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Mudanças climáticas se
tornam debate urgente
em 2014
Mesmo no mais destacado bastião
do ceticismo, os Estados Unidos,
aumenta o consenso de que o
planeta corre perigo e que a
reação deve começar já
por Letícia Duarte
02/08/2014 | 15h06
Mapa da nasa mostrando as temperaturas acima
(cores quentes) e abaixo (cores frias) da média história
em junho de 2014 Foto: Gabriel Renner / Arte ZH
No calendário das mudanças climáticas, 2014 poderia
ser assinalado como o ano em que os céticos da
responsabilidade humana no aquecimento global
entraram de vez para o grupo das espécies em
extinção. Pelo menos em credibilidade, seus
argumentos se derreteram bem antes do que o gelo
marinho do Ártico.
Em uma declaração emblemática do momento atual, o
presidente dos Estados Unidos, Barack Obama,
comparou os que ainda negam o fenômeno aos que
antes pensavam que a Lua era feita de queijo. Foi em
junho, quando anunciou US$ 1 bilhão para financiar
medidas que atenuem as mudanças climáticas.
Embora os Estados Unidos continuem entre os três
países do mundo não signatários das convenções de
clima – ao lado do Vaticano e de Andorra –, o pacote
ambiental mostra que até a nação mais poderosa do
planeta começa a se curvar à pilha de evidências
científicas que comprovam que a Terra está febril. E
que a culpa é nossa. Não por acaso, o anúncio ocorreu
após a divulgação dos dois últimos relatórios da quinta
edição do Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas (IPCC), da ONU, em março e abril deste
ano. Com a participação de mais de 800 pesquisadores
de 130 países, o estudo prevê que as emissões de
gases causadores do efeito estufa elevarão a
temperatura média do planeta entre 2,6°C e 4,8°C até
o fim do século. E conclui, com “95% de certeza”, que
o homem foi o principal responsável pela elevação das
temperaturas, especialmente a partir de 1950.
– Os que negam a mudança climática sugerem que
ainda existe debate científico, mas não existe – definiu
Obama, considerando encerrada a polêmica.
As projeções feitas pelo Painel de Mudanças
Climáticas da ONU são tão contundentes que ignorá-
las virou um risco. A elevação da temperatura é
associada a riscos crescentes de eventos climáticos
extremos, infestação de doenças associadas a
mosquitos, falta de água e de alimentos. Nada muito
diferente do que cientistas já vinham alertando, mas
com cada vez maior base de confiabilidade. E de
urgência.
– 2014 é um ano importante nessa discussão de
mudanças climáticas. Chegamos ao quinto relatório do
IPCC e ele deixa claro que a gente já ultrapassou o
ponto em que a mitigação das emissões de poluentes
seria suficiente para reverter o quadro. Agora
precisamos falar em adaptações. Mesmo que
parassem todas as emissões, pelos próximos cem
anos ainda sentiríamos os efeitos – argumenta Fabio
Scarano, vice-presidente sênior da divisão Américas da
Conservação Internacional e professor da UFRJ, que
foi um dos responsáveis pelo capítulo da América
Central e do Sul do IPCC.
Os sintomas estão em toda parte. Porto Alegre teve o
janeiro mais quente de sua história e, atualmente, São
Paulo sofre com a falta crônica de água. Situações que
tendem a se agravar nas próximas décadas, com mais
enchentes na região Sul, seca no Sudeste e riscos de
desertificação em regiões da Amazônia e do Nordeste.
Mas, claro, nada é tão ruim que não possa piorar. O
professor Marcos Buckeridge, do Instituto de
Biociências da USP, explica que o aumento da
concentração de gás carbônico na atmosfera tem como
consequência uma espécie de “obesidade vegetal”.
Assim, apesar de as plantas crescerem mais, por
fazerem mais fotossíntese com o CO2, perdem
nutrientes, porque a concentração de nitrogênio é
reduzida. A se confirmarem as previsões de que a
concentração de gás carbônico na atmosfera dobrará
2
até 2080, o percentual de nitrogênio das plantas cairá
7%, afetando a qualidade agrícola.
– Talvez seja preciso mudar o cultivo das regiões, e
isso custa dinheiro. É o custo da mudança climática. A
qualidade da soja vai baixar, o alimento pode se tornar
mais caro, o que pode levar a problemas econômicos,
porque a qualidade esperada pelo comprador pode não
ser correspondida – enumera Buckeridge.
Em vez de se ater a um discurso apocalíptico, no
entanto, os pesquisadores preferem mirar nas
oportunidades de uma virada sustentável. Visto como
um bom exemplo ambiental no cenário global, o Brasil
teria chance de ser protagonista da mudança.
– O Brasil é o celeiro do mundo, poderíamos aproveitar
este momento para produzir mais comida. Para isso,
precisaríamos de uma nova revolução verde,
investindo em técnicas de biologia molecular – defende
Buckeridge.
A virada também passa por mudança nas fontes de
energia. Segundo Suzana Kahn, professora do Instituto
Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de
Engenharia (Coppe) da UFRJ e vice-presidente do
IPCC, 80% do aumento das emissões dos gases do
efeito estufa se deve à queima de combustíveis
fósseis, o que torna a questão do aquecimento global
um problema no uso de energia. E os obstáculos para
a transição são mais de natureza econômica do que
tecnológica.
– As tecnologias existem. Temos veículos elétricos,
biocombustíveis, energia solar. Não precisamos
descobrir nada novo, mas passa por uma questão de
economia, de mudar o modelo, retirar subsídios de
setores poluentes. Com isso já é possível reduzir
significativamente as emissões. Algumas mudanças já
estão acontecendo, tanto que, mesmo com a crise,
foram as energias renováveis as que mais cresceram –
pondera Suzana.
Colocar a culpa nos custos não serve como desculpa
para a inércia. Fabio Scarano, da Conservação
Internacional, lembra que medidas baratas como
proteger os mangues podem ser tão eficazes como
construir caríssimos diques para conter a elevação do
nível dos oceanos.
– Ficou provado que,quando o tsunami atingiu as ilhas
do Pacífico, as que tinham mais cobertura vegetal na
costa sofreram menos impacto do que as que não
tinham – exemplifica Scarano.
Diante das adversidades climáticas, a gestão das
cidades precisará ser repensada para evitar o caos.
Em vez de agir nas emergências e se espantar com
cada “chuva histórica”, governantes precisarão investir
em planos de contenção de longo prazo.
– Existe uma tendência de culpar a natureza, mas onde
as pessoas mais atingidas costumam morar?
Geralmente em áreas de risco, com drenagem
negligenciada ao longo dos anos. A mudança no clima
vai exigir outra maneira de pensar nas ações,
especialmente na gestão pública. É uma mudança
global, mas requer ações locais – defende o biólogo
Jackson Müller, professor da Unisinos.
Aos que preferem criticar o IPCC como instrumento
político, o climatologista do Centro Polar e Climático e
chefe do Departamento de Geografia da UFRGS,
Francisco Aquino, contrapõe com a ciência:
– Que decisão os governos vão tomar com base no
relatório, a ciência não opina. A ciência não tem lado. É
uma resposta, soma dois com dois e dá quatro. Essa
minoria cética não tem nada de substancial na
produção científica internacional. Não é que a gente
não os queira, a gente não tem como considerar.
Os prognósticos indicam que os mais pobres serão
inicialmente os mais impactados pelas mudanças, mas
o problema está longe de ser uma questão de classe:
não há imunidade climática.
– Se a sociedade quiser virar as costas e achar esse
problema não vai chegar na sua casa será um grande
engano, porque isso já está no quintal de todo mundo.
É um fenômeno global. Não tem como escapar – alerta
Aquino
Junho deste ano foi o mais quente desde 1880
Basta olhar para o mapa de anomalias climáticas
produzido pela Nasa (na ilustração deste post) para
enxergar como o planeta está esquentando. A
temperatura média em junho de 2013 ficou 0,61ºC
acima do padrão histórico entre 1951 e 1980. Na
ilustração, é possível identificar os pontos de
aquecimento, assinalados pelas cores amarelo, laranja
e vermelho. O Brasil acompanha a onda. Na maior
parte do Rio Grande do Sul, a temperatura média ficou
1ºC acima da média. Outra medição, feita pela
Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos
3
Estados Unidos (NOAA), mostra que a temperatura
média no mês de junho deste ano foi a mais quente
desde que os registros começaram, em 1880.
O MUNDO COM FEBRE
> O Brasil está aquecendo em todas as regiões,
com chuvas irregulares. No Rio Grande do Sul, a
tendência é mais calor e chuva: além da elevação das
temperaturas, que fez Porto Alegre registrar em 2014 o
janeiro mais quente desde o início das medições, em
1916, o volume de precipitações já aumentou 8% em
relação aos padrões históricos de 1945 até 1974.
> Os Estados Unidos enfrentam uma das piores
secas de sua história recente. Em maio, mais de
30% do país registrava seca, tendo pelo menos sete
Estados com estiagem severa em metade do território.
Em compensação, junho deste ano foi o sexto mais
úmido desde que as medições nacionais começaram,
em 1895.
> As emissões crescentes de gases de efeito estufa
aumentarão significativamente o risco de
inundações na Europa, especialmente na região
litorânea. Já no sul do continente a seca deve se
acentuar, reduzindo a disponibilidade de água,
afetando a produtividade agrícola.
> Até 2020, projeta-se que entre 75 e 250 milhões de
pessoas sejam expostas à maior escassez de água
na África, com redução de até 50% na produção
agrícola irrigada pela chuva e ameaças de
desertificação.
> Na Ásia, o derretimento das geleiras no Himalaia
deve aumentar as inundações e avalanches de
pedras de encostas. As cheias ameaçam mortalidade
endêmica por diarreia e cólera. Bangladesh é um dos
países mais ameaçados: até 2050, pode perder 17%
de seu território pela elevação do nível do mar, o que
obrigaria o deslocamento de 18 milhões de pessoas.
> Previsão de agravamento de períodos de seca na
Austrália. Em junho deste ano, choveu 28% da média
normal para o mês no oeste do país. Problemas de
falta de água devem se intensificar até 2030, com
perda significativa de biodiversidade.
> Se continuar neste ritmo, há risco de que, em
2050, o Ártico não tenha mais gelo marinho. A
mudança promove a abertura de novas rotas marítimas
e prospecções petrolíferas, mas também pode acirrar
disputas entre potências pelo controle.
Evidências comprovam a
urgência da luta contra o
aquecimento global
A esperança de um novo acordo
para mudar a situação está na
Conferência do Clima da ONU em
Paris, que ocorre no final do ano
por Bruno Felin
24/01/2015 | 06h02
Bote volta Ilulissat fjord, na costa da Groenlândia. O
lugar é um dos mais afetados pelas mudanças
climáticas. No Ártico, a média de declínio da camada
de gelo é de 13,3% por década. Foto: Steen Ulrik
Johannessen / AFP
O ano que passou terminou com as maiores médias de
temperatura desde que se iniciaram as medições e a
culpa é toda nossa. Só não acredita quem não quer.
A comunidade científica, pelo menos,está convencida.
Dos mais de quatro mil estudos estudos científicos que
mencionam o tema, 97% atribuem as mudanças
climáticas aos gases emitidos pelo homem. O
percentual é resultado de um levantamento feito pelo
australiano John Cook, da Universidade de
Queensland, em 2013 – portanto, é possível que tenha
crescido. É quase como perguntar a biólogos sobre a
teoria da evolução.
Em dezembro, a Conferência do Clima, que ocorrerá
em Paris, dará aos líderes políticos mundiais mais uma
oportunidade de agir pelo futuro do planeta. Espera-se
que seja assinado um acordo para estabelecer novas
4
metas de redução de emissões para valer a partir de
2020 – e substituir o Protocolo de Kyoto, que foi
amplamente descumprido até aqui.
No final de 2014, durante a última conferência em
Lima, no Peru, as discussões giraram em torno das
responsabilidades de cada nação na redução das
emissões. Uma tentativa de atender ao princípio das
“responsabilidades comuns, mas diferenciadas”.
Porém, o texto final ainda é vago, e as discussões
podem levar as obrigações de cada nação – e o nosso
futuro – para qualquer lado.
Para o astrofísico Luiz Gylvan Meira Filho, ex-vice-
presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e pesquisador da
Universidade de São Paulo, não há como fugir de um
corte brusco.
– Uma parte do problema é politica, outra é da
natureza, que não obedece a isso. Não dá para os
seres humanos contrariarem as leis da física.
Fisicamente, temos que reduizir 70% (aos níveis de
1990) até 2050 – explica Meira Filho.
Nos gráficos abaixo, as evidências demonstram a
urgência por ações:
Níveis de CO2
Os níveis de CO2 sempre variaram durante a história
da Terra. Ao respirar, as plantas retiram o CO2 da
atmosfera, ficam com o carbono e soltam oxigênio. Os
animais puxam o oxigênio e soltam CO2. Um balanço
perfeito. Durante centenas de milhares de anos, os
seres vivos foram morrendo e esse material indo cada
vez mais para o fundo da Terra. Ao ser exposto a calor
e pressão, se transformou nos combustíveis fósseis:
petróleo, gás e carvão. E aí mora o nosso problema:
todo esse carbono que demorou centenas de milhares
de anos para se formar está voltando para a atmosfera
em apenas algumas centenas de anos.
Aumento da temperatura
A temperatura oscilou durante toda a história do
planeta acompanhando os níveis de CO2 na
atmosfera. Cientistas estimam que os gases do efeito
estufa emitidos pelo homem demorem 50 anos para
começar a alterar os níveis de CO2 medidos. Por isso
é perceptível que, após a revolução industrial, a
temperatura tenha aumentado tanto.
Aumento do nível dos oceanos
O aumento do nível do mar se dá por dois fatores
relacionados ao aquecimento global: a água que vem do
derretimento do gelo da terra e a expansão natural da água
quando esquenta. Em média, o nível do mar está subindo
3.17 milímetros por ano. No último século, foram 17
centímetros.
Desmatamento
Manter as florestas de pé é fundamental para combater o
aquecimento, pois as plantas absorvem o CO2 e liberam
oxigênio.O Brasil tem a segunda maior área de florestas do
mundo, atrás apenas da Rússia, e já desmatou muito a
Amazônia. Porém, os números vêm reduzindo, somos
exemplo para outros países.
Em gráfico, veja o desmatamento da Amazônia nos
últimos anos:
5
Massa de gelo
As camadas de gelo da Antartica reduziram cerca de 147
bilhões de toneladas por ano enquanto as da Groelândia
perderam aproximadamente 258 bilhões de toneladas ao
ano. NoÁrtico, a médiadedeclíniodacamada de gelo é de
13,3% por década (relativo às médias de 1981 a 2010).
Estudo de Harvard
Nível de oceanos subiu
30% mais do que se
pensava
Mar subiu 3 milímetros por ano
nas últimas duas décadas
15/01/2015 | 11h11
Condição dos ursos polares na Baía de Hudson, no
Canadá, vem se deteriorando em função do degelo
Foto: Ver Descrição / Ver Descrição
Do início do século 20 até a década passada, o nível
dos oceanos subiu em ritmo 30% maior do que se
imaginava, de acordo com um estudo realizado por
pesquisadores da Universidade de Harvard (Estados
Unidos).
A pesquisa, publicada na última quarta-feira, na revista
Nature, confirmou as estimativas anteriores de que o
mar subiu 3 milímetros por ano nas últimas duas
décadas. Mas, enquanto as avaliações mais antigas
apontavam para uma elevação de até 1,8 milímetro
anual entre 1900 e 1990, o novo estudo indica que o
nível do mar subiu apenas 1,2 milímetro por ano
naquele período. Segundo os autores, isso significa
que a aceleração do aumento de nível dos oceanos
tem sido muito maior do que se imaginava.
– O problema é maior do que pensávamos inicialmente
– disse um dos autores do estudo, Eric Morrow, do
Departamento de Ciências Planetárias e da Terra de
Harvard, acrescentando que “a conclusão é
preocupante”.
– Isso significa que vários dos nossos modelos de
previsão têm calibração inadequada. Assim, os novos
dados nos farão questionar a precisão das projeções
feitas para o fim do século 21.
Para obter estimativas mais precisas sobre o nível
global dos oceanos desde o início do século 20, os
autores avaliaram o fenômeno de uma nova
perspectiva. Em simulações com métodos estatísticos,
levaram em consideração dados da era do gelo – cujos
efeitos ainda afetam o mar –, padrões de circulação
dos oceanos, efeitos do aumento da temperatura global
e o derretimento irregular dos mantos de gelo no
planeta.
De acordo com Carling Hay, coautora do tes das marés
- em cada área. A partir desses registros, os cientistas
calculam médias de elevação do nível dos mares em
cada região. Esses dados são então reunidos para se
chegar a uma estimativa da média global.
– Mas essas médias simples não são representativas
do valor médio global
O líquido mais precioso
Conheça cinco
tecnologias para
enfrentar a escassez de
água no mundo
A humanidade cria paliativos para
a crise da água, mas precisa
encará-la como recurso limitado
por Luísa Martins
20/10/2014 | 08h31
6
Foto: Paula Castro / Especial
Dizem que o Brasil é um país privilegiado: detém 13%
do recurso natural mais precioso da Terra, a água
doce. Ironicamente, sua a maior cidade (também a
maior da América do Sul), São Paulo, está tendo que
pedir ajuda do amigo São Pedro para não morrer de
sede até o fim do ano. Se a chuva não vier de
presente, aumentando o quase zerado nível do
Sistema Cantareira, o racionamento – já recomendado
pelo Ministério Público Federal e pela Agência Nacional
das Águas – vai ser a única alternativa para garantir o
abastecimento a mais de 8 milhões de pessoas na
capital paulista e em outras 10 cidades da região
metropolitana.
O país tem água de monte. O que não é equilibrado é a
distribuição: onde há menos gente, há mais oferta –
Amazônia, por exemplo. Enquanto isso, grandes
centros urbanos, como São Paulo, dispõem de menos
recursos hídricos para deixar rolar o líquido de
torneiras, duchas e mangueiras.
"Menos" não significaria escassez caso as águas do
Brasil não sofressem de um mal secular: a poluição.
Fosse diferente, não seria preciso rezar pela chuva
nem cogitar – mediante tecnologias caras – tornar
potável a água salgada, que corresponde a 97% do
líquido disponível na Terra.
– O Rio Tietê, por exemplo: está podre. Aquela água
toda serviria para São Paulo, mas não pode ser
utilizada – lamenta o coordenador do Instituto de
Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (IPH/UFRGS), André Silveira.
Os efeitos da poluição comprometem o título que a
América do Sul carrega de continente mais rico do
planeta em recursos hídricos, segundo a ONU e o
Banco Mundial. Em uma perspectiva econômica, custa
menos puxar água limpa de longe do que investir no
tratamento da água de um rio sujo como o Tietê, afirma
o professor Silveira. E a situação está longe de ser
exclusiva do mais importante rio paulista. No Rio
Grande do Sul, as bacias dos rios dos Sinos e
Gravataí, além do próprio Arroio Dilúvio, estão andando
pelo mesmo caminho.
A ciência tem trabalhado para curar as doenças dos
rios (veja algumas propostas no infográfico abaixo), na
contramão da ação do homem, que insiste em não
preservar seus mananciais, possivelmente por conta da
abundância. Afinal, se tem de sobra, por que cuidar?
– Uma água já preservada na origem torna-se potável
muito mais facilmente e de forma mais barata – justifica
Silveira, que vê descompasso entre investimento em
saneamento e crescimento populacional no país: água
até sobra, mas o planejamento falha.
– O problema do Brasil, no fim das contas, é de gestão
– resume.
O diretor-presidente da Agência Nacional das Águas
(ANA), Vicente Andreu, afirma que, embora 97% da
população urbana do país tenha acesso à rede de
abastecimento, há irregularidade no fornecimento e má
qualidade da água. Exemplo: no máximo 20% do
esgoto coletado recebe tratamento – o resto é lançado
nos corpos d'água. Até 2025, metade dos municípios
brasileiros pode ter prejuízos nos seus mananciais,
reservatórios, rios e águas subterrâneas.
– A água não tem a relevância que merece, seja na
tomada de decisões, seja em questões pequenas,
como os hábitos pessoais – opina Silveira.
7
8
A agenda de cada um
Frente a um cenário preocupante, são necessários
alguns passos para garantir o abastecimento de água
no futuro. O mais fundamental deles é ampliar a prática
do reúso de água.
– Os desperdícios são enormes em todos os
segmentos: nas grandes empresas, na agricultura e
nas residências – enumera o engenheiro agrônomo,
ex-secretário de Recursos Hídricos, Saneamento e
Obras do Estado de São Paulo e coordenador de
Articulação e Comunicação da Agência Nacional das
Águas, Antônio Félix Domingues.
Articular a engenharia hídrica com a arquitetura pode
ser uma boa saída para o reaproveitamento. Um
exemplo é a instalação de calhas para coleta de chuva
– uma água que, embora não sirva para beber, tomar
banho ou cozinhar, pode ser usada para regar a horta,
limpar pisos e lavar carros.
– Usar água tratada para essas atividades é o símbolo
do mau uso – diz a professora Adriene Pereira, da
Faculdade de Engenharia da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), especialista
em recursos hídricos.
Ela defende que, assim como a Eco-92 estabeleceu
uma agenda mundial – a Agenda 21 – para proteção
da qualidade dos recursos de água doce em escala
global, é preciso que cada um pense em sua própria
realidade e estabeleça uma agenda pessoal de
consumo consciente. A começar pelas dicas básicas:
desligar o chuveiro enquanto se ensaboa e escovar os
dentes com a torneira desligada.
Além disso, atenção (de novo) ao descarte de resíduos
contaminantes nas águas.
– A água é o receptor universal dos poluentes. É para
onde toda a gororoba vai. Isso pode começar a ser
revertido se as pessoas passarem a, além de evitar o
desperdício, dar destino certo ao seu próprio lixo –
explica Adriene.
No início da década de 1990, o vulcão Pinatubo, nas
Filipinas, entrou em erupção e protagonizou uma das
maiores explosões do século 20. Com a ação, foram
lançadas à atmosfera milhões de toneladas de dióxido
de enxofre, em um evento que derrubou, pelos três
anos seguintes, as temperaturas médias da Terra em
quase 0,5°C.
Por reação natural, as partículas que ficaram
suspensas no ar ajudaram a refletir a radiação que
incide no planeta de volta para o espaço. O evento
lançou luz a uma alternativa até então pouco
explorada: reproduzir o evento, artificialmente, como
uma forma de frear o aquecimento global.
Não demorou muito para que cientistas ao redor do
mundo começassem a pensar em estratégias para
colocar o projeto em prática. Foram criados projetos de
aviões, balões gigantes e até navios que seriam postos
em ação, pulverizando gotas de ácido sulfúrico na
estratosfera.
A ideia, capaz de desafiar até a mente dos maiores
escritores de ficção científica, já não parece estar tão
longe. Faz parte de um conjunto de técnicas de
manipulação da natureza em larga escala batizada de
geoengenharia, uma área de estudo que vêm
desenvolvendo jeitos de modificar o ambiente e o
sistema climático para combater o aquecimento global.
Algumas dessas técnicas já foram propostas e
estudadas desde a década de 1970. Vai desde a
colocação de espelhos gigantes em órbita no planeta
(o que refletiria os raios solares), a criação de florestas
de árvores artificiais (capazes de absorver mais CO2
que as naturais), até mudanças no fundo do mar, como
fertilizar os oceanos com ferro (para estimular o
crescimento de fitoplânctons e absorver o dióxido de
carbono).
David Keith, físico da Universidade de Harvard, afirma
que a geoengenharia pode ser uma ferramenta
extremamente poderosa para amenizar os efeitos do
aquecimento global. Mas suas opiniões não são
unanimidade no meio acadêmico.Durante muito tempo
considerado mera especulação, essas opções hoje
avançam dentro e fora de laboratórios e dividem
pesquisadores. Enquanto alguns condenam os riscos
de interferir na natureza desta forma, outros afirmam
que, se as concentrações de carbono na atmosfera
alcançarem um estágio crítico, a geoengenharia será a
única forma de controlar nosso clima. E esse patamar
está próximo de se tornar realidade.
O momento é de cautela
Conforme o 5º e último relatório do Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na
sigla em inglês), divulgado em novembro de 2014, as
9
emissões dos principais gases que provocam o efeito
estufa estão no maior nível em 800 mil anos e, se não
houver uma ação imediata, em pouco tempo as
mudanças climáticas causarão impactos graves e
irreversíveis no mundo.
Para que a elevação da temperatura média da Terra
não ultrapasse os 2ºC – meta da comunidade
internacional – os governos precisariam reduzir a zero
a emissão desses gases até 2100, detalhou o relatório.
Não à toa, neste mesmo ano, o IPCC passou a
mencionar a Geoengenharia como uma ciência que
poderia prover soluções importantes para mitigar as
alterações, mas que demanda mais pesquisas.
Para o astrofísico Luiz Gylvan Meira Filho, ex-vice-
presidente do IPCC e pesquisador do Instituto de
Estudos Avançados da Universidade de São Paulo,
somente reduzir as emissões de gases de efeito estufa
já não é mais suficiente para reverter o aquecimento
global.
— Um pouco de geoengenharia será necessário
inevitavelmente. Acredito que essas técnicas podem
ajudar. Há que proceder com cautela, para evitar a
criação de problemas ainda maiores — pondera.
Uma das principais críticas à geoengenharia está nas
incertezas que ainda se tem quanto às consequências
de alterar os padrões naturais da Terra. No caso das
nuvens de ácido sulfúrico, especula-se que poderiam
piorar a seca do planeta e até provocar um
esgotamento da camada de ozônio.
Por isso, na mesma proporção em que vêm ganhando
investimentos para pesquisa, as propostas despertam
o interesse de organizações ambientais que, em sua
maioria, não as vêem com bons olhos.
Em dezembro de 2014, a organização não-
governamental canadense ETC Group divulgou um
relatório afirmando que determinadas técnicas podem
até ser benéficas na redução da temperatura em
algumas áreas do planeta, mas poderão trazer
impactos negativos em continentes como a África, com
importantes consequências sociais e agrícolas.
O problema, explica Anibal Gusso, professor de
climatologia da Unisinos, é que estas e outras
possíveis consequências são meras especulações, e
não se sabe ainda quais seriam os reais efeitos
colaterais a médio e longo prazo. Meira Filho defende
que as pesquisas devem seguir, mas que os testes,
fora de laboratórios, devem ser feitos em pequena
escala:
— Sabemos que os riscos dependem da técnica. De
um modo geral, as estratégias de modificação do
balanço de energia solar podem ter outras
consequências não previstas e, portanto, devem ser
desenvolvidas em pequena escala até que os outros
efeitos sejam bem entendidos e os riscos eliminados —
afirma Meira Filho.
Para Gylvan, há um risco real, mas nem por isso as
pesquisas devem ser abandonadas. É o que defende o
climatologista Anibal Gusso:
— Os estudos não devem deixar de acontecer, mas a
prioridade, quando o tema é aquecimento global, deve
ser outra. É preciso pensar em alternativas para mitigar
os efeitos em termos de redução de consumo, de
tecnologias renováveis e eficiência energética, ou seja,
estratégias para que a energia seja mais limpa e
melhor aproveitada — resume Gusso.
As pesquisas dentro de laboratórios seguem
recebendo investimentos ao redor do mundo — em
2012, a China situou a geoengenharia entre suas
prioridades em pesquisa sobre as ciências da terra.
Mas, atualmente, só são permitidos testes na natureza
de pequena escala, que não afetem a biodiversidade,
conforme uma regra determinada pela Convenção da
ONU sobre Biodiversidade, de 2010.
*Com informações de Henry Fountain, do The New
York Times
//// 4 perguntas para David Keith - Físico
Pesquisador da Universidade de Harvard e um dos
defensores mais entusiasmados da pesquisa sobre
geoengenharia solar é autor do livro A Case for Climate
Engineering (sem tradução para o português), no qual
explica os aspectos práticos desta estratégia. Por e-
mail, ele conversou com ZH.
A geoengenharia não poderia distraira população
contra o problema real,que é o nosso estilo de vida e
a quantidadedepoluição queproduzimos?
Esta questãoé uma das principaispreocupaçõesque
temos.Noentanto,eunãoacreditoque sejaum
argumentoválidoparair contra o avançonas
pesquisassobre geoengenharia.Parafrearos riscos
que as mudançasclimáticasirãotrazer a longoprazo,
causadopelasemissõesde dióxidode carbono,
10
teríamosde reduzirazero essasemissões.A metada
geoengenhariasolardeve serdiminuirataxa com que
a atmosferaestáse aquecendoporcausa das
alteraçõesclimáticas,nãorevertê-la.
Essastécnicas de geoengenharia acarretamefeitos
globais,e não locais,o que podegeraruma
discordância entrepaíses,correto?Como isso seria
contornado?
Claroque vai gerar desacordoentre ospaíses,essaé
uma das maiorespreocupações.Noentanto,comoo
custo deste tipode estratégiaé relativamente barato,
e a eficáciaparece serrelativamente igualparatodos,
acreditoque é um problemade governançamaisfácil
de resolverdoque muitosoutros.Certamente nãoé
verdade que cadapaís temque concordar.O mundo
possui políticasgovernamentaisde regulamentação
da internet,dapoluiçãoclimáticae marinha,entre
outros,semque todosconcordem.
Pesquisadoresjá fizeramtestescoma injeção de
aerossóisdeácido sulfúrico na estratosfera.Quaissão
os riscose asdesvantagens desta técnica?
É difícil resumirisso,poissãomaisde 20 artigos
científicosque dissertamsobre otema.Oque posso
dizeré que o saldoatual dasevidênciassugereque a
geoengenhariasolar,se aplicadade formalimitadae
com cautela,reduziriasignificativamente riscos
climáticosnamaioriadoslugaresnomundo.
Quando eem quetermos a geoengenharia podese
tornaruma realidadepara reduzir o impacto das
mudançasclimáticas?
Infelizmente,eunãotenhoideia.·.
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Mudanças climáticas se tornam debate urgente em 2014

  • 1. 1 Mudanças climáticas se tornam debate urgente em 2014 Mesmo no mais destacado bastião do ceticismo, os Estados Unidos, aumenta o consenso de que o planeta corre perigo e que a reação deve começar já por Letícia Duarte 02/08/2014 | 15h06 Mapa da nasa mostrando as temperaturas acima (cores quentes) e abaixo (cores frias) da média história em junho de 2014 Foto: Gabriel Renner / Arte ZH No calendário das mudanças climáticas, 2014 poderia ser assinalado como o ano em que os céticos da responsabilidade humana no aquecimento global entraram de vez para o grupo das espécies em extinção. Pelo menos em credibilidade, seus argumentos se derreteram bem antes do que o gelo marinho do Ártico. Em uma declaração emblemática do momento atual, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, comparou os que ainda negam o fenômeno aos que antes pensavam que a Lua era feita de queijo. Foi em junho, quando anunciou US$ 1 bilhão para financiar medidas que atenuem as mudanças climáticas. Embora os Estados Unidos continuem entre os três países do mundo não signatários das convenções de clima – ao lado do Vaticano e de Andorra –, o pacote ambiental mostra que até a nação mais poderosa do planeta começa a se curvar à pilha de evidências científicas que comprovam que a Terra está febril. E que a culpa é nossa. Não por acaso, o anúncio ocorreu após a divulgação dos dois últimos relatórios da quinta edição do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, em março e abril deste ano. Com a participação de mais de 800 pesquisadores de 130 países, o estudo prevê que as emissões de gases causadores do efeito estufa elevarão a temperatura média do planeta entre 2,6°C e 4,8°C até o fim do século. E conclui, com “95% de certeza”, que o homem foi o principal responsável pela elevação das temperaturas, especialmente a partir de 1950. – Os que negam a mudança climática sugerem que ainda existe debate científico, mas não existe – definiu Obama, considerando encerrada a polêmica. As projeções feitas pelo Painel de Mudanças Climáticas da ONU são tão contundentes que ignorá- las virou um risco. A elevação da temperatura é associada a riscos crescentes de eventos climáticos extremos, infestação de doenças associadas a mosquitos, falta de água e de alimentos. Nada muito diferente do que cientistas já vinham alertando, mas com cada vez maior base de confiabilidade. E de urgência. – 2014 é um ano importante nessa discussão de mudanças climáticas. Chegamos ao quinto relatório do IPCC e ele deixa claro que a gente já ultrapassou o ponto em que a mitigação das emissões de poluentes seria suficiente para reverter o quadro. Agora precisamos falar em adaptações. Mesmo que parassem todas as emissões, pelos próximos cem anos ainda sentiríamos os efeitos – argumenta Fabio Scarano, vice-presidente sênior da divisão Américas da Conservação Internacional e professor da UFRJ, que foi um dos responsáveis pelo capítulo da América Central e do Sul do IPCC. Os sintomas estão em toda parte. Porto Alegre teve o janeiro mais quente de sua história e, atualmente, São Paulo sofre com a falta crônica de água. Situações que tendem a se agravar nas próximas décadas, com mais enchentes na região Sul, seca no Sudeste e riscos de desertificação em regiões da Amazônia e do Nordeste. Mas, claro, nada é tão ruim que não possa piorar. O professor Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da USP, explica que o aumento da concentração de gás carbônico na atmosfera tem como consequência uma espécie de “obesidade vegetal”. Assim, apesar de as plantas crescerem mais, por fazerem mais fotossíntese com o CO2, perdem nutrientes, porque a concentração de nitrogênio é reduzida. A se confirmarem as previsões de que a concentração de gás carbônico na atmosfera dobrará
  • 2. 2 até 2080, o percentual de nitrogênio das plantas cairá 7%, afetando a qualidade agrícola. – Talvez seja preciso mudar o cultivo das regiões, e isso custa dinheiro. É o custo da mudança climática. A qualidade da soja vai baixar, o alimento pode se tornar mais caro, o que pode levar a problemas econômicos, porque a qualidade esperada pelo comprador pode não ser correspondida – enumera Buckeridge. Em vez de se ater a um discurso apocalíptico, no entanto, os pesquisadores preferem mirar nas oportunidades de uma virada sustentável. Visto como um bom exemplo ambiental no cenário global, o Brasil teria chance de ser protagonista da mudança. – O Brasil é o celeiro do mundo, poderíamos aproveitar este momento para produzir mais comida. Para isso, precisaríamos de uma nova revolução verde, investindo em técnicas de biologia molecular – defende Buckeridge. A virada também passa por mudança nas fontes de energia. Segundo Suzana Kahn, professora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da UFRJ e vice-presidente do IPCC, 80% do aumento das emissões dos gases do efeito estufa se deve à queima de combustíveis fósseis, o que torna a questão do aquecimento global um problema no uso de energia. E os obstáculos para a transição são mais de natureza econômica do que tecnológica. – As tecnologias existem. Temos veículos elétricos, biocombustíveis, energia solar. Não precisamos descobrir nada novo, mas passa por uma questão de economia, de mudar o modelo, retirar subsídios de setores poluentes. Com isso já é possível reduzir significativamente as emissões. Algumas mudanças já estão acontecendo, tanto que, mesmo com a crise, foram as energias renováveis as que mais cresceram – pondera Suzana. Colocar a culpa nos custos não serve como desculpa para a inércia. Fabio Scarano, da Conservação Internacional, lembra que medidas baratas como proteger os mangues podem ser tão eficazes como construir caríssimos diques para conter a elevação do nível dos oceanos. – Ficou provado que,quando o tsunami atingiu as ilhas do Pacífico, as que tinham mais cobertura vegetal na costa sofreram menos impacto do que as que não tinham – exemplifica Scarano. Diante das adversidades climáticas, a gestão das cidades precisará ser repensada para evitar o caos. Em vez de agir nas emergências e se espantar com cada “chuva histórica”, governantes precisarão investir em planos de contenção de longo prazo. – Existe uma tendência de culpar a natureza, mas onde as pessoas mais atingidas costumam morar? Geralmente em áreas de risco, com drenagem negligenciada ao longo dos anos. A mudança no clima vai exigir outra maneira de pensar nas ações, especialmente na gestão pública. É uma mudança global, mas requer ações locais – defende o biólogo Jackson Müller, professor da Unisinos. Aos que preferem criticar o IPCC como instrumento político, o climatologista do Centro Polar e Climático e chefe do Departamento de Geografia da UFRGS, Francisco Aquino, contrapõe com a ciência: – Que decisão os governos vão tomar com base no relatório, a ciência não opina. A ciência não tem lado. É uma resposta, soma dois com dois e dá quatro. Essa minoria cética não tem nada de substancial na produção científica internacional. Não é que a gente não os queira, a gente não tem como considerar. Os prognósticos indicam que os mais pobres serão inicialmente os mais impactados pelas mudanças, mas o problema está longe de ser uma questão de classe: não há imunidade climática. – Se a sociedade quiser virar as costas e achar esse problema não vai chegar na sua casa será um grande engano, porque isso já está no quintal de todo mundo. É um fenômeno global. Não tem como escapar – alerta Aquino Junho deste ano foi o mais quente desde 1880 Basta olhar para o mapa de anomalias climáticas produzido pela Nasa (na ilustração deste post) para enxergar como o planeta está esquentando. A temperatura média em junho de 2013 ficou 0,61ºC acima do padrão histórico entre 1951 e 1980. Na ilustração, é possível identificar os pontos de aquecimento, assinalados pelas cores amarelo, laranja e vermelho. O Brasil acompanha a onda. Na maior parte do Rio Grande do Sul, a temperatura média ficou 1ºC acima da média. Outra medição, feita pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos
  • 3. 3 Estados Unidos (NOAA), mostra que a temperatura média no mês de junho deste ano foi a mais quente desde que os registros começaram, em 1880. O MUNDO COM FEBRE > O Brasil está aquecendo em todas as regiões, com chuvas irregulares. No Rio Grande do Sul, a tendência é mais calor e chuva: além da elevação das temperaturas, que fez Porto Alegre registrar em 2014 o janeiro mais quente desde o início das medições, em 1916, o volume de precipitações já aumentou 8% em relação aos padrões históricos de 1945 até 1974. > Os Estados Unidos enfrentam uma das piores secas de sua história recente. Em maio, mais de 30% do país registrava seca, tendo pelo menos sete Estados com estiagem severa em metade do território. Em compensação, junho deste ano foi o sexto mais úmido desde que as medições nacionais começaram, em 1895. > As emissões crescentes de gases de efeito estufa aumentarão significativamente o risco de inundações na Europa, especialmente na região litorânea. Já no sul do continente a seca deve se acentuar, reduzindo a disponibilidade de água, afetando a produtividade agrícola. > Até 2020, projeta-se que entre 75 e 250 milhões de pessoas sejam expostas à maior escassez de água na África, com redução de até 50% na produção agrícola irrigada pela chuva e ameaças de desertificação. > Na Ásia, o derretimento das geleiras no Himalaia deve aumentar as inundações e avalanches de pedras de encostas. As cheias ameaçam mortalidade endêmica por diarreia e cólera. Bangladesh é um dos países mais ameaçados: até 2050, pode perder 17% de seu território pela elevação do nível do mar, o que obrigaria o deslocamento de 18 milhões de pessoas. > Previsão de agravamento de períodos de seca na Austrália. Em junho deste ano, choveu 28% da média normal para o mês no oeste do país. Problemas de falta de água devem se intensificar até 2030, com perda significativa de biodiversidade. > Se continuar neste ritmo, há risco de que, em 2050, o Ártico não tenha mais gelo marinho. A mudança promove a abertura de novas rotas marítimas e prospecções petrolíferas, mas também pode acirrar disputas entre potências pelo controle. Evidências comprovam a urgência da luta contra o aquecimento global A esperança de um novo acordo para mudar a situação está na Conferência do Clima da ONU em Paris, que ocorre no final do ano por Bruno Felin 24/01/2015 | 06h02 Bote volta Ilulissat fjord, na costa da Groenlândia. O lugar é um dos mais afetados pelas mudanças climáticas. No Ártico, a média de declínio da camada de gelo é de 13,3% por década. Foto: Steen Ulrik Johannessen / AFP O ano que passou terminou com as maiores médias de temperatura desde que se iniciaram as medições e a culpa é toda nossa. Só não acredita quem não quer. A comunidade científica, pelo menos,está convencida. Dos mais de quatro mil estudos estudos científicos que mencionam o tema, 97% atribuem as mudanças climáticas aos gases emitidos pelo homem. O percentual é resultado de um levantamento feito pelo australiano John Cook, da Universidade de Queensland, em 2013 – portanto, é possível que tenha crescido. É quase como perguntar a biólogos sobre a teoria da evolução. Em dezembro, a Conferência do Clima, que ocorrerá em Paris, dará aos líderes políticos mundiais mais uma oportunidade de agir pelo futuro do planeta. Espera-se que seja assinado um acordo para estabelecer novas
  • 4. 4 metas de redução de emissões para valer a partir de 2020 – e substituir o Protocolo de Kyoto, que foi amplamente descumprido até aqui. No final de 2014, durante a última conferência em Lima, no Peru, as discussões giraram em torno das responsabilidades de cada nação na redução das emissões. Uma tentativa de atender ao princípio das “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”. Porém, o texto final ainda é vago, e as discussões podem levar as obrigações de cada nação – e o nosso futuro – para qualquer lado. Para o astrofísico Luiz Gylvan Meira Filho, ex-vice- presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e pesquisador da Universidade de São Paulo, não há como fugir de um corte brusco. – Uma parte do problema é politica, outra é da natureza, que não obedece a isso. Não dá para os seres humanos contrariarem as leis da física. Fisicamente, temos que reduizir 70% (aos níveis de 1990) até 2050 – explica Meira Filho. Nos gráficos abaixo, as evidências demonstram a urgência por ações: Níveis de CO2 Os níveis de CO2 sempre variaram durante a história da Terra. Ao respirar, as plantas retiram o CO2 da atmosfera, ficam com o carbono e soltam oxigênio. Os animais puxam o oxigênio e soltam CO2. Um balanço perfeito. Durante centenas de milhares de anos, os seres vivos foram morrendo e esse material indo cada vez mais para o fundo da Terra. Ao ser exposto a calor e pressão, se transformou nos combustíveis fósseis: petróleo, gás e carvão. E aí mora o nosso problema: todo esse carbono que demorou centenas de milhares de anos para se formar está voltando para a atmosfera em apenas algumas centenas de anos. Aumento da temperatura A temperatura oscilou durante toda a história do planeta acompanhando os níveis de CO2 na atmosfera. Cientistas estimam que os gases do efeito estufa emitidos pelo homem demorem 50 anos para começar a alterar os níveis de CO2 medidos. Por isso é perceptível que, após a revolução industrial, a temperatura tenha aumentado tanto. Aumento do nível dos oceanos O aumento do nível do mar se dá por dois fatores relacionados ao aquecimento global: a água que vem do derretimento do gelo da terra e a expansão natural da água quando esquenta. Em média, o nível do mar está subindo 3.17 milímetros por ano. No último século, foram 17 centímetros. Desmatamento Manter as florestas de pé é fundamental para combater o aquecimento, pois as plantas absorvem o CO2 e liberam oxigênio.O Brasil tem a segunda maior área de florestas do mundo, atrás apenas da Rússia, e já desmatou muito a Amazônia. Porém, os números vêm reduzindo, somos exemplo para outros países. Em gráfico, veja o desmatamento da Amazônia nos últimos anos:
  • 5. 5 Massa de gelo As camadas de gelo da Antartica reduziram cerca de 147 bilhões de toneladas por ano enquanto as da Groelândia perderam aproximadamente 258 bilhões de toneladas ao ano. NoÁrtico, a médiadedeclíniodacamada de gelo é de 13,3% por década (relativo às médias de 1981 a 2010). Estudo de Harvard Nível de oceanos subiu 30% mais do que se pensava Mar subiu 3 milímetros por ano nas últimas duas décadas 15/01/2015 | 11h11 Condição dos ursos polares na Baía de Hudson, no Canadá, vem se deteriorando em função do degelo Foto: Ver Descrição / Ver Descrição Do início do século 20 até a década passada, o nível dos oceanos subiu em ritmo 30% maior do que se imaginava, de acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Harvard (Estados Unidos). A pesquisa, publicada na última quarta-feira, na revista Nature, confirmou as estimativas anteriores de que o mar subiu 3 milímetros por ano nas últimas duas décadas. Mas, enquanto as avaliações mais antigas apontavam para uma elevação de até 1,8 milímetro anual entre 1900 e 1990, o novo estudo indica que o nível do mar subiu apenas 1,2 milímetro por ano naquele período. Segundo os autores, isso significa que a aceleração do aumento de nível dos oceanos tem sido muito maior do que se imaginava. – O problema é maior do que pensávamos inicialmente – disse um dos autores do estudo, Eric Morrow, do Departamento de Ciências Planetárias e da Terra de Harvard, acrescentando que “a conclusão é preocupante”. – Isso significa que vários dos nossos modelos de previsão têm calibração inadequada. Assim, os novos dados nos farão questionar a precisão das projeções feitas para o fim do século 21. Para obter estimativas mais precisas sobre o nível global dos oceanos desde o início do século 20, os autores avaliaram o fenômeno de uma nova perspectiva. Em simulações com métodos estatísticos, levaram em consideração dados da era do gelo – cujos efeitos ainda afetam o mar –, padrões de circulação dos oceanos, efeitos do aumento da temperatura global e o derretimento irregular dos mantos de gelo no planeta. De acordo com Carling Hay, coautora do tes das marés - em cada área. A partir desses registros, os cientistas calculam médias de elevação do nível dos mares em cada região. Esses dados são então reunidos para se chegar a uma estimativa da média global. – Mas essas médias simples não são representativas do valor médio global O líquido mais precioso Conheça cinco tecnologias para enfrentar a escassez de água no mundo A humanidade cria paliativos para a crise da água, mas precisa encará-la como recurso limitado por Luísa Martins 20/10/2014 | 08h31
  • 6. 6 Foto: Paula Castro / Especial Dizem que o Brasil é um país privilegiado: detém 13% do recurso natural mais precioso da Terra, a água doce. Ironicamente, sua a maior cidade (também a maior da América do Sul), São Paulo, está tendo que pedir ajuda do amigo São Pedro para não morrer de sede até o fim do ano. Se a chuva não vier de presente, aumentando o quase zerado nível do Sistema Cantareira, o racionamento – já recomendado pelo Ministério Público Federal e pela Agência Nacional das Águas – vai ser a única alternativa para garantir o abastecimento a mais de 8 milhões de pessoas na capital paulista e em outras 10 cidades da região metropolitana. O país tem água de monte. O que não é equilibrado é a distribuição: onde há menos gente, há mais oferta – Amazônia, por exemplo. Enquanto isso, grandes centros urbanos, como São Paulo, dispõem de menos recursos hídricos para deixar rolar o líquido de torneiras, duchas e mangueiras. "Menos" não significaria escassez caso as águas do Brasil não sofressem de um mal secular: a poluição. Fosse diferente, não seria preciso rezar pela chuva nem cogitar – mediante tecnologias caras – tornar potável a água salgada, que corresponde a 97% do líquido disponível na Terra. – O Rio Tietê, por exemplo: está podre. Aquela água toda serviria para São Paulo, mas não pode ser utilizada – lamenta o coordenador do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IPH/UFRGS), André Silveira. Os efeitos da poluição comprometem o título que a América do Sul carrega de continente mais rico do planeta em recursos hídricos, segundo a ONU e o Banco Mundial. Em uma perspectiva econômica, custa menos puxar água limpa de longe do que investir no tratamento da água de um rio sujo como o Tietê, afirma o professor Silveira. E a situação está longe de ser exclusiva do mais importante rio paulista. No Rio Grande do Sul, as bacias dos rios dos Sinos e Gravataí, além do próprio Arroio Dilúvio, estão andando pelo mesmo caminho. A ciência tem trabalhado para curar as doenças dos rios (veja algumas propostas no infográfico abaixo), na contramão da ação do homem, que insiste em não preservar seus mananciais, possivelmente por conta da abundância. Afinal, se tem de sobra, por que cuidar? – Uma água já preservada na origem torna-se potável muito mais facilmente e de forma mais barata – justifica Silveira, que vê descompasso entre investimento em saneamento e crescimento populacional no país: água até sobra, mas o planejamento falha. – O problema do Brasil, no fim das contas, é de gestão – resume. O diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA), Vicente Andreu, afirma que, embora 97% da população urbana do país tenha acesso à rede de abastecimento, há irregularidade no fornecimento e má qualidade da água. Exemplo: no máximo 20% do esgoto coletado recebe tratamento – o resto é lançado nos corpos d'água. Até 2025, metade dos municípios brasileiros pode ter prejuízos nos seus mananciais, reservatórios, rios e águas subterrâneas. – A água não tem a relevância que merece, seja na tomada de decisões, seja em questões pequenas, como os hábitos pessoais – opina Silveira.
  • 7. 7
  • 8. 8 A agenda de cada um Frente a um cenário preocupante, são necessários alguns passos para garantir o abastecimento de água no futuro. O mais fundamental deles é ampliar a prática do reúso de água. – Os desperdícios são enormes em todos os segmentos: nas grandes empresas, na agricultura e nas residências – enumera o engenheiro agrônomo, ex-secretário de Recursos Hídricos, Saneamento e Obras do Estado de São Paulo e coordenador de Articulação e Comunicação da Agência Nacional das Águas, Antônio Félix Domingues. Articular a engenharia hídrica com a arquitetura pode ser uma boa saída para o reaproveitamento. Um exemplo é a instalação de calhas para coleta de chuva – uma água que, embora não sirva para beber, tomar banho ou cozinhar, pode ser usada para regar a horta, limpar pisos e lavar carros. – Usar água tratada para essas atividades é o símbolo do mau uso – diz a professora Adriene Pereira, da Faculdade de Engenharia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), especialista em recursos hídricos. Ela defende que, assim como a Eco-92 estabeleceu uma agenda mundial – a Agenda 21 – para proteção da qualidade dos recursos de água doce em escala global, é preciso que cada um pense em sua própria realidade e estabeleça uma agenda pessoal de consumo consciente. A começar pelas dicas básicas: desligar o chuveiro enquanto se ensaboa e escovar os dentes com a torneira desligada. Além disso, atenção (de novo) ao descarte de resíduos contaminantes nas águas. – A água é o receptor universal dos poluentes. É para onde toda a gororoba vai. Isso pode começar a ser revertido se as pessoas passarem a, além de evitar o desperdício, dar destino certo ao seu próprio lixo – explica Adriene. No início da década de 1990, o vulcão Pinatubo, nas Filipinas, entrou em erupção e protagonizou uma das maiores explosões do século 20. Com a ação, foram lançadas à atmosfera milhões de toneladas de dióxido de enxofre, em um evento que derrubou, pelos três anos seguintes, as temperaturas médias da Terra em quase 0,5°C. Por reação natural, as partículas que ficaram suspensas no ar ajudaram a refletir a radiação que incide no planeta de volta para o espaço. O evento lançou luz a uma alternativa até então pouco explorada: reproduzir o evento, artificialmente, como uma forma de frear o aquecimento global. Não demorou muito para que cientistas ao redor do mundo começassem a pensar em estratégias para colocar o projeto em prática. Foram criados projetos de aviões, balões gigantes e até navios que seriam postos em ação, pulverizando gotas de ácido sulfúrico na estratosfera. A ideia, capaz de desafiar até a mente dos maiores escritores de ficção científica, já não parece estar tão longe. Faz parte de um conjunto de técnicas de manipulação da natureza em larga escala batizada de geoengenharia, uma área de estudo que vêm desenvolvendo jeitos de modificar o ambiente e o sistema climático para combater o aquecimento global. Algumas dessas técnicas já foram propostas e estudadas desde a década de 1970. Vai desde a colocação de espelhos gigantes em órbita no planeta (o que refletiria os raios solares), a criação de florestas de árvores artificiais (capazes de absorver mais CO2 que as naturais), até mudanças no fundo do mar, como fertilizar os oceanos com ferro (para estimular o crescimento de fitoplânctons e absorver o dióxido de carbono). David Keith, físico da Universidade de Harvard, afirma que a geoengenharia pode ser uma ferramenta extremamente poderosa para amenizar os efeitos do aquecimento global. Mas suas opiniões não são unanimidade no meio acadêmico.Durante muito tempo considerado mera especulação, essas opções hoje avançam dentro e fora de laboratórios e dividem pesquisadores. Enquanto alguns condenam os riscos de interferir na natureza desta forma, outros afirmam que, se as concentrações de carbono na atmosfera alcançarem um estágio crítico, a geoengenharia será a única forma de controlar nosso clima. E esse patamar está próximo de se tornar realidade. O momento é de cautela Conforme o 5º e último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), divulgado em novembro de 2014, as
  • 9. 9 emissões dos principais gases que provocam o efeito estufa estão no maior nível em 800 mil anos e, se não houver uma ação imediata, em pouco tempo as mudanças climáticas causarão impactos graves e irreversíveis no mundo. Para que a elevação da temperatura média da Terra não ultrapasse os 2ºC – meta da comunidade internacional – os governos precisariam reduzir a zero a emissão desses gases até 2100, detalhou o relatório. Não à toa, neste mesmo ano, o IPCC passou a mencionar a Geoengenharia como uma ciência que poderia prover soluções importantes para mitigar as alterações, mas que demanda mais pesquisas. Para o astrofísico Luiz Gylvan Meira Filho, ex-vice- presidente do IPCC e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, somente reduzir as emissões de gases de efeito estufa já não é mais suficiente para reverter o aquecimento global. — Um pouco de geoengenharia será necessário inevitavelmente. Acredito que essas técnicas podem ajudar. Há que proceder com cautela, para evitar a criação de problemas ainda maiores — pondera. Uma das principais críticas à geoengenharia está nas incertezas que ainda se tem quanto às consequências de alterar os padrões naturais da Terra. No caso das nuvens de ácido sulfúrico, especula-se que poderiam piorar a seca do planeta e até provocar um esgotamento da camada de ozônio. Por isso, na mesma proporção em que vêm ganhando investimentos para pesquisa, as propostas despertam o interesse de organizações ambientais que, em sua maioria, não as vêem com bons olhos. Em dezembro de 2014, a organização não- governamental canadense ETC Group divulgou um relatório afirmando que determinadas técnicas podem até ser benéficas na redução da temperatura em algumas áreas do planeta, mas poderão trazer impactos negativos em continentes como a África, com importantes consequências sociais e agrícolas. O problema, explica Anibal Gusso, professor de climatologia da Unisinos, é que estas e outras possíveis consequências são meras especulações, e não se sabe ainda quais seriam os reais efeitos colaterais a médio e longo prazo. Meira Filho defende que as pesquisas devem seguir, mas que os testes, fora de laboratórios, devem ser feitos em pequena escala: — Sabemos que os riscos dependem da técnica. De um modo geral, as estratégias de modificação do balanço de energia solar podem ter outras consequências não previstas e, portanto, devem ser desenvolvidas em pequena escala até que os outros efeitos sejam bem entendidos e os riscos eliminados — afirma Meira Filho. Para Gylvan, há um risco real, mas nem por isso as pesquisas devem ser abandonadas. É o que defende o climatologista Anibal Gusso: — Os estudos não devem deixar de acontecer, mas a prioridade, quando o tema é aquecimento global, deve ser outra. É preciso pensar em alternativas para mitigar os efeitos em termos de redução de consumo, de tecnologias renováveis e eficiência energética, ou seja, estratégias para que a energia seja mais limpa e melhor aproveitada — resume Gusso. As pesquisas dentro de laboratórios seguem recebendo investimentos ao redor do mundo — em 2012, a China situou a geoengenharia entre suas prioridades em pesquisa sobre as ciências da terra. Mas, atualmente, só são permitidos testes na natureza de pequena escala, que não afetem a biodiversidade, conforme uma regra determinada pela Convenção da ONU sobre Biodiversidade, de 2010. *Com informações de Henry Fountain, do The New York Times //// 4 perguntas para David Keith - Físico Pesquisador da Universidade de Harvard e um dos defensores mais entusiasmados da pesquisa sobre geoengenharia solar é autor do livro A Case for Climate Engineering (sem tradução para o português), no qual explica os aspectos práticos desta estratégia. Por e- mail, ele conversou com ZH. A geoengenharia não poderia distraira população contra o problema real,que é o nosso estilo de vida e a quantidadedepoluição queproduzimos? Esta questãoé uma das principaispreocupaçõesque temos.Noentanto,eunãoacreditoque sejaum argumentoválidoparair contra o avançonas pesquisassobre geoengenharia.Parafrearos riscos que as mudançasclimáticasirãotrazer a longoprazo, causadopelasemissõesde dióxidode carbono,
  • 10. 10 teríamosde reduzirazero essasemissões.A metada geoengenhariasolardeve serdiminuirataxa com que a atmosferaestáse aquecendoporcausa das alteraçõesclimáticas,nãorevertê-la. Essastécnicas de geoengenharia acarretamefeitos globais,e não locais,o que podegeraruma discordância entrepaíses,correto?Como isso seria contornado? Claroque vai gerar desacordoentre ospaíses,essaé uma das maiorespreocupações.Noentanto,comoo custo deste tipode estratégiaé relativamente barato, e a eficáciaparece serrelativamente igualparatodos, acreditoque é um problemade governançamaisfácil de resolverdoque muitosoutros.Certamente nãoé verdade que cadapaís temque concordar.O mundo possui políticasgovernamentaisde regulamentação da internet,dapoluiçãoclimáticae marinha,entre outros,semque todosconcordem. Pesquisadoresjá fizeramtestescoma injeção de aerossóisdeácido sulfúrico na estratosfera.Quaissão os riscose asdesvantagens desta técnica? É difícil resumirisso,poissãomaisde 20 artigos científicosque dissertamsobre otema.Oque posso dizeré que o saldoatual dasevidênciassugereque a geoengenhariasolar,se aplicadade formalimitadae com cautela,reduziriasignificativamente riscos climáticosnamaioriadoslugaresnomundo. Quando eem quetermos a geoengenharia podese tornaruma realidadepara reduzir o impacto das mudançasclimáticas? Infelizmente,eunãotenhoideia.·.
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