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  1. 1. ~1~ Crônicas de Nick Infinito Sherrilyn Kenyon SINOPSE: Aos catorze anos, Nick Gautier acha que sabe tudo sobre o mundo ao seu redor. Sabedoria das ruas, duro e experiente, seu sarcasmo ligeiro é lendário... até a noite em que seus melhores amigos tentam matá-lo. Salvo por um misterioso guerreiro lutando melhor que Chuck Norris, Nick é sugado para o reino dos Dark Hunters: matadores de vampiros imortais que arriscam tudo para salvar a humanidade. Nick aprende rapidamente que o mundo humano é apenas um véu para algo muito maior e mais perigoso: um mundo onde o capitão do time de futebol é um lobisomem e a garota pela qual ele tem uma quedinha sai à noite para pregar estacas em mortos vivos. Mas antes que Nick possa aprender as regras desse novo mundo, seus colegas começam a se transformando em zumbis devoradores de carne. E ele é o próximo no cardápio. Como se começar o ensino médio não fosse suficiente difícil... agora Nick tem que esconder de sua mãe seus novos amigos, sua motosserra do diretor e ainda impedir os zumbis e o demônio Simi de comer cérebros - tudo isso sem acabar sendo preso ou suspenso. Como é que, de todo mundo, justo ele se tornou quem deveria fazer isso? Revisão Inicial: Rafaela Revisão Final: Carolina Alvares Colaboração: Carmen
  2. 2. ~2~ PRÓLOGO Livre arbítrio Alguns o chamaram de o maior presente concedido à humanidade. É a nossa capacidade para controlar o que ocorre e exatamente como ocorre para nós. Somos os donos de nosso destino e ninguém pode impor sua vontade a não ser que nós assim permitamos. Outros dizem que o livre arbítrio é um mito de merda. Que temos um destino predestinado e não importa o que façamos ou quão duro lutemos, que na vida acontecerá exatamente o que está destinado a acontecer. Não somos nada mais que peões para um poder superior, que nossos pobres cérebros humanos ainda não podem começar a entender ou compreender. Meu melhor amigo, Acheron, uma vez me explicou assim. O destino é um trem comercial cujo rumo preestabelecido só o condutor conhece. Quando chegamos com o nosso carro à passagem de nível, podemos escolher nos deter e esperar que o trem passe longe, ou tratar de continuar diante dele e ganhar desse malvado. Essa eleição é nosso livre arbítrio. Se decidirmos nos apressar mais a frente, o carro no qual estamos poderia deter- se sobre os trilhos. Depois podemos escolher tentar e pôr o carro em marcha ou esperar a que o trem nos atropele. Ou podemos sair do carro para correr e lutar contra o destino do trem chocando-se contra nós e nos matar onde estamos. Se escolhermos correr, nosso pé poderia ficar preso nos trilhos ou poderíamos escorregar e cair. Inclusive, poderíamos dizer a nós mesmos, "não há nenhuma maneira de que sejamos estúpidos o suficientemente para lutar contra o trem" e retrocedemos a esperar com segurança. Então, o que sabemos, um caminhão nos golpeia por trás, nos jogando diretamente sobre a rota do trem. Se for nosso destino ser golpeados pelo trem, seremos golpeados pelo trem. A única coisa que podemos mudar é como o trem nos converte em um hambúrguer. Eu pessoalmente, não acredito neste lixo. Meu ponto de vista, eu controlo meu destino e minha vida. Não, nada me controla. Nunca. Eu sou o que me converti pela interferência e segredos de uma criatura. Se as coisas tivessem sido feitas de outra maneira, minha vida teria tido outro enredo distinto. Não estaria onde estou hoje e teria tido uma vida de valor em lugar de viver o pesadelo em que ela se converteu. Mas não, por ocultar seus segredos mais profundos, meu melhor amigo me traiu e me transformou na escuridão que cheguei a abraçar. Nossa fatalidade e destinos estavam entrelaçados por um louco acontecimento que ocorreu quando era um menino e amaldiçoo o dia que alguma vez chamei a Acheron Parthenopaeus de amigo. Sou Nick Gautier. E esta é minha vida e como as coisas deveriam ter sido…
  3. 3. ~3~ CAPÍTULO 1 — Eu sou um idiota socialmente desajustado. — Nicholas Ambrosius Gautier! Preste atenção no seu linguajar! Nick suspirou ante o tom agudo de sua mãe enquanto estava de pé na cozinha, olhando a brilhante camisa havaiana de cor laranja. A cor e o estilo já eram bastante ruins, o fato de que estivesse coberta com enormes trutas (ou eram salmões?) rosas, cinzas e brancos era inclusive pior. — Mamãe, eu não posso ir com isso para o colégio. É… — se deteve para pensar uma palavra verdadeiramente dura que não o levaria a ser castigado por toda a vida, — horrível... Se alguém me vir com isto, serei um pária, relegado ao canto dos perdedores na lanchonete. Como sempre, ela bufou ante seu protesto. — Oh, cale-se. Não há nada de errado com essa camisa. Wanda me disse, na loja da Boa Vontade, que veio de uma dessas enormes mansões de Garden District. Essa camisa pertencia ao filho de um homem muito honrado e já que estou te criando para ser… Nick apertou os dentes. — Prefiro ser um delinquente com quem ninguém se meta. Ela deixou escapar um profundo suspiro ofendido enquanto parava de fritar o bacon. — Ninguém vai se meter com você, Nicky. A escola tem uma política rígida para intimidação. Sim, claro. Isso só valia no papel do contrato em que estava escrito. Sobretudo, tendo-se em conta que os valentões eram analfabetos e de qualquer maneira não poderiam lê-lo. Por Deus! Por que ela não o escutava? Nem parecia que era ele que tinha que se meter na toca do leão todos os dias, que atravessar a brutalidade do campo minado do colegial. Honestamente, estava de cansado disso e não havia nada que pudesse fazer. Ele era um idiota fracassado e ninguém do colégio jamais o deixava esquecer-se disso. Nem os professores, nem o diretor e muito menos os outros estudantes. Por que não podia saltar essa etapa e evitar todo o pesadelo do colegial? Porque sua mãe não permitiria. Só os valentões abandonavam o colégio e ela não tinha trabalhado tão duramente para criar outro elemento desses, era uma dura ladainha gravada permanentemente em sua mente. Ordenava-se exatamente em: “Ser um bom menino, Nicky. Graduar-se. Ir à Universidade. Conseguir um bom trabalho. Casar-se com uma boa garota. Ter um montão de netos e nunca esquecer um único dia de ir à igreja”. Sua mãe já tinha esboçado um mapa de todo seu futuro, sem permitir desvios nem paradas. Mas no final do dia, ele amava sua mãe e apreciava tudo o que ela fazia por ele. Apesar do contínuo, “faça o que eu digo, Nicky. Não te escuto porque sei o que é melhor para você” que ouvia o tempo todo. Ele não era estúpido nem bagunceiro. Ela não tinha ideia do que ele passava no colégio e cada vez que tentava explicar, ela se recuava a escutar. Era tão frustrante… Argh, Porque eu não poderia ter gripe suína ou algo parecido? Só durante os próximos quatro anos, até poder me graduar e passar a uma vida que não inclua uma humilhação constante? Depois de tudo, a gripe tinha matado milhões de pessoas em
  4. 4. ~4~ 1918 e muitas outras durante as epidemias dos anos setenta e oitenta. Era pedir muito que outra doença mutante contagiosa o incapacitasse durante alguns anos? Talvez uma boa temporada de parvo virose1 … Você não é um cachorro, Nick. Certo, nenhum cachorro seria apanhado ou morto usando essa camisa. Urinar sobre ela, aí seria outra história. Suspirando, Nick baixou o olhar para a horripilante camisa que adoraria queimar. Ok, tudo certo. Faria o que sempre fazia quando sua mãe o obrigava a parecer um idiota em chamas. Guardaria para si mesmo. Não quero usar isto. Faz-me parecer estúpido. Levanta esse ânimo, Nick. Você pode fazer isso. Usou coisas muito piores. Sim, claro. Bem. Deixe-os rir. Não poderia detê-los, de qualquer maneira. Se não fosse pela camisa, iam humilha-lo por alguma outra coisa. Os sapatos. O corte de cabelo. E se todo o resto fracassasse, zombariam de seu nome. Nick o pinto, ou Nick sem pinto. Não importava o que dissesse ou fizesse, zombavam por qualquer coisa. Algumas pessoas tinham os parafusos frouxos e não podiam viver a menos que fizessem outros sofrerem. Como sempre dizia tia Menyara, ninguém pode fazer você se sentir inferior, a menos que você o permita. O problema era que ele permitia muito mais do que desejava. Sua mãe pôs na sua frente um prato azul lascado que tinha tirado do lado do fogão enferrujado. — Sente-se, querido e coma um pouco. Eu li em uma revista que alguém deixou no clube que os meninos tiram as melhores notas nas provas do colégio e são melhores quando tomam o café da manhã. — Ela sorriu e segurou o pacote de bacon para ele ver — E olhe. Desta vez não passou da validade. Ele riu de algo que realmente não era engraçado. Um dos caras que frequentava o clube de sua mãe era um açougueiro local que algumas vezes lhes dava carne quando estava perto de vencer a validade, já que de qualquer maneira ia jogá-la fora. “Se a comermos logo, não nos fará adoecer”. Outra ladainha que odiava. Agarrando o bacon crocante, deu uma olhada ao redor da minúscula moradia que chamavam de lar. Esta era uma das quatro que tinham sido resgatadas de uma velha casa. Composta por três pequenos cômodos, a cozinha/sala de estar, o dormitório de sua mãe e um banheiro. Não era muito, mas era deles e sua mãe estava orgulhosa disso, de modo que ele tentava ficar também. Na maioria dos dias. Estremeceu enquanto olhava o canto onde sua mãe tinha pendurado uns lençóis azuis escuros para lhe fazer um quarto em seu último aniversário. Suas roupas estavam guardadas em uma velha cesta de lavanderia no chão colocada perto de seu colchão que estava coberto com lençóis do Star Wars que tinha desde os nove anos, outro presente de sua mãe que tinha conseguido em um brechó. — Um dia, Mamãe. Vou comprar para nós uma casa realmente bonita. Com coisas realmente boas em seu interior. Ela sorriu, mas seus olhos diziam que não acreditava em nenhuma palavra do que ele dizia. 1 Parvo virose é uma das viroses mais conhecidas emais contagiosas entre os cães domésticos, sendo também chamada de Enterite Canina Parvoviral.
  5. 5. ~5~ — Eu sei que você vai querido. Agora coma e vá para o colégio. Não quero que você se estrague como eu. — ela se deteve quando um olhar de dor cruzou seu rosto — Podes ver por ti mesmo o que o conseguirá. A culpa o atravessou. Ele foi a razão de sua mãe ter abandonado o colégio. Logo que seus pais descobriram que estava grávida, tinham-lhe dado uma única escolha. Entregar o bebê ou abandonar sua encantadora casa no Kenner, sua educação e sua família. Por razões que ele ainda não entendia, ela tinha escolhido ficar com ele. Isso era algo que Nick nunca se permitia esquecer. Mas um dia ele ia conseguir devolver-lhe tudo. Ela merecia e por ela, levaria essa camisa atroz. Inclusive se o matassem… E sorriria através da dor disso, até que Stone e sua turma lhe chutassem os dentes. Tentando não pensar na surra que levaria quando chegasse, Nick comeu o bacon em silêncio. Possivelmente Stone não estaria no colégio. Poderia ter pegado malária, ou a praga, ou raiva, ou algo. Sim, quem sabe o maldito monstro poderia ter contraído sífilis em suas partes mais privadas. Esse pensamento realmente fez-lhe sorrir enquanto levava os ovos mexidos à boca e os tragava. Obrigou-se a não tremer ante o sabor. Mas era tudo o que podiam ter. Jogou uma olhada no relógio da parede e se levantou de repente. — Tenho que ir ou vou chegar tarde. Agarrou-lhe em um abraço de urso. Nick fez uma careta. — Deixa de me assediar sexualmente, mamãe. Tenho que ir antes que seja tarde. Deu-lhe uma palmada no bumbum antes de soltá-lo. — Assediar-te sexualmente. Menino, você não tem ideia. — revolveu-lhe o cabelo quando ele se inclinou para recolher sua mochila. Nick passou as correias por ambos os braços e golpeou a porta ao sair correndo. Lançou-se diretamente no ruinoso alpendre e correu a toda velocidade rua abaixo, passando por carros desfeitos e lixo, para onde estava a parada do ônibus. — Por favor, não vá… De qualquer forma, ele seria escolhido para outra leitura do estilo “Nick? O que vamos fazer contigo, pedaço de lixo branco?” do Senhor Peters. O velho odiava os alunos do seu gênero e o fato de Nick, um ranhoso, ter uma bolsa de estudos na sua privilegiada escola o enfurecia Peters seriamente. Nada lhe teria agradado mais que tê- lo expulsado a pontapé, de modo que Nick não pudesse “corromper” os meninos das boas famílias. Nick franziu o lábio enquanto tentava não pensar na maneira em que essas decentes pessoas o olhavam como se não fosse nada. Mais da metade de seus pais eram clientes habituais do clube onde sua mãe trabalhava, mas se intitulavam decentes enquanto que ele e sua mamãe eram considerados lixo. A hipocrisia disso não lhe caía bem. Mas era o que havia. Não podia mudar a forma de pensar de ninguém exceto a própria. Nick abaixou a cabeça e correu a toda velocidade quando viu o ônibus escolar parado em seu estacionamento. OH cara…
  6. 6. ~6~ Ele acelerou e foi em uma corrida de morte. Golpeou a plataforma e saltou ao ônibus. Tinha-o pego bem a tempo. Ofegando e suando com o úmido ar outonal de Nova Orleans, tirou a mochila com um encolhimento de ombros enquanto saudava o condutor. — Bom dia, senhor Clemmons. O velho homem afro americano sorriu-lhe. Ele era um dos condutores favoritos de Nick. —Bom dia, senhor Gautier. — Sempre pronunciavam errado o sobrenome de Nick. Diziam Go-chay, em lugar do correto Go-shay. A diferença é que no Go-chay tradicionalmente havia um “h” depois do “t”, e como a mãe de Nick dizia frequentemente, eram muito pobres para mais letras. Por não mencionar, que um dos parentes de sua mãe, Fernando Upton Gautier, tinha se baseado no pequeno povo no Mississipi que compartilhava seu nome e ambos se pronunciavam Go-shay —. Sua mãe lhe fez chegar tarde novamente? — Como sempre. — Mergulhou a mão no bolso em busca do dinheiro e pagou rapidamente antes de se ir sentar. Ofegando e suando, inclinou-se para trás e respirou profundamente, agradecendo por não haver se atrasado. Infelizmente, ainda suava quando chegou ao colégio. Conforme-se, Nick. Ao menos chegaste a tempo. Isso é bom. Agora era só esperar as brincadeiras começarem. Ajeitou o cabelo, limpou o suor da frente do rosto e colocou a mochila sobre o ombro esquerdo. Mantendo a cabeça erguida apesar das risadas e dos comentários a respeito de sua camisa, cruzou o pátio e atravessou as portas como se fosse o dono do lugar. Isso era o melhor que podia fazer. — Ew! Asqueroso! Está gotejando de suor. É muito pobre para ter sua própria toalha? Gente pobre não toma banho? — Olhe parece que foi pescar no Ponychartrain2 e acabou tirando uma camisa pestilenta em vez de um peixe de verdade. — Isso é porque ele não conseguiu distinguir. Aposto que inclusive a camisa brilha na escuridão. — Sem falar que há um vagabundo nu em algum lugar desejando saber quem roubou a sua roupa enquanto dormia num banco. Ei, Há quanto tempo ele tem esses sapatos? Acredito que meu pai usava uns assim nos anos oitenta. Nick fez se de surdo e focou-se no fato de que eles eram realmente estúpidos. Nenhum deles estaria ali se seus pais não tivessem pagado para isso. Ele era o menino da bolsa de estudos. Eles provavelmente sequer tinham feito o vestibular. Era isso o que importava. Nick preferia ter cérebro a ter dinheiro. Embora, neste momento, um lançador de foguetes também seria bom. Não podia dizer isso em voz alta se quisesse evitar que a polícia atirasse nele, por ter ideias “inapropriadas”. A bravura durou até que chegou ao lugar em que Stone e sua turma vadiavam. Genial, simplesmente genial. Não podiam escolher outro para vigiar? Stone Blakemoor era o tipo de idiota que dava má fama aos atletas. Nem todos eram dessa maneira e ele sabia. Nick tinha vários amigos que jogavam na equipe de futebol, nada menos que titulares, não na reserva, como Stone. Era só quando pensar em um atleta arrogante cabeça dura, que Stone era o melhor exemplo. Definitivamente, era apropriado ao extremo o nome com o qual seus 2 Pontchartrain é um lago de água salgada localizado no sudesteda Louisiana
  7. 7. ~7~ pais o tinham etiquetado. Sua mãe talvez soubesse já na gravidez que daria à luz um exímio imbecil. Stone bufou quando Nick se deteve ao lado do grupo. — Ouça, Gautier? Vi sua mãe nua na outra noite, meneando a bunda na cara do meu pai, para que ele colocasse um dólar na tanga dela. Ele a tocou também. Disse que ela tinha um par fantástico de… Antes que pudesse pensar melhor, Nick bateu com a mochila na lateral da cabeça dele com toda força. E então partiu pra cima do Donkey Kong3 . — Briga! — gritou alguém, enquanto Nick agarrava o pescoço de Stone e o golpeava. Uma multidão se reuniu ao redor deles, fazendo coro - “briga, briga, briga!” De algum jeito Stone escapou e golpeou com força o peito de Nick, deixando-o sem respiração. Demônios, ele era muito mais forte do que parecia. Golpeava como uma marreta. Furioso, Nick começou a avançar para bater mais nele, só para encontrar-se repentinamente com um professor entre eles. A senhora Pantall. A presença da pequena figura acalmou Nick instantaneamente. Ele não golpearia uma pessoa inocente, e menos ainda uma mulher. Ela entrecerrou os olhos sobre ele e assinalou o final do corredor. — Para o escritório, Gautier. Agora! Amaldiçoando em voz baixa, Nick recolheu sua mochila do chão bege e olhou para Stone, ao qual tinha, ao menos, arrebentado o lábio. Isso é que era não se meter em problemas. Mas o que deveria fazer? Deixar o idiota insultar sua mãe? Aborrecido, entrou no escritório e se sentou na cadeira da ponta, junto à porta do Diretor. Por que não havia um botão para desfazer sua vida? — Desculpe-me? Nick contemplou a mais suave, mais doce voz que alguma vez já tinha ouvido. O estômago lhe caiu ao chão. Vestida completamente de rosa, era linda, com um cabelo castanho sedoso e olhos verdes que virtualmente resplandeciam. OH. Meu Deus. Nick queria falar, mas a única coisa que podia fazer era tratar de não babar em cima dela. Estendeu-lhe a mão. — Sou Nekoda Kennedy, mas a maioria me chama de Kody. Sou nova na escola e estou um pouco nervosa. Disseram-me que esperasse aqui, mas então houve uma briga e ninguém retornou e… Sinto muito, quando fico nervosa fico gaguejando. — Nick. Nick Gautier. Ele sobressaltou-se ao aperceber-se de quão estúpido soava e quão lento estava na conversa. Ela começou a rir como um anjo. Uma beleza perfeita… Estou louco por ela… Dê-lhe um aperto, Nick. Dê-lhe um aperto... — Então, há quanto tempo você está aqui? — perguntou Kody. Use a língua. Use-a. Finalmente, conseguiu dar uma resposta. —Três anos. 3 Donkey Kong é um personagem fictício em alguns jogos, considerado um dos mais famosos da empresa Nintendo. Donkey Kong é um gorila de 1,95 m. e 225 kg. É caracterizado por usar uma gravata vermelha com suas iniciais DK.
  8. 8. ~8~ —Você gosta daqui? O olhar do Nick dirigiu-se a Stone e aos outros que entravam no escritório. — Hoje não. Ela abriu a boca para responder, mas Stone e seu bando a rodearam. — Ei, neném. — Stone mostrou um sorriso de queijo — Carne nova? Kody fez uma careta e evitou-os. — Afastem-se de mim, seus animais. — Passou um olhar de repugnância pelo corpo do Stone e franziu os lábios — Não é um pouco grandinho para que sua mamãe escolha as suas roupas? Comprar roupas em lojas de crianças agrada-lhe? Estou certa de que alguns alunos do terceiro ano morreriam por saber quem te comprou essa feia camisa de marinheiro. Nick deixou escapar uma risada. Sim realmente, realmente estava a gostar. Ela parou junto de Nick, de costas contra a parede para poder manter um olho sobre Stone. — Sinto muito que eles nos interrompessem. Stone fez um som como se estivesse a ponto de vomitar. — Por que está falando com o Rei dos Estúpidos e Fracassados? Quer falar de camisas feias? Olhe a que ele usa. Nick se sobressaltou quando Kody examinou a manga de sua camisa. — Eu gosto de um homem que corre riscos com a moda. É a marca de alguém que vive com seu próprio código. Um rebelde — jogou um olhar mordaz sobre Stone—. Um lobo solitário é muito mais sexy que um animal de carga que segue ordens e não pode ter uma opinião a menos que alguém a dê. — Ooooooh — disseram em coro os amigos de Stone quando ela o venceu. Calem-se! — Stone lhes disse —, ninguém pediu a opinião de vocês. —Nekoda? — Chamou a secretária —. Temos que acabar o seu horário. Kody dedicou ao Nick um último sorriso. — Estou no nono grau. — Eu também. Seu sorriso engrandeceu-se. — Espero que tenhamos algumas aulas em comum. Prazer em conhecê-lo, Nick. Ela assegurou-se de pisar no pé do Stone quando passou ao seu lado. Stone uivou e resmungou um insulto em voz baixa. Então ele e seus três amigos sentaram-se nas cadeiras que estavam em frente do Nick. Vão apanhar por causa disso. A senhora Pantall deixou-os entrar para falar com o senhor Peters. Logo que ela saiu, Stone lançou uma bola de papel em Nick. — De onde tirou essa camisa, Gautier? Da caridade ou a encontrou em um contentor? Nah, aposto que bateu num vagabundo por ela. Nick negou-se a morder a isca desta vez. Além disso, ele podia confrontar os insultos que fossem dirigidos diretamente a ele. Eram os que lançavam contra sua mamãe os que o levavam a brigar. E esta era a razão pela qual a maioria das escolas privadas tinha uniforme, mas Stone negava-se a usar um e como seu pai era o proprietário do colégio… Nick tinha que se virar com as roupas que sua mãe pensava que eram respeitáveis. Por que pelo menos por uma vez não me escuta mãe? Só por uma vez… — O que? É que não havia nenhuma mais elegante? Nick se inclinou para frente… No momento exato em que o diretor Peters saía e o viu.
  9. 9. ~9~ Definitivamente a Sorte estava de férias hoje… — Gautier — grunhiu ele —. Entra aqui. Agora! Com um profundo suspiro, Nick levantou-se e entrou no escritório que conhecia tão bem como sua própria casa. Peters permaneceu fora, não duvidava que ele estivesse falando com Stone enquanto ele se via obrigado a esperar. Sentou-se na cadeira da direita e esperou, contemplando as fotos da mulher de Peters e dos meninos. Tinham uma encantadora casa com pátio e em uma foto, suas filhas brincavam com um cachorrinho branco. Nick ficou olhando. Como seria viver dessa maneira? Ele sempre tinha querido um cão, mas como mal podiam alimentar-se, um cachorrinho estava fora de discussão. Por não mencionar que seu senhorio morreria se tivesse um em um de seus cômodos de aluguel, embora um cão não pudesse fazer muito estrago, numa moradia já em ruínas. Depois de alguns minutos, Peters entrou e foi sentar-se em sua cadeira. Sem uma palavra, levantou o telefone. Nick entrou em pânico. — O que o senhor está fazendo? — Vou chamar a sua mãe. O terror o rasgou. — Por favor, senhor Peters, não faça isso. Ela teve que dar um turno dobrado no trabalho ontem á noite e esta noite também. Só dormiu umas quatro horas hoje e não quero que ela se preocupe por nada — por não mencionar, que faria mingau da pele dele por isso. Mesmo assim, ele marcou o número. Nick apertou os dentes quando a raiva e o temor atravessaram todo o seu ser. — Senhorita Gautier? — Podia alguém utilizar um tom mais detestável? E sempre tinha que sublinhar o fato de que sua mãe nunca se tinha casado? Isso sempre a envergonhava até a morte — Quero informar-lhe que Nick será expulso do colégio durante o resto da semana. O estômago colou no chão. Sua mãe ia mata-lo quando chegasse a casa. Porque Peters não podia simplesmente dar-lhe um tiro e acabar com a sua miserável existência? Peters olhou-o sem misericórdia. — Não, ele brigou outra vez, e deixa-me doente pensar que ele pode vir aqui e atacar pessoas decentes cada vez que assim o queira sem razão aparente. Tem que aprender a controlar seu temperamento. Honestamente, estou tentado a chamar a polícia. Em minha opinião, ele deveria ser enviado a uma escola pública onde podem cuidar de meninos problemáticos iguais como ele. O hei dito antes e o digo de novo. Ele não pertence a este lugar. Nick morria um pouco com cada palavra. Meninos como ele… Ele isolou-se de modo que não tivesse que ouvir o resto das palavras de Peters de como ele carecia de valor. No coração ele conhecia a verdade. Quão último precisava era de alguém dando voz a isso. Depois de uns minutos, Peters desligou o telefone. Nick lhe dedicou um áspero olhar. — Eu não comecei. Peters franziu os lábios. — Isso não é o que os outros dizem. A quem se supõe que tenho que acreditar Gautier? A um valentão como você ou a quatro honrados estudantes?
  10. 10. ~10~ Supunha-se que ele deveria acreditar no único que dissesse a verdade, o qual resultava ser o valentão. — Insultou a minha mãe. — Essa não é desculpa para a violência. Isso lhe desceu pela coluna igual a um triturador de papel. O porco fanfarrão. Nick não podia permitir que ficasse sem resposta. — Seriamente? Bom você sabe, senhor Peters, ontem à noite vi a sua mãe nua e para ser uma anciã, tem realmente encantadoras… — Como se atreve! — Gritou, ficando em pé para agarrar Nick pela camisa — Você pequeno estúpido… — Pensava que havia dito que insultar a sua mãe não era desculpa para a violência. Peters tremeu enquanto a raiva lhe salpicava a pele. Seu apertão fez-se mais intenso e uma veia lhe palpitou na têmpora. — Minha mãe não é uma stripper da Rua Bourbon. É uma boa mulher temerosa a Deus. — Apartou Nick dele —. Recolha suas coisas e parta. Temerosa a Deus, já? O estranho era que Nick e sua mãe iam à missa todo domingo e ao menos duas vezes por semana e a única vez que tinha visto Peters ou a sua mãe fora nos natais. Claro… Hipócrita até a medula. Desprezava as pessoas como Peters. Nick agarrou a mochila do chão e partiu. Havia um guarda de segurança esperando-o fora do escritório para escoltá-lo até o seu armário. Como um criminoso. Possivelmente devesse acostumar-se a isso. Alguns costumes levam-se no sangue. Ao menos não me algemou. Ainda. Mantendo a cabeça baixa, tentou não olhar para ninguém quando os outros estudantes riram de maneira contida e sussurraram sobre ele. — Isso é o que acontece quando se provém do lixo. — Espero que não o deixem retornar. — Fê-lo por merecer. Nick apertou os dentes com raiva enquanto se aproximava de seu armário e alcançava a fechadura de combinação. Brynna Addams estava retirando seus livros, duas portas mais a frente. Alta com o cabelo castanho escuro era muito bonita e uma das poucas pessoas que estavam com o Stone e sua gente que Nick podia suportar. Ela se deteve para o olhar com o cenho franzido que só se aprofundou quando viu o guarda com ele. — O que aconteceu, Nick? — Me expulsaram. — Fez uma pausa antes de tragar seu orgulho. Outra vez — Posso pedir-te um favor? Ela não vacilou. — Claro. — Poderia conseguir-me as lições para eu não me atrasar? — Com certeza. Quer que as envie por e-mail? Estupidamente, pensara que não poderia sentir-se pior. — Não tenho computador em casa. Suas bochechas se avermelharam.
  11. 11. ~11~ — Sinto muito. Hum. Onde quer que as entregue? Nick agradeceu o fato de ela ser legal, diferente das pessoas com quem andava. — Passarei por sua casa depois do colégio e os pegarei. Ela escreveu o seu endereço enquanto ele recolhia todos os seus livros. — Estarei em casa por volta das quatro. — Obrigado, Brynna. Realmente aprecio o favor. — Afundou o papel no bolso, então permitiu que o segurança o escoltasse para fora do campus. Ele adoecia só de pensar que teria que enfrentar a mãe, voltando para casa, do lado do gueto e temia cada passo que dava, pois se aproximava mais à porta. No interior de sua desmantelada casa, a mãe estava á sua espera com o rosto cansado. Vestida com uma puída bata rosa, olhava-o tão cansada e afetada como não tinha visto nunca. Ele deixou cair à mochila ao chão. — Devia estar dormindo, mamãe. Seus olhos o atravessaram com rapidez e fez que se sentisse inclusive pior do que o tinha feito Peters. — Como posso dormir quando meu filho foi expulso do colégio por brigar? Você de todas as pessoas sabe quão duro é para mim te manter ali, o que tenho que fazer para pagar os livros e a comida. Por que é tão estúpido para jogá-lo pelo muro à primeira oportunidade? No que estava pensando? Nick não disse nada porque a verdade a mataria e não queria fazê-la sentir-se tão mal como ele quando não havia nada que ela pudesse fazer a respeito. Eu sou o homem da família. Era o encarregado de cuidar dela. Isso era tudo o que sabia. “Cuide bem de sua mãe, menino, ou responderá ante mim. Fale só uma besteira e te cortarei a língua. Faça-a chorar e te matarei eu mesmo”. Seu pai não era bom para nada, exceto que cumpria as ameaças. Todas elas. E como já tinha assassinado a doze pessoas, Nick supunha que não pensaria duas vezes em matá-lo já que o homem não lhe tinha nenhum afeto. Assim manteve sua raiva encerrada e negou-se a dizer fosse o que fosse. — Não ponha essa cara. Estou farta desse olhar em sua cara. Diga-me porque atacou esse menino, agora! Nick apertou os dentes com força. — Me responda Nick, ou então te juro que te baterei. Teve que deter-se mesmo, de pôr os olhos em branco ante tão absurda ameaça. Inclusive em seu quatorze anos, ele era uma cabeça mais alto que sua pequena mãe e pesava dezoito quilos a mais que ela. — Ele riu de mim. — E por isso comprometeste todo seu futuro? Em que estava pensando? Riu de ti. E o que? Acredite, essa não é a pior coisa que pode te acontecer. Tem que crescer, Nicky e deixar de atuar igual a um bebê. Só porque alguém ri de ti não é razão para brigar. Acaso é? Não. Tragava os ataques contra ele o tempo todo. O que não aguentava eram os ataques contra sua mamãe. E não o faria. — Sinto muito. Ela elevou a mão. — Nem sequer vá por aí. Não o sente. Posso vê-lo em seus olhos. Estou tão decepcionada contigo. Pensei que te tinha ensinado melhor, mas aparentemente está decidido a converter-se num criminoso igual ao seu pai, apesar de tudo o que tenho
  12. 12. ~12~ feito para te manter no caminho certo. Agora fique no seu quarto até que me acalme. Pode ficar ali durante o resto do dia. — Tenho que trabalhar esta tarde. A senhora Liza necessita que a ajude a mover sua mercadoria no armazém. Ela grunhiu. — Bem. Pode ir, mas depois venha direto para casa. Ouviu? Não te quero perdendo tempo com alguns desses ociosos aos que chama amigos. — Sim, mãe. — Nick se dirigiu ao seu “quarto” e amarrotou os lençóis. Doente e cansado de tudo, sentou-se sobre o colchão e inclinou a cabeça contra a parede onde viu os fragmentos do teto que haviam se descolorido e descascado. E então ouviu… O som das lágrimas de sua mãe chegando através da parede de seu dormitório. Deus, como odiava esse som. — Sinto muito, mamãe — sussurrou, desejando ter matado Stone quando pôde. Um dia… um dia ia sair desse buraco. Inclusive se tivesse que matar alguém para fazê-lo. Eram nove horas quando Nick deixou o armazém da Liza. Ele tinha recolhido já as lições com Brynna na enorme mansão que era sua casa a caminho do trabalho. Logo tinha trabalhado cinco horas para poder economizar dinheiro para o fundo da universidade. Claro, que ao ritmo que ia, teria cinquenta anos antes que pudesse ir. Mas algo era melhor que nada. Liza fechou com chave a porta de sua loja enquanto ele se mantinha atrás para protegê-la de qualquer um que pudesse estar olhando. — Boa noite, Nicky. Obrigada por toda sua ajuda. — Boa noite, Liza. Esperou até que ela estivesse a salvo no carro e a caminho de casa, antes de se dirigir pela Rua Royal para a praça. A parada de ônibus mais próxima passava detrás do Jackson Brewery. Mas à medida que se aproximava da praça, quis ver sua mãe e lhe pedir desculpas por conseguir que o expulsassem. Ela disse que fosse diretamente para casa… Sim, mas ele a tinha feito chorar e odiava cada vez que o fazia. Além disso, no quarto ele estaria realmente só essa noite. Não tinham televisão nem nenhuma outra coisa para fazer. E ele já tinha lido Hammer’s Slammers4 , inclusive poderia recita-lo. Talvez se ele se desculpasse, ela o deixaria passar o tempo no clube. Assim em vez de virar para a direita, foi para a esquerda e dirigiu-se ao clube na Rua Bourbon. Os débeis sons de música jazz e zydeco5 saindo de lojas e restaurantes o tranquilizou. Fechando os olhos enquanto caminhava, inalou o doce aroma da canela e o gumbo6 , enquanto passava pelo Café Pontalba. O estômago grunhiu. Como não tinha estado na escola, o seu almoço consistiu em ovos em pó e toucinho, e ainda tinha que jantar… que seriam esses asquerosos ovos outra vez. 4 Slammers Hammer é uma coleção da ciência militar, histórias de contos pelo autor David Drake. Esta coleção, e outros romances e histórias no mesmo ambiente, narrado chamados coletivamente as histórias de Hammer, e o cenário é chamado o universo Slammers ou o Hammerverse. 5 Zydeco é uma forma de música folk norte-americana originada no início do século XX derivado da população francófona. 6 Gumbo éuma sopa que pode ser encontrado em alguns restaurantes no Golfo do México e nos Estados Unidos. É feito em panelas em grandes quantidades elentamente por várias horas.
  13. 13. ~13~ Não querendo pensar nisso, caminhou pelo estreito beco até a porta traseira do clube e chamou. John Chartier, um dos gorilas que cuidavam das bailarinas abriu-lhe a porta com um cenho feroz, até que viu Nick. Um amplo sorriso estendeu-se por seu rosto. — Ouça, amigo. Vieste ver a tua mamãe? — Sim. Ainda está no palco? — Não, ela ainda tem alguns minutos. — afastou-se, para deixar Nick passar pelo corredor escuro para o camarim. Deteve-se na porta da sala onde as bailarinas se vestiam e descansavam entre as atuações e chamou. Tiffany abriu. Absolutamente impressionante, era alta e loira… e estava vestida com uma tanga e um top de encaixe. Apesar de ele ter sido criado ao redor de mulheres vestidas dessa maneira e estava acostumado a isso, o rosto ficou com uma cor vermelha brilhante e manteve o olhar no chão. Era como ver sua irmã nua. Tiffany se pôs a rir, lhe cavando o queixo com a mão. — Cherise? É o seu Nicky. — Apertou-lhe o queixo com carinho — É tão doce a maneira como evita olhar-nos. Sabia que era você quando chamou. Ninguém é tão agradável, tudo o que posso dizer é que sua mamãe está educando-te corretamente. Nick murmurou um agradecimento ao passar junto a ela e dirigir-se ao lugar da sua mãe. Manteve o olhar para baixo até que teve a certeza de que a sua mãe estava coberta com seu penhoar rosa. Mas quando ele viu o furioso olhar refletido no espelho estilhaçado onde ela estava se maquiando, o estômago lhe caiu ao chão. Não havia perdão em sua cara esta noite. — Acreditei haver dito a você que fosse direto para casa. — Queria te dizer outra vez que o sinto. Ela deixou o aplicador do rímel. — Não, não o vais faz. Está tratando que te diga que já não tem que cumprir com o castigo. Não vou fazer isso, Nicholas Ambrosius Gautier. E sua insignificante desculpa não muda o fato de que deverias ter melhor discernimento. Tens que aprender a pensar antes de agir. Esse seu gênio vai te meter em problemas graves algum dia. Igual como aconteceu com seu pai. Agora vá para casa, pense no que fez e no quão errado foi. — Mas mamãe… — Nada de “mas mamãe”. Vai! — Cherise! — Gritou o controlador, fazendo-lhe saber que era hora de sair para o palco. Ela ficou em pé. — Falo sério, Nick. Vai para casa. Nick deu a volta e deixou o clube, sentindo-se pior do que tinha estado quando tinha deixado Liza. Por que sua mãe não acreditava nele? Por que não podia ver que não estava tratando de brincar com ela? Dava no mesmo… estava cansado de tratar de convencer o mundo, e especialmente a sua mãe, que ele não carecia de valor. Na rua, desceu do Bourbon para o Canal, onde poderia tomar o ônibus mais próximo. Odiava quando sua mãe o tratava como um criminoso. Ele não era seu pai, nunca seria como esse homem.
  14. 14. ~14~ Bem, nunca vou proteger sua honra outra vez. Deixarei que a insultem e riam dela. Por que deveria me incomodar se quando faço o certo se zanga tanto comigo? Zangado, doído e aborrecido, ouviu que alguém chamava seu nome. Detendo-se, viu Tyree, Alan e Mike do outro lado da rua, apoiados contra uma loja de turismo. Fizeram-lhe um sinal. Nick cruzou a rua para golpear ligeiramente o punho contra o deles. — O que aconteceu? Tyree inclinou a cabeça em sinal de saudação silenciosa. —Suspenso. E você? —Vou para casa. Tyree deu uma palmada no pescoço da camisa laranja de Nick. — Menino, o que é isto? É uma merda horrível. Nick apartou-lhe a mão de uma palmada. —Roupa. O que é essa merda que você está usando e que parece tão antiquada? Tyree soprou e se pavoneou. — Esta é minha roupa de Romeo. Faz com que todas as mulheres me achem delicioso. Nick riu. — Delicioso? Louco você quer dizer. Elas não querem um Romeo horroroso. Todos riram. Mike ficou sério. — Olha, temos um trabalho esta noite e poderíamos necessitar uma quarta pessoa. Quer entrar? Poderia ter um par de centenas para você. Nick abriu os olhos ante a quantidade. Isso era muito dinheiro. Tyree, Mike e Alan eram estelionatários. Embora sua mãe tivesse um ataque se soubesse, ele já os tinha ajudado uma ou duas vezes quando tinham extorquido uns turistas. — Bilhar, pôquer ou jogo de dados? Alan e Tyree trocaram um olhar divertido. — Isto não é mais do que um trabalho de vigilância. Pelo menos para você. Temos o grande chefe do Storyville que nos paga para sacudir alguns morosos. Só levará alguns minutos. Nick franziu o cenho. — Eu não sei nada disso. Tyree estalou a língua. — Vamos, Nick. Não temos muito tempo e realmente necessitamos de alguém que vigiar a rua. Cinco minutos e terá mais dinheiro do que trabalhando um mês para a velha. Nick olhou para o clube de sua mãe. Normalmente, ele dir-lhes-ia para esquecerem, mas agora mesmo… Se todo mundo fosse me chamar de delinquente sem valor, bem poderia sê-lo. Porque o viver corretamente, não estava dando seus frutos. — Tem certeza que será feito em cinco minutos? Tyree assentiu com a cabeça. — É obvio. Entrar, sair e terminamos. Então poderia estar em casa e sua mamãe não saberia de nada. Por uma vez, agradava-lhe a ideia de furtar e ela nunca saberia. — Bem. Estou dentro. — Bem.
  15. 15. ~15~ Nick olhou para Alan, que tinha dezenove anos. — Meninos, podem me levar depois a casa? — Para você, garoto? O que seja. Assentindo com a cabeça, Nick os seguiu à parte mais sórdida do North Rampart. Tyree se deteve na rua, bloqueando um beco. — Você fica aqui e vigia. Avise-nos se vir alguém. Nick assentiu com a cabeça. Eles se desvaneceram nas sombras enquanto ele ficou ali, esperando. Depois de uns minutos, um casal de idosos passou por ele e o cumprimentou na calçada. Por sua vestimenta e conduta, poderia dizer que eram simples turistas dando um passeio tardio pelo desgastado caminho. — Olá — lhe disse a mulher, sorrindo. — Olá — respondeu-lhe Nick devolvendo o sorriso. Mas seu sorriso morreu um instante depois, quando Alan saltou das sombras para agarrar à mulher enquanto Tyree sujeitava ao homem contra uma parede. Nick ficou atônito. — O que está fazendo? — Cale-se! — Grunhiu Alan, tirando uma pistola — Está bem, vovô. Passe o seu dinheiro ou atiro bem no meio dos seus olhos. Nick sentiu que a cor lhe desaparecia do rosto. Isto não podia estar acontecendo. Estavam atacando a dois turistas? E eu estou ajudando… Durante um minuto não pôde respirar enquanto via a mulher chorando e o homem lhes rogava que não fizessem mal a ela. Antes de dar-se conta do que estava fazendo, agarrou a mão de Alan que empunhava a arma e a separou de um golpe. — Corram! — gritou para o casal. Eles o fizeram. Tyree partiu atrás deles, mas Nick lhe derrubou no chão. Alan agarrou-o pelo pescoço da camisa e o jogou para trás. — Cara, o que está fazendo? Nick o empurrou. — Não posso deixar você assaltar as pessoas. Esse não foi o trato. — Estúpido… — Alan o golpeou na cara com a pistola. A dor se instalou na cabeça de Nick enquanto saboreava o sangue. — Vai pagar por isso, Gautier. Os três caíram sobre ele tão rápidos e furiosos que nem sequer pôde fugir da briga. Um minuto estava em pé e no seguinte, estava no chão com os braços ao redor da cabeça para se proteger da pistola com a que Alan o estava golpeando. Eles o pisotearam e golpearam até que perdeu toda a sensibilidade nas pernas e em um braço. Alan deu um passo para trás e lhe apontou a arma. — Faça as suas orações, Gautier. Está a ponto de se converter em uma estatística.
  16. 16. ~16~ CAPÍTULO 2 Nick desejou lançar-se contra ele, tão gravemente podia sentir o gosto. Não vou morrer assim. Não baleado em uma sarjeta por gente que se supõe sejam meus amigos. Meninos que conheci e com os quais brinquei toda minha vida. Não o farei. Entretanto, aqui estou. Desamparado. Débil. Derrotado. Não só tinha as papilas gustativas empapadas de sangue, mas sentia como se afogasse nele. A mente lhe ardia em desejos de lutar até que lhe pedissem misericórdia, quis levantar-se e lhes fazer tragar os dentes, mas o corpo se negou a cooperar. Nada estava escutando-o. Diabos, nem sequer podia evitar que o golpeassem. Não podia fazer nada absolutamente, olhou com ódio para Alan e esperou que só esse olhar atormentasse o rato para o resto da eternidade. Alan ria enquanto apertava o gatilho. Contendo a respiração, Nick esperou o som que terminaria com sua vida. Da escuridão, uma mancha se adiantou no mesmo instante em que Alan disparava a arma. Em um momento, Tyree, Alan, e Mike estavam rindo de sua dor enquanto o insultavam, no segundo seguinte, voavam pelo ar e golpeavam o chão perto dele o suficientemente forte como para quebrar-lhe os ossos. Nick congelou enquanto tratava de averiguar onde tinha recebido o disparo, mas seu corpo doía tanto que não poderia dizê-lo. Talvez não tenha acertado em mim... Estendido na rua captou um brilho de cabelo loiro e roupa negra enquanto alguém atacava a seus ex-amigos. Alan deu um grito e a pistola caiu no chão junto dele. O homem loiro estalou a língua. — Que vergonha, é muito jovem para matar. Mas em dois anos, se te pegar fazendo esta merda de novo, não vai viver tempo suficiente para reconsiderá-lo. Com uma mão, lançou Alan à rua como um boneco de pano. Com um redemoinho de cor negra e um brilho de prata, o homem virou-se para enfrentar Nick. Não sabia por que, mas o tipo lhe recordava mais a um corretor da bolsa, rico, que a alguém capaz de derrubar bandidos de ruas. E não era velho. Possivelmente no fim dos vinte. Possivelmente. Nick logo que pode tomar fôlego quando o homem se aproximou com a caminhada de um predador perverso. Estava todo vestido de negro. Um casaco de couro caía sobre o corpo que era letal. Mas foi o brilho de prata no par de botas negras o que lhe chamou a atenção. Uma delas tinha uma faca que se sobressaía da ponteira. Uma faca que se retraiu enquanto se aproximava. O homem ajoelhou-se de testa enrugada e com o cenho franzido. — Eles fizeram um estrago em você, menino. Pode se levantar? Nick lhe deu um tapa quando o homem estendeu a mão para lhe tocar. Não necessitava a ajuda de ninguém. Em especial, de um estranho. Tratou de empurrar-se com os pés, então, tudo ficou negro.
  17. 17. ~17~ Kyrian Hunter apenas se apercebeu do menino fraco vestido com uma espantosa camisa havaiana laranja antes de descer a rua. Essa camisa horrível tinha lhe salvado a vida. Tão brilhante que virtualmente resplandecia, tinha lhe atraído o olhar quando vinha caminhando pela rua e tinha o alertado sobre a briga. Pelo que tinha visto, o menino era um pequeno brigão resistente. Concederia lhe isso. O menino poderia receber uma terrível surra sem pedir clemência. Não havia muitos adultos que pudessem ter sofrido o que ele sofreu sem chorar. Só isso já o tinha feito respeitar o menino. Olhou para os outros vândalos correndo rua abaixo o mais rápido que podiam. O antigo guerreiro predador dentro dele queria caçá-los e matá-los pelo que tinham feito. Mas o homem que tinha dentro dele sabia que este, tinha posto sua vida no meio para salvar ao casal de idosos, não viveria se o fizesse. Os covardes por desgraça podiam esperar para receber um golpe em suas bundas. Inclinou a cara do menino para poder ver o estrago. O cabelo castanho e curto estava impregnado de sangue, e um corte amplo que provavelmente deixaria uma cicatriz se sobressaía por cima da sobrancelha esquerda. O nariz estava quebrado e pelo que se via a mandíbula poderia estar também. Se não estivesse quebrada, tinham- na golpeado bem. O sangue saía de enxurrada do ombro no qual tinha recebido o disparo. Pobre garoto. Pegando-o, Kyrian o levou até seu carro de modo que pudesse levá-lo ao hospital antes que sangrasse mais e morresse. Kyrian passeava pela sala de espera, onde várias dúzias de pessoas se sentavam em diferentes estados de agitação e enfermidade. Fazia quase duas horas desde que tinha entregado o adolescente ao pessoal e ainda não tinha notícias sobre o garoto que tinha encontrado. Estaria vivo ainda? Comprovando seu relógio, grunhiu. Realmente não tinha tempo para ficar aqui e esperar... Tinha assuntos importantes para atender e, com sorte, mais vidas que salvar antes do amanhecer. — O que está fazendo aqui, General? Ficou imóvel ante a voz grave, e densamente acentuada. Desde que Acheron era um imortal onipotente de onze mil anos de idade, era a última pessoa que Kyrian tinha esperado encontrar em um hospital. Não era como se o homem pudesse quebrar um osso ou adoecer. Voltou-se lentamente para encontrar Acheron junto à entrada. Com os dois metros e sete centímetros, o cabelo verde escuro, vestido todo de negro como um gótico, completando com uma jaqueta de couro cravejada, era um espetáculo impressionante e que faziam com que tragassem de medo todos os o vissem. Mas não era só sua altura, que fazia as pessoas deterem-se. Era a aura letal de vou-bater-em- seu-traseiro-tão-forte-que-os-teus-ancestrais-vão-ouvir. Qualquer um que se aproximasse dele podia sentir o poder sobrenatural que emanava pelos poros deste ser peculiar... Ser... — O que está fazendo você aqui? — perguntou Kyrian.
  18. 18. ~18~ Com os olhos completamente protegidos por um par de escuros óculos de sol apesar de que era quase meia-noite, Acheron mostrou um sorriso meio de lado que o incomodava. — Eu te perguntei primeiro. Se tivesse sido alguém diferente e não Acheron que tivesse feito esse comentário, Kyrian lhe mostraria uma dose mais alta de caráter. Mas o caráter não trabalhava sobre Acheron. Simplesmente incomodava, o que nunca era uma boa coisa. — Encontrei a um garoto na rua recebendo uma boa surra no traseiro. Não sei quem é, mas não quero deixá-lo aqui sem um adulto para vigiá-lo. Foi gravemente ferido na briga e não tem a idade suficiente para ficar sozinho. Acheron inclinou a cabeça como se estivesse escutando vozes que só ele podia ouvir. Kyrian odiava cada vez que ele fazia isso. Era horripilante pensar que tudo era sussurrado ao antigo ser. Mais que nada, era horripilante pensar tudo o que esse homem sabia sobre ele, coisas que Kyrian nunca havia lhe dito… — Seu nome é Gautier. Nick Gautier. É um garoto de quatorze anos de idade, estudante da escola secundária St. Richard's School do Chartres, vive no Lower Ninth Ave Claiborne. Kyrian estava impressionado. — Conhece-o? Não havia nenhum indício de emoção no Acheron. — Nunca o tinha visto antes. — Entretanto, sabe seu nome? Esse sorriso arrogante voltou a irritar Kyrian. — Sei muitas coisas, General. — Acheron elevou a mão e uma peça de papel apareceu do nada entre seus dedos. Ele o sujeitou — Sua mãe é uma bailarina exótica chamada Cherise Gautier. Pode contatar ela aqui. Mas tenha muito cuidado. Ela tem uma língua afiada quando se trata de seu filho e se pensar que você o machucou ou fez algo de ruim ao garoto... virá por seu sangue. Kyrian tomou o papel de sua mão. — Eu gostaria de te perguntar sobre esses seus truques mentais Jedi, mas sei que não vai responder. Acheron meteu as mãos nos bolsos da gasta jaqueta que tinha duas correntes envoltas ao redor do ombro. — Sem comentários, mas vou dizer-te isto. — Fez uma pausa antes de falar outra vez — Nick não é Jason. É uma época e um lugar diferente, General. Não deixe que o passado arruíne seu futuro. — O que quer dizer, OH grande Yoda? Acheron não deu mais detalhes. — Cuide do menino. Farei sua ronda esta noite. Poderia praticar tiro. — Obrigado pela compreensão. Depois de tudo, Acheron era seu chefe e poderia facilmente ter brigado com ele por não cumprir com seus deveres. Acheron inclinou a cabeça para ele e abriu caminho para fora do hospital através das portas que conduziam ao estacionamento. E com ele foi embora a sensação de grande poder no ar. Sim, Acheron era um temível filho de puta. Mas Kyrian não estava exatamente incomodado com isso. Acheron tinha o treinado e tinha sido aluno de um professor,
  19. 19. ~19~ sobre tudo quando se tratava de matar coisas que não deveriam estar vivendo em primeiro lugar. Jogando uma olhada no número que tinha na mão, tirou o telefone e ligou para a mãe de Nick. Nick gemeu enquanto piscava para abrir o... Olho. Uh, gah, o que estava acontecendo? Sua cabeça estava dolorida e tinha algo sobre o olho que lhe impedia de abri-lo. Por favor, não me diga que perdi um olho. Sua mãe ia ficar girando em torno dele. Esse era o seu maior medo. Não brinque com esse “espaço em branco”, Nick. Você poderia perder um olho. Era seu discurso favorito sem falar que ela ia matá-lo por ele ser agora um ciclope. Deus, eu nunca vou conseguir uma namorada. As mulheres não saíam com aberrações. — Cuidado garoto. Nick se deteve ao dar-se conta de que estava em um quarto de hospital. Tentou sentar-se, mas alguém lhe deteve. Sua angústia aumentou ao reconhecer o homem loiro da briga. — Onde estou? — No Hospital. — Sério? Tá brincando? E eu que pensava que estava no McDonald's. — Nick se deslumbrou ante a estúpida resposta — Não posso ficar aqui, não posso pagar. O homem ignorou seu sarcasmo, mantendo o rosto completamente impassível. — Não se preocupe com o preço. Eu me encarrego disso. Sim, claro. — Não aceitamos caridade. Nick fez uma careta quando a dor lhe atravessou o crânio e se deu conta que tinha o braço em uma tipoia. Não se atreva a quebrar um osso, Nicky. Não posso me pagar nenhum atendimento médico nem nada do tipo. Faça o que fizer não se machuque. Nick se sentiu mal por tudo o que tinha acontecido. — Minha mãe vai me matar. — Duvido. Se o desconhecido soubesse... — Sim, bom, eu não. Acontece que conheço essa mulher desde o dia em que nasci e ela vai me bater até sangrar. Levantou a vista para o estranho que lhe tinha salvado a vida. Ele era enorme. Provavelmente tinha ao redor de um e noventa e cinco, com o cabelo loiro e curto, estava todo vestido de negro. Um negro caro. Calça bacana, botas Ferragamo e, a menos que Nick estivesse errado em sua conjetura, a camisa abotoada era de seda com os punhos e o pescoço de pele, não essas coisas falsas que vendiam nas lojas onde ele e sua mãe compravam roupa. Quanto a seu casaco, o couro era tão suave, que nem sequer fazia aquele som rangente do couro. Este cara estava definitivamente bem vestido. — Por que não posso mover o braço? — Nick estava começando a sentir pânico. — Recebeu um tiro. — Onde? — No ombro.
  20. 20. ~20~ Antes que Nick pudesse dizer outra palavra, escutou o grito angustiado de sua mãe. Do lado onde tinha a vista bloqueada, ela apareceu e envolveu seus braços ao redor dele. — OH, Meu Deus, meu bebê. Você está bem? — Gritou quando viu as ataduras na cabeça e sobre o olho — O que fizeram com você? Por que não estava em casa, como eu pedi? Maldição Nicky, por que não me escuta? Só por uma vez em sua vida! — Não foi culpa dele. Sua mãe lhe soltou imediatamente. Voltou-se para o desconhecido, que ainda estava no quarto. — Quem é você e por que está aqui? Ele tendeu a mão. — Kyrian Hunter. Eu sou a pessoa que ligou para você. Ele estreitou a mão de sua mãe. Houve um contraste marcante entre o desfiado casaco de lã de segunda, botas de vinil branco, e a saia de poliéster vermelha com lentejoulas que sua mãe usava, Nick sabia que esse era um dos trajes de dança. Sua pequena mãe era uma bela mulher, mas a maquiagem forte e exagerada a fazia aparentar muito mais do que seus vinte e oito anos e ele odiava quando ela usava o cabelo loiro para os shows. Fazia com que ela parecesse vulgar e sua mamãe era justamente o oposto. — Obrigada por isso, senhor Hunter. Novamente, onde você o encontrou? Nick entrou em pânico. Se Kyrian dissesse onde ele estava quando tinha recebido o tiro, ela atiraria outra vez nele só por causa disso. — Ele estava no bairro, tratando de proteger a um casal de idosos de ser assaltado. Eles escaparam e os bandidos que haviam tentado assaltar o casal estavam lhe golpeando, quando os vi, os detive As lágrimas brilharam nos olhos da sua mãe. — Você salvou o meu bebê? Kyrian assentiu com a cabeça. Ela soluçou ainda mais forte. Nick se sentia como uma merda total. Era uma boa coisa que seu pai não estivesse aqui. Ele teria lhe cortado à garganta por inquietar sua mãe desse modo. — Não chore mãe. Lamento que eles tenham atirado em mim, deveria ter feito o que me disse e ir a casa... sinto muito. Ela secou as bochechas, onde a maquiagem estava agora marcada pelas lágrimas. — Você não fez nada errado, filho. É um herói. Um herói maravilhoso e não poderia estar mais orgulhosa de você. Nick fez uma careta ante a mentira. Não era um herói. Era um valentão... igual ao seu maldito pai. Encontrou o olhar fixo de Kyrian e algo em seus olhos o fez acreditar que na realidade Kyrian poderia saber da verdade. Se o fizesse não o desmascararia, o que só o fez sentir-se pior. Sua mãe deixou escapar um suspiro. — O doutor me disse que teria que ficar aqui por uns dias, possivelmente uma semana ou mais. Não sei como vamos pagar. — Não se preocupe com isso. Eu cuido da conta. Ela entrecerrou os olhos sobre Kyrian. — Não posso deixar que faça isso. — Está tudo bem. É o mínimo que posso fazer por ele. Não há muitos garotos de sua idade que receberiam uma bala para manter um estranho a salvo.
  21. 21. ~21~ De qualquer maneira ficou na dúvida. Kyrian lhe ofereceu um sorriso amável e muito reservado. — Tenho dinheiro, senhora Gautier. — Wow, diferente do Peters, ele não zombava de seu título. Na realidade o disse como se a respeitasse — E ninguém o gasta. Confie em mim, você não está tomando um centavo que minha família ou eu vamos sentir falta. Ela mordeu o lábio. — Isso é muito amável de sua parte. Sobre tudo, depois de tudo o que já fez ao trazê-lo para cá. —Tomou a mão sã do Nick na sua e a apertou — Não posso lhe agradecer o suficiente por salvar o meu bebê, senhor Hunter. Nicky é tudo o que tenho neste mundo. Morreria se algo lhe acontecesse. Algo escuro passou fugazmente através dos olhos de Kyrian, o que lembrou a Nick um fantasma atormentando. As palavras de sua mãe tinham trazido alguma dor do passado. Kyrian tirou sua carteira e a abriu. — Este é meu número. — Deu a sua mãe um pequeno cartão —. Se necessitar de algo, não duvide em me chamar, a qualquer hora, do dia ou da noite. Não durmo muito, assim não se preocupe se vai me incomodar. Ela tratou de devolver-lhe, mas Kyrian não o permitiu. — Olhe — disse com firmeza — Sei que não me conhece ou confia em mim absolutamente. Não lhe culpo. Mas há gente no mundo que pode dar sem pedir nada em troca. Eu sou um deles. Ela negou com a cabeça. — Eu sei o quanto custam coisas assim. Não posso pegar essa quantidade de dinheiro de você nem de ninguém. Nunca. O olhar castanho escuro de Kyrian foi para o Nick. — Então o deixe trabalhar para mim. Nick balbuciou indignado. — Desculpe? Eles não prestaram atenção. — Não seja ridículo — disse sua mamãe — Teria que trabalhar para sempre para conseguir lhe devolver esse dinheiro. Uh, sim... E a ultima coisa que Nick queria era ser contratado como aprendiz para saldar a conta do medico. Kyrian devolveu a carteira a seu bolso. — Então o que é que quer fazer? Que o hospital lhe jogue na rua antes de ter ficado bom por completo? Com feridas assim, poderia adquirir uma gangrena e perder uma extremidade ou morrer. A desesperança brilhava em seus olhos azuis e essa visão chutou Nick diretamente no estômago. — Senhora Gautier... — Um tic apareceu na mandíbula de Kyrian — Eu sei que não poderia dizê-lo me olhando, mas tive uma vida difícil. Perdi todos os que alguma vez foram importantes para mim e sei o que é a ser chutado fortemente quando está por baixo. Você tem um grande menino aí. Merece uma oportunidade. Que trabalhe para mim, meio período, depois da escola durante um ano, e diremos que estamos em paz. Ela olhou para Nick, que não se vendeu a essa ideia. — Fazendo o que? — Lavando meu carro. Anotando recados. Sua mãe franziu o cenho. — Que tipo de recados?
  22. 22. ~22~ — Sim — interveio Nick —. Não sou babá ou levo os cães para passear. Kyrian rodou os olhos. — Não tenho filhos ou cão — voltou a olhar para a mãe de Nick — Teria que fazer a feira, fazer um pouco de limpeza. Pode trabalhar com meu jardineiro podando a grama ou ajudar a minha governanta a limpar o exterior das janelas. Nada perigoso ou ilegal. Isso não soava tão mal, mas Nick já tinha um trabalho que gostava na maioria dos dias. — O que vai acontecer com a senhora Liza, mamãe? Quem vai lhe ajudar em sua loja? Kyrian franziu o cenho. — Liza Dunnigan? — Você a conhece? — perguntou Nick surpreso. Outro sorriso muito reservado irrompeu em seu rosto. — Sim. Conhecemo-nos faz muito tempo, e acredito que ela entenderia se você for trabalhar para mim durante um tempo. A mão de sua mãe se esticou sobre a sua. — Não sei... o que acha, Nicky? Nick olhou o seu braço na tipoia. Na realidade não havia outra forma que pudessem pagar essa fatura. E se Kyrian pagava, sua mãe não teria que sofrer... — Contanto que ele não seja um pervertido e Liza não se importe, suponho que posso trabalhar para ele. Kyrian se pôs a rir. — Não sou um pervertido. — Melhor que não, porque irei embora se o for. Kyrian assentiu com a cabeça. — Então, está arrumado? A indecisão se produziu no olhar de sua mãe antes que ela afirmasse com a cabeça. — Obrigada. — Não há problema. Agora bem, se me dão licença, tenho uma entrevista que me aguarda. Nick franziu o cenho. — Tão tarde? — perguntou sua mamãe com receio. Kyrian assentiu com a cabeça. — Tenho muitos negócios internacionais que me obrigam a trabalhar até tarde da noite. Como hei dito, eu não durmo muito. — E com isso, foi. Agora que estavam sozinhos, sua mãe lhe dedicou plena atenção. — O que acha disso, realmente? — Acredito que estou realmente feliz por não estar morto, por você não está zangada comigo por conseguir que atirassem em mim e terminar no hospital, acumulando dividas que não podemos nos permitir. Seus lábios tremiam. — Bebê, como eu ia estar zangada contigo por algo assim? Só desejaria conseguir dinheiro suficiente para que não tivesse que trabalhar também. Se tivesse estado em casa… — Não, mamãe, por favor. A culpa estava lhe matando. Ela levantou a sua mão até seus lábios e lhe beijou os nódulos com ferimentos.
  23. 23. ~23~ — Muito bem, querido. Precisa descansar. Não se preocupe ou pense em nada mais que em melhorar. Tirou-se do bolso uma liga negra para o cabelo e amarrou o cabelo em um cômodo rabo-de-cavalo. Nick sorriu, sabendo que ela o fazia por ele, para que ele não se envergonhasse de seu cabelo loiro comprido. Logo se dirigiu ao banheiro para poder limpar a maquiagem e tirar o brilho falso dos cílios. Era muito mais bonita sem toda essa gosma na cara, ele não entendia por que a faziam usar. Uma vez que ela se via de novo como sua mãe, deslizou-se na cama junto a ele e lhe abraçou. Normalmente, estaria rechaçando-a porque sentiria como se ela estivesse lhe afogando. Mas esta noite, enquanto doía e doía, alegrou saber que ela estava por perto lhe abraçando. Sempre tinha sido apenas eles dois no mundo. Uma Equipe Fabulosa. Assim era como ela os tinha chamado desde que ele podia lembrar. Juntos poderiam passar por tudo. Apartou-lhe o cabelo da têmpora e lhe deu um ligeiro beijo ali. — Você é meu rapazinho, Nickyboo7 . E eu sou tão grata por ter você. Você é a única coisa certa que eu fiz em toda minha vida e se algo acontecesse a você, teriam que cavar duas tumbas, pois eu não poderia viver um só dia sem meu bebê ao meu lado. Suas palavras quase conseguiram fazer com que os seus olhos lacrimejassem, mas era muito duro para isso. Nada podia lhe fazer chorar. Nada. — Amo você, mamãe. — Amo muito você, bebê. Agora vá dormir. Precisa melhorar logo, assim posso bater em você por ter se machucado. Sorrindo por sua ameaça vazia, Nick fechou os olhos, mas não podia dormir. Sua mente não deixava de repassar o olhar no rosto do Alan quando tinha apertado o gatilho. O canalha tinha tentado mata-lo... E embora fosse a última coisa que fizesse, ia vingar se. Como seu papai diria: Nosso sangue não foge. Às vezes queremos fazê-lo. Às vezes devemos. Mas nós nunca fugimos de nada nem de ninguém. A próxima vez que se encontrasse com o Alan e sua “turma” iriam sentir a ira de Nick Gautier… 7 Boo é um termo derivado da palavra francesa "Beau" significa bonito. Na Inglaterra, século 18 significou um admirador, geralmente do sexo masculino.
  24. 24. ~24~ CAPÍTULO 3 Nick aprendeu uma nova lição sobre miséria enquanto jazia na cama, sozinho, no hospital durante vários dias, aborrecido de pensar. Sua mãe ficou com ele tanto quanto pode, assim como Menyara, mas não podiam estar sempre presentes. Kyrian se atinha a lhe visitar somente à noite e durante o dia o faziam algumas das bailarinas do clube de sua mãe. Entretanto, passava a maior parte do tempo sozinho. A parte mais aterradora? A escola estava começando a lhe parecer uma coisa boa. Estremeceu de repulsa ante este horrível pensamento. — Olá… um, Nick, não? Abriu os olhos para encontrar-se de frente, entre todas as pessoas, a Nekoda em pé na soleira da porta. Com o cabelo preso em um grosso rabo de cavalo, vestida com um uniforme de voluntária, entrou no quarto. O calor lhe picou nas bochechas enquanto ela olhava seu desastroso estado. Nick clareou a garganta. — Sim, sou eu, mas eu gosto de pensar que tinha melhor aspecto quando nos conhecemos. Porque justo agora, estou monopolizando todo o feio. Ela riu. — Não se ofenda, mas sim, você estava um pouco melhor. Mas tenho que te dizer que realmente você está se saindo muito bem com esse capacete brilhante que usa agora mesmo. Não é coisa fácil ter boa pinta. — Lhe piscou um olho. Só podia imaginar o quão mal se via. Sua cabeça ainda estava enfaixada, seu olho exposto machucado e inchado. Tinha um ombro em uma tipoia para mantê-lo quieto e o outro conectado aos monitores e a uma intravenosa. Levava uma bata de hospital salpicada do “oh-tão-masculinas” coisas floreadas por toda parte. Gah, neste momento, preferiria estar de novo com sua camisa havaiana laranja. Tudo o que necessitava para parecer um imbecil maior era babar. O que poderia fazer se ela continuasse falando com ele. Ela se deteve ao lado da cama e olhou por cima de todos os monitores que soavam e cantarolavam. — Então o que aconteceu com você? — Atiraram em mim. Suas sobrancelhas se arquearam muito. — No olho? Por isso está coberto? — Não. Fui golpeado por um punho, um pé, e provavelmente umas poucas coisas mais. Tenho um montão de pontos sobre o olho. O doutor disse que o curativo é assim, mas posso tirar amanhã. Estou seguro que estarei melhor então. — A voz estava carregada de sarcasmo — Atiraram no meu ombro. — OH — disse calma enquanto franzia o cenho para a tipoia — Doeu? Queria dizer que não, duh, mas o sentido comum lhe conteve a língua antes de insultá-la. Apesar de sentir que ainda doía, incorporou-se em uma postura forçada. — Nah. Levei como um homem. Ela sacudiu a cabeça para ele e não fez nenhum comentário sobre a bravata. — Então por que lhe dispararam? Uma de suas piadas foi ruim? Nick não estava seguro de como responder a isso. Não queria tomar crédito por algo que na realidade não tinha feito, como salvar às pessoas a que tinha ajudado a pôr em perigo. Assim que se decidiu por uma verdade menor.
  25. 25. ~25~ — Lugar errado. Hora realmente errada — Viu quem atirou em você? — Não — ele mentiu. Ele nem havia dito a policia e por varias vezes chegou a lamentar que ele não houvesse dito em varias ocasiões. Regra número um da rua: os traficantes não vivem muito tempo. Além disso, tinha a intenção de acertar as contas por si mesmo e a ultima coisa que queria era que Alan e seu grupo estivessem protegidos atrás dos muros da prisão quando ele fosse atrás deles. Isto ia ser entre “amigos”. — Como dizem nos filmes e espetáculos, tudo aconteceu tão rápido… Ela se mostrou inquieta por ele. — Bom, sinto que tenham atirado em você. Isso explica o porquê de não ter te visto na escola. Animou-se ao ouvir isso. Tinha estado lhe procurando? Homem, por essa notícia, receberia uma bala em qualquer dia. Era tudo o que podia fazer para não esboçar um sorriso tolo. Ela se aproximou mais. — Mas me alegro de que esteja vivo e bem. — Sim, eu também. Teria impedido realmente meus planos futuros se tivesse morrido… — Lançou o que esperava fosse um sorriso encantador e então mudou de tema — Assim trabalha aqui? — Voluntária. Duas vezes por semana — corrigiu —Me disseram que coisas como esta são levadas em conta ao se inscrever para a universidade. Uau, ela já estava preocupada com isso? Isso o fez sentir como um folgadão. — Só estamos no nono grau. Ela encolheu os ombros. — Sim, mas cada ano a partir de agora até a graduação importa e tudo o que fazemos afeta em onde podemos entrar. Assim estou tratando de marcar a diferença. — Gah, falas como minha mãe. — Sinto muito. — Enrugou o nariz da forma mais adorável. Ele não sabia por que, mas aquilo fez seu estômago se esticar e o calor subiu-lhe ás bochechas, se seguia com isso, poderia ser alugado como farol de transito. — Assim posso te conseguir algo para beber? — perguntou— Sorvete? Tenho revistas e livros em meu carro se você desejar algo para ler. — Mataria por um Nintendo. Ela pôs-se a rir. — Não tenho um Nintendo no carro. Sinto muito. — Tem um pouco de mangá? — Mangá? — Franziu o cenho—. O que é isso? Merda. Era muito esperar que ela compartilhasse alguns de seus interesses pouco usuais. — Gibis japoneses. Sou viciado neles. — Não, sinto-o de novo. Tenho alguns do Batman e Homem-Aranha se estiver interessado. — Isso seria genial. — Eram muito mais curtos que os mangás, mas ao menos passaria um par de minutos enquanto os lia — Tem um pouco de ficção científica ou fantasia? — Temos um par de livros da Dune8 . 8 Dune - A Historia de um estranho planeta que, em meio de intrigas políticas e religiosas, se defronta com Problemas Ecologicos Provocados Pela Escassez de Agua em sua Superficie.
  26. 26. ~26~ — Agora definitivamente você poderia me vender. Ela sorriu. — Volto num instante. Nick a olhou enquanto ela saía do quarto com uma sacudida de quadris que deveria ser ilegal e em alguns estados provavelmente o era. Era realmente formosa. Não sabia como era seu cabelo, mas realmente lhe dava vontade de tocá-lo. Parecia tão suave e liso. Provavelmente cheirasse bem também. Igual a sua pele. Em que está pensando? Está tão fora de seu alcance… As garotas como ela não saíam com perdedores idiotas que assaltavam turistas. Era do tipo que saía com esportistas e se casavam com advogados, cirurgiões e essas coisas. Só podia imaginar o tipo de infância que ela tinha tido com babás e tutores e festas de aniversário com presentes envoltos em papel de presentes brilhantes decoradas à mão. Seus pais provavelmente dariam as costas e morreriam se soubessem que tinha estado sequer falando com uma imundície como ele. — Aqui está — voltou e entregou uma pilha de livros e gibis. Nick sorriu. — Deus te abençoe. — Sempre. — deu um passo apartando-se da cama —. Bom, é melhor que vá. Ainda tenho que fazer minhas rondas e visitar outros pacientes. Prometi à senhora O'Malley que jogaria rumm9 y com ela hoje. Uau, isso era realmente doce. — Certo. Muito obrigado por vir e pelos livros. Ela inclinou a cabeça. — Tome cuidado. — Você também. Então ela tinha ido. Nick suspirou enquanto lhe entrava a depressão. Odiava estar aqui, mas mais que nada odiava não ser digno de nunca ter uma namorada como Nekoda. Poderia divertir-se e fingir tudo o que quisesse. Não mudaria nada. Ela ainda voltaria para seu lar, sua bela casa, e ele se arrastaria de novo à sarjeta na qual tinha nascido. Tratando de não pensar em coisas que não podia mudar, abriu um livro e começou a ler. Nick suspirou e se moveu, então despertou sobressaltado ao sentir como se estivesse caindo da cama. Piscou abrindo os olhos para encontrar-se ainda no hospital, sozinho. Gah, isto é uma porcaria. Desejando ter dormido mais de duas horas, estirou-se até a bandeja para agarrar outro livro e congelou. Havia uma pequena caixa que não tinha estado ali antes. Franziu o cenho, alcançando-a, e logo a abriu. Dentro havia um Nintendo rosa e uma pequena nota. Sinto pela cor. O rosa é a minha preferida. Mas eu espero que isto possa evitar deixar-te louco para que não tenhas que matar a alguém. Imagino que posso ficar sem ele um par de dias se mantiver a sua sanidade mental. Melhore logo, 9 Rummy - é um jogo de cartas popular originado nos acampamentos esalões no Velho Oeste
  27. 27. ~27~ Kody. Ficou olhando a nota enquanto uma onda de emoção lhe afligia. Era a coisa mais agradável que alguém tinha feito para ele. A caixa estava cheia de jogos, dos clássicos de estratégia aos de ação. Que coisa tão incrivelmente legal que ela fizesse isso por ele. Realmente lhe comoveu. Agarrando-a, sustentou o console na mão. Por alguma razão, o fazia sentir estranhamente perto dela. Os consolas são pessoais. Uma extensão de si mesmo. Da cor até os adesivos… Tudo vinha de dentro e era algo que mantinha perto de si. Algo que vigiava e protegia. E tinha lhe emprestado a sua. Não era muita gente que o faria. Especialmente não alguém tão linda como Kody. A garota estava louca. Talvez gostasse dele. Esse pensamento fez com que o sangue corresse como fogo pelas veias. Poderia ser possível? É perigosa para ti. Evite-a. Franziu o cenho ante a profunda voz que lhe atemorizou a cabeça. Soava quase demoníaca. Que demônios? — Estou a ficar louco de aborrecimento. — só um lunático quereria evitar a uma garota tão agradável e bonita como Kody. — Agarrou-o? Nekoda se esticou quando sentiu o ar que a rodeava se agitar. O poder era evidente e era um com o que estava intimamente familiarizada. Sraosha. Seu guia e mentor. Nekoda fechou a porta do armazém para evitar que ninguém mais no hospital entrasse inocentemente e visse a forma de Sraosha. Alto e elegante, era tão formoso que era difícil o olhar de frente. Seus poderes eram tão grandes que se manifestavam como uma aura em constante movimento que iluminava sua pele com um brilho amarelo brilhante. Seu cabelo comprido e loiro lhe fluía ao redor dos ombros enquanto fixava seu olhar nela… um olhar que não tinha olhos. Só uma cavidade cheia de fumaça negra que era tão espantoso como peculiar. — Deixei com ele — sussurrou ela. Nick não tinha nem ideia que seu Nintendo lhe permitia manter um olho sobre ele enquanto estivesse ao seu redor. Sraosha assentiu. — O que pensa deste? Era mais jovem que os outros Malachai com os que ela tinha lutado. Mais inocente. Ainda doce. Não deixe que te seduza. Isso era a última coisa que tinha que deixar acontecer. — Parece… —Tinha que escolher cuidadosamente as palavras —. Diferente. — Crê que ele é o eleito? — Não sei. — No começo dos tempos, tinham rastreado ao Malachai certo. O que poderia voltar-se contra as forças escuras que lhe tinham engendrado e lutar com eles contra A Fonte para poder liberar a seus irmãos.
  28. 28. ~28~ Mas até agora, tinham perdido a cada Malachai que tinham tentado salvar. A escuridão dentro de cada um era mais do que podiam resistir. E quem poderia lhes culpar? Toda sua estirpe tinha nascido para causar dor. Nascido para exercer os mais escuros poderes imagináveis. Assim como Nekoda tinha nascido para a luz. Nick ainda era um menino que não tinha nem ideia do que é que era. Mas ela sabia exatamente a classe de violência para a que tinha sido criado. E lhe aterrava. — Menyara jura que podemos salva-lo. Sraosha se burlou. — Está muito envolvida com este. Está cega e não vê o que ele é de verdade. Talvez fosse isso, mas Nekoda não tinha esse apego por ele. — Não tenha medo. Não estou cega. Seu encanto não me enfeitiça. — Assegure-se de não ser mais uma vitima dele. Lembre-se, é só um dos muitos poderes que possui. Poderes que funcionam em todos os mortais e imortais por igual. Como já viu, o mal já começou a lhe tentar e só se agravará à medida que o tempo passar. Nekoda tragou enquanto lembrava o sucesso com que lhe atiraram e machucaram. — Saiu antes de lhes machucar. — Desta vez. Mas esse ato só deriva da violência contra outro que desatou a seu Mago Cimerio. Os poderes escuros se unem agora para treiná-lo. Não pode senti- lo? Sim. Estava impregnado em tudo por aqui e lhe enviava um calafrio selvagem pela coluna. Havia dez lições que ensinavam a cada Malachai. Cada uma delas lhe faria mais forte. Mais corrupto. O transformariam em um instrumento do mal que iria atrás dela e de sua gente e semearia a miséria absoluta sobre todos os que entrassem em contato com ele. A primeira lição era a nigromancia. Mas não só a comunicação com a morte. Reanimação e controle. Não importava o muito que Nekoda tentasse, não podia ver Nick chegando a ser como os outros. Certamente não abraçaria esse frio poder. Cometeu um engano ao pensar assim antes. Fez uma careta ao recordar seu pai e quão equivocada tinha estado então. Se tivesse lhe golpeado quando o disseram, teria salvado inumeráveis vidas. Era a luz em seu interior que queria acreditar na bondade dos outros. Inclusive no Malachai. Tinha mostrado misericórdia ao Malachai mais velho e lhe tinha cuspido na cara e abraçado seu próprio estigma do mal. Não importava o que fosse não voltaria a ser tão estúpida. — Não tema, Sraosha. Aprendi com o meu engano. Desta vez, não falharei. Se não puder lhe converter, o matarei. — Melhor lembrar-se disso. Porque este é inclusive mais forte que seu pai e agora está sendo adotado e treinado pelos Dark-Hunters. Se não puder lhe converter, ele será o que finalmente destrua a todos nós. E ela seria a culpada da morte de toda a humanidade.
  29. 29. ~29~ CAPÍTULO 4 — Seja bem-vindo ao lar, Nicky! Nick abriu os olhos para encontrar-se em sua sala de merda com sua tia Menyara parada na frente dele, sustentando um bolo de chocolate comprado em loja com as mesmas palavras felizes escritas nele as que ela acaba de pronunciar. Ficou aturdido pela pequena multidão ao redor dela que gritavam as palavras para ele. Droga! Pequena como sua mãe, Menyara tinha a pele suave cor de café chocolate que resplandecia na oscilante luz de vela. Suas mechas frisadas estavam agarradas atrás de seu belo rosto com um longo cachecol amarelo que tinha enrolado ao redor de sua cabeça que se arrastava abaixo de suas costas, justo além de seu cabelo. O amarelo estava refletido em sua blusa camponesa que se metia em uma saia laranja brilhante que caía até o final de seus tornozelos. Finos braceletes de prata delineavam a ambos os braços e tilintaram enquanto ela inclinava o bolo para que ele visse sua bela escritura à mão. — É o seu favorito, cher. Alegra-nos tanto de que esteja em casa. Nick se ruborizou enquanto seu olhar foi dela ao resto das dançarinas que trabalhavam com sua mãe que tinham chegado para sua festa. Ainda John e Greg, dois dos tira bêbados do clube, estavam aqui. Batiam palmas e lhe sorriam, pondo-o extremamente incômodo com a atenção enquanto o felicitavam por ser um herói. Engraçado, que ele se sentisse mais como uma fraude. Menyara baixou o bolo no mostrador para ele. — Vamos, chérie, sopra as velas antes que arruínem seu belo bolo. Sempre gostou do sotaque da Menyara cada vez que falava. Uma sacerdotisa vodu e parteira, tia Mennie, como ele a chamava, era também sua madrinha e a melhor amiga de sua mãe. Ela o havia trazido para este mundo e havia sido sua mãe inclusive depois que seus pais a colocaram para fora. Quando ele era muito jovem para ir ao clube com sua mãe, tinha sido Mennie quem cuidava dele. Só por isso, ele faria qualquer coisa no mundo por ela. — Obrigado, todo mundo, — ele resmungou enquanto ia ao bolo e apagava de um sopro as velas. Sua mãe estava atrás dele com sua mão em seu ombro são. — Todos nós estamos tão orgulhosos de ti, querido. — Isso é verdade. — Greg, um homem enorme como um urso com uma enorme cicatriz e a pele cheia de cicatrizes de varíola, deu um passo adiante para lhe entregar uma caixa —. Fizemos uma coleta para ti no clube. Espero que você goste. Sua bondade o tocou. Sentiu-se mais como um aniversário que uma volta ao lar do hospital. Abrindo de um puxão a caixa, encontrou um jogo do Brigão - Guia das ruas e uma camiseta dizendo isso: Nick Gautier o super-herói do dia. Nick não teve o coração para lhes dizer que não tinha um videogame para rodar esse jogo aqui. Mais do que não poderia lhes dizer que não tinha sido um herói. Só tinha estado tentando fazer algo correto do que ele tinha deixado ir terrivelmente mal. — Obrigado, a todos. De verdade, eu adorei, na realidade o aprecio. Tiffany deu um passo ao redor de Greg e tirou um envelope da caixa.
  30. 30. ~30~ — Esqueceu isto. Nick deu a caixa a sua mãe antes de aceitar o envelope, mas devido a seu braço esquerdo que ainda estava em uma tipoia, não o podia abrir. — Aqui, menino. — Menyara o tomou e o abriu por ele. Ele ficou boquiaberto enquanto via cinco notas de vinte dólares em sua mão. — Para que é isto? Tiffany sorriu. — Seu fundo da universidade. Sabemos que não é muito, mas cobrirá a maioria dos dias de trabalho que perdeu enquanto estava no hospital. Ele olhou para a sua mãe, que sorria de gratidão. Mas ele não se sentiu agradecido. Sentiu-se estranho a respeito disso, especialmente sabendo quão duro todos eles trabalhavam para isso. — Não posso aceitar isto. John bufou. — Toma-o. Não me faça ter que chutar seu rabo e te pôr de volta no hospital, bola de ranho. Somente agradece e não o gaste em drogas ou mulheres porque eu sei o que eu teria feito com isso na sua idade e estamos todos te criando para ser melhor que isso. Nick não soube o que dizer. — Obrigado, amigos. Em realidade o aprecio. Então alguém aumentou o som para tocar a musica "Walk to way" do Aerosmith e a festa começou, embora fosse difícil mover-se em seu pequeno condomínio. Não obstante, as bailarinas estavam acostumadas a estar paradas na passarela magra no clube assim fizeram o que faziam melhor e puseram sua cara tão vermelha com seus movimentos de dança que ele estava seguro que resplandecia igual a néon. Nick levou o dinheiro até o frasco que mantinham debaixo da pia e guardou as cinco notas de vinte dentro, enquanto sua mãe e Menyara cortavam o bolo e repartiam fatias para todo mundo. — Está tudo bem, Menino? Ele assentiu com a cabeça enquanto Menyara lhe dava seu bolo e um garfo de plástico. — Somente cansado. Havia algo em seu olhar que lhe fez se perguntar se ela podia ler sua mente. Foi arrepiante. — Sua mamãe me disse que trabalhará para um homem chamado Kyrian Hunter. É assim? — Sim. Pagarei a dívida pelas contas do hospital. — Então quero que se cuide, Nicholas. Este homem, ele é... Quando ela não terminou a frase, ele a terminou por ela. — Malvado? Ela riu e passou sua mão através de seu cabelo. — Não, não malvado. Mas trabalhar para ele te mudará, acredito. Espero que para melhor. Só queria dizer que deveria ter muito cuidado com o que aprender com os outros e com quem deixar entrar em sua vida. Seu tom sem emoção parou. Mennie sabia coisas, montões de coisas, antes que acontecessem. Sua clarividência era inigualável. — Esses são seus malvados poderes psíquicos falando outra vez? —Talvez, ou apenas são meus malvados costumes superprotetores. — Ela o beijou na testa —. É um bom menino para mim, Nicholas. Sempre.
  31. 31. ~31~ — Sim, bom. — Ele não tinha a intenção de ser um mau, a última vez que o tinha sido, isso não tinha funcionado bem para ele. Como seu ombro que estava ardendo e tinha meses de terapia dolorosa por diante para conseguir que seu braço funcionasse bem outra vez. Acredite, eu acabarei com isto. A próxima vez que ele visse o Alan e seu grupo seriam eles os que iriam mancar. Porque vou pôr meu pé tão forte em seus traseiros que eles vão arrotar sapatos de pele. Ou no caso, os sapatos baratos de Nick, o material feito pelo homem, fosse o que fosse. Ele franziu o cenho enquanto ela se afastava para unir-se a sua mãe e a Tiffany. Houve algo frio no ar que o fez ter cócegas seu pescoço. Descartando-o, comeu seu bolo e então se uniu aos outros, que ainda estavam ouvindo velhas canções dos anos setenta. Ora, poderíamos mudar, por favor, a música até a década correta? O que acontece às pessoas mais velhas e sua música? Bom, ao menos não era disco. A festa não durou muito tempo, devido a sua mãe temer em cansá-lo muito. Um por um saiu até que ficaram simplesmente Nick, sua mãe, e Mennie. Ante a urgência de sua mãe, Nick se encaminhou para sua cama enquanto elas faziam a limpeza. Ele estava quase adormecendo quando a sua mãe o perturbou. — Está em condições de voltar para a escola amanhã? Dificilmente. Realmente gostaria de algumas décadas mais antes que ele tivesse que retornar e enfrentar aos idiotas mutantes... Mas não disse isso a ela. Homem acorde e encare isso Nick. — Suponho que sim. — Bom, mas se não estiver de humor para isso, me avise. Ainda está convalescendo e não quero que faça nada que o estresse. Sim, mas ele já estava tão atrasado que não tinha a certeza se haveria uma pá grande o suficiente para cavar seu caminho para fora e voltar a seu trabalho anterior. Mais alguns dias e ele teria que repetir o ano. Só se me matarem primeiro. Ela alisou o seu cabelo para trás de sua fronte antes de tocar sua testa procurando sinais de febre. — O senhor Hunter disse que teria um carro esperando para te apanhar depois das aulas e te levar para sua casa. Ele me prometeu que era simplesmente uma introdução para ti e que não te faria fazer nada muito intenso. Está de acordo? Ele voltou a dar sua resposta padrão. — Suponho que sim. Ela pôs os olhos em branco. — Bem então. Deixarei você descansar. Avise-me se necessitar de algo. OH, e tivemos que pôr essas flores que seus amigos Bubba e Marcos lhe enviaram no hospital no alpendre da frente. Realmente não se encaixavam na casa. Eles exageraram um pouco. Essa foi uma forma de dizê-lo. Bubba virtualmente tinha lhe enviado uma árvore, com uma nota. O hospital tirou minhas coisas do quarto e só deixariam a menos que eu fosse o único que estivesse sendo atendido lá. Sinto não estarmos ali, cara. Que melhore logo. Lembrar na próxima vez...
  32. 32. ~32~ Dobre o golpe. Bubba e Mark. Nick observou enquanto ela saía e logo fechou a "porta". Esfregando o olho machucado, ignorou sua conversa com a Menyara até que ouviu seu nome mencionado. — Crê que esta confusão impedirá seu crescimento, Mennie? Menyara riu. — Não, chérie. Seu menino vai ser um bom homem, alto um dia. Prometo-lhe isso. — Não sei. Meu papai era terrivelmente pequeno. Apenas um metro sessenta de estatura. Sei que Nick é mais alto que isso agora, mas me assusta como a morte que ele vá deixar de crescer e seja um duende como eu. — Isso é porque é mignon, menina. Supõe-se que sejam pequenas. Seria estranho se não fosse. Mas Adarian é um homem bonito e alto e seu filho vai se parecer com ele. Confie em mim. Essas palavras fizeram com que o sangue do Nick corresse frio. Adarian Malachai era seu pai e era um monstro. A mera menção de seu nome conjurava uma imagem de um gigante, gigantesca besta de homem trespassado na prisão, cheio de tatuagens pesadas. Nick nunca tinha visto o homem quando não tinha estado grunhindo para todo mundo a seu redor e empurrando às pessoas que ficavam perto dele, isso incluía a mãe do Nick. Feroz, amargo, e grosseiro, seu pai era uma peça estranha e ele se alegrava que sua mãe não tivesse se casado com ele e tivesse dado a Nick seu sobrenome. Embora seus avós Gautier não quisessem ter nada que ver com eles, ainda preferia ter seu nome ao do Adarian. Malachai. Droga, nem sequer gostava da maneira como soava. Ora. Nick elevou sua voz para que o ouvissem. — Preferiria ser pequeno, gordo, e feio a me parecer com esse homem. Sua mãe suspirou. — Esse homem é seu pai e se supõe que você esteja dormido, jovem. Não escutando às escondidas nossa conversa privada. O que esperava ela quando tudo o que os separava era uma magra manta azul? — E se supõe que você não fale de mim onde possa te ouvir. Sempre me disse que isso é grosseiro. Riram. — Vá dormir Nick. Vá dormir Nick, ele pronunciou, burlando-se da ordem, era mais fácil falar do que fazer. Sobre tudo, quando seus analgésicos tinham perdido o efeito e seu ombro estava latejando como fogo outra vez. Mas não quis tomar mais. Isso o fazia sentir-se muito sonolento e doente. Preferia a dor antes que ser um zumbi. Além disso, se atuasse como um zumbi, Bubba poderia confundi-lo com uma alucinação e poderia atirar nele. Regra número Um, cara: atira primeiro e pergunta depois. Regra número Dois: Dobre o golpe só por garantia. Melhor estar a salvo, que lamentá-lo. Nick sorriu às leis de Bubba até que contemplou o teto baixo manchado e se perguntou exatamente quão miserável estaria amanhã na escola.
  33. 33. ~33~ Pestanejando de volta à agonia, tirou o Nintendo de Nekoda de seu bolso dianteiro. Não soube por que, mas só tocá-lo o fez sentir-se melhor. Como se tivesse alguém no mundo cuidando dele. Quão estúpido era isso? Ligou-o e manteve o som baixo. Sua mãe não tinha ideia que tinha isto. Ela provavelmente enlouqueceria se soubesse e ele realmente não podia jogar com apenas uma mão, de qualquer maneira. Ainda, gostava do pensamento de tê-lo. O fazia sentir- se especial. Como se estivesse conectado a alguém não relacionado com ele. Como se uma garota de verdade pudesse gostar dele, mais que simplesmente como um amigo. Queria ter coragem de pedir a ela que saísse com ele para comer um lanche depois das aulas. Mas até agora não tinha podido fazer mais do que lhe agradecer por visitá-lo enquanto tinha estado no hospital... o que ela tinha feito cada vez que havia uma mudança. Ele tinha esperado com antecipação todas e cada um dessas visitas como um mendigo faminto conseguindo sua única comida do dia. Era complicado homem, conseguir a coragem para pedir a ela um pouco de atenção tão pessoal. Ele não queria ser repelido e tinha que melhorar muito antes de alcançar as estrelas... que era o que ela era. Uma estrela brilhante, perfeita que o fazia rir cada vez que se aproximava. E ele era um perdedor. Não podia sair a menos que quisesse ser derrubado a tiros. Ele tinha sido arrasado o bastante por seus companheiros de classe, não estava a favor de dar a Kody a oportunidade de lhe bater nos dentes e dar-lhe pontapés. Visto assim, tinha tido a sorte de que ela ainda tivesse falado com ele no hospital. Sem dúvida amanhã ela seria como o resto dos meninos populares e ricos e simularia que ele era invisível. Pondo os olhos em branco ante sua própria estupidez por sequer considerar o pensamento de convidá-la para sair, ele desligou o Nintendo e o colocou de novo em seu bolso. Amanhã tinha que confrontar o demônio principal e aos atrasados de sua escola. Para fazer isso, precisava descansar. E talvez precisasse de um lança-chamas ou dois. Nick estava terminando o bolo que estava comendode café da manhã quando um golpe na porta o sobressaltou. Como sua mãe e todos os seus amigos, exceto Menyara, trabalhavam até o amanhecer, ele não estava acostumado a visitas matutinas. Sua mãe foi abrir a porta. Nesta vizinhança, ele esperava que fossem policiais querendo saber de algo que tivesse ocorrido enquanto dormiam. A pessoa que estava ali o emocionou até o fundo de seu ser. Era Brynna Addams vestida com um belo vestido azul e suéter branco. Com seu cabelo escuro sujeito para trás de seu rosto com por um fino elástico cheio de encaixes sobre a fronte, ela reluzia como um anjo. Um anjo que não correspondia ao estressante buraco que era sua casa. — Olá, Senhora Gautier. Sou Brynna... a amiga do Nick da escola que esteve pegando as suas tarefas do colégio. Como hoje é o primeiro dia dele de volta a escola e tudo isso, meu irmão e eu quisemos lhe dar uma carona... se isso estiver bem para você? Sua mãe abriu e fechou a boca como se estivesse tão aturdida por sua oferta como ele o estava. Dando a volta, ela se encontrou com seu olhar surpreendido. — Conhece alguma Brynna?
  34. 34. ~34~ O calor estalou através de seu rosto, em parte porque ele se envergonhou de sua casa opaca quando estava seguro de que Brynna nunca tinha visto nada tão desgastado em sua vida. E em parte porque sua mãe tinha um olhar estranho na cara que ele realmente não entendeu enquanto ela estava pouco vestida em uma porta aberta. — Hum, sim. — Quer que eles lhe levem para a escola? — Suponho que sim. — Sua resposta padrão sempre que ele estava em dúvida sobre algo. Recolheu sua mochila, mas antes que pudesse pendurar sobre o ombro são Brynna a tirou dele. — Deixe-me levá-la. Você está ainda convalescendo. Nick pegou a mochila de volta. — Não, obrigado. Não vou ter uma garota carregando minhas coisas. Não cairia bem. — E o faria parecer um mega adoentado. Podia dizer que Brynna quis discutir, mas com uma inclinação de cabeça, ela deu um passo atrás e soltou sua bolsa remendada, mal feita e de segunda mão. Sua mãe se moveu para sua frente para o olhar de cima a baixo o pescoço de sua “OH tão adorável” camisa havaiana azul que ele estava usando... ao menos esta não estava tão malditamente resplandecente na escuridão. — Que tenha um bom dia, querido. Sim... Ela só deveria ter dito enquanto ele saia. Algo para diminuir sua virilidade. Sem uma palavra, lhe deu um abraço rápido devido a sua dignidade, que já tinha sido derrotada, então seguiu Brynna para fora, onde seu irmão os esperava em um negro Lexus SUV novo. Ele deixou escapar um assobio baixo de apreciação. Seria um passeio obscenamente agradável. — Sabe, um carro como esse nesta vizinhança... as pessoas vão pensar que vocês são vendedores de drogas. Brynna riu enquanto abria a porta do assento da frente e deu um passo atrás. Nick ignorou seu convite para sentar-se na frente e abriu a porta traseira. — Não quer sentar no assento da frente? Subiu no assento traseiro e fechou a porta antes de responder. —Sem intenção de ofender, não conheço seu irmão e não quero que ninguém pense algo estranho sobre nós. Nem sequer estou seguro de por que vocês estão aqui. Como soube onde vivo? Brynna colocou o cinto de segurança, junto a seu irmão. — Kyrian nos disse isso. Era ele quem pegava as suas tarefas enquanto estava no hospital para que não se atrase muito. Ele congelou. — Fez o que? — Kyrian Hunter? — disse ela —. Seu novo chefe? Ele é um velho amigo de nossa família e você nos verá ao seu redor de vez em quando. Ele perguntou se podíamos te levar para a escola e cuidar de você, assim, aqui estamos. Este é meu irmão Tad, a propósito. Tad diga olá ao Nick. —Olá. —Tad se separou da sarjeta. Nick terminou de colocar seu cinto de segurança enquanto olhava de um lado a outro entre Brynna, que estava voltada para trás em seu assento para olhar para ele, e
  35. 35. ~35~ a seu irmão, que os ignorou enquanto conduzia no tráfego matutino. Dang, Tad e ela se pareciam muito. Ele era somente mais alto e mais peludo. Os olhos da Brynna faiscaram com afeto, mas apesar disso, ela não era nem de longe tão espetacular para ele como era Kody. Brynna era bonita. Kody era cintilante. — Realmente vai gostar de te trabalhar para o Kyrian. Ele é um grande amigo. — Se você diz. Ela sorriu. — Como está seu ombro? Está emocionado de retornar à escola? Sua fisioterapia é realmente intensa? Conseguiu terminar todas as tarefas que te deixei? As de matemática foram realmente difíceis, mas se necessitar de um explicador, podemos arrumar um para ti até que consigas acompanhar o resto da turma. Nick se sentiu assaltado por sua enxurrada de perguntas disparadas rapidamente e os comentários. Nem sequer lhe deu uma oportunidade de responder, só lhe deu chance quando terminou de falar. — Sempre é tão faladora de manhã? Tad estalou de risada. Brynna deu uma tapa no braço do seu irmão, sua cara vermelha. — Para com isso. Tad sorriu abertamente. — É bom saber que não sou o único que se incomoda com sua atitude alegre de manhã. Disse que era demais para que um homem o suportasse. Nick sentiu suas próprias bochechas esquentarem outra vez. Não tinha tido a intenção de ofendê-la. — Não estou aborrecido contigo, Brynna. — ele na verdade gostou muito —. É só que não estou acostumado a que as pessoas como você, falem comigo com tanto interesse. É uma espécie de atenção que me põe fora de mim. Tenho a impressão de que me movi gradualmente para uma realidade alternativa ou algo assim. Continua assim e vou começar a procurar caminhonetes do Racoon City ou algo. Brynna franziu o cenho. — Racoon o que? Tad bufou. — É do jogo Resident Evil, tola. — Ele olhou Nick através do espelho retrovisor —. Tem que perdoá-la, Nick. Ela não joga muito. Somente conversa incessantemente no telefone com todas suas amigas egocêntricas e vazias. Ela deslizou um olhar ofendido para seu irmão. Nick mentalmente se reprovou. Por que lhe disse isso? Sou tão idiota. Aqui sentado no mais bonito carro que alguma vez tivesse visto indo para escola com uma das garotas mais bonitas de sua classe... uma que era realmente decente... e ele a tinha ofendido. Nunca vou ter uma namorada. Sou muito estúpido em primeiro lugar. E se isso não fosse o suficientemente mau, Tad se deteve no caminho junto a uma formosa casa e tocou a buzina. Três segundos mais tarde, a porta principal se abriu e Casey Woods chegou correndo em seu traje de líder de torcida completamente negro e dourado que abraçava cada curva de seu corpo... e para uma garota de quatorze anos, tinha um montão de curvas — diferente do resto de suas companheiras de classe. Seu cabelo comprido escuro ondulado estava penteado para trás de seu rosto com um laço negro e dourado.
  36. 36. ~36~ Um sorriso brilhante curvou os lábios dela enquanto ela corria para eles. OH, merda. . . Ela era a melhor amiga da Brynna e, até que ele tinha conhecido a Kody, a única garota na escola pela que venderia sua alma por tê-la como sua namorada. Infelizmente, Casey não sabia nem sequer que ele existia. Algo o trouxe brutalmente à realidade quando ela abriu a porta do carro e fez uma pausa franzindo o cenho em sua cara bela. Brynna não perdeu um batimento do coração. — Bom dia, Case. Conhece o Nick? Casey voltou à cabeça para olhá-lo do canto de seus olhos como se tratasse de recordar. — Deveria? Sim, por que deveria me conhecer? Só temos quatro aulas juntos... E ele se sentava diretamente na frente dela em duas delas. Também posso ser invisível. Nick captou o olhar de Tad rolando seus olhos no espelho retrovisor. — Vamos nos atrasar, Case. Entra ou dá um passo atrás em seu pátio e fecha a porta. O tom hostil de Tad lhe pegou despreparado. Que pílula mágica tomou Tad para ser imune a sua aparência? Olhando para ele, Casey tirou sua mochila Prada e a lançou na caminhonete antes de subir e se sentou junto a Nick. Por que não me sentei na frente com Tad? Por que, Senhor, por quê? Casey franziu o cenho para Brynna. — Assim, ele é como um estudante novo ou algo do tipo? Fala inglês? Brynna deslizou um olhar desconcertado para o Nick. — Nick esteve indo à escola conosco nos últimos três anos. — OH... bom, estou em todas as aulas adiantadas. Nick conteve um bufo ante seu comentário malcriado. O que sou eu? Uma edição especial? Não obstante, no momento, tinha a impressão de que este era o pequeno ônibus do inferno e que ele tinha um assento reservado nele. Brynna abriu a boca para dizer algo diferente, mas Nick sustentou em alto sua mão para impedir-lhe de corrigir as conclusões equivocadas de Casey a respeito dele antes que Casey o fizesse se sentir mais sem valor. — Assim, Tad, como vão os Saints? Tad riu ante de sua mudança de tema. — Sabe, Gautier, na verdade eu poderia gostar de você. — Sim, esse sou eu. Kudzu10 Gautier. Casey não entendeu, mas Brynna sim. Obviamente a bela perseverante líder deve ter invadido a área de Brynna e deve ter assumido o controle. — O que é kudzu? —Casey perguntou. Tad a ignorou. — O que... 10 Pueraria lobata é uma espécie de angiospermas da família Fabaceae. É uma das 50 ervas fundamentais utilizados na medicina tradicional chinesa, onde é conhecido em chinês como g de gênero N. Seu nome comum em muitos países é o kudzu. É uma das plantas invasoras mais ativa, cobrindo rapidamente e matando a vegetação existente para impedir a absorção da luz solar no processo de fotossíntese.

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