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Educação Unisinos
13(3):236-245, setembro/dezembro 2009
© 2009 by Unisinos - doi:


                                                          Linguística da enunciação e ergologia:
                                                                            um diálogo possível1

                                                                     Enunciation perspective and ergology:
                                                                                       A possible dialogue

                                                                                                                       Marlene Teixeira
                                                                                                                 marlenet@unisinos.br
                                                                                                       Éderson de Oliveira Cabral
                                                                                                              eder108@yahoo.com.br




             Resumo: Este texto propõe que a perspectiva enunciativa de estudo da linguagem de Émile
             Benveniste apresenta pontos de contato com a ergologia (Schwartz, 2000), podendo com ela
             dialogar em investigações sobre a atividade de trabalho. A ergologia interessa-se pelo trabalho
             como atividade efetivamente realizada por sujeitos, entendendo o termo “atividade” como uma
             dialética entre duas dimensões da atividade humana que estão ligadas no trabalho: o dizer e
             o fazer. A linguística da enunciação interessa-se pelo ato de tomada da palavra, entendendo
             que a língua fornece um sistema formal de base (um conjunto de normas) que o falante,
             quando a utiliza, arranja num estilo particular (renormaliza). Ambos os saberes não se detêm
             em observar somente regularidades, mas, particularmente, focalizam os efeitos da intervenção
             sempre singular do sujeito no uso da linguagem/na atividade de trabalho. Uma análise de
             verbalizações sobre a atividade de trabalho é trazida para ilustrar as considerações teóricas.

             Palavras-chave: ergologia, enunciação, atividade de trabalho, singularidade, norma,
             renormalização.

             Abstract: This article proposes that elements of the enunciative perspective of Emile Benveniste
             language studies can be theoretically related to Ergology (Schwartz, 2000) in researching
             the work activity. Ergology is interested in the work as an activity carried out effectively by
             individuals, understanding the term “activity” as a dialectic between two dimensions of human
             activities that are connected at work: saying and doing. From the enunciative perspective the
             talking subject uses the formal base system of the language in a particular way. The subject,
             therefore, re-normalizes the language norms or rules. It is argued that both theoretical fields
             do not focus only on regularities but they are especially concerned with the effects of the
             singular intervention of the individual in relation to language/work activity. An analysis of the
             verbalization in the work activity is presented in order to illustrate the theoretical argument
             developed.

             Key words: ergology, enunciation, work activity, singularity, norm, renormalization.




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 Texto apresentado na III Jornada de Estudos sobre Produção e Legitimação de Saberes no/do Trabalho: Interfaces entre Ergologia, Linguagem e
Educação (UNISINOS, outubro de 2008). O que aqui está formulado não teria sido possível sem a contribuição dos bolsistas de Iniciação Científica
Aroldo Garcia dos Anjos (BIC/FAPERGS) e Deizi Daiane Habitzreiter (UNIBIC/UNISINOS), integrantes do grupo de pesquisa coordenado pela professora
Doutora Marlene Teixeira (Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada/UNISINOS).
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




Introdução                                          A reflexão de Yves Schwartz a                  nhecem que a regularidade é inerente
                                                 respeito da “enigmática alquimia                  ao campo da linguagem/à atividade
    Estarmos hoje em contato com                 humana” que se dá no “coração                     de trabalho. No entanto, observar
saberes interessados em pensar o que             do trabalho”, entendido como uma                  só as regularidades é neutralizar o
acontece na atividade de trabalho é              “dramática do uso de si por si e uso              objeto a conhecer. É preciso olhar
resultado do exercício de colocar a              de si pelos outros”, produziram uma               para a intervenção sempre singular
linguística em diálogos que trans-               genuína inquietação e uma imediata                do sujeito no ato de linguagem/na
cendam o que se tem considerado                  relação de transferência teórica3.                atividade de trabalho.
como seu escopo disciplinar.                     Algo ali soava de modo familiar                      O investimento no dispositivo er-
    Isso implica movimentar-se na di-            a ouvidos acostumados a escutar                   gológico requer um tempo de matura-
reção daquilo que a linguística deixou           ressonâncias da subjetividade na                  ção para apreensão de seus princípios
por muito tempo como um “resto”                  linguagem, instigando-nos a tentar                e métodos de abordagem pelo redi-
impossível de ser integrado a seu                um diálogo. Os pontos de contato                  mensionamento da questão do saber
objeto para não corromper um ideal               parecem, de fato, nítidos.                        que ele provoca. Fundamental nesse
de ciência, pautado pelo rigor, pela                A ergologia interessa-se pelo tra-             processo foram os encontros com
universalidade, pela lei geral, pelo             balho como atividade efetivamente                 Maria Clara Bueno Fischer e as dis-
repetível: o investimento subjetivo na           realizada por sujeitos, entendendo                cussões semanais, feitas na disciplina
linguagem; a imprevisibilidade que               o termo “atividade” como uma                      Práticas de Pesquisa em 2007 (PPG
está colocada quando a língua sai pela           dialética entre duas dimensões da                 em Educação – UNISINOS), propos-
boca de alguém para se “precipitar em            atividade humana que estão ligadas                ta por ela para aprofundamento dos
discurso” (Dufour, 2000).                        no trabalho: o dizer e o fazer, isto              estudos da teoria de Yves Schwartz,
    A linguística da enunciação 2,               é, entre a prescrição e o que efeti-              um dos idealizadores do enfoque er-
campo em que situamos nossos es-                 vamente acontece. A perspectiva                   gológico. Mas, talvez, não tenhamos
tudos, acolhe esse “resto” no âmago              ergológica ensina que a atividade                 ainda avançado muito, em conjunto,
de seu objeto, isto é, descreve a                de trabalho é social, coletiva, nor-              na discussão do engajamento do lin-
linguagem em relação à singulari-                malizada, mas, ao mesmo tempo,                    guista na análise pluridisciplinar de
dade do uso feito pelo sujeito que               engaja experiências subjetivas, que               situações de trabalho. E é exatamente
enuncia em uma dada situação.                    tendem a redefinir permanentemente                desse aspecto que aqui vamos tratar.
Mostra-se, assim, aberta ao diálogo              os procedimentos. É o lugar de um                    A nosso ver, os estudos enunciati-
interdisciplinar.                                jogo de reciprocidades entre o geral              vos têm duas contribuições a dar aos
    O envolvimento com uma linguís-              e o singular.                                     outros campos, a primeira, de caráter
tica sensível à questão da subjetivi-               A linguística da enunciação inte-              mais amplo, no âmbito teórico, é uma
dade, aliada ao desejo de ultrapassar            ressa-se pelo ato de colocar a língua             concepção de linguagem; a outra,
o isolamento disciplinar foi o que               em funcionamento, pelo modo par-                  mais específica, no âmbito da prática,
determinou nosso encontro com os                 ticular como o homem apropria-se                  relaciona-se ao fornecimento de ferra-
estudos ergológicos sobre a atividade            dela para se relacionar com o outro               mentas para a análise da materialidade
de trabalho. Esses estudos resultam de           e com o mundo. Considera que a                    linguística propriamente dita. Ou seja,
uma tradição de mais de 15 anos de               língua fornece um sistema formal                  a competência disciplinar do linguista
investigações coletivas sobre o objeto           de base (um conjunto de normas)                   pode auxiliar a manipular tanto con-
“trabalho”, realizadas pelo dispositi-           que o falante, no ato de enunciação,              ceitos, como os de linguagem, língua,
vo APST (Analyse Pluridisciplinaire              arranja num estilo particular (renor-             discurso etc., como procedimentos
des Situations de Travail), que iniciou          maliza). Oferece também meios para                de análise de formas linguísticas pre-
suas atividades nos anos 80, na Uni-             a identificação, na matéria linguís-              sentes nos discursos tomados como
versidade de Provence (Aix-Marseille             tica, de marcas da subjetividade no               objeto de pesquisa.
I), na França, com o filósofo Yves               enunciado.                                           No início deste texto, focalizamos
Schwartz, o linguista Daniel Faïta e                Tanto a linguística da enunciação              alguns princípios da teoria da enun-
o sociólogo Bernard Vuillon.                     quanto os estudos ergológicos reco-               ciação de Émile Benveniste, aquele


2
  A denominação linguística da enunciação é proposta por Flores e Teixeira (2005) para reunir um conjunto de teorias que, embora diferentes, têm
                                                                                                                                                   237
em comum o fato de levarem em conta, de um ou de outro modo, a subjetividade, não como elemento acessório, mas como parte essencial da
descrição linguística. Os autores incluem nesse conjunto teorias como as de Benveniste, Ducrot, Bakhtin, Authier-Revuz, entre outras.
3
  A expressão é de Amorim (2001).




                                        volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral




      que é considerado o fundador desse                com discurso. Ele a entende como fa-                  A intersubjetividade tomada como
      campo de estudos no âmbito da lin-                culdade simbólica inerente à condição             constitutiva da subjetividade não
      guística. Acreditamos que esses prin-             humana; apresenta-a como condição                 permite supor um emissor e um re-
      cípios possam auxiliar a compreender              da existência humana e, como tal,                 ceptor ideais. Por essa razão, pode-se
      a relação problemática entre o dizer              sempre referida ao outro, porque é sob            afirmar que a ideia de comunicação
      e o fazer de que fala Schwartz. Em                a condição da intersubjetividade que o            que atravessa o pensamento de Ben-
      seguida, procuramos mostrar como se               sujeito se institui na/pela linguagem.            veniste (1989) não se identifica com
      podem aliar os saberes da linguística             “É na linguagem e pela linguagem que              a das teorias da informação, para as
      da enunciação e da ergologia na análi-            o homem se constitui como sujeito”                quais comunicar significa essencial-
      se do modo como funcionários de um                (Benveniste, 1988, p. 286), afirma                mente transmitir mensagens.
      estabelecimento de entretenimento                 o linguista, acrescentando que “a                     A superação da visão instrumen-
      e diversão nomeiam sua atividade4.                consciência de si só é experimentada              talista/referencialista de linguagem8,
                                                        por contraste. Eu não emprego eu a                a consideração da interferência do
      Bem antes de servir para                          não ser dirigindo-me a alguém, que                sujeito no ato de tomada da palavra
      comunicar, a linguagem                            será na minha alocução um tu”. “A                 – não um sujeito causa de si, mas
      serve para viver 5                                linguagem exige e pressupõe o outro”              um sujeito constituído na/pela alte-
                                                        (Benveniste, 1989, p. 93).                        ridade – parecem-nos essenciais para
         É preciso, desde este ponto, fazer                 Do exposto até aqui, dois princí-             compreender por que, na situação de
      um esclarecimento a respeito do que               pios da teoria benvenistiana podem                trabalho, há sempre descompasso
      se entende por linguagem, termo que               ser depreendidos: a indissociabilida-             entre o dizer e o fazer.
      não recobre o mesmo sentido de lín-               de entre linguagem e homem; o cará-
      gua na perspectiva que estamos tra-               ter intersubjetivo do ato enunciativo.            O dizer não recobre
      zendo6. Num de seus artigos mais cé-                  Esse segundo princípio nem sem-               o fazer 9: a especificidade
      lebres, Benveniste (1988, p. 284-285)             pre é tributado ao autor, apesar de               da linguagem humana
      recusa a ideia de que a linguagem é               evidenciado em inúmeras passagens,
      um instrumento de comunicação, por                entre as quais a que segue:                          Para avançar um pouco mais na
      considerá-la simplista. Para ele,
                                                                                                          compreensão do que efetivamente
                                                          O que em geral caracteriza a enuncia-           caracteriza a linguagem humana, é
          A linguagem está na natureza do                 ção é a acentuação da relação discur-
          homem, que não a fabricou [...]. Não                                                            interessante pensar no que ocorre no
                                                          siva com o parceiro, seja este real ou
          atingimos nunca o homem separado                                                                processo de comunicação animal.
                                                          imaginado, individual ou coletivo.
          da linguagem e não o vemos nunca                Essa característica coloca necessa-
                                                                                                          Todos nós sabemos que a faculdade
          inventando-a. Não atingimos jamais              riamente o que se pode denominar                de linguagem é frequentemente atri-
          o homem reduzido a si mesmo e                   o quadro figurativo da enunciação.              buída aos animais, não só pelo senso
          procurando conceber a existência                Como forma de discurso, a enuncia-              comum, mas também por pesquisas
          do outro. É um homem falando que                ção coloca duas “figuras” igualmente            feitas no campo da zoologia.
          encontramos no mundo, um homem
                                                          necessárias, uma, origem, a outra,                 Será que se pode dizer que os ani-
          falando com outro homem, e a lin-
                                                          fim da enunciação. É a estrutura do             mais estão na linguagem da mesma
          guagem ensina a própria definição do
                                                          diálogo. Duas figuras na posição
          homem (Benveniste, 1988, p. 285).7                                                              forma que os humanos? Em texto
                                                          de parceiros são alternativamente
                                                          protagonistas da enunciação. Este               de 1952, Benveniste discute uma
         No sistema de pensamento de Ben-                 quadro é dado necessariamente com a             pesquisa10 sobre a troca de mensa-
      veniste (1988, 1989), linguagem não é               definição da enunciação (Benveniste,            gens entre abelhas, tida como a mais
      sinônimo de língua nem se confunde                  1989, p. 87, grifos do autor).                  organizada forma de comunicação


      4
        Esta análise integra o trabalho de Cabral (2008).
      5
        A afirmação é de Benveniste (1989, p. 222).
      6
         Mesmo que muitas vezes Benveniste utilize um termo no lugar de outro, a compreensão do conjunto de seus textos impede ver sinonímia entre
      linguagem, língua e línguas ou mesmo hierarquização de valor (Flores, 2008b).
      7
         É claro que Benveniste não quer, com essas palavras, negar que haja “comunicação” entre os humanos. A noção de comunicação é um dos
      elementos fundamentais construído por sua teoria da enunciação, sendo objeto da segunda parte dos dois volumes de Problemas de Linguística
238   Geral (Dessons, 2006, p. 43).
      8
        Trata-se da visão de linguagem como simples instrumento de representação das coisas, a partir da crença de que há relação direta entre a palavra
      e a realidade que ela nomeia.
      9
        A afirmação é feita por Schwartz (2000, 2007).
      10
         Essa pesquisa decorre de experiências realizadas trinta anos antes pelo professor de Zoologia Karl von Frisch da Universidade de Munique.




                                                                   Educação Unisinos
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




animal. Essa pesquisa observa,                     comunicação é válido no interior                    a linguagem humana é única, na
numa colmeia transparente, que a                   de uma comunidade determinada                       medida em que propicia um substi-
abelha, depois que volta de uma                    e cada membro dessa comunida-                       tuto da experiência, adequado para
descoberta de alimento, é imediata-                de encontra-se em condições de                      ser transmitido indefinidamente no
mente rodeada pelas outras abelhas                 empregá-lo ou compreendê-lo nos                     tempo e no espaço. Além disso, a
que estendem, na sua direção, as                   mesmos termos.                                      linguagem humana permite estágios
antenas para recolher o pólen que ela                 No entanto, para Benveniste (1988,               complicados, como relatar a fala de
carrega e para absorver o néctar que               p. 65), essas semelhanças não autori-               outro graças ao estilo direto, indireto
ela vomita11. Depois, seguida pelas                zam a dizer que as abelhas têm uma                  ou indireto livre, retomar uma pala-
companheiras, executa danças, que                  verdadeira linguagem. Há diferenças                 vra considerada mal compreendida,
consistem em traçar círculos hori-                 consideráveis entre a linguagem das                 retransmitir uma mensagem.
zontais da direita para a esquerda,                abelhas e a linguagem humana. Enu-                     Realçamos aqui o fato de que,
depois da esquerda para a direita,                 meramos as mais significativas para                 enquanto a comunicação animal é
sucessivamente, ou em imitar o                     a compreensão do que efetivamente                   desprovida de alteridade, a interação
símbolo gráfico representativo do                  caracteriza a linguagem humana.                     humana é indissociável da dimensão
número oito (8), acompanhada por                      A “linguagem” das abelhas não                    alteritária pela qual “os indivíduos se
uma vibração contínua do ventre.                   se deixa analisar, não se reduz a                   constituem em sujeitos no processo
   Após essas danças, uma ou mais                  elementos identificáveis e distintos                de troca dialogada” (Dessons, 2006,
abelhas saem da colmeia em direção                 (não pode ser decomposta em mor-                    p. 45).
à fonte que a primeira havia visitado.             femas12 ou fonemas13, por exemplo);                    Dessas considerações pode-se
Na volta, fazem as mesmas danças e                 na linguagem humana, os elementos                   depreender que a “dança” dos huma-
novas abelhas se dirigem ao mesmo                  se combinam segundo regras defi-                    nos em direção ao “mel”, por mais
local da fonte. Os dois tipos de dan-              nidas, isto é, um número finito de                  que se execute a partir de uma base
ça constituem-se como verdadeiras                  fonemas/um número reduzido de                       comum (um código compartilhado),
mensagens pelas quais a descoberta                 morfemas permite um número con-                     abre-se para uma gama infinita de
é assinalada à colmeia. Não há mal                 siderável de combinações.                           possibilidades que não se deixam
entendidos na comunicação das                         Mas o aspecto mais interessante                  apreender por uma operação de
abelhas porque os “signos” são                     a destacar é que as abelhas não                     simples deciframento. Há algo de
unívocos.                                          conhecem o diálogo, condição es-                    incontornável no movimento do
   Benveniste (1988, p. 64) conside-               sencial da linguagem humana. O                      homem em direção ao significado.
ra que, em alguns pontos, a comu-                  processo de comunicação desses                         Algumas observações feitas
nicação das abelhas se assemelha à                 animais leva a uma conduta, não a                   por Lacan (2003, p. 40-43) sobre
comunicação humana. Por exemplo,                   uma resposta. Como não há diálogo,                  sua cadela, Justine, podem ajudar
elas manifestam aptidão para simbo-                a comunicação se refere apenas a um                 a compreender melhor esse “in-
lizar, isto é, capacidade de formular              dado objetivo; não há comunicação                   contornável”. Ele afirma que, sem
e interpretar um “signo”. Suas dan-                relativa a um dado linguístico.                     nenhuma dúvida, ela fala15, não o
ças põem em ação um simbolismo                     Logo, a mensagem da abelha não                      tempo todo, como acontece com
verdadeiro, embora rudimentar:                     pode ser reproduzida por outra que                  os humanos, mas somente nos mo-
dados objetivos são transpostos em                 não tenha visto ela própria os fatos                mentos em que sente necessidade
gestos formalizados, que comportam                 que a primeira anuncia: a abelha                    de falar. Como Justine é uma cadela
elementos variáveis e de “signifi-                 não constrói uma mensagem sobre                     boxer sem “nada de extraordinário”,
cação” constante. O sistema dessa                  outra mensagem14. Nesse sentido,                    que poderia pertencer a cada um


11
   O relato dessa pesquisa por Benveniste é próximo do que está em Teixeira e Ferreira (2008).
12
   O morfema designa o menor elemento significativo individualizado num enunciado, que não se pode dividir em unidades menores sem passar ao
nível fonológico. Por exemplo, -mos em trabalhamos; in- em inválido.
13
   Cada língua apresenta, em seu código, um número limitado e restrito de fonemas, que se combinam sucessivamente, ao longo da cadeia da fala,
para constituir os significantes das mensagens. O fonema é frequentemente definido como a unidade distintiva mínima. Por exemplo, o fonema
do português /a/ se opõe a /i/ e /e/, pois substituindo, em vala, /a/ por /i/ e /e/, tem-se sucessivamente vila e vela (Dubois et al., 1995, p. 280).
14
   Authier-Revuz (2008), comentando esse texto, entende que uma das propriedades essenciais da linguagem humana destacada por Benveniste
(1988) é a reflexividade. É nessa capacidade de não limitar a linguagem à representação do mundo, mas em produzir “significância sobre significância”,
em fazer proliferar a linguagem sobre si mesma, que reside o específico da linguagem humana. Sobre a relação metalinguagem/subjetividade na
                                                                                                                                                         239
enunciação, ver Authier-Revuz (1995).
15
   Lacan (2003, p. 40-43) se refere a pequenos gemidos guturais, a toda uma gama de mecanismos de tipo propriamente fonatórios de que os
cães fazem uso em momentos de intensidade emocional, acompanhados de “um certo tremor no lábio, especialmente no superior, sob o focinho”.




                                         volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral




      de nós, podemos considerar que a                     [...] penso que há um inconsciente                  A flauta, eu a joguei
      propriedade da fala seria inerente a                 de tipo, digamos, psicanalítico, um                 Aos peixes surdo-
      cães de um modo geral?                               pouco o inconsciente freudiano, se                  mudos do mar.
                                                           quisermos, que atua na nossa vida de
         Dizer que Justine fala não signifi-
                                                           trabalho como atua na nossa vida em                  Essa sensação de fracasso diante
      ca admitir que ela tenha a linguagem.
                                                           geral. E, nesse caso, de certa forma              da palavra, tantas vezes registrada na
      O que acontece é que ela “tem a                      trata-se, eu diria, de um bloqueio
      palavra sem ter a relação humana                                                                       produção literária, está também pre-
                                                           positivo, que faz com que haja resis-
      com a linguagem”. Observe-se que                     tências ao acesso à linguagem.                    sente nas mais corriqueiras expres-
      ela só fala por necessidade; não tem,                                                                  sões da língua corrente: Não sei se
      como nós, o “prazer da conversação”                    “Não podemos pôr tudo em                        me fiz entender...; É isso mesmo que
      (Lacan, 2003, p. 43)                               palavras”, diz Schwartz (2007, p.                   você quer dizer?; Não compreendo
         Observadas de fora, as manifes-                 145). De fato, as palavras não dão                  bem...; Isso não quer dizer nada...
      tações de amor de um cão podem                     conta, elas não são transparentes,                     Pela indicação no fragmento de
      ser consideradas ameaçadoras. No                   elas sofrem “desvios” de toda or-                   Fábula de Anfion (1947), a lin-
      entanto, algumas palavras do dono                  dem no trajeto até aqueles a quem                   guagem é uma produção da qual o
      fazem tudo reencontrar a ordem. Isso               se dirigem.                                         sujeito não é exatamente o agente,
      mostra que, contrariamente ao ho-                      A língua que tomamos como                       mas o efeito. Há, de fato, um “fundo
      mem, “minha cadela me reconhece                    “instrumento de comunicação”                        opaco” nas interações que torna o
      enquanto eu mesmo” (Lacan, 2003,                   frequentemente erra o alvo, nos                     fazer irredutível ao dizer e que tem
      p. 52). Para ela, “sou eu que estou                escapa. Ou, para utilizar as palavras               a ver com o que Schwartz chama
      ali”. “Não parece que sua relação                  de Henry (1992), é uma ferramenta                   de “corpo-si” e que nós chamamos
      com a linguagem lhe dê acesso ao                   imperfeita, cujos efeitos no outro                  de sujeito.
      grande Outro”16 (Lacan, 2003, p.                   acabam surpreendendo e até mesmo                       Em resumo, a perspectiva que
      42). Na sua “fala”, não existe senão               “traindo” aquele que a utiliza.                     aqui apresentamos entende a lin-
      o pequeno outro. Para o ser humano,                    Os poetas sempre souberam da di-                guagem em sua profunda implica-
      contudo, um animal de estimação                    ficuldade de encontrar simetria entre               ção com a subjetividade. Mostra
      pode representar alguém que aca-                   a linguagem e o que se quer, através                que a especificidade da linguagem
      ba de perder, “quer se trate de um                 dela, representar. Citamos o exem-                  humana é realizar-se por meio de
      membro da família ou de seu gru-                   plo de João Cabral de Mello Neto,                   uma língua, com toda a complexi-
      po, o chefe ou não, o presidente de                que, na Fábula de Anfion (1947), se                 dade da dimensão enunciativa que
      uma sociedade, ou qualquer outro”                  mostra impotente diante da palavra                  lhe é inerente.
      (Lacan, 2003, p. 46). Nas interações               (flauta), incapaz de prever/controlar
      humanas, há algo de enigmático que                 sua trajetória, seus desdobramentos:
                                                                                                             O olhar do linguista para
      resiste a toda tentativa de objetiva-                                                                  a fala viva na atividade
      ção: uma série de projeções, de ante-                Uma flauta: como                                  de trabalho
      cipações da posição do interlocutor.                 dominá-la, cavalo
         Os comentários de Lacan (2003)                    solto e louco?                                       Resta considerar o segundo as-
      sobre Justine nos levam a encontrar                                                                    pecto anunciado na introdução, ou
      mais um elemento para explicar                       [...]                                             seja, como a competência disciplinar
      a opacidade que caracteriza os                                                                         do linguista pode ser utilizada em
                                                           Uma flauta: como prever                           análises do que acontece na ativi-
      encontros humanos, a dimensão
                                                           suas modulações
      inconsciente, reconhecida por                                                                          dade de trabalho. Schwartz (2007,
                                                           cavalo solto e louco?
      Schwartz (2007, p. 146) quando                                                                         p. 128) reconhece que esse saber
      ele aponta algumas razões para                       Como traçar suas ondas                            é indispensável para que se mani-
      explicar a relação problemática                      antecipadamente, como faz                         pulem conceitos como linguagem,
      entre linguagem e atividade:                         no tempo, o mar?                                  expressão, verbal e não-verbal,


      16
        “O pequeno “outro”, em Lacan, é um parceiro imaginário. O grande “Outro” é o lugar em que a psicanálise situa, além do parceiro imaginário, aquilo
240   que, anterior e exterior ao sujeito, não obstante o determina”. A própria mãe, “inacessível pelo fato da proibição do incesto, encarna, enquanto objeto
      radicalmente perdido, a alteridade radical”. O pai é também o Outro, na medida em que sua evocação, no discurso da mãe, impede de confundir
      as gerações, de deixar de existir uma relação somente dual entre o filho e a mãe. O Outro se confunde ainda com a ordem da linguagem. Também
      o inconsciente deve ser concebido como o discurso do Outro. É a partir do Outro que o sujeito ordena a vida psíquica, ou seja, “um lugar em que
      insiste um discurso que é articulado, mesmo que nem sempre seja articulável” (Chemama e Vandermesh, 2007, p. 282).




                                                                     Educação Unisinos
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




locutor, sintaxe, que ajudam a pensar                 zação: materialidade da configuração                  coisas “por elas mesmas”, pois as
a relação linguagem e trabalho.                       lexical, das organizações sintáticas.                 nomeamos sempre a partir de “nós”.
    Boutet (1994) traz à discussão a                     Nosso desafio parece ser, a partir                 Assim, as nomeações dizem de nos-
natureza da intervenção do linguista                  do que é visível, observável, mais                    sas relações com as coisas e não das
nesse diálogo17. Segundo a autora,                    ou menos descritível, apreender, a                    coisas propriamente ditas.
a especificidade do trabalho do                       partir da linguagem, esse investi-                       No campo dos estudos ergo-
linguista quando confrontado à des-                   mento pessoal na atividade de que                     lógicos, além de teorizações de
crição da fala viva, em comparação,                   a ergologia fala, bastante difícil de                 Schwartz sobre a singularidade
por exemplo, com o trabalho de um                     captar, pois a linguagem não é trans-                 como constitutiva da experiência de
sociólogo com a linguagem, é a aten-                  parente, nem unívoca, assim como o                    trabalho, valemo-nos de observações
ção que ele dá às formas linguísticas.                sujeito não é diretamente apreensível                 de Revuz (2007)19, psicanalista que,
Enquanto o sociólogo tende a olhar                    pelas “marcas” de subjetividade no                    paralelamente à clínica, dedica-se
os dados discursivos sob o ângulo                     discurso.                                             à análise das práticas e dos atores
do conteúdo, indo diretamente “ao                        Para tornar mais concretas essas                   da inserção social e profissional.
que isso quer dizer”, o linguista, em                 considerações teóricas, trazemos um                   A autora vê no trabalho uma dupla
razão de sua técnica e de seu conhe-                  exemplo de intervenção linguística                    dimensão: de um lado, ele pertence
cimento sobre a língua, é sensível às                 em verbalizações sobre a atividade                    à realidade, é objeto social, consti-
diferentes configurações formais uti-                 de trabalho.                                          tuído por exigências econômicas,
lizadas pelo locutor para se constituir                                                                     técnicas, físicas e jurídicas. De
como sujeito do enunciado.                            Nomear a atividade                                    outro lado, existe como um dos ob-
    O saber que estamos mobilizando                   de trabalho: implicações                              jetos a que o desejo pode visar. Isso
nesta pesquisa, como referido anterior-               subjetivas                                            significa que, no trabalho, se opera
mente, é o da linguística da enunciação                                                                     uma “alquimia” entre investimentos
de Benveniste, pela qual a linguagem                     A pesquisa, cuja síntese apre-                     psíquicos inconscientes e algo que
é entendida como faculdade simbólica                  sentamos a seguir, não toma como                      se inscreve em normas socialmente
indissociável do humano, que se reali-                objeto a atividade de trabalho pro-                   construídas. Assim, na cena social
za em uma língua, em uma estrutura                    priamente dita, mas, sim, entrevistas                 em que o trabalho se dá, o sujeito
linguística definida e particular, inse-              com funcionários de um estabeleci-                    projeta o que tem de mais íntimo
parável de uma sociedade definida e                   mento de entretenimento e diversão                    dentro de si (Revuz, 2007, p. 231),
particular (Benveniste, 1988, p. 31).                 sobre sua atividade.                                  motivo pelo qual a atividade se re-
A palavra língua, para o autor, serve                    Com essa discussão, nosso in-                      veste de uma dimensão enigmática.
tanto para designar o produto social da               tuito é promover diálogo entre a                         Revuz (2007, p. 232) não desco-
faculdade de linguagem, o conjunto de                 teoria enunciativa de Benveniste e                    nhece que o trabalho está associado
convenções necessárias, adotadas pelo                 os estudos ergológicos. Particular-                   à sobrevivência, ao atendimento
corpo social para permitir o exercício                mente, neste estudo, recorremos à                     de exigências econômicas (dimen-
da linguagem18, como os sistemas                      formulação do linguista francês de                    são do ter), mas ressalta que ele é
linguísticos específicos, os idiomas                  que, “na enunciação, a língua se acha                 também portador de investimentos
(línguas portuguesa, francesa...). A re-              empregada para a expressão de uma                     inteiramente subjetivos (dimensão
lação necessária entre subjetividade e                certa relação com o mundo” (Ben-                      do ser); toda história pessoal é
linguagem se deixa ver na atualização                 veniste, 1989, p. 84). Essa relação                   novamente mobilizada no traba-
da língua em discurso, a partir de aná-               com o mundo é, na visão do autor,                     lho. Como não é possível explicar
lises feitas da materialidade de línguas              mediada por um sujeito intersubje-                    integralmente o funcionamento
específicas. O linguista não estuda                   tivamente constituído. A designação                   subjetivo, a relação do homem com
o discurso pelo que ele refere, mas,                  está, então, implicada com a subje-                   o trabalho comporta sempre algo da
antes, pela materialidade da verbali-                 tividade. Não podemos designar as                     ordem do indizível.

17
   Nesse sentido, o linguista francês Daniel Faïta também tem trazido contribuições. Quando esteve no I Congresso Internacional Linguagem e Interação,
realizado de 22 a 25 de agosto de 2005, numa iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UNISINOS, mostrou o engajamento
do linguista na análise pluridisciplinar de situações de trabalho. A interlocução com ele faz repensar questões epistemológicas sobre o campo teórico e
conceitual dos estudos da linguagem, assim como faz compreender a necessidade de redimensionar procedimentos metodológicos empregados em pesquisas
destinadas a compreender a atividade de trabalho, e assim contribuir para o desenvolvimento da situação profissional dos sujeitos trabalhadores (Faïta, 2005).
                                                                                                                                                                 241
18
   O que corresponde ao conceito saussuriano de língua.
19
   Essa reflexão integra o livro Trabalho & Ergologia: conversas sobre a atividade humana, organizado por Schwartz e Durrive (2007), que apresenta
diálogos entre pesquisadores de diferentes campos disciplinares, atravessados pelo enfoque ergológico.




                                            volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral




         A partir dessas formulações teó-                  Apesar de todos os entrevistados                (ii) quando a atividade é prestigiada
      ricas, oriundas da interlocução entre             terem ouvido as mesmas perguntas,                  no âmbito social, (iii) quando o sujeito
      os campos da enunciação e da ergo-                com as mesmas unidades linguísti-                  se identifica com ela. Ou seja, com a
      logia, o objetivo de nossa pesquisa é             cas, as respostas revelam que essas                forma Eu sou X, os locutores se situam
      observar como os trabalhadores en-                unidades não recobrem os mesmos                    em relação a uma nomenclatura de
      trevistados designam seu fazer para, a            sentidos atribuídos por eles. Ou seja,             profissões e classificações mais ou
      partir daí, refletir sobre o engajamento          é possível localizar traços de modos               menos oficial e estandardizada, co-
      subjetivo na atividade de trabalho.               diferentes de entender as perguntas                mum a um conjunto de trabalhadores
         Os sujeitos da pesquisa são 13                 no discurso produzido como resposta.               de uma mesma empresa ou de um
      funcionários de um estabelecimento                   As seguintes configurações sintá-               mesmo ramo profissional.
      de entretenimento e diversão situado              ticas foram levantadas nas respostas                   A existência, na língua, de uma
      em Porto Alegre, com idade entre 18               às questões formuladas:                            designação para a profissão pode
      e 45 anos, que trabalham no turno da                                                                 explicar, em parte, a utilização dessa
      noite e desempenham diferentes ati-               (a) Eu sou X (ex: Eu sou caixa);                   forma sintática. De fato, se não exis-
      vidades, como a de garçom, operador               (b) Eu trabalho em Y (ex: Eu traba-                te uma designação que categorize a
      de caixa e auxiliar de serviços gerais.               lho na copa/no balcão);                        profissão, fica difícil enunciar Eu
         Começamos a entrevista20 com                   (c) Eu faço Z (ex: eu faço trabalho                sou X. No entanto, isso não esgota a
      uma pergunta bastante comum em                        de cozinha) e/ou Eu + verbo de                 discussão. Acreditamos que formu-
      contatos sociais iniciais: “O que                     ação (ex: eu limpo banheiro,                   lações de Benveniste (1988, p. 204-
      você faz?” 21, seguida de outras                      reponho papel).                                227) sobre o verbo “ser”, no capítulo
      que, de certo modo, parafraseiam                                                                     “Ser” e “ter” nas suas funções
      a pergunta inicial22. Consideramos                   Nossa hipótese é que os diferentes              linguísticas, podem contribuir para
      que a situação de entrevista coloca               tipos de predicação encontrados no                 que se percebam outros aspectos
      em jogo atividades de produção e                  material de investigação apontam para              relacionados ao enunciado Eu sou X.
      compreensão de enunciados pro-                    a representação que o trabalhador faz                  Conforme Benveniste (1988, p.
      fundamente assimétricas, pois o ato               de sua atividade profissional. Ao des-             205, grifos do autor), o sentido do
      de enunciação não é uma troca em                  tacar essas diferentes configurações               verbo “ser” é “ter existência, ser em
      que uma pessoa decodifica o que a                 sintáticas, a análise linguística coloca           realidade”, e essa “existência”, essa
      outra teria anteriormente codificado.             em evidência um aspecto importante a               “realidade” se definem como o que é
         Como vimos anteriormente, sob                  ser melhor situado com o auxílio da er-            autêntico, é consistente, verdadeiro.
      a perspectiva do linguista, não se                gologia, conforme discussão a seguir.                  O verbo “ser”, quando está num
      estuda o discurso pelo que ele refere,                                                               enunciado que estabelece identidade
      mas, sim, pela materialidade da ver-              Estrutura sintática                                entre dois termos nominais, indica a
      balização. Inspirando-nos em Boutet               Eu sou X                                           participação em um conjunto: Pierre
      (1994)23, dirigimos nossa atenção                                                                    é francês (Benveniste, 1988, p. 206).
      para as operações de categorização                   Segundo Boutet (1994), por meio                 “Ser” é o estado do sendo, daquele
      da situação profissional por parte                de uma estrutura como Eu sou X, o                  que é alguma coisa [...]. Entre os dois
      dos trabalhadores entrevistados, a                entrevistado responde por uma pro-                 termos que une, se estabelece uma
      partir das configurações sintáticas               priedade, por uma posição em relação               relação intrínseca de identidade: é o
      das respostas às perguntas formula-               a uma grade de classificação. Em sua               estado consubstancial.
      das. A pesquisa parte do pressuposto              pesquisa, a autora constata que essa                   A estrutura Eu sou X ocorre apenas
      que não só diferenciações lexicais                estrutura ocorre (i) quando há nomen-              uma vez no material em estudo. A en-
      são carregadas de significado, mas                clatura objetiva, nomes precisos que               trevistada A4, em resposta à pergunta
      também as diferenciações sintáticas.              correspondem a atividades definidas;               124, enuncia: “Sou chapeleira”. Pela


      20
         As entrevistas foram gravadas em áudio.
      21
         Pergunta semelhante é feita por Boutet (1994), em investigação que envolve seis empresas de metalurgia espalhadas pela França, que, ao contrário
      do que grande parte dos linguistas fazem, não privilegia a dimensão da palavra, aquela que se oferece, de modo mais imediato, como ponto de apoio
242   para a construção do significado, mas toma como objeto de estudo as relações sintáticas, propondo que sejam vistas como produtoras de significado.
      22
         As outras perguntas são: (ii) Qual é seu trabalho? (iii) Qual é sua profissão? (iv) Quando lhe perguntam, qual é a sua profissão ou o que faz, o
      que você responde?
      23
         Apesar de inspirada na linguista francesa, nossa análise não se identifica com a dela. Boutet (1994) está preocupada com o fenômeno da construção
      social do significado; o que nos mobiliza é a natureza do engajamento subjetivo no trabalho.




                                                                    Educação Unisinos
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




perspectiva de Benveniste, pode-se               233). Não há nisso nada de mecâni-                social. Se os estudos ergológicos
dizer que esse enunciado sinaliza                co. Por alguma razão, a atividade de              têm razão, a referência ao lugar em
uma relação intrínseca entre Eu e a              trabalho entra em ressonância com                 detrimento do ofício deve dizer algo
profissão designada. Pela perspectiva            traços da história psíquica.                      a respeito do engajamento daquele
de Revuz (2007), essa configuração                                                                 que diz em relação a seu trabalho.
sintática talvez indique que, para essa          Estrutura sintática                                  A validação do fazer se reflete no
entrevistada, a atividade de trabalho            Eu trabalho em Y                                  ser, afirma Revuz (2007, p. 236). O
está associada à dimensão do “ser”. Eu                                                             reconhecimento pelo trabalho atua
sou é uma maneira de apresentar o que               Bem mais frequente é a utilização              nas pessoas como reconhecimento
faz parte da pessoa, o que constitui sua         de Eu trabalho em Y25, estrutura pela             do que elas são. Vale lembrar que,
identidade. A proclamação “ser cha-              qual o entrevistado responde à questão            para a psicanalista, o trabalho,
peleira”, então, participa do conjunto           não pela designação de uma profissão,             embora esteja ligado à necessidade
de elementos que talvez propiciem                mas situando-se em relação ao lugar               (dimensão do ter), toca também a
à entrevistada tomar contato com                 em que desenvolve suas atividades                 dimensão do ser. Quando solicitado
a sociedade de maneira valorizada.               profissionais. Boutet (1994) considera            a nomear o que faz como trabalho,
Embora “ser chapeleira” possa não                que uma predicação como essa pode                 o trabalhador pode sentir-se pouco
estar entre os trabalhos socialmente             estar relacionada à pluriacentuação               à vontade para designar/descrever
mais prestigiados, de algum modo,                do sintagma “O que você faz?”, que                seu ofício, ou porque ele é pouco
ele se apresenta, pelo menos neste               conduz a várias interpretações.                   valorizado socialmente, ou porque
ato enunciativo, como parte “da iden-               Na entrevista 6, o entrevistado                é pouco conhecido. Nesse caso,
tidade” dessa trabalhadora, por razões           S enuncia: Trabalho no salão de                   responder pela nomeação do lo-
relacionadas a sua história pessoal que          um bar, recolhendo garrafas e co-                 cal – particularmente, se for local
não nos compete identificar.                     pos. Esta construção exprime uma                  prestigiado – pode ser uma saída no
    A questão do que é ou não valori-            localização no estabelecimento                    sentido de adquirir/manter imagem
zado no âmbito das profissões/ocu-               para, depois, especificar a atividade             positiva diante do outro.
pações é complexa. Revuz (2007,                  realizada. Não se pode deixar de                     Talvez assim se possa explicar
p. 234) comenta que é impossível                 considerar que não existe, em por-                essa ocorrência em que o entrevis-
saber exatamente o que faz com que               tuguês, um substantivo agentivo que               tado responde à questão proposta
o trabalhador encontre plenitude nas             corresponda ao ofício de “recolher                nomeando o estabelecimento onde
atividades que realiza.                          garrafas e copos”. Assim, o entrevis-             trabalha, que tem prestígio na cidade
                                                 tado vê-se obrigado a recorrer a uma              de Porto Alegre. A valorização social
     O que faz com que meu vizinho, na           descrição do que faz. Concordamos                 do local permite encontrar um modus
     montanha, no silêncio, passe os dias        que as operações de categorização                 vivendi, uma forma de convívio com
     sozinho a fabricar cerâmicas? É uma         das situações de trabalho estão
     escolha. O que acontece quando ele                                                            o trabalho, que, no entanto, não é
                                                 “subordinadas a situações objetivas               jamais estável (Revuz, 2007, p. 228).
     maneja a terra, o que faz com que, no
                                                 concretas” (Boutet, 1994, p. 70). No
     caso dele, possa encontrar plenitude
     naquela atividade, e isto após ter          entanto, – e Boutet não desconhece                Estrutura sintática Eu faço Z
     tido uma formação em Altos Estudos          isto – expressar uma caracterização               e/ou Eu + verbo de ação
     Comerciais? É enigmático (Revuz,            profissional coloca em jogo dife-
     2007, p. 234).                              rentes dimensões que, a nosso ver,                   Nesse caso, os trabalhadores pre-
                                                 estão ligadas ao engajamento da                   dicam um processo em que a pessoa
   Há uma hierarquia de valores                  subjetividade no trabalho.                        que fala é o agente. A predicação de
historicamente variável, que define                 Alguns entrevistados respondem                 processo adquire diferentes formas.
a importância de algumas profissões              à questão proposta também pela for-               Pode ser feita por uma locução
em detrimento de outras. Mas essa                ma: Eu trabalho no bar W, nomean-                 verbal, como no enunciado do tra-
hierarquia só adquire sentido para               do o estabelecimento e silenciando                balhador J:
os indivíduos em função de sua                   sobre o trabalho que ali realiza, nesse
trajetória pessoal (Revuz, 2007, p.              caso, um trabalho de pouco prestígio                Eu faço serviço geral de limpeza.

                                                                                                                                                    243
24
   Para facilitar a leitura da análise, segue-se a enumeração das questões: O que você faz? Qual é seu trabalho? Qual é sua profissão? Quando lhe
perguntam, qual é a sua profissão ou o que faz, o que você responde?
25
   Houve seis ocorrências dessa estrutura.




                                        volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral




        Ou por meio de um verbo de ação,       mente realizadas no exercício de seu         Uma pergunta pode ainda ser
      como no enunciado de R2:                 trabalho. Situam-se em relação ao que     feita: essas configurações sintáticas
                                               de fato fazem e descrevem de modo         são oriundas de escolhas dos traba-
       Eu atendo os clientes.                  mais ou menos explícito uma ou várias     lhadores? A questão da escolha dos
                                               operações de seu posto de trabalho.       sujeitos falantes na elaboração de
         Para explicar esses casos, valem          A nomeação de uma situação            sua fala é bem complexa e tem sido
      também as observações de Boutet          varia segundo as pessoas, porque          objeto de debates. A nosso ver, o
      (1994) anteriormente feitas sobre        elas não retêm os mesmos traços per-      fato de, ao serem interrogadas, essas
      a polissemia da pergunta e sobre a       tinentes, as mesmas características:      pessoas se expressarem por uma
      inexistência, na língua, de designa-     isso pode ser explicado pelas ob-         ou outra forma não se deve a uma
      ções reconhecidas para esses ofícios.    servações teóricas sobre as relações      escolha dos entrevistados, a uma
      Entretanto, não se pode esquecer         linguagem, subjetividade e trabalho.      “vontade” de comunicação.
      que, ao se enunciarem dessa forma,       Exprimir uma situação profissional           Para Benveniste (1988, 1989), a
      os trabalhadores localizam, para o       como um lugar, como um ambiente,          designação está relacionada com a
      entrevistador, as atividades que rea-    por uma designação (por operações         subjetividade. O autor não tem uma
      lizam, mesmo que não sejam exata-        diferentes de designação) coloca          teoria do sujeito e, na visão de Flo-
      mente valorizadas socialmente. Nes-      em jogo dimensões que estão sob           res (2008a), essa noção transcende
      se sentido, salientam-se novamente       a dependência do “ponto de vista”         os quadros da linguística. Isso, no
      as considerações de Revuz (2007) a       construído pelos sujeitos sobre a         entanto, não significa que não possa
      respeito da ressonância que alguns       situação. A interpretação se dá em        ser considerada em estudos feitos
      sujeitos encontram entre o que fazem     relação às respectivas referências,
                                                                                         por linguistas, desde que se recorra
      como trabalho e aspectos de sua          a determinados universos de pen-
                                                                                         a exterioridades teóricas (Authier-
      história pessoal. Isso contribui para    samento, ao modo como valoram
                                                                                         Revuz, 1982, 1995).
      explicar o enigma de que se reveste      a experiência e a muitos outros
                                                                                            É pelo apelo à psicanálise que
      toda a atividade, o qual, embora não     aspectos que contribuem para a
                                                                                         tomamos a questão do sujeito. Cre-
      possa ser desvendado, não pode ser       instituição desse “incontornável”
                                                                                         mos que conceber o sujeito como
      desconsiderado, pois age o tempo         de que falamos no início deste texto.
                                                                                         transcendendo os limites do eu e da
      todo no processo de trabalho.                As teorias da enunciação, ao to-
                                                                                         consciência, polarizado entre o si mes-
                                               marem a fala do sujeito pelo que
                                                                                         mo e o outro, talvez possa auxiliar a
      Considerações finais                     ela tem de singular – em função
                                                                                         entender melhor o aspecto, destacado
                                               da instanciação no tempo e espaço
          As interpretações dadas à pergun-                                              por Schwartz (1997), de que o dizer
                                               sempre presente no ato de enuncia-
      ta do pesquisador raramente levaram      ção – fornecem meios para descrever       não recobre o fazer. A linguagem, a
      à designação de uma profissão (Eu        a linguagem em funcionamento em           partir da consideração do inconsciente,
      sou X). Talvez porque os funcioná-       relação à singularidade do uso feito      não pode mais ser dita como referindo
      rios desse local sejam confrontados      pelo sujeito que enuncia em uma dada      o mundo. Entre as palavras e as coisas,
      à mobilidade e à transitoriedade; eles   situação. Acreditamos que a análise       existe uma intermediação impor-
      têm a experiência cotidiana de um        feita sob essa perspectiva ilustra como   tante: um sujeito “capaz de desejo e
      tempo fragmentado.                       pode ser visualizada a imbricação da      não-simetrizável”, (Milner, 1987). A
          Com as construções Eu trabalho       subjetividade na atividade de trabalho.   intervenção desse olhar no dispositivo
      em Y, os funcionários dão maior              A descrição linguística contribui     ergológico pode trazer novas luzes à
      ênfase ao estabelecimento do que         para que se compreenda melhor a           compreensão do que acontece quando
      ao próprio fazer, quem sabe por          afirmação de Revuz (2007, p. 236):        o sujeito está em atividade de trabalho
      considerarem o local de trabalho         “o trabalho capta em nós, exatamen-       (Teixeira, 2008).
      como índice de prestígio, em de-         te nas mesmas fontes, o que existe           Concluímos este artigo com
      trimento da atividade propriamente       de mais íntimo”. Para além de asse-       uma afirmação de Schwartz (1997,
      dita, que é colocada em segundo          gurar a sobrevivência, trata-se de um     p. 3): O trabalho não é “jamais uma
      plano, ou é silenciada.                  empreendimento subjetivo, “um ir e        realidade simples”. Nada mais justo,
          Com as construções Eu faço Z ou      vir extremamente complexo entre a         então, do que buscar caminhos ino-
244   Eu + verbo de ação, os funcionários      cena psíquica e a cena social”, como      vadores para procurar compreendê-
      se localizam no que diz respeito a       afirma Durrive no diálogo com a           lo. Fica o convite a quem quiser
      ações, atividades, operações efetiva-    psicanalista (Revuz 2007, p. 236).        tentar conosco.


                                                        Educação Unisinos
Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível




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  guística. 5ª ed., São Paulo, Cultrix, 653 p.      posição. Barcelona, O Livro Inconsútil.                            Aceito em: 30/08/2009




                                                                                                     Marlene Teixeira
                                                                                                     Unisinos
                                                                                                     Av. Unisinos, 950, Cristo Rei
                                                                                                     93022-000, São Leopoldo, RS, Brasil

                                                                                                     Éderson de Oliveira Cabral
                                                                                                     Unisinos
                                                                                                     Av. Unisinos, 950, Cristo Rei
                                                                                                                                                   245
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                                         volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009

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Linguística da enunciação e ergologia

  • 1. Educação Unisinos 13(3):236-245, setembro/dezembro 2009 © 2009 by Unisinos - doi: Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível1 Enunciation perspective and ergology: A possible dialogue Marlene Teixeira marlenet@unisinos.br Éderson de Oliveira Cabral eder108@yahoo.com.br Resumo: Este texto propõe que a perspectiva enunciativa de estudo da linguagem de Émile Benveniste apresenta pontos de contato com a ergologia (Schwartz, 2000), podendo com ela dialogar em investigações sobre a atividade de trabalho. A ergologia interessa-se pelo trabalho como atividade efetivamente realizada por sujeitos, entendendo o termo “atividade” como uma dialética entre duas dimensões da atividade humana que estão ligadas no trabalho: o dizer e o fazer. A linguística da enunciação interessa-se pelo ato de tomada da palavra, entendendo que a língua fornece um sistema formal de base (um conjunto de normas) que o falante, quando a utiliza, arranja num estilo particular (renormaliza). Ambos os saberes não se detêm em observar somente regularidades, mas, particularmente, focalizam os efeitos da intervenção sempre singular do sujeito no uso da linguagem/na atividade de trabalho. Uma análise de verbalizações sobre a atividade de trabalho é trazida para ilustrar as considerações teóricas. Palavras-chave: ergologia, enunciação, atividade de trabalho, singularidade, norma, renormalização. Abstract: This article proposes that elements of the enunciative perspective of Emile Benveniste language studies can be theoretically related to Ergology (Schwartz, 2000) in researching the work activity. Ergology is interested in the work as an activity carried out effectively by individuals, understanding the term “activity” as a dialectic between two dimensions of human activities that are connected at work: saying and doing. From the enunciative perspective the talking subject uses the formal base system of the language in a particular way. The subject, therefore, re-normalizes the language norms or rules. It is argued that both theoretical fields do not focus only on regularities but they are especially concerned with the effects of the singular intervention of the individual in relation to language/work activity. An analysis of the verbalization in the work activity is presented in order to illustrate the theoretical argument developed. Key words: ergology, enunciation, work activity, singularity, norm, renormalization. 1 Texto apresentado na III Jornada de Estudos sobre Produção e Legitimação de Saberes no/do Trabalho: Interfaces entre Ergologia, Linguagem e Educação (UNISINOS, outubro de 2008). O que aqui está formulado não teria sido possível sem a contribuição dos bolsistas de Iniciação Científica Aroldo Garcia dos Anjos (BIC/FAPERGS) e Deizi Daiane Habitzreiter (UNIBIC/UNISINOS), integrantes do grupo de pesquisa coordenado pela professora Doutora Marlene Teixeira (Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada/UNISINOS).
  • 2. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível Introdução A reflexão de Yves Schwartz a nhecem que a regularidade é inerente respeito da “enigmática alquimia ao campo da linguagem/à atividade Estarmos hoje em contato com humana” que se dá no “coração de trabalho. No entanto, observar saberes interessados em pensar o que do trabalho”, entendido como uma só as regularidades é neutralizar o acontece na atividade de trabalho é “dramática do uso de si por si e uso objeto a conhecer. É preciso olhar resultado do exercício de colocar a de si pelos outros”, produziram uma para a intervenção sempre singular linguística em diálogos que trans- genuína inquietação e uma imediata do sujeito no ato de linguagem/na cendam o que se tem considerado relação de transferência teórica3. atividade de trabalho. como seu escopo disciplinar. Algo ali soava de modo familiar O investimento no dispositivo er- Isso implica movimentar-se na di- a ouvidos acostumados a escutar gológico requer um tempo de matura- reção daquilo que a linguística deixou ressonâncias da subjetividade na ção para apreensão de seus princípios por muito tempo como um “resto” linguagem, instigando-nos a tentar e métodos de abordagem pelo redi- impossível de ser integrado a seu um diálogo. Os pontos de contato mensionamento da questão do saber objeto para não corromper um ideal parecem, de fato, nítidos. que ele provoca. Fundamental nesse de ciência, pautado pelo rigor, pela A ergologia interessa-se pelo tra- processo foram os encontros com universalidade, pela lei geral, pelo balho como atividade efetivamente Maria Clara Bueno Fischer e as dis- repetível: o investimento subjetivo na realizada por sujeitos, entendendo cussões semanais, feitas na disciplina linguagem; a imprevisibilidade que o termo “atividade” como uma Práticas de Pesquisa em 2007 (PPG está colocada quando a língua sai pela dialética entre duas dimensões da em Educação – UNISINOS), propos- boca de alguém para se “precipitar em atividade humana que estão ligadas ta por ela para aprofundamento dos discurso” (Dufour, 2000). no trabalho: o dizer e o fazer, isto estudos da teoria de Yves Schwartz, A linguística da enunciação 2, é, entre a prescrição e o que efeti- um dos idealizadores do enfoque er- campo em que situamos nossos es- vamente acontece. A perspectiva gológico. Mas, talvez, não tenhamos tudos, acolhe esse “resto” no âmago ergológica ensina que a atividade ainda avançado muito, em conjunto, de seu objeto, isto é, descreve a de trabalho é social, coletiva, nor- na discussão do engajamento do lin- linguagem em relação à singulari- malizada, mas, ao mesmo tempo, guista na análise pluridisciplinar de dade do uso feito pelo sujeito que engaja experiências subjetivas, que situações de trabalho. E é exatamente enuncia em uma dada situação. tendem a redefinir permanentemente desse aspecto que aqui vamos tratar. Mostra-se, assim, aberta ao diálogo os procedimentos. É o lugar de um A nosso ver, os estudos enunciati- interdisciplinar. jogo de reciprocidades entre o geral vos têm duas contribuições a dar aos O envolvimento com uma linguís- e o singular. outros campos, a primeira, de caráter tica sensível à questão da subjetivi- A linguística da enunciação inte- mais amplo, no âmbito teórico, é uma dade, aliada ao desejo de ultrapassar ressa-se pelo ato de colocar a língua concepção de linguagem; a outra, o isolamento disciplinar foi o que em funcionamento, pelo modo par- mais específica, no âmbito da prática, determinou nosso encontro com os ticular como o homem apropria-se relaciona-se ao fornecimento de ferra- estudos ergológicos sobre a atividade dela para se relacionar com o outro mentas para a análise da materialidade de trabalho. Esses estudos resultam de e com o mundo. Considera que a linguística propriamente dita. Ou seja, uma tradição de mais de 15 anos de língua fornece um sistema formal a competência disciplinar do linguista investigações coletivas sobre o objeto de base (um conjunto de normas) pode auxiliar a manipular tanto con- “trabalho”, realizadas pelo dispositi- que o falante, no ato de enunciação, ceitos, como os de linguagem, língua, vo APST (Analyse Pluridisciplinaire arranja num estilo particular (renor- discurso etc., como procedimentos des Situations de Travail), que iniciou maliza). Oferece também meios para de análise de formas linguísticas pre- suas atividades nos anos 80, na Uni- a identificação, na matéria linguís- sentes nos discursos tomados como versidade de Provence (Aix-Marseille tica, de marcas da subjetividade no objeto de pesquisa. I), na França, com o filósofo Yves enunciado. No início deste texto, focalizamos Schwartz, o linguista Daniel Faïta e Tanto a linguística da enunciação alguns princípios da teoria da enun- o sociólogo Bernard Vuillon. quanto os estudos ergológicos reco- ciação de Émile Benveniste, aquele 2 A denominação linguística da enunciação é proposta por Flores e Teixeira (2005) para reunir um conjunto de teorias que, embora diferentes, têm 237 em comum o fato de levarem em conta, de um ou de outro modo, a subjetividade, não como elemento acessório, mas como parte essencial da descrição linguística. Os autores incluem nesse conjunto teorias como as de Benveniste, Ducrot, Bakhtin, Authier-Revuz, entre outras. 3 A expressão é de Amorim (2001). volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
  • 3. Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral que é considerado o fundador desse com discurso. Ele a entende como fa- A intersubjetividade tomada como campo de estudos no âmbito da lin- culdade simbólica inerente à condição constitutiva da subjetividade não guística. Acreditamos que esses prin- humana; apresenta-a como condição permite supor um emissor e um re- cípios possam auxiliar a compreender da existência humana e, como tal, ceptor ideais. Por essa razão, pode-se a relação problemática entre o dizer sempre referida ao outro, porque é sob afirmar que a ideia de comunicação e o fazer de que fala Schwartz. Em a condição da intersubjetividade que o que atravessa o pensamento de Ben- seguida, procuramos mostrar como se sujeito se institui na/pela linguagem. veniste (1989) não se identifica com podem aliar os saberes da linguística “É na linguagem e pela linguagem que a das teorias da informação, para as da enunciação e da ergologia na análi- o homem se constitui como sujeito” quais comunicar significa essencial- se do modo como funcionários de um (Benveniste, 1988, p. 286), afirma mente transmitir mensagens. estabelecimento de entretenimento o linguista, acrescentando que “a A superação da visão instrumen- e diversão nomeiam sua atividade4. consciência de si só é experimentada talista/referencialista de linguagem8, por contraste. Eu não emprego eu a a consideração da interferência do Bem antes de servir para não ser dirigindo-me a alguém, que sujeito no ato de tomada da palavra comunicar, a linguagem será na minha alocução um tu”. “A – não um sujeito causa de si, mas serve para viver 5 linguagem exige e pressupõe o outro” um sujeito constituído na/pela alte- (Benveniste, 1989, p. 93). ridade – parecem-nos essenciais para É preciso, desde este ponto, fazer Do exposto até aqui, dois princí- compreender por que, na situação de um esclarecimento a respeito do que pios da teoria benvenistiana podem trabalho, há sempre descompasso se entende por linguagem, termo que ser depreendidos: a indissociabilida- entre o dizer e o fazer. não recobre o mesmo sentido de lín- de entre linguagem e homem; o cará- gua na perspectiva que estamos tra- ter intersubjetivo do ato enunciativo. O dizer não recobre zendo6. Num de seus artigos mais cé- Esse segundo princípio nem sem- o fazer 9: a especificidade lebres, Benveniste (1988, p. 284-285) pre é tributado ao autor, apesar de da linguagem humana recusa a ideia de que a linguagem é evidenciado em inúmeras passagens, um instrumento de comunicação, por entre as quais a que segue: Para avançar um pouco mais na considerá-la simplista. Para ele, compreensão do que efetivamente O que em geral caracteriza a enuncia- caracteriza a linguagem humana, é A linguagem está na natureza do ção é a acentuação da relação discur- homem, que não a fabricou [...]. Não interessante pensar no que ocorre no siva com o parceiro, seja este real ou atingimos nunca o homem separado processo de comunicação animal. imaginado, individual ou coletivo. da linguagem e não o vemos nunca Essa característica coloca necessa- Todos nós sabemos que a faculdade inventando-a. Não atingimos jamais riamente o que se pode denominar de linguagem é frequentemente atri- o homem reduzido a si mesmo e o quadro figurativo da enunciação. buída aos animais, não só pelo senso procurando conceber a existência Como forma de discurso, a enuncia- comum, mas também por pesquisas do outro. É um homem falando que ção coloca duas “figuras” igualmente feitas no campo da zoologia. encontramos no mundo, um homem necessárias, uma, origem, a outra, Será que se pode dizer que os ani- falando com outro homem, e a lin- fim da enunciação. É a estrutura do mais estão na linguagem da mesma guagem ensina a própria definição do diálogo. Duas figuras na posição homem (Benveniste, 1988, p. 285).7 forma que os humanos? Em texto de parceiros são alternativamente protagonistas da enunciação. Este de 1952, Benveniste discute uma No sistema de pensamento de Ben- quadro é dado necessariamente com a pesquisa10 sobre a troca de mensa- veniste (1988, 1989), linguagem não é definição da enunciação (Benveniste, gens entre abelhas, tida como a mais sinônimo de língua nem se confunde 1989, p. 87, grifos do autor). organizada forma de comunicação 4 Esta análise integra o trabalho de Cabral (2008). 5 A afirmação é de Benveniste (1989, p. 222). 6 Mesmo que muitas vezes Benveniste utilize um termo no lugar de outro, a compreensão do conjunto de seus textos impede ver sinonímia entre linguagem, língua e línguas ou mesmo hierarquização de valor (Flores, 2008b). 7 É claro que Benveniste não quer, com essas palavras, negar que haja “comunicação” entre os humanos. A noção de comunicação é um dos elementos fundamentais construído por sua teoria da enunciação, sendo objeto da segunda parte dos dois volumes de Problemas de Linguística 238 Geral (Dessons, 2006, p. 43). 8 Trata-se da visão de linguagem como simples instrumento de representação das coisas, a partir da crença de que há relação direta entre a palavra e a realidade que ela nomeia. 9 A afirmação é feita por Schwartz (2000, 2007). 10 Essa pesquisa decorre de experiências realizadas trinta anos antes pelo professor de Zoologia Karl von Frisch da Universidade de Munique. Educação Unisinos
  • 4. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível animal. Essa pesquisa observa, comunicação é válido no interior a linguagem humana é única, na numa colmeia transparente, que a de uma comunidade determinada medida em que propicia um substi- abelha, depois que volta de uma e cada membro dessa comunida- tuto da experiência, adequado para descoberta de alimento, é imediata- de encontra-se em condições de ser transmitido indefinidamente no mente rodeada pelas outras abelhas empregá-lo ou compreendê-lo nos tempo e no espaço. Além disso, a que estendem, na sua direção, as mesmos termos. linguagem humana permite estágios antenas para recolher o pólen que ela No entanto, para Benveniste (1988, complicados, como relatar a fala de carrega e para absorver o néctar que p. 65), essas semelhanças não autori- outro graças ao estilo direto, indireto ela vomita11. Depois, seguida pelas zam a dizer que as abelhas têm uma ou indireto livre, retomar uma pala- companheiras, executa danças, que verdadeira linguagem. Há diferenças vra considerada mal compreendida, consistem em traçar círculos hori- consideráveis entre a linguagem das retransmitir uma mensagem. zontais da direita para a esquerda, abelhas e a linguagem humana. Enu- Realçamos aqui o fato de que, depois da esquerda para a direita, meramos as mais significativas para enquanto a comunicação animal é sucessivamente, ou em imitar o a compreensão do que efetivamente desprovida de alteridade, a interação símbolo gráfico representativo do caracteriza a linguagem humana. humana é indissociável da dimensão número oito (8), acompanhada por A “linguagem” das abelhas não alteritária pela qual “os indivíduos se uma vibração contínua do ventre. se deixa analisar, não se reduz a constituem em sujeitos no processo Após essas danças, uma ou mais elementos identificáveis e distintos de troca dialogada” (Dessons, 2006, abelhas saem da colmeia em direção (não pode ser decomposta em mor- p. 45). à fonte que a primeira havia visitado. femas12 ou fonemas13, por exemplo); Dessas considerações pode-se Na volta, fazem as mesmas danças e na linguagem humana, os elementos depreender que a “dança” dos huma- novas abelhas se dirigem ao mesmo se combinam segundo regras defi- nos em direção ao “mel”, por mais local da fonte. Os dois tipos de dan- nidas, isto é, um número finito de que se execute a partir de uma base ça constituem-se como verdadeiras fonemas/um número reduzido de comum (um código compartilhado), mensagens pelas quais a descoberta morfemas permite um número con- abre-se para uma gama infinita de é assinalada à colmeia. Não há mal siderável de combinações. possibilidades que não se deixam entendidos na comunicação das Mas o aspecto mais interessante apreender por uma operação de abelhas porque os “signos” são a destacar é que as abelhas não simples deciframento. Há algo de unívocos. conhecem o diálogo, condição es- incontornável no movimento do Benveniste (1988, p. 64) conside- sencial da linguagem humana. O homem em direção ao significado. ra que, em alguns pontos, a comu- processo de comunicação desses Algumas observações feitas nicação das abelhas se assemelha à animais leva a uma conduta, não a por Lacan (2003, p. 40-43) sobre comunicação humana. Por exemplo, uma resposta. Como não há diálogo, sua cadela, Justine, podem ajudar elas manifestam aptidão para simbo- a comunicação se refere apenas a um a compreender melhor esse “in- lizar, isto é, capacidade de formular dado objetivo; não há comunicação contornável”. Ele afirma que, sem e interpretar um “signo”. Suas dan- relativa a um dado linguístico. nenhuma dúvida, ela fala15, não o ças põem em ação um simbolismo Logo, a mensagem da abelha não tempo todo, como acontece com verdadeiro, embora rudimentar: pode ser reproduzida por outra que os humanos, mas somente nos mo- dados objetivos são transpostos em não tenha visto ela própria os fatos mentos em que sente necessidade gestos formalizados, que comportam que a primeira anuncia: a abelha de falar. Como Justine é uma cadela elementos variáveis e de “signifi- não constrói uma mensagem sobre boxer sem “nada de extraordinário”, cação” constante. O sistema dessa outra mensagem14. Nesse sentido, que poderia pertencer a cada um 11 O relato dessa pesquisa por Benveniste é próximo do que está em Teixeira e Ferreira (2008). 12 O morfema designa o menor elemento significativo individualizado num enunciado, que não se pode dividir em unidades menores sem passar ao nível fonológico. Por exemplo, -mos em trabalhamos; in- em inválido. 13 Cada língua apresenta, em seu código, um número limitado e restrito de fonemas, que se combinam sucessivamente, ao longo da cadeia da fala, para constituir os significantes das mensagens. O fonema é frequentemente definido como a unidade distintiva mínima. Por exemplo, o fonema do português /a/ se opõe a /i/ e /e/, pois substituindo, em vala, /a/ por /i/ e /e/, tem-se sucessivamente vila e vela (Dubois et al., 1995, p. 280). 14 Authier-Revuz (2008), comentando esse texto, entende que uma das propriedades essenciais da linguagem humana destacada por Benveniste (1988) é a reflexividade. É nessa capacidade de não limitar a linguagem à representação do mundo, mas em produzir “significância sobre significância”, em fazer proliferar a linguagem sobre si mesma, que reside o específico da linguagem humana. Sobre a relação metalinguagem/subjetividade na 239 enunciação, ver Authier-Revuz (1995). 15 Lacan (2003, p. 40-43) se refere a pequenos gemidos guturais, a toda uma gama de mecanismos de tipo propriamente fonatórios de que os cães fazem uso em momentos de intensidade emocional, acompanhados de “um certo tremor no lábio, especialmente no superior, sob o focinho”. volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
  • 5. Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral de nós, podemos considerar que a [...] penso que há um inconsciente A flauta, eu a joguei propriedade da fala seria inerente a de tipo, digamos, psicanalítico, um Aos peixes surdo- cães de um modo geral? pouco o inconsciente freudiano, se mudos do mar. quisermos, que atua na nossa vida de Dizer que Justine fala não signifi- trabalho como atua na nossa vida em Essa sensação de fracasso diante ca admitir que ela tenha a linguagem. geral. E, nesse caso, de certa forma da palavra, tantas vezes registrada na O que acontece é que ela “tem a trata-se, eu diria, de um bloqueio palavra sem ter a relação humana produção literária, está também pre- positivo, que faz com que haja resis- com a linguagem”. Observe-se que tências ao acesso à linguagem. sente nas mais corriqueiras expres- ela só fala por necessidade; não tem, sões da língua corrente: Não sei se como nós, o “prazer da conversação” “Não podemos pôr tudo em me fiz entender...; É isso mesmo que (Lacan, 2003, p. 43) palavras”, diz Schwartz (2007, p. você quer dizer?; Não compreendo Observadas de fora, as manifes- 145). De fato, as palavras não dão bem...; Isso não quer dizer nada... tações de amor de um cão podem conta, elas não são transparentes, Pela indicação no fragmento de ser consideradas ameaçadoras. No elas sofrem “desvios” de toda or- Fábula de Anfion (1947), a lin- entanto, algumas palavras do dono dem no trajeto até aqueles a quem guagem é uma produção da qual o fazem tudo reencontrar a ordem. Isso se dirigem. sujeito não é exatamente o agente, mostra que, contrariamente ao ho- A língua que tomamos como mas o efeito. Há, de fato, um “fundo mem, “minha cadela me reconhece “instrumento de comunicação” opaco” nas interações que torna o enquanto eu mesmo” (Lacan, 2003, frequentemente erra o alvo, nos fazer irredutível ao dizer e que tem p. 52). Para ela, “sou eu que estou escapa. Ou, para utilizar as palavras a ver com o que Schwartz chama ali”. “Não parece que sua relação de Henry (1992), é uma ferramenta de “corpo-si” e que nós chamamos com a linguagem lhe dê acesso ao imperfeita, cujos efeitos no outro de sujeito. grande Outro”16 (Lacan, 2003, p. acabam surpreendendo e até mesmo Em resumo, a perspectiva que 42). Na sua “fala”, não existe senão “traindo” aquele que a utiliza. aqui apresentamos entende a lin- o pequeno outro. Para o ser humano, Os poetas sempre souberam da di- guagem em sua profunda implica- contudo, um animal de estimação ficuldade de encontrar simetria entre ção com a subjetividade. Mostra pode representar alguém que aca- a linguagem e o que se quer, através que a especificidade da linguagem ba de perder, “quer se trate de um dela, representar. Citamos o exem- humana é realizar-se por meio de membro da família ou de seu gru- plo de João Cabral de Mello Neto, uma língua, com toda a complexi- po, o chefe ou não, o presidente de que, na Fábula de Anfion (1947), se dade da dimensão enunciativa que uma sociedade, ou qualquer outro” mostra impotente diante da palavra lhe é inerente. (Lacan, 2003, p. 46). Nas interações (flauta), incapaz de prever/controlar humanas, há algo de enigmático que sua trajetória, seus desdobramentos: O olhar do linguista para resiste a toda tentativa de objetiva- a fala viva na atividade ção: uma série de projeções, de ante- Uma flauta: como de trabalho cipações da posição do interlocutor. dominá-la, cavalo Os comentários de Lacan (2003) solto e louco? Resta considerar o segundo as- sobre Justine nos levam a encontrar pecto anunciado na introdução, ou mais um elemento para explicar [...] seja, como a competência disciplinar a opacidade que caracteriza os do linguista pode ser utilizada em Uma flauta: como prever análises do que acontece na ativi- encontros humanos, a dimensão suas modulações inconsciente, reconhecida por dade de trabalho. Schwartz (2007, cavalo solto e louco? Schwartz (2007, p. 146) quando p. 128) reconhece que esse saber ele aponta algumas razões para Como traçar suas ondas é indispensável para que se mani- explicar a relação problemática antecipadamente, como faz pulem conceitos como linguagem, entre linguagem e atividade: no tempo, o mar? expressão, verbal e não-verbal, 16 “O pequeno “outro”, em Lacan, é um parceiro imaginário. O grande “Outro” é o lugar em que a psicanálise situa, além do parceiro imaginário, aquilo 240 que, anterior e exterior ao sujeito, não obstante o determina”. A própria mãe, “inacessível pelo fato da proibição do incesto, encarna, enquanto objeto radicalmente perdido, a alteridade radical”. O pai é também o Outro, na medida em que sua evocação, no discurso da mãe, impede de confundir as gerações, de deixar de existir uma relação somente dual entre o filho e a mãe. O Outro se confunde ainda com a ordem da linguagem. Também o inconsciente deve ser concebido como o discurso do Outro. É a partir do Outro que o sujeito ordena a vida psíquica, ou seja, “um lugar em que insiste um discurso que é articulado, mesmo que nem sempre seja articulável” (Chemama e Vandermesh, 2007, p. 282). Educação Unisinos
  • 6. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível locutor, sintaxe, que ajudam a pensar zação: materialidade da configuração coisas “por elas mesmas”, pois as a relação linguagem e trabalho. lexical, das organizações sintáticas. nomeamos sempre a partir de “nós”. Boutet (1994) traz à discussão a Nosso desafio parece ser, a partir Assim, as nomeações dizem de nos- natureza da intervenção do linguista do que é visível, observável, mais sas relações com as coisas e não das nesse diálogo17. Segundo a autora, ou menos descritível, apreender, a coisas propriamente ditas. a especificidade do trabalho do partir da linguagem, esse investi- No campo dos estudos ergo- linguista quando confrontado à des- mento pessoal na atividade de que lógicos, além de teorizações de crição da fala viva, em comparação, a ergologia fala, bastante difícil de Schwartz sobre a singularidade por exemplo, com o trabalho de um captar, pois a linguagem não é trans- como constitutiva da experiência de sociólogo com a linguagem, é a aten- parente, nem unívoca, assim como o trabalho, valemo-nos de observações ção que ele dá às formas linguísticas. sujeito não é diretamente apreensível de Revuz (2007)19, psicanalista que, Enquanto o sociólogo tende a olhar pelas “marcas” de subjetividade no paralelamente à clínica, dedica-se os dados discursivos sob o ângulo discurso. à análise das práticas e dos atores do conteúdo, indo diretamente “ao Para tornar mais concretas essas da inserção social e profissional. que isso quer dizer”, o linguista, em considerações teóricas, trazemos um A autora vê no trabalho uma dupla razão de sua técnica e de seu conhe- exemplo de intervenção linguística dimensão: de um lado, ele pertence cimento sobre a língua, é sensível às em verbalizações sobre a atividade à realidade, é objeto social, consti- diferentes configurações formais uti- de trabalho. tuído por exigências econômicas, lizadas pelo locutor para se constituir técnicas, físicas e jurídicas. De como sujeito do enunciado. Nomear a atividade outro lado, existe como um dos ob- O saber que estamos mobilizando de trabalho: implicações jetos a que o desejo pode visar. Isso nesta pesquisa, como referido anterior- subjetivas significa que, no trabalho, se opera mente, é o da linguística da enunciação uma “alquimia” entre investimentos de Benveniste, pela qual a linguagem A pesquisa, cuja síntese apre- psíquicos inconscientes e algo que é entendida como faculdade simbólica sentamos a seguir, não toma como se inscreve em normas socialmente indissociável do humano, que se reali- objeto a atividade de trabalho pro- construídas. Assim, na cena social za em uma língua, em uma estrutura priamente dita, mas, sim, entrevistas em que o trabalho se dá, o sujeito linguística definida e particular, inse- com funcionários de um estabeleci- projeta o que tem de mais íntimo parável de uma sociedade definida e mento de entretenimento e diversão dentro de si (Revuz, 2007, p. 231), particular (Benveniste, 1988, p. 31). sobre sua atividade. motivo pelo qual a atividade se re- A palavra língua, para o autor, serve Com essa discussão, nosso in- veste de uma dimensão enigmática. tanto para designar o produto social da tuito é promover diálogo entre a Revuz (2007, p. 232) não desco- faculdade de linguagem, o conjunto de teoria enunciativa de Benveniste e nhece que o trabalho está associado convenções necessárias, adotadas pelo os estudos ergológicos. Particular- à sobrevivência, ao atendimento corpo social para permitir o exercício mente, neste estudo, recorremos à de exigências econômicas (dimen- da linguagem18, como os sistemas formulação do linguista francês de são do ter), mas ressalta que ele é linguísticos específicos, os idiomas que, “na enunciação, a língua se acha também portador de investimentos (línguas portuguesa, francesa...). A re- empregada para a expressão de uma inteiramente subjetivos (dimensão lação necessária entre subjetividade e certa relação com o mundo” (Ben- do ser); toda história pessoal é linguagem se deixa ver na atualização veniste, 1989, p. 84). Essa relação novamente mobilizada no traba- da língua em discurso, a partir de aná- com o mundo é, na visão do autor, lho. Como não é possível explicar lises feitas da materialidade de línguas mediada por um sujeito intersubje- integralmente o funcionamento específicas. O linguista não estuda tivamente constituído. A designação subjetivo, a relação do homem com o discurso pelo que ele refere, mas, está, então, implicada com a subje- o trabalho comporta sempre algo da antes, pela materialidade da verbali- tividade. Não podemos designar as ordem do indizível. 17 Nesse sentido, o linguista francês Daniel Faïta também tem trazido contribuições. Quando esteve no I Congresso Internacional Linguagem e Interação, realizado de 22 a 25 de agosto de 2005, numa iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UNISINOS, mostrou o engajamento do linguista na análise pluridisciplinar de situações de trabalho. A interlocução com ele faz repensar questões epistemológicas sobre o campo teórico e conceitual dos estudos da linguagem, assim como faz compreender a necessidade de redimensionar procedimentos metodológicos empregados em pesquisas destinadas a compreender a atividade de trabalho, e assim contribuir para o desenvolvimento da situação profissional dos sujeitos trabalhadores (Faïta, 2005). 241 18 O que corresponde ao conceito saussuriano de língua. 19 Essa reflexão integra o livro Trabalho & Ergologia: conversas sobre a atividade humana, organizado por Schwartz e Durrive (2007), que apresenta diálogos entre pesquisadores de diferentes campos disciplinares, atravessados pelo enfoque ergológico. volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
  • 7. Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral A partir dessas formulações teó- Apesar de todos os entrevistados (ii) quando a atividade é prestigiada ricas, oriundas da interlocução entre terem ouvido as mesmas perguntas, no âmbito social, (iii) quando o sujeito os campos da enunciação e da ergo- com as mesmas unidades linguísti- se identifica com ela. Ou seja, com a logia, o objetivo de nossa pesquisa é cas, as respostas revelam que essas forma Eu sou X, os locutores se situam observar como os trabalhadores en- unidades não recobrem os mesmos em relação a uma nomenclatura de trevistados designam seu fazer para, a sentidos atribuídos por eles. Ou seja, profissões e classificações mais ou partir daí, refletir sobre o engajamento é possível localizar traços de modos menos oficial e estandardizada, co- subjetivo na atividade de trabalho. diferentes de entender as perguntas mum a um conjunto de trabalhadores Os sujeitos da pesquisa são 13 no discurso produzido como resposta. de uma mesma empresa ou de um funcionários de um estabelecimento As seguintes configurações sintá- mesmo ramo profissional. de entretenimento e diversão situado ticas foram levantadas nas respostas A existência, na língua, de uma em Porto Alegre, com idade entre 18 às questões formuladas: designação para a profissão pode e 45 anos, que trabalham no turno da explicar, em parte, a utilização dessa noite e desempenham diferentes ati- (a) Eu sou X (ex: Eu sou caixa); forma sintática. De fato, se não exis- vidades, como a de garçom, operador (b) Eu trabalho em Y (ex: Eu traba- te uma designação que categorize a de caixa e auxiliar de serviços gerais. lho na copa/no balcão); profissão, fica difícil enunciar Eu Começamos a entrevista20 com (c) Eu faço Z (ex: eu faço trabalho sou X. No entanto, isso não esgota a uma pergunta bastante comum em de cozinha) e/ou Eu + verbo de discussão. Acreditamos que formu- contatos sociais iniciais: “O que ação (ex: eu limpo banheiro, lações de Benveniste (1988, p. 204- você faz?” 21, seguida de outras reponho papel). 227) sobre o verbo “ser”, no capítulo que, de certo modo, parafraseiam “Ser” e “ter” nas suas funções a pergunta inicial22. Consideramos Nossa hipótese é que os diferentes linguísticas, podem contribuir para que a situação de entrevista coloca tipos de predicação encontrados no que se percebam outros aspectos em jogo atividades de produção e material de investigação apontam para relacionados ao enunciado Eu sou X. compreensão de enunciados pro- a representação que o trabalhador faz Conforme Benveniste (1988, p. fundamente assimétricas, pois o ato de sua atividade profissional. Ao des- 205, grifos do autor), o sentido do de enunciação não é uma troca em tacar essas diferentes configurações verbo “ser” é “ter existência, ser em que uma pessoa decodifica o que a sintáticas, a análise linguística coloca realidade”, e essa “existência”, essa outra teria anteriormente codificado. em evidência um aspecto importante a “realidade” se definem como o que é Como vimos anteriormente, sob ser melhor situado com o auxílio da er- autêntico, é consistente, verdadeiro. a perspectiva do linguista, não se gologia, conforme discussão a seguir. O verbo “ser”, quando está num estuda o discurso pelo que ele refere, enunciado que estabelece identidade mas, sim, pela materialidade da ver- Estrutura sintática entre dois termos nominais, indica a balização. Inspirando-nos em Boutet Eu sou X participação em um conjunto: Pierre (1994)23, dirigimos nossa atenção é francês (Benveniste, 1988, p. 206). para as operações de categorização Segundo Boutet (1994), por meio “Ser” é o estado do sendo, daquele da situação profissional por parte de uma estrutura como Eu sou X, o que é alguma coisa [...]. Entre os dois dos trabalhadores entrevistados, a entrevistado responde por uma pro- termos que une, se estabelece uma partir das configurações sintáticas priedade, por uma posição em relação relação intrínseca de identidade: é o das respostas às perguntas formula- a uma grade de classificação. Em sua estado consubstancial. das. A pesquisa parte do pressuposto pesquisa, a autora constata que essa A estrutura Eu sou X ocorre apenas que não só diferenciações lexicais estrutura ocorre (i) quando há nomen- uma vez no material em estudo. A en- são carregadas de significado, mas clatura objetiva, nomes precisos que trevistada A4, em resposta à pergunta também as diferenciações sintáticas. correspondem a atividades definidas; 124, enuncia: “Sou chapeleira”. Pela 20 As entrevistas foram gravadas em áudio. 21 Pergunta semelhante é feita por Boutet (1994), em investigação que envolve seis empresas de metalurgia espalhadas pela França, que, ao contrário do que grande parte dos linguistas fazem, não privilegia a dimensão da palavra, aquela que se oferece, de modo mais imediato, como ponto de apoio 242 para a construção do significado, mas toma como objeto de estudo as relações sintáticas, propondo que sejam vistas como produtoras de significado. 22 As outras perguntas são: (ii) Qual é seu trabalho? (iii) Qual é sua profissão? (iv) Quando lhe perguntam, qual é a sua profissão ou o que faz, o que você responde? 23 Apesar de inspirada na linguista francesa, nossa análise não se identifica com a dela. Boutet (1994) está preocupada com o fenômeno da construção social do significado; o que nos mobiliza é a natureza do engajamento subjetivo no trabalho. Educação Unisinos
  • 8. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível perspectiva de Benveniste, pode-se 233). Não há nisso nada de mecâni- social. Se os estudos ergológicos dizer que esse enunciado sinaliza co. Por alguma razão, a atividade de têm razão, a referência ao lugar em uma relação intrínseca entre Eu e a trabalho entra em ressonância com detrimento do ofício deve dizer algo profissão designada. Pela perspectiva traços da história psíquica. a respeito do engajamento daquele de Revuz (2007), essa configuração que diz em relação a seu trabalho. sintática talvez indique que, para essa Estrutura sintática A validação do fazer se reflete no entrevistada, a atividade de trabalho Eu trabalho em Y ser, afirma Revuz (2007, p. 236). O está associada à dimensão do “ser”. Eu reconhecimento pelo trabalho atua sou é uma maneira de apresentar o que Bem mais frequente é a utilização nas pessoas como reconhecimento faz parte da pessoa, o que constitui sua de Eu trabalho em Y25, estrutura pela do que elas são. Vale lembrar que, identidade. A proclamação “ser cha- qual o entrevistado responde à questão para a psicanalista, o trabalho, peleira”, então, participa do conjunto não pela designação de uma profissão, embora esteja ligado à necessidade de elementos que talvez propiciem mas situando-se em relação ao lugar (dimensão do ter), toca também a à entrevistada tomar contato com em que desenvolve suas atividades dimensão do ser. Quando solicitado a sociedade de maneira valorizada. profissionais. Boutet (1994) considera a nomear o que faz como trabalho, Embora “ser chapeleira” possa não que uma predicação como essa pode o trabalhador pode sentir-se pouco estar entre os trabalhos socialmente estar relacionada à pluriacentuação à vontade para designar/descrever mais prestigiados, de algum modo, do sintagma “O que você faz?”, que seu ofício, ou porque ele é pouco ele se apresenta, pelo menos neste conduz a várias interpretações. valorizado socialmente, ou porque ato enunciativo, como parte “da iden- Na entrevista 6, o entrevistado é pouco conhecido. Nesse caso, tidade” dessa trabalhadora, por razões S enuncia: Trabalho no salão de responder pela nomeação do lo- relacionadas a sua história pessoal que um bar, recolhendo garrafas e co- cal – particularmente, se for local não nos compete identificar. pos. Esta construção exprime uma prestigiado – pode ser uma saída no A questão do que é ou não valori- localização no estabelecimento sentido de adquirir/manter imagem zado no âmbito das profissões/ocu- para, depois, especificar a atividade positiva diante do outro. pações é complexa. Revuz (2007, realizada. Não se pode deixar de Talvez assim se possa explicar p. 234) comenta que é impossível considerar que não existe, em por- essa ocorrência em que o entrevis- saber exatamente o que faz com que tuguês, um substantivo agentivo que tado responde à questão proposta o trabalhador encontre plenitude nas corresponda ao ofício de “recolher nomeando o estabelecimento onde atividades que realiza. garrafas e copos”. Assim, o entrevis- trabalha, que tem prestígio na cidade tado vê-se obrigado a recorrer a uma de Porto Alegre. A valorização social O que faz com que meu vizinho, na descrição do que faz. Concordamos do local permite encontrar um modus montanha, no silêncio, passe os dias que as operações de categorização vivendi, uma forma de convívio com sozinho a fabricar cerâmicas? É uma das situações de trabalho estão escolha. O que acontece quando ele o trabalho, que, no entanto, não é “subordinadas a situações objetivas jamais estável (Revuz, 2007, p. 228). maneja a terra, o que faz com que, no concretas” (Boutet, 1994, p. 70). No caso dele, possa encontrar plenitude naquela atividade, e isto após ter entanto, – e Boutet não desconhece Estrutura sintática Eu faço Z tido uma formação em Altos Estudos isto – expressar uma caracterização e/ou Eu + verbo de ação Comerciais? É enigmático (Revuz, profissional coloca em jogo dife- 2007, p. 234). rentes dimensões que, a nosso ver, Nesse caso, os trabalhadores pre- estão ligadas ao engajamento da dicam um processo em que a pessoa Há uma hierarquia de valores subjetividade no trabalho. que fala é o agente. A predicação de historicamente variável, que define Alguns entrevistados respondem processo adquire diferentes formas. a importância de algumas profissões à questão proposta também pela for- Pode ser feita por uma locução em detrimento de outras. Mas essa ma: Eu trabalho no bar W, nomean- verbal, como no enunciado do tra- hierarquia só adquire sentido para do o estabelecimento e silenciando balhador J: os indivíduos em função de sua sobre o trabalho que ali realiza, nesse trajetória pessoal (Revuz, 2007, p. caso, um trabalho de pouco prestígio Eu faço serviço geral de limpeza. 243 24 Para facilitar a leitura da análise, segue-se a enumeração das questões: O que você faz? Qual é seu trabalho? Qual é sua profissão? Quando lhe perguntam, qual é a sua profissão ou o que faz, o que você responde? 25 Houve seis ocorrências dessa estrutura. volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009
  • 9. Marlene Teixeira, Éderson de Oliveira Cabral Ou por meio de um verbo de ação, mente realizadas no exercício de seu Uma pergunta pode ainda ser como no enunciado de R2: trabalho. Situam-se em relação ao que feita: essas configurações sintáticas de fato fazem e descrevem de modo são oriundas de escolhas dos traba- Eu atendo os clientes. mais ou menos explícito uma ou várias lhadores? A questão da escolha dos operações de seu posto de trabalho. sujeitos falantes na elaboração de Para explicar esses casos, valem A nomeação de uma situação sua fala é bem complexa e tem sido também as observações de Boutet varia segundo as pessoas, porque objeto de debates. A nosso ver, o (1994) anteriormente feitas sobre elas não retêm os mesmos traços per- fato de, ao serem interrogadas, essas a polissemia da pergunta e sobre a tinentes, as mesmas características: pessoas se expressarem por uma inexistência, na língua, de designa- isso pode ser explicado pelas ob- ou outra forma não se deve a uma ções reconhecidas para esses ofícios. servações teóricas sobre as relações escolha dos entrevistados, a uma Entretanto, não se pode esquecer linguagem, subjetividade e trabalho. “vontade” de comunicação. que, ao se enunciarem dessa forma, Exprimir uma situação profissional Para Benveniste (1988, 1989), a os trabalhadores localizam, para o como um lugar, como um ambiente, designação está relacionada com a entrevistador, as atividades que rea- por uma designação (por operações subjetividade. O autor não tem uma lizam, mesmo que não sejam exata- diferentes de designação) coloca teoria do sujeito e, na visão de Flo- mente valorizadas socialmente. Nes- em jogo dimensões que estão sob res (2008a), essa noção transcende se sentido, salientam-se novamente a dependência do “ponto de vista” os quadros da linguística. Isso, no as considerações de Revuz (2007) a construído pelos sujeitos sobre a entanto, não significa que não possa respeito da ressonância que alguns situação. A interpretação se dá em ser considerada em estudos feitos sujeitos encontram entre o que fazem relação às respectivas referências, por linguistas, desde que se recorra como trabalho e aspectos de sua a determinados universos de pen- a exterioridades teóricas (Authier- história pessoal. Isso contribui para samento, ao modo como valoram Revuz, 1982, 1995). explicar o enigma de que se reveste a experiência e a muitos outros É pelo apelo à psicanálise que toda a atividade, o qual, embora não aspectos que contribuem para a tomamos a questão do sujeito. Cre- possa ser desvendado, não pode ser instituição desse “incontornável” mos que conceber o sujeito como desconsiderado, pois age o tempo de que falamos no início deste texto. transcendendo os limites do eu e da todo no processo de trabalho. As teorias da enunciação, ao to- consciência, polarizado entre o si mes- marem a fala do sujeito pelo que mo e o outro, talvez possa auxiliar a Considerações finais ela tem de singular – em função entender melhor o aspecto, destacado da instanciação no tempo e espaço As interpretações dadas à pergun- por Schwartz (1997), de que o dizer sempre presente no ato de enuncia- ta do pesquisador raramente levaram ção – fornecem meios para descrever não recobre o fazer. A linguagem, a à designação de uma profissão (Eu a linguagem em funcionamento em partir da consideração do inconsciente, sou X). Talvez porque os funcioná- relação à singularidade do uso feito não pode mais ser dita como referindo rios desse local sejam confrontados pelo sujeito que enuncia em uma dada o mundo. Entre as palavras e as coisas, à mobilidade e à transitoriedade; eles situação. Acreditamos que a análise existe uma intermediação impor- têm a experiência cotidiana de um feita sob essa perspectiva ilustra como tante: um sujeito “capaz de desejo e tempo fragmentado. pode ser visualizada a imbricação da não-simetrizável”, (Milner, 1987). A Com as construções Eu trabalho subjetividade na atividade de trabalho. intervenção desse olhar no dispositivo em Y, os funcionários dão maior A descrição linguística contribui ergológico pode trazer novas luzes à ênfase ao estabelecimento do que para que se compreenda melhor a compreensão do que acontece quando ao próprio fazer, quem sabe por afirmação de Revuz (2007, p. 236): o sujeito está em atividade de trabalho considerarem o local de trabalho “o trabalho capta em nós, exatamen- (Teixeira, 2008). como índice de prestígio, em de- te nas mesmas fontes, o que existe Concluímos este artigo com trimento da atividade propriamente de mais íntimo”. Para além de asse- uma afirmação de Schwartz (1997, dita, que é colocada em segundo gurar a sobrevivência, trata-se de um p. 3): O trabalho não é “jamais uma plano, ou é silenciada. empreendimento subjetivo, “um ir e realidade simples”. Nada mais justo, Com as construções Eu faço Z ou vir extremamente complexo entre a então, do que buscar caminhos ino- 244 Eu + verbo de ação, os funcionários cena psíquica e a cena social”, como vadores para procurar compreendê- se localizam no que diz respeito a afirma Durrive no diálogo com a lo. Fica o convite a quem quiser ações, atividades, operações efetiva- psicanalista (Revuz 2007, p. 236). tentar conosco. Educação Unisinos
  • 10. Linguística da enunciação e ergologia: um diálogo possível Referências DUFOUR, D.-R. 2000. Os mistérios da REVUZ, C. 2007. O trabalho e o sujeito. In: trindade. Rio de Janeiro, Companhia de Y. SCHWARTZ; L. DURRIVE (orgs.), AMORIM, M. 2001. O pesquisador e seu Freud, 435 p. Trabalho & ergologia: conversas sobre outro: Bakhtin nas Ciências Humanas. DESSONS, G. 2006. Émile Benveniste, a atividade humana. Niterói, EdUFF, p. São Paulo, Musa, 304 p. l’invention du discours. Paris, Editions 225-245. AUTHIER-REVUZ, J. 1982. Hétérogénéité In Press, 220 p. SCHWARTZ, Y. 2007. A linguagem em tra- montrée, hétérogénéité constitutive: élé- FAÏTA, D. 2005. Análise dialógica da ativi- balho. In: Y. SCHWARTZ; L. DURRIVE ments pour une approche de l’autre dans dade profissional. Rio de Janeiro, Imprinta (orgs.), Trabalho & ergologia: conver- le discours. D.R.L.A.V., 26:91-151. Express Editora, 149 p. sas sobre a atividade humana. Niterói, AUTHIER-REVUZ, J. 1995. Ces mots qui FLORES, V. N.; TEIXEIRA, M. 2005. In- EdUFF, p. 131-188. ne vont pas de soi: boucles réflexives et trodução à linguística da enunciação. São SCHWARTZ, Y. 2000. Le paradigme er- non-coïncidences du dire. Paris, Larousse, Paulo, Contexto, 125 p. gologique ou un métier de philosophe. 869 p. FLORES, V. N. 2008a. Sujeito da enunciação Toulouse, OCTARES, 763 p. AUTHIER-REVUZ, J. 2008. A representa- e/ou sujeito do enunciado? Exterioridade SCHWARTZ, Y. (org.). 1997. Reconnais- ção do discurso outro: um campo mul- e interioridade teórica no campo da sances du travail. Pour une approche tiplamente heterogêneo. Calidoscópio, linguística da enunciação. In: C.L.B. ergologique. Paris, PUF, 323 p. 6(2):107-109. MATZENAUER, (org.), Estudos da lin- SCHWARTZ, Y.; DURRIVE, L. (orgs.) 2007. BENVENISTE, É. 1988. Problemas de lin- guagem: VII Círculo de Estudos Linguísti- Trabalho & ergologia: conversas sobre a guística geral I. Campinas, Pontes, 387 p. cos do Sul. Pelotas, EDUCAT, p. 87-104. atividade humana. Niterói, EdUFF, 300 p. BENVENISTE, É. 1989. Problemas de lin- FLORES, V.N. 2008b. Sujet de l’énonciation TEIXEIRA, M.; FERREIRA, S. 2008. Leitura guística geral II. Campinas, Pontes, 294 p. et ébauche d’une réflexion sur la singu- na escola: um barco à deriva? Letras de BOUTET, J. 1994. Construire le sens. Bern, larité énonciative. In: C. NORMAND Hoje, 43(1):63-68. Peter Lang, 238 p. (coord.), Paralleles Floues: vers une TEIXEIRA, M. 2008. Quando a singularidade CABRAL, E.O. 2008. Nomear a atividade théorie de l'activité de langage. [no prelo]. intervém na atividade de trabalho. In: W. de trabalho: implicações subjetivas. São HENRY, P. 1992. A ferramenta imperfeita: EMEDIATO; I.L. MACHADO; R. de Leopoldo, RS. Trabalho de Conclusão do língua, sujeito e discurso. Campinas, MELLO (org.), Anais do III Simpósio Curso de Letras. Universidade do Vale do Editora da UNICAMP, 241 p. Internacional sobre Análise do Discurso: Rio dos Sinos – UNISINOS, 63 p. LACAN J. 2003. A identificação. Seminário emoção, ethos e argumentação. Belo CHEMAMA, R.; VANDERMERSCH, B. 1961-1962. Recife, Centro de Estudos Horizonte, Universidade Federal de Minas 2007. Dicionário de psicanálise. São Freudianos do Recife, 442 p. Gerais. [CD-ROM]. Leopoldo, Editora da UNISINOS, 399 p. MILNER, J.-C. 1987. O amor da língua. DUBOIS, J.; GIACOMO, M.; GUESPIN, L.; Porto Alegre, Artes Médicas, 82 p. MARCELLESI, C.; MARCELLESI, J.-B.; NETO, J.C. de M. 1947. A fábula de Anfion. MEVEL, J.-P. 1995. Dicionário de lin- In: J.C. de M. NETO, Psicologia da Com- Submetido em: 20/07/2009 guística. 5ª ed., São Paulo, Cultrix, 653 p. posição. Barcelona, O Livro Inconsútil. Aceito em: 30/08/2009 Marlene Teixeira Unisinos Av. Unisinos, 950, Cristo Rei 93022-000, São Leopoldo, RS, Brasil Éderson de Oliveira Cabral Unisinos Av. Unisinos, 950, Cristo Rei 245 93022-000, São Leopoldo, RS, Brasil volume 13, número 3, setembro • dezembro 2009