamento da produção literária. E era-menecessário dedicar-me a ela de qualquer modo,exportá-la em contrabando sé o mercado interno arecusasse. Recusaria, decerto. Passei o dia a mexer-me do vagão para orestaurante, bebi alguns cálices de conhaque, osúltimos que me permitiriam durante longos meses.A noitinha percebi construções negras num terrenoalagado. Que seria aquilo? – Mocambos, informou Tavares. Bem, os célebres mocambos que José Linshavia descrito em Moleque Ricardo. ConheceriaJosé Lins aquela vida? Provavelmente nãoconhecia. Acusavam-no de ser apenas ummemorialista, de não possuir imaginação, e oromance mostrava exatamente o contrário. Queentendia ele de meninos nascidos e criados nalama e na miséria, ele, filho de proprietários?Contudo a narração tinha verossimilhança. Euseria incapaz de semelhante proeza: só meabalanço a expor a coisa observada e sentida.Tornaria esse amigo a compor outra históriaassim, desigual, desleixada, mas onde existem________________________________________ 55Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  56. 56. passagens admiráveis, duas pelo menos a atingir oponto culminante da literatura brasileira? Quemsabia lá? Agora morava no Rio, talvez entrasse naordem, esquecesse a bagaceira e a senzala, forjassenovelas convenientes para um público besta, rico évazio. Malucando assim, alcancei a estação deCinco-Pontas peguei a valise e os três volumes,saltei na plataforma, acompanhado peloinvestigador, junto ao capitão Mata, que sederreava ao peso da mala.________________________________________ 56Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  57. 57. 6 CHEGOU-SE a nós um rapaz alto, esticadona farda, que se ofereceu para conduzir-nos aonosso destino. A fala era branda, os modoscorteses, de uma cortesia sem afetação, ligada comrigor ao homem, parecendo haver nascido com ele.A maneira como se apresentou, nos abriu aportinhola de um grande automóvel, dava-nos aimpressão de que éramos hóspedes consideráveislevados ao hotel por um funcionário cerimonioso.E nenhuma palavra que de longe revelasse a nossadegradação. O investigador Tavares logo seeclipsou. Estranho. Aquela contradança medesorientava. Subordinara-me em vinte e quatrohoras ao mulato rodopiante, ao oficial mudo, àsentinela, ao Tavares, ao rapaz atencioso.Surpreendia-me: imaginara que me trancassem achave numa sala, me deixassem só – e não me virasó um minuto. A vigilância contínua, emboraexercida por uma estátua armada a fuzil ou poruma criatura amável em excesso, começava aangustiar-me. Isso e a instabilidade. Mal fechara________________________________________ 57Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  58. 58. os olhos numa leve sonolência, alguém mesacudira e soprara ao ouvido: “– Viajar.” Paraonde? Essa idéia de nos poderem levar para umlado ou para outro, sem explicações, éextremamente dolorosa, não conseguimosfamiliarizar-nos com ela. Deve haver uma razãopara que assim procedam, mas ignorando-a,achamo-nos cercados de incongruências. Temos aimpressão de que apenas desejam esmagar-nos,pulverizar-nos, suprimir o direito de nos sentarmosou dormir se estamos cansados. Será necessáriaessa despersonalização? Depois de submeter-se asemelhante regime, um indivíduo é absolvido emandam-no embora. Pouco lhe serve a absolvição:habituado a mover-se como se o puxassem porcordéis, dificilmente se libertará. Condenaram-noantes do julgamento, e nada compensa o horríveldano. Talvez as coisas devam ser feitas assim, nãohaja outro meio de realizá-las. De qualquer modoisso é uma iniqüidade – e a custo admitiremos queuma iniqüidade seja indispensável. Aonde metransportariam? Aquela hora muitos indivíduossuspeitos estavam sendo paralisados, rolavamsobre pneumáticos silenciosos, navegavam donorte para o sul e do sul para o norte, resvalavam________________________________________ 58Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  59. 59. como sombras em longos corredores úmidos. E asautoridades resvalavam também, abafando ospassos, oblíquas, tortuosas, com aparência demalfeitores. Embarcamos, ziguezagueamos longamentena iluminação fraca do Recife. Achara-me alivinte e dois anos antes, recolhido, enfermo, eignorava a topografia da cidade: as ruas es treitas esem nome nada me diziam do itinerário. A umlado, o meu companheiro dava-me palpitesdesprovidos de significação; no outro lado, onosso guia, atento, digno, o busto ereto, quase seinvisibilizava na penumbra do veículo. Começavaa esboçar-se a terrível situação que ia perdurar:uma curiosidade louca a emaranhar-se em cordas,embrenhar-se em labirintos, marrar paredes, e aliperto o informe necessário, imperceptível naslinhas de uma cara enigmática e fria. Chegamosafinal diante de um vasto edifício, saltamos. E,lembrando-me da exigência da manhã, aproximei-me do chauffeur, abri a carteira, disposto a reduziros cobres escassos. – Ah! não! interpôs-se o nosso condutor. Éum carro oficial.________________________________________ 59Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  60. 60. Respirei aliviado. Atravessamos um portão,percorremos lugares que não me deixaramnenhum vestígio na memória, desembocamosnuma saleta onde um sujeito em mangas de camisabebia chá e mastigava torradas. Não se alteroucom a nossa presença: continuou sentado àmesinha, diante da bandeja, e nem deu mostra deperceber a continência e algumas palavrasindistintas do rapaz cortês. Pouco a pouco,inteirando-se de qualquer coisa, entrou amanifestar sinais de inquietação, jogando-nos desoslaio olhadelas descontentes. Tínhamos idoincomodá-lo, impacientava-se, murmurava umarecusa teimosa, falando para dentro, sem deixar demastigar a torrada. O movimento dos queixos e osom abafado e monótono casavam-se de tal jeitoque a recusa e a torrada pareciam confundir-se. Eas migalhas economizadas voltavam à boca,juntavam-se às sílabas indecisas, tudo se moianum ronrom asmático. Não me chegava umapalavra, e o desagrado apenas se revelava no gestoarrepiado, no resmungo cavernoso. O moço feznova continência, meia-volta, veio dizer-nos quenão havia ali acomodações para nós.________________________________________ 60Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  61. 61. Saímos, reembarcamos, outra vez noslargamos pelas ruas estreitas e sombrias. Segundaparada, e mergulhamos num casarão, subimos edescemos numerosos degraus de cimento,dobramos esquinas, fomos acordar o sujeito quedormia num quarto pequeno situado no fim de umalpendre. Levantou-se bocejando, a caraenferrujada.. E travou-se um diálogo de que nadaconsegui entender. Expressões técnicas soavaminutilmente, pessoas agora esquecidas por inteiroentravam, saíam, colaboravam na conversa, e, nãome sendo possível distinguir a posição socialdelas, ordens e evasivas se confundiam, paradiferençá-las havia apenas o tom, o gesto, apostura humilde ou arrogante. Na verdade me achava num mundo bemestranho. Um quartel. Não podia arrogar-meinteira ignorância dos quartéis, mas até então elesme haviam surgido nas relações com o exterior,esforçando-se por adotar os modos e a linguagemque usávamos lá fora. Aparecia-me de chofreinteriormente, indefinido, com seu rígidosimbolismo, um quadro de valores que me eraimpossível recusar, aceitar, compreender aomenos. Tinha-me livrado em poucos meses do________________________________________ 61Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  62. 62. serviço militar, numa linha de tiro, sem nenhumpatriotismo, apenas interessado na ginástica.Habituara-me cedo a considerar o exército umainutilidade. Pior: uma organização maléfica.Lembrava-me dos conquistadores antigos, brutos,bandidos, associava-os aos generais modernos,bons homens, excelentes pais de família, em todoo caso brutos e bandidos teóricos, mergulhadosnuma burocracia heróica e dispendiosa. Maistarde, numa prefeitura da roça, percebera que osmelhores trabalhadores, os mais capazes, tinhamsido soldados – e aquele ninho de parasitas serevelara incongruente. Uma idéia preconcebida,rigorosa, esbarrava com a observação. Nada maisbesta que as generalizações precipitadas. Aantipatia que os militares me inspiravam comcerteza provinha de nos separarmos. Eu achava asfórmulas deles, os horríveis lugares-comuns,paradas, botões, ordens do dia e toques de cornetauma chatice arrepiadora; se algum deles atentassenas minhas ocupações, provavelmente as julgariabem mesquinhas. Das frases rápidas e obscuras, das idas evindas, percebi vagamente que também ali nãohavia lugar para nós. Isto me espantava. Como era________________________________________ 62Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  63. 63. possível em tão grande estabeleci mento não havercela onde se alojassem dois indivíduos? Não setratava disso, foi o que me pareceu: não seprocurava uma cela, mas uma determinada espéciede cela. No papel que nos dava ingresso estávamosclassificados, etiquetados, e só nos poderíamosrecolher a local previamente estabelecido.Perplexo, perguntava a mim mesmo se esserigorismo nos seria vantajoso ou desvantajoso.Não me seria possível recordar as feições dohomem que se levantara, bocejando estremunhado.Certamente o vi nos dias seguintes, mas confundi-o com outros, não consegui identificá-lo. Recordo-me, porém, de um pormenor desprezível, osentimento desarrazoado que me assaltou ao vê-lochateado, indeciso a respeito do ponto onde nosdevia guardar: acusei-me, não de tentar subverter aordem, mas de perturbar o sono de umdesconhecido. Evidentemente isso era estúpido – ereconhecendo a estupidez, continuava a censurar-me, tinha desejo de me desculpar, livrar-me doenleio absurdo. Enfim, ao cabo de meia hora,venceu-se a dificuldade: o homem resolveu ceder-nos aquele aposento e mudar-se: mandou buscaroutra cama e saiu depois de nos fazer algumas.________________________________________ 63Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  64. 64. advertências incompreensíveis. O moço que nosacompanhara despediu-se também. – Obrigado, tenente. – Não senhor, sou apenas sargento. – Perdão. Com essa luz tão fraca, difícilnotar. Aleguei a falta de luz como alegaria outracoisa qualquer, pois de fato, ignorante deuniformes, nem procurara distinguir o posto dorapaz. Imaginara-o tenente – e surpreendia-me quehouvesse inferiores tão bem-educados. Julgava-osásperos, severos, carrancudos, possuidores dehorríveis pulmões fortes demais, desenvolvidosem berros a recrutas, nos exercícios. E aquele,amável, discreto, de aprumo perfeito e roupa semdobras, realmente me desorientava. Surpresa tola,por causa das generalizações apressadas.________________________________________ 64Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  65. 65. 7 QUANDO nos vimos sós, abri a valise,retirei objetos necessários, despi-me lentamente,os braços pesados, estendi a roupa no encosto deuma cadeira, vesti um pijama. O capitão Matavencera a loquacidade e acomodava-se à pressa,metódico, cochichando-me reparos, porque tinhachegado a hora do silêncio e as expansões setornavam impossíveis. Ultimados os arranjos,estabelecidas as coisas nos lugares convenientes,despediu-se, apagou a luz, deitou-se na cama defeno posta a um canto da sala estreita, ao pé daentrada, e adormeceu logo. A minha cama, dooutro lado, ao fundo, ficava junto a uma janelaaberta sobre um pátio cheio de sombras Na paredeonde o meu companheiro se encostava, uma portafechada; em frente, uma janela, também fechada.Não sei onde lavei as mãos e o rosto, esquecipormenores, ignoro se havia água encanada oulavatório com jarro. Uma mesinha, duas cadeiras,só. Deitei-me, fiquei a virar-me e a revirar-meno lençol dobrado, tentando em vão chamar o________________________________________ 65Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  66. 66. sono. Realmente não posso dizer se dormia ouvelava: feriam-me os sentidos uma faixa alvacentaque me banhava os travesseiros, o vulto indecisodo capitão, a mesinha, as cadeiras, a sentinelaencostada ao fuzil, no alpendre, nova sentinela aamofinar-se no serviço cacete; mas às vezes tudose embrulhava, entre as visões concretasesboçavam-se fantasmagorias – e era-meimpossível saber onde me achava, porque meestirava no colchão alheio, depois de solavancosinfinitos em estrada de ferro. A minha vidaanterior se diluía, perdia-se além daquele imensoespaço de vinte e quatro horas. Um muro aseparar-me dela, a altear-se, a engrossar, e para cádo muro – nuvens, incongruências Entre essesfarrapos de realidade e sonho, era doloroso pensarnuma inteira despersonalização. Como iria reagiràs ocorrências imprecisas que me aguardavam? Asimagens vagas misturadas aos móveis sumiram-se,despertei completamente e foi impossívelconservar, no calor, a posição horizontal. Ergui-me, tateei a roupa no encosto dacadeira, tirei dos bolsos cigarros e fósforo,debrucei-me à janela, fiquei longamente a olhar opátio escuro, fumando. Como iria comportar-me?________________________________________ 66Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  67. 67. Se me dessem tempo suficiente para refletir, ser-me-ia possível juntar idéias, dominar emoções, teralguma lógica nos atos e nas palavras, exibir aaparência de um sujeito mais ou menos civilizado.Mas na situação nova que me impunham,fervilhavam as surpresas, e diante delas ia decertoconfundir-me, disparatar, meter os pés pelas mãos.Ali embaixo, a alguns metros de distância, doisvultos, ladeando um portão, semelhavam pessoasembuçadas, gigantes embuçados. Que seriam?Pilares? Deviam ser pilares. Afastei-me, passeeicauteloso, abafando os passos, temendo esbarrarnas cadeiras. Experimentei dormir. A sentinela continuavasob o alpendre, na firmeza inútil, vendo-me ocupare abandonar a cama inútil. Avizinhei-me da jaula,arredei-me, estive longas horas a mover-me à toana janela sombria. O peso que a princípio sentira nos membrosdesaparecera: agitava-me agoradesordenadamente, em vão procurava atordoar-mee cansar. Aguçavam-me a curiosidade os vultosque guardavam o portão. Seriam guaritas? Não:para guaritas eram muito altos e muito esguios.________________________________________ 67Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  68. 68. Que significavam pois? Essa pergunta mearreliava. Se não conseguia divisar aqueles objetesvolumosos expostos aos meus olhos, comoadivinhar as sutilezas provavelmente escondidasem toda a parte, como alçapões? Naquela vida erapreciso em certo momento um homem virar-separa a direita, virar-se para a esquerda, levantar-se,baixar-se, e a falta de um gesto implicava censura. Esquecera-me desses movimentosaprendidos em poucos meses de exercíciorelaxado e capenga. Na presença de um oficialsuperior, derrear-me-ia, uma perna bamba, a outraa agüentar o corpo todo, pregaria o cotovelo numpeitoril. Envergonhar-me-ia ao notar odesconchavo, encolher-me-ia, largaria sandicescomprometedoras. Em horas de perturbação era-me impossível dominar a língua: dizia coisasimpensadas, às vezes contrárias ao que era precisodizer. Receava prejudicar alguém. Iria qualquerinformação doida transformar-me em delator,levar à cadeia rapazes inofensivos quetencionavam eliminar a burguesia distribuindo àsescondidas nos cafés papéis mimeografados? Umdeles, Jacob, figurava no meu último livro, com onome de Moisés. Encarregava-se de receber as________________________________________ 68Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  69. 69. prestações na venda do tio, judeu verdadeiro. Nãorecebia nada: dava aos fregueses opiniõesincendiárias, folhas volantes vermelhíssimas, oque lhe rendia, segundo afirmavam, abundantessurras do patrão. Talvez Jacob estivesse guardadoa chave. E meus filhos mais velhos, da JuventudeComunista, pichadores de paredes, provavelmenteandavam perseguidos, a esconder-se.Ultimamente, haviam arranjado uma espécie derevista, enviado cem números para Moscou ecinqüenta para Madrid. Um escândalo. E comoPlínio Salgado recebera uma vaia formidável noTeatro Deodoro e fugira pelos fundos do palcosem piar, enquanto a milícia verde se alvoroçavano saguão, saltava grades, deixava camisas empontas de ferro, um ressentimento amargo seconcentrava nessas alminhas, contra rapazes doliceu, operários, soldados e cabos do exército.Eram todos agora denunciados, com certeza.Apavorava-me supor que uma indiscrição minhapoderia fornecer aos carcereiros uma pista.Realmente não me informara de quase nada, elesdeviam saber muito mais que eu, mas talvez umaindicação lhes fosse útil. O pormenorinsignificante reforçaria provas, constituiria o elo________________________________________ 69Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  70. 70. necessário a uma cadeia interrompida. É dessespequeninos grãos que a polícia constrói os seusmonumentos de misérias. Qual seria a minguadacontribuição que exigiriam de mim? Esforçava-mepor adivinhá-la e guardá-la com avareza: nointerrogatório, desviar-me-ia das ciladas, referir-me-ia com ar culposo, misteriosamente, a casosdiversos e inofensivos. Difícil era descobrir aondeme queriam levar, que valor me atribuíam.Inadmissível achar-me ali por vingança de umenergúmeno qualquer: isto seria antieconômico,disparatado, e sem dúvida o país ainda nãochegara a tal grau de estupidez e malandragem. Aquela mancha indistinta, lá embaixo, entreas duas colunas, era provavelmente um portão.Seriam colunas? Na verdade a iluminação doRecife, vacilante, deixava-me na ignorância.Conservei-me longamente arrimado ao peitoril,interrogando as trevas, aguçando o ouvido àprocura de seus informadores: pedaços deconversas, pancadas de relógio. Nenhum sinal meorientava; a noite preguiçosa a arrastar-se;impossível saber se me achava no princípio ou nofim dela. Na verdade o tempo não era o que haviasido: tornara-se confuso e lento, cheio de soluções________________________________________ 70Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  71. 71. de continuidade, e nesses hiatos vertiginososperdia-me, escorregava, os olhos turvos, numasensação de queda ou vôo. Náuseas, aperto nodiafragma. Evidentemente se tudo em redor meparecia vago e incompreensível, se até a noção detempo se modificava, cá dentro deviam as coisaspassar-se de maneira lastimosa, esta velhamáquina emperrava. Sem dúvida. Inquietava-meperceber que me havia tornado, naquela pausasingular, estúpido em demasia. A atençãoembotada saltava freqüentemente de um assuntopara outro, sem conseguir estabelecer a maissimples relação entre eles, e às vezes ficava adoidejar, a rodear pormenores, como peru,tentando decifrar insignificâncias. Que seriam os dois vultos que vigiavam láembaixo o portão? Esta pergunta, reproduzida,chateava-me; contudo não podia desembaraçar-medela, misturava-a sem propósito às complexidadesimponderáveis que me atenazavam. Naqueladesordem, naquele cipoal de pensamentosemaranhados, avultava uma incongruência, masisto só mais tarde foi percebido: sentia-me vítimade injustiça, queixava-me de inimigos indecisos,parecia-me descobrir nos lençóis, no peitoril da________________________________________ 71Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  72. 72. janela, na água da moringa e no ar corrupção eveneno; contraditoriamente, achava-me emsegurança, considerava a existência anterior bemmesquinha, pior talvez que a prisão. Quando meviesse calma, aventurar-me-ia a fazer um livro,lentamente, livre das aporrinhações normais. Viriaa calma? E quantos dias ou meses me deixariamnaquela situação? Era disparate desejarpermanecer nela, mas assaltava-me uma grandecovardia, o receio de voltar a assumirresponsabilidades, a certeza de que o meu trabalhode indivíduo solitário, na ditadura mal disfarçadapor um congresso de sabujos, seria pouco mais oumenos inútil. Preferível o cativeiro manifesto aooutro, simulado, que nos ofereciam lá fora. A idéiade escrever o livro voltava com insistência. Cadavez mais, porém, me convencia de que, persistindoaquela enorme burrice, não escreveria coisanenhuma. Mas observaria fatos e pessoas que medespertavam curiosidade. Agora estava certo deque não me largariam dentro de uma semana,como havia suposto As vaidadezinhas malucas depequeno-burguês sumiam-se. Decerto meguardariam, possivelmente me poriam em contatocom alguns criminosos, pessoas que, interessando-________________________________________ 72Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  73. 73. me demais, até então me haviam aparecido emtratados ou de longe. Conhecimento imperfeito,sumário. E mostrar-me-iam os revolucionários deNatal, do 3.º Regimento, da Escola de Aviação.Até certo ponto podia considerar-me uma espéciede revolucionário, teórico e chinfrim. Sorria-me aperspectiva de olhar de perto revolucionários deverdade, que ultimamente eram presos emmagotes.________________________________________ 73Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  74. 74. 8 CLAREOU o dia, lá embaixo as manchasesquisitas sobressaíram, ganharam contornos,afinal surgiram dois canhões apontando o céu.Realmente não me seria possível dizer se eramcanhões, obuses ou morteiros; duas peças deartilharia, de nome incerto e descalibradas,limitavam o portão e produziam bom efeitodecorativo, sugeriam força. Esta verificação mesatisfez. Passara a noite intrigado, e agora, alheioao despertar do quartel, apenas reparava noinsignificante pormenor, como se o resto nãotivesse importância. Nem vi capitão Mata erguer-se. Quando meafastei da janela, o homem se escovava e lavava,retomando a alegria comunicativa e barulhenta davéspera. Éramos antípodas Enquanto me ocupavanuma única miudeza, ele apreendia muitas,relacionava-as e alcançava rápido o conjunto;falava em demasia, sem se incomodar com osmeus silêncios, de ordinário informando, quasenunca fazendo uma pergunta; e devia estranhar a________________________________________ 74Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  75. 75. minha valise de dois palmos, pois a sua malagrande e pesada era um armazém, tinha tudo:agulhas, botões, linha, canivetes, lixa. Nunca vipessoa mais precavida. Nem mais econômica.Tinha necessidades muito escassas, não fumava, eenquanto vivemos juntos creio que se absteve dequalquer despesa. De nenhum modo se julgavahumilhado, suponho: naquela segurança, naquelebom humor sempre a mexer-se parecia exerceruma função militar e necessária. Acabando aslavagens e as penteadelas matinais, notei-lhe aobservação: – O comandante chegou – Como é que o senhor sabe? estranhei. Ora! muito fácil: tinha ouvido a corneta.Como o toque me passara despercebido, imaginei-o a divagar. Admitindo, porém, que ele tivesseconsiderado um som, tirado conseqüência dele,não me interessava esclarecer-me a respeito dapresença do comandante àquela hora. Julguei istoe enganei-me: ao cabo de meia hora entrou na salae apanhou-me de surpresa um velho calmo, polido,ar de fria dignidade, o rosto magro. As estrelas, ogesto, o apuro, identificaram-no – e diante dele o________________________________________ 75Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  76. 76. meu companheiro entesou-se em posição desentido. O homenzinho cumprimentou-nos,examinou o aposento, quis saber se nos faltavaalguma coisa e permaneceu de pé junto à mesa unstrês ou cinco minutos, os minutos aplicáveis ànossa situação, dizendo com lhaneza palavras dahospitalidade regulamentar. Referiu-se à máqualidade da alimentação e desculpou-se. – Oh! Comandante! Não se preocupe. Tudoestá bem. – Não senhor. A comida é ruim, semexagero. Vai achá-la muito ruim. Tenha paciência:é a que usamos. Não seria difícil mandar buscaroutra no restaurante, mas isto é irregular. Mortificaram-me aquelas minúcias sobrematéria insignificante, desejei mudança deassunto, em vão; o negócio culinário encheu quasetoda a pequena entrevista. – Enfim, como os senhores estão aqui depassagem, podem agüentar uns dias de maustratos. Aludiu outra vez, num vago oferecimento, àscoisas que nos faltavam, despediu-se e retirou-se.Bem. Tínhamos uma indicação: estávamos ali depassagem. Para onde? Não nos atreveríamos a________________________________________ 76Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  77. 77. perguntar isso: a cortesia solene e burocráticarevelava claramente que seguíamos os trâmitesnormais e o despacho viria no momento preciso.Certo o comandante não era responsável pelanossa estada no quartel; julgava-a talvezperturbadora. Mas achava-se no dever de nosvisitar pela manhã e dizer algumas frases depessoa educada. Agradecíamos. Quem era oresponsável então? Provavelmente havia muitos,tantos que a responsabilidade se diluía – e ali,trancados, não divisávamos ninguém. Trouxeram-nos uma bandeja. Tomei o leite e o café, mastigueium pedaço de pão, constrangido, sem notar nessaprimeira refeição as deficiências da cozinha,mencionadas em excesso. Levantava-me quandoentrou um moço grave, de olhos vivosligeiramente estrábicos, fumando por uma longapiteira. – Capitão Lobo. Passeando da mesa para a janela e da janelapara a mesa, deu-nos esclarecimentos: – Os senhores ficam alojados aqui. Na salavizinha há um oficial preso. Os senhoresprometem não comunicar-se com ele.________________________________________ 77Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  78. 78. Olhei a porta cerrada, o tabique baixo.Facilmente estabeleceríamos comunicação, masque nos interessava isso, se nem sabíamos quemestava do outro lado? Faríamos sem custo apromessa, mas capitão Lobo não se importou comela: não nos perguntou se prometíamos, afirmouque prometíamos e encerrou a questão. Estevemeia hora a conversar com volubilidade,afirmativo, às vezes sublinhando a frase commovimentos enérgicos. Não ria, não sorria: asidéias deviam parecer-lhe coisas terrivelmentesérias. Parava para escutar. atento, aprovando oudesaprovando com a cabeça, retomava depois odiscurso e o passeio, ambos em linha reta. Curiosoque apenas se movesse da mesa para a janela,onde fazia uma ligeira parada, e da janela para amesa, onde novamente se detinha. Era como se amesa constituísse uma barreira e o separasse daporta: os seus passos percorriam exatamentemetade da sala. Também a fala tinha pequenaspausas, correspondentes àquelas estações, emborao interlocutor se mantivesse calado. Não meanimaria a convidá-lo a sentar-se, pois ele figuravao dono da casa, mas puxei uma cadeira,desembaracei-a da roupa e da valise ali postas na________________________________________ 78Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  79. 79. véspera, joguei à cama estes objetos. Ele fingiunão perceber o oferecimento mudo e continuou oexercício invariável. O comandante se conservara de pé cincominutos. Agora colaborando na palestra longa,convencia-me de que esses homens não sesentavam na minha presença para eu não meresolver a sentar-me diante deles. Esta certeza melevava a usar cautela, medir as palavras – e aconversa se reduzia quase a um solilóquio. Impossível qualquer aproximação. Poucoinclinado a desabafos, certamente não ia expandir-me a um desconhecido, talvez disposto a analisar-me. De minha parte observava-o e a observaçãonão me induzia a desconfiança. A linguagem clara,modos francos, às vezes estabanados, a exceder oslimites da polidez comum, diziam-me que ali seachava um homem digno. O gesto rijo martelava aidéia, o olho brilhante, ligeiramente oblíquo,donde parecia desprender-se uma faísca deinsensatez, fixava-se na gente, insensível e frio.Devia ser um tormento para criaturas dissimuladassuportar aquela dureza metálica de verruma. Nãodeixou de fumar um instante: deitava fora a ponta________________________________________ 79Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  80. 80. de cigarro, introduzia outro na piteira compridaem excesso. Súbito parou o monólogo, ofereceu-nos toalhas e convidou-nos a acompanhá-lo.Atravessamos um corredor, descemos umapequena escada, chegamos ao pátio interno,paramos, abriu uma porta: – Os senhores usam este banheiro. Só este. Chamou um tipo graduado, com duas ou trêsdivisas, e concluiu: – Podem vir aqui acompanhados por umsargento ou cabo. Adeus. Eu queria saber se havia inconveniência nacompra de alguns troços miúdos que me faltavam.Não havia nenhuma. – Dê as suas encomendas aofaxina. Até amanhã. Entrei, e à porta ficaramcapitão Mata e o sujeito das fitas. Lá dentro haviaum aparelho sanitário, uma banheira, dois ou trêschuveiros. Depois de me banhar, Mata substituiu-me – e passeei algum tempo no pátio, vigiado peloguarda, vendo rapazes atirarem bolas a cestaspresas ao muro. Em seguida regressamos à sala.Dei ao faxina uma pequena lista de coisasnecessárias: papel, lápis, cuecas, lenços, fósforos.cigarros, muitos cigarros e fósforos, pois isto se________________________________________ 80Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  81. 81. consumia com grande rapidez. Pedi também umrolo de esparadrapo e iodo: um abscesso debaixoda unha do indicador começava a latejar e doermuito. E tentei acomodar-me àquela monotonia.Cheguei uma cadeira à janela, mergulhei noromance de José Geraldo, consegui ler umascinqüenta páginas e entendê-las. Mas entendiapouco, a atenção fraquejava, os olhos sedesviavam da folha para os dois canhõesornamentais. Além disso capitão Mata meinterrompia com freqüência oferecendo-meobservações. Tinha entrado rapidamente emcontato com soldados e oficiais, falando a gíriadeles, usando truques do ofício, informara-se decasos que lhe pareciam interessantes e seapressava a comunicar-me. Sabia que SebastiãoHora, o advogado Nunes Leite e diversosoperários se recolhiam numa prisão de sargentos,situada numa esquina próxima. O indivíduo presona sala contígua à nossa era Xavier, tenenteembrulhado em Maceió, com alguns inferiores do20.º Batalhão. Avizinhando-se do meucompanheiro, estrelas e fitas, para mim símbolosmortos, num instante se humanizavam. Os rostosse abriam, sinais imperceptíveis ao observador________________________________________ 81Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  82. 82. comum traziam revelações. Por outro lado certasarrogâncias passavam carrancudas no alpendre,atirando-nos de soslaio olhadelas rancorosas. – Integralistas, afirmava seguro capitãoMata. Admirava-me da conclusão precipitada eacabava admitindo-a. Eram possivelmenteintegralistas aqueles viventes miúdos, de rostosinexpressivos, quase microcéfalos. Esse caso meinsinuou, a respeito da disciplina militar, umaopinião, talvez falsa, que ainda hoje conservo.Nela o rigor é superficial, imagino. Indispensávelestarem os sapatos cuidadosamente engraxados, osfuzis brilhantes à custa de lixa e azeite, oscolarinhos mais ou menos limpos, todos os botõesmetidos nas casas, os espinhaços tesos. As pernasdireitas devem mover-se simultaneamente, depoisas pernas esquerdas, e nenhum dedo se afasta dosoutros na continência. É preciso olhar vinte passosem frente, e os passos, em conformidade com amarcha, têm o mesmo número de centímetros.Certo, há outros deveres, mas desse gênero,tendentes à mecanização do recruta. Decoradascertas fórmulas, aprendidos os movimentosindispensáveis, pode o soldado esquecerobrigações, até princípios morais aprendidos na________________________________________ 82Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I
  83. 83. vida civil. O essencial é ter aparência impecável.Desapareceu-lhe o cinturão? Falta grave, emboraele em vão remexa os miolos para saber como adesgraçada correia se sumiu. É obrigado aapresentar-se com ela na formatura. Com ela oucom outra qualquer. Nesse ponto convémdesapertar, isto é, agarrar o cinturão do vizinho,que, sendo inábil, será punido, pois o maiordefeito do soldado é ser besta. Desenvolvem-se adissimulação, a hipocrisia, um servilismo que àsvezes oculta desprezo ao superior, se este se revelaincapaz de notar a fraude ou tacitamente lheoferece conivência. As minhas observações foramcompletadas pelos informes do capitão Mata, que,percebendo-me a ignorância, desvendava pacientemistérios simples. Divergimos à hora do almoço,mas logo chegamos a acordo. Diante da bandeja,recuei: diabo, a comida era pavorosa, ocomandante tinha razão. Impossível que na mesados oficiais pusessem aqueles pratos medonhos. – Como não? replicou Mata com a bocacheia. A alimentação deles é esta, não tenhadúvida. E está muito boa. Aconselhou-me depoisseriamente a engolir aquilo, porque a abstinênciapoderia ser tomada como desfeita. Consentiu________________________________________ 83Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere – Vol. I

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