III Encontro da Região Norte da Sociedade Brasileira de Sociologia
26 a 28 de setembro de 2012
UFAM, Manaus-AM
GRUPO DE TR...
Prazer sem Limites: notas preliminares sobre o único cinema “pegação” de
Belém do Pará
Francisco Moreira Ribeiro Neto1
Res...
performances são (re)(des)construídas para que os múltiplos desejos encontrem lugar de
recepção.
Como proposta, a pesquisa...
temos sido nem piores nem melhores do que outras disciplinas das ciências sociais”
(VANCE apud CUNHA & CALAF, p. 29).
Dess...
Imagem 1: Localização do Cine Ópera.
Fonte: Google Maps.
O CAN, como também é conhecido o Centro Arquitetônico de Nazaré, ...
comércio formal e do outro lado (esquerdo de quem entra), está situado um comércio
informal, com vendedores de lanches bas...
Dentre esse público estão homens (homens mais jovens e mais velhos), mulheres (em
geral mais velhas), travestis (prostitut...
Foto 1: Este é um exemplo de pôster “censurado” na entrada do cinema.
Fonte: Pesquisa de campo, maio de 2012.
Foto 2: Lado...
Nesse sentido, não estariam sendo camuflados, não só no Ópera mas em qualquer
“cinema de pegação”, o homoerotismo presente...
Pesquisador: Por quê? Pergunto.
Entrevistado: Sei lá, pelo teu jeito, tu tem um jeito diferente.
Pesquisador: Acho que ess...
A partir desse momento a conversa meio que desanda. Pois, ele fica receoso por
estar conversando com um “pesquisador” de v...
homens, uma travesti e um rapaz magrinho bem afeminado. Pergunto a ela se muitos
casais frequentavam o cinema, ela me resp...
REIS, Ramon Pereira dos. Encontros e Desencontros: Uma etnografia das relações entre
homens homossexuais em espaços de soc...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Cine ópera:prazer sem limites: notas preliminares sobre um cinema pornô de Belém do Pará

965 visualizações

Publicada em

Este trabalho é resultado preliminar de uma pesquisa etnográfica sobre os tipos de sociabilidade e trocas erótico-sexuais masculinas no único "cinema de pegação" de Belém-PA, o Cine Ópera. Proponho, a partir da observação direta e participante no cinema e de entrevistas, neste momento informais, analisar aspectos relacionados à pegação entre seus agentes, seus “desejos” e “tesões”, sob o signo das construções de gênero, sexualidade e corporalidade, que neste espaço tornam-se chaves para se compreender os (des) prazeres e as (in) satisfações sexuais. A partir da reconstrução de suas trajetórias de vida, buscarei compreender as motivações e representações sobre as práticas dissidentes relacionadas à sexualidade, ao prazer com pessoas do mesmo sexo, às masturbações e à felação em/com pessoas e corpos desconhecidos no escurinho de um cinema onde o prazer é sem limites.

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
965
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
3
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Cine ópera:prazer sem limites: notas preliminares sobre um cinema pornô de Belém do Pará

  1. 1. III Encontro da Região Norte da Sociedade Brasileira de Sociologia 26 a 28 de setembro de 2012 UFAM, Manaus-AM GRUPO DE TRABALHO GT 05 - Cidade, Gênero e Sexualidade: sociabilidades e práticas dissidentes na metrópole coordenadores: Milton Ribeiro da Silva Filho (UFPA) e Ramon Pereira dos Reis (USP) Prazer sem Limites: notas preliminares sobre o único “cinema de pegação” de Belém do Pará Francisco Moreira Ribeiro Neto | UFPA | netodellmar@hotmail.com
  2. 2. Prazer sem Limites: notas preliminares sobre o único cinema “pegação” de Belém do Pará Francisco Moreira Ribeiro Neto1 Resumo: Este trabalho é resultado preliminar de uma pesquisa etnográfica sobre os tipos de sociabilidade e trocas erótico-sexuais masculinas no único "cinema de pegação" de Belém- PA, o Cine Ópera. Proponho, a partir da observação direta e participante no cinema e de entrevistas, neste momento informais, analisar aspectos relacionados à pegação entre seus agentes, seus “desejos” e “tesões”, sob o signo das construções de gênero, sexualidade e corporalidade, que neste espaço tornam-se chaves para se compreender os (des) prazeres e as (in) satisfações sexuais. A partir da reconstrução de suas trajetórias de vida, buscarei compreender as motivações e representações sobre as práticas dissidentes relacionadas à sexualidade, ao prazer com pessoas do mesmo sexo, às masturbações e à felação em/com pessoas e corpos desconhecidos no escurinho de um cinema onde o prazer é sem limites. Palavras Chave: “Cinema de pegação”, Sexualidade, Sociabilidade. Considerações iniciais Este texto é resultado preliminar de uma pesquisa etnográfica sobre os tipos de sociabilidade e trocas erótico-sexuais masculinas no único "cinema de pegação" de Belém- PA, o Cine Ópera. Proponho, a partir da observação participante no cinema e de entrevistas e de conversas informais (fase em que estou neste momento), analisar aspectos relacionados ao “consumo pornográfico” entre sujeitos, as construções de desejos e as tesões numa perspectiva dos estudos de/sobre gênero, sexo, sexualidade, masculinidade e corporalidade, que neste espaço tornam-se chaves para se compreender os (des)prazeres e as (in)satisfações sexuais dos interlocutores num lugar permeado por intensas trocas sexuais. A partir da reconstrução de suas trajetórias de vida (que neste texto não parece, mas já proponho como ponto-chave na construção de trajetórias afetivo-sexuais de meus interlocutores), objetivo compreender as motivações e representações sobre as práticas dissidentes relacionadas às suas sexualidades e aos seus prazeres com pessoas do mesmo sexo, as masturbações e a felação em pessoas, corpos e membros “desconhecidos” num espaço “moldado” por masculinidades “viris”, por contatos corpóreos e sinalizações pouco compreensíveis na escuridão do cinema; onde vultos transfiguram-se em corpos e 1 Graduando do 5º semestre de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará. E-mail: netodellmar@hotmail.com
  3. 3. performances são (re)(des)construídas para que os múltiplos desejos encontrem lugar de recepção. Como proposta, a pesquisa tem por objetivo resultar num Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), ao final de 2014, dentro do campo das Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará (UFPA). Essa pesquisa objetiva também analisar este único cinemão como articulador de sexualidades periféricas e sociabilidades “distintas” das chamadas sexualidades “heteronormativas”. Estas são compreendidas por Guacira Louro (2010) como o centro sólido de uma identidade permanente e confiável, enquanto todas as outras sexualidades, mulher, gays e negros, tornam-se o excêntrico, que possui outro centro e que neste sentido suas sexualidades, quando não tem o objetivo de procriação, são consideradas “periféricas”. Pesquisar o Cine Ópera então me pareceu interessante por este ser o único cinema pornô de Belém e também por envolver a temática sugerida: estudos sobre masculinidades. No entanto, reitero que as análises aqui suscitadas e posteriormente serão apenas recortes de realidades mais complexas, tratadas de analítico e metodologicmente. Há também um crescente interesse em pesquisas sobre masculinidades e consumo pornográfico no Brasil e o recorte local/regional mostra-se totalmente válido porque assuntos ligados à interação entre homens e suas masculinidades tem ganhado mais espaço e visibilidade, vide os estudos sobre sociabilidades entre gays2 , do qual existem muitas produções. Nesse sentido, trabalhar como pesquisador no Cine Ópera e com temas relacionados ao sexo, sexualidades dissidentes e “consumo pornográfico” é visto por muitos que estão fora destes debates como parte de uma “antropologia marginal”. Desses triviais questionamentos reside a noção de que tais pesquisas sobre gênero e sexualidade poucas questões trariam, aos seus olhos, de “positivo” a Ciência como um todo e às Ciências Sociais em particular, apesar, contraditoriamente, de ela ser considerada a ciência por excelência de temas diversos e incomuns: (...) A disciplina (antropologia) freqüentemente parece compartilhar da visão culturalmente prevalecente de que a sexualidade não é uma área de estudo inteiramente legítima, e de que tal estudo necessariamente lança dúvidas não apenas sobre a pesquisa, mas sobre os motivos e o caráter do pesquisador. Nisso, nós não 2 Consultar os trabalhos recentemente apresentados: SILVA FILHO, 2012 e REIS, 2012; ambos versam sobre aspectos da sociabilidade LGBT na cidade de Belém-Pa.
  4. 4. temos sido nem piores nem melhores do que outras disciplinas das ciências sociais” (VANCE apud CUNHA & CALAF, p. 29). Desse modo, pensar o Cine Ópera como espaço de pesquisa e sociabilidade GLS, como algo mais abrangente e para além das suas “dissidências”, como valores em relação às próprias masculinidades ou o que vem a ser masculino entre “homens que fazem sexo com homens”, como propõe Camilo Braz (2007). Ele sinaliza que alguns homens com contatos homoeróticos podem ser pensados não só como “gays” ou “homossexuais”, mas machos em busca de machos para obterem intercursos sexuais. Cine Ópera: contexto externo e localização As grandes capitais brasileiras oferecem espaços destinados a encontros homossexuais masculinos, muitos deles velados alguns nem tanto, como o Cine Ópera. Dentro do que considerou como circuito GLS3 de Belém, Silva Filho (2012) apresenta alguns locais de sociabilidade homoerótica na cidade e contabilizou na sua pesquisa: seis boates (Malícia, Lux, Hache, Rainbow, Vênus e R4 Point), dois bares (Bar da Ângela e Veneza), quatro saunas (Calypso, Paradise, Reduto e Thermas 21) e um cinema (Cine Ópera). Além dos locais de “pegação” e sociabilidade acima, pode-se encontrar também: o Sex Shop “Comprinhas Quentes” com cabines individuais de projeção e locação de vídeos pornôs, localizado no Telégrafo; os banheiros dos shopping centers e das grandes lojas de departamentos, localizadas nos mais diferentes bairros da cidade; a Doca; e a não menos observável Praça da República, tradicional ponto de sociabilidade homoerótica, prostituição e michetagem, localizada no centro da cidade (SILVA FILHO, 2012, p. 53). Partindo desse “cenário GLS” da capital paraense, o bairro de Nazaré se apresenta como um espaço dúbio quando pensamos na localização do único cinema pornô da cidade, pois está situado bem em frente ao “símbolo máximo” do catolicismo paraense (A Basílica de Nossa Senhora de Nazaré), conforme imagem abaixo. 3 De Gays, Lésbicas e Simpatizantes.
  5. 5. Imagem 1: Localização do Cine Ópera. Fonte: Google Maps. O CAN, como também é conhecido o Centro Arquitetônico de Nazaré, é uma praça em frente à Basílica de Nazaré, onde acontecem, todos os anos, os festejos em comemoração ao Círio de Nossa Senhora de Nazaré, no mês de outubro. Montam-se aí, o Arraial de Nazaré com parque de diversões e as barracas em estilo junino que movimentam ainda mais este quarteirão e os adjacentes. Este bairro, a partir da história da cidade, é constituído por uma antiguidade e por ser referência como um dos mais antigos da capital, como por exemplo, com as principais empresas de transporte público mantendo linhas que atravessam a extensa avenida. Também é constituído por uma classe média alta, possuindo um dos mais caros metros quadrados da cidade. Além disso, a maioria de suas ruas são ladeadas por mangueiras centenárias, formando um túnel verde quase homogêneo em contraste com as cores das casas e o cinza dos prédios, permitindo aos seus transeuntes uma proteção do sol e do calor; como também, das rápidas chuvas que desabam durante as tardes. O quarteirão do Ópera, na Avenida Nazaré, é bastante movimentado durante a manhã e a tarde, diminuindo um pouco seu movimento durante a noite, já que possui no seu perímetro algumas escolas e todo um comércio “esparso”, com bancos, lanchonetes, restaurantes, farmácias, butiques e vendas de rua, do tipo pipoca, churros, tacacá, maniçoba. Na própria calçada do cinema há essa dualidade comercial, pois no lado direito (de quem entra) está situada uma das Lojas Americanas da cidade configurando-se como parte do
  6. 6. comércio formal e do outro lado (esquerdo de quem entra), está situado um comércio informal, com vendedores de lanches baseados nas comidas regionais. Cinema de “pegação”: o espaço, o lugar, o lócus da pesquisa O Cine Ópera foi inaugurado em 1961 e data da década de 1980 a publicização como um lugar de frequente contato homoerótico, onde fica patente o clima das coisas que ali acontecem. Por ser um dos cinemas mais antigos de Belém e o único a exibir filmes pornôs na capital paraense foi aos poucos sendo relegado a um lugar de marginalidade, não somente por práticas não convencionais que aconteciam em seu interior, mas por não se enquadrar nos ideais de modernidade exigidos pelo mercado. Sua arquitetura deixa um pouco claro sua idade, um lugar que parou no tempo, materialmente falando, mas que ao longo da sua existência renova várias “gerações” de masculinidades, “sexualidades plásticas”4 e dissidentes, que contam sua história pela própria consumação pornográfica e sexual para o qual foi construído. Definir esse espaço de “pegação” homoerótica como é o caso do Cine Ópera, supõe primeiramente levar em consideração a multiplicidade de sentidos que seus diversos consumidores (homens, mulheres, casais, travestis, heterossexuais e homossexuais) lhes dão ou particularizam, olhar como um espaço de extravasamento de sentimentos e motivações diversas, pois são eles que o constituem enquanto espaço dotado de sentido, onde os sujeitos são significados em relação contínua com este cenário. Desse modo, o espaço simbólico deste cinema, multiplicado sensorialmente pelos “cheiros”, “olhares” e “toques” entre corpos no escurinho do cinema, valoriza este espaço enquanto possuidor de regras e códigos próprios, construtor de masculinidades alternativas e de exercício de desejos não heteronormativos. Nesse cenário, articulam-se como sexualidades desejadas e desejantes, pessoas construídas como “passivo” ou “ativo”, de acordo com Peter Fry (1982). Porém, estas não podem ser pensadas como fixas, mas que perdem sentido num ambiente de intensas trocas sexuais para fluidamente comungar os vários sujeitos à procura de sexo: o que antes era “passivo” pode se tornar “ativo”. 4 Antony Giddens (1993) situa a sexualidade plástica como aquela que está liberta da obrigatoriedade biológica de gerar filhos e que desobriga os seus agentes a buscarem prazer somente através do vinculo matrimonial, isto é, que pode ser vivenciada fora dos parâmetros do casamento heteronormativo, valorizando com isso uma sexualidade descentralizada.
  7. 7. Dentre esse público estão homens (homens mais jovens e mais velhos), mulheres (em geral mais velhas), travestis (prostitutas ou não), negros, brancos, homens de camadas médias e populares, michês (em geral masculinizados e jovens), todos eles fazendo parte desse cinema como o lugar por excelência de “sexualidades periféricas”, para quem os observa de fora, e que encontram um território sem limites para extravasarem seus prazeres com aqueles que assistem, desejam, observam, interagem e/ou se deixam entrelaçarem corporalmente por “desconhecidos”; que compartilham as mesmas vontades de experimentação e/ou exercício e/ou contato homossexual. Assim, na descrição que faço do local, é possível avistar já na entrada do Cine Ópera, que está localizado numa pequena galeria como foi exposto, uma porta do lado direito (de quem entra), logo depois da lanchonete. Essa porta serve como a bilheteria do cinema, contém uma minijanela em arco, da qual é quase impossível ver o bilheteiro. A entrada é facilitada pelo baixo valor do ingresso que custa em média r$ 6,00 (a meia-entrada) e r$ 12,00 (a inteira). Entre r$ 12,00 e r$ 24,00 é o preço do camarote (que na verdade são cabines individuais para duas ou mais pessoas, mas que aparecem assim vendidos). Uma das peculiaridades é a entrada, que tem sempre algum pôster de um dos filmes que estão sendo exibidos lá dentro, sempre expondo as mulheres nuas mas com a área genital “censurada” por um papel/adesivo branco colado, como na Foto 1. Na antessala, no térreo, onde se entrega o ingresso ao segundo bilheteiro que autoriza a entrada por uma roleta, para se ter acesso a sala de projeção principal, há dentro desta uma pequena venda de bebidas, refrigerantes, balas; atrás há uma escada, que dá acesso à sala de projeção superior. Nesta antessala, há um sofá vermelho e uma televisão, que servem aos frequentadores e/ou trabalhadores do cinema ou ainda servem como entretenimento ou “descanso” ou lugar de conversa entre as travestis, mulheres e homens que circulam naquele local, como mostra a Foto 2.
  8. 8. Foto 1: Este é um exemplo de pôster “censurado” na entrada do cinema. Fonte: Pesquisa de campo, maio de 2012. Foto 2: Lado esquerdo da sala principal do Ópera. Fonte: Pesquisa de campo, maio de 2012. Curiosamente, esta antessala contém vários pôsteres de alguns filmes que já foram exibidos ou serão exibidos nas sessões futuras, no entanto, nenhum deles possui a temática homoerótica. Um dos questionamentos possíveis seria o de que isso seria mais um movimento para assegurar a imagem do cinema como “lugar de heterossexuais” para o resto da sociedade.
  9. 9. Nesse sentido, não estariam sendo camuflados, não só no Ópera mas em qualquer “cinema de pegação”, o homoerotismo presente no público e não questionado pela população em geral, que desconhece o que ocorre lá dentro? Ou não? Isto é, para aqueles que não frequentam conservar este cinema (ou qualquer outro) como espaço de “pegação gay” é criar uma zona moral impermeável pelo heterosexual? Como afirmou um dos bilheteiros do cinema, quando indagado por mim se passava algum filme gay? “Não”, disse ele categoricamente. Disse também que “não passavam esses filmes porque o pessoal reclamava muito”, dizendo que os clientes preferem filmes com intercurso sexual heterossexual. O cinema talvez sirva para extravasar tensões cotidianas e tesões sexuais, pois como afirma Vale (2000) as motivações dos frequentadores são múltiplas, uma vez que vão para lá, em busca de lazer, trabalho ou por desemprego, solidão ou em busca de uma solidariedade não mais encontrada na nossa sociedade. Talvez seja por isso que nem todos se deixem chupar por outros homens, ficando só assistindo e consumindo a pornografia em tela? Na próxima sessão, descrevo uma conversa com um dos frequentadores do “cinemão”, que primeiramente estava me observando e dando indicações que estaria disponível e interessado. A conversa que se seguirá é a transcrição de um relato informal. Iniciando uma aproximação: relatos de um interlocutor Benedito5 é negro6 , de mais ou menos 1,75m, tem aproximadamente 30 anos, estava de camisa branca, calça jeans preta e portava uma mochila. Possui, segundo ele, graduação em pedagogia e uma especialização e pretende futuramente fazer um mestrado, porém, fora do Pará. Nossa aproximação se deveu à “disponibilidade” de ambas as partes. Depois de certo contato visual, resolvi que iria estabelecer um diálogo com ele, tendo em vista a percepção dele sobre aquele lugar, aquele ambiente. Assim, transcrevo parte da interação: Pesquisador: Oi, Neto, prazer! Entrevistado: Igualmente firme: Oi, sou Benedito! Pesquisador: Vens muito aqui? Entrevistado: Não, mais ou menos. Uma vez a cada quinze dias ou uma vez por mês. Não venho muito! Entrevistado: Tu é daqui de Belém mesmo? Pesquisador: Não, sou de Abaeté! (Abaetetuba). E tu? Entrevistado: É, parece mesmo! (de Abaeté). 5 O nome do entrevistado é fictício para salvaguardar sua identidade. 6 Minha percepção sobre sua classificação racial.
  10. 10. Pesquisador: Por quê? Pergunto. Entrevistado: Sei lá, pelo teu jeito, tu tem um jeito diferente. Pesquisador: Acho que esse “diferente” foi pelo aperto de mão firme num lugar onde conhecer profundamente seu parceiro ocasional ou do momento parece não fazer parte do jogo de interações desse lugar. Entrevistado: Sou de Marituba! (cidade próxima de Belém, aproximadamente 02:00 horas de viagem em trânsito bom). Conhece? Diz ele. Pesquisador: Não, mas tenho uma colega que mora lá. É mesmo, ele retruca. Colega de que? Eu faço Ciências Sociais. E ela estuda comigo. Estou aqui fazendo pesquisa (Ele neste momento não se importa ou estranha eu estar fazendo pesquisa). Pesquisador: Vens acompanhado ou sozinho pra cá? Entrevistado: Sozinho, sempre sozinho! Pesquisador: Por quê? Por que tu não vens com os teus amigos ou alguém conhecido? Entrevistado: Não, não gosto. Sempre venho sozinho. Se eu tivesse um namorado eu traria ele pra cá, se ele quisesse. Mas como eu não tenho venho sozinho. (Neste momento ele avança o corpo sobre o meu, rindo, acariciando meu braço e me cheirando às mãos, o braço e meu ombro, especificamente, ele arrasta o nariz sobre a minha camisa, sussurrando: “tu é cheiroso”). Pesquisador: Nota-se que ele não estava se masturbando sozinho e nem com outros homens como estava a maioria. Por isso, lhe pergunto se ele não ficava que nem os outros, acenando com a cabeça para um “casal” que estavam se chupando perto da gente. Entrevistado: Ah, depende do dia e do cara. Ainda agora eu fui convidado por dois rapazes pra ir pra cabine, eram até bonitinhos, só que eu fiquei com medo! Pesquisador: Medo, pergunto! (reforçando o tom para ouvir claramente) medo de quê? Entrevistado: Ah, sei lá, de eles me fazerem mal lá dentro. Eram dois e eu sou só um. Imagina só! Eles demoraram muito lá dentro; um deles ainda agora passou por aqui, um fortinho de camiseta preta. Pesquisador: Retomo a questão do porque vir ao Ópera. Se tu tivesse namorado tu traria ele pra cá? Entrevistado: Não, tu acha que eu viria pra cá depois de ter namorado. Se eu tivesse namorado eu ia preferir ir pro motel com ele, né. Lá tem tudo, é tudo de bom. Melhor do que vim pra cá. Pesquisador: Mas tu não gosta que fiquem te olhando como eles gostam? Apontando para os homens nas poltronas. Entrevistado: Não, deixa disso! Pesquisador: Então por que tu vens pra cá? Entrevistado: Ah, a gente vem pra cá quando não tem ninguém pra curtir, né. Pesquisador: Como é lá dentro, no camarote? (Os camarotes são as cabines) Entrevistado: Tu ainda não entrou lá dentro? Pesquisador: Respondo que ainda não, mas que estou me preparando e por isso estou perguntando a ele como é lá dentro? Entrevistado: Lá dentro tem um sofá, uma televisão e uma lâmpada que tu pode apagar sem problema. Pergunto se só tem um sofá? Ele diz que sim. Pesquisador: Mas como assim, todo mundo fica junto se chupando e fazendo sexo? Entrevistado: Não, tá doido, cada um fica na sua cabine. Tem divisórias, ninguém te vê lá dentro. Em seguida ele pergunta: “Iai”, já ficou com alguém hoje? Pesquisador: Respondo que não, que estou trabalhando. E tu? Pergunto. Entrevistado: Também não! Trabalhando? Indaga ele. Pesquisador: Sim, estou fazendo uma pesquisa sobre o Cine Ópera. Entrevistado: É verdade?! Então vamos fazer campo? (isto é, fazer o que os outros estavam fazendo, se masturbamdo, se chupando ou transando nas cabines). Pesquisador: Não, não posso, estou fazendo campo! (Neste momento, ele agarra meu braço novamente e me puxa em direção às poltronas, meio rindo, meio nervoso e meio desacreditado do que acabara de ouvir. Nesse vai e vem me repuxo para o lugar que estávamos quase me chocando com outro homem).
  11. 11. A partir desse momento a conversa meio que desanda. Pois, ele fica receoso por estar conversando com um “pesquisador” de verdade e fazendo parte de uma pesquisa, onde talvez pudesse ser reconhecido por alguém, quando ele diz: Entrevistado: É verdade mesmo, tu tá fazendo pesquisa? Pesquisador: Sim, estou! Tem algum problema nisso? Entrevistado: Sei lá, eu não imaginava que tu fosse pesquisador. Perguntei por que ele achava isso? Ah, sei lá, pelo teu jeito! (neste momento ele faz menção de ir tocar o meu rosto, acho que o meu “jeito” estaria mais ligado a eu parecer jovem e talvez ele ter um estereotipo de pesquisador como sendo mais velho, como muitos o tem. Essa é ou será uma das dificuldades que talvez eu encontre com frequência entre os consumidores de prazer do Cine Ópera, uma vez que falar de desejos e sexo não é fácil para quem o exerce, tão pouco, para quem o estuda. Considerações finais O trânsito entre os banheiros, o mezanino e a sala do térreo é constante, quase sempre sendo possível observas bundas nuas, paus em riste e mamadas vorazes entre os frequentadores. No banheiro de cima, que integra o mezanino, a porta cedeu lugar a apenas um tecido, que a cobre até a metade, sendo que do torso para baixo as pessoas ficam visíveis a quem estiver na pequena sala. É comum vermos mais de duas pessoas nos banheiros, quase sempre se tocando ou masturbando-se ou transando. Os convites e contatos para esses tipos de interação não são homogêneos ou disseminados, tendo cada um sua forma de abordagem. Signos comuns ainda não encontraram espaço neste ambiente, onde além do público ser volátil e “imprevisível” eles não se conformam enquanto unidade e/ou comunidade e/ou grupo. Entre os frequentadores assíduos do cinema é quase sempre possível encontrar um novato, que estará ali de passagem, e que poderá não estar interessado num intercurso sexual com alguém do mesmo sexo. Há pouca circulação de mulheres no local. Quando vão, nunca estão sozinhas. A não ser que freqüentem o local a mais tempo, que já sejam parte daquele cenário, como a interlocutora do trecho abaixo. No entanto, há freqüência de travestis e transexuais. Elas, quase sempre, estão observando e selecionando um possível parceiro. Ou estão a espreita de uma/um novata/o que invadiu-lhes o território. No trecho abaixo, uma rápida configuração do cinema é desnudada: Na ida, observo uma mulher me olhando de ponta de olho como se me reconhecesse claramente, mas se ressentia em se pronunciar e eu não corresponder. Apresento-me a ela e apertamos as mãos, ela chame-se Flor (nome fictício). Pergunto de cara se ela frequentava há muito tempo o cinema, no que ela me responde que há pelo menos uns dez anos. Ela tinha entre trinta e quarenta anos, estatura baixa, branca e loira. Anteriormente, dentro do cinema, quando desci para a sala maior, ela havia me acariciado o braço e se oferecido para me fazer um sexo oral, no que eu muito educadamente respondi que “hoje não, quem sabe outro dia?!”. Ela respondendo: “Tá legal”. Duvidei, nesta ocasião, se ela era mulher, pois só havia ela, muitos
  12. 12. homens, uma travesti e um rapaz magrinho bem afeminado. Pergunto a ela se muitos casais frequentavam o cinema, ela me responde que “muitos poucos, assim como poucas mulheres”. Afirmando, em tom meio jocoso, que “dava muita bicha” e que se eu não quisesse ser “chupado” por “eles” que viesse às terças, quando ela também vem. Despeço-me e sigo para parada de ônibus (Trecho do Diário de Campo, novembro de 2011). Existem também aqueles homens que só querem se masturbar. Sendo estes menos sujeitos ao sexo. E que vão ao cinema por ser um local em que tal prática é vista como corriqueira. A diferença entre este e um que quer ser mamado só é entendida na aproximação. Pois em nada se diferenciam, seja na performance, seja esteticamente. E será na hora da abordagem que as respostas surgirão. Referências BRAZ, Camilo. O dito pelo não dito. In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 24, n. 70, 2009. ______. Macho versus Macho. In: Cadernos Pagu, (28). 2007. CUNHA, Ana Lúcia Santos da. & CALAF, Priscila Pinto. “Todo mundo tem um pouquinho de voyer”: Reflexões sobre o campo em um cinema pornô. Disponível em <http://www.teoriaepesquisa.ufscar.br/index.php/tp/article/viewFile/206/164>. Acesso em: 27/08/2012. FRY, Peter. Da Hierarquia à igualdade In Para inglês ver. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982. GIDDENS, Antony. A transformação da intimidade: sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São Paulo: Unesp, 1993. LACOMBE, Andrea. “tu é ruim de transa” ou como etnografar contextos de sedução lésbica em duas boates LGBT do subúrbio do Rio de Janeiro In: DÍAZ-BENÍTEZ, María Elvira & FÍGARI, Carlos Eduardo. Prazeres Dissidentes Eduardo. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. LOURO, Guacira Lopes. Corpo, gênero e sexualidade: um debate contemporâneo na educação. 5° ed. Petrópolis-RJ, Vozes, 2010. NUNES, Cládio Ricardo Freita. No escurinho de desejo: as heterossexualidades ao alcance dos olhos (e das mãos). In: Anais eletrônicos do Fazendo Gênero 8: Corpo, Violência e Poder, Florianópolis, 2008. PENA, João Soares & BOUÇAS, Rose Leila de Jesus. Cinemas de Rua: um panorama sobre os cinemas pornôs do centro histórico de Salvador. In: Anais do IX Seminário de Pós-graduação em Geografia da UNESP, “Teorias e Metodologias da Geografia: Tendências e Perspectivas”. Rio Claro, 2009.
  13. 13. REIS, Ramon Pereira dos. Encontros e Desencontros: Uma etnografia das relações entre homens homossexuais em espaços de sociabilidade homossexual de Belém, Pará. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais, área de concentração em Antropologia) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais/UFPA. Belém, 2012. SILVA FILHO, Mílton Ribeiro da. Na rua, na praça, na boate: uma etnografia da sociabilidade LGBT no circuito GLS de Belém-PA. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais, área de concentração em Antropologia) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais/UFPA. Belém, 2012. VALE, Alexandre Fleming Câmara. O Cine Jangada como local de investigação In: No escurinho do Cinema: cenas de um público implícito. São Paulo, Annablume, 2000. VANCE, Carole. A antropologia redescobre a sexualidade: um comentário teórico. In: PHYSIS: Revista de Saúde Pública. Rio de Janeiro. UERJ, v. 5, nº 1, 1995, p. 7-31.

×