Histórias              Exemplarmente                       Imperfeitas                 FERNANDO HILÁRIO© Fernando Hilário ...
Aborrecidas com o anonimato em que viviam há já bastante tempo, pediram-me        estas Histórias que eu lhes arranjasse u...
Um cesto de pedras          Pedro acordou com a ideia de procurar pedras para com elas fazer um cesto defruta. Saiu de cas...
Despiu-se. Deixou a roupa sobre o cesto das pedras, entre os salgueiros; trepouaos rochedos que orlavam as águas do açude,...
Uma mulher, vestida de branco, luminosa como uma fada, apareceu-lhe eperguntou O que me dás, se eu te arranjar uma bela ma...
O relógio da montra daquela casa de antiguidades        Finalmente! o homem entrou na casa de antiguidades para comprar o ...
timbre, até que, esgotada a paciência, fez de conta que ali falava um asno e foi a fechar-se na sala.        Do corredor a...
O conto do homem dos gestos brutos e das coisas que estavam no armário        Uma das duas máscara que estavam no armário ...
Coisas há que não se contam! disse a outra máscara. Está bem, se não querescontar não contes essa coisa especial, mas cont...
De facto, podia ter-te o homem sacudido, deixar-te, pelo menos, aberto, para quemais rapidamente secasses, dizia o guarda-...
A água entrava silenciosa sem qualquer permissão, pouco a pouco ocupava o chãodo armário e ia engrossando o incómodo. Aque...
Durante todo o dia e toda a noite, transformara-se a casa num espaço de gestoshúmidos, quase surdos, quase imóveis. No arm...
O sonho de um pedaço de Sol        Havia um homem que tinha uma ideia fixa na cabeça. Achava esse homem quese conseguisse ...
Mas o bom tempo não estava com ele, os dias não nasciam como desejava, peloque a almejada viagem para o almejado pedaço de...
Os planetas, as estrelas, as constelações, os cometas, astros e mais astros iamficando para trás, pois por eles o foguetão...
Com tanta luz, não via as coisas que nele havia, só via a luz que o impedia dever. Não fossem os óculos, cegaria. A tatear...
depressa vou o meu sonho finalizar. E no contentamento pôs-se a beber outra cerveja.Mas não rilhou pevides, pois já não as...
despenhariam as ideias do homem engenhocas, o foguetão especial com um pedaço deSol...         Mas, incompreensivelmente, ...
Antes de levar o dedo ao botão especial, bebeu outro, e ainda outro, em trêsgolos ansiosos despachou a cerveja.        A v...
A fascinante história do escritor que escrevia sem escrever        Havia um escritor que há muito tempo não conseguia escr...
páginas de um caderno aberto, pôs os olhos a olharem para coisa nenhuma, pelo menosaparentemente, e, com convicção que tam...
História do pintor que pintava gotas de água        Havia um pintor que queria muito pintar gotas de água. E pintava-as. P...
O conto do homem que regressou ao país ausente          Um homem regressou ao país ausente. Chegou à fronteira e a frontei...
A estranha história escrita de um modo estranho por um estranho escritor        Naquele dia, o escritor sentia-se com veia...
Para a história, o escritor precisava de personagens; se as tivesse, arranjariatempo e espaço para a história, e fácil ser...
Não, ele não entendeu isso! ou será que sim?! Não, Ricardo, eu não quero irconsigo para a cama! convidei-o apenas por uma ...
Não tinha chá; gastara a última porção na noite anterior; horrível, levantara-secom insónias horríveis; uma noite de insón...
Nunca lhe perdoarei, Ricardo! aproveitar-se da minha fragilidade de mulher! euque por amizade, por solidariedade o convide...
O conto do homem que lia em voz alta o jornal na esplanada        O homem de cabelos à Jesus, de barbas a roçar o peito, s...
como bulia a luz que a criança via nos dentes entre os pelos das barbas a rir, como riam osolhos no brilho que as sobrance...
A história do homem que não se dava com ar condicionado        Um homem foi parar ao inferno. O porteiro encaminhou-o para...
cruzavam com eles nos corredores refulgiam alegria, boa disposição, contentamento; osrostos reluziam, os olhares faiscavam...
espetada de porco preto língua estufada com ervilhas estufado de línguas de cabrito àSerra das Meadas arroz de sarrabulho ...
Não me queixo, disse o homem, ainda que haja uma pequena coisa que eugostaria de ver alterada.        O que é? perguntou o...
*        O desenlace da história do homem que não se dava com ar condicionado estábom de ver: o homem morreu. Coçou-se tan...
O Conto do Relógio Parado        O escritor escrevera um conto para um jornal, mas o jornal não o publicou; nemsempre os j...
No dia seguinte, por muito estranho que possa parecer, no dia seguinte, ao serão,exatamente ao serão, o senhor da casa vei...
O horrível conto do homem que morreu afogado na chávena de café        Um homem viu-se na chávena de café.        Não quer...
A história do escritor que comia histórias        Era um escritor que comia histórias. Escrevia histórias a seu gosto; his...
O escritor da noite        O escritor da noite vem à janela para colher a vista da cidade; é assim que gostadela: vazia, a...
A música que não tinha fim por causa daquela nota final        O músico estava intrigadíssimo: desaparecera da pauta uma n...
A história do menino que queria voar        Conheço uma história de um menino que queria voar. Não sei se a conte; não sei...
O santo, pois que um homem havia a quem chamavam santo, disse-lhe que osmilagres só a Deus competem, que tudo está nas sua...
Mas a gente dessa aldeia era diferente: as pessoas, além de caminharem,voavam!        Nem queria acreditar! Todos voavam, ...
Deixaram-no na outra margem do rio.        Chorava, Até os peixes voam nas águas e eu que quero voar não voo! também aslib...
Quem faz o tempo são as nuvens, as árvores e as palavras que plantam no céu        A história daquele escritor que escrevi...
Sim, estou a ver, disse o menino.        O que te parece essa nuvem? perguntou o homem.        Parece-me... ora deixa-me v...
A menina da poça de água        Um pouco mais e o livro chegava ao fim sem que eu vos contasse a história damenina que um ...
Já está debruçada sobre a água, mas apenas procura ver-se nela. Todavia, aocontrário de outras poças de água onde a menina...
Sobre as histórias, mesmo quando são exemplarmente imperfeitas e interessantes, caisempre um silêncio.Desejamos que seja a...
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  1. 1. Histórias Exemplarmente Imperfeitas FERNANDO HILÁRIO© Fernando Hilário (2012)
  2. 2. Aborrecidas com o anonimato em que viviam há já bastante tempo, pediram-me estas Histórias que eu lhes arranjasse um novo sítio e uma nova casa para morar. Aquiesci à sua vontade. E aqui estão elas, desinibidas, cosmopolitas, de porta aberta à conversa. Pela parte que me toca nesta empresa, eu estarei atento e recetivo às coisas que sobre a sua condição de Histórias Exemplarmente Imperfeitas, certamente se vão dizer. Fernando Hilário 2© Fernando Hilário (2012)
  3. 3. Um cesto de pedras Pedro acordou com a ideia de procurar pedras para com elas fazer um cesto defruta. Saiu de casa e seguiu por um caminho que ia dar muito perto do açude do rio daaldeia. Aí, nas margens do rio, havia muitas pedras, tantas que o chão era um chão depedras. De inverno, não. De inverno, com as águas das chuvas, o rio alagava tudo, nãose distinguia sequer o açude, nem ao certo se sabia onde ficava o sítio das pedras. Mas,no verão, o rio corria sereno e deixava à vista o chão de pedras. Durante toda a manhã, Pedro andou a procurar pedras para o seu cesto de fruta.Mas não encontrou nenhuma pedra que tivesse a forma de uma maçã. Duas pareciam-lhe laranjas; uma era uma pêra; umas tantas, miudinhas, cerejas e uvas; uma longa comouma banana; uma era uma romã; como um figo uma e ainda uma outra enrugadinhacomo uma noz. Para o seu cesto de fruta, faltava-lhe uma maçã, mas nenhuma pedra lhe fazialembrar uma maçã. E porque a manhã chegava ao fim, Pedro deixou o cesto escondidoentre os salgueiros e regressou a casa para o almoço. Comeu com as pedras na cabeça, e logo que a mãe o autorizou a sair da mesa,disparou a caminho do açude do rio, do sítio das pedras, do chão de pedras. Vinha a temer que o cesto das pedras que já tinha não estivesse nos salgueirosonde o deixou; se alguém as descobrisse, poderia cobiçá-las, e teria que recomeçar tudode novo para juntar um cesto de pedras a que faltava apenas uma maçã. Mas não: ocesto estava onde ele o deixara. Agosto ia a meio, quente; e Pedro viera em passo largo, ofegante, ansioso, com osol a persegui-lo, o pó do caminho colado ao suor… Sabia que não devia atirar-se ao rio; comera há pouco tempo, a mãe sempre lhedissera que era perigoso, podia até morrer. Mas o açude estava ali, sereno, com as águasa brilhar como prata… era impossível que alguém pudesse morrer nelas… 3© Fernando Hilário (2012)
  4. 4. Despiu-se. Deixou a roupa sobre o cesto das pedras, entre os salgueiros; trepouaos rochedos que orlavam as águas do açude, caminhou sobre eles como um deusbranco e nu que nascesse ali, até se quedar num pequeno pináculo. Quando o seu corpo desenhou nos ares o lanço para o mergulho no espelho daságuas, fora como se num instante nelas penetrasse uma gigantesca águia branca em voopicado. Ele era o campeão do açude: de todos os rapazes da aldeia, aquele que maislonge chegava, vindo a nadar como um peixe debaixo de água. Já estava no limite, os pulmões exigiam-lhe ar, rebentariam se continuasse anegar-lhes o ar, mas pressentia que se resistisse mais uns segundos bateria o seumáximo, o seu recorde. Mantinha os olhos abertos e a água começava a cegá-los de ardência. Nadava ainda, submerso, como um fuso a quem puseram asas… Mas já não resistia mais, os pulmões não aguentavam mais; num golpedesesperado, libertou então a cabeça das águas, banhando os pulmões de ar. E olhoupara a margem, para o choupo e viu que estava para além dele, coisa de um passo emeio ou mesmo dois passos. Vencera a sua marca. Pena que não estivessem ali os outros rapazes paraverem… Veio a deslizar para a margem, a boiar de costas, e sentou-se no chão, encostadoao choupo, para secar ao sol, como era o costume das outras vezes… Mas logo percebeuque estava zonzo, a cabeça solta, instável como um balão; quase não via, como se aágua tivesse penetrado nos olhos; uma náusea tomava-lhe o ventre e o peito; tinha ospés e os braços lassos, as mãos dormentes. Percebia que aquilo era a morte que se aproximava, a levá-lo como a uma penade ave; a mãe aparecia-lhe numa imagem difusa a dizer-lhe Tem cuidado com o rio,Pedro. Tem cuidado com o rio… Tem cuidado… Por uns instantes muito breves, sentiu que ia a caminho de qualquer coisa, quetalvez fosse mesmo a morte, serenamente. E deixou de ver, deixou de sentir, como seadormecesse. * 4© Fernando Hilário (2012)
  5. 5. Uma mulher, vestida de branco, luminosa como uma fada, apareceu-lhe eperguntou O que me dás, se eu te arranjar uma bela maçã? Dou-te o que me pedires, disse Pedro. Dás mesmo? prometes? insistiu a mulher que parecia uma fada. Dou, prometo que te dou. A mulher trouxe então as mãos de trás das costas e deu-lhe a ver uma pedra queera uma maçã; e disse Dá-me agora o teu cesto de fruta por troca desta maçã. Pedro ficou aflito: por uma maçã perdia todo o seu cesto de fruta, onde só umamaçã faltava. Percebia que caíra num sonho, donde tinha que sair, e, aflito, acordou. Dirigiu-se para o cesto de fruta escondido entre os salgueiros. Tirou a roupa queo tapava e pôs-se a ver os frutos de pedra. E todos vistos, sentiu-se contente com todosos que tinha; vendo bem, uma das laranjas até lhe parecia uma maçã. 5© Fernando Hilário (2012)
  6. 6. O relógio da montra daquela casa de antiguidades Finalmente! o homem entrou na casa de antiguidades para comprar o relógio queum dia, já nem ele sabia há quanto tempo, vira na montra. Desde esse dia, o homem andou a namorar aquele relógio vezes sem conta. Àsvezes, a montra perdia alguns objetos; outras vezes, ganhava outros, e o desarrumo era,por vezes, tão grande que se tornava difícil distinguir fosse que objeto fosse nodesarrumo de tantos objetos; mas olha aqui, olha ali, o homem sempre descobria orelógio da sua admiração. Punha-se a vê-lo, a mirá-lo… Ora, já o sabia de cor, se fechasse os olhos…sobre pedestal de pedra branca, o corpo obelisco em pau-santo, dois palmos de altura,torneado de flores, escaparate de lápis lazúli, com ponteiros em prata, finos comoóbelos, as horas, em letra romana, também em prata, no auge, um leão triunfante sobreuma águia… sim, se fechasse os olhos, vê-lo-ia na memória tão nítido como ali namontra. Entrou, então. E o antiquário disse-lhe tratar-se de um relógio muito antigo evalioso, mas que seria em vão tentar repará-lo: Para tão antiga máquina, não há peças ejá não há quem as fabrique! É pena, disse o homem, mas é antigo e belo, vou levá-lo. E o homem veio pelas ruas da cidade com o relógio embrulhado num papel azul,listado de vermelho e amarelo, e atado com uma fita verde que o antiquário encontrouno desarrumo de uma gaveta. Quando chegou a casa, o homem não trazia os olhos do costume, nem eram assuas mãos as mesmas. Entusiasmado, com as mãos a tremer do entusiasmo e com osolhos a brilhar do entusiasmo, mostrou a preciosidade à mulher e disse-lhe,entusiasmado, quanto custara. A mulher, de mãos na cabeça, numa berraria tanta e tamanha, lamentava quefosse seu homem tão tolo ao ponto de pagar fortunas por coisas sem valia nem préstimo.Por algum tempo, deu o homem ouvidos àquela sua esposa espaventada, como era seu 6© Fernando Hilário (2012)
  7. 7. timbre, até que, esgotada a paciência, fez de conta que ali falava um asno e foi a fechar-se na sala. Do corredor a mulher insultava-o Que era um tonto! Que era um louco! Que eraum tolo aquele seu homem! E ameaçava-o, ameaçava-o não lhe fazer o jantar, nemsequer isso! E mais isto e mais aquilo. Mas, findo algum tempo, emudeceu. Instituído o silêncio, o homem colocou sobre a mesa o relógio e sentou-se diantedele. Agora também podia afagá-lo, cheirar-lhe o tempo, tatear-lhe a idade, presumir avida que fora sua, como chegara até ali, como exatamente chegara à casa deantiguidades… Enfim, o homem pensava coisas bonitas e interessantes sobre o relógio. Pensava, até porque o antiquário apenas lhe dissera tratar-se dum relógio muitoantigo e valioso. E a ele também não lhe ocorrera perguntar… É: o antiquário pouco lhedisse sobre o relógio e a ele não lhe ocorreu perguntar… Bem, estava o homem nesta eucaristia, quando lhe pareceu ouvir um tique-taque… Ora, podia lá ser! o relógio não trabalhava! o próprio antiquário lhe dissera quenão havia peças para máquina tão antiga, nem quem as soubesse fabricar! Mas, seria ilusão, fantasia sua ou não, ao homem também lhe pareceu ver oponteiro dos minutos a dar um pulo no lápis lazúli do mostrador, e, no tempo que duroucertamente um minuto, o relógio anunciou pim pim pim pim pim pim pim, sete horas,festivas, pimponas. E homem achou-se feliz, tão feliz que agradecia e chorava a Deus ter-lhe dadoaquela sua mulher, se é que Deus é tido e achado nestas coisas! 7© Fernando Hilário (2012)
  8. 8. O conto do homem dos gestos brutos e das coisas que estavam no armário Uma das duas máscara que estavam no armário quis saber que recordaçõesguardava da vida a outra máscara. Ora, são tantas as coisas a recordar que difícil me é recordá-las todas, disse. Não ficou satisfeita a máscara com a resposta e disse Sim, percebo o que me dizes,mas deve na tua vida haver alguma recordação especial, não? A outra máscara pensou alguns segundos e pensou ainda mais alguns segundos,pensou, pensou e disse Há, de facto, algo especial na minha vida, algo que do resto sedestaca, disse, mas, após ter dito o que disse, ficou em silêncio. Por algum tempo, respeitou a outra máscara o silêncio da outra máscara, mas jápesado e longo ia o silêncio, cansou-se, e perguntou se não ia ela falar dessa talrecordação. Coisas há que não se contam! disse a outra máscara. Está bem, se não queres contar não contes essa coisa especial, mas conta outra, sópara falarmos um pouco, disse a outra máscara. Está bem, disse a outra máscara, e da sua vida recordou uma passagem divertida,tão divertida que as máscaras e todas as outras coisas que ali estavam se riramperdidamente. Agora é a tua vez de contares uma coisa especial da tua vida, disse a outramáscara. Ora, são tantas as coisas a recordar que difícil me é recordá-las todas, disse. Não ficou satisfeita a máscara com a resposta e disse Sim, percebo o que me dizes,mas deve na tua vida haver alguma recordação especial, não? A outra máscara pensou alguns segundos e pensou ainda mais alguns segundos,pensou, pensou e disse Há, de facto, algo especial na minha vida, algo que do resto sedestaca, disse, mas, após ter dito o que disse, ficou em silêncio. Por algum tempo, respeitou a outra máscara o silêncio da outra máscara, mas jápesado e longo ia o silêncio, cansou-se, e perguntou se não ia ela falar dessa talrecordação. 8© Fernando Hilário (2012)
  9. 9. Coisas há que não se contam! disse a outra máscara. Está bem, se não querescontar não contes essa coisa especial, mas conta outra, só para falarmos um pouco, disse aoutra máscara. Está bem, disse a outra máscara, e da sua vida recordou uma passagem triste, tãotriste que as máscaras e todas as outras coisas que ali estavam choraram perdidamente. Num instante inesperado, o dono da casa abriu de rompante o armário e numrompante levou na mão um guarda-chuva e na cabeça um chapéu que há muito não usava;era de um impermeável tecido o chapéu que o homem só em tempo de chuva usava e nemsempre. Fechou com estrondo a porta do armário. As coisas desejaram boa sorte aoguarda-chuva e ao chapéu, e calaram-se em um silêncio que ali era de todo pungente.Ouviram a porta da rua a fechar-se num estrondo. E em silêncio ali se mantiveram ascoisas. Nem uma palavra nem um sopro de respiração. Por volta das sete horas da tarde, o homem abriu a porta com estrondo e entrou emcasa. Fechou a porta com estrondo. Escancarou o armário, lançou o chapéu para o cabide e atirou para o balde dosguarda-chuvas o guarda-chuva. Fechou com estrondo a porta. As coisas ficaram a ouvir os estrondos que o homem fazia pela casa; portas a abrire a fechar, gavetas, outros armários, utensílios, outras coisas, etc., etc, que aquele homemera um homem muito bruto de gestos. Até que o guarda-chuva e o chapéu se puseram acontar como fora o dia lá fora; de muita chuva, de muita agitação, de muito conflito, queo homem era muito bruto de gestos. Mas fora, em suma, um dia de chuva igual aos diasdo homem. Nada, portanto, de diferente. Nem mesmo o facto de ter torcido e retorcido aponteira do guarda-chuva numa sarjeta ou do chapéu ter sido levado pelo vento e lambidoo chão molhado, constituía algo que inédito fosse. Apenas o relato confirmava como eraaquele homem um homem, já se sabia, bruto de gestos. Não te encostes a mim que estás todo molhado! pedia o chapéu de felpo ao chapéude chuva. E tu também estás um caos, olha no fundo do balde a água que de ti escorre! disseo guarda-chuva de senhora ao recém-chegado que pingava que nem um pinto. Também o balde se incomodava com a água em poça, Que raio de humidade esta,mais ferrugem para a minha já ferrugenta lata! Dizia a água que não era dela a culpa. 9© Fernando Hilário (2012)
  10. 10. De facto, podia ter-te o homem sacudido, deixar-te, pelo menos, aberto, para quemais rapidamente secasses, dizia o guarda-chuva de senhora; é um incómodo ter-te a meulado! Repetia a água que não era dela a culpa. O cabide dizia Claro que não! a culpa édo homem, que muito bruto é de gestos. E remeteram-se a um silêncio pungente. Onze horas seriam da noite. O homem passava em passos de estrondo de lá para cá e de cá para lá no corredor,abria e fechava portas e gavetas, mexia nisto e naquilo, numa agitação, num estrondo. De repente, abriu a porta do armário das coisas; mexe aqui, mexe ali, numaescolha, não tanto de incerteza mas mais de atrapalhação, até que arranca o fatoimpermeável, veste-o logo ali, arranca umas galochas vermelhas, calça-as logo ali, fechacom estrondo a porta e sai para o quintal, com estrondo batendo a porta das traseiras dacasa. Formara-se na noite uma noite de tempestade, de frio, de chuva, de vento, demuito vento e até de trovoada. Uma rajada de vento pelos ares levara já meia dúzia de telhas do beiral do telhadodas traseiras da casa. A rodos, a chuva entrava pelo telhado destelhado, ensopando ogesso estuque e inundando a casa pelo teto da cozinha. Afadigava-se o homem natentativa de repor as telhas que haviam voado, de estancar a água, que mais parecia umdemoníaco rio, ameaçando os bens e a própria casa destruir-lhe. As coisas do armário não sabiam exatamente o que estava a acontecer, massuspeitavam que algo fosse pela tempestade provocado, pois ouviam como em estrondosoprava o vento e caía a chuva, como estoiravam em estrondo os trovões, rasgando o céusonoro. Em estrondo. O homem afadigava-se. Conseguira já as telhas substitutas, já conseguira a escadapara subir até ao beiral; o tempo era de risco, a morte espreitava na luz dos raios queriscavam os ares. As coisas faziam o maior silêncio, para perceber os estrondos que noexterior se ouviam. Entretanto, uma língua de água da água que já pelo corredor da casa meandrava,chegou à porta do armário, meteu-se entre tábuas, elevou-se entre elas, galgou o rodapé efoi tomando os fundos, silenciosamente. Tudo o que tinha pernas ou tudo o que no chãoestava lamentou a chegada fria daquela água silenciosa. Mas nada havia a fazer. 10© Fernando Hilário (2012)
  11. 11. A água entrava silenciosa sem qualquer permissão, pouco a pouco ocupava o chãodo armário e ia engrossando o incómodo. Aquela língua de água era um rio demoníaco. Encavalitado na escada, pelo vento e pela chuva fustigado, fotografado nosrelâmpagos da trovoada, o homem intentava reparar os danos da tempestade. Sabe-se queeram seus gestos brutos e sabe-se quão difícil é repor as telhas que o vento de um beiralde casa levanta. Sabe-se como a trovoada persegue a vida. Quem pois o homem visseiluminado pela luz dos raios, ver-lhe-ia no rosto estampada a máscara da morte. Se, porum desses raios, fatalmente atingido fosse, seria essa a imagem última da vida, umaimagem de morte. Pouco a pouco, foram os estrondos dando lugar a um absoluto silêncio. Pouco apouco, foi-se a água do fundo do armário escoando. Aparentemente, tudo à normalidadedas coisas regressava. E as coisas do armário aguardavam que de novo os estrondos dosgestos brutos do homem ao interior da casa regressassem. Em silêncio, perscrutavam essemomento. Mas a normalidade da casa tardava: o que se ouvia era o silêncio da bonançainstalada, não os estrondos que pontificavam a vida do homem. Naquela noite, nenhumgesto do homem fora audível às coisas do armário. E de nada lhes serviu manterem-sesilenciadas. Só por volta das nove horas da manhã, à casa regressou um rumor de gente, passosincertos, alguns quase mudos, vozes indistintas e soluçadas, um conjunto de gestos poucoaudíveis que às coisas pareciam carregados de tensões, de espanto, de constrangimento eaté de dor. O que teria acontecido? O que estava a acontecer? Após uns passos pausados, quase quedos, que até ali chegaram e ali se quedaram,um homem e uma mulher abriram a porta do armário. Ele deixou o impermeável de linóleo amarelo no varão da roupa, as galochasvermelhas a um canto; ela procurou um fato escuro, uma camisa branca, uma gravata eum par de sapatos pretos. Com gestos incomuns fecharam a porta do armário. E, compassos quase quedos, perderam-se pelo corredor fora. O impermeável e as galochas ficaram metidos num silêncio inerte, como seestivessem mortos, enquanto as outras coisas do armário julgavam adivinhar a sorte dohomem. Mas nenhuma delas ousou a fala sobre o que acontecera. Pela perda do homem, aquem lhes parecia, apesar de tudo, poderem seus gestos perdoar, era o silêncio alipungente. Mas era sobretudo um silêncio, pungente, pelas coisas que tinham deixado oarmário. 11© Fernando Hilário (2012)
  12. 12. Durante todo o dia e toda a noite, transformara-se a casa num espaço de gestoshúmidos, quase surdos, quase imóveis. No armário, fora todo esse tempo para medir osgestos e refletir sobre a sua verdade. Com tal empresa se comprometeram todas as coisasdo armário. Às dez horas da manhã, com os olhos boiando em lágrimas, uma mulher abriu oarmário e levou o Cristo que alguns anos antes, uns trinta anos, talvez, o homem tirara dotampo da cómoda do seu quarto e ali viera com gestos brutos, dir-se-ia, com estrondo,arrecadar. Até às cinco horas da tarde, nenhuma das coisas do armário achou jeito para falaras coisas que tinham acontecido. Às cinco horas da tarde, após um rumor, um quasesilêncio, as coisas ouviram a porta da rua fechar-se. Sem ao certo saber bem porquê, uma máscara contou o que até ali então acharanão dever contar. A outra máscara contou também o que, até então, achara que não deviacontar. Depois, o armário fechou-se num silêncio, num silêncio que, com todo opropósito, dir-se-ia, pungente. Fechou-se, até hoje, até este momento. 12© Fernando Hilário (2012)
  13. 13. O sonho de um pedaço de Sol Havia um homem que tinha uma ideia fixa na cabeça. Achava esse homem quese conseguisse um pedaço de Sol resolveria todos os problemas da sua vida. Bastava-lheum pequeno pedaço. Com um pequeno pedaço de Sol em sua casa, seria a vida umsorriso eterno. Mas como conseguir esse pequeno pedaço de Sol?! Ora, o homem era um engenhocas, tinha um espírito empreendedor e não sedava vencido por dá-cá-aquela-palha. Pôs-se então a fervilhar ideias. Por norma, as ideias fervilham na cabeça. Era grande a cabeça do homem,grande como um alguidar, e no alguidar da cabeça do homem fervilhavam ideias, ideiasde como haveria de chegar ao sol. Sim: como chegar ao Sol que, parecendo ali à mão,tão longe estava?! Bem, e chegando perto do Sol, como resistir à sua luz letal? ao seu calor letal? E,depois, mesmo que conseguisse aproximar-se do Sol, como obter o pedaço da suaalegria? como trazê-lo de volta para casa? como utilizá-lo? etc., etc. Para resposta às ideias, o homem pôs-se a construir um foguetão, um engenhoveloz à prova do calor, programado para o vaivém da ida e da volta, e também aconstruir um aparelho especial de recolha de Sol e ainda um reservatório especial paratransportar o pedaço de Sol. Uma vez o foguetão construído, e mais o que se disse, o homem engenhocasdesenhou o fato que o haveria de levar ao contacto com o Sol e retirar-lhe o almejadopedaço. E uma vez confecionado o fato à prova de tudo, o homem engenhocas criou oengenho a partir do qual tiraria, então, partido do Sol, instalado na garagem da sua casa,uma espécie de central de luz e calor para os variadíssimos fins domésticos, utilitários,mas, também, do bel-prazer. E uma vez a engenharia toda pronta, programou o homem engenhocas a viagempara uma manhã de primavera, que nascesse limpa de nuvens, radiosa de Sol, sem pontade vento e abençoada por cânticos de aves e chilreio de passarada. 13© Fernando Hilário (2012)
  14. 14. Mas o bom tempo não estava com ele, os dias não nasciam como desejava, peloque a almejada viagem para o almejado pedaço de Sol foi-se protelando. Ainda assim,todas as manhãs, mal o Sol punha o olhar no mundo, o homem engenhocas saltava dacama e vinha avaliar o tempo. Mas ao tempo sempre faltava uma das condições tidascomo necessárias ao êxito da empresa do homem engenhocas: ou havia vento, ou havianuvens, ou o Sol era tímido, ou as aves e os pássaros não estavam dados aos cânticos eaos chilreios... De resto, essa primavera fora uma primavera de chuva, quando não dechuva dia-sim-dia-sim, era uma primavera de chuva dia-não-dia-sim. E só quando otempo já andava muito metido no verão, é que o homem engenhocas, finalmente,encontrou uma manhã que, não sendo igual à desejada, fazia lembrar, enfim, umaradiosa, serena, limpa e musical manhã de primavera. E disse É hoje! disse, auscultando o estado do tempo. É hoje! disse, convicto. E vestiu o fato especial, pôs os óculos especiais, calçou as luvas e as botasespeciais. E meteu-se no foguetão, que era especial. Deu uma vista de olhos ao tanqueespecial. De repente, lembrou-se que conveniente seria também proceder a uma vistoriaà especial central de luz e calor. Saiu do foguetão, e foi vistoriar. Achou tudo nos conformes. E voltou ao foguetão. Deu volta ao sistema de ignição: o foguetão excitou-se,excitou-se ainda mais, mais e mais ainda. Excitou-se, mas parecia que não ia sair dali.Porém, numa nuvem de fogo e fumo, disparou nos ares, direitinho ao almejado Sol. * Segundo os cálculos do homem engenhocas, demoraria a viagem sete dias achegar ao Sol, sem contar o tempo para a assolagem, recolha e armazenamento dopedaço de Sol no tanque do foguetão. Um pouco menos, para o regresso, três dias emeio, que para baixo todos os santos ajudam. Enfim. O homem engenhocas subia para o Sol maravilhado, maravilhado com tudo ecom ele mesmo, com a paisagem que desfrutava, com o êxito que alcançava. Tãomaravilhado ia que pôs-se a beber uma cerveja e a rilhar umas pevides secas, salgadas eapimentadas. Meteu um CD da sua música preferida, e lá ia ele a caminho do seu Sol. 14© Fernando Hilário (2012)
  15. 15. Os planetas, as estrelas, as constelações, os cometas, astros e mais astros iamficando para trás, pois por eles o foguetão passava que nem uma seta atirada ao Sol, e ohomem engenhocas fervilhava, fervilhava de contentamento e agitação. Ao fim de três dias, a luz do universo era intensíssima; não fosse a tecnologia dofoguetão, o homem cegaria; o calor era intensíssimo, não fosse a tecnologia dofoguetão, o homem derreteria, dissolver-se-ia, volatilizar-se-ia. A partir desse terceirodia, o universo era luz, essa luz intensíssima, o universo era calor, esse calorintensíssimo. Mas o homem havia previsto tal universo. Por isso, ele e o seu especial foguetão,e tudo mais que era especial, venciam a adversidade desse universo. Como uma setarumavam para o almejado Sol. Num calendário cientificamente programado, o homem dormia quando supunhachegada a noite, e vivia o quotidiano do dia, na medida do possível, como se fosse umdia igual à vida na Terra: comia, seus excedentes fisiológicos evacuava, lavava-se, liaalguma coisa, ouvia música, pilotava o foguetão, ou, então, entregava-o aos cuidados dopiloto automático, ocupava o alguidar da cabeça com as suas engenhocarias, etc., etc. Quando, ao sétimo dia, o homem acordou, percebeu que o foguetão se haviaimobilizado. Não tinha dúvidas que chegara ao Sol; olhou o painel de instrumentos, o ecrã docomputador de bordo e, lá estava, no desenho do universo, destacada intermitente aindicação: SOL – FIM DA PARTE PRIMEIRA DA VIAGEM / PONTO 1 DO DESTINO. A luz intensíssima era prata e o Sol era essa luz prata intensíssima que tomavaconta de tudo. Resistir-lhe-iam os óculos, o fato, tudo mais? O homem engenhocasestava convicto que sim, e porque convicto estava, apressou-se a continuar o seu sonhode tomar um pedaço do Sol. Abriu a porta do foguetão, e deu um passo para a luz, e ficou suspenso na luz.Procurou um chão firme, mas não o havia. Procurou tatear algo que sólido fosse, masnão havia algo que sólido fosse. O homem percebia que o sol era essa luz, onde mergulhara, que aos olhos seriainsuportável, não fossem os óculos que inventara, que ao corpo o calor seriainsuportável, não fosse o fato que inventara. Percebia que aquilo era, sem sombra dequalquer dúvida, o desejado Sol. E, como se nadasse, esbracejando submerso em luz, ohomem engenhocas voltou a entrar no foguetão. 15© Fernando Hilário (2012)
  16. 16. Com tanta luz, não via as coisas que nele havia, só via a luz que o impedia dever. Não fossem os óculos, cegaria. A tatear, a tatear, o homem encontrou finalmente oaparelho especial com que haveria de recolher um pedaço de Sol. Voltou a sair do foguetão. Não sabia onde estava. Apenas sabia que estava noSol. A tatear ligou o aparelho de recolha de Sol. A um sinal sonoro, o aparelho indicariaque sugara o Sol correspondente à sua capacidade. Não era muito o Sol que recolheria,em tanto Sol que havia no Sol para recolher. Como um uivo no universo, como se ali se reproduzisse o grito de uma dor, oaparelho produziu o sinal sonoro. Estranhou o homem engenhocas o sinal do sinal sonoro, pois não fora essa aacústica engendrada… Mas o homem engenhocas, a tatear, voltou ao foguetão, e atatear depositou o Sol sugado no tanque especial de armazenamento. Tampou-o,consoante as indicações de segurança, lacrou-o com um lacre especial, a tatear, semprea tatear. E a tatear fechou a porta do foguetão. E a tatear pôs-se aos comandos dofoguetão. Conseguiu marcar as coordenadas para a rota do regresso. Conseguiu a ignição:o foguetão torceu-se, retorceu-se, e, cheio de Sol, iniciou a queda para a Terra, um tantoou quanto desenfreada, diga-se. Ao fim de um dia e meio, a luz dentro e fora do foguetão já deixava ver. A únicaluz intensíssima do Sol e o seu calor intensíssimo estariam apenas no tanque,especialmente vedado, onde o homem guardara o pedaço de Sol. Novos desafios se apresentavam no horizonte do homem engenhocas: aaterragem, a utilização do Sol para os variados fins domésticos e para as coisas do bel-prazer. Tudo havia convenientemente fervilhado no alguidar que era a sua cabeça dehomem engenhocas, tudo iria ser como o previsto, pensava ele. Entretanto, vertiginosamente, o foguetão vinha rasgando o universo, para trásdeixando planetas, estrelas, constelações, cometas, astros e mais astros. E o homemengenhocas, para dar largas à sua satisfação, pôs-se a beber uma cerveja e a rilhar umaspevides secas, salgadas e apimentadas. Meteu um CD da sua música preferida, e lávinha ele a caminho de casa. Decorridos três dias, o homem avistou a Terra, pequenina como uma tangerinade casca manchada e enrugada. Nunca tinha percebido que era assim a Terra. Tambémnão pensava vê-la tão cedo. Sentia que o foguetão vinha mais depressa do que oscálculos que fizera. Ora, tanto melhor, pensava ele, quanto mais depressa chegar, mais 16© Fernando Hilário (2012)
  17. 17. depressa vou o meu sonho finalizar. E no contentamento pôs-se a beber outra cerveja.Mas não rilhou pevides, pois já não as havia. À medida que descia para a Terra, a velocidade do foguetão aumentava. Era umavelocidade desenfreada. Rapidamente a terra passava de tangerina de casca manchada eenrugada a laranja manchada e enrugada. O homem, algo apreensivo, consultava opainel de instrumentos, o ecrã do computador de bordo do seu foguetão, que era supostoser especial. Mas, números, letras, palavras, gráficos, ponteiros, pisca-piscas de cores,tudo se agitava numa agitação inimaginada pelo homem, imprevista. Cada vez mais a velocidade aumentava, a agitação era inimaginável, o homemengenhocas já não conseguia ver com precisão as informações do computador de bordo,do painel de instrumentos. Entretanto, soltavam-se alguns ponteiros, as cores quepiscavam imobilizavam-se numa única cor, letras e palavras, números e gráficoseclipsavam-se, deixando mostradores e painéis num branco de agitação; algunsaparelhos explodiam como pequenos vulcões, projetando lâmpadas, pequenas peças,fios, línguas de fogo, rastos de fumo pelo interior do foguetão; o homem engenhocasperdia aflito o controlo da situação, a engenharia convertera-se numa montra dedestruição, o caos instalara-se, a crise estava à vista. O foguetão especial era já um monte de sucata que caía desenfreado para a Terratoranja de casca manchada e enrugada. Era a vertigem. Tempo para a cabeça alguidar do homem engenhocas fervilhar perguntas deinquietação: O que falhara? O que fazer? Como impedir que o seu sonho seesborrachasse? Olhou o tanque especial de armazenamento do Sol. Parecia-lhe intacto. Mas, certamente, não resistiria ao impacto do choque. Rebentaria e perder-se-iao seu almejado pedaço de Sol. E esbanjar-se-ia pela Terra, sem que ninguém lhesoubesse dar o almejado destino, pois que ele, homem engenhocas, também morreria noimpacto vertiginoso do choque contra a Terra, irremediavelmente. O que falhara? Onde falhara? O que faltou ao sonho? Na cabeça alguidar do homem engenhocas não despontavam as respostas para avertigem das perguntas. A Terra já não era uma toranja com casca manchada eenrugada: a Terra era uma mancha de terra, um chão de terra onde iminente e breve se 17© Fernando Hilário (2012)
  18. 18. despenhariam as ideias do homem engenhocas, o foguetão especial com um pedaço deSol... Mas, incompreensivelmente, ou talvez não, Quem sabe? quem o poderá dizer?, osistema de aterragem funcionou. Como uma pena de ave de um voo perdida, o foguetão,suave e serenamente, poisou no quintal do homem engenhocas, diante da garagem,exatamente como houvera sido previsto. Tonto da vertigem, o homem engenhocas reganhou ânimo e apressou-se a deixaro foguetão, enfim, a prosseguir no seu sonho de um pedaço de Sol. Havia agora que ligar o tanque especial de armazenamento à especial central deluz e calor que então traria à sua vida um sorriso eterno. Entretanto, dava o foguetão sinais de se reduzir a cinzas, que um pó ia-seformando à superfície, como se toda a sua engenharia sofresse de um achaque cutâneo. Temeu o homem engenhocas que a patologia fosse extensiva ao tanque especialonde guardara o seu pedaço de Sol. Temeu, mas não havia que temer, estava impecável o tanque especial. Mas,antes que o foguetão, um já monte de sucata, num monte de cinzas se transformasse,apressou-se a retirá-lo. Retirou-o. No mesmo instante, o foguetão especial do homemengenhocas transformou-se num monte de cinzas. Tanto melhor, disse o homem, assim só tenho que remover as cinzas; tarefa quedeixou para mais tarde, pois no alguidar da sua cabeça fervilhava agora a ideia de ligaro tanque de Sol à central especial de luz e calor. Tudo fora calculado: um tubo especial, onde se instalara sofisticado sistema deválvulas especiais, conduziria o Sol armazenado no tanque especial à especialíssimacentral de calor e luz. E procedeu com o cuidado, com a destreza e a mestria de um verdadeiro homemengenhocas. Tudo, enfim, estava no exacto ponto de testar o derradeiro objetivo do seusonho. O momento merecia brinde. Foi buscar uma cerveja. Traria também umaspevides, que rilharia, a ver o seu sonho a funcionar, mas não as achou. Abertas as válvulas especiais, apenas faltava premir o botão do sistema especialde ignição, que, claro!, também era especial. Bebeu um gole de cerveja. 18© Fernando Hilário (2012)
  19. 19. Antes de levar o dedo ao botão especial, bebeu outro, e ainda outro, em trêsgolos ansiosos despachou a cerveja. A vertigem era muita. A sua vida de um sorriso eterno ia, ali, naquele momento especial, fruto do Soldo seu sonho, nascer. Encontrava-se, agora, à distância, apenas, do ato, singelo, de premir aquele botãoque, simbolicamente, escolhera de cor verde, do verde das ervas que na primavera verdese estende pelos verdes campos…, enfim, enfim... Sem mais aquelas, premiu o botão e, de imediato, clicou o interrutor da luz dagaragem, e, de imediato, correu para a casa de banho a abrir uma torneira de água. Esperou algum tempo que a fria água quente se tornasse. Mas nunca mais a água de calor dava sinais; de resto, também não se abrira emluz a lâmpada da garagem. Mesmo assim, correu pela casa toda a acender lâmpadas, a abrir torneiras deágua, a ligar aparelhos e mais aparelhos domésticos, a ligar a aparelhagem que lhe dariaa ouvir em CD a sua música preferida… Mas nada acontecia como houvera sido calculado, previsto. E no alguidar que era a sua cabeça de homem engenhocas fervilhavam asperguntas O que falhara?! Onde falhara?! O que faltara ao sonho? 19© Fernando Hilário (2012)
  20. 20. A fascinante história do escritor que escrevia sem escrever Havia um escritor que há muito tempo não conseguia escrever. Enfim, caíranuma série demorada de brancas, a veia esvaziara-se-lhe, entrara em longo jejum,chegara mesmo a convencer-se de que não voltaria a escrever. Mas, um belo dia, teveum vislumbre de inspiração. Correu então para a secretária, apanhou um caderno, pegou na caneta e pôs-se aescrever. Não propriamente; isto é, tinha o escritor à sua frente o papel, a caneta na mão,estava sentado à secretária como se estivesse a escrever, de escrita fazia gestos, mas, emverdade, não escrevia: o escritor fazia de conta que escrevia, mas no papel nadaaparecia. Ora, eu, que andava por perto, a tudo assistia e no papel não via nem palavranem letra que se visse, perguntei ao escritor Porque fazes de conta que escreves se nadanão escreves que se veja? Interrompeu o escritor, aparentemente, a sua escrita aparente, tampou a velhacaneta, meteu os olhos nos meus, fincou-se nos cotovelos, sempre com os olhos metidosnos meus, e disse Ora aí é que está o fantástico da questão! E como depois de me ter isto dito, mais não me disse, de cotovelos ficandometidos na secretária e de olhos nos meus fincados, perguntei-lhe Qual é o fantástico daquestão? O fantástico da questão, disse o escritor, com os olhos metidos nos meus e oscotovelos na secretária, é escrever um livro, onde todos possam ler, sem que hajapalavras para ler; ou seja, eu escrevo o livro que tenho na ideia, mas, visivelmente, olivro não aparece no papel, ainda que ele esteja lá e o leitor possa aí ler esse livro, ououtro que queira. Está bem, disse eu, e que livro estás a escrever? perguntei. O escritor, que era magro, muito magro, pôs o tronco do corpo como uma tábuaencostado às costas da cadeira, pôs os pés juntinhos um ao lado do outro, pôs as mãosabertas sobre as páginas do caderno, que estavam abertas como costumam estar as 20© Fernando Hilário (2012)
  21. 21. páginas de um caderno aberto, pôs os olhos a olharem para coisa nenhuma, pelo menosaparentemente, e, com convicção que também se diria aparente, disse Um conto, umlongo conto sobre a complexidade e a singeleza. A complexidade e a singeleza?! repeti, numa surpreendida interrogação; vá lásaber-se porquê, assim tal e qual: A complexidade e a singeleza?! Sim, de tudo e de nada, disse o escritor, Dar-lhe-ei o título que me ocorrer, mas,apesar de ser um longo conto, talvez não o estruture em capítulos. * Vi, meses depois, o escritor a reler o seu livro, exausto. E perguntei-lheAcabaste?! Acabei, respondeu ele; estou apenas a fazer umas pequenas alterações à forma, aretocar um ou outro pormenor de estilo; a ver se ainda esta manhã o levo ao editor. Ao editor?! perguntei eu... * História fascinante: escrever um livro sem escrever o livro! 21© Fernando Hilário (2012)
  22. 22. História do pintor que pintava gotas de água Havia um pintor que queria muito pintar gotas de água. E pintava-as. Pintava-asde azul, de rosa, de verde, de vermelho... Mas logo as gotas de água se desfaziam emmanchas de tinta. E o pintor ficava triste. Muito triste, porque o que o pintor queria era pintar uma gota de água que semantivesse em gota de água. E bastava-lhe conseguir uma, uma só que fosse, para sesentir um pintor feliz. Para tanto, pensou que com um mais fino e mais macio pincel, talvezconseguisse pintar uma gota de água. Teria que ser um pincel muito fino, muitomacio… De entre os muitos pincéis que tinha, acabou por achar um que era muito, muitodelicado. Molhou-o então na tinta e, cuidadosamente, aproximou-o de uma gota de água;porém, logo a gota se desfez numa mancha de tinta. Sim: a gota desfez-se numa manchade tinta. E o pintor ficou ainda mais triste e mais infeliz. Mais uma vez tentou, e outra, e mais outra, muitas vezes, até que o pintorpercebeu que as gotas de água engordam com a tinta, por pouca que seja, e rebentam. São as gotas de água tão delicadas que não se deixam pintar! Gotas coloridas?… Só se as imaginarmos! concluía o pintor. * Um dia, o pintor morreu, do modo como morrem todos os pintores. E os medianoticiaram a morte, meteram a vida num resumo, mostraram o atelier e a obra do pintor. Alguém disse que a morte do pintor representava uma perda irreparável para opaís, para o mundo, para a humanidade. Também falou o crítico. Das coisas que disse, algumas só ele terá entendido.Falou das pequenas formas circulares da obra do pintor, coloridas, que salpicam asaguarelas, quase sempre azuis, muitas vezes, brancas, e de uma transparente obsessão. 22© Fernando Hilário (2012)
  23. 23. O conto do homem que regressou ao país ausente Um homem regressou ao país ausente. Chegou à fronteira e a fronteira só tinhaum lado. Olhou em frente: o país não estava lá. Olhou em frente para mais longe e nãovia o país. Olhou à direita e à esquerda, e nada; não estava o país em sítio nenhum. Viu depois um pastor que por ali andava, nem para cá nem para lá, e perguntou-lhe Onde está o país que era suposto estar ali? Que país?! admirou-se o pastor, não há ali país nenhum, nunca houve! Isso é que houve! disse o homem regressado, tanto houve que foi dele que euparti um dia; parti dele para este! Não estará enganado? disse o pastor, não terá sido doutro país que o senhorpartiu? Não, não foi; foi desse país que eu um dia parti; tenho disso a certeza, disse ohomem regressado. Como pode ter a certeza, se esse tal país não está aqui para confirmar?! admirou-se o pastor. Olhe, mesmo assim, tenho a certeza, disse o homem regressado ao país ausente.E sentou-se a olhar para onde deveria estar o seu país. Passaram algumas horas. Nem muitas nem poucas. Algumas horas. O pastorcontinuava por ali com as cabras e as ovelhas, nem para cá nem para lá. E o homemperguntou-lhe Por que não leva o gado a pastar no outro país? assim, talvez eu pudessever o meu país ausente! Mas que país ausente?! não vê que não há outro país! disse o pastor, o país é esteonde estamos, onde eu pasto o gado e onde o senhor está sentado! concluiu o pastorcom alguma impaciência. Nem muita nem pouca. Com alguma impaciência. O homem guardou um silêncio. Nem muito nem pouco. Apenas um silêncio. Eperguntou Quer então dizer que eu estou de costas para o Mundo, logo agora quepensava ter chegado ao meu país?! O pastor guardou um silêncio. Nem muito nem pouco. Apenas um silêncio. Edisse Bem, essa pode ser uma maneira de ver as coisas, pode ser! 23© Fernando Hilário (2012)
  24. 24. A estranha história escrita de um modo estranho por um estranho escritor Naquele dia, o escritor sentia-se com veia para uma história; uma história triste,talvez sim, talvez uma história triste; era um dia de chuva, era novembro, um dia dechuva de novembro, e a namorada do escritor já telefonara a dizer que não ia para fimde semana: uns assuntos a tratar e uma, ainda que fosse pequena, dor de cabeça. O escritor tinha o hábito de preceder a escrita com uns instantes de música: nãolhe saíam as palavras sem o propedêutico musical. Também só na cama conseguia escrever. Para tanto, havia no quarto tudo o quenecessário era àquela vida de escritor: frigorífico, fogão, micro-ondas, computador comnet, iPod, iPad, Blu-ray Disc, wc completo, etc., etc., e até televisão… com HD e 3D,cabos Hdmi… A secretária servia ao escritor para passar às teclas do computador os textos queescrevia na cama; já se sabe: só escrevia na cama. Na parede em frente, uma janelaoferecia a paisagem da casa de campo; a janela era um quadro na parede do quarto. Ainda não se disse: o escritor só escrevia na casa de campo. Não se disse, masera fácil de perceber. Desdobravam-se desde a janela as serras num infindo que só se detinha no mar;mas o mar, alongado fio de prata, só em dias de um certo clima se via, e só uma vez emsete anos, há tantos quantos o escritor aquela casa tinha, ele viu o mar. Fora um momento de espanto, uma tamanha alegria, um quadro belo, tão beloque inundou os olhos do escritor e o espírito; um dia bem diferente desse em quechovia, não vinha a sua namorada para fim de semana e achava-se ele, o escritor, comveia para uma história, história que haveria de ser triste, sim, talvez, uma história triste. Entretanto, o escritor ouvia música, ainda ouvia música, uma suave música,propedêutica, melancólica, triste. Não ouvia da cama; nunca o escritor ouvia música na cama: ouvia a música nosofá orelhudo, colocado sobre o lado esquerdo da grande janela toda em vidro queoferecia a paisagem que era o quadro na parede, e foi assim que, nesse dia mais distante,viu brilhar o fio de prata alongado que era o mar. Mas o escritor nem pensava nisso: nesse dia de novembro, preparava-se, sim,preparava-se para escrever a sua história, que seria triste. 24© Fernando Hilário (2012)
  25. 25. Para a história, o escritor precisava de personagens; se as tivesse, arranjariatempo e espaço para a história, e fácil ser-lhe-ia fabricar uma intriga, mas, sempersonagens, nada feito, não haveria história. Pensou meter porcos na história. Sabia que os porcos não são de todo inéditosnas histórias, mas não se preocupava com isso, desde que não fosse plágio; e tinha atéuma especial simpatia por porcos; Têm os porcos um espaço muito próprio, um tempoaberto, e é fácil pô-los em acção. Não pretendia ser inédito, mas, mesmo assim, o melhor seria procurar outraspersonagens que não fossem porcos, apesar da simpatia especial que nutria por porcos. Veio então à memória do escritor uma antiga experiência em que eram moscasas personagens, um dos seus primeiros romances, que um professor universitário lhedisse ter muito de Kafka; foi ler Kafka, que nunca lera, e tinha, tinha Kafka, sim senhor.Ficou triste e admirado, mais admirado talvez do que triste, ou não, já não se lembravabem; o certo é que pôs o livro na gaveta onde ficou mais de vinte anos, talvez vinte eum anos. Findo esse tempo, o escritor meteu o livro, folha por folha, numa lareira,riscou um fósforo e pegou-lhe fogo. * Bem, mas o escritor que nesse dia se sentia com veia para uma história; umahistória triste, talvez sim, talvez uma história triste, que escrevia na casa de campo, cujanamorada não viera passar o fim de semana por causa duma, pequena que fosse, dor decabeça, que antes da escrita ouvia música, que gostava de porcos para personagens dehistórias, que viu um dia o mar, um fio de prata distante, etc., etc., etc, escreveu ahistória que se segue. Provavelmente iria aborrecer-se, ficaria chata, e o Ricardo não merecia. Queideia tê-lo convidado! e logo para um fim de semana! mas seria deselegante anular oconvite, e, ao certo, também não saberia como fazê-lo. Recordava que fora à hora do almoço. Talvez porque ouviu os colegas a falardos programas de fim de semana. Talvez porque o Ricardo dissera Eu não tenho paraonde ir, o mais certo é ficar em casa. E à saída do refeitório saiu-lhe Se quiser, podepassar o fim de semana comigo. Mas nem agora que refletia sobre isso, conseguia justificar o convite que fez. Recordava o ar dele: embaraçado; mas também um olhar que lhe desconhecia... 25© Fernando Hilário (2012)
  26. 26. Não, ele não entendeu isso! ou será que sim?! Não, Ricardo, eu não quero irconsigo para a cama! convidei-o apenas por uma questão de solidariedade; somoscolegas há vinte anos; sei que é um homem solteiro, um amigo que eu admiro pelacorreção com que sempre me tratou; não pense que pelo facto de estar divorciada outraintenção tive a não ser a de estarmos juntos numa relação de amizade e desolidariedade! que fique bem claro! Eram três horas da tarde. Ricardo ficara de aparecer por volta das cinco.Desceriam para um passeio pelo ar madraço da cidade ao sábado, um café, um museu,uma exposição, talvez um filme, e regressariam a casa depois do jantar num restaurante.Já preparara o quarto para ele. Escolhera aquele por ter quarto de banho. Mas era oquarto mais próximo, contíguo ao seu… Talvez fosse melhor mudar de quarto, para o do sótão, talvez; Esta proximidadenão será muito indicada, é audível qualquer ruído, um suspiro, um movimento na cama;Não, Ricardo, está a ser indelicado; está a abusar da minha hospitalidade; como lhedisse, convidei-o com a intenção apenas de podermos partilhar a nossa situação depessoas sós; você, porque é solteiro, e eu porque sou divorciada! não, não vejo razãopara querer entrar no meu quarto; peço-lhe que se retire! não insista, peço-lhe! aadmiração e o interesse de que me fala... desculpe, Ricardo, mas nunca me apercebi detal! você, ao contrário do que diz, nunca se sentiu atraído por mim; de resto, nem eu porsi! estar sozinho numa casa com uma mulher é que o leva a sentir isso e a acharcoragem para tomar a atitude que está a tomar; com certeza, Ricardo, com certeza quenão temos nada a perder, eu sei que somos livres, mas, fazer sexo, para mim, é mais doque um mero capricho ou um simples apelo; se fizesse sexo consigo, teria de haver umaatração forte, algo que justificasse o ato em si mesmo; e, apesar de o admirar, não sintonada que justifique fazer sexo consigo; não insista, peço-lhe! por amor de Deus! nãopode ser! o Ricardo está a ficar fora de si; nunca se apaixonou por nenhuma mulher,porque sempre esteve apaixonado por mim?! ó Ricardo, como é que eu posso acreditarnuma coisa dessas?! isso já não se usa! o Ricardo diz isso apenas para justificar a suaatitude de vir bater à porta do meu quarto! só por isso! mas eu compreendo; isso nãotem importância; pronto, pensou que eu também estaria interessada; aliás, a culpa, emúltimo caso, é minha: fui eu que o convidei a passar um fim de semana em minha casa;mas vamos esquecer isso; vamos até à sala e tomamos um chá; gosta de chá? Chá?! 26© Fernando Hilário (2012)
  27. 27. Não tinha chá; gastara a última porção na noite anterior; horrível, levantara-secom insónias horríveis; uma noite de insónias, chá e cigarros. O Ricardo não fuma!? nunca fumou!? detesta os ambientes de tabaco, o cheirodo tabaco, o hálito das pessoas que fumam, é repelente, seria incapaz de beijar umamulher que fuma! que exagero! como se pode ser assim tão fundamentalista?! é umexagero! eu faço a minha higiene, trato do meu corpo; da maneira como fala, julga-meimpregnada de tabaco, que todos os orifícios do meu corpo exalam tabaco, que daminha vagina sai fumo de tabaco, que toda eu sou nicotina, um fedor de nicotina! comoé possível pensar assim?! julguei que lhe seria agradável passar um fim de semanacomigo, mas enganei-me: o Ricardo não se sente atraído por mulheres; só assim seexplica esta questão do tabaco; não é por eu fumar que o Ricardo não faz amor comigo,é por se sentir inibido, julga que não vai ter prazer, que não vai ser capaz; confesse! poramor de Deus, Ricardo! nunca ninguém o viu com uma mulher! eu sou especial?! ora,isso são tretas! como assim? comigo é diferente?! consideração! respeito! que respeito,Ricardo?! que consideração?! o Ricardo só tinha que declinar o convite, poupar-medesta humilhação; mas eu é que fui parva; no fundo, nem eu sei porque fui convidá-lo!desculpe, o Ricardo vê outro motivo que justifique a sua presença na minha casa? achaque isto é um hotel? desculpe: ou se assume como homem, ou sai imediatamente daminha casa! desculpe, eu abomino paneleiros; se o Ricardo é paneleiro, assuma-se comopaneleiro; se o é, nunca devia ter aceitado o meu convite! o Ricardo já olhou bem paramim? ora olhe! quantas mulheres têm um corpo assim? olhe estes seios! veja! ora toquee sinta como são rijos; isto não cai! olhe as minhas pernas! vê varizes? não vê, poisnão?! olhe estas coxas! vê alguma mancha na pele? quantas mulheres têm umas pernasassim? ora passe as mãos aqui! sinta a maciez da pele! sinta! então? isto é corpo de umamulher de quarenta anos? claro que não é! vê banhas? pneus? celulite? claro que não vê!veja esta barriga! parece uma tábua; venha cá! meta-se nas minhas coxas! sinta o odordo meu corpo! sinta o calor! toque-me! acaricie-me! sinta a pele! parece veludo, nãoparece? sinta agora o calor que vem das minhas entranhas, o cheiro quente do meu sexo;vá, aproxime-se, cheire! é bom não é? é claro que é! é um corpo de desejo; é o desejo; é,não é? sacie o desejo, Ricardo! dê mais corpo ao desejo; faça sexo comigo, Ricardo!isso; assim Ricardo! que bom, Ricardo! que bom! estou a ter, Ricardo; venha-secomigo, Ricardo! ah Ricardo! Ricardo! * 27© Fernando Hilário (2012)
  28. 28. Nunca lhe perdoarei, Ricardo! aproveitar-se da minha fragilidade de mulher! euque por amizade, por solidariedade o convidei a passar um fim de semana em minhacasa! não devia ter confiado em si; fui ingénua; o Ricardo sempre teve essa intenção; euestava longe de pensar que fosse um homem desse tipo; é bem verdade que quem vêcaras não vê corações; fica-me de emenda! nunca mais me dirija a palavra! agradeço-lheque faça de conta que não me conhece; no escritório, só o que for estritamenteprofissional; não quero acreditar que isto me possa ter acontecido; o Ricardo por quemme toma?! pensa que eu sou da laia daquelas geringonças lá do escritório?! está muitoenganado! eu sou uma mulher de respeito; que fique bem claro! eu sou uma mulherrespeitável; não há nada que me possa ser apontado! saia! saia da minha vista! ponha-sefora da minha casa! não há mas nem meio mas! o Ricardo aproveitou-se da situação;claro, sou divorciada... e o Ricardo tirou partido disso; nunca mais lhe perdoo; saia daminha casa, já! não me interessa que sejam quatro horas da manhã; o quê?! eu é queprovoquei?! olha o atrevido! é muito atrevido! tem cá uma lata! ora faça o favor de sair!saia! saia imediatamente! desapareça! boa-noite! 28© Fernando Hilário (2012)
  29. 29. O conto do homem que lia em voz alta o jornal na esplanada O homem de cabelos à Jesus, de barbas a roçar o peito, sobrancelhas de tapaolhos, abriu o jornal na esplanada e atirou-se aos textos lendo-os como se quisesse que osoutros o ouvissem a ler. De imediato chamou a atenção dos que mais próximos deleestavam, e uma criança segredou ao pai que ali estava aquele homem em voz alta a ler. Mas porque o pai grandes ouvidos não lhe deu, a criança ganhou na cadeira aanterior posição e na atenção ficou curiosa da leitura do homem que lia qualquer coisaque divertida haveria de ser, pois que ria enquanto lia e lia enquanto ria e se agitavam assuas sobrancelhas e suas barbas buliam também. Também a criança ria e o pai e também a mãe do rir e do ler do homem queria quevissem como lia como ria como ria como lia; mas porque o pai e a mãe grandes ouvidoslhe não davam, ganhava ela na cadeira a anterior posição e na atenção ficava curiosa daleitura do homem que lia e da coisa qualquer que divertida haveria de ser, pois que riaenquanto lia e lia enquanto ria e se agitavam as suas sobrancelhas e suas barbas buliamtambém. A criança ria do homem que lia e que ria, ria das sobrancelhas que riam, ria dasbarbas que também riam; queria que os pais rissem também, mas os pais da criança nãoriam do homem, nem dela que também ria. Da muita gente que na esplanada havia e que via como o homem ria e como acriança ria, ninguém ria. Isso mesmo a criança notou, e, porque ninguém a rir a via,levantou-se e foi sentar-se à mesa do homem cujas barbas e sobrancelhas riam, riam,riam. Levantou-se num repente imediato o pai da criança atrás dela e a mãe pôs-se depé, vai-que-não-vai, mas ficou aflita na mesa, que a filha estava à mesa daquele homemque em voz alta lia na esplanada, pois que o homem ria enquanto lia e tudo aquilo ao pai eà mãe estranho lhes parecia. O pai puxou por um braço a filha; puxou, mas a filha ria e dali não bulia, enquantoo homem lia e ria para ela que ria de ver como lia, como riam as sobrancelhas do homem,como ria a barba, como bulia a mesa, como bulia a colher, como bulia a chávena de café, 29© Fernando Hilário (2012)
  30. 30. como bulia a luz que a criança via nos dentes entre os pelos das barbas a rir, como riam osolhos no brilho que as sobrancelhas não escondiam. Puxou o braço o pai outra vez, mais uma vez e outra vez; a mãe gritava para quesua filha à mesa regressasse, que o homem era louco, não o incomodasse! mas o homemlia e ria e a criança ria, toda ela ria, toda ela bulia, o mundo inteiro bulia. Mas a esplanadanão ria; o pai à filha puxava o braço, a mãe toda ela bulia, a criança, já se sabe, ria, ohomem, também já se sabe, ria, o mundo inteiro ria. Mas a esplanada não ria, a esplanada apenas via o homem que o braço à filhapuxava, a mãe que gritava e bulia, enquanto o homem e a criança riam. À aflição do pai e da mãe outros pais e outras mães acudiam, ameaçavam ohomem esmurrar, ao pontapé da esplanada corrê-lo, quebrar-lhe os dentes, pôr-lhe umolho à Camões. Foi então que o homem deixou de ler. E porque deixou de ler deixou de rir. E acriança deixou de rir. Mas nesse instante tudo ficou numa estátua. Tudo como nesse instante estavaassim ficou numa estátua. Quem veio em ameaça assim ficou. Quem não veio, ficoutambém. A mãe da criança no vai-que-não-vai da aflição. A mão do pai parada a puxar obraço da criança. Só a luz, que nos olhos e nos dentes do homem bulia, ficou a rir, a rir à criançaque em silêncio também ria e em segredo bulia. O mundo inteiro ria, e bulia. 30© Fernando Hilário (2012)
  31. 31. A história do homem que não se dava com ar condicionado Um homem foi parar ao inferno. O porteiro encaminhou-o para a Secção deRegistos; registou-se. Depois, uns cicerones da área das relações públicas levaram-no avisitar o inferno, a conhecer a vida, como era, o que podia fazer. O homem estava admirado, tão admirado que até perguntou se ali em vez doinferno não era o céu. Quiseram saber por que se admirava. Porque é tudo tão agradável! tão simpático! até parece o céu! Mas o senhor conhece o céu? perguntaram-lhe. Não, não conheço! A que se deve, então, a dúvida? O homem calou-se; enganaram-no a vida toda, sempre lhe disseram que oinferno era o fogo ardente, onde sofreria, e, afinal, parecia a vida no inferno um sonho! Saiba que, disse um dos cicerones, a nossa preocupação é que todos se sintambem no inferno! Mas diz-se tão mal do inferno! disse o homem. Quem diz? perguntou outro cicerone. Toda a gente. Quem? A gente da Terra. Ah, bom, isso sim, essa gente diz mal, mas como pode constatar nãocorresponde à verdade. Pelos vistos, não, concluiu o homem, e continuou: Mas porque será que dizemmal, se o inferno não é nada do que dizem?! É marketing, disse outro cicerone, o céu não consegue oferecer as nossascondições, por isso, dizem mal; em contrapartida, nunca ninguém nos ouviu dizer maldo céu; a nossa política é simples: deixamos que os outros falem por nós... Iam andando; os cicerones mostravam o inferno, falavam dele e da vida. Ohomem estava admirado. Parecia que nada faltava, tudo tinha um ar pós-moderno, nadaminimalista, nem sequer espartano, sim de shopping luxuoso; as pessoas que se 31© Fernando Hilário (2012)
  32. 32. cruzavam com eles nos corredores refulgiam alegria, boa disposição, contentamento; osrostos reluziam, os olhares faiscavam… Na zona da restauração, pararam; coisa digna de se ver, um restaurante estava aabarrotar de gente; tinha paredes e telhados de vidro; era o Zé do Pipo. O homem pôs-sea ler a ementa exposta à entrada em retábulo debruado com uma parreira em baixo-relevo: petiscosbucho chispe orelha de porco fígado de cebolada coração frito torresmos bacalhaufrito pataniscas de bacalhau pastéis de bacalhau caracóis à lisbonense chouriço assadona brasa favas estufadas com chouriço, os cicerones liam com ele, peixinhos da hortaenguias de barrica filetes de sardinha sardinha frita sardinha de escabeche sardinhaassada na brasa caparau frito pratinhos de moelas rissóis de vitela e de camarãochamuças croquetes temos broa de Avintes (…) Passou ao peixe: peixecabeça de pescada cozida com bom colarinho pescada cozida com batata e feijão verdepescada frita com batata frita e arroz seco ou malandro filetes de tamboril com arroz domesmo filetes de polvo com arroz do mesmo polvo à lagareiro sável frito hámílharas!, os cicerones seguiam-no na leitura, sável de escabeche chicharro assado nabrasa com molho verde espetada de lulas com gambas bacalhau cozido com todosbacalhau cozido com grão meia desfeita com grão-de-bico empadão de bacalhaubacalhau à Zé do Pipo bacalhau assado no forno com grelos bacalhau com natasbacalhau com broa bacalhau de segredo bacalhau à espanhola bacalhau à Gomes de Sálombinhos de bacalhau frito com arroz malandro de feijão vermelho ou de grelos arrozde bacalhau com ovos escalfados bacalhau à demo bacalhau nunca visto cavala cozidapeixe-espada frito fanecas fritas raia cozida cherne à Durão só por encomenda robaloao sal linguado assado na brasa com molho de manteiga bife de atum chocos com ousem tinta arroz de lampreia ou à bordalesa (…) Passou à carne: carnepezinhos de coentrada feijoada à transmontana tripas à moda do Porto mãozinha devitela com feijão branco posta mirandesa, dois cicerones desinteressaram-se da leitura econversavam ao lado, com batatas a murro vitela assada carne à jardineira lombo, osrestantes cicerones continuavam a segui-lo na leitura, de porco assado com castanhas 32© Fernando Hilário (2012)
  33. 33. espetada de porco preto língua estufada com ervilhas estufado de línguas de cabrito àSerra das Meadas arroz de sarrabulho rojões à moda do Minho frango no forno àmoda de Baltar arroz de pica no chão arroz de pato à antiga portuguesa chanfanaleitão da Bairrada coelho à caçador coelho assado na brasa coelho recheadoentrecosto na brasa barriguinhas na brasa cabidela de miúdos de leitão (…) Passou aos mariscos: mariscospercebes vieiras amêijoas à Bolhão Pato camarão da costa gamba média, os doiscicerones regressaram à leitura, e grande lagostins tigres grelhados maionese delagosta lagosta suada, os restantes cicerones desinteressaram-se da leitura e puseram-sea conversar em círculo no meio do passeio; como não viu preçário, perguntou É caro? Oquê? perguntou o cicerone que lia por cima do ombro direito dele; Se os preços dorestaurante são caros? insistiu, e o cicerone da esquerda respondeu Aqui nada se paga.Não se paga nada?! admirou-se o homem que foi parar ao inferno. Não! respondeu umdos cicerones que estava no círculo da conversa, e continuou Está tudo pago. Como épossível?! queria ele ainda saber, mas um outro cicerone, de todos o que tinha o rostomais afogueado disse a modos de pôr termo ao assunto Sabe como é, são os apoios afundo perdido, subsídios vários, coisas assim, há francesinhas à Luso (…) sobremesaspudim abade de Periscos (…) Iam andando. Estava o homem cada vez mais admirado e perguntou Mas é verdade que vocêstudo fazem para desviar as almas, isso é verdade, não é? Desviar as almas!? que patetice! veja bem: que interesse temos nós em desviaras almas?! O homem pensou um pouco e concluiu, De facto, não há interesse nisso! Claro que não, isso é conversa dos do céu; espalham essa ideia para teremclientela, mas eles é que estão às moscas, disse outro cicerone. Soubesse eu que era assim, ainda tinha feito mais umas asneiritas, lá na Terra!disse o homem. Não seria muito conveniente, disse outro cicerone, olhe que para aqui só vêmaqueles que fizeram o que tinham a fazer; isto não é lugar para mentirosos ou falsos;cada um é como é: quem merece o céu, tem o céu; quem merece o inferno, tem oinferno. 33© Fernando Hilário (2012)
  34. 34. Não me queixo, disse o homem, ainda que haja uma pequena coisa que eugostaria de ver alterada. O que é? perguntou outro cicerone. Isto tem ar condicionado, não tem? Tem, tem ar condicionado; todos os espaços do inferno têm ar condicionado, oar é todo condicionado. Pois aí é que está o problema, disse o homem, é que eu não suporto o arcondicionado: faz-me arder os olhos, seca-me a mucosa, irrita-me a garganta, causa-mecomichão pelo corpo todo! Quanto a isso, não há nada a fazer, disse outro cicerone, está estabelecido assim,não temos hipóteses de alterar seja o que for. Mas, disse o homem, não há nenhum responsável a quem eu possa dar umapalavrinha!? Responsáveis há, disse o primeiro cicerone (aquele que lera a ementa por cimado ombro do homem…), eu posso falar a um responsável, mas não vai adiantar nada! Mesmo assim, gostava de falar com esse responsável, disse o homem. Fizeram-lhe vir o gerente. Já me constou que o senhor tem problemas com o ar condicionado. É verdade, não me dou com o ar condicionado, vão ter que desligá-lo. Não é possível, disse o gerente. Pelo menos, o do meu quarto... Lamento, mas isso é impossível, disse o gerente, o Departamento da Qualidadede Vida não autoriza que se desligue o ar condicionado, já tivemos casos iguais e oDepartamento foi intransigente. Mas, se eu falasse com alguém responsável pelo Departamento de Qualidade...,propôs o homem. Falar pode falar, mas não vai adiantar nada, disse o gerente. O diretor do Departamento da Qualidade de Vida foi perentório: Não há nada afazer, o ar condicionado é ponto assente, ninguém no inferno pode abdicar dele! Mas, disse o homem, veja bem: o ar condicionado para mim é um incómodototal, não o suporto, é um inferno viver com ar condicionado! Pois se assim é, disse o diretor, não vejo inconveniente nenhum: viva o inferno,meu caro amigo, viva o inferno! 34© Fernando Hilário (2012)
  35. 35. * O desenlace da história do homem que não se dava com ar condicionado estábom de ver: o homem morreu. Coçou-se tanto que ficou com o corpo numa chaga emorreu. Mas não se sabe para onde foi. 35© Fernando Hilário (2012)
  36. 36. O Conto do Relógio Parado O escritor escrevera um conto para um jornal, mas o jornal não o publicou; nemsempre os jornais publicam os contos dos escritores. Mas era um conto interessante.Interessante é a melhor palavra para adjetivar um conto, como se sabe. O Conto do Relógio Parado, assim o seu título, é o conto do relógio parado, nãoé outra coisa, é só isso. E assim também se estranha que o jornal não o tenha publicado. É assim o conto que o escritor escrevera: O relógio da parede parou nas doze horas em ponto. No dia em que talaconteceu, ninguém da casa soube, a não ser ele, o próprio relógio. Achava o senhor da casa que o relógio devia ter parado há uns sete anos. A senhora sua esposa achava que não, achava que o relógio parara há vinte anos.Parou no dia do casamento da nossa segunda filha, dizia. Nada disso: parou no dia do casamento do nosso segundo neto; ou terá sido nodo primeiro?! questionava o senhor da casa. A tia que vivia com eles, também tinha opinião: achava que o relógio parara hátrinta anos; Parou no dia em que morreu o meu marido. A criada dizia que aquele relógio nunca trabalhara; Sempre esteve com osponteiros ali, até sempre pensei que aquele relógio só tinha um ponteiro! E todos se foram deitar. Passaram sete anos. Num serão, o senhor da casa voltou a falar do mesmo assunto. Desta vez,apontou aí para uns trinta anos ou mais o tempo em que o relógio havia parado. A senhora sua esposa achava que o relógio parara há mais de vinte anos. A criada sempre pensou que o relógio nunca trabalhara e que até só tinha umponteiro. A tia que vivia lá em casa não se pronunciou, pelo facto de, entretanto, termorrido. Também desta vez ninguém perguntou nada ao relógio. E foram deitar-se. 36© Fernando Hilário (2012)
  37. 37. No dia seguinte, por muito estranho que possa parecer, no dia seguinte, ao serão,exatamente ao serão, o senhor da casa veio com a mesma treta: Quando terá parado esterelógio?! em que ano?! Nada disse a senhora da casa, pelo facto de ter adormecido. A criada também nada disse, por ter ido à terra, morrera-lhe uma tia e foi lá. E o relógio, que pelos vistos já andava chateado com a conversa, esperou que nosofá também adormecesse o senhor da casa e deu doze badaladas, mas ficou-se por aí. * Por que razão o jornal não publicou o conto?!__________________ Nota à parte desta história, ainda que ela seja, tal como as outras que aqui sepublicam, exemplarmente imperfeita: Um conceituado crítico literário, autenticado pela sua figura alta de tipoesticado, analisou O Conto do Relógio Parado, das palavras à numerologia, daspersonagens ao espaço e ao tempo; analisou tudo e concluiu que o jornal não teve razão,que a razão nada tem a ver com o Conto do Relógio Parado. A razão não tem a ver…rematou. E seguiu de olhos em frente; um andar irrepreensível, a figura alta de tipoesticado. 37© Fernando Hilário (2012)
  38. 38. O horrível conto do homem que morreu afogado na chávena de café Um homem viu-se na chávena de café. Não queria acreditar; por certo, sonhava; mas levou a colher ao fundo, trouxe-separa fora, olhou com atenção: era ele! Gesticulava, desesperado tentava dizer algo,percebia-se que gritava, mas tão pequeno era que não se ouvia. Aquele homem era ele na chávena de café! Incrédulo, voltou a pôr aquele corpo na chávena de café. Porém, num terrível esforço, o minúsculo homem conseguiu agarrar-se ao bordoda chávena, e levantou uma perna… ia conseguir saltar, mas, com a colher, o homemempurrou-lhe o pé, uma mão, a outra mão e mergulhou-o novamente no café. Durante algum tempo, impediu-o de emergir: mantinha-lhe a cabeça submersa;mas, num esforço titânico, o minúsculo homem esgueirou-se e agarrou-se à colher;tentava içar-se, aproximar-se dos dedos do homem, tocá-los. Mas o homem sacudiu acolher e fê-lo cair outra vez no café. Não podia deixá-lo sair, descer ao pires, passear pela mesa...; alguém podia ver,não saberia dar explicações; e até lhe parecia ter já atraído a atenção do empregado e docasal que acabara de entrar. Não lhe restava senão afogá-lo no café. Tapou a chávena com o pires. Mas algum tempo depois, já o pires vibrava,tremia; e parecia-lhe que o pequeno homem acabaria por erguê-lo, deitá-lo por terra.Reforçou então o peso com o maço de cigarros e o isqueiro. Mas já temia que não fosseainda peso suficiente. Lembrou-se do molho de chaves; tirou-o do bolso e substituiu omaço de cigarros por ele. Não tinha outra solução. Era impossível deixá-lo viver! Pensava agora se já estaria afogado… Espreitou: uma mão aberta desaparecia no líquido negro; algum tempo depois, ocorpo boiava de costas. O homem levantou-se, deixou uma moeda na mesa, e abandonou o café. 38© Fernando Hilário (2012)
  39. 39. A história do escritor que comia histórias Era um escritor que comia histórias. Escrevia histórias a seu gosto; histórias degula, metessem lagosta ou caviar, carapaus com arroz malandro, dobrada fria ou quenteà moda do Porto, e comi-as. Qualquer história. Mesmo que algumas histórias acabassempor ser indigestas, comia-as; comias todas; era um escritor que se alimentava dehistórias. Comia personagens, deleitava-se com os espaços, papava a intriga, o tempo… Escusado será dizer que ninguém lia as suas histórias, pois não eram históriaspara ler, histórias sim para o próprio criador comer. Mas desvende-se já o fim da história do escritor que comia histórias: certo dia,escreveu uma tão pesada história que morreu. Morreu de congestão. Feita a autópsia ao malogrado escritor, concluiu-se que, de facto, havia muitatrama, havia muita prolepse, havia muita analepse, complexa intriga, muito hermetismo,excessiva sugestão, rutura e vanguarda em demasia, além de um molho de que não sedescortinou noventa por centro dos constituintes, o que é muito! Morreu. E conforme fora seu desejo, na sua inscrição tumular jaz a seguinte máxima:Mais vale comer histórias do que morrer de barriga vazia. Mas… recuemos na história do escritor que comia as histórias que escrevia.Alguém soube da existência desse tal escritor: alguém que nas fezes lhe vasculhava ashistórias; anos a fio espiou os passos do escritor, recolhia da fossa a criação, restaurava-a em forma escrita, assenhoreando-se da obra a que deu o seu próprio nome. Esse alguém é hoje mestre muito lido, e que venha a ser Nobel da literatura aténão admira. Vive em estado de graça, num pelo menos aparente estado de graça. Em sualápide tumular, cabe-lhe de certeza a máxima: Mais vale publicar histórias de merda quemorrer de congestão. 39© Fernando Hilário (2012)
  40. 40. O escritor da noite O escritor da noite vem à janela para colher a vista da cidade; é assim que gostadela: vazia, ainda que a saiba prenhe de gente. Pega numa família, por exemplo, e imagina naquele momento a vida: uma mãe asair da cama para consolar o filho que chora; ou um inesperado momento de sexo; ouuma traição; uma indisposição; um assalto; o início de uma doença, uma morte; umnascimento; uma insónia, um pesadelo, um sonho; de alguém que dorme, o fatídicoatropelamento pela manhã à saída para o emprego; uma mulher a acotovelar o ressonardo marido; alguém que se levanta para urinar, que mata a sede de um jantar; uma zangamatrimonial, a revelação de um adultério, outras confissões; o tranquilo dormir de umpulha; a chegada de uma menstruação feminina; uma masturbação; a perpetrar-se umcrime; uma conclusão; a chegada a uma decisão; a libertação de gases intestinais; umavelha mulher que mija na cama; um ataque de tosse, outro de asma; um paraplégico adormir; um ulcerado que acorda com dores; o magistral sono de um juiz que julgou mal,de um condenado em liberdade condicional, de um médico que falhou uma mais queelementar operação; um cancro que não se supunha vir a ser diagnosticado; aos pés dacama um gato enroscado; um cão aflito que alça a perna e mija a perna da mesa da salade jantar; o sono tenso de um cego; o cheiro de um tipo porco; o dormir de um punk, deum proxeneta, de um perneta, de um velho já morto, de um político que fez um discursomentiroso, de um outro que vai discursar no dia seguinte, de um escritor que ninguémlê, de um outro que não publica, de um poeta incompreendido, de uma mãe solteira queperderá o filho, de um locutor de rádio, de um outro de televisão, de um preto que foiespancado; a tristeza de uma mãe que morre antes da chegada do filho à cabeceira dacama; mas também alguém que vem à janela fumar um cigarro e, sem saber, fica frentea frente com o escritor que na noite escreve a cidade. As cidades nunca dormem: recolhem-se, e apenas mostram um mais sossegadoar; as cidades são todas iguais e todas juntas fazem o mundo, conclui o escritor, quevolta à cama para descrever o que não vê do que vê na noite. 40© Fernando Hilário (2012)
  41. 41. A música que não tinha fim por causa daquela nota final O músico estava intrigadíssimo: desaparecera da pauta uma nota de música, enão era uma nota qualquer, era a última de todas as notas, a nota final, e sem ela amúsica não tinha fim. Aquela nota sempre fora uma nota difícil, esguia como uma enguia, criaradúvidas, incertezas ao músico; esgueirava-se e, por várias vezes, ele até esteve paradesistir dela, substituí-la por outra que não fosse tão rebelde, tão desconcertante, tãolouca, mas, depois de muito refletir, de muito hesitar e de muito ponderar, decidiu-sepor ela. Já ia alta a noite quando o músico quase exausto, quase a desfalecer, tododespenteado, com a fralda da camisa de fora, os olhos, os ouvidos, os braços, as mãosno limite, todo ele no limite, se deixou cair como um bêbado no sofá, catrapus. Eadormeceu dum truz. Naturalmente que sonhou; tinha a música na cabeça, sonhou com ela; tinha amúsica escrita, sonhou com ela, sonhou com as claves, sonhou com os compassos, comas colcheias e as semicolcheias, com as breves e as que não eram…; tinha um piano nacabeça, tocou piano; depois, pôs a música toda num violino e foi para a varanda da casatocar; e já ia alto o sonho, andou a tocar aquela música numa flauta, desceu o monte,atravessou o grande vale, sentou-se na areia vizinha do mar, sentou-se, e as ondasvinham de mansinho ouvir a música da flauta e, depois, de mansinho, levavam-na parao mar, e a música andou nas ondas do alto mar, cruzou oceanos e veio de mansinho amuitas outras praias, atravessou vales, subiu montanhas, ergueu-se pelos ares econfundiu-se com os céus. A música que sonhou tinha as cores todas do arco-íris. Mas, quando o músico acordou, a nota não estava na pauta; como se disse,desaparecera. 41© Fernando Hilário (2012)
  42. 42. A história do menino que queria voar Conheço uma história de um menino que queria voar. Não sei se a conte; não seise fica bem entre as histórias que já contei. Não é uma história bonita, nem tem nenhumsignificado especial. É apenas uma história... Desculpem, vou contá-la: Era uma vez um menino que queria voar. Viu um corvo num penhasco; Corvo, dá-me as tuas asas para eu voar! Não dou, preciso delas. Subiu ao castelo do mágico; Mágico, faz-me uma magia para umas asas, que euquero voar! Não posso, ainda não consegui a poção para isso. Encontrou o poeta; Poeta, dá-me asas para voar! Tu mesmo terás de procurar as tuas asas e aprender a voar. Na escola disse ao professor, Senhor professor, eu queria voar e não tenho asas! As asas não lhe fazem falta nenhuma, o menino já anda nas nuvens! No bosque esteve com a Fada Azul; Fada Azul, fada-me com umas asas para eupoder voar! A fada tocou-lhe a cabeça com a varinha: nasceram-lhe umas asas azuis.Finalmente, tinha asas! Que alegria! Experimentou voar; agitou as asas, agitou, mas não conseguia voar. Fada, asasas com que me fadaste não me fazem voar; vê como não voo; estas asas não prestam! Lamento, disse a fada, mas são as únicas que sei fadar. Então, tira-mas, pois de nada me servem! Lamento, disse a fada, mas não posso, terás de viver com elas. Foi ao médico. O médico encaminhou-o para um cirurgião que lhe retirou asasas; mas, pela manhã do dia seguinte, as asas renasceram e à tarde já estavam como afada as tinha fadado; à noite, foi outra vez para o terraço tentar voar. Esforçou-se, mas não conseguiu. O padre falou-lhe de fé, que tivesse fé, que acreditasse. 42© Fernando Hilário (2012)
  43. 43. O santo, pois que um homem havia a quem chamavam santo, disse-lhe que osmilagres só a Deus competem, que tudo está nas suas mãos. Como Deus está em toda a parte, chamou por ele. Deus apareceu. Quem és? o que queres? Sou um menino e quero voar. Que és menino, vê-se; por que queres voar? Porque sou menino e os meninos sonham voar. Vejo que já tens asas, como é isso possível? Foi a Fada Azul, mas não me fazem voar. Que queres que te faça? disse Deus. Como és o todo poderoso, peço-te que me faças voar. Queres que eu faça um milagre, é isso? É, tu fazes?! Vou pensar; amanhã, à mesma hora, neste mesmo local, dou-te uma resposta. O menino ficou entusiasmadíssimo, tanto, que não havia maneira de adormecer;pôs-se à janela do quarto, Se Deus me der asas para voar, voarei até à lua, voarei atéàquelas estrelas… Às nove horas da manhã, conforme o combinado, Deus apareceu; Estive apensar no teu caso; eu não criei a tua raça com asas, e tu tens asas! vou ter que repor aordem natural das coisas: castigarei a fada que contrariou a minha vontade e tu serásigual aos outros homens. Mas eu sou um menino que quer voar! Não és ave nem anjo, nem inseto, não tens que ter asas e voar! disse Deus, eesfumou-se em fumo, numa fumarada de fumo, de fumo cinzento, escuro,estupidamente denso e escuro. O menino ficou então sem asas e sem esperança de voar; a fada deixou de serazul para ser uma fada amarela; castigo exemplar, pois, como se sabe, as fadas amarelasnão fadam nada de jeito. * Triste, muito triste, o menino meteu-se pela floresta, atravessou um rio, e foi dara uma aldeia. 43© Fernando Hilário (2012)
  44. 44. Mas a gente dessa aldeia era diferente: as pessoas, além de caminharem,voavam! Nem queria acreditar! Todos voavam, com uma facilidade incrível! Era ele oúnico que não tinha asas nem voava; por isso, olhavam-no, admirados, voavam à voltadele admirados, a olhá-lo admirados, a voar à volta dele…, admirados. Um deles, voando à volta dele, a olhá-lo admirado disse-lhe Vai ao Garagista!segues em frente até àquela aéreo-rotunda, vês?, contornas até à terceira aéro-pista, vaispor ela, e, coisa de vinte e cinco jardas à esquerda, vês uma garagem no ar, é aí; e foi-seembora, a voar, claro! Foi a voar, claro que foi a voar. Mas ele, como não tinha asas, foipelo chão, sempre com a cabeça levantada, para não se perder. Chegou esfalfado, e ainda teve que subir as escadas, tantas, que mais parecia queo levavam ao céu; mas o menino tinha um sonho para alcançar… O Garagista era uma espécie de génio do ar, o Silfo daquela aldeia, mas tambémera um tipo muito ocupado, tão ocupado que voava tanto ou tão depressa que nem se viaque voava. Assim também a Terra, dizem. O Garagista quis saber donde vinha, porque não era como os demais, e mais istoe mais aquilo. O menino contou-lhe a sua história; o Garagista ouviu com atenção edisse que, se assim era, pouco podia fazer. O presidente da aldeia soube e deu-lhe uma ordem de expulsão; Não queremosaqui gente que não voe, é um mau exemplo para a população. Mas eu quero voar! disse o menino. Seja como for, disse o presidente. O Silfo ainda tentou interceder pelo desasado; Talvez com uma prótese… Não, disse o presidente, Quem nasce torto nunca se endireita! (foi esta a versãoapresentada do adágio, omitindo ou raramente); era um déspota o raio do presidente,como são todos os presidentes, por isso é que o são; e ordenou que dois políciaslevassem o menino a quem chamava desasado, Este desasado, para fora da aldeia. Um dos agentes da autoridade alçou o menino pelos sovacos, que aquela gentetinha asas e tinha mãos, e pensar que há quem não tenha uma coisa nem outra, enfim; ooutro ligou a sirena aparelhada na cabeça, tira-te-daí-tira-te-daí-tira-te…, e foi à frente aabrir o trânsito, intenso, àquela hora do regresso a casa pelo lusco-fusco. * 44© Fernando Hilário (2012)
  45. 45. Deixaram-no na outra margem do rio. Chorava, Até os peixes voam nas águas e eu que quero voar não voo! também aslibelinhas, as aves e outros bichos voam... Chorava, queria ser como os meninos daquela aldeia fantástica, e, quando fossegrande, haveria de ser polícia. Chamou por Deus, que lhe explicasse aquela diferença!chamou, mas Deus não apareceu. Afinal, Deus não estava em toda a parte, nem tudo sabia. Andando de terra em terra, sem voltar a ver uma aldeia como aquela, cresceu; jánão era menino, nem rapaz, seria homem. Por vezes, recordava ainda quando foraexpulso da aldeia da gente voadora, levado pelos ares, a terra vista das alturas, mas issoacontecera há muito, muito tempo. 45© Fernando Hilário (2012)
  46. 46. Quem faz o tempo são as nuvens, as árvores e as palavras que plantam no céu A história daquele escritor que escrevia e nada se via do que escrevia, lembrou-me uma outra. Contou-ma um poeta. E porque nenhuma história deve ficar por contar,vou contá-la. * Era uma vez um velho homem que gostava de ler as nuvens. Desde pequenino aslia, e quem lhas ensinara a ler fora seu avô. O céu é o livro onde as nuvens se escrevem e as nuvens são palavras, dizia ele aum menino que, vendo-o a olhar o céu, lhe perguntou Porque olhas para o céu durantetanto tempo?! Também lhe disse o velho homem Há muitos livros para ler, mas, de todos oslivros, o céu, para mim, é o mais belo. E tu chamas ao céu livro?! perguntou espantado o menino. Chamo, respondeu-lhe o homem; e também chamo livro ao mar, às serras, aosrios, às aldeias, às cidades; para mim, tudo é um livro e todos os livros se podem ler. Não sabia! disse o menino, eu só conheço os livros da escola, não sabia que océu, a terra, o mar e outras coisas também eram livros! esses livros ninguém me ensinoua ler, tu ensinas-me? Claro que ensino! disse o homem. E desses livros todos, qual deles me ensinas a ler? perguntou o menino. Aquele que quiseres, e basta que te ensine a ler um que logo aprenderás a lertodos os outros, disse-lhe o homem. Ai é?! então, ensina-me a ler o livro céu, já que gostas tanto dele! pediu omenino. E tu também vais gostar, disse-lhe o homem. Sentaram-se no chão. Ora olha aquela nuvem que se escreve naquele pedaço azul; aquela ali, vês?disse o homem. 46© Fernando Hilário (2012)
  47. 47. Sim, estou a ver, disse o menino. O que te parece essa nuvem? perguntou o homem. Parece-me... ora deixa-me ver! parece-me um monte, não: parece-me umaárvore; e a ti? perguntou o menino. A mim também me parece uma árvore, uma árvore plantada no mar, disse ohomem. É verdade! mas... oh! já não é uma árvore! o que te parece agora? perguntou omenino. Diz tu! disse o homem. Olha, parece um barco, um barco grande... um vapor! disse o menino. Tens razão, é um vapor; e agora? perguntou o homem. Agora é a tua vez! disse o menino. Está bem, para mim, agora, é um foguetão! disse o homem. Estava a pensar nisso; é, é, é um foguetão! disse o menino; que engraçado! umfoguetão que ainda agora mesmo era uma árvore… Então, já sabes ler o livro céu? perguntou o homem. Já; e é tão divertido!... mas… diz-me uma coisa: quando não há nuvens no céu,não há palavras para ler! como é que se faz? perguntou o menino. Mesmo assim, não achas que há sempre alguma coisa para ler? disse o homem. O menino ficou a olhar o céu, por algum tempo pensativo. Depois olhou o velhohomem e disse-lhe Pois, o céu tem sempre coisas para ler! 47© Fernando Hilário (2012)
  48. 48. A menina da poça de água Um pouco mais e o livro chegava ao fim sem que eu vos contasse a história damenina que um dia se perdeu na floresta e foi dar a um sítio onde havia uma poça deágua em tudo e em nada excecionalmente invulgar. Talvez não interesse à história contar como chegou a menina à floresta e depoisse perdeu nela. Talvez não interesse, porque os caminhos onde chegamos são iguaisàqueles por onde nos perdemos. Por isso, poupo as razões e o tempo que elas levam aexplicar. * A menina dorme ainda, prostrada no chão da erva muito verde, muito próximada poça de água. Ao seu vestido branco, de saia solta e larga, peitilho de mimosa renda,faltam os pedaços de pano que ficaram presos nos abrolhos do caminho da floresta poronde veio até chegar ao lugar da poça de água. O Sol nasceu há pouco tempo. Só agora se insinua com suas mãos de mantodiáfano sobre o corpo da menina, acaricia-lhe a carne nua, os ombros, os braços, asmãos, o rosto todo, o peito que o decote do vestido não tapa, as coxas ao léu do vestidorasgado, as pernas, os pés descalços: é um beijo que ela vai recebendo, mais intenso noslábios, nas maçãs do rosto, nas pálpebras, que em breve a despertará do sono da noiteonde caiu exausta. Acorda agora, exatamente neste momento em que abre os olhos e fica sentada nochão; as mãos agarram a erva, o olhar descobre a paisagem. Está atónita. Não conhece o sítio onde se encontra, que veio no breu, maspercebe que ali já não é a floresta que lhe rasgou o vestido e feriu a carne. Já não sangra das pernas, dos pés, dos braços, das mãos, do rosto; a noiteestancou o sangue, deixando-o tatuado no corpo como rios secos, mas as feridas aindalhe ardem e o sangue morto instalou-lhe um prurido na pele. Põe-se de pé, a custo, que tem o corpo dorido do tempo narrado. Aproxima-se da poça de água. Vai certamente servir-se dela para saciar a sede elavar o sangue das feridas. 48© Fernando Hilário (2012)
  49. 49. Já está debruçada sobre a água, mas apenas procura ver-se nela. Todavia, aocontrário de outras poças de água onde a menina se viu como num espelho, esta não lhedá o rosto a ver; em vez dele, a menina vê o céu e as nuvens que há nele. Com a suamão ensanguentada tenta afastar o céu com nuvens que vê à superfície da poça de água.Mas as nuvens não saem; só por instantes desaparecem desfeitas pela sua mão, e voltaminstantes depois. De repente, a menina levanta os olhos ao céu e percebe que no céu nãohá nuvens. Confusa, volta a olhar a superfície da água onde não se vê e onde vê o céucom nuvens, e olha o céu e não vê nuvens no céu. A menina senta-se no chão. Está confusa. Ela não sabe que aquela imagem é amemória de um tempo anterior que só desaparecerá se fechar os olhos e mergulhar naságuas da poça. Também não sabe que o fundo da poça é no fundo dos oceanos. Nãosabe que se entrar na poça de olhos fechados, viajará três noites e três dias no mundo daágua até emergir numa praia de areia branca que será sua eternamente. A menina não sabe, por isso ficará o dia todo debruçada sobre a poça, a tentarafastar o céu com nuvens para ver o seu rosto na superfície das águas; ficará, assim, atéa noite chegar. * A menina caiu na poça de água; terá sido por descuido, ou foi a noite que aempurrou. O certo é que é dela uma praia de areia branca. Eternamente. 49© Fernando Hilário (2012)
  50. 50. Sobre as histórias, mesmo quando são exemplarmente imperfeitas e interessantes, caisempre um silêncio.Desejamos que seja azul esse silêncio. 50© Fernando Hilário (2012)

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