Agrupamento de Escolas de Samora Correia        EB 2, 3 Prof. João Fernandes Pratas  Dia 21 de maio de 2012, o escritor   ...
5 minutos de estória é o seu último livro.     Estes dois livros do escritor estarão à venda naBiblioteca até ao dia 21 de...
Do livro 5 minutos de estória                           (textos cedidos pelo autor)A minhoca preguiçosa       “Meninas! De...
O para-raios        Lá estavam, um no cimo da torre da igreja e, ainda mais alto, outro no cimo da chaminé dafábrica. Eram...
A Tesoura        Recortava, recortava, umas vezes a direito, outras vezes a desenhar largos círculos ou ovais.Dependia mui...
O botão        Desde que saíra da fábrica, permanecera, ali, alinhado com os outros, à espera de cumprir oseu destino. Era...
Meu amor disse que sim       Eu não sei, nem isso me interessa muito, se o que fazemos e sentimos o começamos a fazere a s...
Do livro Estórias para um neto (Textos cedidos pelo autor)      As galinhas poedeiras           Quando eu era uma criança ...
O pinheiro voador     Da lareira vinha um calor bom, e um cheirinho doce nascia do crepitar da madeira, a arder commansidã...
O caramelo azarado     Era uma vez um caramelo, doce como o mel mais doce. Sofria de um azar muito azarento:não havia meio...
Um coelho atencioso     Uma vez, fui apanhar flores silvestres para levar para a escola. Os campos à volta da aldeiaonde e...
A sombra assustada        Como tu sabes, o Sol lança os seus raios de luz sobre os objetos e destes se forma a   respetiva...
Do livro Estórias de um avô (Textos cedidos pelo autor)  O meu sorriso  Há coisas que sabemos apenas porque no-las dissera...
O cd-rom que só rodava às vezes   Um dia, um amigo meu, cantor e „dizedor‟ de poesia (palavra inventada por quem acha que ...
O coração dorminhoco  Noutros tempos, quando os animais falavam e serviam de exemplo para os homens, havia apossibilidade ...
A bomba da gasolina  Era novinha em folha. E grande. Era alta, mais alta do que é costume. Estava toda pintada deazul clar...
O piolho   – Mas qual é a utilidade do piolho? – Perguntava um homenzinho muito estranho que vivia nomeu bairro e que tinh...
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Xico Braga

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Xico Braga

  1. 1. Agrupamento de Escolas de Samora Correia EB 2, 3 Prof. João Fernandes Pratas Dia 21 de maio de 2012, o escritor Xico Braga estará na nossa Biblioteca Escolar!“Nasceu em 1950.É professor na Escola Secundária Moinho de Maré. Mora noConcelho do Seixal. Escreveu uns pequeninos livros de poesia. Éavô desde Outubro de 2005 e está a gostar muito.”É o que se pode ler na capa do seu livro Estórias de um avô.
  2. 2. 5 minutos de estória é o seu último livro. Estes dois livros do escritor estarão à venda naBiblioteca até ao dia 21 de maio. Haverá uma sessão deautógrafo no final da atividade, destinada aos alunos do2º ciclo. Reserva ou compra já o teu exemplar!
  3. 3. Do livro 5 minutos de estória (textos cedidos pelo autor)A minhoca preguiçosa “Meninas! Depressa e bem… ninguém” respondia ela, altiva, quando as outras arepreendiam da morosidade com que cavava os seus túneis na terra tão fresquinha, onde moravam. Era, pois era – todas as outras o diziam –, uma minhoca amiga do seu amigo, simpática, comsentido de humor, boa contadora de estórias quando se juntavam a conversar depois das tarefas dodia. Mas, c‟os diachos! tão preguiçosa que fazia impressão. Pareciam metros, os centímetros que elatinha de escavar; perdia-se a meio do impulso e ficava parada, tempos infindos até, por fim, o corpose estender, perfurando, por ação da própria inércia do seu impulso inicial, a maciez daquela terrabem drenada. Depois, ali ficava à espera da vontade de criar um novo impulso. Todos os três dias, as minhocas tinham de subir à superfície, para, daí, arrancarem para novaetapa de perfuração da terra. Ela lá vinha, um pouco mais ligeira usando um furo já cavado e,depois de três ou quatro suspiros profundos a provocar o sorriso gozão das companheiras, látomava o difícil balanço para romper a terra. Naquele dia… O calor que as recebeu quando vieram à luz do dia apressou-as. Deram graças por teremsubido depois de uma rega recente, a facilitar-lhes a tarefa. A mais velha, líder dos trabalhos, pensoude imediato na nossa minhoca e gritou-lhe: – Despacha-te! O Sol vai abrasar. Ela suspirava, a ganhar alento. Por fim, já todas as outras tinham mergulhado, respiroufundo e enfiou-se pelo meio de dois bracinhos duma raiz de erva juvenil. Meio corpo já penetrou a terra, o outro meio está estendido no solo em desafio a pássarocaçador; ao fim de um tempo longo, um bom pedaço do seu corpo, em bamboleios lentos, lá se vaiafundando; de fora, ainda fica um centímetro esquecido da cauda, que começa a ser coberto pelaluz viva do Sol. Impiedosa, furando entra as folhas do arbusto, a luz aquece a cauda da minhoca,perdida na indecisão de continuar a escavar a terra. Quando a dor da queimadura a faz gritar, e sóentão mergulhar a cauda, já não pode evitar as risadas das amigas que, alarmadas, vieram junto a ela,solidárias e, agora, percebendo o que acontecera, miram, jocosas, o resultado ardente da preguiça.Pela primeira vez, sentiu-se envergonhada. Durante dois dias, foi dispensada das tarefas de perfuração para sarar a ferida e esquecer asdores. Quando a líder a veio visitar, para saber se já estava melhor, e a olhou com aquele seu armuito sério, a impor respeito, mas a abraçá-la de bondade, ela sentiu um formigueiro pelo corpotodo e disse, num tom sincero e envergonhado: – Eu aprendi a lição. Eu vou mudar, prometo. Na verdade, ela continua vagarosa a perfurar a terra, mas… agora, quando vêm à superfície,é a primeira a mergulhar.
  4. 4. O para-raios Lá estavam, um no cimo da torre da igreja e, ainda mais alto, outro no cimo da chaminé dafábrica. Eram os para-raios que havia na terra onde eu morava. Eram a coisa mais alta, no cimo dasconstruções mais altas que lá havia. De quando em vez, deitados no chão, debaixo duma oliveiragrande, a descansarmos das brincadeiras, era neles que os nossos olhos descansavam a alargarhorizontes de fascínio, antes de os comentários surgirem a expressar os nossos desejos das alturas.Sim, pelo menos uma meia dúzia entre nós queria ser aviador. Eu morava perto da fábrica e sabia que, em caso de tempestade, o para-raios protegia-me. Sónão sabia exatamente de quê. Até que... A eletricidade fora-se. A minha mãe acendera o candeeiro a petróleo e ia alinhavando asbainhas das calças que estava a fazer. Nós, eu e as minhas irmãs, fingíamos que não tínhamos medo.E era preciso muito fingimento pois o temporal era medonho. Ouvia-se a chuva forte a bater sobreo telhado e o vento silvava com requintes de malvadez. O primeiro raio brilhou muito antes de ouvirmos a sua foz rouca. Estava longe a trovoada.Mas, pouco a pouco, foi diminuindo o intervalo entre a luz que entrava pelas frestas das janelas edo postigo da porta e os rugidos furiosos do trovão. Começou a ser difícil fingir. Depois sucederam três coisas em simultâneo: uma luz intensa, um barulho nunca ouvido, umsaltar do banco em que estávamos sentados. Seguiram-se os nossos gritos e a corrida para os braçosda nossa mãe, também ela assustada. Esquecemo-nos de fingir e mostrávamos todos o medo quesentíamos. – Foi um raio que caiu aqui mesmo junto a nós – disse ela. Mais dois ou três raios e trovões ainda perto; depois, foi-se afastando a trovoada e os nossoscorações retomavam o seu bater normal. Lembro-me e ter dormido profundamente, nessa noite,cansado do medo que senti. No outro dia... No outro dia, já estava tudo bem, esquecidos os cagaços. Era a notícia dobairro: tinha caído um raio no para-raios da fábrica. “Eu não tive medo” “Só me assustei, não estava à espera” “Medo? Eu sei que com os para-raios não há azar.” Assim basofávamos uns com os outros em afirmações de valentia. – A minha irmã até chorou! – disse eu quando me perguntaram se eu tivera medo. Eraverdade e não fiquei mal visto. Olhei o para-raios em cima da fábrica. E não é que me apeteceu agradecer-lhe?
  5. 5. A Tesoura Recortava, recortava, umas vezes a direito, outras vezes a desenhar largos círculos ou ovais.Dependia muito da mão que a manejava. Às vezes, e disso ela gostava particularmente, limitava-se acortar um fio, no final duma costura. Sentia-se como um ponto final parágrafo. Um dia teve de fazer das tripas coração. Nunca soube explicar quais as circunstâncias que aisso a obrigaram, mas teve de cortar cabelo atrás de cabelo, um preto, outro aloirado, mas todo elecom um cheirinho a pedir muita água, muito sabão. Ainda por cima, além da côr diferente, um eraliso, outro cheio de caracóis. Não, não gostou. Foi uma experiência muito desagradável. Felizmente, logo depois, recebeu uma inesperada recompensa: foi afiada. Ui! Que sensaçãomais gostosa – como dizia uma sua prima brasileira – ser afiada pelas carícias daquela pedra arodar, a rodar. Sentiu-se nova. Durante anos, recortou, seguindo o traço de giz nos tecidos: fez calças e casacos,camisas, robes, vestidos, saias, e roupões. Cortou papéis, fios, cartão. Numa emergência,um dia, cortou rabos de bacalhau seco. Achou piada à sensação. Sim, às vezes, recebia a sua paga boa. Sempre que a afiavam, sentia-se recompensada. Um dia, foi fechada numa gaveta e dormiu uns anos bons, esquecida. Hoje acordou. Há um movimento estranho. Olhou para si e viu-se cheia de ferrugem. Sorriu.“Tinha de ser” pensou. “Os anos que já levo”. À sua volta há conversas variadas. Vêm de facas, garfos, colheres, púcaros, castiçais,fechaduras, chaves, ferraduras, enxadas, sachos, forquilhas, enchós, serras, serrotes, martelos, maços,picaretas, e outras tesouras como ela. Sentem todas um nervoso miudinho. Que ferramenta irão ser, depois de nova fundição? “Eu gostava tanto de voltar a ser uma tesoura de alfaiate” pensava, a imaginar-se desenhandoum elegante colete, com o seu bolsinho para o relógio. Estremeceu, emocionada, mas, de imediato,se deu conta do seu erro. Ela havia cumprido o seu dever, como tesoura. Agora, o seu metal, arenascer, estaria pronto para aquilo que viesse a ser preciso. Um garfo, de dente partido, começou a contar, com uma alegria imensa, a história daprimeira vez que tinha sido usado. Ela sorriu, a recordar o seu primeiro corte, e pensou: “Como éimportante gostarmos de ser quem somos”.
  6. 6. O botão Desde que saíra da fábrica, permanecera, ali, alinhado com os outros, à espera de cumprir oseu destino. Era assim que se pensava, espantado com a indiferença dos outros em relação ao seufuturo. Nascera grande, castanho muito escuro, luzidio; ao centro, abriam-se-lhe quatro furos àespera da linha que o uniria à peça de roupa onde cumpriria o seu dever. Pelo tamanho, adivinhava-se que seria, praí, um sobretudo. O frenesim ansioso dos seus dias foi-se atenuando com o passar do tempo e, pouco a pouco,influenciado pelo suave ressonar dos seus parceiros, acabou ele próprio por adormecer com umsorriso nos seus lábios imaginários. Acordou estremunhado e a tremer. Não percebera ainda o que estava a acontecer, sentiu-selançado para o meio duma confusão onde, que coisa!, todos pareciam entender-se. A tremedeiraconduzia-os. Entrou num tubo vertical e viu-se a descer em sobressaltos, centímetro a centímetro,até ser agarrado por dois braços e imobilizado sobre um tecido fofo. Uma agulha caiu sobre elecom entusiasmo e precisão e enlaçou os seus quatro furos com uma linha grossa, fixando-o comvigor. Sentiu que chegara o seu momento de ser botão. E no entanto... Não conseguia compreender que espécie de botão era, não conseguia entender em que tipode lugar encontrara o seu futuro. À sua volta via apenas o tecido macio e cremoso a que a agulha oprendera. Uma modorra muito insinuante e boa, uma preguiça muito agradável o invadiu. Deixou-seestar, assim, a sentir-se muito repousado, muito senhor de si. Até que... Uma humidade doce, a repenicar uma e outra vez sobre si, vinda de uns lábios muito macios,muito quentinhos e beijoqueiros, despertou-o a tempo de ouvir uma vozita dizer: – Gosto muito de ti, meu cãozinho. Tens um narizito tão bonito! Um narizito? Ele era um botão-nariz? De um boneco de peluche? Ele era o nariz deum cão-brinquedo? Sentiu a vibração de um entusiasmo desconhecido e começou a sentir-se invadidopor uma alegria desconhecida e um desejo maravilhoso de aventuras. É que ele adivinhavaas fantásticas peripécias que iria viver com o seu dono, em imaginárias estórias de buscas esalvamentos em que ele, nariz de faro apurado... Um arzinho quente soprava sobre si. Tinha de adiar as aventuras. Pelos vistos, o seudono adormecera abraçado ao cãozito de que ele era o botão, desculpem! o nariz, o nariz-botão. Imaginou-se a sorrir e perguntou, curioso, a si mesmo: “Como se chamará estemenino, o meu dono? Que idade terá?” Para se entreter, pôs-se a cheirar, aos bocadinhos, o ar que o menino mandava foracom os sonhos.
  7. 7. Meu amor disse que sim Eu não sei, nem isso me interessa muito, se o que fazemos e sentimos o começamos a fazere a sentir para imitarmos os adultos. Quero eu dizer, não sei se será tudo assim, por imitação. Éevidente que a maior parte das coisas que fazemos – as coisas triviais, do dia a dia – as aprendemosa ver os outros, sobretudo a vermos os nossos pais e os outros adultos. Mas...quem é que euimitava, quando comecei a sentir um nervoso miudinho, sempre que olhava para ela? Pois é! Eu ficava assim, a modos que meio assarapantado, quando ela sorria com os olhospostos em mim. Os olhos castanhos... Foi por causa deles que eu escrevi no meu primeiro poema. Ainda hoje o sei de cor, tantasvezes eu lho disse a ela depois de ter sido capaz de lhe pedir para ser minha namorada. Dizia assim o meu poema: Tens uns lindos olhos castanhos que te guiam o andar Quando eles olham para mim só me apetece sonhar. Ela gostou muito e eu fiquei muito feliz, como devem calcular. Mesmo hoje, eu gosto domeu primeiro poema, apesar da métrica não ser a melhor, apesar de todos os defeitos que tem. Oprimeiro é o primeiro, não é? A verdade é que eu passei muitos dias sem ter a coragem de lhe pedir para ser minhanamorada. Que eu gostava dela, todos os meus amigos sabiam porque eu era incapaz de disfarçar. Etodos gozavam comigo, porque... vocês sabem! Às vezes somos muito mauzinhos uns para osoutros. Enfim! Lá consegui, um dia, depois da aula de matemática e de uns resultados muito bonsnum teste, meus e delas, fazer com que os meus passos emparelhassem com os dela para lhe dar osparabéns. Ela retribuiu com um sorriso que se pegou ao meu. Nem sou capaz de dizer como é queaconteceu, mas, quando dei por mim, estava sentado ao lado dela no autocarro em sentidocontrário ao da minha casa. Eu disse-lhe que gostava de francês e de história e ela disse que a suadisciplina favorita era ciências. Só na paragem ao pé da casa dela, eu percebi onde é que estava. Ela riu-se, eu ri-me e, numrepente perguntei-lhe se queria ser a minha namorada. Eu tremi todo, e o meu sorriso foi tão grande que até me doeram as bochechas quando eladisse que sim. Quando, no dia seguinte, chegámos à escola de mãos dadas, os meus amigos fartaram-se degozar comigo a dizer em cantilena repetida: “O menino já namora”. Eu só fui capaz de sorrir e deme sentir importante.
  8. 8. Do livro Estórias para um neto (Textos cedidos pelo autor) As galinhas poedeiras Quando eu era uma criança como tu, vivia numa aldeia com casas de telhados de telha vã e paredes muito grossas, caiadas de branco com uma cintura de azul. A minha casa tinha um grande quintal com uma oliveira ao meio, um tanque de cimento, para lavar a roupa, e uma grande capoeira onde havia sempre muitas galinhas e sua respetiva prole de pintainhos saltitantes. Ao chegar da escola, gostava de ir brincar com eles, pegar-lhes ao colo, dar-lhes uns farelinhos extra e, quando se me atazanavam os neurónios diabretes, correr atrás deles, feito raposa predadora. Um dia, levei a brincadeira longe de mais e, quando a minha mãe gritou o meu nome com a voz acusadora, saltavam as galinhas à minha frente fugindo da minha desnorteada brincadeira, aflitas com tamanha perseguição: saltavam dos poleiros, molhavam-se nos bebedoiros, atiravam-se, aflitas, contra a rede, chocavam umas com as outras, feitas tontas. – Vai já para o teu quarto, malvado rapaz! Nem sabes o que fizeste. Era a voz exaltada da minha mãe. Fui para o quarto e abri o caderno dos deveres. Sabia ter feito asneira grossa pela forma de me ralhar, mas não entendia muito bem por que se tinha ela zangado assim. Eu só tinha chateado um bocadinho as galinhas! Ouvi os seus desabafos com uma vizinha e, pouco a pouco, comecei a entender a zanga. Eu podia ter causado uma grave falta de ovos nos próximos tempos. Eu podia ter posto as galinhas chocas. Eu explico: algumas das minhas vítimas eram ótimas galinhas poedeiras, daquelas que não falham a pôr os belos ovos que eu gostava de recolher todos os dias para encher o cesto que a minha mãe levava à senhora Rosa, vendedora com banca no mercado. Segundo percebi, o susto podia levar as galinhas a interromper a postura e a quererem antes chocar os ovos a fazerem pintainhos. Assim, uma razoável e necessária fonte de rendimento da família estaria estragada, por culpa minha. E eu sabia como era difícil a vida na minha casa. Deitado na minha cama, chorei, chorei... até a minha mãe me chamar para jantar. Ela viu os meus olhos vermelhos a pedirem desculpa e a prometerem mais juízo no futuro, deu- me um beijo de mãe que perdoa, e eu senti-me aliviado. Felizmente, no dia seguinte, havia ovos. Eu aprendi a lição e nunca mais fiz aventuras com as galinhas poedeiras.
  9. 9. O pinheiro voador Da lareira vinha um calor bom, e um cheirinho doce nascia do crepitar da madeira, a arder commansidão. Estava-se ali tão bem! As labaredas dançavam à volta do tronco do pinheiro, e, jurava,eram risos o que eu ouvia no fumo a subir, sem pressas, pela chaminé. Pouco a pouco, fui-mesentindo leve, leve, tão leve que, de certeza, adormeci. – Olá, vou contar-te a minha história, já que gostas do calorzinho que te dou. Quando acordei, com um sorriso feliz a agarrar-me o corpo todo, levantei-me e fui colocarmais um toro na lareira, para avivar o fogo. Agora, eu sabia uma história fantástica que me foracontada entre sonos; aquele pinheiro que ali ardia na minha lareira estava a cumprir o seu sonho:voar. O fumo saindo pela chaminé não era outra coisa senão o voo fantástico do pinheiro voador. Eu conto, como ele me contou a mim. “Desde pequenino que o meu sonho era voar como os pássaros que às vezes vinham pousarem mim, ou como os milhafres a voar lá tão alto antes de mergulharem como loucos para apanharas suas presas. Se não fossem as minhas raízes, eu já teria voado há mais tempo, mas assim... Foi preciso agrande tempestade, a ciclónica ventania, para me arrancar da terra e me atirar pelos ares. Foi o meuprimeiro voo, um voo muito pouco bonito, mas... ir pelos ares... que sensação! Depois cortaram-menestes toros iguais e eu soube que iria transformar-me neste calor e neste fumo que se espalhampelos ares em voo suave, em sonho. Agora, na tua lareira, transformo-me em ar, em calor, em vida.” Lá fora faz frio. Aqui, à lareira, vendo o voo deste pinheiro diferente, um pinheiro comvocação de pássaro, é que estou bem. Sinto que vou, de novo, adormecer.
  10. 10. O caramelo azarado Era uma vez um caramelo, doce como o mel mais doce. Sofria de um azar muito azarento:não havia meio de ser comprado e ser comido por um qualquer miúdo do bairro onde ficava aloja dona do frasco em que vivia. Sempre que chegava quase a sua vez de ser vendido, omerceeiro voltava a encher o frasco e ele lá ficava no fundo, cada vez mais no fundo. – Eu não deveria ter vindo para venda avulso – pensava o caramelo, lamentando não tersido embalado nos saquitos de doze caramelos que a sua fábrica comercializava. – Ainda seco e perco qualidades e ninguém me vai saborear e fazer-me derreter defelicidade, como é meu sonho e meu desejo. Passaram-se tempos, até que um dia... Primeiro, viu-se fechado num grande saco de papel, depois, percebeu-se a ser transportadodaqui para ali e, de repente, inundado de luz e gritaria bem-disposta. Juntamente com mais doiscompanheiros, sentiu-se agarrado por uma mão de criança, uma menina que logo o retirou dopapel, o seu fato desde sempre. Viu-se levado para a boca da menina e começou a derreter-secheio de cócegas e felicidade. – Este caramelo é tão bom! – ouviu a menina dizer. Depois... deixou de haver caramelo que se transformou nesta estória.
  11. 11. Um coelho atencioso Uma vez, fui apanhar flores silvestres para levar para a escola. Os campos à volta da aldeiaonde eu morava estavam cheiinhos de papoilas e malmequeres. Havia também largos lençóis dealecrim perfumando aquela tarde. Sentado debaixo de uma oliveira, entretinha-me a roer uns talos de azedas que mecausavam um curioso fungar com gosto, quando sinto um toque amistoso nas costas. Voltei-me e, com surpresa grande e embasbacada, vejo um coelho a olhar para mim, muito atento esério. Era todo branco, exceto uma larga mancha acinzentada que lhe dividia a cabeça em duasmetades simétricas. − Olá rapaz, como te chamas? – diz-me ele, de repente. Escusado será dizer-vos, pensei estar a sonhar. Gosto de inventar coisas, mas nem eumesmo seria capaz de uma destas. Os animais só falam nas estórias e nos versos. Estendi a mão para o agarrar e ele, sem tentar fugir, disse: − Tem cuidado que tenho o peito ferido! − O que é que aconteceu? – perguntei. Sem dar por isso, sem estranhar, como se fosse a coisa mais natural do mundo, comecei aconversar com o coelho numa conversa de amigos de longa data. Ele sabia quem eu era, ondeeu morava, aliás, tinha sido num arame farpado perto de minha casa que se espetara ao aterrarde um salto descuidado. Já me tinha visto a brincar nos campos e, disse-me ele, ficara com odesejo de me conhecer quando, um dia, me viu recolher um passarito e subir a árvore para opôr no ninho donde caíra. Disse-lhe o meu nome, contei-lhe porque tinha apanhado as flores e como projetava virbrincar, no dia seguinte, com os meus amigos aos cobóis. Disse-me, então: – Não vais poder vir amanhã, pois vai cair um temporal terrível. – Como é que sabes? – perguntei, cheio de curiosidade. – Tenho uma pata que adivinha – respondeu rindo, acrescentando, antes de eu poder dizerfosse o que fosse: – Faz-se tarde, tenho de ir. Um dia, quem sabe, voltaremos a ver-nos. Adeus. E partiu devagarinho, mas decidido. No dia seguinte, choveu a bom chover, mostrando a verdade da sua atenciosa informação. Só muito mais tarde eu aprendi o que queria dizer “ter uma pata que adivinha”, já que osmeus ossos, hoje, percebem também eles as mudanças do tempo. (Nota: É a primeira vez que eu conto isto a alguém. Como já se passaram tantos anos,quase chego a ter dúvidas da veracidade desta estória. No entanto, uma coisa é certa: continuoa ir ao campo colher flores silvestres.)
  12. 12. A sombra assustada Como tu sabes, o Sol lança os seus raios de luz sobre os objetos e destes se forma a respetiva sombra, maior ou menor, consoante o ângulo de incidência dos raios solares. Isto é simples de entender, mas no mundo das estórias, acontecem as coisas mais espantosas e estranhas que podemos imaginar. Aconteceu que… Uma sombra olhou-se, numa tarde quente de verão, projetada numa rua. “Como era grande!” Pensou; achou muita piada à forma como se contorcia sobre os carros estacionados, sentiu cócegas ao subir os degraus da grande escadaria da Praça e deleitou-se na parede da casa apalaçada, lugar central da cidade onde morava. Ali ficou olhando outras sombras que passavam. Sentia-se muito bem consigo própria, mas um pouco fatigada. Fechou os olhos e dormitou. Estás já a imaginar o que aconteceu, não estás? Pois bem, foi isso mesmo. Dormindo aos poucos, numa bela modorra de comprazimento, o tempo passou e o Sol foi-se a iluminar outras paragens. A sombra acordou e viu uma pálida imagem de si mesma; deu um grito e levantou-se; era uma ténue mancha moribunda, em desfalecimento aflito. Aflito, porque ela estava aflita, melhor dizendo, assustada, melhor ainda, em pânico, sentindo-se a perder a existência. E o Sol partiu de todo. Passaram-se horas, tantas quantas a noite tem, e o astro chamado Rei acordou a manhã para mais um dia de luz e cor. A sombra desta estória sentiu que os cinzentos do seu ser enegreciam e abriu os olhos, temerosa. Nada viu e o seu susto aumentou. Porém, quase sem querer, virou os olhos e descobriu-se no outro lado, em projeção revigorante. Oh! Que alegria! O seu susto terminou. Não vou contar mais nada. Nem é preciso, pois não? É claro, tu sabes bem que esta sombra tontita sofreu por ignorância. Se ela fosse como tu, que procuras saber as causas dos fenómenos naturais, e que sabes, até, ver as horas pela sombra de um ponteiro de um relógio de Sol e tantas coisas mais… Quando a encontrares, explica-lhe a sua razão de existir. Vale?
  13. 13. Do livro Estórias de um avô (Textos cedidos pelo autor) O meu sorriso Há coisas que sabemos apenas porque no-las disseram aqueles que nos querem bem e nosconhecem desde o momento em que nascemos. É este o caso. Disseram-mo elas – a minha mãe, aenfermeira Irene, parteira-diplomada, e a menina Hortense, sua ajudante – que eu nasci com umsorriso grande, grande como um comboio, e, mesmo a chorar o primeiro choro (elas o juram), omeu sorriso estava lá na minha boca desdentada. Eu sorri nos primeiros vinte anos da minha vida. Depois, sem que eu consiga explicar porquê –embora eu pense que o ter ido à guerra e ter visto coisas tristes e terríveis tenha muito a ver comisso – o meu sorriso foi-se apagando lentamente. Vivi durante muitos anos de cara séria e olhar sisudo a ponto de me esquecer que eu já forauma fonte de alegria para o olhar de quem me via. E como é tão verdadeira esta frase que até rima!Ora, no outro dia, quando eu fui à terra onde nasci e passei a minha infância, encontrei uma senhoravelhinha a quem hoje chamam Dona, a Dona Hortense que me disse: – Então rapaz (para os maisvelhos somos sempre muito novos!) que é feito do sorriso que era o teu? Caí em mim, sem saber o que dizer. E, então, disse-lhe coisas, muitas delas apenas por dizer, taiscomo “é a vida”, “as coisas mudam”, “já nem me lembro”. Depois, chegado a casa, olhei-me ao espelho e de repente recordei-me e senti saudades grandes apesarem com muita força no meu peito. Tentei sorrir, mas nada. O mesmo ar sério a responder-me. Mas, num relâmpago: “Eureka!”, gritei; de tal maneira que o meu gato saiu esbaforido a pensarque eu estava louco. “Já sei qual é asolução. São as crianças quem sabe o que é sorrir. Se eu lhes pedir que desenhem um sorriso parame dar...” Pus um anúncio no jornal a pedir que me deem um sorriso e escrevi esta estória verdadeira. Eestou à espera. Eu sei que, de volta, de novo irei ter o meu sorriso.
  14. 14. O cd-rom que só rodava às vezes Um dia, um amigo meu, cantor e „dizedor‟ de poesia (palavra inventada por quem acha que sedeve dizer, e não declamar, os poemas) ofereceu-me um Cd-Rom que ele tinha gravado compoemas sobre as diversas estações do ano, escritos por muitos poetas portugueses. Podíamos ouvi-lo a dizer os poemas, ao mesmo tempo que líamos o seu texto, ou pequenosfilmes mostrando paisagens e cenas campestres características das estações tratadas nos poemas.Além disso, era possível, ainda, vermos fotos dos poetas, ou gravuras dos poetas mais antigos, enotas biográficas e literárias de todos eles. Eu, que gosto de poesia e da forma como o meu amigo a diz, fiquei todo contente e curioso e,primeira coisa que fiz quando chegueia casa, fui logo para o computador, para ouvir e ver o Cd.Rom. Vocês não imaginam como eu fiquei! Não é que o meu amigo tinha incluído um poema da minhaautoria sobre a primavera, sem nada me dizer?! Lá estavam os meus versos a serem ditos enquanto passavam fotos de papoilas e mimosas noscampos do Alentejo; e lá estava um retrato meu, com data de nascimento, chamando-me poeta eescritor. Lá estava eu, ao lado dos poetas que eu amo. Comovi-me e, devo confessar, inchei de orgulho e satisfação. Os dias passavam e eu, sempre commesmo sentimento de vaidade, assim que chegava a casa ligava o computador, punha o Cd.Rom elá aparecia eu e o meu poema. Sempre eu e o meu poema. O Cd. Rom não avançava dali, nãomostrava os outros poemas, não rodava. Achei tão estranho que pedi ao meu vizinho que visse o Cd. Romno seu computador. Assim fez, dizendo-me depois: – Belo trabalho este, do seu amigo. – Mas viu tudo? – perguntei. – Sim, tudo funcionou perfeitamente. Intrigado, comecei a pensar: “Mas porque é que não funciona no meu computador e apareçosempre eu?” Bem!... Penso que já descobriram a resposta. Confesso que me sinto envergonhado por me ter deixado levar pela vaidade. Exagerei, sim. Mascontinuo a gostar muito dos poetas da minha terra.
  15. 15. O coração dorminhoco Noutros tempos, quando os animais falavam e serviam de exemplo para os homens, havia apossibilidade de mudar de coração. Se, por exemplo, eu fosse um gato e quisesse ter um coração decão, podia trocar. Claro que se eu fosse um hamster e quisesse ter um coração de leão, isso eraimpossível porque não me cabia no peito. Isto aconteceu-me nas minhas vidas anteriores, há muito,muito tempo. Talvez eu vos conte mais tarde essas histórias; agora, não interessam. Como eu dizia, havia uma lojinha num jardim sempre florido que vendia os corações que eramcriados numa pequena oficina onde dez artistas trabalhavam. E era tudo o que se sabia: pequenafábrica, dez artistas. Onde ficava, porquê fabricados por artistas, eram perguntas sem resposta. A loja dos corações pertencia a uma gata siamesa que não deixava fazer qualquer barulho. – Para não perturbar os meus queridinhos. – dizia. Ora, um dia, um lagarto que se sentia muito cansado porque percorria o país inteiro a inspecionaros cursos de água – tarefa muito importante para prevenir inundações fora da estação das chuvas –entrou na loja e, num sussurro, disse à gata: – Dona Gata, preciso de um coração forte, mas sossegado, que me dê algum descanso. A Gata, que conhecia o trabalho do lagarto, ao vê-lo tão cansado, disse: – Veja este, aqui, tão dorminhoco. Foi amor à primeira vista. Entraram no gabinete de mudança, o lagarto deitou-se na marquesa, abriu o peito (isso fazia-seapenas com um ato de vontade) e a Gata mudou-lhe o coração. Quando o lagarto saiu da lojinha, com o seu coração novo, sentiu uma grande vontade de se irdeitar em cima de um muro a apanhar sol. Fechou os olhos e deixou-se estar a sentir o coração abater muito devagarinho. Daí a nada, adormeceu. No dia seguinte, o lagarto reformou-se, e passou a dormitar ao sol com imenso prazer que lhevinha do seu coração dorminhoco. Nunca mais quis mudar de coração e é por isso que hoje podemos ver os lagartos a apanharsol. E é por isso, também, que, às vezes, há inundações fora da época das chuvas: ninguém maisinspecionou os veios de água.
  16. 16. A bomba da gasolina Era novinha em folha. E grande. Era alta, mais alta do que é costume. Estava toda pintada deazul claro sobre o qual nasciam pintas em dois tons de azul mais escuro, que mudavam de sítio,hora a hora, enquanto houvesse dia. À entrada havia um grande letreiro onde se lia, em letras de azul escuríssimo: ‟Só abastececondutores bem-dispostos‟. No início, quando construíram a bomba (ninguém conhece os donos), havia sempre uma bichade quilómetros, à espera de vez. É que... Os carros paravam e todos os condutores saíam com um grande sorriso. No entanto, só alguns,muito poucos, ela abastecia. E que espanto! A gasolina enchia o depósito e o marcador do dinheiroandava devagarinho. A conta era sempre pequena. Depois... depois o carro andava, andava egastava muito menos que metade do que era seu costume. Está-se mesmo a ver que isto ia ter importância, muita importância. Pouco a pouco, as pessoas começaram a ser simpáticas ao volante, a respeitar os peões, a circularcom atenção, sem ultrapassar os limites de velocidade. As ruas e as estradas da região passaram a serseguras. E eram cada vez mais as pessoas que conseguiam abastecer-se na bomba azul dos encantos e doscondutores felizes. Perguntas: onde é que fica esta bomba encantada? Bem, para já, fica aqui, nesta página, e na nossa imaginação. Depois, quando quisermos...talvez possamos nós ser os seus donos. Quem sabe?
  17. 17. O piolho – Mas qual é a utilidade do piolho? – Perguntava um homenzinho muito estranho que vivia nomeu bairro e que tinha esta mania de vir para a rua e “lançar à ventania” (era sua esta expressão)perguntas variadas. Eu, normalmente, ria-me destes atos meio tresloucados do pobre homem e seguia a minhavida, mas, hoje, deu-me para ficarintrigado e resolvi aceitar o desafio e lançar-me em busca de umaresposta. De piolhos só me lembrava daquela vez, era eu miúdo, há quantidade de anos que isso foi!, que aminha mãe me levou ao barbeiro para uma grande carecada por causa de tão feias e chatas criaturas,cansada que ela estava de me catar à caça dos ditos cujos que nasciam às dezenas, em partoscontínuos, nas cabeças de tudo o que era garotada. Penso, agora, que os adultos também os tinhamcom fartura. E nesses tempos não havia as mezinhas que hoje existem para matar os bichos. Nemhavia os champôs, os sabonetes cheirosos, os secadores de cabelo, as toalhas tão grandes e maciasque hoje temos para nos limparmos. Nesses tempos, os piolhos existiam em quantidades de metersusto, podemos bemdizê-lo, porque eram muito más as condições de higiene à nossadisposição. Havia uma grande luta contra os piolhos. Tinha eu resolvido ir até à farmácia perguntar ao meu amigo doutor farmacêutico se umaqualquer epidemia de piolhos teria surgido, por aqui, nas redondezas, quando, na mesa mesmo aomeu lado, no café, uma senhora contava à sua amiga ter descoberto piolhos na filha, depois de a tervisto coçar a cabeça duas ou três vezes. E diz assim a amiga, num tom de voz de mãe zangada comos filhos: – Se ao menos, assim, eles perceberem que têm cabeça? Eu fiquei quase tão surpreendido como a senhora primeira que falou, mas não fiz o ar espantadoque ela fez a olhar para a outra que caiu em si e se apressou a explicar: – Desculpa, estou preocupada com o meu Pedro que meapanhou negativa amatemática. E tudo porque se esqueceu que tinha teste e não estudou. E também lhe descobripiolhos, outro dia. Eu ouvi isto e sorri cá para mim mesmo. Afinal já estava ali uma boa resposta: os piolhos servempara nos lembrarmos que temos cabeça. Cabeça para pensar. Se é para isso, viva o piolho! Não é?Texto escrito conforme o Acordo Ortográfico - convertido pelo Lince.

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