Educação Unisinos
13(3):236-245, setembro/dezembro 2009
© 2009 by Unisinos - doi:


                                      ...
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




Introdução                                          A refle...
Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral




      que é considerado o fundador desse                com discurso. Ele...
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




animal. Essa pesquisa observa,                     comunica...
Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral




      de nós, podemos considerar que a                     [...] penso qu...
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




locutor, sintaxe, que ajudam a pensar                 zação...
Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral




         A partir dessas formulações teó-                  Apesar de todo...
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




perspectiva de Benveniste, pode-se               233). Não ...
Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral




        Ou por meio de um verbo de ação,       mente realizadas no exercí...
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




Referências                                      DUFOUR, D....
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível.

3.150 visualizações

Publicada em

TEIXEIRA, T. M. L. ; CABRAL, Éderson de Oliveira . Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível. Educação Unisinos, v. 13, p. 236-245, 2009.

1 comentário
1 gostou
Estatísticas
Notas
Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
3.150
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
4
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
43
Comentários
1
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível.

  1. 1. Educação Unisinos 13(3):236-245, setembro/dezembro 2009 © 2009 by Unisinos - doi: Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível1 Enunciation perspective and ergology: A possible dialogue Marlene Teixeira marlenet@unisinos.br Éderson de Oliveira Cabral eder108@yahoo.com.br Resumo: Este texto propõe que a perspectiva enunciativa de estudo da linguagem de Émile Benveniste apresenta pontos de contato com a ergologia (Schwartz, 2000), podendo com ela dialogar em investigações sobre a atividade de trabalho. A ergologia interessa-se pelo trabalho como atividade efetivamente realizada por sujeitos, entendendo o termo “atividade” como uma dialética entre duas dimensões da atividade humana que estão ligadas no trabalho: o dizer e o fazer. A linguística da enunciação interessa-se pelo ato de tomada da palavra, entendendo que a língua fornece um sistema formal de base (um conjunto de normas) que o falante, quando a utiliza, arranja num estilo particular (renormaliza). Ambos os saberes não se detêm em observar somente regularidades, mas, particularmente, focalizam os efeitos da intervenção sempre singular do sujeito no uso da linguagem/na atividade de trabalho. Uma análise de verbalizações sobre a atividade de trabalho é trazida para ilustrar as considerações teóricas. Palavras-chave: ergologia, enunciação, atividade de trabalho, singularidade, norma, renormalização. Abstract: This article proposes that elements of the enunciative perspective of Emile Benveniste language studies can be theoretically related to Ergology (Schwartz, 2000) in researching the work activity. Ergology is interested in the work as an activity carried out effectively by individuals, understanding the term “activity” as a dialectic between two dimensions of human activities that are connected at work: saying and doing. From the enunciative perspective the talking subject uses the formal base system of the language in a particular way. The subject, therefore, re-normalizes the language norms or rules. It is argued that both theoretical fields do not focus only on regularities but they are especially concerned with the effects of the singular intervention of the individual in relation to language/work activity. An analysis of the verbalization in the work activity is presented in order to illustrate the theoretical argument developed. Key words: ergology, enunciation, work activity, singularity, norm, renormalization. 1 Texto apresentado na III Jornada de Estudos sobre Produção e Legitimação de Saberes no/do Trabalho: Interfaces entre Ergologia, Linguagem e Educação (UNISINOS, outubro de 2008). O que aqui está formulado não teria sido possível sem a contribuição dos bolsistas de Iniciação Científica Aroldo Garcia dos Anjos (BIC/FAPERGS) e Deizi Daiane Habitzreiter (UNIBIC/UNISINOS), integrantes do grupo de pesquisa coordenado pela professora Doutora Marlene Teixeira (Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada/UNISINOS).
  2. 2. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível Introdução A reflexão de Yves Schwartz a nhecem que a regularidade é inerente respeito da “enigmática alquimia ao campo da linguagem/à atividade Estarmos hoje em contato com humana” que se dá no “coração de trabalho. No entanto, observar saberes interessados em pensar o que do trabalho”, entendido como uma só as regularidades é neutralizar o acontece na atividade de trabalho é “dramática do uso de si por si e uso objeto a conhecer. É preciso olhar resultado do exercício de colocar a de si pelos outros”, produziram uma para a intervenção sempre singular linguística em diálogos que trans- genuína inquietação e uma imediata do sujeito no ato de linguagem/na cendam o que se tem considerado relação de transferência teórica3. atividade de trabalho. como seu escopo disciplinar. Algo ali soava de modo familiar O investimento no dispositivo er- Isso implica movimentar-se na di- a ouvidos acostumados a escutar gológico requer um tempo de matura- reção daquilo que a linguística deixou ressonâncias da subjetividade na ção para apreensão de seus princípios por muito tempo como um “resto” linguagem, instigando-nos a tentar e métodos de abordagem pelo redi- impossível de ser integrado a seu um diálogo. Os pontos de contato mensionamento da questão do saber objeto para não corromper um ideal parecem, de fato, nítidos. que ele provoca. Fundamental nesse de ciência, pautado pelo rigor, pela A ergologia interessa-se pelo tra- processo foram os encontros com universalidade, pela lei geral, pelo balho como atividade efetivamente Maria Clara Bueno Fischer e as dis- repetível: o investimento subjetivo na realizada por sujeitos, entendendo cussões semanais, feitas na disciplina linguagem; a imprevisibilidade que o termo “atividade” como uma Práticas de Pesquisa em 2007 (PPG está colocada quando a língua sai pela dialética entre duas dimensões da em Educação – UNISINOS), propos- boca de alguém para se “precipitar em atividade humana que estão ligadas ta por ela para aprofundamento dos discurso” (Dufour, 2000). no trabalho: o dizer e o fazer, isto estudos da teoria de Yves Schwartz, A linguística da enunciação 2, é, entre a prescrição e o que efeti- um dos idealizadores do enfoque er- campo em que situamos nossos es- vamente acontece. A perspectiva gológico. Mas, talvez, não tenhamos tudos, acolhe esse “resto” no âmago ergológica ensina que a atividade ainda avançado muito, em conjunto, de seu objeto, isto é, descreve a de trabalho é social, coletiva, nor- na discussão do engajamento do lin- linguagem em relação à singulari- malizada, mas, ao mesmo tempo, guista na análise pluridisciplinar de dade do uso feito pelo sujeito que engaja experiências subjetivas, que situações de trabalho. E é exatamente enuncia em uma dada situação. tendem a redefinir permanentemente desse aspecto que aqui vamos tratar. Mostra-se, assim, aberta ao diálogo os procedimentos. É o lugar de um A nosso ver, os estudos enunciati- interdisciplinar. jogo de reciprocidades entre o geral vos têm duas contribuições a dar aos O envolvimento com uma linguís- e o singular. outros campos, a primeira, de caráter tica sensível à questão da subjetivi- A linguística da enunciação inte- mais amplo, no âmbito teórico, é uma dade, aliada ao desejo de ultrapassar ressa-se pelo ato de colocar a língua concepção de linguagem; a outra, o isolamento disciplinar foi o que em funcionamento, pelo modo par- mais específica, no âmbito da prática, determinou nosso encontro com os ticular como o homem apropria-se relaciona-se ao fornecimento de ferra- estudos ergológicos sobre a atividade dela para se relacionar com o outro mentas para a análise da materialidade de trabalho. Esses estudos resultam de e com o mundo. Considera que a linguística propriamente dita. Ou seja, uma tradição de mais de 15 anos de língua fornece um sistema formal a competência disciplinar do linguista investigações coletivas sobre o objeto de base (um conjunto de normas) pode auxiliar a manipular tanto con- “trabalho”, realizadas pelo dispositi- que o falante, no ato de enunciação, ceitos, como os de linguagem, língua, vo APST (Analyse Pluridisciplinaire arranja num estilo particular (renor- discurso etc., como procedimentos des Situations de Travail), que iniciou maliza). Oferece também meios para de análise de formas linguísticas pre- suas atividades nos anos 80, na Uni- a identificação, na matéria linguís- sentes nos discursos tomados como versidade de Provence (Aix-Marseille tica, de marcas da subjetividade no objeto de pesquisa. I), na França, com o filósofo Yves enunciado. No início deste texto, focalizamos Schwartz, o linguista Daniel Faïta e Tanto a linguística da enunciação alguns princípios da teoria da enun- o sociólogo Bernard Vuillon. quanto os estudos ergológicos reco- ciação de Émile Benveniste, aquele 2 A denominação linguística da enunciação é proposta por Flores e Teixeira (2005) para reunir um conjunto de teorias que, embora diferentes, têm 237 em comum o fato de levarem em conta, de um ou de outro modo, a subjetividade, não como elemento acessório, mas como parte essencial da descrição linguística. Os autores incluem nesse conjunto teorias como as de Benveniste, Ducrot, Bakhtin, Authier-Revuz, entre outras. 3 A expressão é de Amorim (2001). volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
  3. 3. Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral que é considerado o fundador desse com discurso. Ele a entende como fa- A intersubjetividade tomada como campo de estudos no âmbito da lin- culdade simbólica inerente à condição constitutiva da subjetividade não guística. Acreditamos que esses prin- humana; apresenta-a como condição permite supor um emissor e um re- cípios possam auxiliar a compreender da existência humana e, como tal, ceptor ideais. Por essa razão, pode-se a relação problemática entre o dizer sempre referida ao outro, porque é sob afirmar que a ideia de comunicação e o fazer de que fala Schwartz. Em a condição da intersubjetividade que o que atravessa o pensamento de Ben- seguida, procuramos mostrar como se sujeito se institui na/pela linguagem. veniste (1989) não se identifica com podem aliar os saberes da linguística “É na linguagem e pela linguagem que a das teorias da informação, para as da enunciação e da ergologia na análi- o homem se constitui como sujeito” quais comunicar significa essencial- se do modo como funcionários de um (Benveniste, 1988, p. 286), afirma mente transmitir mensagens. estabelecimento de entretenimento o linguista, acrescentando que “a A superação da visão instrumen- e diversão nomeiam sua atividade4. consciência de si só é experimentada talista/referencialista de linguagem8, por contraste. Eu não emprego eu a a consideração da interferência do Bem antes de servir para não ser dirigindo-me a alguém, que sujeito no ato de tomada da palavra comunicar, a linguagem será na minha alocução um tu”. “A – não um sujeito causa de si, mas serve para viver 5 linguagem exige e pressupõe o outro” um sujeito constituído na/pela alte- (Benveniste, 1989, p. 93). ridade – parecem-nos essenciais para É preciso, desde este ponto, fazer Do exposto até aqui, dois princí- compreender por que, na situação de um esclarecimento a respeito do que pios da teoria benvenistiana podem trabalho, há sempre descompasso se entende por linguagem, termo que ser depreendidos: a indissociabilida- entre o dizer e o fazer. não recobre o mesmo sentido de lín- de entre linguagem e homem; o cará- gua na perspectiva que estamos tra- ter intersubjetivo do ato enunciativo. O dizer não recobre zendo6. Num de seus artigos mais cé- Esse segundo princípio nem sem- o fazer 9: a especificidade lebres, Benveniste (1988, p. 284-285) pre é tributado ao autor, apesar de da linguagem humana recusa a ideia de que a linguagem é evidenciado em inúmeras passagens, um instrumento de comunicação, por entre as quais a que segue: Para avançar um pouco mais na considerá-la simplista. Para ele, compreensão do que efetivamente O que em geral caracteriza a enuncia- caracteriza a linguagem humana, é A linguagem está na natureza do ção é a acentuação da relação discur- homem, que não a fabricou [...]. Não interessante pensar no que ocorre no siva com o parceiro, seja este real ou atingimos nunca o homem separado processo de comunicação animal. imaginado, individual ou coletivo. da linguagem e não o vemos nunca Essa característica coloca necessa- Todos nós sabemos que a faculdade inventando-a. Não atingimos jamais riamente o que se pode denominar de linguagem é frequentemente atri- o homem reduzido a si mesmo e o quadro figurativo da enunciação. buída aos animais, não só pelo senso procurando conceber a existência Como forma de discurso, a enuncia- comum, mas também por pesquisas do outro. É um homem falando que ção coloca duas “figuras” igualmente feitas no campo da zoologia. encontramos no mundo, um homem necessárias, uma, origem, a outra, Será que se pode dizer que os ani- falando com outro homem, e a lin- fim da enunciação. É a estrutura do mais estão na linguagem da mesma guagem ensina a própria definição do diálogo. Duas figuras na posição homem (Benveniste, 1988, p. 285).7 forma que os humanos? Em texto de parceiros são alternativamente protagonistas da enunciação. Este de 1952, Benveniste discute uma No sistema de pensamento de Ben- quadro é dado necessariamente com a pesquisa10 sobre a troca de mensa- veniste (1988, 1989), linguagem não é definição da enunciação (Benveniste, gens entre abelhas, tida como a mais sinônimo de língua nem se confunde 1989, p. 87, grifos do autor). organizada forma de comunicação 4 Esta análise integra o trabalho de Cabral (2008). 5 A afirmação é de Benveniste (1989, p. 222). 6 Mesmo que muitas vezes Benveniste utilize um termo no lugar de outro, a compreensão do conjunto de seus textos impede ver sinonímia entre linguagem, língua e línguas ou mesmo hierarquização de valor (Flores, 2008b). 7 É claro que Benveniste não quer, com essas palavras, negar que haja “comunicação” entre os humanos. A noção de comunicação é um dos elementos fundamentais construído por sua teoria da enunciação, sendo objeto da segunda parte dos dois volumes de Problemas de Linguística 238 Geral (Dessons, 2006, p. 43). 8 Trata-se da visão de linguagem como simples instrumento de representação das coisas, a partir da crença de que há relação direta entre a palavra e a realidade que ela nomeia. 9 A afirmação é feita por Schwartz (2000, 2007). 10 Essa pesquisa decorre de experiências realizadas trinta anos antes pelo professor de Zoologia Karl von Frisch da Universidade de Munique. Educação Unisinos
  4. 4. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível animal. Essa pesquisa observa, comunicação é válido no interior a linguagem humana é única, na numa colmeia transparente, que a de uma comunidade determinada medida em que propicia um substi- abelha, depois que volta de uma e cada membro dessa comunida- tuto da experiência, adequado para descoberta de alimento, é imediata- de encontra-se em condições de ser transmitido indefinidamente no mente rodeada pelas outras abelhas empregá-lo ou compreendê-lo nos tempo e no espaço. Além disso, a que estendem, na sua direção, as mesmos termos. linguagem humana permite estágios antenas para recolher o pólen que ela No entanto, para Benveniste (1988, complicados, como relatar a fala de carrega e para absorver o néctar que p. 65), essas semelhanças não autori- outro graças ao estilo direto, indireto ela vomita11. Depois, seguida pelas zam a dizer que as abelhas têm uma ou indireto livre, retomar uma pala- companheiras, executa danças, que verdadeira linguagem. Há diferenças vra considerada mal compreendida, consistem em traçar círculos hori- consideráveis entre a linguagem das retransmitir uma mensagem. zontais da direita para a esquerda, abelhas e a linguagem humana. Enu- Realçamos aqui o fato de que, depois da esquerda para a direita, meramos as mais significativas para enquanto a comunicação animal é sucessivamente, ou em imitar o a compreensão do que efetivamente desprovida de alteridade, a interação símbolo gráfico representativo do caracteriza a linguagem humana. humana é indissociável da dimensão número oito (8), acompanhada por A “linguagem” das abelhas não alteritária pela qual “os indivíduos se uma vibração contínua do ventre. se deixa analisar, não se reduz a constituem em sujeitos no processo Após essas danças, uma ou mais elementos identificáveis e distintos de troca dialogada” (Dessons, 2006, abelhas saem da colmeia em direção (não pode ser decomposta em mor- p. 45). à fonte que a primeira havia visitado. femas12 ou fonemas13, por exemplo); Dessas considerações pode-se Na volta, fazem as mesmas danças e na linguagem humana, os elementos depreender que a “dança” dos huma- novas abelhas se dirigem ao mesmo se combinam segundo regras defi- nos em direção ao “mel”, por mais local da fonte. Os dois tipos de dan- nidas, isto é, um número finito de que se execute a partir de uma base ça constituem-se como verdadeiras fonemas/um número reduzido de comum (um código compartilhado), mensagens pelas quais a descoberta morfemas permite um número con- abre-se para uma gama infinita de é assinalada à colmeia. Não há mal siderável de combinações. possibilidades que não se deixam entendidos na comunicação das Mas o aspecto mais interessante apreender por uma operação de abelhas porque os “signos” são a destacar é que as abelhas não simples deciframento. Há algo de unívocos. conhecem o diálogo, condição es- incontornável no movimento do Benveniste (1988, p. 64) conside- sencial da linguagem humana. O homem em direção ao significado. ra que, em alguns pontos, a comu- processo de comunicação desses Algumas observações feitas nicação das abelhas se assemelha à animais leva a uma conduta, não a por Lacan (2003, p. 40-43) sobre comunicação humana. Por exemplo, uma resposta. Como não há diálogo, sua cadela, Justine, podem ajudar elas manifestam aptidão para simbo- a comunicação se refere apenas a um a compreender melhor esse “in- lizar, isto é, capacidade de formular dado objetivo; não há comunicação contornável”. Ele afirma que, sem e interpretar um “signo”. Suas dan- relativa a um dado linguístico. nenhuma dúvida, ela fala15, não o ças põem em ação um simbolismo Logo, a mensagem da abelha não tempo todo, como acontece com verdadeiro, embora rudimentar: pode ser reproduzida por outra que os humanos, mas somente nos mo- dados objetivos são transpostos em não tenha visto ela própria os fatos mentos em que sente necessidade gestos formalizados, que comportam que a primeira anuncia: a abelha de falar. Como Justine é uma cadela elementos variáveis e de “signifi- não constrói uma mensagem sobre boxer sem “nada de extraordinário”, cação” constante. O sistema dessa outra mensagem14. Nesse sentido, que poderia pertencer a cada um 11 O relato dessa pesquisa por Benveniste é próximo do que está em Teixeira e Ferreira (2008). 12 O morfema designa o menor elemento significativo individualizado num enunciado, que não se pode dividir em unidades menores sem passar ao nível fonológico. Por exemplo, -mos em trabalhamos; in- em inválido. 13 Cada língua apresenta, em seu código, um número limitado e restrito de fonemas, que se combinam sucessivamente, ao longo da cadeia da fala, para constituir os significantes das mensagens. O fonema é frequentemente definido como a unidade distintiva mínima. Por exemplo, o fonema do português /a/ se opõe a /i/ e /e/, pois substituindo, em vala, /a/ por /i/ e /e/, tem-se sucessivamente vila e vela (Dubois et al., 1995, p. 280). 14 Authier-Revuz (2008), comentando esse texto, entende que uma das propriedades essenciais da linguagem humana destacada por Benveniste (1988) é a reflexividade. É nessa capacidade de não limitar a linguagem à representação do mundo, mas em produzir “significância sobre significância”, em fazer proliferar a linguagem sobre si mesma, que reside o específico da linguagem humana. Sobre a relação metalinguagem/subjetividade na 239 enunciação, ver Authier-Revuz (1995). 15 Lacan (2003, p. 40-43) se refere a pequenos gemidos guturais, a toda uma gama de mecanismos de tipo propriamente fonatórios de que os cães fazem uso em momentos de intensidade emocional, acompanhados de “um certo tremor no lábio, especialmente no superior, sob o focinho”. volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
  5. 5. Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral de nós, podemos considerar que a [...] penso que há um inconsciente A flauta, eu a joguei propriedade da fala seria inerente a de tipo, digamos, psicanalítico, um Aos peixes surdo- cães de um modo geral? pouco o inconsciente freudiano, se mudos do mar. quisermos, que atua na nossa vida de Dizer que Justine fala não signifi- trabalho como atua na nossa vida em Essa sensação de fracasso diante ca admitir que ela tenha a linguagem. geral. E, nesse caso, de certa forma da palavra, tantas vezes registrada na O que acontece é que ela “tem a trata-se, eu diria, de um bloqueio palavra sem ter a relação humana produção literária, está também pre- positivo, que faz com que haja resis- com a linguagem”. Observe-se que tências ao acesso à linguagem. sente nas mais corriqueiras expres- ela só fala por necessidade; não tem, sões da língua corrente: Não sei se como nós, o “prazer da conversação” “Não podemos pôr tudo em me fiz entender...; É isso mesmo que (Lacan, 2003, p. 43) palavras”, diz Schwartz (2007, p. você quer dizer?; Não compreendo Observadas de fora, as manifes- 145). De fato, as palavras não dão bem...; Isso não quer dizer nada... tações de amor de um cão podem conta, elas não são transparentes, Pela indicação no fragmento de ser consideradas ameaçadoras. No elas sofrem “desvios” de toda or- Fábula de Anfion (1947), a lin- entanto, algumas palavras do dono dem no trajeto até aqueles a quem guagem é uma produção da qual o fazem tudo reencontrar a ordem. Isso se dirigem. sujeito não é exatamente o agente, mostra que, contrariamente ao ho- A língua que tomamos como mas o efeito. Há, de fato, um “fundo mem, “minha cadela me reconhece “instrumento de comunicação” opaco” nas interações que torna o enquanto eu mesmo” (Lacan, 2003, frequentemente erra o alvo, nos fazer irredutível ao dizer e que tem p. 52). Para ela, “sou eu que estou escapa. Ou, para utilizar as palavras a ver com o que Schwartz chama ali”. “Não parece que sua relação de Henry (1992), é uma ferramenta de “corpo-si” e que nós chamamos com a linguagem lhe dê acesso ao imperfeita, cujos efeitos no outro de sujeito. grande Outro”16 (Lacan, 2003, p. acabam surpreendendo e até mesmo Em resumo, a perspectiva que 42). Na sua “fala”, não existe senão “traindo” aquele que a utiliza. aqui apresentamos entende a lin- o pequeno outro. Para o ser humano, Os poetas sempre souberam da di- guagem em sua profunda implica- contudo, um animal de estimação ficuldade de encontrar simetria entre ção com a subjetividade. Mostra pode representar alguém que aca- a linguagem e o que se quer, através que a especificidade da linguagem ba de perder, “quer se trate de um dela, representar. Citamos o exem- humana é realizar-se por meio de membro da família ou de seu gru- plo de João Cabral de Mello Neto, uma língua, com toda a complexi- po, o chefe ou não, o presidente de que, na Fábula de Anfion (1947), se dade da dimensão enunciativa que uma sociedade, ou qualquer outro” mostra impotente diante da palavra lhe é inerente. (Lacan, 2003, p. 46). Nas interações (flauta), incapaz de prever/controlar humanas, há algo de enigmático que sua trajetória, seus desdobramentos: O olhar do linguista para resiste a toda tentativa de objetiva- a fala viva na atividade ção: uma série de projeções, de ante- Uma flauta: como de trabalho cipações da posição do interlocutor. dominá-la, cavalo Os comentários de Lacan (2003) solto e louco? Resta considerar o segundo as- sobre Justine nos levam a encontrar pecto anunciado na introdução, ou mais um elemento para explicar [...] seja, como a competência disciplinar a opacidade que caracteriza os do linguista pode ser utilizada em Uma flauta: como prever análises do que acontece na ativi- encontros humanos, a dimensão suas modulações inconsciente, reconhecida por dade de trabalho. Schwartz (2007, cavalo solto e louco? Schwartz (2007, p. 146) quando p. 128) reconhece que esse saber ele aponta algumas razões para Como traçar suas ondas é indispensável para que se mani- explicar a relação problemática antecipadamente, como faz pulem conceitos como linguagem, entre linguagem e atividade: no tempo, o mar? expressão, verbal e não-verbal, 16 “O pequeno “outro”, em Lacan, é um parceiro imaginário. O grande “Outro” é o lugar em que a psicanálise situa, além do parceiro imaginário, aquilo 240 que, anterior e exterior ao sujeito, não obstante o determina”. A própria mãe, “inacessível pelo fato da proibição do incesto, encarna, enquanto objeto radicalmente perdido, a alteridade radical”. O pai é também o Outro, na medida em que sua evocação, no discurso da mãe, impede de confundir as gerações, de deixar de existir uma relação somente dual entre o filho e a mãe. O Outro se confunde ainda com a ordem da linguagem. Também o inconsciente deve ser concebido como o discurso do Outro. É a partir do Outro que o sujeito ordena a vida psíquica, ou seja, “um lugar em que insiste um discurso que é articulado, mesmo que nem sempre seja articulável” (Chemama e Vandermesh, 2007, p. 282). Educação Unisinos
  6. 6. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível locutor, sintaxe, que ajudam a pensar zação: materialidade da configuração coisas “por elas mesmas”, pois as a relação linguagem e trabalho. lexical, das organizações sintáticas. nomeamos sempre a partir de “nós”. Boutet (1994) traz à discussão a Nosso desafio parece ser, a partir Assim, as nomeações dizem de nos- natureza da intervenção do linguista do que é visível, observável, mais sas relações com as coisas e não das nesse diálogo17. Segundo a autora, ou menos descritível, apreender, a coisas propriamente ditas. a especificidade do trabalho do partir da linguagem, esse investi- No campo dos estudos ergo- linguista quando confrontado à des- mento pessoal na atividade de que lógicos, além de teorizações de crição da fala viva, em comparação, a ergologia fala, bastante difícil de Schwartz sobre a singularidade por exemplo, com o trabalho de um captar, pois a linguagem não é trans- como constitutiva da experiência de sociólogo com a linguagem, é a aten- parente, nem unívoca, assim como o trabalho, valemo-nos de observações ção que ele dá às formas linguísticas. sujeito não é diretamente apreensível de Revuz (2007)19, psicanalista que, Enquanto o sociólogo tende a olhar pelas “marcas” de subjetividade no paralelamente à clínica, dedica-se os dados discursivos sob o ângulo discurso. à análise das práticas e dos atores do conteúdo, indo diretamente “ao Para tornar mais concretas essas da inserção social e profissional. que isso quer dizer”, o linguista, em considerações teóricas, trazemos um A autora vê no trabalho uma dupla razão de sua técnica e de seu conhe- exemplo de intervenção linguística dimensão: de um lado, ele pertence cimento sobre a língua, é sensível às em verbalizações sobre a atividade à realidade, é objeto social, consti- diferentes configurações formais uti- de trabalho. tuído por exigências econômicas, lizadas pelo locutor para se constituir técnicas, físicas e jurídicas. De como sujeito do enunciado. Nomear a atividade outro lado, existe como um dos ob- O saber que estamos mobilizando de trabalho: implicações jetos a que o desejo pode visar. Isso nesta pesquisa, como referido anterior- subjetivas significa que, no trabalho, se opera mente, é o da linguística da enunciação uma “alquimia” entre investimentos de Benveniste, pela qual a linguagem A pesquisa, cuja síntese apre- psíquicos inconscientes e algo que é entendida como faculdade simbólica sentamos a seguir, não toma como se inscreve em normas socialmente indissociável do humano, que se reali- objeto a atividade de trabalho pro- construídas. Assim, na cena social za em uma língua, em uma estrutura priamente dita, mas, sim, entrevistas em que o trabalho se dá, o sujeito linguística definida e particular, inse- com funcionários de um estabeleci- projeta o que tem de mais íntimo parável de uma sociedade definida e mento de entretenimento e diversão dentro de si (Revuz, 2007, p. 231), particular (Benveniste, 1988, p. 31). sobre sua atividade. motivo pelo qual a atividade se re- A palavra língua, para o autor, serve Com essa discussão, nosso in- veste de uma dimensão enigmática. tanto para designar o produto social da tuito é promover diálogo entre a Revuz (2007, p. 232) não desco- faculdade de linguagem, o conjunto de teoria enunciativa de Benveniste e nhece que o trabalho está associado convenções necessárias, adotadas pelo os estudos ergológicos. Particular- à sobrevivência, ao atendimento corpo social para permitir o exercício mente, neste estudo, recorremos à de exigências econômicas (dimen- da linguagem18, como os sistemas formulação do linguista francês de são do ter), mas ressalta que ele é linguísticos específicos, os idiomas que, “na enunciação, a língua se acha também portador de investimentos (línguas portuguesa, francesa...). A re- empregada para a expressão de uma inteiramente subjetivos (dimensão lação necessária entre subjetividade e certa relação com o mundo” (Ben- do ser); toda história pessoal é linguagem se deixa ver na atualização veniste, 1989, p. 84). Essa relação novamente mobilizada no traba- da língua em discurso, a partir de aná- com o mundo é, na visão do autor, lho. Como não é possível explicar lises feitas da materialidade de línguas mediada por um sujeito intersubje- integralmente o funcionamento específicas. O linguista não estuda tivamente constituído. A designação subjetivo, a relação do homem com o discurso pelo que ele refere, mas, está, então, implicada com a subje- o trabalho comporta sempre algo da antes, pela materialidade da verbali- tividade. Não podemos designar as ordem do indizível. 17 Nesse sentido, o linguista francês Daniel Faïta também tem trazido contribuições. Quando esteve no I Congresso Internacional Linguagem e Interação, realizado de 22 a 25 de agosto de 2005, numa iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UNISINOS, mostrou o engajamento do linguista na análise pluridisciplinar de situações de trabalho. A interlocução com ele faz repensar questões epistemológicas sobre o campo teórico e conceitual dos estudos da linguagem, assim como faz compreender a necessidade de redimensionar procedimentos metodológicos empregados em pesquisas destinadas a compreender a atividade de trabalho, e assim contribuir para o desenvolvimento da situação profissional dos sujeitos trabalhadores (Faïta, 2005). 241 18 O que corresponde ao conceito saussuriano de língua. 19 Essa reflexão integra o livro Trabalho & Ergologia: conversas sobre a atividade humana, organizado por Schwartz e Durrive (2007), que apresenta diálogos entre pesquisadores de diferentes campos disciplinares, atravessados pelo enfoque ergológico. volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
  7. 7. Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral A partir dessas formulações teó- Apesar de todos os entrevistados (ii) quando a atividade é prestigiada ricas, oriundas da interlocução entre terem ouvido as mesmas perguntas, no âmbito social, (iii) quando o sujeito os campos da enunciação e da ergo- com as mesmas unidades linguísti- se identifica com ela. Ou seja, com a logia, o objetivo de nossa pesquisa é cas, as respostas revelam que essas forma Eu sou X, os locutores se situam observar como os trabalhadores en- unidades não recobrem os mesmos em relação a uma nomenclatura de trevistados designam seu fazer para, a sentidos atribuídos por eles. Ou seja, profissões e classificações mais ou partir daí, refletir sobre o engajamento é possível localizar traços de modos menos oficial e estandardizada, co- subjetivo na atividade de trabalho. diferentes de entender as perguntas mum a um conjunto de trabalhadores Os sujeitos da pesquisa são 13 no discurso produzido como resposta. de uma mesma empresa ou de um funcionários de um estabelecimento As seguintes configurações sintá- mesmo ramo profissional. de entretenimento e diversão situado ticas foram levantadas nas respostas A existência, na língua, de uma em Porto Alegre, com idade entre 18 às questões formuladas: designação para a profissão pode e 45 anos, que trabalham no turno da explicar, em parte, a utilização dessa noite e desempenham diferentes ati- (a) Eu sou X (ex: Eu sou caixa); forma sintática. De fato, se não exis- vidades, como a de garçom, operador (b) Eu trabalho em Y (ex: Eu traba- te uma designação que categorize a de caixa e auxiliar de serviços gerais. lho na copa/no balcão); profissão, fica difícil enunciar Eu Começamos a entrevista20 com (c) Eu faço Z (ex: eu faço trabalho sou X. No entanto, isso não esgota a uma pergunta bastante comum em de cozinha) e/ou Eu + verbo de discussão. Acreditamos que formu- contatos sociais iniciais: “O que ação (ex: eu limpo banheiro, lações de Benveniste (1988, p. 204- você faz?” 21, seguida de outras reponho papel). 227) sobre o verbo “ser”, no capítulo que, de certo modo, parafraseiam “Ser” e “ter” nas suas funções a pergunta inicial22. Consideramos Nossa hipótese é que os diferentes linguísticas, podem contribuir para que a situação de entrevista coloca tipos de predicação encontrados no que se percebam outros aspectos em jogo atividades de produção e material de investigação apontam para relacionados ao enunciado Eu sou X. compreensão de enunciados pro- a representação que o trabalhador faz Conforme Benveniste (1988, p. fundamente assimétricas, pois o ato de sua atividade profissional. Ao des- 205, grifos do autor), o sentido do de enunciação não é uma troca em tacar essas diferentes configurações verbo “ser” é “ter existência, ser em que uma pessoa decodifica o que a sintáticas, a análise linguística coloca realidade”, e essa “existência”, essa outra teria anteriormente codificado. em evidência um aspecto importante a “realidade” se definem como o que é Como vimos anteriormente, sob ser melhor situado com o auxílio da er- autêntico, é consistente, verdadeiro. a perspectiva do linguista, não se gologia, conforme discussão a seguir. O verbo “ser”, quando está num estuda o discurso pelo que ele refere, enunciado que estabelece identidade mas, sim, pela materialidade da ver- Estrutura sintática entre dois termos nominais, indica a balização. Inspirando-nos em Boutet Eu sou X participação em um conjunto: Pierre (1994)23, dirigimos nossa atenção é francês (Benveniste, 1988, p. 206). para as operações de categorização Segundo Boutet (1994), por meio “Ser” é o estado do sendo, daquele da situação profissional por parte de uma estrutura como Eu sou X, o que é alguma coisa [...]. Entre os dois dos trabalhadores entrevistados, a entrevistado responde por uma pro- termos que une, se estabelece uma partir das configurações sintáticas priedade, por uma posição em relação relação intrínseca de identidade: é o das respostas às perguntas formula- a uma grade de classificação. Em sua estado consubstancial. das. A pesquisa parte do pressuposto pesquisa, a autora constata que essa A estrutura Eu sou X ocorre apenas que não só diferenciações lexicais estrutura ocorre (i) quando há nomen- uma vez no material em estudo. A en- são carregadas de significado, mas clatura objetiva, nomes precisos que trevistada A4, em resposta à pergunta também as diferenciações sintáticas. correspondem a atividades definidas; 124, enuncia: “Sou chapeleira”. Pela 20 As entrevistas foram gravadas em áudio. 21 Pergunta semelhante é feita por Boutet (1994), em investigação que envolve seis empresas de metalurgia espalhadas pela França, que, ao contrário do que grande parte dos linguistas fazem, não privilegia a dimensão da palavra, aquela que se oferece, de modo mais imediato, como ponto de apoio 242 para a construção do significado, mas toma como objeto de estudo as relações sintáticas, propondo que sejam vistas como produtoras de significado. 22 As outras perguntas são: (ii) Qual é seu trabalho? (iii) Qual é sua profissão? (iv) Quando lhe perguntam, qual é a sua profissão ou o que faz, o que você responde? 23 Apesar de inspirada na linguista francesa, nossa análise não se identifica com a dela. Boutet (1994) está preocupada com o fenômeno da construção social do significado; o que nos mobiliza é a natureza do engajamento subjetivo no trabalho. Educação Unisinos
  8. 8. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível perspectiva de Benveniste, pode-se 233). Não há nisso nada de mecâni- social. Se os estudos ergológicos dizer que esse enunciado sinaliza co. Por alguma razão, a atividade de têm razão, a referência ao lugar em uma relação intrínseca entre Eu e a trabalho entra em ressonância com detrimento do ofício deve dizer algo profissão designada. Pela perspectiva traços da história psíquica. a respeito do engajamento daquele de Revuz (2007), essa configuração que diz em relação a seu trabalho. sintática talvez indique que, para essa Estrutura sintática A validação do fazer se reflete no entrevistada, a atividade de trabalho Eu trabalho em Y ser, afirma Revuz (2007, p. 236). O está associada à dimensão do “ser”. Eu reconhecimento pelo trabalho atua sou é uma maneira de apresentar o que Bem mais frequente é a utilização nas pessoas como reconhecimento faz parte da pessoa, o que constitui sua de Eu trabalho em Y25, estrutura pela do que elas são. Vale lembrar que, identidade. A proclamação “ser cha- qual o entrevistado responde à questão para a psicanalista, o trabalho, peleira”, então, participa do conjunto não pela designação de uma profissão, embora esteja ligado à necessidade de elementos que talvez propiciem mas situando-se em relação ao lugar (dimensão do ter), toca também a à entrevistada tomar contato com em que desenvolve suas atividades dimensão do ser. Quando solicitado a sociedade de maneira valorizada. profissionais. Boutet (1994) considera a nomear o que faz como trabalho, Embora “ser chapeleira” possa não que uma predicação como essa pode o trabalhador pode sentir-se pouco estar entre os trabalhos socialmente estar relacionada à pluriacentuação à vontade para designar/descrever mais prestigiados, de algum modo, do sintagma “O que você faz?”, que seu ofício, ou porque ele é pouco ele se apresenta, pelo menos neste conduz a várias interpretações. valorizado socialmente, ou porque ato enunciativo, como parte “da iden- Na entrevista 6, o entrevistado é pouco conhecido. Nesse caso, tidade” dessa trabalhadora, por razões S enuncia: Trabalho no salão de responder pela nomeação do lo- relacionadas a sua história pessoal que um bar, recolhendo garrafas e co- cal – particularmente, se for local não nos compete identificar. pos. Esta construção exprime uma prestigiado – pode ser uma saída no A questão do que é ou não valori- localização no estabelecimento sentido de adquirir/manter imagem zado no âmbito das profissões/ocu- para, depois, especificar a atividade positiva diante do outro. pações é complexa. Revuz (2007, realizada. Não se pode deixar de Talvez assim se possa explicar p. 234) comenta que é impossível considerar que não existe, em por- essa ocorrência em que o entrevis- saber exatamente o que faz com que tuguês, um substantivo agentivo que tado responde à questão proposta o trabalhador encontre plenitude nas corresponda ao ofício de “recolher nomeando o estabelecimento onde atividades que realiza. garrafas e copos”. Assim, o entrevis- trabalha, que tem prestígio na cidade tado vê-se obrigado a recorrer a uma de Porto Alegre. A valorização social O que faz com que meu vizinho, na descrição do que faz. Concordamos do local permite encontrar um modus montanha, no silêncio, passe os dias que as operações de categorização vivendi, uma forma de convívio com sozinho a fabricar cerâmicas? É uma das situações de trabalho estão escolha. O que acontece quando ele o trabalho, que, no entanto, não é “subordinadas a situações objetivas jamais estável (Revuz, 2007, p. 228). maneja a terra, o que faz com que, no concretas” (Boutet, 1994, p. 70). No caso dele, possa encontrar plenitude naquela atividade, e isto após ter entanto, – e Boutet não desconhece Estrutura sintática Eu faço Z tido uma formação em Altos Estudos isto – expressar uma caracterização e/ou Eu + verbo de ação Comerciais? É enigmático (Revuz, profissional coloca em jogo dife- 2007, p. 234). rentes dimensões que, a nosso ver, Nesse caso, os trabalhadores pre- estão ligadas ao engajamento da dicam um processo em que a pessoa Há uma hierarquia de valores subjetividade no trabalho. que fala é o agente. A predicação de historicamente variável, que define Alguns entrevistados respondem processo adquire diferentes formas. a importância de algumas profissões à questão proposta também pela for- Pode ser feita por uma locução em detrimento de outras. Mas essa ma: Eu trabalho no bar W, nomean- verbal, como no enunciado do tra- hierarquia só adquire sentido para do o estabelecimento e silenciando balhador J: os indivíduos em função de sua sobre o trabalho que ali realiza, nesse trajetória pessoal (Revuz, 2007, p. caso, um trabalho de pouco prestígio Eu faço serviço geral de limpeza. 243 24 Para facilitar a leitura da análise, segue-se a enumeração das questões: O que você faz? Qual é seu trabalho? Qual é sua profissão? Quando lhe perguntam, qual é a sua profissão ou o que faz, o que você responde? 25 Houve seis ocorrências dessa estrutura. volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
  9. 9. Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral Ou por meio de um verbo de ação, mente realizadas no exercício de seu Uma pergunta pode ainda ser como no enunciado de R2: trabalho. Situam-se em relação ao que feita: essas configurações sintáticas de fato fazem e descrevem de modo são oriundas de escolhas dos traba- Eu atendo os clientes. mais ou menos explícito uma ou várias lhadores? A questão da escolha dos operações de seu posto de trabalho. sujeitos falantes na elaboração de Para explicar esses casos, valem A nomeação de uma situação sua fala é bem complexa e tem sido também as observações de Boutet varia segundo as pessoas, porque objeto de debates. A nosso ver, o (1994) anteriormente feitas sobre elas não retêm os mesmos traços per- fato de, ao serem interrogadas, essas a polissemia da pergunta e sobre a tinentes, as mesmas características: pessoas se expressarem por uma inexistência, na língua, de designa- isso pode ser explicado pelas ob- ou outra forma não se deve a uma ções reconhecidas para esses ofícios. servações teóricas sobre as relações escolha dos entrevistados, a uma Entretanto, não se pode esquecer linguagem, subjetividade e trabalho. “vontade” de comunicação. que, ao se enunciarem dessa forma, Exprimir uma situação profissional Para Benveniste (1988, 1989), a os trabalhadores localizam, para o como um lugar, como um ambiente, designação está relacionada com a entrevistador, as atividades que rea- por uma designação (por operações subjetividade. O autor não tem uma lizam, mesmo que não sejam exata- diferentes de designação) coloca teoria do sujeito e, na visão de Flo- mente valorizadas socialmente. Nes- em jogo dimensões que estão sob res (2008a), essa noção transcende se sentido, salientam-se novamente a dependência do “ponto de vista” os quadros da linguística. Isso, no as considerações de Revuz (2007) a construído pelos sujeitos sobre a entanto, não significa que não possa respeito da ressonância que alguns situação. A interpretação se dá em ser considerada em estudos feitos sujeitos encontram entre o que fazem relação às respectivas referências, por linguistas, desde que se recorra como trabalho e aspectos de sua a determinados universos de pen- a exterioridades teóricas (Authier- história pessoal. Isso contribui para samento, ao modo como valoram Revuz, 1982, 1995). explicar o enigma de que se reveste a experiência e a muitos outros É pelo apelo à psicanálise que toda a atividade, o qual, embora não aspectos que contribuem para a tomamos a questão do sujeito. Cre- possa ser desvendado, não pode ser instituição desse “incontornável” mos que conceber o sujeito como desconsiderado, pois age o tempo de que falamos no início deste texto. transcendendo os limites do eu e da todo no processo de trabalho. As teorias da enunciação, ao to- consciência, polarizado entre o si mes- marem a fala do sujeito pelo que mo e o outro, talvez possa auxiliar a Considerações finais ela tem de singular – em função entender melhor o aspecto, destacado da instanciação no tempo e espaço As interpretações dadas à pergun- por Schwartz (1997), de que o dizer sempre presente no ato de enuncia- ta do pesquisador raramente levaram ção – fornecem meios para descrever não recobre o fazer. A linguagem, a à designação de uma profissão (Eu a linguagem em funcionamento em partir da consideração do inconsciente, sou X). Talvez porque os funcioná- relação à singularidade do uso feito não pode mais ser dita como referindo rios desse local sejam confrontados pelo sujeito que enuncia em uma dada o mundo. Entre as palavras e as coisas, à mobilidade e à transitoriedade; eles situação. Acreditamos que a análise existe uma intermediação impor- têm a experiência cotidiana de um feita sob essa perspectiva ilustra como tante: um sujeito “capaz de desejo e tempo fragmentado. pode ser visualizada a imbricação da não-simetrizável”, (Milner, 1987). A Com as construções Eu trabalho subjetividade na atividade de trabalho. intervenção desse olhar no dispositivo em Y, os funcionários dão maior A descrição linguística contribui ergológico pode trazer novas luzes à ênfase ao estabelecimento do que para que se compreenda melhor a compreensão do que acontece quando ao próprio fazer, quem sabe por afirmação de Revuz (2007, p. 236): o sujeito está em atividade de trabalho considerarem o local de trabalho “o trabalho capta em nós, exatamen- (Teixeira, 2008). como índice de prestígio, em de- te nas mesmas fontes, o que existe Concluímos este artigo com trimento da atividade propriamente de mais íntimo”. Para além de asse- uma afirmação de Schwartz (1997, dita, que é colocada em segundo gurar a sobrevivência, trata-se de um p. 3): O trabalho não é “jamais uma plano, ou é silenciada. empreendimento subjetivo, “um ir e realidade simples”. Nada mais justo, Com as construções Eu faço Z ou vir extremamente complexo entre a então, do que buscar caminhos ino- 244 Eu + verbo de ação, os funcionários cena psíquica e a cena social”, como vadores para procurar compreendê- se localizam no que diz respeito a afirma Durrive no diálogo com a lo. Fica o convite a quem quiser ações, atividades, operações efetiva- psicanalista (Revuz 2007, p. 236). tentar conosco. Educação Unisinos
  10. 10. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível Referências DUFOUR, D.-R. 2000. Os mistérios da REVUZ, C. 2007. O trabalho e o sujeito. In: trindade. Rio de Janeiro, Companhia de Y. SCHWARTZ; L. DURRIVE (orgs.), AMORIM, M. 2001. O pesquisador e seu Freud, 435 p. Trabalho & ergologia: conversas sobre outro: Bakhtin nas Ciências Humanas. DESSONS, G. 2006. Émile Benveniste, a atividade humana. Niterói, EdUFF, p. São Paulo, Musa, 304 p. l’invention du discours. Paris, Editions 225-245. AUTHIER-REVUZ, J. 1982. Hétérogénéité In Press, 220 p. SCHWARTZ, Y. 2007. A linguagem em tra- montrée, hétérogénéité constitutive: élé- FAÏTA, D. 2005. Análise dialógica da ativi- balho. In: Y. SCHWARTZ; L. DURRIVE ments pour une approche de l’autre dans dade profissional. Rio de Janeiro, Imprinta (orgs.), Trabalho & ergologia: conver- le discours. D.R.L.A.V., 26:91-151. Express Editora, 149 p. sas sobre a atividade humana. Niterói, AUTHIER-REVUZ, J. 1995. Ces mots qui FLORES, V. N.; TEIXEIRA, M. 2005. In- EdUFF, p. 131-188. ne vont pas de soi: boucles réflexives et trodução à linguística da enunciação. São SCHWARTZ, Y. 2000. Le paradigme er- non-coïncidences du dire. Paris, Larousse, Paulo, Contexto, 125 p. gologique ou un métier de philosophe. 869 p. FLORES, V. N. 2008a. Sujeito da enunciação Toulouse, OCTARES, 763 p. AUTHIER-REVUZ, J. 2008. A representa- e/ou sujeito do enunciado? Exterioridade SCHWARTZ, Y. (org.). 1997. Reconnais- ção do discurso outro: um campo mul- e interioridade teórica no campo da sances du travail. Pour une approche tiplamente heterogêneo. Calidoscópio, linguística da enunciação. In: C.L.B. ergologique. Paris, PUF, 323 p. 6(2):107-109. MATZENAUER, (org.), Estudos da lin- SCHWARTZ, Y.; DURRIVE, L. (orgs.) 2007. BENVENISTE, É. 1988. Problemas de lin- guagem: VII Círculo de Estudos Linguísti- Trabalho & ergologia: conversas sobre a guística geral I. Campinas, Pontes, 387 p. cos do Sul. Pelotas, EDUCAT, p. 87-104. atividade humana. Niterói, EdUFF, 300 p. BENVENISTE, É. 1989. Problemas de lin- FLORES, V.N. 2008b. Sujet de l’énonciation TEIXEIRA, M.; FERREIRA, S. 2008. Leitura guística geral II. Campinas, Pontes, 294 p. et ébauche d’une réflexion sur la singu- na escola: um barco à deriva? Letras de BOUTET, J. 1994. Construire le sens. Bern, larité énonciative. In: C. NORMAND Hoje, 43(1):63-68. Peter Lang, 238 p. (coord.), Paralleles Floues: vers une TEIXEIRA, M. 2008. Quando a singularidade CABRAL, E.O. 2008. Nomear a atividade théorie de l'activité de langage. [no prelo]. intervém na atividade de trabalho. In: W. de trabalho: implicações subjetivas. São HENRY, P. 1992. A ferramenta imperfeita: EMEDIATO; I.L. MACHADO; R. de Leopoldo, RS. Trabalho de Conclusão do língua, sujeito e discurso. Campinas, MELLO (org.), Anais do III Simpósio Curso de Letras. Universidade do Vale do Editora da UNICAMP, 241 p. Internacional sobre Análise do Discurso: Rio dos Sinos – UNISINOS, 63 p. LACAN J. 2003. A identificação. Seminário emoção, ethos e argumentação. Belo CHEMAMA, R.; VANDERMERSCH, B. 1961-1962. Recife, Centro de Estudos Horizonte, Universidade Federal de Minas 2007. Dicionário de psicanálise. São Freudianos do Recife, 442 p. Gerais. [CD-ROM]. Leopoldo, Editora da UNISINOS, 399 p. MILNER, J.-C. 1987. O amor da língua. DUBOIS, J.; GIACOMO, M.; GUESPIN, L.; Porto Alegre, Artes Médicas, 82 p. MARCELLESI, C.; MARCELLESI, J.-B.; NETO, J.C. de M. 1947. A fábula de Anfion. MEVEL, J.-P. 1995. Dicionário de lin- In: J.C. de M. NETO, Psicologia da Com- Submetido em: 20/07/2009 guística. 5ª ed., São Paulo, Cultrix, 653 p. posição. Barcelona, O Livro Inconsútil. Aceito em: 30/08/2009 Marlene Teixeira Unisinos Av. Unisinos, 950, Cristo Rei 93022-000, São Leopoldo, RS, Brasil Éderson de Oliveira Cabral Unisinos Av. Unisinos, 950, Cristo Rei 245 93022-000, São Leopoldo, RS, Brasil volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009

×