No trem parador com Ferreira Gullar

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Relato sobre o livro de Ferreira Gullar "Em alguma parte alguma".

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No trem parador com Ferreira Gullar

  1. 1. No Trem Parador com Ferreira Gullar por Gideon Marinho Gonçalves gideonmarinho@gmail.comComprei o livro "Em alguma parte alguma" na livraria da Travessa, dentro do CCBB daRua Primeiro de Março, no Centro do Rio de Janeiro. Deu vontade entrar no CCBB,pois quando passo perto de lá sinto uma transformação acontecer em minha mente.Os pensamentos sobre negócio, trabalho etc, são empurrados prá escanteio, e umsentimento de Arte me invadeSubi as escadas pelo lado da Candelária pois dá aquela impressão de uma entrada"triunfal" no CCBB, uma entrada mais imponente.. ou seja.. parece que a gentemergulha mesmo em um ambiente aromatizado pela Arte...A livraria da Travessa fica ali, bem na entrada do CCBB. Como para mim é impossívelentrar em uma livraria e sair de mãos abanando, comprei "Em alguma parte alguma",livro recém publicado de Ferreira Gullar. Na verdade, deixa eu explicar, não compreieste livro por comprar. De fato, já me envergonhava de jamais ter lido uma obracompleta de Ferreira Gullar. Já o vi inúmeras vezes em entrevistas na TV e sabia queele era um cara importante, que certamente teria coisas boas para eu conhecerLi o livro em 2 dias. Impossível parar de lê-lo. Fui mastigando cada poesia, poema, sei
  2. 2. lá o que, pois o Ferreira Gullar não declama, não enfeita. Ele simplesmente relata.Isto mesmo, eu diria que é um relato poético do que vê, sente, lembra, deseja, pensa,ri, chora e se impressiona. Enfim, é tudo de bom. O estilo é genial e rebelde. Não estánem aí para o pudor ou para o que os "outros" pensem sobre ele. Foi esta a impressãoque fiquei."o poema / antes de escrito / não é em mim / mais que um aflito/ silêncio/ ante apágina em branco.""ou melhor/ um rumor / branco / ou um grito / que estanco / já que / o poeta / quegrita / erra / e como se sabe / bom poeta (ou cabrito) / não berra" continua....Este fragmento de "FICA O NÃO DITO POR DITO" que inaugura as páginas de seudelicioso livro, foi logo me mostrando o que eu encontraria. Tudo escrito em minúsculoe no rítmo de uma música contemporânea atonal, sem compassos e com clustersharmônicos...Dei uma pausa em três outros livros que eu estava lendo ao mesmo tempo para abrircaminho para este.No segundo dia continuei a leitura no trem parador do subúrbio do Rio de Janeiro,indo de Bangu para a Central do Brasil (aliás tenho um poema sobre estas minhasinstigantes viagens "O Trem da Central" publicado no Recanto das Letras). Depareicom relatos poéticos que me emocionaram, sem exageros. Tive de disfarçar poisborrei as lentes de meus óculos com lágrimas de meu choro avexado... Tirei osóculos, enxuguei-os e continuei a leitura.Acreditem, Ferreira Gullar dialoga consigo mesmo sobre o osso de sua perna em"REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA". Simples, sincero e genial. Eu nãoesperava, confesso mais uma vez, encontrar um Ferreira Gullar assim, tão humano,tão pessoa, tão "eu", você, nós. Pensava encontrar um catedrático com poesias chatase repletas de palavras do idioma dos acadêmicos. Ao contrário, encontrei um "caralegal". Um homem que faz questão, talvez, de pisar duas vezes no mesmo local paraexperimentar a textura do lugar.. enfim..."O JASMIM" revela um cara singelo e sensível, que se incomoda com cheiro de uma
  3. 3. flor "... assim de muito perto / esse aroma é um oculto verde/ (quase fedor) / que melesiona/ as narinas ...". Li este poema três vezes. Mais à frente ele retorna a estepoema, em uma desordem genial de pensamentos e sequência, e continua o seurelato sobre o jasmim.Funguei umas duas vezes para disfarçar as lágrimas. Olha que não estou enfeitando omeu relato com frases de efeito! De fato chorei no Trem Parador que ia de Bangu paraa Central do Brasil. À medida em que vai aproximando de seu destino, maispassageiros vão entrando no Trem Parador que vai de Bangu para a Central do Brasil.Cá eu saboreando os relatos poéticos de Ferreira Gullar e tendo que desviar a orelhade seu livro amarelo de uma barriga feminina que insistia em amassá-lo."BANANAS PODRES 3" me presenteia com as lembranças da infância do poeta, lá emSão Luiz do Maranhão. Com tão poucas palavras, mas carregadas de inteligência ecompleteza, ele não se furta em declarar nomes completos de personagens de suainfância, que carregou durante todo este tempo em sua memória. Fui apaixonando-me pelos detalhes íntimos do dia-a-dia de Ferreira Gullar, que nem um inseto eledeixa passar. Em "INSETO" e "UMA ARANHA" ele, praticamente, berra para nós, osfelizardos leitores, que tudo, exatamente tudo pode ser fonte de reflexão para umhomem tão sensível às coisas vivas.Claro que a astronomia, mesmo que de forma leiga, é assunto dos homens cultos.Ferreira Gullar poetiza sobre o universo e fecha a parte um do livro com "UMA PEDRAÉ UMA PEDRA" para entrar na segunda parte literalmente caminhado sobre o universocom "UNIVERSO", "A LUZ", "A ÁGUA", "O SOM", "A ESTRELA", "O ESPAÇO" e o genial"DENTRO" que reproduzo aqui:"estamos dentro de um dentroque não tem forae não tem fora porqueo dentro é tudo o que háe por ser tudoé o todo:
  4. 4. tem tudo dentro de siaté mesmo o fora se,por hipótesese admitisse existirE por aí vai relatando Ferreira Gullar sobre as coisas que vê, sente, lembra e gosta.O QUE SE FOI SE FOI"O que se foi se foiSe algo ainda perduraé só a amarga marcana paisagem escura.""Se o que se foi regressa,traz um erro fatal:falta-lhe simplesmenteser real""Portanto, o que se foise volta, é feito morte.""Então por que me fazo coração bater tão forte?"Este poema tem um comportamento raro dentre os demais publicados neste livro.Como os demais, inteligente e genial mostra a profundidade poética de Ferreira Gullar.O meu Trem Parador, que vai de Bangu até a Central do Brasil, enfim chegou naestação final. Fechei o livro e o guardei em minha mochila de couro. Desci para oMetrô da Central e fui para o meu trabalho transbordando poesias. Sempre passo pelo"Arco dos Teles" antes de chegar ao meu destino árduo...Livro obrigatório para quem curte cultura! Dezembro de 2010

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