O significado de ser mãe de um filho com cc

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O significado de ser mãe de um filho com cc

  1. 1. RELATO DE PESQUISAO significado de ser mãe de um filhoportador de cardiopatia:um estudo fenomenológicoTHE MEANING OF BEING A MOTHER OF A CHILD WITH A HEART DISEASE:A PHENOMENOLOGICAL STUDYEL SIGNIFICADO DE SER MADRE DE UN HIJO PORTADOR DE CARDIOPATÍA:UN ESTUDIO FENOMENOLÓGICO*Carine Ribeiro1, Anézia Moreira Faria Madeira2* Extraído da RESUMO ABSTRACT RESUMEN dissertação “O Este estudo teve por objetivo The objective of this study is to En este estudio se tuvo por significado de ser compreender a vivência da mãe understand what it means to a mo- objetivo comprender la vivencia mãe de um filho cardiopata: um que possui um filho portador de ther to have a child with a heart de la madre que posee un hijo estudo fenomeno- cardiopatia congênita. Para tal, disease. In order to do so, a phe- portador de cardiopatía congé- lógico”, Escola de utilizei-me da abordagem nomenological approach was Enfermagem da nita. Fue utilizado el abordaje Universidade fenomenológica. O estudo foi used. The study was carried out fenomenológico y el estudio Federal de Minas realizado com mães de crianças with mothers of children with realizado con madres de niños Gerais, 2004.1 Enfermeira, Mestre com cardiopatia congênita congenital cyanotic cardiopathy con cardiopatía congénita cianó- em Enfermagem. cianótica internadas no Centro de at the Infant Cardiology Center tica internados en el Centro de carine_r@terra.com.br Cardiologia Infantil de um of a public hospital in Campo Cardiología Infantil de un2 Enfermeira, Doutora em Enfermagem, hospital público de Campo Grande, State of Mato Grosso do hospital público de Campo Profa. Adjunto da Grande - MS. Foram realizadas Sul. Ten open interviews were Grande - MS. Fueron realizadas EEUFMG.. dez entrevistas abertas com a made based on the following diez entrevistas abiertas con la aneziamfm@enf.ufmg.br seguinte questão norteadora: O guiding question: What does it siguiente pregunta orientadora: que é para você ter um filho com mean to you to have a child with ¿que es para ud. tener un hijo con problema no coração?. A análise a heart disease? The compre- problema en el corazón?. El compreensiva das falas possibi- hensive analysis of the reported análisis comprensivo de los litou a construção de três cate- speeches made possible the discursos posibilitó la cons- gorias: “Descobrindo a doença: construction of three categories: trucción de tres categorías: “Des- estar diante do desconhecido”; “Discovering the disease: being cubriendo la enfermedad: estar “Convivendo com a cardiopatia: up against the unknown”; “Living delante de lo desconocido”; ser com o filho na doença” e together with cardiopathy: being “Conviviendo con la cardiopatía: “Acreditando em uma força maior: with the child in the disease”, and ser con el hijo en la enfermedad” a sustentação necessária”. O “Believing in a stronger force: the y “Creyendo en una fuerza impacto da doença para a mãe necessary support”. The impact mayor: el sustento necesario”. El inicia-se com o nascimento do of the disease on the mother impacto de la enfermedad para la filho. Sentimentos, como deses- begins the moment the child is madre se inicia con el nacimiento pero, culpa e insegurança, são born. Desperation, guilt and inse- del hijo. Sentimientos tales como descritos como presentes. É em curity are mentioned as present desesperación, culpa e inseguri- Deus, porém, que ela busca a feelings. It is in God, however, dad, son descritos como presen- sustentação necessária para trilhar that such mothers look for the tes. Es en Dios, no obstante, que esse novo caminho. Caminho de necessary support to follow this ella busca el sustento necesario dor e de fé. new path - a path of pain and para recorrer ese nuevo camino. faith. Camino de dolor y de fe. DESCRITORES KEY WORDS DESCRIPTORES Cardiopatias congênitas Heart defects, congenital Cardiopatías congénitas (enfermagem). (nursing). (enfermería). Relações familiares. Family relations. Relaciones familiares. Existencialismo. Existentialism. Existencialismo. .42 Rev Esc Enferm USP Salud de las mujeres. Recebido: 30/06/2004 O significado de ser mãe de um filho portador de cardiopatia: 2006; 40(1):42-9. um estudo fenomenológico Aprovado: 27/07/2005 www.ee.usp.br/reeusp/ Ribeiro C, Madeira AMF.
  2. 2. INTRODUÇÃO a sistematização da assistência de enfermagem(7), aproximar- me mais da realidade da criança que eu dedicava o cuidado, As cardiopatias congênitas ocorrem em aproximadamente com a intenção de otimizar a assistência prestada. Dessa for-8–10 por 1000 nascidos vivos. Abrangem 25% de todas as ma, sem intenção, pude estreitar meus laços com a mãe damalformações congênitas, 50% das causas de óbito por criança cardiopata e, assim, perceber que havia uma lacunamalformações congênitas e 15% dos óbitos infantis. Seu no processo de assistir; que a mãe fora deixada de lado doreconhecimento é extremamente importante, dada a rápida contexto assistencial. Ela fora excluída por mim, quando dadeterioração clínica e a alta mortalidade, onde cerca de 20– elaboração dos cuidados de seu filho.30% das crianças morrem no primeiro mês de vida por insu- Visualizei que tinha preconceitos a respeito dessaficiência cardíaca ou crises de hipóxia(1-2). mãe, surgidos de observações superficiais e, algumas vezes, Não se pode prevenir a maioria dos defeitos cardíacos. da fala de profissionais com os quais eu convivia, o que inter-Muitos fatores e mecanismos permanecem obscuros, porém feriu na minha concepção sobre ela e seu filho cardiopata.as pesquisas atuais(2-6) têm indicado que essa malformação Por algum tempo eu não percebi o quanto o cardiopata éé, na maioria das vezes, produzida por uma interação genéti- a própria extensão de sua mãe. Da mesma forma, não pudeco-ambiental. perceber, devido a minha imaturidade profissional, que a doença cardíaca é vivenciada por mãe e filho com intensida- Os sintomas das cardiopatias congênitas cianóticas são de semelhante, e que, sendo assim, o cuidado deve ser ofe-claros e precoces. As crianças geralmente apresentam: recido a ambos, para que seja completo e autêntico.cianose, hipóxia, ganho de peso insuficiente, lipotímia, en-tre outros em tenra idade. A partir dessa reflexão surgiram alguns questionamentos: Será que meu conhecimento estava satisfazendo apenas as É importante destacar que as cardiopatias congênitas necessidades biológicas e físicas da criança? Como integrar aacometem o coração e/ou os grandes vasos sangüíneos da mãe na assistência de enfermagem à criançacriança ainda em seu desenvolvimento intra- cardiopata? Compreender o relacionamentouterino, afetando, assim, sua anatomia e fisi- Pesquisas tem mãe e filho alteraria minha visão do cuidar emologia normal. Trata-se de um tipo de indicado que a maioria cardiologia infantil? Como seria para ela cui-cardiopatia que pode ser identificada aindano período gestacional, ao nascimento, ou dos defeitos cardíacos dar de um filho cardiopata?mesmo na primeira infância. Além disso, tem é produzida por uma Ao buscar a literatura sobre o cuidadograndes chances de ser corrigida cirurgica- interação genético- prestado a esse binômio numa situação demente, tornando possível a expectativa de ambiental cardiopatia, encontrei uma lacuna nouma vida normal. conhecimento acerca dos sentimentos da mãe em ter um filho cardiopata. A doença gera ansiedade e tem repercussão na vida dacriança bem como na vida de seus familiares. “A maneira Acredito, portanto, que este estudo possa sinalizar al-como essa doença é elaborada e integrada na vida da crian- guns caminhos no sentido de compreender melhor essesça, influencia a estruturação de sua personalidade”(3). sentimentos e assim aproximar assistência prestada pela enfermagem às necessidades relatadas pela mãe, já que é ela Um ambiente familiar conturbado por fatores como do- quem vivência o fenômeno e nos permite compartilhar seuença pode abalar o equilíbrio da criança e, em potencial, se a mundo através de sua fala.doença provém dela(4). Muitas vezes os familiares cercamessa criança de cuidados exagerados, como um meio de Desta forma, busquei, neste estudo, compreender asuperprotegê-la dos eventuais riscos da doença, ou mesmo vivência das mães que possuem um filho portador depara tentar compensar de alguma forma seu sofrimento(3). cardiopatia congênita. Os medos e as dependências da mãe são evidenciados PERCURSO METODOLÓGICOquando ela dá à luz uma criança com defeito. Como, paramuitas delas, o coração é o órgão mais vital do corpo, estetipo de diagnóstico provoca uma grande apreensão(5-6). Ao inquietar-me com a relação entre mãe e filho cardiopata e após decidir aprofundar-me no assunto, pas- Como enfermeira de um centro de cardiologia infantil, de- sei a percorrer a literatura pertinente, porém não foi sufici-parei com a necessidade de transportar o cuidado prestado à ente. Para compreender a experiência da mãe que vivenciacriança cardiopata para além de seu corpo físico, biológico. o fenômeno, foi necessário ir além, buscando umaSentia que adquirir conhecimento sobre sua patologia e suas metodologia que me aproximasse mais desse fenômeno,características pessoais não me bastava para continuar em que viesse ao encontro com os meus objetivos e que me-meu processo de cuidar em enfermagem. Busquei, então, com lhor os esclarecesse. 43O significado de ser mãe de um filho portador de cardiopatia: Rev Esc Enferm USPum estudo fenomenológico 2006; 40(1):42-9.Ribeiro C, Madeira AMF. www.ee.usp.br/reeusp/
  3. 3. O querer compreender e o querer estar próxima me fize- Segundo a abordagem fenomenológica, o sujeito não éram percorrer o método qualitativo de pesquisa, mais espe- um ator que representa um personagem. Ele vive sua histó-cificamente, a fenomenologia. Esse caminhar metodológico ria e coloca seu passado e seu futuro no presente por inter-e filosófico permite compreender a visão mundo-vida do médio da fala, de gestos e do silêncio. Compreender o pen-sujeito que o vivencia, por intermédio de seus próprios olhos, samento desse sujeito é penetrar no seu mundo, na sua vidasem que preconceitos ou pressupostos interpretativos in- e escutar a palavra dele. Não é ouvir com curiosidade, sur-terfiram no processo. Dessa forma, foi possível desvelar o presa, desinteresse ou por misericórdia, mas ouvir com sen-significado de ser mãe de um filho cardiopata. sibilidade e intuição(10). É compreendendo e interpretando o significado do fenô- Fiquei bastante temerosa durante as primeiras entrevis- tas. Receava induzir a fala das mães. Tinha em mente quemeno que o mundo da fenomenologia se mostra, explicita, meu objetivo era ouvir a experiência delas por meio de suasaclara e desvela as estruturas cotidianas do mundo-da-vida, falas. Porém, quando elas permaneciam em silêncio, sentiadeixando transparecer na descrição dessa experiência vivi- como se fosse minha vez de falar.da, as suas estruturas universais (a essência)(8). O não saber o que dizer permitiu-me ouvir o som desse A pesquisa aconteceu em um hospital público de Campo silêncio e desta forma, colocar-me no lugar do outro, pois,Grande – MS, especificamente no Centro de Cardiologia In- compreender o pensamento do sujeito enquanto se entre-fantil (CCI), onde atuei como enfermeira assistencial. vista é também entender o silêncio que se faz comunicação, discurso e presença(10). Silêncio, não para cassação de pala- Participaram dessa pesquisa 10 mães com idades entre vras, mas para imersão no ser.19 e 39 anos. O choro, muitas vezes, se fez “ente”(a) durante as entre- As entrevistas foram realizadas no período de janeiro a vistas. Principalmente, nesses momentos, pude sentirmarço de 2003. As oito primeiras entrevistas foram realiza- empatia pelas mães, tendo até mesmo que me conter paradas durante o período de internação da criança. não chorar com elas. O único critério para a escolha da mãe era que ela possu- Com o decorrer das entrevistas fui me familiarizando comísse um filho com cardiopatia congênita cianótica indepen- as emoções sentidas, a relação empática, que tanto eu quisdente da idade dele ou dela. estabelecer, foi acontecendo paulatinamente e o medo e a ansiedade foram dissipados gradativamente, dando lugar à Em um período da pesquisa não houve internações de alegria por desvelar o fenômeno.cardiopatas cianóticos no CCI, e isso me deixou apreensiva.Por meio do livro de registros da instituição obtive o endere- As entrevistas gravadas eram transcritas buscando oço de crianças portadoras dessa cardiopatia, a fim de entre- sentido geral de cada fala. Em novas leituras, atentando-mevistar as mães em sua residência, o que aconteceu até que o às expressões e sentimentos externados, pude “dar voz” aofenômeno aparecesse para mim. sujeito, desvelando assim o fenômeno. Dei por encerrada a coleta dos depoimentos quando per- Antes do processo de coleta de dados, busquei atender cebi que o sentido das falas começou a repetir-se.às exigências do Conselho Nacional de Saúde e submeti oprojeto de pesquisa ao Comitê de Ética em Pesquisa da Uni- Com a transcrição das falas em mãos, e após incansáveisversidade Federal de Minas Gerais, atendendo assim, à Re- leituras em epoché (suspensão dos meus pré-supostos),solução 196/96 que regulamenta a realização de pesquisa pude, primeiramente, apreender o sentido geral do que sig-envolvendo seres humanos(9). Durante a leitura com as mães nifica para a mãe ter um filho cardiopata. Depois busqueido termo de livre consentimento eram esclarecidas suas identificar as unidades de significado que são “as partes dedúvidas quanto à pesquisa e quanto à entrevista gravada. um discurso que respondem à dúvida do pesquisador”(11).Suas identidades foram mantidas em sigilo pela substitui- Por insight’s(b), sob a minha ótica de enfermeira, visualizei asção de seus verdadeiros nomes. partes essenciais dos discursos eliminando o desnecessá- rio. As falas desnecessárias são partes do discurso que não Tendo em mente que apenas as falas de quem vivencia o se configuram como característica primordial do fenômeno(12).fenômeno poderia me mostrar a essência da experiência vi- Desta maneira agrupei as unidades de significado conver-vida, iniciava a entrevista com a pergunta: O que é para gentes, ou seja, aspectos dos discursos que dizem respeitovocê ter um filho com problema no coração? a um mesmo assunto. Deste agrupamento surgiram as uni- dades temáticas. Ao imergir nestas unidades temáticas, fa- Não imaginava que o primeiro encontro com a mãe, ago- zendo uma nova redução, percebi que elas sinalizavam parara não mais para lhe dar informações, mas para ouvi-la, seria três grandes categorias de análise.tão embaraçador para mim. Até então eu não havia refletido (a) Ente: ser intramundano ou pertencente ao mundo segundo Heidegger, 1999.sobre o fato de que, durante as entrevistas, eu seria a princi- (b) Insight: refere-se àquilo que se doa à consciência e é, no seu sentido maispal ouvinte e não mais detentora da palavra e da informação. elevado, um ato da razão; trata-se de um “ver” dentro da situação.44 Rev Esc Enferm USP O significado de ser mãe de um filho portador de cardiopatia: 2006; 40(1):42-9. um estudo fenomenológico www.ee.usp.br/reeusp/ Ribeiro C, Madeira AMF.
  4. 4. Finalmente, após obter as categorias de análise, dei iní- é pega com uma surpresa dessa. A gente não espera issocio ao processo de compreensão/interpretação. Para isso, nunca. Você sabe quando se sonha com uma criança,foi preciso que eu retomasse meus pressupostos teóricos e ela crescendo, você acompanhando ela...eu não sei.buscasse amparo na literatura e nas concepções filosóficas Planos, preparativos, espera são sentimentos referidosde alguns fenomenólogos, dentre eles Martin Heidegger como presentes. Os sonhos vão além do nascimento, elespara, assim dar voz ao não dito pelo sujeito da pesquisa e alcançam dimensões que levam a mãe a imaginar o cresci-enaltecer o explícito em suas falas. mento e a educação de seu filho. Utilizei como referencial metodológico as orienta- Há ruptura de projetos existenciais. O sonho da mãe comções(13-14) que me permitiram construir três categorias de seu novo papel e sua preparação para assumi-lo passa aanálise: Descobrindo a doença: estar diante do desconhe- absorver grande parte de seu tempo, durante as horas emcido, Convivendo com a cardiopatia: ser com o filho na que está acordada.doença e Acreditando em uma força maior: a sustentaçãonecessária. A maioria das mulheres experimenta uma combinação de sentimentos de desamparo, ansiedade e uma agradável ex- ANÁLISE COMPREENSIVA pectativa durante o período gestacional. A energia que lhes é retirada da vida diariamente é utilizada para selecionar es-Descobrindo a doença: estar diante do desconhecido ses sentimentos(15). A situação de cardiopatia na vida da mãe se inicia no Quão desgastante é para a mãe, ao final da gestação,momento em que ela toma conhecimento do diagnóstico do quando aguarda o tão sonhado “prêmio”, receber nos bra-filho e sente sua gravidade. Expressões como desespero, ços, por pouco tempo, um filho malformado, pelo qual vida edor insuportável e sofrimento terrível afloraram como um morte competem.grito de socorro. Para elas, “problema no coração” é algo A mãe, ao sair do hospital com o filho no colo e com amuito sério, que lhes foge ao domínio e as torna impotentes: certeza de que ele não apresenta problema algum se sente Na hora em que ele (médico) me falou isso, eu já fiquei enganada, lesada ao descobrir, dias depois, que a doença desesperada, atordoada, você não sabe o que fazer, não existe. É difícil para a mãe entender que seu filho não é nor- sabe o que pensar, não tem vontade de fazer nada. mal como anteriormente lhe haviam dito: Essa doença no filho não é esperada durante a gestação, Eu fico triste, porque a gente não ficou sabendo dissoa não ser que ela seja informada por meio de exames médi- antes. Lá na minha cidade, eu fiz os exames quando ele nasceu e não deu nada. Eu vim descobrir ontem, então foicos. Estar no cotidiano não permite à mãe imaginar o nasci- um choque, né? Eu levei um choque. Você tem medo, temmento de um filho com “defeito”. Viver a cotidianidade, ou dúvida. É ruim como eu, que descobri ontem, que já foi umseja, de forma encoberta, objetiva, muitas vezes nos impede baque, e fazer cirurgia amanhã. E a mulher (médica) aindade refletir a cerca das diferentes probabilidades da vida. fala pra mim que ele tem 30% a 40% de chance de vida.Somente a angustia existencial é que nos faz pensar e Ah! só Deus mesmo, só por Deus!imergir naquelas possibilidades que podem trazer dor, enão apenas felicidade(15). Por viverem essa cotidianidade A maioria absoluta das cardiopatias mais freqüentese não saberem, anteriormente ao nascimento do filho, do pode ser detectada ou fortemente suspeitada a partir doproblema cardiológico, as mães sonham com uma criança exame físico e de métodos subsidiários simples(17). Vai de-perfeita, “normal”. pender da experiência de quem examina. Quando descobre que seu filho não é normal a mãe vive Penso ser relevante dizer que é preciso repensar a manei-momentos de intencionalidade, onde o que-já-não-é-mais e ra como a mãe do cardiopata é abordada. Não tenho dúvidao que-ainda-não-foi(16) fazem parte do agora: de que o profissional responsável por comunicar-lhe o diag- nóstico, os procedimentos ou demais informações a respei- Eu fui no posto, levei ele pro pediatra e ele falou que era to do estado de saúde de seu filho preocupa-se em não normal a respiração dele, que criança quando é novinha, o agravar o quadro de desespero da mãe e da família. Porém, coração bate muito forte. A gente não achou normal o faz-se necessário maior reflexão sobre como foram recebi- coraçãozinho dele bater daquele jeito. É ruim isso, depois das ou mesmo compreendidas, por parte dela, as informa- levar seu filho no médico e ele falar que está tudo bem com ções. Nem sempre a mãe compreende a situação da forma a criança e agora chegar a esse estado. que pensamos e, caso não nos atentarmos para sua realida- Porque é uma coisa que eu nunca esperava. Então isso de, estaremos sendo negligentes aos sentimentos nem sem- me pegou de surpresa. Você sabe o que é você fazer o pre relatados por ela. Devemos levar em consideração que a enxoval, preparar tudo, esperar aquela criança. Você faz mãe é a pessoa que por mais tempo vivenciou o “ser-um” o pré-natal tudo com amor, com carinho, e de repente você com o filho “saudável” e que de uma hora para a outra, além 45O significado de ser mãe de um filho portador de cardiopatia: Rev Esc Enferm USPum estudo fenomenológico 2006; 40(1):42-9.Ribeiro C, Madeira AMF. www.ee.usp.br/reeusp/
  5. 5. de não ser mais seu próprio “ser” e de não estar participan- tinha chorado daquele jeito; ele nem abria o olho. Aí, quan-do do mesmo corpo, ele é tido não mais como saudável, mas do eu olhei pra ele de novo, ele tava ficando roxinho, aí eucomo doente, uma criança defeituosa. entrei em desespero, né? O desespero veio mesmo um pouquinho antes dos sete Os momentos que se seguem quando a mãe descobre anos quando ela começou a desmaiar. Ela não conseguiaque seu filho não é como imaginava e que pode morrer a andar assim um pouquinho que ela já sentava, começou aqualquer instante despertam nela sentimentos de culpa. Elas desmaiar. Por duas vezes eu corri com essa menina prorepensam o passado e buscam em cada detalhe algo que as hospital passando mal.possa responsabilizar pelo presente de dor: Relembrando o que presenciei no hospital várias vezes, O médico fala que meu filho veio com malformação, daí eu posso dizer que esse também é um momento crítico para nós penso: – poxa, será que é minha culpa, né, de ter saído que cuidamos dessas crianças. Os pais não entendem muito assim? Mas depois a gente vai pensando se poderia ter bem o que está acontecendo e, mesmo depois de orienta- sido diferente. É difícil; dos, mal conseguem compreender. O que eles melhor assi- O ruim nessa hora é pensar. A gente fica tão mais pra lá do milam é aquilo que eles vêem, ou seja, o sofrimento do filho. que pra cá, que não dá tempo nem de pensar. Eu começo a pensar em tudo, desde o momento que eu fiquei grávida. O corpo do filho manifesta o que se passa com ele: dor, Aí, fico pensando: – eu fiz isso e não era pra fazer. sofrimento, finitude. A mãe é tão ligada a esse corpo que refere sentir nela as sensações externadas por ele e se de- O passado renasce à mente como um presente difícil, sespera. O corpo estabelece com o mundo uma relação deabrindo uma lacuna na existência. A mãe repensa seu perío- reciprocidade(18). A ligação entre mãe e filho vai além daqui-do gestacional, busca, nela mesma, motivos que justifique lo que nós, enfermeiras, podemos notar em um primeiro olhar.seu filho ter nascido “assim”, com malformação, doente. Em situação de cardiopatia congênita, a criança não nas- O tempo vivido por elas não pode, aqui, ser caracteriza- ce “normal”. Ela traz consigo o fim bem mais próximo que sedo como tempo objetivado, cronometrado. Quando as mães podia imaginar. O seu corpo mostra a proximidade da morteafirmam que buscam no passado respostas para os fatos mesmo em seu nascimento, em seu princípio, e a vida já nãoacontecidos no presente, elas sinalizam um tempo existenci- é mais como a mãe esperava:al, vivido por elas com muita angústia. Então muda, muda muita coisa. Não é mais ter uma criança Apesar de a compreensão cotidiana tomar o “ser e estar em normal, ainda mais correndo o risco que ela corre, né? Aí,débito” no sentido de uma dívida, esse “ser e estar em débito” a gente se apega mais ainda.tem ainda outro significado mais amplo: o de “ser responsável É horrível. Eu não sei nem como te explicar, viu? Horrível,por”, ou seja, o de ser a causa, o provocador de alguma coisa porque eu já penso que ele vai morrer, e isso pra mãe éou de “ser a ocasião” de alguma coisa(16). Nesse sentido, pode- desesperador, né?.se estar em débito sem que, na realidade, “deva” a outrem. A possibilidade da morte do filho é um ente que atemori- Pode-se dever algo a outrem sem que se seja responsá- za a mãe pelo risco de tê-lo arrebatado dos braços a qual-vel por isso(16). Esse sentimento de “ser responsável por” quer instante. Apesar de os sonhos de outrora já terempode determinar um comportamento que é denominado “se morrido, ela não deseja que se perca, também, o restante quefazer culpado”. Esse “se fazer culpado” na violação de um a criança representa para ela. Dessa forma, a mãe preferedireito pode também possuir um caráter de um “tornar-se “ser-com” e “ser-em” no mundo de seu filho.culpado em relação a outros”. Isso não ocorre por violaçãodo direito como tal, mas sim pelo “eu” – mãe – ter culpa de O “corpinho” infantil também demonstra à mãe que éum “outro” – filho – estar em perigo, desorientar-se ou até capaz de lutar pela vida, e nisso ela encontra forças paramesmo fracassar em sua vida(16). prosseguir com a sua própria: A gente vê a luta deles pra poder sobreviver, a força que elesConvivendo com a cardiopatia: ser com o filho na doença têm. E é neles que a gente se segura pra poder ter força Passado o primeiro impacto do diagnóstico, a mãe se vê também. Que é luta que tem, né, na força que faz pra podercom o filho em situação de doença. Ela percebe a realidade: respirar, pra poder, sabe, tá aí. (...) Vê um serzinho novo, né, frágil, é bem difícil. (...) e a gente vai se animando, cada vezagora é preciso conviver com ele assim, “imperfeito”. que vem ver eles fazendo isso aí. Daí a gente se fortalece mais. Elas relatam que os sintomas que a criança apresenta O mundo é sempre um mundo compartilhado com oslhes causam estranheza, medo e indecisão: outros. O mundo da presença é mundo compartilhado. “O Ontem ele ficou roxinho. Acordou, começou a chorar mui- ser-em é ser-com-os-outros”(19). A criança também manifes- to e eu achei estranho aquele jeito dele chorar. Nunca ta suas emoções, ora pela fala, ora pelo olhar. A dor é uma46 Rev Esc Enferm USP O significado de ser mãe de um filho portador de cardiopatia: 2006; 40(1):42-9. um estudo fenomenológico www.ee.usp.br/reeusp/ Ribeiro C, Madeira AMF.
  6. 6. manifestação real, não imaginária ou mítica, que é A criança com problema no coração que está bem integradadesencadeada por procedimentos que muitas vezes são re- à vida familiar tem uma vantagem decisiva sobre a que éalizados pela enfermagem(20). Ser-no-mundo é também “ser- encarada como uma inválida.junto-a”(19) que implica mais do que estar junto a alguém. Aenfermagem deve “ser-junto” ao mundo da mãe e de seu Ao superproteger o filho cardiopata, a mãe está, na ver-filho, que no sentido existencial não quer dizer estar ao lado dade, cuidando dela mesma. A sensação de tranqüilidade aodo binômio no momento em que ele precisa. Ser-junto signi- vê-lo fora das crises justifica qualquer possível erro em seufica ir ao encontro dele para “tocá-lo” mesmo quando não cuidado. Com o tempo, porém, ela perceberá que realmentenos é solicitado essa atitude. “Um ente só poderá tocar um fez bem apenas a si, e não à criança, como acreditava:outro ente simplesmente dado dentro do mundo se, por na- Quando ela nasceu eu já sabia que ela tinha que fazertureza, tiver o modo de “ser-em”, e se com sua pre-sença, já tudo, mas quando ela começou a ficar ruim mesmo, aí, ase lhe houver sido descoberto um mundo”(19), o mundo com- gente, ao em vez de não superproteger, a gente acaboupartilhado de mãe e filho cardiopata. Sem o compartilhar, estragando ela um pouco. Ela ficou mimada, manhosa,aonde um ente vai ao encontro do outro, não há “toque”, ficou mais difícil. Só aí mesmo que eu acho que eu maisapenas um contato objetivado, planejado. Apesar de o esta- errei, na superproteção.do emocional da enfermeira sofrer alterações no decorrer desua assistência(21), uma coisa é necessária manter inabalá- Aquilo que existe e que conhecemos e compreendemosvel: a empatia e o comprometimento com o “ser-aí”, o ser- pode não se manifestar claramente e ocultar-se para o mun-cuidado. do(22). Nesse momento, é a interpretação que possibilita o des-velar e o conceituar. A interpretação fundamenta-se es- Conviver com o filho cardiopata é difícil para a mãe. Ela sencialmente naquilo que temos diante de nós, ou seja, numse apega a ele e, por vezes, faz distinção entre ele e os de- real, sempre em uma visão prévia do que já foi compreendi-mais filhos. A princípio, de forma imperceptível, sua solicitu- do(22). O compreendido, estabelecido numa visão prévia, tor-de é realizada de forma inautêntica(16), projetando-se sobre o na-se conceito mediante uma interpretação.filho, dominando-o, limitando suas capacidades. Mesmo como tempo, a mãe sente dificuldade em deixá-lo livre para ex- Se a princípio a mãe não compreendeu verdadeiramenteplorar suas limitações e possibilidades de resolver proble- o significado da doença, bem como sua implicação na vidamas. Ela reconhece que o cuidado que presta ao filho “do- do filho, ao deparar com os sinais em seu corpo, interpretá-ente” é diferenciado, supervalorizado, mas justifica-se ao la-á de maneira torpe. Acreditará que os sinais devem serdizer que isso é decorrente da patologia: evitados a todo custo para o bem-estar da criança. Interpre- tará a doença baseada no que ela presencia e sente no dia- No início eu tinha superproteção, porque ela não podia se a-dia com seu filho, e não na prévia compreensão esforçar, andar de bicicleta, correr muito, rir e chorar mui- estabelecida com a equipe de saúde. É preciso de nossa to, nada ela podia muito, era tudo meio controlado, isso porque ela fazia crise, ela desmaiava e eu tinha que correr parte um outro olhar, voltado a realidade do binômio, àquilo às pressas. que está “por traz do véu”. Ah! sei lá. Depois que eu descobri, aí eu tentei cuidar Acreditando em uma força maior: melhor, mais ainda, porque uma pessoa com problema no a sustentação necessária coração não pode passar qualquer coisa, raiva, outras coisas. Então, o cuidado era maior ainda. Ter um filho com problema no coração também significa, para a mãe, ter fé. De todos os sentimentos desvelados até A mãe se vê diante de um ente querido, gerado por ela, e aqui, a fé é o que dá sustentação e coragem para lutar dia aque apresenta sinais em seu corpo que demonstram o quan- dia. Sem esperança e sem a fé, o filho está mais morto queto é frágil e requer cuidado. Não um cuidado qualquer, mas vivo. Não é possível viver com tal perspectiva, por isso aque supra uma necessidade visível e que desfaça o sinal mãe busca em Deus a companhia necessária para trilhar esseaparente, o qual, seguidamente, incomoda quem quer que o caminho e vencer a jornada de ter um filho com problema nopresencie. coração: Não permitir que a criança chore em tenra idade significa E se Deus indicou assim, né? Tudo é Deus que quer. Serestringir e diminuir sua forma de expressão, e se isso for Ele deixou que tivesse que passar por isso, é porque aconstante a criança aprende a utilizar o choro para ter, mais gente deve dar conta. Ele sabe que a gente dá conta, éfacilmente, seus desejos realizados, sejam eles saudáveis seguir a vida pra frente, né? Vou seguir pra frente.ou não. Pais que não limitam seus filhos desde o início têmmaior dificuldade quando esses atingem a adolescência. Porque, coração é o principal do corpo, então, a gente fica assim sem saber. O jeito é confiar em Deus mesmo. Ele é Os padrões formados durante a infância podem moldar fiel, é esperar, né? Vamos ver no que vai dar. Agora é sóuma personalidade sadia, ou não, para a criança doente(6). esperar, né? Não posso fazer mais nada. 47O significado de ser mãe de um filho portador de cardiopatia: Rev Esc Enferm USPum estudo fenomenológico 2006; 40(1):42-9.Ribeiro C, Madeira AMF. www.ee.usp.br/reeusp/
  7. 7. Há indivíduos saudáveis que reconhecem e aceitam a Penso que só a vivência de cada uma poderá nos mos-insegurança e as limitações de sua existência e têm coragem trar aquilo que lhes é necessário. Nossa conduta deve serpara assumi-las, envolvendo-se nas situações e enfrentan- baseada naquilo que aflora de suas falas, e não apenas emdo os riscos para tentar resolvê-las. Assim, vão ampliando teorias pré-formadas, as quais, muitas vezes, acreditamossua capacidade de compreensão de si e do mundo(23). ser suficientes. Seus temores, dúvidas e limitações devem ser respeitados. Deus é grandioso. É aquele que permite o transcorrerdos acontecimentos. Também foi Deus quem a formou e A equipe desempenha um papel importante na assistên-quem melhor a conhece, então Ele sabe até onde suas forças cia à família e à criança cardiopata. Quando a enfermeiraa podem levar. É preciso aceitar a própria limitação. estimula a mãe a falar sobre a situação fica mais fácil de A espiritualidade dá significado e sustentação às pesso- ajudá-la a encontrar respostas às suas dúvidas.as que se vêem diante da doença, das mudanças e das per-das que as acompanham(23). As mães buscam força em Deus, Ao buscar compreender o fenômeno em estudo, o signi-e por intermédio de sua fé superam a dor que sentem por ficado para a mãe de ter um filho com problema no coração,vivenciar a cardiopatia do filho: percebi que a realidade dela, muitas vezes, não condizia com meus preconceitos. Assim sendo, apreendo que os planos Com a força e com fé em Deus a gente supera tudo, a de assistência a esse binômio requerem um repensar, no gente consegue tudo que a gente quer. Bastante fé a qual condutas de cuidado estejam voltadas às necessida- gente tem que ter, para superar toda essa dor que a gente des afloradas da vivência da mãe, valorizando a maneira sente. Se a gente tem fé tudo sai bem, né? como ela percebe a situação. É preciso se apegar a algo sobrenatural quando o natu- A enfermagem deve constituir-se de profissionaisral, aquilo que está ao alcance das mãos, é insuficiente para empáticos, onde “ser-em” e “ser-com” signifique comparti-resolver os problemas. Algo que sustente e dê coragem para lhar, envolver-se, participar do mesmo mundo do sujeito aoenfrentar aquilo que tende a desanimar o ser. qual se dedica o cuidado. A fé é o refrigério para a mãe que convive com o sofri-mento do filho e a incerteza de sua vida. A esperança da cura A fenomenologia, até então desconhecida para mim,assegurada em Deus surge para a mãe como um sentimento transformou minha postura como enfermeira. As concep-de vitória sobre a morte. É ela que dá sossego ao coração, ções de alguns filósofos, entre eles Martin Heidegger, pos-que mantém o medo sob controle, que permite à mãe novos sibilitaram-me visualizar o outro e o mundo de maneira au-sonhos e o repensar o caminho. têntica. Pude divisar a magnitude do homem como ser exis- tencial, que ora se mostra, ora se esconde, e que, mesmo Assim como as mães das crianças cardiopatas, também quando tenta esconder-se, está aí, diante dos olhos de quemacredito no poder do Pai, e nós sabemos que apesar das se dispõe a olhá-lo.dores e mesmo da morte, é Ele quem nos sustenta, nos ajudae nos conduz por essa estrada, a qual chamamos VIDA. Com a fenomenologia pude apreender da mãe do cardiopata aquilo a que poucos têm acesso: o seu mundo- CONSIDERAÇÕES FINAIS da-vida. Nossa autenticidade está por debaixo do véu e nem todas as pessoas com as quais nos relacionamos são capazes de desvelá-la. Faz-se necessário, portanto, um novo Buscar com a mãe o significado que ela atribui ao fenô- olhar, para que aquilo que está encoberto aos olhos, se tor-meno de ter um filho com “problema no coração” enrique- ne visível, para ser compartilhado e, quando preciso, cuida-ceu, de modo significativo, o meu vivenciar como enfermei- do. O tempo é nosso maior aliado, necessitamos tê-lo ao nosra e cuidadora desse binômio. relacionarmos com a mãe da criança cardiopata. Apreendi de suas falas que essa situação na vida decada uma é permeada por sentimentos, muitas vezes A reflexão e compreensão do significado de ter um filhoincompreendidos por ela e pelo próprio profissional de com problema no coração, sob a ótica da mãe, servirão desaúde que a assiste. guia aos serviços de saúde, na reformulação de programas de assistência e educação que levem em consideração o que É impossível não transformar a realidade da assistência essas mães pensam e sentem em relação à situação dede enfermagem prestada a esse binômio, após compartilhar cardiopatia congênita do filho, podendo transformar a reali-com ele o significado de vivenciar a doença cardíaca. dade de ambos dentro e fora do hospital. Acredito que seja de extrema importância a criação de Penso que seja necessário a criação de grupos de famí-grupos de mães, dentro e fora da área hospitalar, onde pos- lias que vivenciam a situação de cardiopatia infantil, emsam ser ouvidas, mais que orientadas, tendo assim a oportu- sua própria comunidade, para que pais e filhos possamnidade de compartilhar experiências. compartilhar experiências e juntos buscar respostas a seus48 Rev Esc Enferm USP O significado de ser mãe de um filho portador de cardiopatia: 2006; 40(1):42-9. um estudo fenomenológico www.ee.usp.br/reeusp/ Ribeiro C, Madeira AMF.
  8. 8. questionamentos. Nesse momento a enfermeira poderá as- hospitalar. Particularmente acredito que esse é um assuntosumir o papel de mediadora, auxiliando o grupo a descobrir, difícil e pouco debatido entre nós enfermeiras, mas que estápor si só, soluções para suas dificuldades diárias. presente em nosso dia a dia hospitalar e merece atenção e conhecimento. Em ambiente hospitalar a enfermeira, além de cuidadora,é a pessoa que tem maior proximidade das angústias vividas Quanto mais estivermos próximas, com atenção, interes-pela mãe do cardiopata, podendo identificar a necessidade se e tempo, das pessoas que vivenciam a doença as quaisde intervenção de outros profissionais de saúde de maneira nos propusemos a “cuidar”, mais fácil será visualizar suasprecoce. Além disso, ela deve estar preparada para ouvir e ansiedades e dúvidas, as quais muitas vezes estão encober-falar sobre “morte”, um ente entre mãe e filho em ambiente tas àquele que não se detém a olhar com empatia. REFERÊNCIAS(1) Tamez RN, Silva MJP. Enfermagem na UTI neonatal. 2ª ed. (14) Martins J, Boemer MR. Ferraz CA. A fenomenologia como Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2000. alternativa metodológica para pesquisa: algumas considera- ções. Rev Esc Enferm USP. 1990;24(1):139-47.(2) Santana MVT. Cardiopatias congênitas no recém-nascido: diagnósticos e tratamentos. São Paulo: Ateneu; 2000. (15) Brazelton TB. O desenvolvimento do apego: uma família em formação. Porto Alegre: Artes Médicas; 1988.(3) Lima A. Pediatria essencial. 4ª ed. Rio de Janeiro: Ateneu; 1992. (16) Heidegger M. Ser e tempo (Parte II). 7ª ed. Petrópolis: Vozes;(4) Wong DL. Whaley e Wong: enfermagem pediátrica - Elementos 2000. essenciais à intervenção efetiva. 5ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1999. (17) Zielinsky P. O exame cardiológico inicial em pediatria: seu papel na atenção primária. [periódico online]. J Pediatr.(5) Hallage AG. Efeitos psicológicos das cardiopatias sobre o paci- 1994;71(4):181-2. Disponível em:<http://www.jped.com.br/ ente e a família [tese]. São Paulo: Instituto de Psicologia da conteudo/port_resumo.asp?varArtigo=774&cod=5 9>. (Aces- USP; 1988. so em 30 jul. 2003).(6) Thompson ED, Ashwill JW. Uma introdução à enfermagem (18) Merleau-Ponty M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: pediátrica. 6ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1996. Martins Fontes; 1996.(7) Iyer PW, Taptich BJT, Bernocchi-Losey D. Processo e diag- (19) Heidegger M. Ser e tempo (Parte I). 8ª ed. Petrópolis: Vozes; nóstico em enfermagem. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993. 1999.(8) Capalbo C. A fenomenologia a partir de Edmund Husserl e (20) Soares VV, Vieira LJES. Percepção de crianças hospitalizadas sua repercussão na área da saúde. Rev Enferm UERJ. sobre realização de exames. Rev Esc Enferm USP. 1998;6(2):415-9. 2004;38(3):298-306.(9) Conselho Nacional de Saúde. Resolução 196/96. Dispõe sobre (21) Martino MMF, Misko MD. Estados emocionais de enfer- pesquisa envolvendo seres humanos. Bioética. 1996;(4): meiros no desempenho profissional em unidades críticas. Rev 15-25. Esc Enferm USP. 2004;38(3):161-7.(10) Carvalho AS. Metodologia da entrevista: uma abordagem (22) Forghieri YC. Psicologia fenomenológica: fundamentos, mé- fenomenológica. Rio de Janeiro: Agir; 1987. todo e pesquisas. São Paulo: Pioneira Thomson Learning;(11) Bicudo MV, Espósito VHC. Pesquisa qualitativa em educa- 2001. ção. Piracicaba: Unimep; 1994. (23) Oliveira AGC. Convivendo com a doença crônica da criança: a(12) Madeira AMF. Crescer com o filho: a singularidade do adolescer experiência da família [tese]. São Paulo: Escola de Enferma- mãe. [tese] São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 1998. gem da USP; 1994.(13) Martins J, Bicudo MAV. A pesquisa qualitativa em psicologia. Fundamentos e recursos básicos. São Paulo: Moraes; 1989. 49Correspondência: Carineum filho portador de cardiopatia:O significado de ser mãe de Ribeiro Rev Esc Enferm USPRuaestudo fenomenológico - Tijucaum Haddock Lobo, 458 - Ap. 302 2006; 40(1):42-9.CEP 20260-142 - AMF.Ribeiro C, MadeiraRio de Janeiro - RJ www.ee.usp.br/reeusp/

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