Cristaos ricos em tempos de fome ronald sider

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Cristaos ricos em tempos de fome ronald sider

  1. 1. R o n a l d ]. S i d e r C Ä - 6 Z . O iU & ÏU A AT. £ U £ 7 .^ T .'S V &dôtã(M JticcA U EM TEMPOS DE FOMEM O V I N G F R O M A F F L U E N C E to G E N E R O S IT Y • Me re t h i n t OO. OOO n P r i l l
  2. 2. RONALD J. SIDER (èBQStrâos saeos BGa tragos oa ffooaa Traduzido e adaptado por Enio R. Mueller EDITORA SINODAL 1984
  3. 3. AGRADECIMENTOS DO AUTOR Fui bastante beneficiado com as observações críticas de vários bons amigos que leram partes do primeiro rascunho: Judy e John F. Alexander, Arthur Simon, Edgar Stoesz, Richard Taylor, Carol e Merold Westphal. Uma vez que não sou economista, apreciei espe­ cialmente a grande ajuda de dois amigos. Cari Gambs e John Mason. Algumas vezes rejeitei obstinadamente as suas sugestões e idéias. Por isso não podem ser culpados pelos resultados. Mas a sua ajuda e amizade são profundamente apreciadas. A Debbie Reumann e Titus Peachy eu quero agradecer espe­ cialmente pelas longas horas gastas na máquina de escrever. A senho­ ra Anne Allen, que datilografou alguns dos capítulos iniciais, externo o meu profundo apreço pela sua magnífica assistência secretarial e administrativa durante vários anos. Finalmente quero agradecer à revista HIS, por publicar uma ver­ são primitiva do capítulo sete, bem como ao Ashland Theological Seminary e à Emmanuel School of Religion, pela oportunidade de apresentar partes do material como palestras públicas. Talvez todos os livros devam ser vividos antes de serem escritos. Isso certamente é verdade quando se trata de livros como esse. Devo confessar de imediato que não estou vivendo todas as implicações de tudo que aqui está escrito. Mas já comecei aperegrinação. A razão mais importante de eu já ter inclusive percorrido um trecho do ca­ minho é a minha esposa, Arbutus Lichti Sider. Sempre entusiasta em tudo que diz respeito a padrões de vida simples, espontaneamente generosa e pronta para experiências, devagarinho ela foi me rebocan­ do pelo caminho. Pela sua leitura crítica do manuscrito, pela nossa 5
  4. 4. vida em comum, sem a qual este livro nunca teria sido possível, e pelo seu amor, quero expressar-lhe o meu mais profundo apreço. Nota à Segunda Edição (revisada): Ao revisar os capítulos 1, 2, 6 e 9, fui grandemente beneficiado com a ampla assistência do Dr. Roland Hoksbergen, agora Professor Assistente de Economia no Calvin Collegc. A suo ajuda (e paciência) foi de muito valor. Além disso um bom número de amigos que são economistas con­ tribuíram com pareceres críticos, seja em relação à primeira edição, seja do rascunho preliminar da segunda: Robert Chase, Cari Gambs, Donald Hay, Cari Kreider, John Mason, Henry Rempel e John P. Tiemstra. Nenhum deles, tenho certeza, ficará plenamente satisfei­ to com todas as minhas decisões finais. O seu conselho, todavia, que foi muito apreciado, melhorou significativamente o texto.
  5. 5. INDICE Agradecimentos do Autor ........................................................... 5 Prefácio ......................................................................................... 11 Prefácio do T radu tor......................................................... .. 13 Introdução..................................................................................... 15 PARTE I: OS CRISTÃOS RICOS E LÁZARO, O POBRE . . . . . 17 1. Um Bilhão de Próximos Famintos ........................................ 19 Novas Divisões Econômicas no Terceiro M undo.......................... 21 Um Histórico da Situação.............................................................. 24 Uma Redefinição da Fome............................................................ 26 Crianças, Retardamento Mental e Protefnas....................... .. 29 População.............................................................................31 Limites Para o Crescimento ......................................................... 33 Perspectivas Para o F uturo............................................................ 35 2. A Minoria Rica....................................................... ................ 40 Um Abismo Cada Vez Maior ....................................................... 41 Pobreza Com 30 mil Dólares por Ano?...................................... .. 47 A Grande Mentira...................................................................... .. 49 Promessas, Promessas .................................................................... 50 Pretextos Para a Nossa Riqueza ................................................... 53 PARTE IkPOBREZA E RIQUEZA EM PERSPECTIVA BÍBLICA57 3. Deus e os Pobres..................................................................... 60 Pontos-Chave da História da Revelação ............................. .... 61 a —0 Éxodo ..................... .'.................................................. 62 7
  6. 6. b —Destruição e Exílio .......................................................... 63 c —A Encarnação.................................................................... 67 Deus se Identifica com os Pobres................................................. 70 Os Instrumentos Especiais de Deus............................................... 71 Deus —Um Marçista?.................................................................... 74 Os Interesses de Deus e os Nossos................................................. 80 4. Relações Econômicas Entre o Povo de Deus......................... 91 O Princípio do Jubileu.................................................................. 92 O Ano Sabático ............................................................................ 96 Leis Referentes aos Dízimos e às Coletas.................................... 97 Modelos a Seguir, Modelos a Serem Evitados.............................. 98 A Nova Comunidade de Jesus....................................................... 100 O Modelo de Jerusalém ................................................................ 102 Koinonia Econômica .................................................................... 108 Conclusões.................................................................................... 116 5. Posição Bíblica Com Relação à Riqueza e Posse de Bens Materiais....................................................... 117 Propriedade Privada...................................................................... 117 Não Andeis Ansiosos . . . ...................................... '•.................. 122 O Homem Rico e Louco................................................................ 125 As Alianças e o Noivo Amado ..................................................... 129 Prosperidade: Um Sinal da Bênção de Deus? .............................. 131 6. A Fome Mundial e o Pecado "Estrutural" ............................136 A Bíblia e o Pecado Estrutural..................................................... 137 O Pecado Institucionalizado no Mundo de Hoje.......................... 142 Origens e Crescimento.................................................................. 143 Comércio Internacional ................................................................148 Consumo de Recursos Não-Renováveis........................................ 161 Padrões de Consumo de Alimentos...............................................168 As Multinacionais no Mundo Menos Desenvolvido..................... 173 O Caso das Bananas...................................................................... 179 O Arrependimento de Zaqueu ..................................................... 183 PARTE III: IMPLEMENTAÇÃO................................................. 185 7. Contribuição Proporcional Progressiva e Propostas Para um Estilo de Vida Mais Simples .................................... 188 O Deus do Mundo Afluente e o Seu Profeta................................191 8
  7. 7. 0 Dízimo Escalonado...................................................................192 Vida Comunal .............................................................................. 195 Critérios Gerais..............................................................................199 Sugestões Práticas.......................................................................... 199 Critérios Para a Contribuição.......................................................201 8. Zelando Uns Pelos Outros Com Amor ..................................203 Uma Perspectiva Sociológica ....................................................... 205 Novos Modelos de Comunidade C ristã........................................ 207 Comunidades Domésticas.............................................................209 Comunidades de Vizinhança......................................................... 214 A Comuna Cristã .......................................................................... 215 9. Transformações Estruturais ...................................................217 Quem Será Beneficiado?................................................................222 Mudanças na Política .................................................................... 224 Transformação Social e Conversão...............................................225 Desenvolvimento Voltado Para as Necessidades Básicas.............227 Conclusão....................................................................................... 231 Epílogo ......................................................................................... 233 Algumas Entidades Que Desenvolvem Trabalho Social...............235 9
  8. 8. PREFACIO O presente livro é um desafio ao estudo das Escrituras. Elas apre­ sentam as alternativas de Deus para transpor o grande abismo que está colocado entre os que possuem, em demasia, bens e conforto, e os que vivem na miséria absoluta. Agrada-nos trazer ao público brasileiro o estudo de Ronald J. Sider, pelos seguintes motivos: — Nossa dívida com a Evangelização dentro e fora do Brasil. No Congresso Brasileiro de Evangelização (Belo Horizonte 1983) ficou evidenciado que as portas no mundo inteiro estão aber­ tas para missiona'rios brasileiros. Além destas fronteiras geográficas temos incontados grupos e estratos não alcançados em nossa Pátria. Será que a Igreja brasileira é pobre demais para assumir tal desafio? Não estará a Igreja brasileira acomodada exatamente porque deixou de estudar certas passagens das Escrituras? — Nossa d(vida com o povo pobre. A salvação em Jesus Cristo nos compromete com uma ética de­ terminada pelos valores do Reino de Deus. O Evangelho do Reino não é propriedade da Igreja, nem se limita a ela. ê a mensagem que proclama o Senhorio de Jesus Cristo sobre todos os governos, poderes e potestades (ideologias também) presentes e estruturadas neste mundo. 0 fruto evidencia o caráter de uma estrutura ou regi­ me. E o fruto que está diante dos nossos olhos é um aviltamento aos valores do Reino. Cabe à Igreja, em primeiro lugar, viver e ser a Comunidade da Partilha, primícias da justiça, como a conhecemos de Atos 2 e 4, atendendo à medida das necessidades de cada um. E não nos enganemos, partir o pão com quem está morrendo de fome não é nenhuma virtude cristã, senão a mais elementar das obrigações
  9. 9. éticas do ser humano. R. Sider nos desafia com estudo de passagens incômodas a res­ peito de propriedades e bens. Mas se não tivermos mais condições de estudar as passagens da Bíblia que falam contra o nosso fútil comportamento, corremos o risco de domesticar a própria Palavra do Senhor. — Nosso compromisso com a autoridade das Escrituras. Com facilidade aceitamos o enunciado teológico: As Escrituras são autoridade suprema e suficiente em questões de fé e ética. Mas como está a prática desta afirmação? Não reduzimos a Bíblia para os assuntos internos de nossa congregação? Quantas vezes esquecemos que o primeiro assunto abordado pela Bíblia é a Criação e a responsa­ bilidade confiada ao ser humano de bem cuidar e administrar esta criação? Ela é o jardim de Deus que produz o suficiente para que a dignidade de cada criatura seja respeitada. Respeito à dignidade hu­ mana significa acesso condigno à alimentação, saúde, habitação, edu­ cação, liberdade de fé, liberdade de participação política . . . Ora, onde isto não é assegurado as estruturas injustas dos homens ofen­ dem a criação e são um aviltamento à vontade do Criador. A Igreja, como comunidade do Reino, deve zelar para que soja anunciado e vivido o conselho todo de Deus. Para isto é necessário conhecimento profundo do texto bíblico e conhecimento igual­ mente profundo da realidade. R. Sider nos desafia a esta at:tude. Finalmente cumpre lembrar que é simplesmente farsa pedir ao governo legislar o que a Igreja se recusa a viver. Busquemos, pois, em humildade e arrependimento a face de Deus; busquemos obe­ diência a todo o seu conselho para que se torne realidade o novo céu e a nova terra onde habitará a justiça (2 Pe 3.13). Que o presente trabalho nos ajude neste propósito. Pela Equipe do ENCONTRÃO da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil P. Arzemiro Hoffmann
  10. 10. PREFÁCIO DO TRADUTOR Em vários sentidos, este livro é mais do que uma simples tradu­ ção. 0 tema em si, e a forma em que é abordado, exigiram aqui e ali algumas adaptações, sempre se pensando em tornar o livro mais rele­ vante para o leitor brasileiro. Naturalmente, quanto a adaptações, procuramos restringir-nos ao máximo, e sempre contando com o consentimento do autor. A própria história do livro exigiu que o tradutor fosse algumas (poucas) vezes editor. A primeira edição americana data de 1976. Em 1978 Sider aproveitou o lançamento da edição inglesa para fazer algumas modificações (principalmente no arranjo interno da obra). A tradução que ora sai ao público foi iniciada em cima da primeira edição, e concluída a partir do manuscrito da nova edição americana, na qual fica evidente uma nova estrutura (tendendo para a mencionadada edição inglesa), além dé'ser toda ela retrabalhada, atualizada (até setembro de 1983) e bastante ampliada, é evidente que, até chegar à impressão final, pode ela própria passar ainda por algumas pequenas modificações. No todo, porém, a presente tradução reproduz quase que integral- mete a edição americana revisada. No meio do capítulo 6 foram cortadas algumas páginas, por se­ rem absolutamente irrelevantes para o leitor brasileiro. 0 mesmo vale para as páginas finais do capítulo 9, onde o autor lança um desafio especificamente para os cristãos norte-americanos (e euro­ peus), partindo dos temas trabalhados no capítulo 6. Para o livro não perder o seu impacto para um leitor latino-americano, decidi­ mos sintetizar em um parágrafo todo esse trecho, preservando as­ sim a sua mensagem essencial, e acrescentar um desafio de caráter mais geral, por um lado, e mais específico à nossa realidade, por ou-
  11. 11. tro. E com isso já entramos no último dos pontos que tornam neces­ sário este prefácio. Em duas ou três ocasiões (sempre devidamen­ te assinaladas no texto) o trabalho do tradutor chegou, praticamen­ te, ao de co-autoria, onde o material exigia uma drástica adaptação à realidade brasileira. Afora isso (e mesmo, de certa forma, nessas poucas inserções) é sempre a voz do autor que soa clara e incon­ fundível, obrigando-nos a pelo menos refletir profundamente diante de mensagem tão lúcida e tão importante. Enio R. Mueller
  12. 12. / 2 f i v O O O <“0 INTRODUÇÃO I *- X '"V , 4 íjfo o . o o o ^ Fome e miséria assolam a terra. A fome está presente e vai bem no planeta Terra. Milhões de pessoas morrem por inanição a_cada ano que passa. Mesmo as estatísticas mais conservadoras refletem uma si­ tuação horrível. Em seu relatório referente a 1982-83 o diretor da UNICEF (programa de assistência a menores mantido pelas Nações Unidas) informa.que, a cada dia, 40.000 crianças pequenasjmorrem de desnutrição ou de doenças com ela relacionadas. Diz também que um quarto das crianças nos países em desenvolvimento são_desnutri- das. Do total da população mundial, um bilhão de pessoas têm urna renda anual de menos de 50g la re s1,~PcTdem'pessoas bem aiimenta- das e bem vestidas, morando em casas luxuosas, compreender a po­ breza? Podemos nós verdadeiramente sentir o que significa ser um menino de nove anos a brincar do lado de fora de uma escolinha à qual ele não pode ir simplesmente porque seu pai não consegue comprar os livros necessários? (Os livros -Custariam menos do que minha esposa e eu gastamos durante, uma noite de lazer.) Podemos ^ realmente entender o que representa para pais pobres ficar vendo, angustiados e sem poder fazer nada, sua filhinha morrer de uma doen­ ça infantil muito comum, por não terem acesso a cuidados médicos (como acontece efetivamente com um terço dos nossos vizinhos em escala mundial)? Provavelmente, não. ; Mas podemos ao menos tentar entender. Podemos empenhar-nos na busca por respostas honestas a questões como sejam: Quantas pes- 1James P. G rant, The State o f the W orld's Children 1982-83 (O xford: O xford Univ. Press, 1 983), p. 1. Stephen Coats, "M ilita ry Spending and W orld Hunger", Bread for the W orld Background Paper, 62, Agosto, 1982, p. 1. V er também W illy Brandt, North-South: A Program fo r Survival (Cambridge, Mass.: M IT Press, 1 980), p. 16. 15
  13. 13. soas estão realmente passando fome no mundo de hoje. Quais são os efeitos da pobreza? Sem querer usar de chavões apelativos: Quão grande é o abismo entre os ricos e os pobres, hoje? E a que se parece a nossa opulência quando comparada com a pobreza daqueles? De­ pois de buscarmos respostas a essas questões, nos capítulos 1 e 2, es­ taremos prontos para, nos capítulos 3 a 6, pesquisar as Escrituras, com vistas a saber o que diz a Palavra de Deus sobre riqueza e po­ breza. 0 objetivo deste livro é desenvolver um posicionamento bíblico com relação ao assunto. A primeira parte procura nos situar dentro dele, com uma breve visão geral da pobreza mundial e da riqueza do Hemisfério Norte. A parte central do nosso estudo é a segunda, "Po­ breza e Riqueza em Perspectiva Bíblica". Na terceira parte procura­ mos apresentar sugestões concretas para o indivíduo, a igreja e a sociedade. 16
  14. 14. PARTE I OS CRISTÃOS RICOS E LÁZARO, O POBRE
  15. 15. CAPITULO UM UM BILHÃO DE PRÓXIMOS FAMINTOS As vezes penso: "Se eu morresse não precisava ver meus filhos so­ frendo desse jeito." Âs vezes até chego a pensar em me matar. Quan­ tas vezes eu vejo eles chorando, com fome: e fico aí parada, sem um centavo sequer para poder comprar um pedaço de pão. Penso comi­ go mesma: "Meu Deus, eu não agüento! Vou dar um fim na minha vida. IMão quero mais ver isso!'' (Iracema da Silva, moradora de uma favela no Brasil)1. 0 que realmente significa a pobreza no dia-a-dia? Uma maneira de responder esta pergunta seria a de fazer uma lista de tudo de que uma típica família americana teria que se desfazer se fosse adotar o padrão de vida de uma família dentre o bilhão de nossos próximos famintos. 0 economista Robert Heilbroner fez tal "lista de supér­ fluos": Começamos entrando na casa da nossa imaginária famíiia ameri­ cana e tirando dela todos os móveis. Vai tudo: camas, cadeiras, me­ sas, televisão, lâmpadas. Deixaremos a família só com uns poucos cobertores velhos, uma mesa de cozinha, uma cadeira de madeira. Junto com os roupeiros vão as roupas. Cada um poderá guardar em seu "guarda-roupa” seu mais velho terno ou vestido, uma camisa ou blusa. Permitiremos que o chefe da família fique com um par de sapatos, mas a mulher e os filhos terão que ficar sem calçados. 1''tfacem a’s S to ry ", Christian C entury. 12 Nov. 1975. p. 1030. 19
  16. 16. Entramos na cozinha. Como os eletrodomésticos já haviam sido tirados antes, nos voltamos agora para o guarda-louças . . . A caixa de fósforos pode ficar, um pequeno pote com farinha, algum açúcar e um pouco de sal. Umas poucas batatas mofadas, que já tinham ido para o lixo, têm que ser resgatadas depressa, pois representam a ga­ rantia do próximo jantar. Deixaremos também um punhado de ce­ bolas e uma tigela de feijões ressequidos. Tudo o mais vai fora: a car­ ne, as hortaliças frescas, os enlatados, os biscoitos, os doces. Deixamos a casa quase vazia. 0 banheiro foi desmantelado, foi cortada a água encanada, e desligada a rede elétrica. Opróximo pas­ so agora é levar a própria casa. A família pode se mudar para a gara­ gem . .. Passamos para o setor das comunicações. Nada mais de jornais, revistas, livros — não farão falta, pois teremos que tirar também de nossa família a própria capacidade de ler e escrever. Em lugar disso permitiremos um rádio no barraco. .. Depois é a vez dos serviços públicos. Nada de correio, nem de bombeiros. Há uma escola, mas fica a quase cinco quilômetros e conta com apenas duas salinhas de aula . . . Obviamente não há, nas proximidades, hospitais ou médicos. 0 posto de saúde mais próximo está a quinze quilômetros e é atendido por uma parteira. Pode-se ir até lá de bicicleta —isto, se a família dispuser de uma bicicleta, o que é pouco provável.. . Finalmente, o dinheiro. Deixaremos para a família uma reserva de cinco dólares. Isso evitará que o responsável pelo sustento da fa­ mília viva a tragédia de um camponês iraniano que ficou cego por não conseguir arranjar os 3,94 dólares que ele, equivocadamente, achava precisar para dar baixa num hospital onde podia ter sido curado2. Quantos dos nossos irmãos e irmãs de hoje se confrontam com tal pobreza opressora? Provavelmente pelo menos um bilhão de pessoas se encontram nesse nível de pobreza, embora seja muito di­ fícil obter estatísticas exatas. Um boletim informativo da entidade "Bread For The World" ("Pão Para o Mundo") relatava, em agosto de 1982. que havia um bjlhão de pessoas,, nos países pobres, com uma renda anual não superior a 50 dólares3. Um relatório recente 2 R obert L. Heilbroner, The Great Ascent: The Struggle fo r Eeonomic Developm ont in O ur Tim e (Nova Iorque: Harper & Row , 1 963), pf>- 33-36. 3 Background Paper, n? 6 2 , Agosto, 1 9 8 2 ,p. 1. V er tam bém N ational Research Council, World Food and N u tritio n Study: The Potential Contributions o f Research (Washington: National Academ y o f Sciences, 1 9 7 7 ), p. 34, 20
  17. 17. do Banco Mundial menciona haver mais de 800 milhões empestado de indigência4. Um suplemento especial do "Development Forum" (publicaçãcTdas Nações Unidas), intitulado "Facts on Food" ("Fa­ tos sobre Alimentação"), publicado em novamhro de 1974. estima­ va que " metade da população mundial. 2 bilhões, está mal alimenta- da". Usaremos aqui uma cifra bastante conservadora de um bilhão de pessoas subnutridas, tomando por base um ano normal: pois tal cifra sobe muito em tempos de escassez mundial de alimentos, como os anos 1972-74, podendo ser menor quando as colheitas são boas, especialmente nos países em desenvolvimento, como, graças a Deus, tem acontecido entre 1975 e 1982. NOVAS DIVISÕES ECONÔMICAS NO TERCEIRO MUNDO Quase todo esse bilhão de pessoas desesperadamente pobres vi­ vem no Terceiro Mundo. Até há pouco tempo tõâos os pa7ses~que 'nãõ_pertenciam ao mundo desenvolvido (seja capitalista ou comu­ nista) eram cosiderados, sem maiores distinções, como nações do "Terceiro Mundo". Contudo, transformações ocorridas na última década (especialmente desde a triplicação dos preços do petróleo em 1973) exigem uma nova divisão: países do Terceiro Mundo com baixa renda e_países com renda média. India, Bangladesh, Paquistão e vários países africanos como a Etiópia, Burundi, Chade, Tanzânia e Somália pertencem ao grupo de baixa renda. Quadros típicos nesse grupo são: menos de um alfa- betizado em cadà guãtrõ~3essoas~(embora~nirTndia o índice de al- fàEè‘fTzãçãcTsejá de 36% e na Tanzânia, 74%5); taxas de mortalida- de infantil dez vezes maiores que nos países desebvolvidos. bem co- mo Índices^de crescimento populacional mais elevados (veia abaixo'-'^ as tabelas 1 e 4). A menos que aconteçam/fráhsformações)de vulto, nos planos interno e externo, há poúcaFperspectivas de umaTnêlho- ra realmente significativa nas tristes condições de vida da popula­ ção desses países. A fome vai continuar vitimando milhões de pes- Alguns dos países do Terceiro Mundo têm perspectivas de um futuro um pouco mais alentadoras. São conhecidos como os paí­ ses de renda média, e entre eles estão a maior parte das nações da 4 Brandi, p. 18. 5John P. Lewis e Valeriana Katlab teds.J, U.S. Foreign Policy and tho Third World: Agenda 1983 (Nova Iorque: Praeger. 1983). p. 210. 21
  18. 18. ■ A :ís / ^r América Latina e algumas outras na Asia e na Africa. Alguns des- ses_países têm experimentado um_crescirnento_econômico conside- ^ rávei. Tragicamente,_isso^rn_geraMem;traz4fjo pouco ou nenhum be- Ia , inefício para_os_p_obres. (O Brasil e o Méxiaysão exemplos clássicos. ® j~ No Brasil, uma ditadurêT militar fortemente apoiada pelos Esta ■"v . ,^dos Llnidos (3rornoyeu_um^çxescimento real da economia a uma taxa de 10% ao ano, entre 1968 e 1974. Um~crescimento em torno de í S% ao ano continuou até 19806. Mas quem foi beneficiado? O pró­ prio Ministro da Fazenda brasileiro admitiu, em 1972, que someote 5% da população havia se beneficiado com o fantástico crescimento âa economia brasileira. O governo brasileiro não desmentiu um estu­ do feito em 1974 que mostrava que o_pod£iiagijjsitivo-real-dos-dois terços mais pobres da população havia_diminuído em mais da metade nos_dêz~ãrfos anteriores.'Em'T975, 58% das crianças brasileiras com menos de 18 anos estavam subnutridas7. Em 1980, 40% da popula­ ção total sofria de desnutrição". Em 1972, 60% da população brasi­ leira recebia uma parcela em torno de 16% da renda total do país. Os 10% mais ricos, por outro lado, ficavam com mais de 50% da ren­ da do pais. De 1960 a 1972, os 40% mais pobres viram a sua parte da renda total declinar de 10 para 1%'>. (Infelizmente, informações j mais recentes sobre distribuição de renda etc., baseadas no censo, / de 1980, estão sendo retidas pelo governo brasileiro.10) A taxa de mortalidade infantil é um dos indicadores mais sensí­ veis para averiguasse uma sociedade vai de encontro às necessidades V er o World Developm ent Report 1981 (Nova Iorque: O xford Univ. Press. for the W orld Bank. 1 9 8 1 ). pp. 135. 137. para estatísticas sobre crescimento. 7A rthur Sim on, Bread for the W orld (Grand Rapids: Eerdmans; Paramus. NJ: Paulist Press, 1975), pp. 6 4-65. O New Y o rk Times trazia, no dia 11 de Julho. 1976. p. 3. o seguin­ te: "Segundo estatísticas do governo (brasileiro) os salários para a mão-de-obra não especia lizada, considerando-se a inflação, dim inuíram em quase 40% desde que o governo m ilitar de direita assumiu o poder, doze anos atrás. Enquanto isso, o Produto Nacional Bruto cres­ ceu mais de 150% nesse mesmo período . . . Houve uma distribuição de renda radical a fa­ vor dos setores econom icam ente mais prósperos." E ainda: " A agricultura brasileira se ex­ pande rapidam ente, mas quase sô em proveito dos ricos." (New Y o rk Times, Agosto. 16. 1976, p. 2 ). Para a estatística sobre desnutrição, ver o W orld Bank Country S tudy. Brazil: H um an Resources Special R eport (Washington: The W orld Bank, 1 979), p. 61 do A nexo III. 8 ... P- 4. Trade w ith Justice". Bread for the W orld Background Paper, nP 67 (Agosto, 1983). Theodore M organ, Economic Developm ent: Concept and Strategy (Nova lorque: Harper, 1976), p. 20 5 . V er as pp. 167-190 de Morgan para uma excelente visão geral dos efeitos da subnutrição. V er tam bém o W orld Developm ent Report 1981. pp 182-183, para referências estatísticas. 1°H á rumores no Banco M undial de que o governo brasileiro não quer divulgar os d a ­ dos sobre a distribuição de renda por não gostar dos números. 22
  19. 19. básicas dos 50% mais pobres da sua população. No Brasil os índices de mortãfidádê infantil urbana cresceram, de 1961 a 1970, de 103 RaraJ_09_emj:ada mil crianças11. Provavelmente as coisas deterioraram para os pobres no Brasil nesta década, à medida que foram mais atingidos pelos problemas da economia brasileira desde o aumento dos preços do petróleo em 1973. Infelizmente o rápido crescimento econômico brasileiro mui­ to pouco contribuiu para melhorar a situação dos que mais necessi­ tam dele. _No_México, onde a renda média per capita cresceu, em termos reais, em torno de 2,7% ao ano entre 1960 e 1978, os 20% mais ri­ cos conseguiram aumentar a sua parte na distribuição da renda de 56,5 para 57,7%. E os pobres, nesse meio tempo, tiveram reduzida a sua parte. Em 1968, os 40% da base inferior da pirâmide da renda ficaram com 12,2% do bolo; em 1977, a sua parte era menor que 10%. Os 20% mais pobres viram a sua parte cortada de 3,6 para me- nosde3%. Isso não quer dizer que os pobres tiveram realmente ren­ das mais baixas. As cifras mostram que a renda per capita dos 20% mais pobres da população permaneceu mais ou menos a mesma, su­ bindo de 183 para mais ou menos 187 dólares por ano. Mas os 20% mais ricos viram ã sua renda aumentada em mais de 850 dólares per capita, passando de 2.867 para 3.722 dólares anuais. O cidadão po­ bre médio teve a sü¥ nriãgra renda aumentada em 4_dójares num pe- río.do^de_-18-anos, enquanto que o rico médio acrescentou 850 dó- lares-à-sua no mesmo período12. A dor e as lágrimas de toda essa gente estão contidas nas pala­ vras da sra. Alarin, das Filipinas. A família Alarin (composta de sete pessoas) vjye_Duma_peça_de_2,5-por 3 metros. De mobília, só pane­ las. O sr. Alarin consegue 70 centavos de dólar nos melhores dias, vendendo sorvete. Várias vezes por mês a sra. Alarin passa a noite em pé fazendo doce de coco que, depois, sai a vender pelas ruas. Por uma noite de serviço como essa, tudo que consegue são 40 centavos de dólar. Fazia um mês que a família não sabia o que era comer car­ ne quando foi visitada por Stanley Mooneyham, de "Visão Mun- JTal". Este conta o seguinte a respeito da sra. Alarin: 1 K a th le e n Newland, In fant M o rta lity and the Health o f Societies (Wo’rtdwatch Paper, n9 47, Dezem bro, 1 9 8 1 ), p. 15. 1 2Estes dados vém do W orld Developm ent Report 1980, pp. 111, 143, 157. Dados so­ bre distribuição, população e PNB são usados para se chegar às cifras de renda média para as respectivas classes.
  20. 20. Lágrimas banhavam suas olheiras fundas e escuras enquanto ela ia falando: "Fico tão triste quando minhas crianças choram de noite porque estão com fome. Sei que minha vida nunca vai mudar. Que é que eu posso fazer para resolver os meus problemas? Fico tão preo­ cupada com o futuro dos meus filhos'. Gostaria que fossem à escola, mas, como poderíamos nos dar a esse luxo? Estou doente a maior parte do tempo, mas não posso ir ao médico, porque cada consulta custa 2 pesos [28 centavos de dólar) e os remédios ainda são cobra­ dos à parte. Que posso fazer?" E rompeu num silencioso pranto. Não me envergonho de dizer que chorei com ela13. A pobreza no mundo significa centenas de milhões de mães cho­ rando, como a sra. Alarin, por não terem com que alimentar seus fi­ lhos. QuaLs são as_causas dessa trágica situação? UM HISTÓRICO DA SITUAÇÃO I No fim dos anos 60 a assim chamada Rey.oIução Verde criou um j otimismo generalizado. Especialistas em agricultura conseguiram pro­ duzir novas espécies de arroz e de trigo. Como conseqüência, nações pobres como o México e a índia chegaram a se tornar auto-suficientes em cercais nos inícios da década de 70. Contudo, o crescimento po­ pulacional praticamente, contrapesou o-aumento da produtividade v agrícola14, e assim, quando as colheitas foram más em 1972. por ' causã~dãs más condições climáticas a fome voltou a aumentar. A pro- i dução mundial total de alimentos sofreu uma queda substancial em í 1972, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial. Quando os precos do petróleo-triplicaram. entre meados de 72 e fins de 73, os agricultores nas nações em desenvolvimento não dis­ punham mais nem do dinheiro necessário para comprar o com­ bustível para as bombas de irrigação das suas lavouras; nem tinham condições financeira para comprar fertilizantes, cujos preços haviam aumento em 150% entre 1972 e 197415. 13W . Stanley M ooneyham , W hat do You Say to Hungry World? (Waco. Texas: Word Books, 1 975), pp. 38*39. Usado com a permissão da casa publicadora. 14 1 974 Production Year Book, da F A O (Organização das Nações Unidas para A lim en­ tação e A gricultura), (R om a: F A O , 1 975), pp. 2 5-26, 29-30. 15John W. Sewell et al., United States and W orld Developm ent: Agenda 1 977 (L o n ­ dres: Praeger), p. 188. Cálculos a partir da tabela na p. 188 mostram que o preço dos fe rti­ lizantes à base de nitrogénio subiram 230% entre 1972-74. Os de fosfato aum entaram em 127% , e os de potássio 40% . A média do aum ento fica em 150%. 24
  21. 21. Para aumentar a tragédia, dois fatores mais se acrescentaram: colheitas fracas na América do Norte, Europa, União Soviética e Japão, e uma venda excepcionalmente elevada de cereais dos Esta­ dos Unidos para a União Soviética, fazendo com que o custo do grão para exportação praticamente triplicasse nesse mesmo curto período. E quando as nações pobres saíram desesperadas à procura de cereais para alimentar as suas massas famintas, em 1974, tiveram que pagar duas e meia vezes a mais do que dois anos antes por cada tonelada. Para algumas das milhões e milhões de pessoas que já es­ tavam gastando 80% do seu salário só em alimentação, restava um só destino —morrer de fome. Milhões morreram. Em 1975, voltamos a ter boas colheitas, e até 1983 não têm ha­ vido problemas em escala mundial como aqueles do princípio da dé­ cada de 70. Mas, a despeito da ausência de crises imediatas, os proble­ mas a longo prazo permanecem. John Sewell, do respeitado "Overseas Development Council", sediado em Washington, observa que "mes­ mo que a produção total tenha continuado a crescer em todas as regiões (desde 1970), a produção de alimentos per capita aumentou muito pouco nos países em desenvolvimento"16. Mais adiante prè- coniza que, ' em virtude de que 90% do crescimento da população mundial até 1990 ocorrerá nos países em desenvolvimento, estas na­ ções terão que, pelo menos, dobrar as suas importações para atender à demanda crescente prevista para 1990, a não ser que haja um avan­ ço substancial na sua capacidade de produzir mais alimentos"11. As crescentes importações de alimentos pelos países pobres representa­ rão um dreno muito grande nas suas balanças comerciais, se eles não forem capazes de aumentar as exportações o suficiente para compen­ sar as quantidades de alimentos importados cada vez maiores. E, pelo menos até o presente, não temos qualquer razão para crer que as suas exportações darão um grande salto na próxima década. Sewell está certo. A menos que haja um esforço internacional em larga escala visando especificamente melhorar a sorte das massas de trabalhadores rurais nas nações famintas^as perspectivas de talvez um bilhão de pessoas serão as mesmas em(T99p)como são hoje. 16John W . Sewell et al., The United States and W orld Developm ent: Agenda 1980 (Nova Iorque: Praeger. 1 9 8 0 ), p. 60. 17 lb id ., p. 60 (os grifos são seus). 25
  22. 22. UMA REDEFINIÇÃO DE "FOME" Segundo Lester Brown, um dos especialistas mais versados no assunto, devemos redefinir o nosso conceito de "fome". Uma das razões pelas quais aqueles que estão bem de vida podem ignorar tragédias como esta é que ocorreram modificações no próprio modo como a fome se manifesta. Em períodos anteriores da histó­ ria, . . . nações inteiras . . . passavam por duras experiências de fo­ me e de morte por inanição. Hoje os progressos nos sistemas de distri­ buição, tanto nacionais como internacionais, concentraram os efei­ tos da escassez de alimentos sobre os pobres do mundo, estejam on­ de estiverem18. Quem tem dinheiro sempre pode comprar comida; a fome afeta somente aos pobres. Quando a escassez de alimentos triplica o preço das importações de cereais, como aconteceu em 1972-73, as pessoas de média ou alta renda que vivem nos países em desenvolvimento ou subdesenvolvi­ dos continuam a comer normalmente. Porém milhões que já gasta­ vam 60 a 80% do seu salário somente com alimentação passam a co­ mer menos e morrer mais cedo. A morte em geral vem como conse­ qüência de doenças a que os organismos subnutridos não tiveram condições de resistir. As crianças são as primeiras vítimas. Nos países acima menciona­ dos, uma em quatro crianças morre antes de completar cinco-anos dejíjda. O índice de mortalidade infantil é dez vezes mais elevado que nos países desenvolvidos. E metade destas mortes está relacio­ nada com dietas inadequadas. Em 1974, segundo estimativas da UNICEF, 210 milhões de crianças em todo o mundo eram subnu­ tridas19. Uma para cada cidadão americano! Em 1982-83, a UNICEF publicou estatísticas ainda mais assustadoras: mais de uma em cada quatro crianças no mundo em desenvolvimento sofre de desnutri­ ção30. Estudos feitos na América Latina, segundo o Banco Mundial, "apontam para a desnutrição como a principal causa —ou ao menos um dos maiores fatores causadores —de 50 a 75% das mortes entre l 8 l_ester R. Brown, In the H um an Interest (O xford: Pergamon Press, 1 9 7 6 ), pp. 55-56. 1 9 Larry M inear, New H ope fo r the Hungry? (Nova lorque: Friendship Press, 1 975), p. 19. 2 0 G rant, The State o f the W orld's Children, p. 1. 26
  23. 23. um e quatro anos de Idade"21. Carolina Maria de Jesus nos dá uma mostra da realidade do terror e da angústia enfrentadas por gente pobre numa terra onde poderiam ter o suficiente para comer. Os sentimentos diariamente registrados em sobras de papel por esta brilhante semi-analfabeta, que dava duro para conseguir sobreviver numa favela em São Paulo, foram publica­ dos num livro muito tocante intitulado "Quarto de Despejo": "22 de maio. Eu hoje estou triste. Estou nervosa. Não sei se cho­ ro ou saio correndo sem parar até cair inconsciente, ê que hoje amanheceu chovendo. E eu não saf para arranjar dinheiro [ela cos­ tumava sair à cata de papel velho para vender e poder comprar co­ mida] . . . Tem uns metais e um pouco de ferro que eu vou vender no Seu Manuel. Quando o João chegou da escola eu mandei ele ven­ der os ferros. Recebeu 13 cruzeiros. Comprou um copo de água mi­ neral, 2 cruzeiros. Zanguei com ele. Onde já se viu favelado com es­ tas finezas? . . . Os meninos come muito pão. Eles gostam de pão mole. Mas quando não tem eles comem pão duro. Duro é o pão que comemos. Dura é a cama que dormimos. Dura é a vida do favelado. Oh! São Paulo, rainha que ostenta vaidosa a tua coroa de ouro que são os arranha-céus. Que veste viludoc seda e calça meias de algo­ dão que é a favela. . . . 0 dinheiro não deu para comprar carne, eu fiz macarrão com cenoura. Não tinha gordura, ficou horrível. A Vera é a única que re­ clama e pede mais. E pede: — Mamãe, vende eu para a Dona Julita, porque lá tem comida gostosa"22. Stanley Mooneyham, da "Visão Mundial", conta de uma visita que fez à casa de Sebastião e Maria do Nascimento, um pobre casal brasileiro, e que o deixou muito comovido e impressionado. 0 bar­ raco de uma peça era de chão batido e coberto com palha. Uma banqueta, um fogareiro e quatro camas-de-esteira cobertas com sa­ cos parcialmente forrados com palha, era o que havia de mobília. Minhas emoções mal podiam suportar o que ali presenciei e ouvi. Os gêmeos de três anos de idade, deitados numa pequena esteira, 2 'C ita d o em Brown, In the H um an Interest, p. 102. V er também Ruth Rice Puffer & Cario V . Serrano. Patterns of M o rtality in ChikJhood: Report o f the Inter-Am erican In* vestigation o f M o rta lity in ChikJhood (Organização M undial de Saúde, Organização Pan- americana do Soúde, Scientific Publicotion n9 2 62, Washington D .C ., 1973), pp. 164-66. 22Q uarto de Despejo: O Diário de Carolina Maria de Jesus (S£o Paulo: Edibolso, 1960. 1 976). pp. 39-40. 27
  24. 24. pelados, imóveis, estavam a viver o último ato do seu drama pessoal. Movidas de compaixão, as cortinas se fechavam para a sua tão curta existência. 0 bandido da peça chamava-se 'desnutrição'. Ao lado, o menino de dois anos representa um papel silencioso.Seu cérebro ve­ getava, em conseqüência do marasmo, uma forma severa de desnu­ trição. O pai está desempregado. Tanto ele como Maria estão angustia­ dos com relação à própria sobrevivência, pois têm orgulho demais pa­ ra saírem a mendigar. Ele tenta ganhar alguma coisa como engraxate. Maria não consegue nem falar sobre a situação em que se encontram. Ela tenta, mas as palavras não querem sair. O amor dessa mãe pelos seus filhos é terno e profundo e a lenta deterioração de suas vidas é mais do que ela pode suportar. O vocabulário de uma alma angus­ tiada são as lágrimas23. A pequena filha de Carolina não precisaria suplicar que a vendes­ sem a um vizinho um pouco mais rico. E enquanto os gêmeos de Se­ bastião e Maria morriam de fome, havia comida suficiente e em abun­ dância no Brasil. Mas ela não era dividida de modo justo. Os "bem- de-vida'' no Brasil tinham de sobra para comer. Duzentos e dez mi­ lhões de americanos consumiam alimento suficiente (em parte por causa do grande consumo de carne de gado engordado à base de cereais) para satisfazer as necessidades de um bilhão de pessoas nos países pobres! Assim é que a fome tem sido redefinida — ou melhor, redistri­ buída! Ela já não consegue mais afetar aos ricos e poderosos. Fere só osj>0b£gs_fi_impotentes. E uma vez que os pobres geralmente mor­ rem sem grande estardalhaço, em relativa obscuridade, os ricos de todas as partes do mundo sossegadamente fazem de conta que a fome não existe mais. Contudo — redefinida e redistribuída — ela está aí, muito presente. Mesmo em tempos "bons", milhões e mi­ lhões de pessoas vão dormir famintas. Os cérebros de seus filhos vege­ tam e seus corpos sucumbem prematuramente diante de uma doença. Pobreza significa analfabetismo,.,atendimento médico inadequa- do, doença, retardameüto mental. Só 36% dos 688 milhões de habitantes da Índia sabiam ler, em 1981. Nesse mesmo ano, somente a metade (54%) de todos os 3,4 bilhões de habitantes do mundo em desenvolvimento eram al­ fabetizados24. 2 3 M ooneyham , p. 48. 2 4 Roger O. Hanson (ed.), U.S. Foreign Policy and the Third W orld: Agenda 1982 (Nova lorque: Praeger, 1 982), pp. 155, 160. 28
  25. 25. As pessoas no ocidente têm usufruído há tanto tempo dassegu- ranças oferecidas pela moderna medicina que simplesmente acha­ mos que ela deve estar já ao alcance de todos. Todavia, em 1982, 40% de toda a população na América Latina simplesmente não te­ ve acesso a serviços de saúde“ . Na África e Ásia, a situação possivel­ mente é pior. CRIANÇAS, RETARDAMENTO MENTAL E PROTEÍNAS Por falta tanto de comida como de remédios, o Terceiro Mundo tem índices deTnortalidade infantil bãstante altos. Veja Tabela 1 na página 30. Como podemos ver na Tabela 1 o índice de mortalidade infantil é muito maior nos países menos desenvolvidos. O retardamento mental permanente, causado-por. deficiência de proteínas, é um dos"”áspectos mais devastadores da pobreza do mun­ do. 80% do desenvolvimento total do cérebro acontece entre o_mo- mènto da concepção e os dois anos de idade. Uma ingestão adequada de proteínas — precisamente o que pelo menos 210 milhões de crian­ ças subnutridas não têm — é necessária para o desenvolvimento nor­ mal do cérebro. Um recente estudo feito no México constatou que um grupo de crianças de menos de cinco anos de idade, gravemente desnutridas, tinham um Q.l. 13 pontos mais baixo do que as de ou­ tro grupo que contava com alimentação adequada, cientificamente controlada26. A ciência médica atualmente é unânime em afirmar que um alto grau_de desnutrição produz lesões cerebrais irreversíveis. Quando uma família não tem o que comer, quem mais sofre são as crianças. A-Curto_pcazo uma criança não é um problema tão sério quanto um adulto sem forças para enfrentar o trabalho. Mas, a longo prazo, a desnutrição infantil pode gerar milhões de retardados merT- tais. "A pequena Marli, uma carioca sorridente de seis anos de idade, é tão somente um dos muitos exemplos disso. Ela parecia normal sob todos os aspectos. Saudável. Feliz. Só havia uma coisa errada 2 5 V er os números para 1982 em "H ealth Conditions in the Am ericas", Scientific Pu­ blication 4 2 7 , da Organização Pan-americana de Saúde (a agência regional da Organização Mundial de Saúde). 2 6 lbid.. p. 102. 29
  26. 26. Tabela 1 indice de mortalidade infantil por 1000 nascimentos com vida Suécia 7 Austrália 12 EUA 13 Reino Unido 13 Alemanha Ocidental 19 URSS 36 Chile 38 Guatemala 69 Egito 90 Brasil (1974) 94 Ruanda 127 India 134 Malawi 142 FontorRoger D . Hanson (ed.), U S Foreign Policy and the Third W orld: Agenda, 1982 (Nova Iorque: Praeger, 1 9 8 2 ), pp. 161-9. com eia. Não conseguia estudar. A princípio seus professores pensa­ vam que seu problema fosse psicológica conseqüência talvez de falta de carinho, o que seria compreensível num lar com onze filhos. Sua irmã mais nova tinha tido o mesmo problema. Depois de um pe­ ríodo de testes e de cuidadosa observação, porém, tornou-se claro que Marli, filha das pobres e miseráveis favelas brasileiras, não conse­ guia aprender porque o corpinho desnutrido de uma criança não ti- 30
  27. 27. nha conseguido gerar um cérebro saudável"27. Ninguém sabe quantas crianças pobres sofreram lesões cerebrais irreversíveis por causa de uma dieta protéica insuficiente durante a infância. Contudo, como já mencionado, havia 210 milhões de crian­ ças subnutridas em 1974 e mais em 1983. Disso pode-se inferir que o número de deficientes mentais, como Marli, deve chegar a dezenas de milhões. Fome^n3lfabetismo,_doença, lesão cerebral, morte —é o que sig­ nifica a pobreza. E pelo menos um bilhão de pessoas supõrtãTTTdia- riãmente o tormento que ela traz. POPULAÇAO A explosão demográfica é outro problema fundamental. Apenas em 1830 é que a população mundial conseguiu chegar a üm bilhão de habitantes. Daí em diante levou só mais cem anos para ser acres­ centado outro bilhão. Depois, num espaço de apenas trinta anos, tí­ nhamos mais outro. O quarto bilhão foi alcançado, então, em quin­ ze anos (1975). A previsão é de que por volta do ano 2000 vamos che­ gar a mais ou menos seis bilhões de pessoas28. Veja Tabela 2 na página 32. Os índices atuais da explosão demográfica levam algumas pessoas simplesmente ao desespero. 0 "Environmental Fund" dos EUA pu­ blicou, em 1976, uma nota em vários jornais, inclusive o New York Times e o Wall Street Journal, redigida por William Paddock e Garrett Hardin, entre outros, declarando: "O mundo, como o conhecemos, provavelmente estará arruinado antes do ano 2000 . . . O movimento em direção à tragédia, a esta altura, é tão forte que, provavelmente, seja impossível de contê-lo"25. É claro que tais pontos-de-vista são demasiado pessimistas. As tendências do crescimento populacional dos últimos vinte anos ofe­ recem alguma esperança. Enquanto o crescimento geral da popula- 27M ooneyham , p. 191. 2 "V e r E rik P. Eckholm , Down to Earth: Environm ent and Hum an Needs (Nova Io r­ que: N orton, 1 9 8 2 ), p. 37. 29Citado em "Bread for the W orld N ew sletter” , Julho, 1976. Este número contém uma excelente refutação da proposta de Hardin e Paddock paro uma trlogom e uma ótica salva-vidas. 31
  28. 28. Tabela 2 Anos passados para o acréscimo de um bilhão de pessoas n? de anos que levou ano em que foi alcançado Primeiro bilhão 10.000 ou mais 1830 Segundo bilhão 100 1930 Terceiro bilhão 30 1960 Quarto bilhão 15 1975 Quinto bilhão 11 1986 Sexto bilhão 9 1995 Fonte.Lester Brown, The T w en ty-N in th Day (Nova lorque: N orton, 1 978), p. 74. ção mundial apresentava um índice em torno de 2% em 1960, o 1983 World Population Data Sheet (informativo contendo dados sobre a população mundial) do "Population Reference Bureau" (departa­ mento para questões populacionais) indica que ele caiu agora para 1,8%. É claro que a taxa de crescimento populacional não pode conti­ nuar indefinidamente no índice em que hoje se encontra. Uma po­ pulação que cresce à razão de 2,3% (o índice de 1983 para a Amé­ rica Latina) aumenta dez vezes em 100 anos! Se a população lati- noamericana, que está em torno de 390 milhões, crescesse na mé­ dia atual durante os próximos cem anos, haveria quase tanta gen­ te na América Latina em 2083 como há no mundo inteiro hoje. O atual índice de crescimento do México, de 2,6%, se perma­ necesse estável por 100 anos, produziria uma população total de mais de 900 milhões de habitantes. Felizmente, o crescimento no México está baixando (de mais ou menos 3,5% em 1968 para 2,6% em 1983). 32
  29. 29. Tabela 3 Crescimento Populacional em 25, 50 e 100 anos Indice de crescimento Relação entre a população projetada eaatual populacional (% - ano) 25 anos 50 anos 100 anos 0,5 1,13 1,28 1,65 1,0 1,28 1,65 2,70 1,5 1,45 2,11 4,43 2,0 1,64 2,69 7,24 2,5 1,85 3,44 11,81 3,0 2,09 4,38 19,22 3,5 2,36 5,58 31,19 Ao considerarmos a questão do crescimento populacional, é im­ portante relembrar que, embora as nações desenvolvidas do Ociden­ te tenham hoje índices mais baixos que as nações em desenvolvi­ mento (veja a Tabela 4), o número de crianças por família na Euro­ pa Ocidental e na América do Norte era muito maior na segunda metade do século passado que o normal de hoje, dois ou três filhos por família. As taxas de mortalidade infantil também eram mais al­ tas, não há dúvida. Contudo, o tamanho das famílias e o crescimen­ to populacional no Ocidente de então eram bastante parecidos com os de muitos países em desenvolvimento desde a II Guerra. Maior riqueza e_d£clínio_no crescimento populacional parecem caminhar juntos, ao menos a longo^prazo. LIMITES PARA O CRESCIMENTO? Junto com a crise alimentícia e a explosão demográfica, há um terceiro conjunto de fatores complexos_eJnterrelacionados que tor- nã~o"nòsso dilema ãinda~ mais~desesperador. Por quanto tempo ainda 33
  30. 30. 0_D0SS0_planeta_p0derá sustentar o atual nível de industrialização? Qual será o efeito da poluição?~Quando se esgotarão os nossos re- cúrsos_naturais- (especialmente_conTtíUstíveiS::derõrigémfóssil,como o carvão e o petróleo)? Em 1972 o Clube de Roma (um grupo inter­ nacional de elite, formado por executivos, tecnocratas e cientistas) chocou o mundo com respostas a perguntas como essas baseadas em análises feitas com uso de sofisticados computadores. Tabela 4 Crescimento populacional por ano em alguns países (meados de 1983) Taxa de Popul. em crescimento meados 1983 Reino Unido 0,1% 56,1 ‘ EUA 0,7% 234,2 URSS 0,8% 272 Alemanha Ocidental 0,2% 61,5 Japão 0,7% 119,2 Canadá 0,8% 24,9 Austrália 0,9% 15,3 China 1,5% 1023,3 Mundo 1,8% 4677 índia 2,1% 730 Filipinas 2,7% 52,8 Etiópia 2,5% 31,3 Moçambique 2,7% 13,1 Brasil 2,3% 131,1 Paquistão 2,8% 95,7 Nigéria 3,3% 84,2 México 2,6% 75,5 (• ) — milhões de hab. F onte: "Population Reference Bureau", 1 983 W orld Population Data Sheet. Em seu livro Limites do Crescimento, o Clube de Roma chegava à seguinte conclusão: Se as atuais tendências de crescimento da população mundial e 34
  31. 31. dos níveis de industrialização, poluição, produção de alimentos e diminuição de recursos naturais continuarem imutáveis, os limites de crescimento neste planeta serão alcançados algum dia dentro dos próximos cem anos. 0 resultado mais provável será um declínio sú­ bito e incontrolável tanto da população quanto da capacidade in­ dustriai10. Muitas objeções válidas têm sido levantadas contra o modelo computadorizado usado no estudo Limites do Crescimento, e tanto o Clube de Roma como as Nações Unidas publicaram, desde então, projeções menos pessimistas31. Contudo, os problemas por ele ex­ postos continuam bem presentes. Embora as taxas de crescimento na produção industrial e na po­ pulação tenham sido menores desde a crise do petróleo, o cresci­ mento na produção industrial do Ocidente e em alguns países menos desenvolvidos ainda pode representar no futuro um rombo insuportá­ vel nos recursos naturais da Terra. Muita gente concorda com o economista Robert Heilbroner: Decididamente a capacidade da Terra de suportar ou tolerar o processo de atividade industrial tem um limite absoluto, e temos ra­ zão para crer que estamos atualmente rios movendo muito depres­ sa em direção a este limite32. PERSPECTIVAS PARA O FUTURO A explosão demográfica e a necessidade possível de redução do processo de industrialização (ao menos nos países desenvolvidos) constituem as dificuldades implícitas numa tentativa de se repartir os recursos mundiais de maneira mais justa. Não causa surpresa a avalanche de preconizações de um juízo final. Quais são as nossas 3 0 Donetla H . Meadows et al.. Lim ites do Crescimento (S ío Paulo: Perspectivas. 1973), p. 20. (A tradução foi um pouco m odificada, para expressar m elhor a idéia original.) 31 Ervin Laszlo et al. (eds.). Goals for M ankind (Nova Iorque: D u tton, 1977); D . Ga­ bor et al. (eds.). Beyond the Age o f Waste (Elm sford, Nova lorque: Pergamon Press, 1978); Wassily Leontief et al.. The Future of the W orld Econom y: A United Nations Study (O x­ ford University Press, 1 977). Esse projeto com putadorizado, comandado pelo economista americano (ganhador do Prémio Nobel) Prof. Wassily Leontief, conclui que existem recur­ sos adequados para um crescimento económico continuado em todas as naçôès, para o fu tu ­ ro previsível. 3 2 Robert L . Heilbroner, An Inquiry into the Hum an Prospect (Nova lorque: Norton, 1974), pp. 47-48. 35
  32. 32. perspectivas para o futuro? Ninguém pode afirmar com segurança o que vai acontecer na pró- xima~~década. Grandes períodos de fome cm nações pobres podem levar seus líderes à tentação de desencadear guerras de redistribuição, nüm^êsTõrço desesperado de conseguir ou impor uma distribuição mais honesta dos recursos do Globo. Tal conjetura não é mera fan­ tasia. O mundialmente famoso economista Prof. Heilbroner preconi- zou o terrorismo nuclear e "guerras de redistribuição". Heilbroner imagina o mundo como "um imenso trem, no qual uns poucos pas­ sageiros (quase todos no avançado mundo capitalista) viajam em va­ gões de primeira classe, em condições de conforto simplesmente ini­ magináveis para a grande multidão espremida nos vagões de gado, que constituem o grosso da composição"33. Quando a situação che­ ga a ponto tal que milhões morrem e dezenas de milhões têm dian­ te de si o terrível destino da inanição, um país como a India vê-se obrigado a procurar uma saída. Restam poucas dúvidas de que, certamente nas próximas déca­ das e possivelmente bem mais cedo do que se espera, as maiores den­ tre as nações subdesenvolvidas terão em mãos algum potencial nu­ clear . . . Bem posso imaginar que isso poderia ser usado como meio de pressão para forçar as nações desenvolvidas a efetuarem uma transferência substancial de riquezas para o mundo castigado pela pobreza . . . "Guerras de redistribuição" poderão representar para os países pobres a única esperança de verem remediada a sua condição34. Menos de um ano depois da publicação do livro de Heilbroner a India explodiu a sua primeira bomba atômica. As conseqüências de tal confronto seriam um horrível derrama­ mento de sangue, de proporções nunca antes presenciadas na histó­ ria humana. Sem dúvida usaríamos o nosso enorme potencial mili­ tar para defender a nossa parte injusta das riquezas deste mundo. Dezenas de milhões morreriam. Tal desfecho parece demasiado horrível para ser imaginado. To­ davia uma visão realista exige que consideremos o fato de que, a me­ nos que os 25% de nações desenvolvidas promovam, sem demora, 3 3 lb id ., p. 39. 3 4 lb id „ pp. 4 2-43. 36
  33. 33. mudanças fundamentais, guerras de proporções e ferocidade nunca vistas continuarão perfeitamente dentro do quadro das possibilidades. Stanley Mooneyham, presidente da "Visão Mundial", notável entidade evangélica de assistência e desenvolvimento, nos ajuda a entender o porquê disso: / Eles [os países não-desenvolvidos sofreram durante muito tem- jpo com 'auxílios' que na realidade não o são, com política comer-1 'ciai discriminatória, com o roubo dos seus recursos naturais.35) Com isso concorda o senador americano Mark Hatfield, ao ad­ vertir: A maior ameaça para esta nação (os Estados Unidos) e para a estabilidade mundial é a fome. Ela é mais explosiva do que todo o armamento atômico das grandes potências. Pessoas desesperadas são levadas a tomar atitudes desesperadas; e não devemos esquecer que os meios de processamento da fissão nuclear já estão nas mãos in­ clusive dos países em desenvolvimento36. Em 1980, a Comissão Presidencial formada para analisar a fo­ me mundial, nos EUA (composta por Democratas e Republicanos, conservadores e liberais), repetia essa advertência: A força potencialmente mais explosiva no mundo de hoje é o desejo frustrado, nas gentes pobres, de chegar a um padrão de vida decente . . . A Comissão acredita que promover o desenvolvimento econômico em geral, e em particular vencer a fome, são tarefas mui­ to mais críticas para a segurança nacional americana do que a maio­ ria dos estrategistas reconhece ou mesmo acredita. Desde o advento das armas nucleares, a maioria dos americanos têm sido condiciona­ dos a equiparar segurança nacional com o potencial das forças m ili­ tares estratégicas. A Comissão considera essa idéia prevalecente co­ mo sendo uma ilusão simplista37. De acordo com a conclusão do Global 2000 Report to the Pre- sident (1980), a cooperação global no sentido de reduzir a fome e a 35M ooneyham , p. 50. 3 6 "W orld Hunger” , W orld Vision, X X (Fevereiro, 1 975), p. 5. 37CiTado em Stephen Coats, "H unger, Security and U.S. Foreign Policy'' (“ Bread for the W orld Background Paper" 53. M aio, 1981).
  34. 34. injustiça é o único caminho para a paz38. 0 Prof. Georg Borgstrom, especialista internacionalmente conhe­ cido em ciências da alimentação e nutrição, teme que "o mundo ri­ co está caminhando para um choque direto com os pobres do mun­ do . . . Nós não conseguiremos sobreviver atrás da nossa Linha Ma- ginot de mísseis e bombas"35. Mas provavelmente o tentaríamos. E as conseqüências inevitáveis seriam guerra e carnificina, repressão e totalitarismo. O que fariam os cristãos nestas circunstâncias? Ousaremos continuar insistindo em que o Deus revelado nas Es­ crituras está constantemente em ação procurando "pôr em liberda­ de os oprimidos" (Lucas 4:18)? Terão os cristãos coragem para lu­ tar pela justiça para os pobres, mesmo que isso signifique prisão? De que lado estaremos, você e eu? Com os que passam fome ou com os que comem demais? Com Lázaro, o mendigo, ou com o ri­ co? A maioria das nações ricas são brancas e nominalmente cristãs. Que irônica tragédia, a minoria branca, rica, "cristã" continuar acu- imulando bens enquanto milhoès de pessóaVão redor do mundo vãô morrendo de fome! ' Uma” revista evangélica bastante popular, de tendência funda- metalista (com uma circulação de mais de sessenta mil exemplares), conclamou os cristãos a armazenarem alimentos desidratados. Numa engenhosa combinação de piedade apocal íptica com refinada promo­ ção de vendas, a revista citava várias "autoridades" em estudos bíbli­ cos para provar que alguns cristãos sobreviverão à grande tribulação. A conclusão? Uma vez que ninguém pode estar absolutamente segu­ ro sobre onde estarão durante esta tribulação, o negócio é ir com­ prando um estoque de alimentos suficientes para sete anos, pela ba­ gatela de alguns mil dólares40! Em tempos de fome como os nossos, muitos cristãos (independen­ temente de rótulos teológicos) são fortemente tentados a sucumbir diante dessa heresia liberal de basear-se mais em valores culturais e sociais da moda do que na verdade bíblica41. A sociedade terá argu­ mentos diabojjr.amentR convincentes para que fiquemos usufruindo da nossa opulência sem nós lembrarmos_do_bilhão de?prõxTmos fa- mmtõs^ 38G lobal 2 000 Report to the President (U.S. Governm ent: W ashington, 1 9 8 0 ), p. IV da introdução. 39 Philadelphia Inquirer, 13 de O utubro, 1974, p. 9B. Suplem ento de Radar News, Janeiro, 1975, pp. 3-4. *C f. Ronald J. Sider, "W here Have A li the Liberais Gone?, The O ther Side, Maio- Junho, 1976, pp. 4 2-44.
  35. 35. Se. no entanto, o Cristo da Escritura é nosso Senhor, nos recusa­ remos a ser moldados pelo nosso abastado e pecaminoso meio cul­ tural. bm tempos de fome, os cristãos têm que ser marcados obri­ gatoriamente pelo não-conformismo. Mas é doloroso ser não-confor- mista. Só quando estivermos firmemente fundamentados na visao bíblica de posses, de riqueza e de pobreza seremos capazes de viver um estilo-de-vida obediente ao nosso Senhor.
  36. 36. CAPITULO 2 A MINORIA RICA Eu costumava pensar, quando criança, que Cristo devia estar exage­ rando quando advertia sobre os perigos da riqueza. Hoje já entendo melhor as coisas. Sei como é difícil ser rico e continuar a ser simples e humano. O dinheiro tem um jeito muito perigoso de colocar tra­ ves no olho da gente, de congelar as mãos, os olhos, os lábios e os corações1. (Dom Helder Câmara) A divisão de hoje. Com uma ou duas exceções, os países ricos se situam no Hemisfé­ rio Norte e os pobres no Sul. A América do Norte, Europa, Rússia e Japão representam uma opulenta aristocracia nortista. Nosso pa­ drão de vida, quando comparado com o de um bilhão de pobres no mundo, é pelo menos tão luxuoso como o da aristocracia medie­ val em comparação com o dos seus servos. ; torna maior a cada ano ue passa. Entre 1960 e 1980, o abismo entre os 1/5 mais ricos e òs 175 mais'pobres no mundo aumentou em mais de duas vezes2. .qy 17! d e v o lu tio n Through Peace (Nova lorque: Harper & R ow , 1 971). p. 142. 2 Ruth Leger Sivard, World M ilitary and Social Expenditures 1 982 (Leesburg, V A : W orld Priorities, 1 9 8 2 ), p. 19. 40
  37. 37. UM ABISMO CADA VEZ MAIOR O Produto Nacional Bruto (PNB) oferece uma medida viável de comparação. Ele representa a soma de todos os bens e serviços pro­ duzidos por uma nação em um ano (menos os lucros e o pagamen­ to de juros que deixam o país e vão parar nas mãos dos donos de capital no exterior, e mais os pagamentos similares feitos aos em­ presários do país que possuem capital em outros países.) Dividindo- se o PNB total pelo número de habitantes, chegamos a um PNB "per capita", o qual, então, pode ser comparado com o de outros países3. Tabela 5 PNB per capita em 1981 (em US dólares) Suécia 14.500 Estados Unidos 12.530 Japão 9.890 Brasil 2.214 Nigéria 873 Quênia 432 índia 253 Bangladesh 144 Fonte: Adaptado de: John P. Lewis e Valeriano (eds.), US Foreign Policy and the Third W orld: Agenda 1983 (Praeger, 1 9 8 3 ), pp. 210-218. 3Existem , contudo, alguns problemas sérios no uso do PNB como padrão de compara­ ção: a. O PNB e o PNB per capita nada dizem sobre a distribuição da renda. Um país com determ inado PNB per capita bem distribuído pode estar em condições m uito melhores do que outro, de PNB per capita bem mais elevado, no qual uma pequena parte da população controla uma parte desproporcionalm ente elevada do PNB. b. G eralm ente as economias menos desenvolvidas dispõem de grandes áreas rurais, e ali pode haver um bom comércio de bens e serviços sem o uso do dinheiro. Embora as cifras do Banco Mundial tentem levar em conta tais contingências, há sem dúvida uma am­ pla margem de erro em suas estatísticas. c. Um a vez que o fator que realm ente nos interessa é saber o que cada pessoa conse­ gue com prar com a sua renda, comparações internacionais se tornam bastante difíceis. Os preços de bens e serviços similares podem ter grandes variações nos diferentes países. Um corte de cabelo, por exem plo, pode custar caro nos E U A , mas não custa m uito no Quénia. d. Os números do PN B podem não expressar tudo aquilo que se relaciona estritamen­ te com padrões de bem-estar. Se, por exem plo, o governo do Irã decide produzir um grande estoque de equipamentos m ilitares, o PNB poderá aum entar significativamente; mas não se vai poder dizer que com isso o povo do Irã de fato m elhorou de vida. 41
  38. 38. A tabela 5 mostra que os bens do mundo encontram-se reparti­ dos de uma forma assustadoramente desigual. O PNB per capita nos EUA em 1981, por exemplo, foi de 12.530 dólares; na índia foi de apenas 235 dólares. Virtualmente todos os especialistas concordam com que o abis­ mo se alargará ainda mais até o ano 2000. O Global 2000 Report to the President (1980) preconiza o seguinte: As atuais disparidades na renda entre as nações mais ricas e as mais pobres, ao que tudo indica, aumentarão. Partindo do pressu­ posto de que as tendências atuais continuarão, o grupo dos países industrializados terá um PNB per capita de aproximadamente 8.500 dólares (na cotação de 1975) no ano 2000. E a América do Norte, a Europa Ocidental, a Austrália, a Nova Zelância e o Japão terão uma média de mais de 11.000 dólares. Em contrapartida, o PNB per ca­ pita nos países menos desenvolvidos se situará numa média inferior a 600 dólares. Para cada dólar de aumento no PNB per capita destes últimos, prevê-se um aumento de 20 dólares para os países industria- lizados4. Reconhecendo o fato de que as comparações dos PNB per capi­ ta são passíveis de uma série de restrições, alguns especialistas em questões de desenvolvimento tentaram aperfeiçoar esses cálculos. Uma conclusão freqüentemente citada é a de que "as diferenças na renda per capita entre os países pobres e os ricos oscilavam em tor­ no de 1:2 no início do século XIX; hoje . . . correspondem aproxi­ madamente a 1:20"s . Em 1975, o Prof. Irving Kravis, especialista em estudos compa­ rativos de renda da Universidade de Pennsylvania, publicou volu­ mosa obra, na qual faz uma detalhada comparação da renda total com o poder aquisitivo real, em diferentes países. Sua conclusão é de que a renda real por pessoa nos EUA é 14 vezes maior que na fndia e 17 vezes maior que no Quênia6. Assim, conforme os cálculos meti­ culosos, o americano médio é 14 vezes mais rico que o indiano. Uma comparação do consumo de energia torna ainda mais evi- 4 Global 2 0 0 0 , p. 13. James W . H o w «, et al.. The US and W orld Developm ent: Agenda fo r A ctio n , 1975 (Nova Iorque: Praeger, 1975), p. 166. Newsweek, 18 Agosto, 1 9 7 5 , p. 66; Irving B. Kravis, et al., A System o f International Comparisons o f Gross Product and Purchasing Power (B altim ore: John Hopkins University Press, 1 9 7 5 ), especialmente pp. 8-9. 42
  39. 39. dente a opulência em que v.ivemos. Por causa de uma lista cada vez maior de "luxos" — grande número de aparelhos e utensílios elé­ tricos, automóveis com ar condicionado, arranha-céus e por aí a fo­ ra —os norte-americanos consomem duas vezes mais energia por pes­ soa que os seus parceiros em países industrializados como a França e a Inglaterra, e 150 vezes mais que a média das pessoas no Zaire7. Existem várias formas de tornar evidente a incrível opulência do Ocidente em relação aos países menos desenvolvidos. Mas, sem dúvida, a conclusão mais frapante do medir as dimensões do abismo entre nações ricas e pobres fornece a comparação do consumo nas necessidades mais elementares —alimentação. Como mostra a Tabe­ la 6, os cidadãos norte-americanos consomem quatro vezes mais ce­ reais por pessoa do que a média da população nos países em desen­ volvimento. Tabela 6 Consumo médio anual de cereais per capita (direto e indireto), 1969-71 e 1973-75 (em quilos) média média 1969-71 1973-75 Estados Unidos 825 748 União Soviética 663 796 Comunidade Européia 432 443 Japão 268 274 China 220 222 Países menos desenvolvidos 188 182 (excluindo a China) Fonte: Adaptado de Global 2 000 Report to th e President (1 9 8 0 ), pp. 20-21. A maior razão para essa berrante diferença é que os norte-ame­ ricanos consomem a maior parte dos grãos por via indireta —por in­ termédio do gado e de aves alimentadas com rações à base de cereais. Mas por que isso é tão importante? Pelo simples fato de que são precisos muitos quilos de cereais para produzir um quilo de bife. Em 7Veja o C apítulo 6 , p. 1 36. 43
  40. 40. julho de 1983 conversei com George Allen, economista-agrônomo do Serviço de Pesquisas Econômicas do Departamento da Agricultu­ ra dos EUA8. Allen nos disse que um novilho consome na engorda, para cada quilo de carne que produzirá, treze quilos de cereais! O New York Times de 28 de novembro de 1974 reportava que na dé­ cada de 40 somente um terço do gado destinado para abate era ali­ mentado à base de grãos. Em 1970 o índice era de 82%. Allen disse ainda que, se for considerado o tempo de vida total do animal, cada quilo de carne representa sete quilos de cereais consumidos. Isso sig­ nifica que (fora o pasto, feno e outras forragens) são necessários se­ te quilos de grãos para produzir um quilo de carne de gado que com­ pramos hoje. Felizmente os índices de conversão para aves e porcos são menores. A carne de gado-é-o—cadilaaue" dos produtos alimen­ tícios9. Será.que já não_é hora de começarmõTTadenrjips carros econômicos? É por causa deste elevado índice de consumo de carne que a mi­ noria rica do mundo devora uma parte tão significativa do alimento disponível. A Tabela 7 mostra que, em 1982, 775 milhões de pessoas nas nações desenvolvidas consumiram quase tanto cereal (428 mi­ lhões de toneladas) como os 2.248 milhões de habitantes das nações menos desenvolvidas (475 milhões de toneladas). Enquanto come­ mos grande parte do cereal indiretamente, via carnc, o povo dos paí­ ses pobres se alimenta diretamente com cereal. Dados da ONU revela­ ram que os rebanhos nas nações ricas comeram tantos grãos em 1974 quanto as populações somadas da fndia e da China10. Veja Tabela 7 na página 45. A Tabela 7 mostra que as nações menos desenvolvidas emprega­ ram só 16% do seu cereal na alimentação dos rebanhos. Nas nações desenvolvidas, essa porcentagem subiu a 65%. É por isso que elas consomem tanto cereal a mais que as nações pobres. A ironia final é que o nosso elevado consumo de_carne.é preiudi- cial à nossa-saúde! Segundo um nutricionista de Harvard, Dr. Jean Mayer, uma dieta rica em gordura contribui para o surgimento de 8 Conversa pessoal por telefone, com Ronald J .S id e r, 21 de julho de 1983. 9 Ao mesmo tem po devemos lem brar de que ruminantes ígado, ovelhas), diferentes de porcos, podem converter capim, palha e forragens em proteína. Terras que não servem para plantação deveriam continuar sendo usadas para a criação de gado. 10"Facts on F o od", suplemento de Developm ent Forum , Novem bro, 1974. 44
  41. 41. Tabela 7 Consumo de cereais 1982-83, nas Principais Formas de Consumo (em milhões de toneladas métricas) População total (milhões) Consumo total de cereais Ração para os rebanhos % d o total destinado a rebanhos Outras for­ mas de consumo — primaria­ mente na alimentação Mundo 4.436 1.485 537 36% 948 Economias c/ Planejamento Central 1.413 582 183 31% 399 Nações Menos Desenvolvidas 2.248 475 75 16% 400 Nações Desenvolvidas 775 428 279 65% 149 Fonte: Departam ento de Agricultura dos E U A , Serviço de Pesquisas Econômicas11. doenças cardíacas12. O Instituto Nacional do Câncer já alertou que dietas com elevado índice de carne podem contribuir para o câncer de colo (o segundo mais comum na América do Norte)13. O Dr. Mark Hegsted, da Escola de Saúde Pública de Harvard, diz que "o consumo de carne neste país é absurdamente elevado em relação à real necessidade, e não pode ser justificado em bases nutricionais"14. 11 M aterial conseguido com Brad Karm en, analista de cereais do Serviço de Pesquisas Econômicas do Departam ento de Agricultura dos E U A (U S D A ), em contato telefônico, no dia 21 de julho de 1983. 12Jean Mayer, "H eart Disease: Plans fo r A ctio n ", U.S. N u tritio n Policies in the Se­ venties (San Francisco: W . H . Freeman & C o., 1 9 7 3 ), p. 44. 13"H o w M uch is Enough?'', Consumer Reports, 38, n? 9 (1 9 7 4 ), p. 668. l4 Citado em M ooneyham , H ungry W orld, p. 184. Excelentes sugestões para alimenta- • ção mais salutar: ver Doris Langacre, M ore W ith Less Cookbook (Scottdale, Pa.: Herald Press, 1 976), e F . M . Lappe. D iet fo r a Small Planet, ed. rev. (Nova Iorque: Ballantine, 1975). 45
  42. 42. Felizmente as tendências nos EUA têm se inclinado para a direção certa nos anos mais recentes. De 1940 a 1972 o consumo anual de carne de gado por pessoa saltou de 25 para 53 quilos. Em 1973, en­ tretanto, caiu para 50 quilos e em 1982 estava por volta de 36 qui­ los15. Enquanto a falta de comida mata milhões nos países pobres, o excessoae comida^fai o mesmo nos países ricosTSegun3cTã pesquisa mais recente do Uentro Nacional ae Estatísticas sobre a Saúde, dos EUA, terminada em 1980, 32% dos homens e 36% das mulheres americanas entre os 20 e os 74 anos têm excesso de peso16. A porcentagem da renda gasta em alimentação nos diferentes países fornece outros contrastes: Nos Estados Unidos, são meros 12,7%; na índia, 55,5% e na Nigéria, 63,6%. Veja Tabela 8 na página 47. A agonia e a angústia não aparecem nas simples estatísticas da Tabela 8. Se alguém está gastando 13% da sua renda disponível em alimentação, um aumento de 50% nos preços dos alimentos causará uma pequena irritação. Mas quando já se está gastando 64% da renda em alimentação, um aumento de 50% significa fome. A Tabela 9, sobre as calorias disponíveis, conta a mesma histó­ ria. Enquanto que a população na América do Norte e na Europa Ocidental ingere mais calorias do que necessita, em muitos países po­ bres a população dispõe de menos que o mínimo necessário por dia. Veja Tabela 9 na página 48. Não há como negar os fatos. Norte-americanos, europeus, russos e japoneses devoram uma fatia tremendamente desproporcional do total de alimentos disponíveis no mundo. Meça-se em termos de PNB ou de consumo de energia ou de alimentos, somos muitas, muitas Para as cifras mais antigas, ver Brown, In the Hum an Interast, p. 44. Os dados de 1 98 2 vêm do George A llen, economista-agrônomo do U S D A , através de contato telefônico no dia 21 de julho de 1983. 16Dados nâo-publicados da pesquisa nacional sobre saúde e nutrição. "N ational Health and N u tritio n Exam ination Survey" (19 7 6 -8 0 ), realizada pelo C entro Nacional de Estatísti­ cas sobre Saúde. 32% dos homens e 36% das mulheres americanas têm 10% de peso em excesso, em m édia. 16% de todos os homens e 24% de todas as mulheres têm 20% de excesso. Núm eros obtidos através de contato pessoal por telefone, no dia 9 de agosto de 1983, com Sidney Abraham , chefe do Setor de Estatísticas sobre Nutrição do Centro Nacional de Esta­ tísticas sobre Saúde. V e r, além disso, "Overweight A dults in the U nited States” , Advanced D ata, N r 51, 30 Agosto, 1979. 46
  43. 43. Tabela 8 Porcentagem de gastoscom alimentação por pessoa, no consumo doméstico (1979) Pais % gastos em alimentação Renda disponível (US dólares) Estados Unidos 12,7 9.595 Canadá 14,5 8.323 Reino Unido 17,3 6.297 Alemanha Ocidental 19,5 10.837 Japão 21,5 7.414 Venezuela 31,8 3.332 URSS 33,7 4.040 Honduras 44,1 340 Panamá 48,6 1.119 Ghana 53,6 873 índia 55,6 195 Filipinas 56,9 343 Tanzânia 57,9 159 Nigéria 63,6 80 Fonte: United Nations Yearhook of N ational Accounts Statistics, 1980, Volum es 1, 2 , 3; suplementado por O EC D N ational Accounts. ívezes mais privilegiados 0o que -a maioria de nossos irmãos e irmas, que são pobres. E o hiato se plarga a cada ano que passa. V "POBREZA" COM 30.000 DÓLARES POR ANO? Estávamos em fins de 1974. Milhões de pessoas estavam literal­ mente morrendo de fome. Mas não era essa a preocupação de Judd Arnett, colunista associada do "Knight Newspapers". Em um arti­ go lido (e provavelmente crido) por milhões de norte-americanos, Arnett lamentava o fato de haver pessoas nos EUA ganhando 15.000 dólares por ano, o que significava, para ela, estar quase no limite da 47 r
  44. 44. Tabela 9 Suprimento de calorias per capita, 1978-80 Calorias Calorias, cf. % disponíveis mínima estipulada EUA 3624 138 URSS 3460 135 França 3390 134 Canadá 3358 126 Japão 2916 125 China 2472 105 Paquistão 2300 100 Guatemala 2064 94 Brasil 2121 89 Zâmbia 1992 86 Bangladesh 1877 85 Haiti 1882 83 Afeganistão 1833 79 Chade 1808 76 Fonte: Estatísticas da F A O citadas em : Ruth Leger Sivard, W orld M ilrtary and Social Expenditures, 1982, pp. 3 1-35. As taxas estipuladas de calorias representam esti­ mativas da F A O (Janeiro, 1 9 8 0 ), indicando o consumo necessário para um a ativi­ dade moderada, levando-se em conta diferenças de idade, sexo, clim a, etc. pobreza. (Lembre-se que 15.000 dólares em 1974 equivalem a 30.345 em 1983.)17 "Um dos grandes mistérios da vida para mim", dizia ela, "é como uma família com um salário na faixa dos 15.000 ou mesmo 18.000 dólares de renda bruta pode arcar com todas as suas despesas e ainda proporcionar estudo para os seus filhos"18. Poucos anos depois a revista Newsweek trouxe uma história sobre "0 Pobre de Classe Média" mencionando tranqüilamente o fato de que cidadãos americanos ganhando na faixa dos 25, 30 ou mesmo 40 mil Segundo o US C ity Average Consumer Price Index for all Consumers, A ll hem s", da Secretaria do Trabalho dos E U A , o índice de preços ao consumidor (sendo 100 em 1967) era de 146,9 em junho de 1974 e de 298,1 em junho de 1983. Assim a taxa de in fla­ ção entre 1 9 7 4 e 1983 foi de 102,9% . 18"M iddle Class? N o t on $ 1 5 ,0 0 0 a Y ear", Philadelphia Inquirer, 28 O utubro, 1974, p. 9-A . 48
  45. 45. dólares anuais (pela cotação de 1983) se sentiam como estando à bei­ ra da pobreza19. Para a grande maioria da população mundial, tal afirmação pare­ ce incompreensível —ou muito desonesta. Bem, certamente precisa­ remos de 30, 40 mil ou mais por ano, se insistirmos em ter dois carros, uma casa grande e luxuosa em zona residencial, um seguro de vida de 100.000 dólares, roupas novas a cada mudança de moda, as últimas novidades em aparelhos práticos para a casa e o jardim ("pa­ ra poupar tempo"), três semanas de férias por ano para viajar, etc. e etc. Muitos norte-americanos são levados a ambicionar exatamente isso. Mas isso está longe do que se poderia chamar de "limite de po­ breza". Avaliados a partir de qualquer critério objetivo, os 5% da popula­ ção mundial que vivem nos EUA formam uma aristocracia incrivel­ mente rica vivendo no meio de massas de proletariado. Por isso, uma das coisas mais espantosas, no que diz respeito a essa rica minoria, é estarmos sinceramente convencidos de que mal temos o suficiente pa­ ra sobreviver dentro de um modesto conforto. A GRANDE MENTIRA Um sistema de propaganda constante e sedutora ajuda a criar es­ sa ilusão. Os anunciantes sempre de novo estão aí para nos persuadir de que realmente necessitamos de um luxo após outro. Acabamos convencidos de que precisamos ter o mesmo padrão, ou se possível melhor, que os nossos vizinhos. Por isso compramos outra malha, outro vestido, outro carro-esporte, forçando assim o padrão de vida para cima. Poderíamos_dizerque.-Q. p_adrao de vi_da_cada vez-mais opu-. lento é o deus do Ocidente neste_século-XX_e_os publicitários,.os seus profetas. O objetivo da propaganda já não é mais o de informar, é criar de­ sejo. "CRIAR MAIS DESEJO" é o título, em manchete, de um espa­ ço comercial no "New York Times", de surpreendente honestidade. E continua: "Hoje, como sempre, o lucro e o crescimento são direta­ mente derivados da habilidade do vendedor de saber criar mais dese­ jo "20. Casas luxuosas, como as mostradas na revista "Casa e Jardim", 19Newsweek, 21 Setem bro, 1977, pp. 30*31. As cifras usadas no artigo, pelo dólar na cotação de 1977, foram U S $ 15.000, U S $ 1 8 .000 e U S $ 2 5 .0 0 0 , que, convertidos aos equi- valentes em 1983. dão os números do texto , uma vez que o aum ento no IPC fo i de 64% ^ N e w Y o rk Times, 12 Julho, 1949. C itado em Jules Henry, Cufture Against Man (N o­ va Iorque: Random House, 1 9 6 3 ), p. 19. 49
  46. 46. nos levam a ver as nossas (perfeitamente adequadas) casas, por com­ paração, como se fossem barracos pequenos e em ruínas, a necessitar urgentemente de uma reforma completa. A exposição dos novos mo­ delos para outono e inverno fazem os nossos trajes e blusas dos anos anteriores parecerem gastos e decididamente ultrapassados. Em cada esquina, somos bombardeados por uma propaganda so­ fisticada e manipuladora. Um adolescente norte-americano médio já assistiu a 350.000 comerciais de TV antes de terminar o segundo grau!21 Os americanos gastam mais dinheiro em publicidade do que em todas as instituições de ensino superior. Em 1981, 61,3 bilhões de dólares foram gastos em propaganda, "para nos convencer de que Je­ sus estava errado no que ensinou sobre a abundância de bens ma­ teriais"22. Luxos são transformados em necessidades urgentes pelo poder da propaganda."Nosso carteiro recentèmentelnosTrouxe um bem-acaba- d^fõnTetlrn, ilustrado com bonitas fotos de casas muito finas. Um anúncio trazia a sedutora mentira de que a revista "Architéctural Di- gest" nos ajudaria, enfim, a satisfazer a "ardente necessidade huma­ na de beleza e luxo". Supostamente, "necessitamos" de luxo! g Algumas vezes chega a ser cômico o exagero da propaganda. Uma livraria evangélica, que costuma oferecer bons descontos em suas ven­ das, criou recentemente essajóia promocional, com um toque de pie­ dade: "Você vai ficar com água na boca e com a alma em chamas quando puser os olhos nas barganhas que providencialmente prepara­ mos para o seu benefício durante este mês". (E eu prontamente fiz uma encomenda de livros no valor de 24 dólares! A minha bibliote­ ca é um dos meus quase-ídolos.) PROMESSAS, PROMESSAS Talvez o aspecto mais devastador e demoníaco da propaganda.é Q-t fátõ~~de~eía tentar persuadir-nos-de-que bensjrateriais trazem ale­ gria e reãTizacão. "Que a felicidade pode ser obtiãa pelo enrique­ cimento material sem limites é algo negado por todas as religiões e filosofias conhecidas; contudo, isto mesmo é pregado sem cessar. Robert N . Bellah, The Broken Covenant (Nova lorque: Seabury Press, 1 975), p. 133. V er tam b6m W ilbur Schram m , Jack Lyle & Edw in B. Parker. Television in the Lives o f O ur Children (Stanford: Stanford University Press, 1961). Richard K . T a y lo r, "T h e Im perative o f Econom ic De-D evelopm ent". The O ther Side, Julho-Agosto, 1974, p. 1 7 , Para os dados sobre propaganda e educacSo, ver U.S. Bureau of the Census, Statistical Abstract, 1 982-83, p. 566.
  47. 47. em cada comercial de TV que assistimos"13. Os publicitários prome­ tem que os seus produtos satisfarão as nossas mais profundas necessi­ dades, anseios poramor, aceitação, segurança e realização sexual. 0 uso do desodorante certo, prometem, trará aceitação e amizade. 0 último lançamento em creme dental ou xampu tornarão você irre­ sistível. Uma casa ou uma boa caderneta de poupança lhe garantirão segurança e amor. Exemplos neste sentido encontramos em toda parte. Um banco de Washington, D.C., anunciou recentemente novas cadernetas de poupança com a seguinte pergunta: "Quem o amará quando você es­ tiver velho e grisalho?" E acrescenta uma proposta muito sedutora: "Ponha de lado um pouco de amor. Todo mundo precisa de um dó­ lar para uma eventual necessidade. Poupe um pouco de amor." Es­ tas palavras não são bíblicas, são heréticas, demoníacas. Ensinam a grande mentira da nossa sociedade secular e materialista. Porém, as palavras e o fundo musical são tão atraentes que depois ficam dan­ çando pela cabeça da gente para lá e para cá, centenas de vezes. Se ninguém prestasse atenção a essas mentiras elas seriam inó­ cuas. Mas isto é impossível. A propaganda exerce um impacto pode­ roso em todos nós. Ela molda os valores dos nossos filhos. Muita gen­ te em nossa sociedade crê firmemente que possuir mais significa mais aceitação e mais felicidade. 0 criador de jóias Barry Kieselstein, de Nova Iorque, expressou com as seguintes palavras a tendência das pessoas buscarem sentido e amizade em coisas: "Uma peça preciosa de joalheria, com a qual você se relaciona, é como ter um amigo sem­ pre presente"24. t Em certo sentido, prestamos demasiado pouca atenção à eficiên­ cia das propagandas. Em geral estamos convencidos de poder igno­ rá-las simplesmente. Mas o fato é que elas se infiltram em nosso sub- consciente. Nós as assimilamos em vez de analisá-las. Deveríamos mesmo é nos flagrar das espalhafatosas mentiras e dai» gargalhadas em cima das suas promessas absurdas. John V. Taylor sugeriu que as famílias cristãs adotassem o "slogan": "Quem você pensa que está tapeando?" e gritá-lo em coro toda vez que aparece um comercial no vídeo” . ' 0 teólogo Patrick Kerans declarou recentemente que a obses­ são da nossa sociedade pelo crescimento econômico e por um ideal 33Bellah. Broken Covenant, p. 134. - 4 Newsweek, 28 de O utubro. 1974, p, 69. 2 *John V . Taylor. Enough is Enough (Londres:SC M Press, 1975), p. 71. 51
  48. 48. do padrão de vida sempre mais elevado, promovido por uma cons­ tante propaganda, é na realidade uma conseqüência final do llumi- nismo. Por volta do século XVIII, a sociedade ocidental concluiu que o método científico é que deveria determinar nosso relacionamento com a realidade. Uma vez que somente critérios quantitativos de va­ lor e de verdade eram aceitáveis, valores menos concretos como co­ munhão, confiança e amizade passaram a um plano mais secundário. O PNB pode ser mensurado, o mesmo não acontecendo com valores como amizade e justiça. Em conseqüência desses princípios, chega­ mos à nossa competitiva economia de crescimento, onde o lucro e o sucesso econômico (considerados na prática quase a mesma coisa) se tornam os critérios dominantes26. Se Kerans tem razão, o resultado disso só pode ser a desintegra­ ção social. Se as nossas estruturas sociais básicas estão construídas so­ bre as pressuposições heréticas do lluminismo, de que o método cien­ tífico é o único caminho para chegar à verdade e aos verdadeiros va­ lores, então —se o cristianismo tem razão — parece inevitável o co­ lapso da nossa sociedade. A propaganda contém em si mesma uma contradição fundamen­ tal21. Os cristãos sabem que riqueza não traz felicidade, amor e acei­ tação. A propaganda, porém, promete tudo isso àqueles que cobiçam ter sempre mais posses e contas bancárias mais polpudas. Dada a nos­ sa inclinação natural para a idolatria, a propaganda é tão diabolica­ mente poderosa e persuasiva que consegue levar tanta gente a per­ sistir em seus esforços infrutíferos por satisfazerem a sua sede de sentido e realização com uma crescente enxurrada de dinheiro e pos­ ses. A conseqüência é: internamente, uma angustiante infelicidade e insatisfação indefinida; externamente, injustiça social e estrutural. A nossa riqueza não consegue satisfazer os nossos corações inquie­ tos. E além disso ainda ajuda a privar um bilhão de próximos famin­ tos dos alimentos e recursos tão necessários para a sua vida. Teremos nós, cristãos ricos, a coragem e a sinceridade para aprender a não nos deixarmos determinar pela propaganda sedutora e satânica deste mundo? 2 6 Patrick Kerans, Sinful Social Structures (Nova Iorque:Paulist Press, 1 9 7 4 ), pp. 8 0-81. 2 'V e r os valiosos comentários a esse respeito em A rt Gish, Beyond the Rat Rac (Scottdale, Pa.: Herald Press, 1 973). pp. 122-26. 52
  49. 49. PRETEXTOS PARA A NOSSA RIQUEZA Seria impossível para a minoria rica viver consigo mesma se não tivesse desculpas ou justificativas plausíveis. Essas tentativas de jus­ tificar sua riqueza se apresentam de diversas formas. Analisar algumas das mais comuns poderá ser proveitoso, no sentido de nos ajudar a reconhecer as novas formas apresentadas a cada ano. Nos últimos anos, conceitos como "triagem" (seleção)28 e "éti­ ca salva-vidas" ("life-boat ethics") têm se tornado cada vez mais populares. O Dr. Garrett Hardin, distinguido biólogo da Universida­ de da Califórnia, em Santa Bárbara, provocou amplos e apaixonados debates a partir da publicação dos seus artigos provocativos sobre a "ética salva-vidas"29. Seu argumento é de que não devemos enviar auxílios ou alimentos às nações pobres. Cada país rico é como um barco salva-vidas, que poderá sobreviver somente se se recusara des­ perdiçar os seus recursos já limitados com as massas famintas que es­ tão nadando ao seu redor. Se comermos juntos hoje, todos juntos morreremos de fome amanhã. Ademais, se os países pobres, "irres­ ponsavelmente", permitem um crescimento populacional irrestrito, a morte pela fome é a única maneira de se estabelecer um controle sobre o sempre crescente número de bocas famintas. Assim, um au­ mento na ajuda a estes países significa apenas adiar um pouco o dia do colapso final. Quando este chegar, ficará claro que os auxílios que demos tiveram tão somente a função de preservar mais pessoas para, no final, morrerem de fome. Portanto, é eticamente correto ajudá-los a aprenderem por si mesmos —deixando-os morrer de fome já agora! Contudo há falhas fundamentais na argumentação de Hardin. Ele ignora dados recentes que mostram que os países pobres podem (e de fato alguns já o conseguiram) travar o crescimento populacional de modo bastante rápido se, ao invés de investir em tecnologia avan­ çada e desenvolvimento industrial, concentrarem seus esforços em melhorar a situação das massas pobres. Se estas tiverem alimenta­ ção assegurada, tiverem acesso a serviços de saúde básicos (que sejam relativamente baratos), bem como oportunidades, ainda que modes- Alude-se ao princípio de colocar determinadas utilidades escassas (como cuidados médicos ou com ida) somente à disposição daqueles a quem ajudariam para sobreviver, e n5o daqueles que não tém chance de sobrevivência ou que sobreviveriam mesmo sem as­ sistência. 29G arrett H ardin, "L ifeb o at Ethics: The Case Against Helping the Poor", Psychology Today, 8 , N ? 4 (Setem bro, 1 974), pp. 38ss. V er tam bém W illiam & Paul Paddock, Famino 1975! (Boston: L ittle , Brown & C o., 1 9 6 7 ). Reimpresso em 1976 sob o títu lo de Tim e of Famines: Am erica and the World Food Crisis. 53
  50. 50. tas, no setor educacional, o crescimento populacional tende a decair rapidamente. Lester Brown nos oferece um resumo de recentes des­ cobertas nesse campo: Há evidências surpreendentes de que em um crescente número de nações pobres . . . os índices de natalidade têm baixado conside­ ravelmente a despeito de uma renda "per capita" relativamente bai­ xa . . . Uma análise de sociedades tão diferentes umas das outras como China, Barbados, Sri Lanka, Uruguai, Formosa, Punjab, Cuba e Coréia do Sul sugere um fator comum. Em todos estes países, uma grande parte da população teve acesso a modernos serviços sociais e econômicos —tais como educação, emprego e sistemas de crédito . .. Torna-se cada vez mais evidente que exatamente as estratégias que mais contribuem para o bem-estar geral da população são também as mais eficazes na redução do crescimento populacional30. 0 tipo certo de ajuda — dirigida especialmente para a promo­ ção de um desenvolvimento agrícola baseado na mão-de-obra hu­ mana, com uso de tecnologia intermediária31 — contribuirá para o controle do crescimento populacional. A tese chocante de Hardin sugere que nada façamos, numa época em que o tipo certo de ação provavelmente ainda evitará o desastre. Outra falha na tese de Hardin é ainda mais espantosa. Ele ignora completamente o fato de que a concentração cada vez maior de ri­ quezas nas mãos da minoria rica é uma das causas fundamentais da crise atual. Está simplesmente errado dizer que não há comida sufi­ ciente para todos. Há o suficiente —se fosse melhor distribuído. Em 1970, as Nações Unidas estimavam que seriam necessários apenas 12 milhões de toneladas de cereal a mais por ano para prover 260 calo­ rias extras por dia aos 460 milhões de pessoas subnutridas. Isso repre­ senta nada mais do que 30% do cereal com que alimentamos os reba­ nhos nos Estados Unidos32. Num mundo em que o gado da minoria O desenvolvimento baseado na mão-de-obra intensiva emprega pessoas em vez de máquinas (p. ex.: barragens podem ser construídas por 5 000 pessoas carregando terra e pedras tão bem como pelo emprego de duas terraplenadoras e trés escavadeiras). Advoga­ dos do uso de tecnologia interm ediária instam com as nações em desenvolvimento para que, para dar um exem plo, passem da enxada para o arado de bois, e não da enxada para o trato r de grande porte. V er E. F. Schumacher, O Negócio é Ser Pequeno Ed. inglesa: (N o ­ va Iorque: Harper Torchbooks, 1 973), pp. 161-179. A edição brasileira é de Zahar Editores, caixa postal 2 0 7 , 2 0 0 0 0 R io de Janeiro, RJ, 2? edição, 1979. 3 2 H ow e. Agenda for A ctio n , 1975, pp. 6 0-62. 54
  51. 51. rica consome mais cereal do que um quarto de toda a população mundial, é absurdo e imoral falar em necessidade de deixar gente morrer de fome em determinados países. O barco em que naveqam psricos não é um bote salva-vidas. precariamente eqüTpãgõ. £ um lu­ xuoso transatlântico carregando uma sociedade esbanjadora. ~~ A proposta de Hardin é também não-realista. Nações famintas deixadas ao léu para morrerem de fome não iriam desaparecer pas­ sivamente, em silêncio e submissão. A índia, por exemplo, é uma das nações mais freqüentemente lembradas a ser honrada com tal desti­ no. Só que, como já foi frisado, um país possuidor de armamento nuclear não toleraria assim no mais tal decisão a seu respeito!33 Uma segunda espécie de justificação vem acompanhada de um toque de santidade. Será que o mandato evangelístico de testemu- i nhar o evangelho a pessoas importantes exige que alguns cristãos / adotem um estilo-de-vida condizente com a posição dessas pessoas? ( Talvez. Mas é tão fácil achar justificativas! A igreja Garden Grove Com- munity, na Califórnia, dispõe de um luxuoso complexo de instalações, inclusive com uma série de chafarizes que começam a jorrar água quando o pregador aciona um botão no púlpito. Tudo isso custou milhões de dólares, ü pastor, Robert Schuller, justifica as suas ins­ talações luxuosas dizendo: Estamos tentando causar uma boa impressão para o americano rico e não-religioso que viaja por esta movimentada rodovia. É cla­ ro que não estamos tentando impressionar os cristãos'. . . . Supo­ nhamos que tivéssemos dado o dinheiro para alimentar aos pobres: que teríamos hoje? Teríamos ainda outra gente pobre e faminta por aí, e Deus não teria essa tremenda base de operações, a qual ele está usando para inspirar pessoas a se torriarem mais bem sucedidas, maisricas, mais generosas, mais genuinamente despojadas de si no ato de dar3* . Onde afinal terminam as justificativas válidas e começam os sub­ terfúgios? É claro que precisamos evitar um legalismo simplista. Cer­ tamente os cristãos podem morar onde quiserem, no subúrbio ou no centro. Contudo, os que defendem um padrão-de-vida mais eleva- ___________ ( 33Para uma crítica bem resumida com relação á seleção e ética salva-vidas, ver Lester Brown, The Politics and Responsability of the North-Am erican Breadbasket, p. 36; bem como Bread for the W orld Newsletter, Julho, 1976. 3 4 Robert H . Schuller. Y o u r Church Has Real Possibilities! (Glendale, Calif.: Regai Books, 1 974), p. 117. 55

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