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UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI
Design Digital
NA4
DESIGN E ARTESANATO: INSTRUMENTOS MUSICAIS
VIOLA CAIPIRA
ANA PAULA FRANCO CAVALCANTE
ANGELO BRUNO DE SOUZA SILVA
ARIADNE YASMIN VIEIRA DE MELO
BRUNO TERUHIKO SATO
FÁBIO RODRIGUES DE OLIVEIRA
STELLA NERY DA SILVA
VIVIANE RODRIGUES DE ALMEIDA
São Paulo
2008/2
Sumário
Introdução..................................................................................................................2
1. Relações entre Cultura, Design e Artesanato..................................................3
2. Luthieria..............................................................................................................7
2.1. O que é a Luthieria?.......................................................................................7
2.2. Luthieria de Viola Caipira ...............................................................................7
2.3. Luthieria de Luiz Porte .................................................................................11
3. As funções da Viola Caipira e sua relação com o Design............................13
3.1. Funções da viola caipira .................................................................................15
4. Conceito de criação do Site Documental.......................................................18
5. Considerações finais .......................................................................................19
6. Referências.......................................................................................................21
Anexos .....................................................................................................................22
Entrevista com o Luthier Luiz Porte .......................................................................22
Levantamento Iconográfico....................................................................................25
2
Introdução
O presente trabalho tem como objetivo demonstrar as relações presentes entre
design e cultura e design e artesanato, estudar o ofício de luthieria da viola caipira,
tomando como base o trabalho do luthier Luiz Porte e, em seguida, discutir a
questão de sustentabilidade presente no trabalho do luthier, as funções da viola
caipira e como as alterações feitas no instrumento visando somente a estética
podem prejudicar ou melhorar algumas dessas funções.
No primeiro capítulo iremos definir os conceitos de design como o ato de
projetar e implantar este projeto utilizando-se de referências culturais; de cultura
como o conjunto de normas, crenças, leis naturais, convenções, entre outras coisas
de uma determinada sociedade; e de artesanato como um artefato produzido por
técnicas predominantemente manuais.
No segundo capítulo iremos estudar o processo de luthieria, definindo-o como
o ofício de fazer instrumentos musicais, o contexto histórico da viola caipira, sua
estrutura, afinações, e mais especificamente, o trabalho de luthieria de Luiz Porte.
Por fim, no terceiro capítulo, iremos abordar a questão da sustentabilidade
presente no trabalho de Luiz Porte, estudar as funções prática, estética e simbólica
da viola caipira, como elas são desempenhadas e quando cada uma delas ocorre;
citar as alterações estéticas que os usuários normalmente fazem na viola e analisar
como essas alterações feitas no instrumento podem prejudicar ou melhorar algumas
dessas funções.
Esta pesquisa se justifica pela importância do estudo da cultura popular,
considerando que esta é uma grande fonte de inspiração para o design, além de
conhecimento essencial para que um projeto de design alcance seus objetivos.
3
1. Relações entre Cultura, Design e Artesanato.
Existem semelhanças e até divergências no meio acadêmico e profissional
entre as várias definições de design. As mais comuns recorrem à etimologia da
palavra, e isto acontece porque é através da pesquisa da origem das palavras que
conseguimos entender o que de fato elas significam, sem as distorções que
acontecem com o passar do tempo. Desse modo, recorremos à definição
etimológica de Cardoso (2004, p. 14), que explica:
[...] A origem imediata da palavra está na língua inglesa, na qual o substantivo design
se refere tanto à idéia de plano, desígnio, intenção, quanto à configuração, arranjo,
estrutura [...]. A origem mais remota da palavra está no latim designare, verbo que
abrange ambos os sentidos, o de designar e o desenhar. Percebe-se que, do ponto
de vista etimológico, o termo já contém nas suas origens uma ambigüidade, uma
tensão dinâmica, entre um aspecto abstrato de conceber/projetar/atribuir a outro
concreto de registrar/configurar/formar.
Design seria então o ato de projetar, desenvolver um plano (um projeto) para
depois desenvolvê-lo e aplicá-lo. A partir desta idéia, Mônica Moura (2003b, p. 118)
observa de forma mais precisa o que é design:
[...] significa ter e desenvolver um plano, um projeto, significa designar. É trabalhar
com a intenção, com o cenário futuro, executando a concepção e o planejamento
daquilo que virá a existir. Criar, desenvolver, implantar um projeto – o design –
significa pesquisar e trabalhar com referências culturais e estéticas, com o conceito
da proposta. É lidar com a forma, com o feitio, com a configuração, a elaboração, o
desenvolvimento e o acompanhamento do projeto.
[...] Projetar, produzir e criar no campo do design é, principalmente, atuar com a
interface – relação do usuário com o objeto – através da cultura material, da
interdisciplinaridade, da produção de linguagem.
Podemos ver que o design é o ato de projetar, almejar um objetivo,
desenvolver um plano (um projeto) de algo que virá a existir, para em seguida
desenvolver e aplicar este plano se utilizando de referências culturais e estéticas,
principalmente visuais, considerando que lidamos com formas (sejam elas concretas
ou digitais), a fim de criarmos uma relação agradável entre o usuário com o objeto.
Mas embora a definição de design como projeto seja tão bem aceita e
defendida, não podemos nos esquecer do cunho comercial do design – afinal,
design é feito para vender, seja um produto ou uma idéia. Desse modo, Villas-Boas
(1998) e Barbosa (2003) completam o ponto de vista de Cardoso e Moura dizendo
que são peças de design todo projeto que visem à persuasão e a venda.
4
E se o design usa de referências culturais para se construir, o que seria
cultura? De acordo com Caldas (1986), a palavra cultura vem do latim – colere – e
significa cultivar. Por isso falamos em “cultura de gado”, “cultura de milho”, etc... Mas
já na Antiguidade a palavra cultura era usada no sentido de destacar a educação
aprimorada de uma pessoa, seu interesse pelas artes, pela ciência, filosofia, enfim,
por tudo aquilo que é produzido pelo homem. Desde então, o termo cultura vem
tomando significados cada vez mais abrangentes, por isso, é importante enfatizar
que o estudo da cultura humana é feito pelo estudo do modo de vida, padrões de
comportamento, sistema de crenças, que são característicos de cada sociedade.
Cultura é “[...] um grupo organizado de padrões culturais, normas, crenças, leis
naturais, convenções, entre outras coisas, em constante processo de
transformação.” (CALDAS, 1986, p. 14)
Assim como existe uma diversidade de culturas espalhadas pelo mundo,
podemos ver dentro de uma mesma cultura, outros subtipos de culturas diferentes. A
divisão mais comum se dá devido à estratificação de classes, pois é a elite cultural,
que tendo em seu poder as instituições dominantes, e assim ela desenvolve a
concepção de cultura popular e a própria concepção de cultura de elite, ou cultura
erudita. Desse modo, a cultura erudita abarca todas as formas de manifestação
culturais produzidas e consumidas pelas classes dominantes e possui uma base
científica que a legitima através da ciência, dos conhecimentos e saberes
produzidos nas Universidades e nas instituições científicas. (CALDAS, 1986) Em
oposição direta a cultura popular, que de acordo com Nóbrega (online, 2008) é:
[...] o conjunto de criações e manifestações espontâneas, originais e autênticas,
nascidas e consumidas pelos próprios sujeitos que as geraram. Podendo até ser
influenciada por outros tipos de expressões culturais, a erudita, e a industrial massiva,
o que não descaracterizaria seu caráter popular.
Podemos ainda voltar a citar Caldas (1986) e dizer que a cultura popular é
produzida fora do universo acadêmico e que sua produção, quase sempre, é
anônima e coletiva, enquanto que na cultura erudita, é essencial aparecer o nome
do autor, ou dos autores, das obras. No entanto, no caso do artesanato, que é um
dos objetos de estudo desta pesquisa e uma das muitas manifestações da cultural
popular, a afirmação de que sua produção é anônima e coletiva, só cabe ao
artesanato produzido em comunidades. No caso da luthieria - artesanato de
5
instrumentos musicais - essa afirmação se torna falsa, pois como o instrumento
musical feito pelo luthier assume a condição de peça única, pois normalmente é
produzido sob encomenda e possui características próprias que são produzidas
unicamente por aquele luthier, o fato do instrumento “levar” o nome de quem o fez, é
uma questão de reconhecimento ao trabalho do luthier e também de identificação
daquele instrumento.
O designer trabalha dentro da cultura erudita, mas utilizando-se de elementos
da cultura popular. Isso acaba num intenso processo de troca entre o design e a
cultura geral, pois como já citamos, a cultura está sempre em constante processo de
transformação, abandonando certos elementos e adquirindo outros ao longo da sua
história. Tudo o que é transformado racionalmente é cultura, portanto, o design é
uma manifestação cultural, o que dá aos designers o poder de interferir na cultura e
de transformá-la conscientemente. É apropriando-se de elementos da cultura
popular, transformando-os dentro do universo intelectualizado da cultura erudita, e
devolvendo esses elementos num todo unificado e elaborado para a cultura popular,
que os designers trabalham em seus projetos.
Além disso, o designer necessita de um certo conhecimento antropológico
(conhecimento da cultura) para poder obter sucesso em seus objetivos. Pois além
de usar referências culturais (principalmente as visuais), para elaborar seus projetos,
o designer também precisa conhecer bem o público ao qual o seu projeto se destina,
o que ocorre também com o estudo da cultura na qual o seu público-alvo está
inserido.
Sobre artesanato, podemos dizer que o artesão é a pessoa que faz o objeto
manualmente, sendo que esse objeto geralmente é utilizado em comunidades. A
elaboração do objeto artesanal é resultado de conhecimento, inteligência e
criatividade agregada ao poder de criar e inovar devido às necessidades da
comunidade, onde as novas gerações devem aprender com os mais velhos, suas
técnicas, e assim passando de geração para geração. O artesão geralmente
trabalha sozinho e assim pode ter o privilegio de ser autônomo para administrar seu
próprio tempo de trabalho. Uma das diferenças entre artesanato e design é que o
artesão cria e renova seus objetos manualmente processo por processo e utiliza-se
de recursos naturais para a fabricação de seus objetos e pode ser livre para
construir qualquer projeto, enquanto o design utiliza-se de recursos industriais para a
6
criação de seus produtos e se limita quando projeta um objeto, pois, ele deve pensar
no processo produtivo em série.
No processo de produção artesanal o objeto é produzido em pequena escala e
assim o objeto é mais rico em detalhes e agrega mais valores artísticos e com isso
ele consegue ter condições de concorrer com o produto de design, o artesão que
domina o seu oficio consegue em qualquer momento da produção do seu objeto,
alterar e realizar ajustes. Enquanto no design tentamos melhorar os aspectos
funcionais e visuais e com isso o design se torna uma solução que consegue
adicionar valores aos produtos industrializados.
Podemos também dizer que tanto os objetos artesanais quanto os objetos de
design são artefatos. “Objeto” é algo que externo ao próprio ser, ou seja, está fora
dele, existe além dele. O artefato é o resultado da interferência do homem na
natureza, e é tanto o instrumento que o homem usa para modificar a natureza
quanto o fruto dessa modificação. É o resultado de um processo de manipulação do
meio ambiente a partir do imaginário, pois o homem consegue imaginar o artefato
antes de produzi-lo. Em suma, tudo o que é produzido pelo homem a partir de um
saber é um artefato. O artefato é fruto de um trabalho, resultado de técnicas
elaboradas a partir de um conhecimento. É testemunha da realidade, a partir do
momento em que, ao ser analisado, revela em parte a relação do homem com o seu
meio-ambiente.
7
2. Luthieria.
2.1. O que é a Luthieria?
Luthieria é o ofício de fazer instrumentos musicais. Podemos definir Luthier
como um artesão que tem o conhecimento de todo o processo de fabricação de um
instrumento.
O Luthier Vergílio Artur de Lima (apud ROCHA, 2003) define a profissão de
luthier como “engenharia de produzir sons tendo como matérias primas madeiras
trabalhadas pacientemente por conta de expedientes técnicos, intuição aguda e
afetividade estética e musical afloradas”.
2.2. Luthieria de Viola Caipira
De acordo com Sousa (2005), o nome viola percorreu um longo caminho até
tomar essa grafia como a conhecemos. Teria se originado na Suméria a 2.000 a.C.,
com pan-tur, que significava “pequeno arco” (CORRÊA, 2002).
Figura 1: Instrumentos fabricados pelo Luthier Luiz Porte.
Segundo Corrêa (2003) a viola apareceu inicialmente em Portugal no século
XV e foi considerada o principal instrumento dos cantores e trovadores da época.
Pode-se identificar que já existiam dois tipos de viola em Portugal, a viola das terras
ocidentais e a viola do leste, ambas diferentes considerando-se o tamanho de sua
cintura e a quantidade de cordas, que influenciavam em sua sonoridade.
8
Quando a viola foi trazida para o Brasil, no início da colonização, já era um
instrumento um pouco menor do que o violão e com uma cintura acentuada. A
estrutura portuguesa de modelo da viola se manteve inicialmente no Brasil, porém
com a Revolução Industrial e a demanda baixa de emprego, alguns marceneiros
foram obrigados a empregarem sua técnica com a madeira, para fazerem
instrumentos musicais, pois eram produtos em grande expansão considerando-se a
vinda de cantores sertanejos e a formação de novos grupos musicais vindos da
região nordeste do Brasil para se difundirem nas grandes cidades.
A procura de violas em vários estados do país fez com que essa fosse
industrializada passando do método artesanal para a fabricação em grande
quantidade, surgindo a preços mais acessíveis.
A viola de forma geral possui dez cordas, distribuídas em cinco pares, existem
também violas com doze, onze, nove, oito, sete, seis e até de cinco cordas, porém a
Viola Caipira em específico possui dez cordas, do contrário segundo o luthier Luiz
Porte, se o instrumento possuir 12 cordas, por exemplo, será considerado violão de
12 cordas e não mais uma viola. Como nos exemplifica Souza (2005), suas dez
cordas tiveram seus nomes originais mantidos em ordem decrescente, de cima para
baixo, são:
• 1 contra-canotilio (companhêra do canutio);
• 2 canutilho (canutio);
• 3 contra-toeira (companhêra da tuêra);
• 4 toeira (tuêra);
• 5 contra-turina (companhêra da turina);
• 6 turina;
• 7 contra-requinta (companhêra da sobreturina);
• 8 requinta (sobreturina);
• 9 contra-prima (companhêra da prima);
• 10 prima.
Com base nas pesquisas identificamos que no Brasil existem dezenas de
afinações, algumas são raramente utilizadas (CORRÊA, 2003). Algumas dessas
afinações são conhecidas como Cebolão, a Natural, a Rio Baixo, a Boiadeira e a
Guitarra. Abaixo poderemos observar tipos de afinação que são comuns, e as notas
musicais que elas utilizam:
9
• Afinação Da-Viola: Lá, Re, Fá, Sustenido, Lá, Ré.
• Afinação Natural: Lá, Ré, Sol, Sustenido, Si, Mi.
• Afinação Meia-Guitarra: Lá, Ré, Lá, Dó Sustenido, Mi.
• Afinação Guitarra: Lá, Mi, Lá Dó Sustenido, Mi.
Entre outros tipos de afinações, utilizadas em cada região do Brasil, alguns
cantores afinam a viola de acordo com suas vozes ou a tensão que preferem no
ponteio da viola (CORRÊA, 2003).
A afinação da viola caipira pode ser tocada de duas maneiras explica Souza
(2005), ela pode ser tocada ponteada, de forma melódica, com um dedo tocando
uma corda de cada vez; ou rasqueada (termo originário do centro-oeste), quando as
unhas ferem várias cordas ao mesmo tempo em que produz o som mais harmônico.
Figura 2: Partes da Viola
1 – cravelha ou cravilha;
2 – pestana ou trasto zero;
3 – trasteira, espelho, palheta ou escala;
4 – castanha ou pé do braço;
5 – aro, faixa lateral, cinta ou ilharga;
6 – cravelhal, cravelheira, palma ou
cabeça;
7 – trasto, tasto ou ponto;
8 – casa
9 – boca ou abertura;
10 – cintura ou enfraque;
11 – cavalete;
12 – pino;
13 – contracavalete ou espinha;
14 – tampo ou testo sonoro;
15 – cordas;
16 – braço;
17 – bojo superior;
18 – bojo inferior;
19 - fundo, costas ou testo de baixo;
20 – roseta;
21 – furo.
10
A Viola Caipira brasileira sofreu inúmeras modificações até a atualidade
adaptando-se aos folguedos e às danças, modificada por artesãos, aprimorada por
violeiros, ela se transformou num instrumento legitimamente nacional. (SOUSA,
2005, p. 44)
A viola depende de processos que são cuidadosamente vistos antes de iniciar
a sua construção. De acordo com Rocha (2003) a construção deve obedecer aos
seguintes passos:
• Inicialmente deve se observar a cura da madeira. Processo de
envelhecimento da madeira que visa obter um bom resultado de acordo com
o nível de adequação no binômio, som/design no tocante do instrumento
construído.
• O tempo para a produção da viola varia de acordo com o luthier. Cada um
tem seus segredos para fazer com que saia do instrumento o melhor som.
• Para cada parte do instrumento o Luthier utiliza um tipo de madeira. Pinho
europeu para o tampo e para as laterais e fundo jacarandá-de-baia ou pau-
marfim, madeiras de espécies raras.
No caso do Luthier Luiz Porte, ao contrário de muitos, ele tem se preocupado
com a escassez da madeira e por isso utiliza madeira descartadas no meio
ambiente.
Figura 3: Violas em processo de secagem.
Porte (2008) nos explicou também que não é bom fazer a Viola em dias de lua
cheia porque influência na cura da madeira, aumentando a probabilidade dela
rachar. Seu processo de confecção demora em média quarenta dias, enquanto o
11
luthier Vergílio Artur de Lima, (apud ROCHA, 2003) demora em media duzentas
horas de trabalho, diluídas entre sessenta e noventa dias. Lima só utiliza madeiras
com a cura de no mínimo seis anos. Ambos utilizam a goma laca indiana para
revestir a viola, o que dá um ótimo acabamento e brilho ao artefato.
2.3. Luthieria de Luiz Porte
Luiz Porte nasceu no Paraná e desde pequeno conviveu com violeiros e
carpinteiros, tornando-se um apaixonado por instrumentos. A viola caipira na vida
dele é uma tradição. Começou como carpinteiro, dava aulas de música, e à medida
que os instrumentos se danificavam, Luiz Porte os consertava. Especializou-se na
construção destes e apesar de nunca ter feito um curso sobre construção de
instrumentos, sempre procurou aperfeiçoar a sua técnica como luthier.
Hoje em dia recebe de cinco a seis pedidos para confecção de violas por mês,
dentre elas, violas mais simples, violas com uma pintura especializada ou com
configurações individuais para que o usuário se sinta mais confortável com sua
peça. Um exemplo de customização que Luiz Porte faz é a mudança de tamanho da
cintura do instrumento, o que interfere em sua sonoridade.
Figura 4: Luiz Porte tocando. Figura 5: Luiz Porte explicando a construção das
violas caipiras.
Luiz utiliza de diferentes tipos de madeira para a construção de suas violas, e
acredita que esta necessidade feita pela escassez de madeira, acabou por colaborar
com seu trabalho, de forma que seus instrumentos possam ser mais ricos em
detalhes. Segundo Porte (2008) hoje em dia muitos luthiers fazem seus instrumentos
12
utilizando grande parte dos materiais industrializados, enquanto ele fabrica, corta e
molda toda a matéria-prima necessária para a construção, bem como confecciona
as ferramentas que utiliza. Afirma ainda que a maioria dos luthiers levam a
construção do instrumento para um lado mais folclórico, em que se preza a
decoração e a estética do artefato, ao contrário dele que preza uma boa sonoridade
e durabilidade, por isso todo o processo de construção de suas peças são manuais.
Figura 6: Forma utilizada para confecção da Viola Caipira.
Além da Viola Caipira, Luiz Porte também produz violão, cavaquinho e violino.
Todos os seus instrumentos são feitos à mão, afinados e testados por vários dias
evitando problemas futuros e por fim são lustrados com muito carinho.
13
3. As funções da Viola Caipira e sua relação com o Design.
Temos como delimitação dessa pesquisa, analisar as funções da Viola Caipira
de acordo com uma série de fatores que vão desde os ambientais aos desejos dos
consumidores e relacionar com Design.
A Viola Caipira possui uma função principal que é a de ser tocada, aonde o
som gerado é diretamente influenciado pelo material utilizado em sua confecção,
que hoje é ditado pelos problemas ambientais. Existem também as preferências dos
clientes, que exigem customizações estéticas que também alteram o som do
instrumento.
A falta de madeira no meio ambiente é o fator que mais influencia na estética
da Viola Caipira confeccionada por Luiz Porte. São diversos retalhos de madeira que
juntos formam uma curiosa superfície que mais parece uma colcha de retalhos, só
que de madeira.
Segundo Luiz Porte, essa junção de diversos pedaços de cores e tipos de
madeira diferentes contribui positivamente para a sonoridade da Viola Caipira, além
de ser esteticamente muito interessante.
Figura 7: Viola feita com três pedaços de madeira
de cores diferentes e intercalados.
A junção de materiais também contribui para a economia de matéria prima.
Uma vez que pedaços pequenos de madeira são utilizados, o desperdício diminui,
conseqüentemente o impacto sobre o meio ambiente, que já não possui matéria-
prima em abundância, é menor.
14
Do ponto de vista da Sustentabilidade, Adélia Borges (2002, p.77) descreve o
consumo de madeira:
Pesquisadores da organização não-governamental Instituto do Homem e Meio
Ambiente da Amazônia, o Imazon, descobriram que apenas 35% da madeira cortada
é vendida e transformada em casas e móveis. Outros 22% se transformam em carvão
e o restante simplesmente vira lixo.
Com isso fica clara a importância do trabalho de Luiz Porte para o meio
ambiente porque suas peças agregam diversos restos de madeira de diversos tipos
distintos, porém adequados para a construção da viola caipira.
Analisando o conceito de sustentabilidade empregado no Design, Adélia
Borges (2002) explica que os designers de móveis utilizam madeiras amazônicas
pouco conhecidas, não aceitam a ditadura da madeira única e não se submetem à
falsa necessidade de ter ambientes em que tudo é feito de uma madeira só para
combinar, o que se encaixa muito bem com o trabalho de Luiz Porte.
Ainda sobre a Sustentabilidade no Design, Borges (2002, p.78) completa que
existe uma certificação emitida pelo Conselho de Manejo Florestal (FSC) para as
empresas que desenvolvem móveis e objetos de madeira, após uma rigorosa
verificação de que a extração é feita com critérios adequados, de forma
“ambientalmente adequada, socialmente justa e economicamente viável”.
É particular de cada Luthier saber a procedência do material utilizado em suas
peças quando consideramos que o cliente pode solicitar uma Viola feita com uma
madeira que não existe no Brasil e com isso seria preciso importá-la, podendo não
saber se a sua procedência é legal. Luiz Porte não importa nenhuma madeira do
exterior porque seria difícil ter certeza se este material foi extraído seguindo as
normas da FSC, dando prioridade para retalhos de madeira que ele recebe de
doação ou que encontra.
Ainda com relação às exigências dos clientes, algumas pessoas preferem que
a Viola Caipira seja revestida por um verniz preto, com objetivo simplesmente
estético. Segundo Porte, o uso desse verniz não o agrada porque impermeabiliza o
instrumento mudando a sua sonoridade negativamente.
Por fim, o miolo da Viola também é feito com retalhos de madeira, gerando um
curioso mosaico, que não influencia na execução do instrumento e sim no seu
visual, uma vez que o objeto ganha uma grande riqueza de detalhes e atende as
referências culturais relacionadas à Viola Caipira, completando assim a função
15
sustentável do trabalho de Luiz Porte que utiliza em sua maioria materiais
artesanais.
Figura 8: Materiais utilizados para customização
e impermeabilização das Violas.
A Viola Caipira possui como função principal ser um instrumento musical.
Entretanto ela também pode ser usada como objeto de decoração. O cliente não
encomenda uma viola explicando como irá usá-la, mas faz suas exigências
estéticas.
Como foi explicado anteriormente, alguns processos estéticos podem
influenciar na sonoridade da Viola, o que pouco importa para quem irá usá-la como
objeto de decoração. Dessa forma, o objeto perde algumas características e sua real
função.
Relacionando com o Design Digital, mais precisamente um site documental,
produto final embasado por essa pesquisa, este não pode ter sua função modificada.
Ao contrário da viola, o cliente não pode pendurar o site documental na parede e
chamá-lo de objeto de decoração. Entretanto, algumas exigências podem influenciar
na usabilidade do site, fator que pode ser comparado à viola. O cliente não pensa se
suas exigências influenciarão na experiência de seus visitantes no site, assim como
não passa pela cabeça do consumidor de violas que o revestimento de tinta pode
influenciar na sua sonoridade.
3.1. Funções da viola caipira
16
A Viola Caipira possui uma função principal que é a de ser tocada, sendo essa
a sua função prática, pois diz respeito ao processo de utilização em nível objetivo,
ou seja, a relação fisiológica entre o sujeito e o produto (GOMES FILHO, 2006).
Podemos pegar como exemplo uma cadeira: ela cumpre bem a sua função
prática se tiver um bom projeto ergonômico, ou seja, se ela não causar nenhum tipo
de desconforto ao usuário, principalmente a longo prazo. Do mesmo modo, um
instrumento musical cumpre bem a sua função prática se o som que for produzido
por ele for o que se espera do instrumento em questão e se ele for adaptado a
pessoa, não causando desconforto em sua utilização.
A viola de Luiz Porte, no geral, cumpre bem essa função prática, pois o luthier
se preocupa em utilizar madeiras que não prejudiquem, ou ainda, que melhorem o
som produzido pelo instrumento.
A grande questão é que, como Luiz Porte faz violas por encomenda, existem
também as preferências dos clientes, que exigem customizações estéticas que
alteram o som do instrumento, acabando por prejudicar o som e a função prática
realizada pelo instrumento.
Além da função prática, a viola também pode exercer outros tipos de função, o
que ocorre quando o cliente compra uma viola apenas para utilizá-la como
decoração. Nesses casos a função principal da viola muda de função prática para a
função estética. Enquanto a função prática é importante para o bem-estar fisiológico
do usuário, a função estética é importante para o bem estar psicológico, pois
considera a percepção sensorial do usuário sobre o produto e os aspectos
emocionais do comportamento perceptivo. Embora a visão seja o sentido mais
associado quando falamos de estética, não é o único sentido envolvido nesse
processo. O cheiro de um objeto ou mesmo sua superfície, constituem alvos de
apreciação estética. Os aspectos estéticos de um objeto são principalmente os
aspectos que agradam ou desagradam o usuário, mesmo que ele não saiba
verbalizar o porquê desse. São os aspectos que influenciam comportamentos
emocionais. (GOMES FILHO, 2006)
O maior exemplo de função estética como principal função no mundo do
design, se dá no design de jóias e acessórios. Embora esse tipo de produto também
tenha que ter uma boa função prática para não gerar desconforto na pessoa que o
utiliza, muitas vezes essa função é ignorada pelo próprio usuário em prol da função
estética.
17
Desse modo, um instrumento cumpre bem a sua função estética se é
agradável a quem compra. E no caso do luthier Luiz Porte, muitas pessoas o
procuram para encomendar violas que serão utilizados somente para decoração,
pedindo diversas customizações que irão satisfazer o julgamento estético de cada
um.
Em ambos os casos, está presente a função simbólica, que diz respeito à
adequação do produto às necessidades e desejos simbólicos de casa usuário e
principalmente à atribuição de significados realizada pelo usuário ao produto. A
diferenciação e o estilo de vida se constituem no ponto de partida para o
desenvolvimento do produto, na sua formação simbólica. A aceitação de um produto
depende, praticamente, até que ponto consegue se conectar com as escalas de
valores (sobre tudo com as escalas estéticas) do grupo ou usuário de destino.
É importante observar que, embora seja comum uma função se sobressair à
outra, elas não existem independentemente, estão interligadas e mudanças em uma
afetam as outras. Um usuário que pede uma viola envernizada de preto, embora
perca em função prática devido às alterações que irão ocorrer no som da viola,
ganha em função simbólica, pois está tendo o desejo de ter uma viola preta
satisfeito. Satisfaz a função simbólica, pois uma viola envernizada de preto o
diferencia daqueles usuários que preferem uma viola mais “crua”, em sua cor
natural, indicando diferentes estilos de vida.
Os músicos que pedem uma viola envernizada de preto normalmente são
músicos famosos que fazem parte do cenário mainstream da música popular, por
isso preferem violas diferenciadas, com um aspecto mais “moderno”. Já os músicos
que preferem a viola em sua cor natural, são aqueles músicos do interior, músicos
mais tradicionais.
O usuário que utiliza a viola somente como decoração pode até não aproveitar
a função prática da viola, mas estará satisfazendo sua função estética, e, por
conseqüência, sua função simbólica.
18
4. Conceito de criação do Site Documental
Temos por objetivo demonstrar a relação design, cultura e artesanato através
dos meios hipermidiáticos permitindo que o usuário saiba mais sobre as relações
existentes entre design e cultura e design e artesanato e sobre os processos de
construção da Viola Caipira.
Além de mostrar essa relação, pretendemos mostrar a comparação da
modificação na função da Viola, dependendo dos padrões utilizados para a sua
construção à pedido dos clientes, fazendo uma relação dessa modificação com
meio do Design.
Sendo assim, a demonstração da importância das funções da viola caipira e no
meio do Design tornam-se o nosso principal objetivo.
19
5. Considerações finais
Definimos nesta pesquisa os conceitos de design, cultura e artesanato com o
intuito de embasar a contexto da produção de Violas Caipiras tendo como referência
o trabalho do Luthier Luiz Porte.
Vimos que design significa ter e desenvolver um plano, um projeto, significa
designar. Cultura é o conjunto de normas, crenças, leis naturais, convenções, entre
outras coisas de uma determinada sociedade. Já o artesanato é o objeto criado
manualmente, resultado de conhecimento, inteligência e criatividade, agregados
pelo artesão através de suas gerações.
Estes conceitos foram importantes para a definição do que realmente é o
trabalho do Luthier Luiz Porte do ponto de vista antropológico. A sua Viola Caipira é
um artesanato porque é feito manualmente, mas se diferencia dos artesanatos de
comunidade, pois cada peça criada é única, possui características específicas, e
recebem o nome do artesão.
Definimos Luthieria como o ofício de criar instrumentos musicais manualmente
e Luthier o sujeito que aprendeu o ofício de criar instrumentos através de suas
gerações. Apresentamos a Viola Caipira, originada em Portugal e que após chegar
ao Brasil foi facilmente incorporada à cultura devido à baixa demanda de empregos
e o crescimento na oferta de cantores sertanejos.
Da necessidade de encontrar um Luthier, nos deparamos com o trabalho Luiz
Porte que nasceu no Paraná e conviveu com violeiros e carpinteiros onde aprendeu
e se identificou com o ofício.
Observamos em seu trabalho a preocupação com a escassez de matéria-prima
e como isso, aliado as exigências dos clientes, influenciam na funcionalidade do
instrumento para depois comparar com a mesma situação no Design.
Concluímos com esta pesquisa que o trabalho de Luiz Porte está dentro do
conceito do Design Sustentável porque ele utiliza retalhos de madeira jogados no
meio ambiente, evita o desperdício de matéria-prima, não compra madeira sem
conhecer a procedência e utiliza pouco material industrializado em seus
instrumentos, tornando o seu processo praticamente todo artesanal.
Concluímos também que a função da viola caipira pode ser mudada a partir da
intenção de uso do cliente - usá-la como instrumento musical em si, ou como objeto
20
de decoração -, ou prejudicada com as alterações que visam somente a estética,
como quando o cliente pede para que a viola seja invernizada de preto. Ao contrário
do que ocorre com o produto final do interdisciplinar - um site documental -, que não
pode mudar de função.
21
6. Referências
BARBOSA, Carlos Alberto. Tékne e design: uma relação entre o conceito
aristotélico de arte e o conceito contemporâneo de design. In: Faces do Design.
São Paulo: Edições Rosari, 2003.
BORGES, Adélia. Designer não é personal trainer. São Paulo: Edições Rosari,
2002.
CALDAS, Waldenyr. Cultura. 4ª ed. São Paulo: Global, 1986.
CARDOSO, Rafael. Uma introdução à história do design. 2ª. ed. São Paulo:
Edgard Blücher, 2004.
CORRÊA, Roberto. A Arte de Pontear viola. 2ª ed. Brasília – Viola Corrêa,2002
MOURA, Mônica. Design Digital: Universo da Cultura e da Hipermídia. In: Faces
do Design. São Paulo: Edições Rosari, 2003.
NÓBREGA, Zulmira. Cultura Popular na Pós-Modernidade. 2008. Disponível em:
<http://www.cult.ufba.br/enecult2008/14345.pdf>. Acesso em: 16/09/2008.
SOUSA, Walter. Moda Inviolada: Uma História da Música Caipira. São Paulo:
Quiron, 2005.
VILLAS-BOAS, André. O que é (e o que nunca foi) design gráfico. Rio de Janeiro:
2AB, 1998.
22
Anexos
Entrevista com o Luthier Luiz Porte
Pergunta: Você faz viola para alguma pessoa famosa?
Luiz Porte: Não, pois geralmente este pessoal já tem uma pessoa específica que faz para eles e
muita das vezes eles ganham as violas.
Pergunta: Quantas violas você produz por mês?
LP: São poucas, 4 violas por mês, ou 5 pois é um trabalho muito demorado. Primeiro você vê a
madeira assim, crua, até você a ver finalizada demora. A madeira precisa ir até um tambor onde é
cozida, é como cozinhar mandioca, ela fica em um tambor cozinhando por um bom tempo até ficar
maleável o suficiente.
Pergunta: Fora confecção de viola você trabalha com alguma outra coisa?
LP: Só aula.
Pergunta: O que as pessoas procuram mais para o senhor dar aula?
LP: Violão e viola, cavaquinho tem algumas pessoas, mas principalmente vilão e viola. Principalmente
viola, pois tem pouca gente que ensina, violão tem mais gente que ensina.
Pergunta: Quais são os instrumentos que você sabe tocar?
LP: violão, viola, cavaquinho, contra-baixo.
Pergunta: O senhor fez algum curso?
LP: Não, eu fiz curso só depois que eu comecei a tocar, quando um professor me conheceu e eu
comecei a dar aula lá, fizeram um teste comigo e me aprovaram para dar aula, mas eu estudava a
teoria e dava aula prática de viola. O único curso que eu fiz foi esse mesmo.
Pergunta: Como o Senhor consegue as madeiras para fabricar os instrumentos?
LP: Se desperdiçam muitas madeiras e isso está atrapalhando bastante, pranchas de 4 metros estão
sendo queimadas em toneladas, como pinho de riga e pinho canadense. Estão queimando alegando
que podem vir doenças junto com a madeira do exterior. Agente não pode mais pegar as madeiras
nesses galpões, pois os donos alegam isso.
Pergunta: Tem alguma pessoa que já te procurou para ser um aprendiz?
LP: Ah sim claro, mas eu não faço isso por que nunca fiz curso, então eu não gosto de fazer as
coisas meio picaretas e para você ensinar você precisa ter a didática das coisas e eu não tenho. Que
nem vocês, que estão fazendo faculdade, depois pode ter um cara que aprendeu o que vocês estão
fazendo na raça, de repente o cara pode fazer melhor que vocês, só que vocês podem ensinar e ele
não, por que vocês cursaram e fizeram um trabalho, conhecem a didática e ele não. Até falei na
ordem dos músicos existem pessoas dando aula e não sabem nem pegar no instrumento, por isso
que para, ensinar deveria ter algum teste.
Pergunta: Se você fosse escolher um estilo que gosta de tocar, qual seria?
LP: Eu gosto de sertanejo raiz tipo Tião Carrero, estou fazendo um Cd bem raiz.
Pergunta: Quais são os grupos hoje em dia que ainda usam a viola?
LP: César e Paulinho, mas o resto não usa a viola, Zezé, mesmo só usa a viola em um trechinho da
música.
Pergunta: Você acredita em algum tipo de misticismo para a construção da viola?
LP: Isso é um pouco de lenda, mas existe, o fato de lua influenciar na construção da viola, por
exemplo, existe. Ainda tem o fato de que em alguns dias você está bom para fazer as coisas e em
outros não. Mas o tempo mesmo é essencial, se não estiver tempo bom, por exemplo uma peça da
viola que é presa só com cola, precisa estar um tempo bem legal para colar e segurar pois isso aqui
23
só vai ser pressionado. Por exemplo, se você cola num tempo frio, depois que seca a viola, o que
você grudou se solta.
LP: O autêntico violeiro que existia, tocava uma música ponteando, por exemplo se eu cantar uma
música, o que eu falar eu tenho que pontear.
Diferente de hoje que se usa acompanhado, então se você for ver o violeiro hoje nem existe, pois
hoje é banda, um dos componentes apenas toca a viola, para ser violeiro precisa ser só a pessoa e a
viola.
Pergunta: Como o senhor fabrica suas violas?
LP: A primeira coisa que se faz é a forma.
Pergunta: O senhor faz uma fôrma para cada viola?
LP: Sim, uma fôrma para cada viola, cada instrumento tem sua fôrma. O primeiro passo é a fôrma,
depois disso agente faz as laterais, em seguida, vem o fundo com umas três travessas, coloco o
tampo, também com umas três travessas. e depois coloco a boca.
Pergunta: Como o senhor faz essa boca?
LP: A boca precisa ter um tamanho certo, é um mosaico. Vários pedaços de madeira são colocados
em uma forminha. Depois que o tampo é cortado coloco a boca. Existe outro tipo de fabricação, seria
o sistema original, pois quando se tinha bastante madeira se fazia a viola escavada, agora não se
acha mais madeira o suficiente, então precisamos fazer com vários pedaços de madeira. Da forma
escavada a sonoridade é outra coisa, é bem melhor.
Pergunta: Então para fazer a viola não é usada uma madeira inteira?
LP: Claro que não, pois hoje em dia não tem como fazer a viola sem a emenda. Cada vez mais
estamos emendando por causa da falta de madeira, antigamente se achava uma prancha de pinho
com 80 metros, hoje em dia não se acha nem com 20 metros. Agora, para fazer o braço da viola usa-
se uma madeira inteira, mais comprida com outras coladas em cada ponta, depois serra para fazer o
toquinho que vai atrás da viola, pois não tem madeira sobrando para fazer o braço com uma madeira
só, mas como não tem, agente é obrigado a fazer isso e dá bastante trabalho.
Pergunta: Como o senhor pode diferenciar a viola caipira?
LP: A diferença é o tipo da música. A sonoridade é sempre igual, o que muda é o estilo da música.
Viola caipira tem dez cordas e a afinação de cebolão é a tradicional para violeiro, senão não dá pra
tocar, a sonoridade é diferente.
Pergunta: O que o senhor pode falar sobre a mudança no tamanho da cintura da viola?
LP: É questão de gosto, viola cinturada, é uma com bastante cintura e a sonoridade muda um pouco.
Pergunta: A viola tem um tamanho padrão depois de pronta?
LP:Tem dois padrões, viola pequena e a média, que inclusive serve para qualquer coisa e a pequena
não, já é própria para pontear, mas é questão de gosto também.
Pergunta: Quanto tempo o senhor demora para fazer uma viola?
LP: Em média de 40 dias se o tempo estiver bom, pois se estiver frio ou chovendo, mesmo sendo em
estufa ela não cola bem. E ferramenta só industrializada só tem a máquina para furar e lixar a viola, o
resto é tudo a mão.
Pergunta: O senhor acha que seu estilo mudou com o tempo para a construção da viola?
LP: Não, posso ter aperfeiçoado, mas mudado meu estilo não. Teve uma época em que as indústrias
modernizaram e quem era marceneiro ficou sem emprego, por exemplo para você fazer uma mesa
hoje em dia tem é cobrado 1500 reais e se você for nas Casas Bahia por exemplo, você a compra por
700 reais, então o marceneiro foi obrigado a fazer outras coisas, como construir instrumentos. Muita
gente que não era violeiro começou a fazer viola, por isso que as sonoridades mudaram, mas quem
entende de viola vai querer um instrumento com sonoridade de viola, mas não é que mudou o jeito de
fazer, mudou por que os profissionais inventaram outras formas de fazer. Tem gente que usa a
mesma fôrma para o violão e a viola, então o som não vai ser o mesmo. Então se você considerar a
forma tradicional de se fazer a viola não mudou nada, não pode mudar, senão muda a sonoridade.
24
Pergunta: Quem compra suas violas pode escolher a cor?
LP: Sim, pode escolher, tem gente que quer viola preta, dai preciso tingir a madeira, mas o legal é
fazer ela sempre na cor da madeira, pois cada coisa que você põe altera o som.
Pergunta: Se o senhor pintar a viola altera a sonoridade?
LP: Muda muito, se você for fazer a viola só na madeira, vai lixar, passar uma seladora para tampar
os buracos, lixar de novo para deixar na madeira e passar verniz. Se você vai pintar a viola, precisa
colocar um fundo, passar a tinta e depois um verniz bicomponente usado em carros, se você colocar
a viola dentro d'água não acontece nada, ela fica impermeabilizada, só que a sonoridade muda.
Pergunta: Por que você escolheu a viola caipira?
LP: Porque eu sempre estive em escola de música, então agente tinha muito problema para achar
alguém para consertar o instrumento, porque demorava, então eu comecei a consertar os
instrumentos, depois foi rolando e chegou ao ponto que está. Meu pai sempre mexeu com madeira,
então eu estou a quinze anos fazendo isso e nunca fiz curso, aprendi sozinho.
Pergunta: O senhor também toca os instrumentos?
LP: Sim, eu sou músico e acredito inclusive, que para se fazer um instrumento bom é preciso tocar,
tem alguns luthiers que não tocam, mas é diferente de um instrumento feito por um luthier que toca,
se você toca, você sabe quando o som está bom, se você não é músico, como você vai testar?
Pergunta: Tem alguma coisa de especial que você faz para viola ficar com um som bom?
LP: A Lua influi bastante na viola, se você a fizer na Lua errada, ou cortar a madeira na Lua cheia, a
madeira trinca, entorta e da cupim.
Pergunta:Tem alguma madeira específica para fazer a viola?
LP: Existem várias madeiras, mas hoje estão escassas. Atualmente estamos usando madeiras
recicladas, semelhantes ao pinho de riga, é uma madeira que posso encontrar facilmente. A madeira
ideal para o tampo é o pinho, para as costas da viola se usa cedro, embuia. A caixa lateral e costas é
embuia, cedro ou jacarandá. Para o braço é sempre cedro, ou pinho também, mas como não se
encontra este tipo de madeira, se compra de casas antigas um pedaço de embuia ou cedro, que é a
madeira reciclada, pois na natureza não se acha mais. Existem as madeiras de contrabando também,
mas não é legal né, pois agente está colaborando com o crime, então estamos optando por outras
coisas, por exemplo eu já fiz viola de eucalipto, que até que é uma madeira que substitui o cedro, a
diferença é que o eucalipto da muito defeito, trinca muito.
25
Levantamento Iconográfico
26

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Um Estudo sobre a Viola Caipira

  • 1. UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI Design Digital NA4 DESIGN E ARTESANATO: INSTRUMENTOS MUSICAIS VIOLA CAIPIRA ANA PAULA FRANCO CAVALCANTE ANGELO BRUNO DE SOUZA SILVA ARIADNE YASMIN VIEIRA DE MELO BRUNO TERUHIKO SATO FÁBIO RODRIGUES DE OLIVEIRA STELLA NERY DA SILVA VIVIANE RODRIGUES DE ALMEIDA São Paulo 2008/2
  • 2. Sumário Introdução..................................................................................................................2 1. Relações entre Cultura, Design e Artesanato..................................................3 2. Luthieria..............................................................................................................7 2.1. O que é a Luthieria?.......................................................................................7 2.2. Luthieria de Viola Caipira ...............................................................................7 2.3. Luthieria de Luiz Porte .................................................................................11 3. As funções da Viola Caipira e sua relação com o Design............................13 3.1. Funções da viola caipira .................................................................................15 4. Conceito de criação do Site Documental.......................................................18 5. Considerações finais .......................................................................................19 6. Referências.......................................................................................................21 Anexos .....................................................................................................................22 Entrevista com o Luthier Luiz Porte .......................................................................22 Levantamento Iconográfico....................................................................................25
  • 3. 2 Introdução O presente trabalho tem como objetivo demonstrar as relações presentes entre design e cultura e design e artesanato, estudar o ofício de luthieria da viola caipira, tomando como base o trabalho do luthier Luiz Porte e, em seguida, discutir a questão de sustentabilidade presente no trabalho do luthier, as funções da viola caipira e como as alterações feitas no instrumento visando somente a estética podem prejudicar ou melhorar algumas dessas funções. No primeiro capítulo iremos definir os conceitos de design como o ato de projetar e implantar este projeto utilizando-se de referências culturais; de cultura como o conjunto de normas, crenças, leis naturais, convenções, entre outras coisas de uma determinada sociedade; e de artesanato como um artefato produzido por técnicas predominantemente manuais. No segundo capítulo iremos estudar o processo de luthieria, definindo-o como o ofício de fazer instrumentos musicais, o contexto histórico da viola caipira, sua estrutura, afinações, e mais especificamente, o trabalho de luthieria de Luiz Porte. Por fim, no terceiro capítulo, iremos abordar a questão da sustentabilidade presente no trabalho de Luiz Porte, estudar as funções prática, estética e simbólica da viola caipira, como elas são desempenhadas e quando cada uma delas ocorre; citar as alterações estéticas que os usuários normalmente fazem na viola e analisar como essas alterações feitas no instrumento podem prejudicar ou melhorar algumas dessas funções. Esta pesquisa se justifica pela importância do estudo da cultura popular, considerando que esta é uma grande fonte de inspiração para o design, além de conhecimento essencial para que um projeto de design alcance seus objetivos.
  • 4. 3 1. Relações entre Cultura, Design e Artesanato. Existem semelhanças e até divergências no meio acadêmico e profissional entre as várias definições de design. As mais comuns recorrem à etimologia da palavra, e isto acontece porque é através da pesquisa da origem das palavras que conseguimos entender o que de fato elas significam, sem as distorções que acontecem com o passar do tempo. Desse modo, recorremos à definição etimológica de Cardoso (2004, p. 14), que explica: [...] A origem imediata da palavra está na língua inglesa, na qual o substantivo design se refere tanto à idéia de plano, desígnio, intenção, quanto à configuração, arranjo, estrutura [...]. A origem mais remota da palavra está no latim designare, verbo que abrange ambos os sentidos, o de designar e o desenhar. Percebe-se que, do ponto de vista etimológico, o termo já contém nas suas origens uma ambigüidade, uma tensão dinâmica, entre um aspecto abstrato de conceber/projetar/atribuir a outro concreto de registrar/configurar/formar. Design seria então o ato de projetar, desenvolver um plano (um projeto) para depois desenvolvê-lo e aplicá-lo. A partir desta idéia, Mônica Moura (2003b, p. 118) observa de forma mais precisa o que é design: [...] significa ter e desenvolver um plano, um projeto, significa designar. É trabalhar com a intenção, com o cenário futuro, executando a concepção e o planejamento daquilo que virá a existir. Criar, desenvolver, implantar um projeto – o design – significa pesquisar e trabalhar com referências culturais e estéticas, com o conceito da proposta. É lidar com a forma, com o feitio, com a configuração, a elaboração, o desenvolvimento e o acompanhamento do projeto. [...] Projetar, produzir e criar no campo do design é, principalmente, atuar com a interface – relação do usuário com o objeto – através da cultura material, da interdisciplinaridade, da produção de linguagem. Podemos ver que o design é o ato de projetar, almejar um objetivo, desenvolver um plano (um projeto) de algo que virá a existir, para em seguida desenvolver e aplicar este plano se utilizando de referências culturais e estéticas, principalmente visuais, considerando que lidamos com formas (sejam elas concretas ou digitais), a fim de criarmos uma relação agradável entre o usuário com o objeto. Mas embora a definição de design como projeto seja tão bem aceita e defendida, não podemos nos esquecer do cunho comercial do design – afinal, design é feito para vender, seja um produto ou uma idéia. Desse modo, Villas-Boas (1998) e Barbosa (2003) completam o ponto de vista de Cardoso e Moura dizendo que são peças de design todo projeto que visem à persuasão e a venda.
  • 5. 4 E se o design usa de referências culturais para se construir, o que seria cultura? De acordo com Caldas (1986), a palavra cultura vem do latim – colere – e significa cultivar. Por isso falamos em “cultura de gado”, “cultura de milho”, etc... Mas já na Antiguidade a palavra cultura era usada no sentido de destacar a educação aprimorada de uma pessoa, seu interesse pelas artes, pela ciência, filosofia, enfim, por tudo aquilo que é produzido pelo homem. Desde então, o termo cultura vem tomando significados cada vez mais abrangentes, por isso, é importante enfatizar que o estudo da cultura humana é feito pelo estudo do modo de vida, padrões de comportamento, sistema de crenças, que são característicos de cada sociedade. Cultura é “[...] um grupo organizado de padrões culturais, normas, crenças, leis naturais, convenções, entre outras coisas, em constante processo de transformação.” (CALDAS, 1986, p. 14) Assim como existe uma diversidade de culturas espalhadas pelo mundo, podemos ver dentro de uma mesma cultura, outros subtipos de culturas diferentes. A divisão mais comum se dá devido à estratificação de classes, pois é a elite cultural, que tendo em seu poder as instituições dominantes, e assim ela desenvolve a concepção de cultura popular e a própria concepção de cultura de elite, ou cultura erudita. Desse modo, a cultura erudita abarca todas as formas de manifestação culturais produzidas e consumidas pelas classes dominantes e possui uma base científica que a legitima através da ciência, dos conhecimentos e saberes produzidos nas Universidades e nas instituições científicas. (CALDAS, 1986) Em oposição direta a cultura popular, que de acordo com Nóbrega (online, 2008) é: [...] o conjunto de criações e manifestações espontâneas, originais e autênticas, nascidas e consumidas pelos próprios sujeitos que as geraram. Podendo até ser influenciada por outros tipos de expressões culturais, a erudita, e a industrial massiva, o que não descaracterizaria seu caráter popular. Podemos ainda voltar a citar Caldas (1986) e dizer que a cultura popular é produzida fora do universo acadêmico e que sua produção, quase sempre, é anônima e coletiva, enquanto que na cultura erudita, é essencial aparecer o nome do autor, ou dos autores, das obras. No entanto, no caso do artesanato, que é um dos objetos de estudo desta pesquisa e uma das muitas manifestações da cultural popular, a afirmação de que sua produção é anônima e coletiva, só cabe ao artesanato produzido em comunidades. No caso da luthieria - artesanato de
  • 6. 5 instrumentos musicais - essa afirmação se torna falsa, pois como o instrumento musical feito pelo luthier assume a condição de peça única, pois normalmente é produzido sob encomenda e possui características próprias que são produzidas unicamente por aquele luthier, o fato do instrumento “levar” o nome de quem o fez, é uma questão de reconhecimento ao trabalho do luthier e também de identificação daquele instrumento. O designer trabalha dentro da cultura erudita, mas utilizando-se de elementos da cultura popular. Isso acaba num intenso processo de troca entre o design e a cultura geral, pois como já citamos, a cultura está sempre em constante processo de transformação, abandonando certos elementos e adquirindo outros ao longo da sua história. Tudo o que é transformado racionalmente é cultura, portanto, o design é uma manifestação cultural, o que dá aos designers o poder de interferir na cultura e de transformá-la conscientemente. É apropriando-se de elementos da cultura popular, transformando-os dentro do universo intelectualizado da cultura erudita, e devolvendo esses elementos num todo unificado e elaborado para a cultura popular, que os designers trabalham em seus projetos. Além disso, o designer necessita de um certo conhecimento antropológico (conhecimento da cultura) para poder obter sucesso em seus objetivos. Pois além de usar referências culturais (principalmente as visuais), para elaborar seus projetos, o designer também precisa conhecer bem o público ao qual o seu projeto se destina, o que ocorre também com o estudo da cultura na qual o seu público-alvo está inserido. Sobre artesanato, podemos dizer que o artesão é a pessoa que faz o objeto manualmente, sendo que esse objeto geralmente é utilizado em comunidades. A elaboração do objeto artesanal é resultado de conhecimento, inteligência e criatividade agregada ao poder de criar e inovar devido às necessidades da comunidade, onde as novas gerações devem aprender com os mais velhos, suas técnicas, e assim passando de geração para geração. O artesão geralmente trabalha sozinho e assim pode ter o privilegio de ser autônomo para administrar seu próprio tempo de trabalho. Uma das diferenças entre artesanato e design é que o artesão cria e renova seus objetos manualmente processo por processo e utiliza-se de recursos naturais para a fabricação de seus objetos e pode ser livre para construir qualquer projeto, enquanto o design utiliza-se de recursos industriais para a
  • 7. 6 criação de seus produtos e se limita quando projeta um objeto, pois, ele deve pensar no processo produtivo em série. No processo de produção artesanal o objeto é produzido em pequena escala e assim o objeto é mais rico em detalhes e agrega mais valores artísticos e com isso ele consegue ter condições de concorrer com o produto de design, o artesão que domina o seu oficio consegue em qualquer momento da produção do seu objeto, alterar e realizar ajustes. Enquanto no design tentamos melhorar os aspectos funcionais e visuais e com isso o design se torna uma solução que consegue adicionar valores aos produtos industrializados. Podemos também dizer que tanto os objetos artesanais quanto os objetos de design são artefatos. “Objeto” é algo que externo ao próprio ser, ou seja, está fora dele, existe além dele. O artefato é o resultado da interferência do homem na natureza, e é tanto o instrumento que o homem usa para modificar a natureza quanto o fruto dessa modificação. É o resultado de um processo de manipulação do meio ambiente a partir do imaginário, pois o homem consegue imaginar o artefato antes de produzi-lo. Em suma, tudo o que é produzido pelo homem a partir de um saber é um artefato. O artefato é fruto de um trabalho, resultado de técnicas elaboradas a partir de um conhecimento. É testemunha da realidade, a partir do momento em que, ao ser analisado, revela em parte a relação do homem com o seu meio-ambiente.
  • 8. 7 2. Luthieria. 2.1. O que é a Luthieria? Luthieria é o ofício de fazer instrumentos musicais. Podemos definir Luthier como um artesão que tem o conhecimento de todo o processo de fabricação de um instrumento. O Luthier Vergílio Artur de Lima (apud ROCHA, 2003) define a profissão de luthier como “engenharia de produzir sons tendo como matérias primas madeiras trabalhadas pacientemente por conta de expedientes técnicos, intuição aguda e afetividade estética e musical afloradas”. 2.2. Luthieria de Viola Caipira De acordo com Sousa (2005), o nome viola percorreu um longo caminho até tomar essa grafia como a conhecemos. Teria se originado na Suméria a 2.000 a.C., com pan-tur, que significava “pequeno arco” (CORRÊA, 2002). Figura 1: Instrumentos fabricados pelo Luthier Luiz Porte. Segundo Corrêa (2003) a viola apareceu inicialmente em Portugal no século XV e foi considerada o principal instrumento dos cantores e trovadores da época. Pode-se identificar que já existiam dois tipos de viola em Portugal, a viola das terras ocidentais e a viola do leste, ambas diferentes considerando-se o tamanho de sua cintura e a quantidade de cordas, que influenciavam em sua sonoridade.
  • 9. 8 Quando a viola foi trazida para o Brasil, no início da colonização, já era um instrumento um pouco menor do que o violão e com uma cintura acentuada. A estrutura portuguesa de modelo da viola se manteve inicialmente no Brasil, porém com a Revolução Industrial e a demanda baixa de emprego, alguns marceneiros foram obrigados a empregarem sua técnica com a madeira, para fazerem instrumentos musicais, pois eram produtos em grande expansão considerando-se a vinda de cantores sertanejos e a formação de novos grupos musicais vindos da região nordeste do Brasil para se difundirem nas grandes cidades. A procura de violas em vários estados do país fez com que essa fosse industrializada passando do método artesanal para a fabricação em grande quantidade, surgindo a preços mais acessíveis. A viola de forma geral possui dez cordas, distribuídas em cinco pares, existem também violas com doze, onze, nove, oito, sete, seis e até de cinco cordas, porém a Viola Caipira em específico possui dez cordas, do contrário segundo o luthier Luiz Porte, se o instrumento possuir 12 cordas, por exemplo, será considerado violão de 12 cordas e não mais uma viola. Como nos exemplifica Souza (2005), suas dez cordas tiveram seus nomes originais mantidos em ordem decrescente, de cima para baixo, são: • 1 contra-canotilio (companhêra do canutio); • 2 canutilho (canutio); • 3 contra-toeira (companhêra da tuêra); • 4 toeira (tuêra); • 5 contra-turina (companhêra da turina); • 6 turina; • 7 contra-requinta (companhêra da sobreturina); • 8 requinta (sobreturina); • 9 contra-prima (companhêra da prima); • 10 prima. Com base nas pesquisas identificamos que no Brasil existem dezenas de afinações, algumas são raramente utilizadas (CORRÊA, 2003). Algumas dessas afinações são conhecidas como Cebolão, a Natural, a Rio Baixo, a Boiadeira e a Guitarra. Abaixo poderemos observar tipos de afinação que são comuns, e as notas musicais que elas utilizam:
  • 10. 9 • Afinação Da-Viola: Lá, Re, Fá, Sustenido, Lá, Ré. • Afinação Natural: Lá, Ré, Sol, Sustenido, Si, Mi. • Afinação Meia-Guitarra: Lá, Ré, Lá, Dó Sustenido, Mi. • Afinação Guitarra: Lá, Mi, Lá Dó Sustenido, Mi. Entre outros tipos de afinações, utilizadas em cada região do Brasil, alguns cantores afinam a viola de acordo com suas vozes ou a tensão que preferem no ponteio da viola (CORRÊA, 2003). A afinação da viola caipira pode ser tocada de duas maneiras explica Souza (2005), ela pode ser tocada ponteada, de forma melódica, com um dedo tocando uma corda de cada vez; ou rasqueada (termo originário do centro-oeste), quando as unhas ferem várias cordas ao mesmo tempo em que produz o som mais harmônico. Figura 2: Partes da Viola 1 – cravelha ou cravilha; 2 – pestana ou trasto zero; 3 – trasteira, espelho, palheta ou escala; 4 – castanha ou pé do braço; 5 – aro, faixa lateral, cinta ou ilharga; 6 – cravelhal, cravelheira, palma ou cabeça; 7 – trasto, tasto ou ponto; 8 – casa 9 – boca ou abertura; 10 – cintura ou enfraque; 11 – cavalete; 12 – pino; 13 – contracavalete ou espinha; 14 – tampo ou testo sonoro; 15 – cordas; 16 – braço; 17 – bojo superior; 18 – bojo inferior; 19 - fundo, costas ou testo de baixo; 20 – roseta; 21 – furo.
  • 11. 10 A Viola Caipira brasileira sofreu inúmeras modificações até a atualidade adaptando-se aos folguedos e às danças, modificada por artesãos, aprimorada por violeiros, ela se transformou num instrumento legitimamente nacional. (SOUSA, 2005, p. 44) A viola depende de processos que são cuidadosamente vistos antes de iniciar a sua construção. De acordo com Rocha (2003) a construção deve obedecer aos seguintes passos: • Inicialmente deve se observar a cura da madeira. Processo de envelhecimento da madeira que visa obter um bom resultado de acordo com o nível de adequação no binômio, som/design no tocante do instrumento construído. • O tempo para a produção da viola varia de acordo com o luthier. Cada um tem seus segredos para fazer com que saia do instrumento o melhor som. • Para cada parte do instrumento o Luthier utiliza um tipo de madeira. Pinho europeu para o tampo e para as laterais e fundo jacarandá-de-baia ou pau- marfim, madeiras de espécies raras. No caso do Luthier Luiz Porte, ao contrário de muitos, ele tem se preocupado com a escassez da madeira e por isso utiliza madeira descartadas no meio ambiente. Figura 3: Violas em processo de secagem. Porte (2008) nos explicou também que não é bom fazer a Viola em dias de lua cheia porque influência na cura da madeira, aumentando a probabilidade dela rachar. Seu processo de confecção demora em média quarenta dias, enquanto o
  • 12. 11 luthier Vergílio Artur de Lima, (apud ROCHA, 2003) demora em media duzentas horas de trabalho, diluídas entre sessenta e noventa dias. Lima só utiliza madeiras com a cura de no mínimo seis anos. Ambos utilizam a goma laca indiana para revestir a viola, o que dá um ótimo acabamento e brilho ao artefato. 2.3. Luthieria de Luiz Porte Luiz Porte nasceu no Paraná e desde pequeno conviveu com violeiros e carpinteiros, tornando-se um apaixonado por instrumentos. A viola caipira na vida dele é uma tradição. Começou como carpinteiro, dava aulas de música, e à medida que os instrumentos se danificavam, Luiz Porte os consertava. Especializou-se na construção destes e apesar de nunca ter feito um curso sobre construção de instrumentos, sempre procurou aperfeiçoar a sua técnica como luthier. Hoje em dia recebe de cinco a seis pedidos para confecção de violas por mês, dentre elas, violas mais simples, violas com uma pintura especializada ou com configurações individuais para que o usuário se sinta mais confortável com sua peça. Um exemplo de customização que Luiz Porte faz é a mudança de tamanho da cintura do instrumento, o que interfere em sua sonoridade. Figura 4: Luiz Porte tocando. Figura 5: Luiz Porte explicando a construção das violas caipiras. Luiz utiliza de diferentes tipos de madeira para a construção de suas violas, e acredita que esta necessidade feita pela escassez de madeira, acabou por colaborar com seu trabalho, de forma que seus instrumentos possam ser mais ricos em detalhes. Segundo Porte (2008) hoje em dia muitos luthiers fazem seus instrumentos
  • 13. 12 utilizando grande parte dos materiais industrializados, enquanto ele fabrica, corta e molda toda a matéria-prima necessária para a construção, bem como confecciona as ferramentas que utiliza. Afirma ainda que a maioria dos luthiers levam a construção do instrumento para um lado mais folclórico, em que se preza a decoração e a estética do artefato, ao contrário dele que preza uma boa sonoridade e durabilidade, por isso todo o processo de construção de suas peças são manuais. Figura 6: Forma utilizada para confecção da Viola Caipira. Além da Viola Caipira, Luiz Porte também produz violão, cavaquinho e violino. Todos os seus instrumentos são feitos à mão, afinados e testados por vários dias evitando problemas futuros e por fim são lustrados com muito carinho.
  • 14. 13 3. As funções da Viola Caipira e sua relação com o Design. Temos como delimitação dessa pesquisa, analisar as funções da Viola Caipira de acordo com uma série de fatores que vão desde os ambientais aos desejos dos consumidores e relacionar com Design. A Viola Caipira possui uma função principal que é a de ser tocada, aonde o som gerado é diretamente influenciado pelo material utilizado em sua confecção, que hoje é ditado pelos problemas ambientais. Existem também as preferências dos clientes, que exigem customizações estéticas que também alteram o som do instrumento. A falta de madeira no meio ambiente é o fator que mais influencia na estética da Viola Caipira confeccionada por Luiz Porte. São diversos retalhos de madeira que juntos formam uma curiosa superfície que mais parece uma colcha de retalhos, só que de madeira. Segundo Luiz Porte, essa junção de diversos pedaços de cores e tipos de madeira diferentes contribui positivamente para a sonoridade da Viola Caipira, além de ser esteticamente muito interessante. Figura 7: Viola feita com três pedaços de madeira de cores diferentes e intercalados. A junção de materiais também contribui para a economia de matéria prima. Uma vez que pedaços pequenos de madeira são utilizados, o desperdício diminui, conseqüentemente o impacto sobre o meio ambiente, que já não possui matéria- prima em abundância, é menor.
  • 15. 14 Do ponto de vista da Sustentabilidade, Adélia Borges (2002, p.77) descreve o consumo de madeira: Pesquisadores da organização não-governamental Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, o Imazon, descobriram que apenas 35% da madeira cortada é vendida e transformada em casas e móveis. Outros 22% se transformam em carvão e o restante simplesmente vira lixo. Com isso fica clara a importância do trabalho de Luiz Porte para o meio ambiente porque suas peças agregam diversos restos de madeira de diversos tipos distintos, porém adequados para a construção da viola caipira. Analisando o conceito de sustentabilidade empregado no Design, Adélia Borges (2002) explica que os designers de móveis utilizam madeiras amazônicas pouco conhecidas, não aceitam a ditadura da madeira única e não se submetem à falsa necessidade de ter ambientes em que tudo é feito de uma madeira só para combinar, o que se encaixa muito bem com o trabalho de Luiz Porte. Ainda sobre a Sustentabilidade no Design, Borges (2002, p.78) completa que existe uma certificação emitida pelo Conselho de Manejo Florestal (FSC) para as empresas que desenvolvem móveis e objetos de madeira, após uma rigorosa verificação de que a extração é feita com critérios adequados, de forma “ambientalmente adequada, socialmente justa e economicamente viável”. É particular de cada Luthier saber a procedência do material utilizado em suas peças quando consideramos que o cliente pode solicitar uma Viola feita com uma madeira que não existe no Brasil e com isso seria preciso importá-la, podendo não saber se a sua procedência é legal. Luiz Porte não importa nenhuma madeira do exterior porque seria difícil ter certeza se este material foi extraído seguindo as normas da FSC, dando prioridade para retalhos de madeira que ele recebe de doação ou que encontra. Ainda com relação às exigências dos clientes, algumas pessoas preferem que a Viola Caipira seja revestida por um verniz preto, com objetivo simplesmente estético. Segundo Porte, o uso desse verniz não o agrada porque impermeabiliza o instrumento mudando a sua sonoridade negativamente. Por fim, o miolo da Viola também é feito com retalhos de madeira, gerando um curioso mosaico, que não influencia na execução do instrumento e sim no seu visual, uma vez que o objeto ganha uma grande riqueza de detalhes e atende as referências culturais relacionadas à Viola Caipira, completando assim a função
  • 16. 15 sustentável do trabalho de Luiz Porte que utiliza em sua maioria materiais artesanais. Figura 8: Materiais utilizados para customização e impermeabilização das Violas. A Viola Caipira possui como função principal ser um instrumento musical. Entretanto ela também pode ser usada como objeto de decoração. O cliente não encomenda uma viola explicando como irá usá-la, mas faz suas exigências estéticas. Como foi explicado anteriormente, alguns processos estéticos podem influenciar na sonoridade da Viola, o que pouco importa para quem irá usá-la como objeto de decoração. Dessa forma, o objeto perde algumas características e sua real função. Relacionando com o Design Digital, mais precisamente um site documental, produto final embasado por essa pesquisa, este não pode ter sua função modificada. Ao contrário da viola, o cliente não pode pendurar o site documental na parede e chamá-lo de objeto de decoração. Entretanto, algumas exigências podem influenciar na usabilidade do site, fator que pode ser comparado à viola. O cliente não pensa se suas exigências influenciarão na experiência de seus visitantes no site, assim como não passa pela cabeça do consumidor de violas que o revestimento de tinta pode influenciar na sua sonoridade. 3.1. Funções da viola caipira
  • 17. 16 A Viola Caipira possui uma função principal que é a de ser tocada, sendo essa a sua função prática, pois diz respeito ao processo de utilização em nível objetivo, ou seja, a relação fisiológica entre o sujeito e o produto (GOMES FILHO, 2006). Podemos pegar como exemplo uma cadeira: ela cumpre bem a sua função prática se tiver um bom projeto ergonômico, ou seja, se ela não causar nenhum tipo de desconforto ao usuário, principalmente a longo prazo. Do mesmo modo, um instrumento musical cumpre bem a sua função prática se o som que for produzido por ele for o que se espera do instrumento em questão e se ele for adaptado a pessoa, não causando desconforto em sua utilização. A viola de Luiz Porte, no geral, cumpre bem essa função prática, pois o luthier se preocupa em utilizar madeiras que não prejudiquem, ou ainda, que melhorem o som produzido pelo instrumento. A grande questão é que, como Luiz Porte faz violas por encomenda, existem também as preferências dos clientes, que exigem customizações estéticas que alteram o som do instrumento, acabando por prejudicar o som e a função prática realizada pelo instrumento. Além da função prática, a viola também pode exercer outros tipos de função, o que ocorre quando o cliente compra uma viola apenas para utilizá-la como decoração. Nesses casos a função principal da viola muda de função prática para a função estética. Enquanto a função prática é importante para o bem-estar fisiológico do usuário, a função estética é importante para o bem estar psicológico, pois considera a percepção sensorial do usuário sobre o produto e os aspectos emocionais do comportamento perceptivo. Embora a visão seja o sentido mais associado quando falamos de estética, não é o único sentido envolvido nesse processo. O cheiro de um objeto ou mesmo sua superfície, constituem alvos de apreciação estética. Os aspectos estéticos de um objeto são principalmente os aspectos que agradam ou desagradam o usuário, mesmo que ele não saiba verbalizar o porquê desse. São os aspectos que influenciam comportamentos emocionais. (GOMES FILHO, 2006) O maior exemplo de função estética como principal função no mundo do design, se dá no design de jóias e acessórios. Embora esse tipo de produto também tenha que ter uma boa função prática para não gerar desconforto na pessoa que o utiliza, muitas vezes essa função é ignorada pelo próprio usuário em prol da função estética.
  • 18. 17 Desse modo, um instrumento cumpre bem a sua função estética se é agradável a quem compra. E no caso do luthier Luiz Porte, muitas pessoas o procuram para encomendar violas que serão utilizados somente para decoração, pedindo diversas customizações que irão satisfazer o julgamento estético de cada um. Em ambos os casos, está presente a função simbólica, que diz respeito à adequação do produto às necessidades e desejos simbólicos de casa usuário e principalmente à atribuição de significados realizada pelo usuário ao produto. A diferenciação e o estilo de vida se constituem no ponto de partida para o desenvolvimento do produto, na sua formação simbólica. A aceitação de um produto depende, praticamente, até que ponto consegue se conectar com as escalas de valores (sobre tudo com as escalas estéticas) do grupo ou usuário de destino. É importante observar que, embora seja comum uma função se sobressair à outra, elas não existem independentemente, estão interligadas e mudanças em uma afetam as outras. Um usuário que pede uma viola envernizada de preto, embora perca em função prática devido às alterações que irão ocorrer no som da viola, ganha em função simbólica, pois está tendo o desejo de ter uma viola preta satisfeito. Satisfaz a função simbólica, pois uma viola envernizada de preto o diferencia daqueles usuários que preferem uma viola mais “crua”, em sua cor natural, indicando diferentes estilos de vida. Os músicos que pedem uma viola envernizada de preto normalmente são músicos famosos que fazem parte do cenário mainstream da música popular, por isso preferem violas diferenciadas, com um aspecto mais “moderno”. Já os músicos que preferem a viola em sua cor natural, são aqueles músicos do interior, músicos mais tradicionais. O usuário que utiliza a viola somente como decoração pode até não aproveitar a função prática da viola, mas estará satisfazendo sua função estética, e, por conseqüência, sua função simbólica.
  • 19. 18 4. Conceito de criação do Site Documental Temos por objetivo demonstrar a relação design, cultura e artesanato através dos meios hipermidiáticos permitindo que o usuário saiba mais sobre as relações existentes entre design e cultura e design e artesanato e sobre os processos de construção da Viola Caipira. Além de mostrar essa relação, pretendemos mostrar a comparação da modificação na função da Viola, dependendo dos padrões utilizados para a sua construção à pedido dos clientes, fazendo uma relação dessa modificação com meio do Design. Sendo assim, a demonstração da importância das funções da viola caipira e no meio do Design tornam-se o nosso principal objetivo.
  • 20. 19 5. Considerações finais Definimos nesta pesquisa os conceitos de design, cultura e artesanato com o intuito de embasar a contexto da produção de Violas Caipiras tendo como referência o trabalho do Luthier Luiz Porte. Vimos que design significa ter e desenvolver um plano, um projeto, significa designar. Cultura é o conjunto de normas, crenças, leis naturais, convenções, entre outras coisas de uma determinada sociedade. Já o artesanato é o objeto criado manualmente, resultado de conhecimento, inteligência e criatividade, agregados pelo artesão através de suas gerações. Estes conceitos foram importantes para a definição do que realmente é o trabalho do Luthier Luiz Porte do ponto de vista antropológico. A sua Viola Caipira é um artesanato porque é feito manualmente, mas se diferencia dos artesanatos de comunidade, pois cada peça criada é única, possui características específicas, e recebem o nome do artesão. Definimos Luthieria como o ofício de criar instrumentos musicais manualmente e Luthier o sujeito que aprendeu o ofício de criar instrumentos através de suas gerações. Apresentamos a Viola Caipira, originada em Portugal e que após chegar ao Brasil foi facilmente incorporada à cultura devido à baixa demanda de empregos e o crescimento na oferta de cantores sertanejos. Da necessidade de encontrar um Luthier, nos deparamos com o trabalho Luiz Porte que nasceu no Paraná e conviveu com violeiros e carpinteiros onde aprendeu e se identificou com o ofício. Observamos em seu trabalho a preocupação com a escassez de matéria-prima e como isso, aliado as exigências dos clientes, influenciam na funcionalidade do instrumento para depois comparar com a mesma situação no Design. Concluímos com esta pesquisa que o trabalho de Luiz Porte está dentro do conceito do Design Sustentável porque ele utiliza retalhos de madeira jogados no meio ambiente, evita o desperdício de matéria-prima, não compra madeira sem conhecer a procedência e utiliza pouco material industrializado em seus instrumentos, tornando o seu processo praticamente todo artesanal. Concluímos também que a função da viola caipira pode ser mudada a partir da intenção de uso do cliente - usá-la como instrumento musical em si, ou como objeto
  • 21. 20 de decoração -, ou prejudicada com as alterações que visam somente a estética, como quando o cliente pede para que a viola seja invernizada de preto. Ao contrário do que ocorre com o produto final do interdisciplinar - um site documental -, que não pode mudar de função.
  • 22. 21 6. Referências BARBOSA, Carlos Alberto. Tékne e design: uma relação entre o conceito aristotélico de arte e o conceito contemporâneo de design. In: Faces do Design. São Paulo: Edições Rosari, 2003. BORGES, Adélia. Designer não é personal trainer. São Paulo: Edições Rosari, 2002. CALDAS, Waldenyr. Cultura. 4ª ed. São Paulo: Global, 1986. CARDOSO, Rafael. Uma introdução à história do design. 2ª. ed. São Paulo: Edgard Blücher, 2004. CORRÊA, Roberto. A Arte de Pontear viola. 2ª ed. Brasília – Viola Corrêa,2002 MOURA, Mônica. Design Digital: Universo da Cultura e da Hipermídia. In: Faces do Design. São Paulo: Edições Rosari, 2003. NÓBREGA, Zulmira. Cultura Popular na Pós-Modernidade. 2008. Disponível em: <http://www.cult.ufba.br/enecult2008/14345.pdf>. Acesso em: 16/09/2008. SOUSA, Walter. Moda Inviolada: Uma História da Música Caipira. São Paulo: Quiron, 2005. VILLAS-BOAS, André. O que é (e o que nunca foi) design gráfico. Rio de Janeiro: 2AB, 1998.
  • 23. 22 Anexos Entrevista com o Luthier Luiz Porte Pergunta: Você faz viola para alguma pessoa famosa? Luiz Porte: Não, pois geralmente este pessoal já tem uma pessoa específica que faz para eles e muita das vezes eles ganham as violas. Pergunta: Quantas violas você produz por mês? LP: São poucas, 4 violas por mês, ou 5 pois é um trabalho muito demorado. Primeiro você vê a madeira assim, crua, até você a ver finalizada demora. A madeira precisa ir até um tambor onde é cozida, é como cozinhar mandioca, ela fica em um tambor cozinhando por um bom tempo até ficar maleável o suficiente. Pergunta: Fora confecção de viola você trabalha com alguma outra coisa? LP: Só aula. Pergunta: O que as pessoas procuram mais para o senhor dar aula? LP: Violão e viola, cavaquinho tem algumas pessoas, mas principalmente vilão e viola. Principalmente viola, pois tem pouca gente que ensina, violão tem mais gente que ensina. Pergunta: Quais são os instrumentos que você sabe tocar? LP: violão, viola, cavaquinho, contra-baixo. Pergunta: O senhor fez algum curso? LP: Não, eu fiz curso só depois que eu comecei a tocar, quando um professor me conheceu e eu comecei a dar aula lá, fizeram um teste comigo e me aprovaram para dar aula, mas eu estudava a teoria e dava aula prática de viola. O único curso que eu fiz foi esse mesmo. Pergunta: Como o Senhor consegue as madeiras para fabricar os instrumentos? LP: Se desperdiçam muitas madeiras e isso está atrapalhando bastante, pranchas de 4 metros estão sendo queimadas em toneladas, como pinho de riga e pinho canadense. Estão queimando alegando que podem vir doenças junto com a madeira do exterior. Agente não pode mais pegar as madeiras nesses galpões, pois os donos alegam isso. Pergunta: Tem alguma pessoa que já te procurou para ser um aprendiz? LP: Ah sim claro, mas eu não faço isso por que nunca fiz curso, então eu não gosto de fazer as coisas meio picaretas e para você ensinar você precisa ter a didática das coisas e eu não tenho. Que nem vocês, que estão fazendo faculdade, depois pode ter um cara que aprendeu o que vocês estão fazendo na raça, de repente o cara pode fazer melhor que vocês, só que vocês podem ensinar e ele não, por que vocês cursaram e fizeram um trabalho, conhecem a didática e ele não. Até falei na ordem dos músicos existem pessoas dando aula e não sabem nem pegar no instrumento, por isso que para, ensinar deveria ter algum teste. Pergunta: Se você fosse escolher um estilo que gosta de tocar, qual seria? LP: Eu gosto de sertanejo raiz tipo Tião Carrero, estou fazendo um Cd bem raiz. Pergunta: Quais são os grupos hoje em dia que ainda usam a viola? LP: César e Paulinho, mas o resto não usa a viola, Zezé, mesmo só usa a viola em um trechinho da música. Pergunta: Você acredita em algum tipo de misticismo para a construção da viola? LP: Isso é um pouco de lenda, mas existe, o fato de lua influenciar na construção da viola, por exemplo, existe. Ainda tem o fato de que em alguns dias você está bom para fazer as coisas e em outros não. Mas o tempo mesmo é essencial, se não estiver tempo bom, por exemplo uma peça da viola que é presa só com cola, precisa estar um tempo bem legal para colar e segurar pois isso aqui
  • 24. 23 só vai ser pressionado. Por exemplo, se você cola num tempo frio, depois que seca a viola, o que você grudou se solta. LP: O autêntico violeiro que existia, tocava uma música ponteando, por exemplo se eu cantar uma música, o que eu falar eu tenho que pontear. Diferente de hoje que se usa acompanhado, então se você for ver o violeiro hoje nem existe, pois hoje é banda, um dos componentes apenas toca a viola, para ser violeiro precisa ser só a pessoa e a viola. Pergunta: Como o senhor fabrica suas violas? LP: A primeira coisa que se faz é a forma. Pergunta: O senhor faz uma fôrma para cada viola? LP: Sim, uma fôrma para cada viola, cada instrumento tem sua fôrma. O primeiro passo é a fôrma, depois disso agente faz as laterais, em seguida, vem o fundo com umas três travessas, coloco o tampo, também com umas três travessas. e depois coloco a boca. Pergunta: Como o senhor faz essa boca? LP: A boca precisa ter um tamanho certo, é um mosaico. Vários pedaços de madeira são colocados em uma forminha. Depois que o tampo é cortado coloco a boca. Existe outro tipo de fabricação, seria o sistema original, pois quando se tinha bastante madeira se fazia a viola escavada, agora não se acha mais madeira o suficiente, então precisamos fazer com vários pedaços de madeira. Da forma escavada a sonoridade é outra coisa, é bem melhor. Pergunta: Então para fazer a viola não é usada uma madeira inteira? LP: Claro que não, pois hoje em dia não tem como fazer a viola sem a emenda. Cada vez mais estamos emendando por causa da falta de madeira, antigamente se achava uma prancha de pinho com 80 metros, hoje em dia não se acha nem com 20 metros. Agora, para fazer o braço da viola usa- se uma madeira inteira, mais comprida com outras coladas em cada ponta, depois serra para fazer o toquinho que vai atrás da viola, pois não tem madeira sobrando para fazer o braço com uma madeira só, mas como não tem, agente é obrigado a fazer isso e dá bastante trabalho. Pergunta: Como o senhor pode diferenciar a viola caipira? LP: A diferença é o tipo da música. A sonoridade é sempre igual, o que muda é o estilo da música. Viola caipira tem dez cordas e a afinação de cebolão é a tradicional para violeiro, senão não dá pra tocar, a sonoridade é diferente. Pergunta: O que o senhor pode falar sobre a mudança no tamanho da cintura da viola? LP: É questão de gosto, viola cinturada, é uma com bastante cintura e a sonoridade muda um pouco. Pergunta: A viola tem um tamanho padrão depois de pronta? LP:Tem dois padrões, viola pequena e a média, que inclusive serve para qualquer coisa e a pequena não, já é própria para pontear, mas é questão de gosto também. Pergunta: Quanto tempo o senhor demora para fazer uma viola? LP: Em média de 40 dias se o tempo estiver bom, pois se estiver frio ou chovendo, mesmo sendo em estufa ela não cola bem. E ferramenta só industrializada só tem a máquina para furar e lixar a viola, o resto é tudo a mão. Pergunta: O senhor acha que seu estilo mudou com o tempo para a construção da viola? LP: Não, posso ter aperfeiçoado, mas mudado meu estilo não. Teve uma época em que as indústrias modernizaram e quem era marceneiro ficou sem emprego, por exemplo para você fazer uma mesa hoje em dia tem é cobrado 1500 reais e se você for nas Casas Bahia por exemplo, você a compra por 700 reais, então o marceneiro foi obrigado a fazer outras coisas, como construir instrumentos. Muita gente que não era violeiro começou a fazer viola, por isso que as sonoridades mudaram, mas quem entende de viola vai querer um instrumento com sonoridade de viola, mas não é que mudou o jeito de fazer, mudou por que os profissionais inventaram outras formas de fazer. Tem gente que usa a mesma fôrma para o violão e a viola, então o som não vai ser o mesmo. Então se você considerar a forma tradicional de se fazer a viola não mudou nada, não pode mudar, senão muda a sonoridade.
  • 25. 24 Pergunta: Quem compra suas violas pode escolher a cor? LP: Sim, pode escolher, tem gente que quer viola preta, dai preciso tingir a madeira, mas o legal é fazer ela sempre na cor da madeira, pois cada coisa que você põe altera o som. Pergunta: Se o senhor pintar a viola altera a sonoridade? LP: Muda muito, se você for fazer a viola só na madeira, vai lixar, passar uma seladora para tampar os buracos, lixar de novo para deixar na madeira e passar verniz. Se você vai pintar a viola, precisa colocar um fundo, passar a tinta e depois um verniz bicomponente usado em carros, se você colocar a viola dentro d'água não acontece nada, ela fica impermeabilizada, só que a sonoridade muda. Pergunta: Por que você escolheu a viola caipira? LP: Porque eu sempre estive em escola de música, então agente tinha muito problema para achar alguém para consertar o instrumento, porque demorava, então eu comecei a consertar os instrumentos, depois foi rolando e chegou ao ponto que está. Meu pai sempre mexeu com madeira, então eu estou a quinze anos fazendo isso e nunca fiz curso, aprendi sozinho. Pergunta: O senhor também toca os instrumentos? LP: Sim, eu sou músico e acredito inclusive, que para se fazer um instrumento bom é preciso tocar, tem alguns luthiers que não tocam, mas é diferente de um instrumento feito por um luthier que toca, se você toca, você sabe quando o som está bom, se você não é músico, como você vai testar? Pergunta: Tem alguma coisa de especial que você faz para viola ficar com um som bom? LP: A Lua influi bastante na viola, se você a fizer na Lua errada, ou cortar a madeira na Lua cheia, a madeira trinca, entorta e da cupim. Pergunta:Tem alguma madeira específica para fazer a viola? LP: Existem várias madeiras, mas hoje estão escassas. Atualmente estamos usando madeiras recicladas, semelhantes ao pinho de riga, é uma madeira que posso encontrar facilmente. A madeira ideal para o tampo é o pinho, para as costas da viola se usa cedro, embuia. A caixa lateral e costas é embuia, cedro ou jacarandá. Para o braço é sempre cedro, ou pinho também, mas como não se encontra este tipo de madeira, se compra de casas antigas um pedaço de embuia ou cedro, que é a madeira reciclada, pois na natureza não se acha mais. Existem as madeiras de contrabando também, mas não é legal né, pois agente está colaborando com o crime, então estamos optando por outras coisas, por exemplo eu já fiz viola de eucalipto, que até que é uma madeira que substitui o cedro, a diferença é que o eucalipto da muito defeito, trinca muito.
  • 27. 26