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A Essência da Visão



      Aquela noite tinha se tornado um tormento. A mais longa noite de sua
vida. Quase não dormiu. Deitou cedo, mas só conseguiu dormir muito tarde. A
ansiedade e angústia o consumiam.
      Dar conta de sua vida pessoal e profissional não era fácil, principalmente
pela cobrança que fazia a si. Mas ele acreditava que aquele dia se tornaria
especial.
      Acordou muito cedo, não por vontade, seu estômago fritava. Levantou
de uma só vez, não fez rodeios, não fazia nunca. Lavou o rosto, se olhou no
espelho, pensou em desistir, a torneira aberta. Falou “não” em voz alta, como
se tentasse se convencer disso. Foi à cozinha fez café e tomou puro, tomou
banho, arrumou o material que iria usar em sua apresentação, ficou aflito
novamente. Percebeu que sua roupa estava machucada, pensou um pouco,
mas não havia tempo para lamentações. Passou a roupa, vestiu e, já molhado
de suor, saiu.
      Sua manhã ainda encontrou outras dificuldades. Seu transporte atrasou,
esqueceu dinheiro e cartões, faltou a duas reuniões, tropeçou e quase sujou
toda roupa. Mas vencidas as batalhas, era hora de findar a guerra.
      Chegando ao local da apresentação ficou sentado nos degraus que
davam acesso ao auditório, de cabeça baixa, absorto. Por quase duas horas
esteve assim, até que uma voz chamou seu nome, dilacerando seus
pensamentos, trazendo ele novamente à realidade.
      Calmamente ele respondeu que já ia. Levantou-se, pegou seus livros e
trancado em imenso silêncio entrou no auditório.




                                 *     *      *




      O homenageado da tarde entrou com um livro nas mãos e foi recebido
por amigos, colegas de trabalho e os alunos do curso de Comunicação e
Letras. Sentou em um lugar previamente reservado para ele. Fazia
comentários a pé de ouvidos com os colegas professores e sorria
tranquilamente.
         Um dos organizadores, após fazer a abertura do evento, chamou o
estudante para apresentar seu trabalho.
         Calmamente o estudante se dirigiu à mesa. Tinha olhar firme, certo,
passos firmes, calmos, trajava um blaser moderno e jeans, nas mãos um livro,
uma caneta e seu trabalho. Por dentro, cacos, cacos e cacos. Estava em
pedaços, mas os anos de teatro o ensinaram a fingir bem, e assim o fez.
         Arrumou o material que estava em suas mãos sobre a mesa, apertou as
mãos, esfregou-as, enxugou o buço, pôs as mãos espalmadas sobre a mesa,
olhou o público. Pensou em desistir. Lembrou que há alguns dias havia dito a
uma amiga que ela jamais deveria desistir, olhou para ela que estava presente,
resolveu enfrentar. Olhou novamente o público, olhou para baixo e continuou
em silêncio. Seu orientador não entendeu. Eles se olharam e o aluno fez um
leve sinal com a cabeça. Rompeu o silêncio dizendo:
         - Viver esse livro, penetrar nesse mundo, é como pegar um ônibus a
esmo e sair registrando todas as experiências, nossas e alheias, é como criar
um mundo completo nos recortes de vidas, é se apropriar de todas as vidas e
estudá-las com métodos estritamente científicos. Não julgar, não condenar.
Viver e deixar viver, entregar cada um à própria sorte.
         A maneira com que o autor trata suas histórias, sem a necessidade de
buscar compreender o comportamento de suas personagens, sem pesar ou
medir as atitudes que cada uma toma, deixando que se expressem
naturalmente, sem condenação, denuncia um tom de amoralidade por parte do
autor.
         Aliás, é freqüente esse posicionamento do escritor diante de sua criação.
É notória a falta de preocupação dele com o que se considera padrão moral de
nossa sociedade. Também o seu distanciamento das situações, sem adjetivá-
las, possibilitando ao leitor tirar suas próprias conclusões, usando o acúmulo de
suas experiências, seus traumas e dores, suas convicções e padrão moral,
suas cercas e muros.
         Podemos observar também que essa amoralidade, esse comportamento
quase indiferente, suas loucuras e devaneios, abrem espaço a uma punição
quase inconsciente, quase despercebida, uma espécie de taxa, uma cobrança
que a vida impõe a cada um de nós, o outro lado da moeda, o efeito da causa,
ou as intempéries a que estão expostos todos os seres humanos.




                         *            *            *




      Podemos citar, por exemplo, “O Amor Como Deve Ser” e “Imperativo
Sábado”, onde, no primeiro, o escritor narra o relacionamento incestuoso da
adolescente Cátia com seu pai, demonstrando um acordo sem palavras entre
os dois. Esse romance é narrado com uma naturalidade tão intensa que
mesmo o leitor de comportamento mais tradicional não se surpreende ao ler
sobre o toque do pai por dentro da saia da menina, ou do prazer e amor que
ela sentia por ele, os beijos no carro e os segredos dos fins de semana que o
quarto guardava. Mas no final é reservado para eles, de forma subentendida,
um acidente fatal. No segundo conto, o pai confessa em um bar, seu
relacionamento incestuoso, dizendo para Victor que a menina que ele
conhecera era sua filha e o bebê que ela carregava também. O preço para a
menina grávida foi o suicídio e para seu pai foi ter que viver carregando esse
demônio sobre seus ombros.
      Mas esse trabalho ainda é marcado por outras características além da
amoralidade e indiferença. É comum, por exemplo, a presença da solidão dos
dias atuais, o velho sozinho narrado em “Gravidade”, a mulher abandonada em
“Pés Quentes nas Noites frias”, a mãe solteira vista em “Jornada de um
Menino”, a separação vivida por Virgínia em “Vacina”, também aparece o mau-
caratismo e dissimulação dos nossos dias.
      Ainda acho pertinente falar que, das muitas particularidades, destacam-
se principalmente as histórias que surgem de cada um desses contos, pois eles
nos permitem vários desfechos e interpretações. No conto “Porque não
Amasse Mais Ninguém”, Mauro era sozinho e por isso passou a criar uma
fêmea de canário. Certo dia os vizinhos perceberam que ele tinha
desaparecido e quando a polícia arrombou sua casa não o encontrou, mas na
gaiola onde antes havia simplesmente um canário, um casal surgiu. Em “Varrer
Rua”, a história encerra no momento em que Rodrigo Paulo faz um cerco a
uma linda universitária, não sendo narrado o resto do conto, e apesar das
claras más intenções de Rodrigo, o desfecho fica por conta de cada um, o
prazer, dor ou asco também. Já em “Mais um idiota”, Quele, um negro com
roupas estranhas, surge de repente e repentinamente se vai, após uma
cartomante ter dito que era para ele ir embora porque era a melhor noite para
isso, e ele se foi para o nada em uma máquina “esquisita” e “desequilibrada”.
       Em alguns casos como “Água escoando” nos sentimos como parte da
história. Todos nós temos histórias reais e fantásticas que por vezes nos
questionamos se são realmente reais. Assim foi com o velho Dovico, que
ninguém acreditava que ele tinha visto as lindas irmãs, Fernanda e Maria,
completamente nuas passeando pela casa enquanto ele consertava o cano da
pia.




                                   *        *      *




       De repente o estudante para o seu trabalho, o auditório lhe parece o
olho de um furacão, e ele pensa em jogar tudo pra cima, rasgar o trabalho e o
livro, chutar a mesa, mas lembra que não é um cara de se deixar ver derrotado.
Respira. Percebe que seu trabalho chegou ao fim, só falta comentar um conto,
o último, o que dá nome ao livro, “O Inédito de Kafka”, e recomeça:
       - Este conto, o último conto do livro é o mais diferente entre todos, um
conto realmente Kafkiano, o mais exótico.
       Apesar de manter sua assinatura em cada parágrafo de seus trabalhos,
com seu jeito agridoce e seus muitos apostos e ênfases nas frases, o autor
parte para o lado do fantástico.
       Esse conto se passa em uma pequena cidade onde “dois homens
podem se ver várias vezes sem necessariamente se encontrar”. Fala de um
homem que é avisado por um amigo, que em um shopping da cidade existe um
único volume de um livro de Kafka, inédito, em francês. Quando ele chega para
comprar, o livro já estava reservado por ele mesmo. Então ele percebe que,
mais uma vez, está sendo confundido com alguém. No caixa, na hora de pagar,
a mocinha que o atendeu também conversou com ele com certa intimidade e
ele não a conhecia. Depois ele foi à praia cumprir um ritual que ele mesmo
considerava infantil, atirar britas, pedrinhas, ao mar, quando percebeu que
outra pessoa fazia o mesmo com a mesma força e intensidade. Observou que
esse cara que encontrou era outro igual, um sósia, com os mesmos costumes
de colecionar discos antigos e caixas de fósforo, um homem com sua mesma
altura, aparência e barba, um homem que gostava das mesmas coisas,
freqüentava os mesmos lugares e falava da mesma forma que ele.
      Decidiu então procurá-lo, e sabendo que o outro pensava da mesma
forma, pensou em um encontro e, no dia e horário pensados, lá estavam. Sem
muito a dizer um ao outro, entenderam-se em poucas palavras e decidiram
seguir suas vidas sem arrependimentos ou sofrimentos, viraram-se e
separaram suas estradas.
      Como eu havia dito, é mais um conto fantástico que urbano, relatando
cotidianos. Mas, como a maioria de seus trabalhos, deixa um gostinho de quero
mais, um espaço para que o leitor exercite seu lado escritor, compartilhe da
criação. Mais uma vez ele busca apresentar coisas do dia-a-dia com idéias que
não parecem particulares, mas que são comuns a todos.




                                  *      *     *




      O livro “O Inédito de Kafka” é um romance urbano, contemporâneo, que
também traz finas características regionais, pois em quase todos os seus
contos retrata a cidade do Salvador com sua rotina e problemas.
      Pode não parecer nem um pouco aprazível, histórias do dia-a-dia como
passeio à praia, visitas ao dentista, assalto, vida no trabalho etc. Mas Mayrant
consegue elevar seus contos a um nível tão próprio que cada leitor consegue
ver algo de sua experiência em suas personagens.
      Mayrant Gallo é um destaque entre os novos escritores baianos. Nasceu
em Salvador no ano de 1962, é professor de Teoria da Literatura e Literatura
Brasileira, trabalha na Fundação Pedro Calmon desde 2008 e busca nesse
livro apresentar a vida de Salvador de uma forma pouco vista, a partir do
cotidiano, não permitindo que a história se torne monótona ou banal, mas
acrescentando uma aura a cada um de seus contos.
      Além de “O Inédito de Kafka” (2003), lançou mais três livros de contos,
“Pés Quentes nas Noites Frias” (1999), Dizer Adeus (2005) e “Nem Mesmo os
Passarinhos Tristes” (2010). Lançou também “O Ritual no Jardim” (romance
infanto-juvenil / 1993), e dois de poesias, “Dia Sim e Sempre” (2000) e
Recordações de Andar Exausto (2005).




                          *            *           *




      Terminada a apresentação de sua comunicação o estudante saiu do
auditório e nunca mais foi visto na universidade, nem na cidade. Na verdade,
nunca mais foi visto por ninguém.




                                                                 Costa Pinto

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A essência da visão de Mayrant Gallo

  • 1. A Essência da Visão Aquela noite tinha se tornado um tormento. A mais longa noite de sua vida. Quase não dormiu. Deitou cedo, mas só conseguiu dormir muito tarde. A ansiedade e angústia o consumiam. Dar conta de sua vida pessoal e profissional não era fácil, principalmente pela cobrança que fazia a si. Mas ele acreditava que aquele dia se tornaria especial. Acordou muito cedo, não por vontade, seu estômago fritava. Levantou de uma só vez, não fez rodeios, não fazia nunca. Lavou o rosto, se olhou no espelho, pensou em desistir, a torneira aberta. Falou “não” em voz alta, como se tentasse se convencer disso. Foi à cozinha fez café e tomou puro, tomou banho, arrumou o material que iria usar em sua apresentação, ficou aflito novamente. Percebeu que sua roupa estava machucada, pensou um pouco, mas não havia tempo para lamentações. Passou a roupa, vestiu e, já molhado de suor, saiu. Sua manhã ainda encontrou outras dificuldades. Seu transporte atrasou, esqueceu dinheiro e cartões, faltou a duas reuniões, tropeçou e quase sujou toda roupa. Mas vencidas as batalhas, era hora de findar a guerra. Chegando ao local da apresentação ficou sentado nos degraus que davam acesso ao auditório, de cabeça baixa, absorto. Por quase duas horas esteve assim, até que uma voz chamou seu nome, dilacerando seus pensamentos, trazendo ele novamente à realidade. Calmamente ele respondeu que já ia. Levantou-se, pegou seus livros e trancado em imenso silêncio entrou no auditório. * * * O homenageado da tarde entrou com um livro nas mãos e foi recebido por amigos, colegas de trabalho e os alunos do curso de Comunicação e
  • 2. Letras. Sentou em um lugar previamente reservado para ele. Fazia comentários a pé de ouvidos com os colegas professores e sorria tranquilamente. Um dos organizadores, após fazer a abertura do evento, chamou o estudante para apresentar seu trabalho. Calmamente o estudante se dirigiu à mesa. Tinha olhar firme, certo, passos firmes, calmos, trajava um blaser moderno e jeans, nas mãos um livro, uma caneta e seu trabalho. Por dentro, cacos, cacos e cacos. Estava em pedaços, mas os anos de teatro o ensinaram a fingir bem, e assim o fez. Arrumou o material que estava em suas mãos sobre a mesa, apertou as mãos, esfregou-as, enxugou o buço, pôs as mãos espalmadas sobre a mesa, olhou o público. Pensou em desistir. Lembrou que há alguns dias havia dito a uma amiga que ela jamais deveria desistir, olhou para ela que estava presente, resolveu enfrentar. Olhou novamente o público, olhou para baixo e continuou em silêncio. Seu orientador não entendeu. Eles se olharam e o aluno fez um leve sinal com a cabeça. Rompeu o silêncio dizendo: - Viver esse livro, penetrar nesse mundo, é como pegar um ônibus a esmo e sair registrando todas as experiências, nossas e alheias, é como criar um mundo completo nos recortes de vidas, é se apropriar de todas as vidas e estudá-las com métodos estritamente científicos. Não julgar, não condenar. Viver e deixar viver, entregar cada um à própria sorte. A maneira com que o autor trata suas histórias, sem a necessidade de buscar compreender o comportamento de suas personagens, sem pesar ou medir as atitudes que cada uma toma, deixando que se expressem naturalmente, sem condenação, denuncia um tom de amoralidade por parte do autor. Aliás, é freqüente esse posicionamento do escritor diante de sua criação. É notória a falta de preocupação dele com o que se considera padrão moral de nossa sociedade. Também o seu distanciamento das situações, sem adjetivá- las, possibilitando ao leitor tirar suas próprias conclusões, usando o acúmulo de suas experiências, seus traumas e dores, suas convicções e padrão moral, suas cercas e muros. Podemos observar também que essa amoralidade, esse comportamento quase indiferente, suas loucuras e devaneios, abrem espaço a uma punição
  • 3. quase inconsciente, quase despercebida, uma espécie de taxa, uma cobrança que a vida impõe a cada um de nós, o outro lado da moeda, o efeito da causa, ou as intempéries a que estão expostos todos os seres humanos. * * * Podemos citar, por exemplo, “O Amor Como Deve Ser” e “Imperativo Sábado”, onde, no primeiro, o escritor narra o relacionamento incestuoso da adolescente Cátia com seu pai, demonstrando um acordo sem palavras entre os dois. Esse romance é narrado com uma naturalidade tão intensa que mesmo o leitor de comportamento mais tradicional não se surpreende ao ler sobre o toque do pai por dentro da saia da menina, ou do prazer e amor que ela sentia por ele, os beijos no carro e os segredos dos fins de semana que o quarto guardava. Mas no final é reservado para eles, de forma subentendida, um acidente fatal. No segundo conto, o pai confessa em um bar, seu relacionamento incestuoso, dizendo para Victor que a menina que ele conhecera era sua filha e o bebê que ela carregava também. O preço para a menina grávida foi o suicídio e para seu pai foi ter que viver carregando esse demônio sobre seus ombros. Mas esse trabalho ainda é marcado por outras características além da amoralidade e indiferença. É comum, por exemplo, a presença da solidão dos dias atuais, o velho sozinho narrado em “Gravidade”, a mulher abandonada em “Pés Quentes nas Noites frias”, a mãe solteira vista em “Jornada de um Menino”, a separação vivida por Virgínia em “Vacina”, também aparece o mau- caratismo e dissimulação dos nossos dias. Ainda acho pertinente falar que, das muitas particularidades, destacam- se principalmente as histórias que surgem de cada um desses contos, pois eles nos permitem vários desfechos e interpretações. No conto “Porque não Amasse Mais Ninguém”, Mauro era sozinho e por isso passou a criar uma fêmea de canário. Certo dia os vizinhos perceberam que ele tinha desaparecido e quando a polícia arrombou sua casa não o encontrou, mas na
  • 4. gaiola onde antes havia simplesmente um canário, um casal surgiu. Em “Varrer Rua”, a história encerra no momento em que Rodrigo Paulo faz um cerco a uma linda universitária, não sendo narrado o resto do conto, e apesar das claras más intenções de Rodrigo, o desfecho fica por conta de cada um, o prazer, dor ou asco também. Já em “Mais um idiota”, Quele, um negro com roupas estranhas, surge de repente e repentinamente se vai, após uma cartomante ter dito que era para ele ir embora porque era a melhor noite para isso, e ele se foi para o nada em uma máquina “esquisita” e “desequilibrada”. Em alguns casos como “Água escoando” nos sentimos como parte da história. Todos nós temos histórias reais e fantásticas que por vezes nos questionamos se são realmente reais. Assim foi com o velho Dovico, que ninguém acreditava que ele tinha visto as lindas irmãs, Fernanda e Maria, completamente nuas passeando pela casa enquanto ele consertava o cano da pia. * * * De repente o estudante para o seu trabalho, o auditório lhe parece o olho de um furacão, e ele pensa em jogar tudo pra cima, rasgar o trabalho e o livro, chutar a mesa, mas lembra que não é um cara de se deixar ver derrotado. Respira. Percebe que seu trabalho chegou ao fim, só falta comentar um conto, o último, o que dá nome ao livro, “O Inédito de Kafka”, e recomeça: - Este conto, o último conto do livro é o mais diferente entre todos, um conto realmente Kafkiano, o mais exótico. Apesar de manter sua assinatura em cada parágrafo de seus trabalhos, com seu jeito agridoce e seus muitos apostos e ênfases nas frases, o autor parte para o lado do fantástico. Esse conto se passa em uma pequena cidade onde “dois homens podem se ver várias vezes sem necessariamente se encontrar”. Fala de um homem que é avisado por um amigo, que em um shopping da cidade existe um único volume de um livro de Kafka, inédito, em francês. Quando ele chega para comprar, o livro já estava reservado por ele mesmo. Então ele percebe que,
  • 5. mais uma vez, está sendo confundido com alguém. No caixa, na hora de pagar, a mocinha que o atendeu também conversou com ele com certa intimidade e ele não a conhecia. Depois ele foi à praia cumprir um ritual que ele mesmo considerava infantil, atirar britas, pedrinhas, ao mar, quando percebeu que outra pessoa fazia o mesmo com a mesma força e intensidade. Observou que esse cara que encontrou era outro igual, um sósia, com os mesmos costumes de colecionar discos antigos e caixas de fósforo, um homem com sua mesma altura, aparência e barba, um homem que gostava das mesmas coisas, freqüentava os mesmos lugares e falava da mesma forma que ele. Decidiu então procurá-lo, e sabendo que o outro pensava da mesma forma, pensou em um encontro e, no dia e horário pensados, lá estavam. Sem muito a dizer um ao outro, entenderam-se em poucas palavras e decidiram seguir suas vidas sem arrependimentos ou sofrimentos, viraram-se e separaram suas estradas. Como eu havia dito, é mais um conto fantástico que urbano, relatando cotidianos. Mas, como a maioria de seus trabalhos, deixa um gostinho de quero mais, um espaço para que o leitor exercite seu lado escritor, compartilhe da criação. Mais uma vez ele busca apresentar coisas do dia-a-dia com idéias que não parecem particulares, mas que são comuns a todos. * * * O livro “O Inédito de Kafka” é um romance urbano, contemporâneo, que também traz finas características regionais, pois em quase todos os seus contos retrata a cidade do Salvador com sua rotina e problemas. Pode não parecer nem um pouco aprazível, histórias do dia-a-dia como passeio à praia, visitas ao dentista, assalto, vida no trabalho etc. Mas Mayrant consegue elevar seus contos a um nível tão próprio que cada leitor consegue ver algo de sua experiência em suas personagens. Mayrant Gallo é um destaque entre os novos escritores baianos. Nasceu em Salvador no ano de 1962, é professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira, trabalha na Fundação Pedro Calmon desde 2008 e busca nesse
  • 6. livro apresentar a vida de Salvador de uma forma pouco vista, a partir do cotidiano, não permitindo que a história se torne monótona ou banal, mas acrescentando uma aura a cada um de seus contos. Além de “O Inédito de Kafka” (2003), lançou mais três livros de contos, “Pés Quentes nas Noites Frias” (1999), Dizer Adeus (2005) e “Nem Mesmo os Passarinhos Tristes” (2010). Lançou também “O Ritual no Jardim” (romance infanto-juvenil / 1993), e dois de poesias, “Dia Sim e Sempre” (2000) e Recordações de Andar Exausto (2005). * * * Terminada a apresentação de sua comunicação o estudante saiu do auditório e nunca mais foi visto na universidade, nem na cidade. Na verdade, nunca mais foi visto por ninguém. Costa Pinto