1       Quando Flávio Junqueira deixa apressadamente a livraria,carrega consigo mais um começo furtado.       O prazer de ...
Para quem passa pela calçada diante do boteco, a imagem captadade relance é desalentadora. Conforme o corpo relaxa do estr...
serviço não está pronto. Como sabe das dificuldades que o infortunadofuncionário enfrenta com o expediente essencialmente ...
Flávio guarda de volta caneta e papel e põe-se a divagar enquanto oponto não chega.       Embora seja outono passado, a no...
À margem do cotidiano, constatando a própria solidão, talvezFlávio nem sequer intua o quanto tucunaré ele próprio seja. E ...
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Água Turva - Capítulo 1

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Água Turva - Capítulo 1

  1. 1. 1 Quando Flávio Junqueira deixa apressadamente a livraria,carrega consigo mais um começo furtado. O prazer de sentir a adrenalina inundando o sistema nervoso já nãoo excita há algum tempo. A sensação é mais como a apreensão seguidade arrependimento, como ao se atravessar uma rua no farol vermelhosem confrontar as distâncias entre uma margem e outra da via, e a doveículo em movimento e a si próprio. Flávio não fuma nem bebe, massempre imaginou que o efeito do primeiro trago seja algo similar àsensação de sair de uma livraria sem ser sucedido por alguém em seuencalço. Mas se a prática reiterada e constante já não mais o abala, issonão quer dizer que não sinta o efeito físico desencadeado: a respiraçãoofegante, as unhas cravadas contra a palma da mão, o movimentodesordenado das sobrancelhas sob a armação dos óculos para miopia. Caminhando pelas ruas do Centro, aparenta uma convicção dedestino que chega a enganar a si mesmo. Em meio à multidão, é só maisum indigitado neurótico que se desloca de um ponto de partida a outrode chegada, apenas um elemento do caos de cuja imperscrutável lógicaemerge a desordem da metrópole. Assim que o ritmo dos passos diminui, a roda da cidadedesacelera. Sentindo a respiração retomar o estado de repouso, Flávio retiraum lenço de tecido do bolso, ergue os óculos e limpa o suor que começaa escorrer. Depois, dobra metodicamente o pedaço de pano e o devolveao bolso da calça. Ele para no meio da calçada e gira a cabeça buscandose situar: “1.324 passos”, diz, resfolegando. Desliga, enfim, o pilotoautomático. O antigo TissotSeastar no pulso indica que ainda restam algunsminutos para o término do horário de almoço, de forma que ele decidecomer alguma coisa no boteco da esquina. “O que vai ser, chefia?” Lápis preso na orelha, o garçom lava um copo, pano de pratoimundo pendurado no ombro. Na rua, uma fila interminável de veículosque se acumulam diante do semáforo, sons dos mais variados matizessobrepondo-se no infernal arranjo da sinfonia urbana. “Uma Coca-Cola e um misto-quente, por gentileza.” Flávio se acomoda no balcão. O garçom seca as mãos no pano sujoe se retira para o fundo do bar.
  2. 2. Para quem passa pela calçada diante do boteco, a imagem captadade relance é desalentadora. Conforme o corpo relaxa do estresse, Flávioarqueia as costas, os cotovelos apoiados na base das coxas, o olharperdido na direção do asfalto quente. As sobrancelhas grisalhas evolumosas, também arqueadas, fazem com que ele adquira contornoscurvilíneos. Ao transeunte mais incauto possivelmente sobreviria asensação de ter visto um “S” sentado ao balcão. Flávio se recompõe e espia ao redor, assegurando-se de queninguém o observa. Em seguida, enfia com cautela a mão em outrobolso, retira uma folha de papel e desfaz duas dobras. Um sorriso seinsinua no canto da boca: o branco gelo do pólen noventa gramas, aporosidade da textura, a fonte utilizada, a editoração. Cada detalhe écaptado com as pálpebras entrecerradas, gerando o desfocamento queabstrai e dá qualidade artística. Somente após o cumprimento do rito éque ele passa a ler o texto do que deveria ser um romance, não tivesse apágina sido meticulosamente amputada de seu livro. “Misto-quente e Coca-Cola.” O garçom larga o prato e a garrafano balcão. “Ketchup?” Despertado do transe, Flávio constata com certa tristeza que,apesar de frequentar o mesmo boteco há anos, não passa de um completodesconhecido aos olhos do atendente. Mas o pesar de saber-se ignoradoesvaece assim que ele retoma a degustação da página recém-subtraída,feito criança que se distrai com um brinquedo novo. O horário de almoço se esgota, Flávio guarda a folha na carteira,termina rapidamente o lanche e dispara para o trabalho. Minutos depois, ele entra na seção de processamento, situada nosegundo andar da agência do Instituto de Seguridade. E, como em todavez que se atrasa, Flávio chega de cabeça baixa, sorrateiro, buscandodiscretamente localizar o diretor da agência, Humberto Peçanha, seucarrasco particular. O diretor está sentado à mesa no fundo da seção,blazer pendurado no encosto da cadeira, à espera da oportunidade deflagrar o furtivo funcionário. “Junqueira!” Peçanha grita, mais alto que o necessário até para chamar aatenção de um surdo. Tamborila com os dedos no tampo da mesa. “Foi almoçar aonde? Em casa, porra?” “Desculpe-me, senhor Peçanha”, responde Flávio praticamenteafônico, “é que precisei fazer uma coisa urgente, um compromisso...” “Sei. E os processos de abertura, que são urgentes também, jáestão prontos?” Flávio acena com a cabeça, morde os lábios, levanta assobrancelhas como quem não encontra palavras para responder. Mas aresposta nem é necessária. Humberto Peçanha sabe muito bem que o
  3. 3. serviço não está pronto. Como sabe das dificuldades que o infortunadofuncionário enfrenta com o expediente essencialmente burocráticodaquele setor, a enfadonha rotina das requisições de aposentadorias,pensões por morte, por invalidez, auxílios-doença, auxílios-reclusão,auxílios-o-diabo-a-quatro. Movimentos idióticos, repetitivos, deelevação e compressão de carimbos, abertura e fechamento de pedidosde benefícios previdenciários deferidos, diferidos ou negados. “O que foi, Junqueira, engoliu a língua?” Peçanha fuzila Flávio com o olhar. “Bom, não quero nem saber. Quinta-feira eu quero tudo pronto naminha mesa para enviar o relatório da estatística, ok?” O diretor faz um movimento brusco com a cabeça, como quem temuma linha com um anzol presa no queixo e acaba de fisgar um peixe.Flávio interpreta o movimento, confirma que entendeu e se retira.Abandona o campo de visão do diretor, não sem antes ouvir umcomentário sarcástico a seu respeito: “Esse aí, sim, é o clássicoestereótipo do funcionário público”. 18h15min. Flávio está dentro do ônibus da linha 354-L, que faz otrajeto do Centro da cidade à Zona Oeste. Dado o seu temperamento, eleaprendeu a se desligar do trabalho pontualmente às dezoito horas,momento em que passa o cartão de identificação pelo leitor óptico eregistra sua saída. Para ele, acostumar-se a deixar os problemasprofissionais no lado de dentro da repartição fora uma questão desobrevivência, de preservação psíquica. Mas Flávio não tem exatamente consciência da própria fragilidade. Ele não é dado a grandes questionamentos. Desde cedo abraçara os dogmas religiosos, e tem no fielcumprimento deles a redenção do seu livre-arbítrio. Não desconfia, porexemplo, de que sua mente recalcitrante seja como uma ampola deremédio, cujo rompimento depende apenas de uma pressão exata sobre atampa. E que sua índole cordial e pacífica seja tão instável quanto anitroglicerina, que não explode ao menor movimento como mostramalguns filmes hollywoodianos, mas que, se submetida a impactosuficiente... Bem, Flávio está no ônibus e, embora não seja do seu feitio, ficapensando nas palavras de Peçanha. Estereótipo do funcionário público.Não é expressão típica do diretor, ele pensa, embora não se possa suporque Peçanha desconheça o sentido da afirmação. Mas, em se tratando dequem se trata, a frase soou estranha. Flávio estala a língua, pega no bolsoa página furtada e uma caneta na pasta. Anota a palavra “estereótipo” namargem da folha, sublinhando-a. Sua caligrafia, apesar de firme, écircular e larga como a de uma criança, praticamente sem inclinação.
  4. 4. Flávio guarda de volta caneta e papel e põe-se a divagar enquanto oponto não chega. Embora seja outono passado, a noite é quente e seca na cidade. Como de costume, ele chega por volta das sete e coloca um LP doJoão Gilberto para tocar. Notas dissonantes e o estalido das ranhuras dovinil embalam um banho rápido, cujos vapores escapam pelas frestas daporta e invadem o corredor, criando uma atmosfera onírica. Das paredes azuis aos móveis coloniais; do toca-discos ao tapeteque imita os persas; da Santa Ceia esculpida na madeira aos porta-retratos sobre o bufê. Tudo na casa de Flávio Junqueira é anacrônico. Aespessa camada de poeira denuncia a ausência de uma mulher. Aausência de marcas de dedo, que ali não moram crianças. Ao fundo, aolado da poltrona de veludo, um longilíneo abajur emite uma luz fracaque empalidece o cenário. Ironicamente, o alto-falante reproduz “Chegade saudade”, gravação acústica de 1958. Flávio sai do banheiro usando apenas roupão e os indefectíveisóculos de fundo de garrafa, o cabelo ralo desgrenhado. Ao se encaminharpara o quarto, detém-se diante do tucunaré empalhado que adorna ocorredor. Ainda que não seja o maior da espécie, trata-se de um peixerazoavelmente grande, de uns setenta centímetros, boca aberta, exibindoo maxilar serrilhado. O incomum atavio apresenta a postura retorcidaque certamente adotara durante a batalha travada com seu algoz, omesmo que agora resvala com os dedos a inscrição da placa do troféu:Três Marias – Rio São Francisco – 1989. Ao admirar o espécime com veneração, Flávio lembra como oinstinto de sobrevivência do animal valorizara sua conquista. Temcerteza de que não existe outro peixe de água doce que possua tamanhaforça e destreza na superfície. Afinal, pescadores de todo o continenteexcursionam aos rios da Amazônia atrás da emoção de capturá-lo, quasesempre o troféu mais cobiçado. E o peixe, bom de briga, justifica aviagem. Quando fisgado, reage com fortes e intermitentes puxões nalinha, enreda-se entre galhos e pedras embaixo dágua, debate-se para selivrar do anzol. Mesmo pescadores experientes podem perder a presanesse confronto, tendo a linha arrebentada ou irremediavelmenteemaranhada em algum enrosco. Porém, há muito mais em comum entre ele e o peixe do que Fláviopossa imaginar. Assim como ele, o tucunaré também é um animal sedentário. Nãorealiza migrações. Em represas, recolhe-se raramente nas profundezas,optando pelas águas quentes da margem, escondido sob galhos evegetação. Quando adulto, vive sozinho ou, no máximo, em pares, numaconvivência fugaz e pontual, abandonando o hábito juvenil de nadar emcardumes tão logo atinja a idade madura.
  5. 5. À margem do cotidiano, constatando a própria solidão, talvezFlávio nem sequer intua o quanto tucunaré ele próprio seja. E quem sabeseja justamente essa cruel identificação – por ele ignorada – a razão de apresa não ter sido, conforme os princípios da pesca esportiva, devolvidaao seu habitat tão logo se consumara a briga. Mas, como o tucunaré,Flávio Junqueira evita as profundezas e as águas frias do mergulho emsi, de forma que, dando dois tapinhas nas costas do bicho, retira-se parao quarto. Quando as próximas notas anunciam Desafinado, e os estalidos dovinil ameaçam sobrepor-se à música, Flávio volta à sala assobiando eapanha a pasta de lona. Com a página furtada em mãos, ele abre umagaveta do bufê repleta de centenas de outras páginas. Confere pelaúltima vez o texto e coloca a folha por cima das demais, fechando agaveta. Apaga o abajur, certifica-se de ter fechado a porta e, a caminhoda cama, para rapidamente diante do tucunaré: “Vara médio pesada,linha de vinte e cinco libras, arranque com linha grossa de zero pontosetenta”, dispara para o peixe como se este o pudesse ouvir: “Isca deflystreamer médio!” E, sorrindo, volta para o quarto.

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