O dia em que 
todo o iogurte 
de morango 
se desintegrou 
Fellippe Heitor
© 2014, Fellippe Concolato Heitor 
Imagens: Pixomar / FreeDigitalPhotos.net; Stuart Miles / FreeDigitalPhotos.net; ddpavum...
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Alguém na 
multidão
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Bicicletas 
— Outra vez preso? 
Outra vez preso. Mas quem o olhasse, antes mesmo de obter a 
resposta, já deduziria que...
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Cinco ângulos 
A batida de uma porta, vinda bem do andar de cima, fez os 
músculos da testa de Valtair se contraírem da...
[antes de aparecerem os créditos, aparecem fotos e o narra-dor 
diz:] 
Senhor Valtair até se levantou, como tinha pensado....
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O digitador 
Independentemente de como chamassem seu cargo, era um 
digitador. Todos os dias, digitava dados a respeito...
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O mestre de cerimônias 
Lúcio era um apresentador de circo. Falar em público era sua 
função, anunciando que a corda ba...
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Retrospeclixo 
Por acaso, num dia frio, abriu uma gaveta que há muito não 
via a luz. Teve que se esforçar para não dei...
A sacola do “isso não presta” não comportava mais tanta inuti-lidade. 
Como nas grandes estações de coleta de lixo, camada...
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Dual 
Metódico. Os amigos mais esotéricos diziam que era coisa do 
signo dele. Os mais descolados o achavam um chato. D...
Certa vez, combinou de apresentar um projeto a um grupo im-portante 
de uma cidade vizinha. Reuniu sua equipe, informou 
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Ciclo 
Tinha uma vida normal. Esposa, filhos, amigos, trabalho e 
vida social. Mas, uma vez por ano, sua normalidade se...
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O reencontro 
Lúcio não via aquele amigo havia muito. Lembrava com sauda-de 
dos bons momentos vividos com a turma de a...
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Ao telefone 
Tem gente que não diferencia pensar e falar. É o famoso e irri-tante 
“falar pelos cotovelos”. Vivi esta s...
Três minutos de conversa. Três minutos durante os quais fi-quei 
preso a um aparelho telefônico sem poder fazer mais 
nada...
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Verãozão 
A tarde pertencia a eles. O vento que balançava seus cabelos 
tinha a velocidade perfeita. A água tinha a te...
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Cogito
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Apocalipse por encomenda 
Então, um dia, alguém estava analisando um calendário Maia 
e chegou à conclusão de que o mun...
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Alguns blogam, outros 
twittam 
Nunca fui de muitas palavras. Quando me apresentam a al-guém, 
geralmente é complicado ...
SEÇÃO 3 
Você sabe que chegou em 
Belo Horizonte quando 
Você sabe que chegou em Belo Horizonte quando abre o olho 
no ôni...
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Quem inventou o quebra-molas? 
Não sei se existem em outros países, nem onde foram inventa-dos, 
mas nossos redutores d...
E depois de contatar o departamento de logística, surgiu o que-bra- 
molas. 
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Absurdo
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O dia em que todo o iogur-te 
de morango se desinte-grou 
Eu estava ansioso pela reação das pessoas. Ser o primeiro a s...
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Back to the future 
Sua primeira reação, claro, foi tentar acalmar seu jovem eu. 
Como aquele menino tão inteligente nã...
— Eu vou ficar idiota assim quando enve-lhecer? 
Então saiu correndo. Seu cérebro havia entrado numa repeti-ção 
de racioc...
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Aguardando instruções 
— Não vejo nada! – reclamou Anne. 
– A visibilidade não é importante aqui. Apurem seus ouvidos. ...
4 
Justo 
— Sua vagabunda! Te falei que não era pra fazer isso comigo, 
sua piranha! Toma desgraçada! 
Três tiros ecoaram,...
arma apreendida e os projéteis ao escrivão judicial, para que 
armazenasse em local seguro até o dia do júri popular. O Pr...
5 
Repeat: ON 
Estava morto. Se a luz brilhando, vindo do alto, naquela estra-da 
abandonada, longe de qualquer sinal de p...
rás a eternidade ao som da última canção que ouviste, canta-rolaste, 
ou mantiveste em tua cabeça. Deverias ter andado 
em...
6 
Eu disse, mas ninguém ou-viu 
a tempo 
Aí agora eu estava lá. Parado, sozinho, com fome e com frio. 
Eu tentei avisar, ...
7 
Um novo começo 
Os primeiros raios de luz atrás das montanha anunciavam que 
o tempo havia se esgotado. Comte sentia do...
— São o Airtom e o Clarêncio! – disse Anne. 
— Eles estão mortos. Renato me disse que os outros também 
estavam. 
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Olhei pro canto e vi um 
rato 
Olhei pro canto e vi um rato. Me olhou… olhei… correu. Não 
sabia que havia uma saída na...
9 
De repente 
De repente (eu sei, leitor… começar com um “de repente” é du-reza, 
mas eu quero que você entenda quão de r...
10 
O plano P 
O ar frio foi cortado pela sua chegada pontual. A luz trêmula e 
inconstante somente permitia ver o esboço ...
11 
Abriu os olhos de repente. 
Um arrepio percorreu sua espinha. Preferia continuar acredi-tando 
que estava sozinho naqu...
12 
Em frente 
Depois da morte de Anne, e da total dominação a que havia 
sido sujeitado, Comte passou a apenas sobreviver...
13 
Biblioteca 
Havia herdado uma biblioteca. Os mais variados títulos esta-vam 
presentes no acervo. Títulos que ele olha...
O trabalhou durou um longo período de tempo. Meses ou 
anos, não se pode precisar. 
Do acervo original, pouco restou. 
O q...
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O dia em que todo o iogurte de morango se desintegrou

  1. 1. O dia em que todo o iogurte de morango se desintegrou Fellippe Heitor
  2. 2. © 2014, Fellippe Concolato Heitor Imagens: Pixomar / FreeDigitalPhotos.net; Stuart Miles / FreeDigitalPhotos.net; ddpavumba / FreeDigitalPhotos.net. i Copyright
  3. 3. 1 Alguém na multidão
  4. 4. 1 Bicicletas — Outra vez preso? Outra vez preso. Mas quem o olhasse, antes mesmo de obter a resposta, já deduziria que não era a primeira vez que ele passa-va por aquela experiência. Por mais que sejamos contrários e tentemos evitar todo tipo de preconceito, ninguém imagina-ria, a princípio, que um sujeito pudesse ter adquirido todas aquelas tatuagens trabalhando num banco, ou num hospital, sei lá. — Outra bicicleta? Sim, era outra bicicleta. De todas as 27 vezes em que ele havia sido preso, 25 envolveram uma bicicleta. As outras duas envol-veram agressão, quando não conseguiu tirar a bicicleta do dono. Grandes, pequenas, modelos antigos e novos, femininas ou masculinas, infantis ou não. De marcha, sem marcha, com o pneu furado ou sem freio. O fato era que não conseguia se con-ter ao vê-las. Precisava delas. E então, as roubava. E ia novamente preso. Quando, graças aos benefícios da lei, era novamente solto, iniciava-se uma con-tagem de dias na carceragem, para saber se ele bateria o pró-prio recorde, sendo novamente preso por outra ocorrência ci-clística. Outro dia me peguei pensando na história do indivíduo. Imagi-nei o que eu faria se eu pudesse voltar no tempo e encontrá-lo, criança. Levaria uma bicicleta nova para ele. 3
  5. 5. 2 Cinco ângulos A batida de uma porta, vinda bem do andar de cima, fez os músculos da testa de Valtair se contraírem daquele jeito que os moradores do edifício Ambu conheciam bem. O síndico era daqueles que são radicalmente contra a lei do silêncio só come-çar a valer a partir das dez da noite. Para ele, das oito em dian-te o silêncio deveria ser obrigatório, e qualquer desobediência à lei deveria ser punida severamente (chineladas constavam de sua lista de merecidos castigos). Pensou em se levantar e ir até lá. Esses jovens nunca aprendem. Tem que repetir, repe-tir, repetir,… A batida de uma porta foi o último som que Telma ouviu, an-tes que a ligação caísse. Pensou que seu telefonema talvez pu-desse ter sido a causa do que tinha acabado de ouvir. Lem-brou- se da vez em que um simples recado seu naquela secretá-ria eletrônica havia causado um tremendo mal-entendido. Pen-sou naqueles comentários que sempre ouvia, mas que ignora-va, pois sabia que não era com ela. Ou seriam? De qualquer forma uma súbita preocupação começava a tomar conta de seu pensamento. Será que ela realmente acredita que… Não, é bobagem minha. Definitivamente. Uma mulher tão centra-da como ela… A batida de uma porta acordou o pequeno Renato, que dormia no quarto ao lado. Suas pálpebras estavam inchadas e ele ain-da se lembrava do pai tendo uma de suas primeiras conversas sérias com ele. As palavras daquele homem que ele amava tan-to machucaram muito, mesmo tendo soado tão suaves, como de costume. Aquele dia também tinha sido a primeira vez em que Renato sentira medo de verdade. Papai? Mamãe? A batida da porta foi a gota d’água. Aquela situação não podia mais continuar assim. Renato pensou em todas as tentativas frustradas que havia feito para tentar mudar aquela decisão, tomada meses antes. Pensou nas possibilidades que ainda res-tavam para tentar solucionar o problema que inevitavelmente o afetava. Estava disposto a tentar tudo. Preciso que ela me es-cute. A batida da porta foi a gota d’água. Aquela situação não podia mais continuar assim. Bruna tateou o chão ao seu redor e le-vantou- se. O nariz doía como só os narizes sabem doer quan-do levam uma pancada. Colocou os óculos de volta com todo o cuidado. Finalmente começava a admitir para si mesma que não era mais possível adiar aquela visita ao oftalmologista. As-sim que o Renato tocar no assunto de novo eu vou aceitar que ele me leve lá. Aproveito e levo o Renatinho pra fazer o exame também. 4
  6. 6. [antes de aparecerem os créditos, aparecem fotos e o narra-dor diz:] Senhor Valtair até se levantou, como tinha pensado. Isto, po-rém, somente ocorreu às seis e meia da manhã, motivado por uma bexiga que quase gritava de dor. Dona Telma preparou um sanduíche de atum e continuou len-do sua Marie Claire. Renatinho nunca mais tentou juntar numa única brincadeira o cachorro, um tomate e alguns fios desencapados. Renato finalmente conseguiu que Bruna admitisse sua quase cegueira, em função de uma miopia galopante. Hoje ele é muito mais feliz e nunca mais teve de socorrer a esposa no shopping. Bruna ostenta um charmoso fundo de garrafa e se considera uma nova mulher. 5
  7. 7. 3 O digitador Independentemente de como chamassem seu cargo, era um digitador. Todos os dias, digitava dados a respeito de pessoas que haviam cometido crimes, das mais diversas naturezas. Em outros momentos, os dados referiam-se às vítimas. E os dados sempre incluíam o nome completo da pessoa, profissão, nome do pai, nome da mãe, data e local de nascimento, e números de documentos, eventualmente disponíveis. Um nome pode conter tantas histórias, mas para ele precisa-vam ser meros nomes, meras sequências de letras encadeadas de forma tal que pudessem identificar um infrator, um desa-justado, um injustiçado, ou um agente passivo, vítima, recep-tor da ação criminosa. Contudo, era inevitável que, a cada data de nascimento digita-da, ele se perdesse momentaneamente pensando naquele dia, naquela família recebendo com carinho, vindo do hospital, aquele bebê que, quem diria, causaria tantas dores de cabeça no futuro. Ao ler os nomes, pensava em como o pai devia ter idealizado um futuro brilhante para aquele filho. Como aquela mãe devia ter visualizado, em seus devaneios, o nome de seu recém-nascido estampado em notícias positivas, impresso na tarjeta de uma porta de escritório, “Dr. Fulano”. Nomes geralmente contém histórias. Geralmente são homena-gens a algum parente admirável, a alguma personalidade com alguma característica admirável. Mas para ele precisavam ser meros nomes. E então, na mesma sequência de pensamentos, a aquarela ima-ginária de tons pastéis era manchada por uma tinta espirrada, pela possível imagem de pais igualmente desajustados, que ti-veram na concepção daquele filho um desgosto, que em sua própria relação constituíam um desgosto. Que não se ama-vam, que não planejaram uma vida a dois que simplesmente aconteceu, se impôs. Mas os segundos de conjecturas se esvaíam, e esforçava-se para que os nomes continuassem meros nomes. Depois aperta-va enter, para imprimir o relatório. 6
  8. 8. 4 O mestre de cerimônias Lúcio era um apresentador de circo. Falar em público era sua função, anunciando que a corda bamba hoje seria sem rede de proteção e que o atirador de facas usaria uma venda em seus olhos. Nunca tinha tido problemas em se comunicar com sua platéia. Senhoras e senhores, meninos e meninas, todos o ouviam e en-tendiam com clareza. Quando então apagavam-se as luzes, recolhiam-se os animais e os rostos eram lavados, Lúcio recolhia-se também, em seu furgão, para renovar as energias e descansar a voz para o dia seguinte. As pessoas que conviviam com Lúcio, porém, sabiam que ha-via dois dele. A versão falante e a versão grilo. Lúcio no pica-deiro e Lúcio funcional. E por mais que o circo tivesse apresen-tações frequentes, sua versão prevalecente era a que não con-seguia jogar conversa fora. O que se faz enquanto alguém corta seu cabelo? Conversa-se. O que resta a fazer quando se está preso numa sala de espera? Conversar. Recebeu uma visita? Entretenha-na! Converse com ela! Mas para Lúcio, todas essas situações eram insustentáveis. Sempre acabava com todas as tentativas de bate-papo. Não conseguia puxar assunto. Até respondia, e genuinamente ten-tava dar prosseguimento aos assuntos que surgiam, mas era incapaz de impedir que o silêncio eventualmente se instalasse. Ser calado o incomodava. Por que não conseguia ser como todo o resto? O que custaria falar um pouco de bobagens so-bre o tempo, sobre política ou sobre futebol, vez ou outra? Contudo, custava-lhe. Depois de anos de agonia, sem saber como proceder com rela-ção aos tagarelas sociais, passou a não mais frequentar estes lugares. Nem barbeiro, nem dentista, nem consultório médi-co. Nem mercados, nem bares, nem qualquer outro antro de conversa fiada, como os chamava. Cabeludo, barbudo, dentes mal cuidados, saúde mal cuidada. Lúcio transformou-se num bicho. De apresentador, em atração do circo. De atração de circo, em velho rabugento. E, finalmente, em peso de papel. 7
  9. 9. 5 Retrospeclixo Por acaso, num dia frio, abriu uma gaveta que há muito não via a luz. Teve que se esforçar para não deixar cair todos os itens que pulavam dali, gritando por espaço e ar, entre tantas coisas que guardou, não sabia para quê. Decidiu que era o momento de uma faxina. Os últimos dias de dezembro sempre sugeriam esse tipo de ritual. Estranhamen-te, porém, os últimos dezembros não haviam sido persuasivos o suficiente, o que podia facilmente ser percebido pela organi-zação das coisas ali. Muniu-se de uma sacola que funcionaria como “isso não pres-ta” e começou a triagem. O primeiro item que tirou da gaveta foi um recibo, desses amarelos. “Cupom fiscal? Preciso dis-so?”, pensou. Depois de ler o que havia comprado naquele 13/ 07/2009, às 14:27, concluiu que não, realmente não precisaria daquilo. Afinal, de que adiantaria, agora, dois anos e meio de-pois, saber que naquela tarde havia comido iogurte com polpa de frutas e um pão com muçarela e presunto? Pior ainda, de que adiantava, naquele mesmo 13/07/2009, já às 14:28, guar-dar um documento que dizia o que havia acabado de com-prar? Será que não tinham-no deixado sair do mercado com os produtos, mas só com uma descrição deles? Como se disses-sem “pode ter certeza, foi isso aí que você comprou! Se não acredita, olhe, daí mesmo, para a sacola que ficará depositada aqui conosco”. Dando uma segunda olhada no conteúdo da gaveta, viu que não seria prático tirar dali coisa por coisa, para decidir o que não prestava. Então, tentando ser o mais prático possível, des-pejou todos os comprovantes no chão. Era uma gaveta só de comprovantes. Um porta-comprovantes. Mas havia também cartões, que um dia estiveram colados a presentes que foram dados em datas especiais, e ainda outros, recebidos em datas aleatórias. E ali estavam embalagens de produtos, fotos, cds sem capas, fitas de vídeo, provas da facul-dade, canhotos de cheques emitidos anos antes. Ainda, todos comprovantes. Comprovantes de que se teve alguém a quem presentear, de que se teve alguém que se importava com ele, de que a partici-pação naquela promoção era legítima, de que os eventos havi-am realmente acontecido, de que aquele refrão repetitivo em sua cabeça não era composição sua, de que a cicatriz tinha ori-gem no tombo filmado, de que, sim, merecia aquela nota, “olha,” havia acertado todas as respostas, e “sim, esses che-ques foram todos pagos”. 8
  10. 10. A sacola do “isso não presta” não comportava mais tanta inuti-lidade. Como nas grandes estações de coleta de lixo, camada após camada de papel, ele pisava na pilha para que, compac-tando o entulho, não precisasse de uma segunda opção de ar-mazenamento. Fazendo isso, ele pisava também num passado que estava ali, em minúcias contábeis, esperando para que al-guém o fiscalizasse. Ninguém, porém, fiscalizaria. Durante todos aqueles anos, guardara provas de que havia existido. Uma forma de mostrar que passou por esse mundo. Aquela sacola, cheia de papéis an-tigos e empoeirados, era como um coração entalhado no tron-co de uma árvore, ou um muro pichado, gritando para provar que o entalhador ou que o grafiteiro haviam estado ali. Para a árvore, machado. Para o muro, tinta. Para seus compro-vantes, a lixeira. E ninguém jamais saberia do iogurte com polpa de frutas. 9
  11. 11. 6 Dual Metódico. Os amigos mais esotéricos diziam que era coisa do signo dele. Os mais descolados o achavam um chato. Daqueles que gostam de tudo bem esclarecido, nos mínimos detalhes. — Ótimo então, fica marcado pro dia 30, às duas da tarde. — Certo. Mas então algo novo surgia e mudava o compromisso para al-gumas horas mais tarde, na cidade vizinha. — Não vou. — Como não vai? Precisamos da sua assinatura no projeto! — Não vou. Achava que ia morrer. Achava que a mudança repentina era um sinal divino, algo que indicava que seu fim estava próxi-mo. Um medroso que, para encobrir o medo, transformava-se no chato de galocha costumeiro. Vez ou outra, porém, ele pró-prio precisava mudar os planos que havia feito. Quando a mu-dança partia dele, tudo bem. Venha o que vier, é assim que vai ser, pensava. Imprevisível. Os amigos mais esotéricos diziam que era coisa do signo dele. Os mais descolados sabiam que era um louco. Daqueles que não estão nem aí pra nada. Sua personalidade dual já era velha conhecida dos que o rodea-vam. Quando alguma mudança era anunciada, os envolvidos já perguntavam: — Foi ele que mudou? — Foi. — Beleza então, vamos todos! Ou então: — Foi ele que mudou? — Não. — Droga. Das vezes em que se envolvia com programações de outras pes-soas, procurava saber das condições do local, da estrada, con-sultava mapas, GPS, sites especializados. Só não consultava o horóscopo porque não acreditava nestas bobagens, dizia. 10
  12. 12. Certa vez, combinou de apresentar um projeto a um grupo im-portante de uma cidade vizinha. Reuniu sua equipe, informou horários e combinou o local de saída. — Vi na previsão que vai… — Shhhh! Não quero nem saber. Na hora eu vejo como o tem-po vai estar. Mas que vamos, vamos. E assim seguia sua vida, ora planejada ao extremo, ora impre-visível como deve ser. Quando sua esposa avisou que a bolsa havia estourado e que o bebê ia nascer, nem se moveu. — A data marcada pro parto é só em dois dias. E recebeu, por telefone, em casa, a notícia de que o bebê havia nascido saudável. Mas dali não arredou o pé. 11
  13. 13. 7 Ciclo Tinha uma vida normal. Esposa, filhos, amigos, trabalho e vida social. Mas, uma vez por ano, sua normalidade se ausenta-va. Aos trinta e nove anos de idade, agia da mesma forma, ritual-mente, todos os anos, havia pelo menos trinta deles. Tinha nascido às quatro horas de uma tarde de primavera, e um dia descobriu que iria morrer. Desde então a idéia fixa de que mor-reria exatamente ao encerrar um ciclo de sua existência pas-sou a dominar seus pensamentos, ano após ano. Na véspera de seu aniversário, desmarcava todos os compromissos, infor-mava no escritório que faltaria no dia seguinte, munia-se de mantimentos suficientes para 24 horas e se recolhia, solitário, das quatro da tarde de um dia até as quatro da tarde do seguin-te, esperando a morte chegar. Trinta anos. Trinta encontros marcados. Trinta foras da ossu-da. O que o levava a se esconder não era medo. Era vergonha. Fi-cava imaginando a cena com seu corpo estendido no chão em algum lugar público por onde estivesse passando, e no quanto odiaria se tornar personagem de música popular, em plena contramão. Aos 19 e aos 29, a apreensão havia sido ainda maior. Os ciclos de 365 dias anteriores não haviam se confirmado, mas um ci-clo de 3650 dias? Dez anos redondos? Fatalmente seria ali que sua existência teria fim. Mas não teve, em nenhuma das ocasi-ões, e isso só o incomodava mais, a cada nova rodada. E agora estava prestes a completar 40 anos. O corte afiado da lâmina da foice do anjo da visita derradeira já zunia em seus ouvidos. Despediu-se das crianças com um abraço mais forte que o de costume, deu um beijo mais demorado em sua espo-sa e se retirou, como sempre fazia, silenciosamente. No dia se-guinte, às quatro e um, num misto de alívio e decepção, reti-rou- se do exílio e retomou sua vida cotidiana. E seguiu, a cada novo ciclo repetindo seu estranho costume. Até que morreu. Aos cinquenta e quatro anos, oito meses e sete dias de vida, às nove horas e trinta e sete minutos da noite, numa ponte aérea. Nunca aprendeu o quanto a vida neste lugar é irregular. 12
  14. 14. 8 O reencontro Lúcio não via aquele amigo havia muito. Lembrava com sauda-de dos bons momentos vividos com a turma de antigamente. E agora, anos depois, lá vinha Júlio, virando a esquina. Quan-tas coisas a se conversar! Lúcio, porém, já sabia que não conseguiria estender a conver-sa, por mais que quisesse saber sobre Júlio. Fez, então, o que todos os que, como ele, não conseguem fazer nada nesses mo-mentos de interação social: ensaiou mentalmente o que dizer, durante o tempo em que Júlio levaria para andar os quinze metros que os separavam. — Júlio! Por onde tem andado? Vi recentemente numa atuali-zação de uma dessas redes sociais que você viajou para a Euro-pa! E como anda a Vera? Vi fotos, e ela parece muito bem. E o relacionamento, já resolveu acabar com a enrolação? Estou vendo a aliança na sua mão direita… noivaram, hein? E a luta contra a balança? A idade não ajuda, né? Estou vendo que você também ganhou uns bons quilos. E o trabalho, muito can-sativo? Percebi pelas suas olheiras, deve estar dormindo pou-co. Ainda fumando? Senti cheiro de cigarro quando você che-gou perto… Lúcio já sabia as respostas para todas as perguntas que pode-ria fazer, para que o protocolo social fosse cumprido. No fim das contas, o que se ouviu foi: — Júlio! — Lúcio! — (…). — (…). — Tudo bem? — Tudo jóia! Ainda no ramo do entretenimento? — Ainda lá. — Abraço em todos por mim! — Abraço na Vera! A Lúcio, custava ser como todo o resto. 13
  15. 15. 9 Ao telefone Tem gente que não diferencia pensar e falar. É o famoso e irri-tante “falar pelos cotovelos”. Vivi esta situação um dia desses, por telefone: – Almeida e Gutierrez, boa tarde. — Boa tarde, eu precisava falar com o doutor Almeida, por fa-vor. Aqui é a secretária do doutor Alcaçuz. — Aguarde um minuto, vou transferir para a sala dele. — Obrigada. (…) — Desculpe, mas a ligação retornou para o meu ramal, o dou-tor Almeida não se encontra no momento. — Ah,… é que eu tô falando aqui do escritório do doutor Pedro Alcaçuz, e o doutor Almeida ficou de entregar o resultado de uma pesquisa. — Se você puder voltar a ligar mais tarde, o doutor Almeida não deve demorar a retornar para o escritório. — Ah, tá… É que o doutor Alcaçuz precisava muito do resulta-do dessa pesquisa porque eu tô com o fornecedor aqui do meu lado, e ele precisava saber a especificação do composto alterna-tivo… — Bem, o doutor Almeida deve estar em alguma reunião de ul-tima hora, pois não consta na minha agenda nada marcado para esse horário, então se você puder ligar em vinte ou trinta minutos, ele pode já ter retornado. — Ah, tá… Então eu vou falar pro fornecedor esperar um pou-co aqui, ou então se ele precisar fazer alguma coisa aqui no centro vou falar pra ele ir e voltar em uns vinte ou trinta minu-tos, por que é ruim ficar esperando sem fazer nada né? Aí eu retorno a ligação, por que esse resultado é essencial para nós fecharmos esse pedido de hoje, por causa da demanda do pro-duto, sabe? — Arrã. — Obrigada, viu? — Boa tarde. 14
  16. 16. Três minutos de conversa. Três minutos durante os quais fi-quei preso a um aparelho telefônico sem poder fazer mais nada de útil. Três minutos que poderiam se resumir em 30 se-gundos: – Almeida e Gutierrez, boa tarde. — Boa tarde, eu precisava falar com o doutor Almeida, por fa-vor. Aqui é a secretária do doutor Alcaçuz. — Aguarde um minuto, vou transferir para a sala dele. — Obrigada. (…) — Desculpe, mas a ligação retornou para o meu ramal, o dou-tor Almeida não se encontra no momento. — Eu ligo mais tarde, obrigada. — Boa tarde. Povo sem noção. 15
  17. 17. 10 Verãozão A tarde pertencia a eles. O vento que balançava seus cabelos tinha a velocidade perfeita. A água tinha a temperatura perfei-ta. O céu tinha o azul mais lindo. Seus corpos estavam tais quais os de felinos domésticos que não se aguentam de tanta moleza. Depois de muito fazerem nada deitados sob o sol, deci-diram que era o momento de encher o pandú. E como não acontecia todos os dias comeram até os olhos se esbugalha-rem. A água convidativa e hipnótica os chamou de volta para que continuassem banhando suas peles agora diferentes, gra-ças à boa e velha melanina que já não aguentava mais se escon-der. O sol foi embora e a água, a melhor anfitriã, se aqueceu para que eles não fossem embora, mas não houve jeito. Tive-ram que sair da piscininha de plástico recém comprada, por-que senão virariam peixes. De aquário. 16
  18. 18. 2 Cogito
  19. 19. 1 Apocalipse por encomenda Então, um dia, alguém estava analisando um calendário Maia e chegou à conclusão de que o mundo acabaria em 2012. Com precisão suficiente para, inclusive, dizer o dia do juízo final. Teorias contrárias surgiram dando conta de que na verdade o calendário indicava apenas o fim de um ciclo, que não necessa-riamente representava o fim da humanidade. Mas, para os entusiastas do fim do mundo, mais uma previsão era sempre algo feliz de se ouvir. Aquela emoção do réveillon de 99, aquela aflição gostosa em 11/11/11, às 11 horas e 10 mi-nutos,… enfim, essas pequenas alegrias estavam prestes a re-tornar. Pessoalmente, não acredito numa data predefinida. Não vou dizer no que acredito, mas definir o que não, acaba delinean-do o que sim. Hoje, porém, um pensamento me tomou de assalto. A data esta lá, dita aos quatro ventos por todos aqueles que es-tão ansiosos por uma confirmação da previsão primitiva. Daí chega dezembro e, no dia marcado nada acontece. Ponto nega-tivo pros Maias. Por outro lado, imagine que algum psicótico, neurótico, louco, desequilibrado, e com acesso aos contatos certos, se disponha a cumprir a profecia. Imagine que o psicopata tenha amigos que trabalhem no LHC, ou então que tenha parceiros no orien-te médio, ou ainda que conheça alguém que conheça alguém que possa conhecer alguém com acesso a alguém que trabalhe próximo a uma usina nuclear. Ou que tenha um dedo no gover-no de alguma potência com um potencial bélico daqueles bem impressionantes. Quando imagino esse maluco, não o imagino maluco internado numa clínica. O imagino maluco daqueles que deram certo na vida. Daqueles dos quais ninguém descon-fia. Um Eike Batista com um pino a menos, sei lá. E então, de posse de uma data hipotética, marcada numa pe-dra por uma civilização que nem existe mais, que só rastros deixou, o maluco decide, por conta própria, instaurar a destru-ição em massa. Os Maias teriam então previsto o maluco? Ou os Maias, estando errados, acabaram certos, com uma das maiores ações de marketing viral da história da humanidade? O fato é que nenhum deles estará por aí pra falar: “Eu disse! Era hoje mesmo!”. E nenhum de nós estará lá para dizer “É, acabou”. 18
  20. 20. 2 Alguns blogam, outros twittam Nunca fui de muitas palavras. Quando me apresentam a al-guém, geralmente é complicado para mim puxar assunto, fa-lar sobre qualquer coisa. Demoro a me enturmar, sou uma pes-soa de poucos (mas bons) amigos. É claro que quando existe uma afinidade, geralmente o assun-to flui com mais facilidade. Música, tecnologia, cinema… Mas ainda me sinto estranho quando certos gostos compartilhados me expõe demais. Por tudo isso, sempre fui uma pessoa Twitter, no mundo real. Sempre respondi mais do que perguntei, sempre limitado a 140 caracteres (ou 140 segundos de conversa fluída). Uma vez, num ônibus vindo de BH, sentou-se ao meu lado uma mulher grávida. Em minutos eu já sabia de onde ela era, pra onde ia, onde o marido estava, de quantos meses era a gravidez, que ela viajava com frequência de avião, onde o marido trabalha-va, quando começaram a namorar, como se casaram. De mim ela soube muito menos. Foi o embate de um post com um tweet. Às vezes também, pergunto algo a alguém esperando um “sim” ou um “não”. A resposta vem em formato de postagem de blog, ilustrada, com vídeo. Às vezes até música. Perco a pa-ciência. Mas o errado sou eu. Eu é que falo pouco demais. Ou melhor, errado são os dois tipos. Eles também falam demais. Acho que o equilíbrio na vida real é twittar quando preciso e blogar quando preciso. E navegar, quando preciso. 19
  21. 21. SEÇÃO 3 Você sabe que chegou em Belo Horizonte quando Você sabe que chegou em Belo Horizonte quando abre o olho no ônibus, olha pela janela e vê uma cidade que dura umas du-as cidades do interior até chegar na rodoviária. Você sabe que pisou em solo belorizontino quando sobe com suas malas pela escada e VALADARES, TEÓFILO OTONI, ALMENARA, ARA-ÇUAÍ, OURO PRETO! Você sabe que respira o ar frio da capi-tal quando Minas Brasil te mostra macio a hora se transfor-mando em 21°C. Você sabe que é a feira de domingo de manhã quando ÁGUA MINERAL, SUCO NATURAL, ÁGUA MINERAL, SUCO NA-TURAL! Você sabe que são ruas de BH quando sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce. Você sabe que é a noite da cidade grande quando tocam a campainha e apagam as luzes pro es-petáculo começar. Você sabe que isso é Minas porque é, sô! 20
  22. 22. 4 Quem inventou o quebra-molas? Não sei se existem em outros países, nem onde foram inventa-dos, mas nossos redutores de velocidade, os “quebra-molas”, nas ruas e em alguns trechos das estradas onde há casas por perto, tem cara de serem bem brasileiros. Imagine o comitê de algum departamento de trânsito confrontado com estatísticas de atropelamentos e outros tipos de acidentes envolvendo car-ros, motos e excesso de velocidade em trechos movimentados: — Mas que raio de gente descontrolada! Não dá pra desacele-rar um pouco, vendo que tem casa, um monte de moleque na rua, gente passando? — Vamos colocar placas avisando que tem casa, um monte de moleque na rua e gente passando! Aí o motorista fica obrigado a desacelerar. — Arrã. Aí a gente bate no bumbum dele se ele desobedecer. — Mas se ele desobedecer vai ser multado! — Arrã. Você vai ficar do lado de cada placa vigiando o sujeito. Se ele desobedecer você bate no bumbum dele. — Ok. Então vamos botar um dispositivo que desacelere auto-maticamente quando passar nessas áreas. Pode ter um trans-missor que emite um sinal indicando uma área habitada e nos carros um receptor que automaticamente desacelera o carro quando passar por essas áreas. — … — Que foi? — Estamos no Brasil. — Temos verba pra isso. — … — Que foi? — Vamo fazer o seguinte: se o cara ultrapassar você sai corren-do atrás dele com uma marreta e quebra alguma coisa do car-ro. Se tiver prejuízo envolvido o brasileiro vai resolver “se conscientizar”. — É boa a idéia. Vamo quebrar os retrovisores! — Não, são baratos. Vamos quebrar as molas da suspensão. — Com uma marreta? — Ainda não pensei nisso. Mas tô pensando. 21
  23. 23. E depois de contatar o departamento de logística, surgiu o que-bra- molas. 22
  24. 24. 3 Absurdo
  25. 25. 1 O dia em que todo o iogur-te de morango se desinte-grou Eu estava ansioso pela reação das pessoas. Ser o primeiro a sa-ber daquele acontecimento foi estranho pra mim, porque, para que eu pudesse contar aos outros, eu tinha que entender o que viria e veria. Mas aquilo não me entrava na cabeça tam-bém. O fato estava entendido. O que iria acontecer, quando iria acontecer. Mas por quê? Qual seria o objetivo deles ao fa-zer aquilo? Eu não conseguia conceber a razão. E por que só de morango? Que substância estranha teria passado décadas, talvez centenas de anos entre nós que não mais, de uma vez por todas, definitivamente não mais pudesse existir? Minha cabeça vagava entre as mais bizarras teorias que pudessem jus-tificar aquela atitude deles. Mas eu não tinha sido chamado para entender a história, e sim para disseminá-la. Isso ficou bem claro para mim quando recebi a segunda mensagem. Apertei o passo, para chegar logo à multidão que me esperava, em frente ao mercado. Um micro-fone tinha sido improvisado para que todos pudessem me ou-vir. Uma massa ofegante de pessoas me olhava como se eu ti-vesse a resposta mais lógica, mais plausível para o que iria acontecer, já boato na boca de todos. Mas naquele momento eu só pude repetir, palavra por palavra, tudo o que me havia sido dito. A busca por lógica gerou gritos naqueles que tentavam, como eu antes também tinha tentado, entender o que aconteceria em alguns minutos. Alguns ainda bebiam os últimos goles de todo o estoque de io-gurte de morango da cidade. Pelo celular fui informado de que o canal que eu utilizaria para comunicar o fato em escala naci-onal estava aberto. A imprensa trataria de continuar a espa-lhar o fato mundialmente. Novamente me apossei do microfo-ne e repeti as instruções, tentando transparecer credulidade. A hora anunciada se aproximava lentamente. A cada minuto que passava, mais eu sentia o peso dos olhares sobre mim. Quem ele pensa que é? Quem ele acha que vai acreditar nessa história? Mas mesmo aqueles que duvidavam de mim se de-ram conta da veracidade do que eu contei quando começou a ventar mais forte. Uma garoa fina começou a cair e silenciosa-mente a multidão acompanhou no relógio os últimos segun-dos. Um estrondo trouxe gritos histéricos de pânico entre os presentes. De repente, agora em silêncio, os estômagos antes cheios não mais continham uma gota sequer de iogurte. As prateleiras tombaram com a força da ação invisível que desin-tegrou todo o iogurte de morango que existia. 24
  26. 26. 2 Back to the future Sua primeira reação, claro, foi tentar acalmar seu jovem eu. Como aquele menino tão inteligente não poderia acreditar que sim, era ele mesmo, vindo do futuro? Tudo bem que o concei-to de viagem no tempo ainda era muito fantasioso naquela época, e talvez um pouco distante, e por isso mesmo entendeu quando ele tentou se esquivar. Sua primeira reação, claro, foi não acreditar. Como poderia aquele velho estranho ser na verdade ele mesmo, que veio do futuro? Nem nos filmes mais loucos que via na tv aquilo aconteceria. Lembrava-se bem do eterno ensinamento de seus pais para não falar com estranhos, então foi natural que ten-tasse se esquivar. Então resolveu utilizar a tática que havia definido antes de via-jar no tempo: contou a ele todo o conteúdo da carta que ele ha-via escrito algumas horas antes, em seu quarto. Como se lem-brava de cada vírgula do escrito, e sabia que ninguém mais sa-bia sobre aquilo, esta seria a chave para fazer com que ele acre-ditasse e também para ganhar sua confiança. E pareceu ter dado certo, quando o menino parou, chocado. Mas quando o suposto louco disse a ele sobre todo o conteúdo da carta que ele havia escrito algumas ho-ras antes, sozinho em seu quarto, o menino parou, chocado. “Como ele poderia saber o que eu escrevi ali? Eu estava sozinho! Eu queimei o papel! Seria possível que ele fosse eu?”, pensou. Ficou aliviado quando o garoto quis saber mais. Havia planeja-do tudo com relação à viagem: o momento exato de chegar, o local, o argumento para fazê-lo crer no viajante do tempo. Ago-ra que tinha ganhado a atenção do menino, porém, se deu con-ta de que não sabia por onde começar. Quis saber mais. Como estavam em um local públi-co e movimentado, não sentiu que precisava correr. Pensou que o louco não tentaria nada contra ele di-ante de tantas testemunhas, então resolveu ouvi-lo, ali mesmo. O que teria seu eu do futuro para lhe con-tar, a ponto de voltar no tempo para isso? — E então? Por que eu voltaria no tempo para conversar comigo mesmo? — Você…, digo, eu,… digo… 25
  27. 27. — Eu vou ficar idiota assim quando enve-lhecer? Então saiu correndo. Seu cérebro havia entrado numa repeti-ção de raciocínios, lógicos a princípio, mas que se desmancha-vam no milésimo de segundo seguinte, e não conseguia mais coordenar seus pensamentos. O fato de estar fazendo algo que, ao mesmo tempo em que era novo, também gerava uma lembrança, guardada havia anos em algum lugar da memória, acabou gerando em seus neurônios um loop, uma incoerência temporal, um dejavù infinito. Finalmente conseguiu chegar de volta à máquina que o havia trazido até ali. Entrou nela e instintivamente conseguiu apertar o botão de retrocesso, o que o levaria de volta para o futuro. Seu eu criança ficou ali, olhando aquele estranho sair correndo, com um olhar desorientado. Pensou que ele até lembrava seu pai, mas vagamente ape-nas. Então, desistiu de continuar sua caminhada pelo parque e virou—se, voltando para casa. 26
  28. 28. 3 Aguardando instruções — Não vejo nada! – reclamou Anne. – A visibilidade não é importante aqui. Apurem seus ouvidos. Podem ouvir? Esse zumbido em baixa frequência? Não ouviam. Era como se não estivessem no mesmo ambien-te. Não conseguiam mais se concentrar. Só ouviam, em suas cabeças, aquela música irritante e repetitiva que antes tocava no rádio, agora também destruído. O zumbido, porém, havia aumentado. – Fiquem juntos. Está ficando mais intenso. Estamos perto. – Eu também não ouço nada – resmungou Anne. – Então fique quieta! – bradou Comte – Já atrapalhou tentati-vas demais por um dia. Vocês dois, – dirigindo-se a Clarêncio e Airtom – preparem o emissor. – Já está preparado, disse Airtom. – Então ajustem para a potência máxima. Desta vez não vão escapar. Comte pressentia a presença deles. Seus instintos já o haviam pregado peças antes, mas desta vez ele tinha uma certeza que não poderia ser ignorada, e o sangue espalhado por seus bra-ços era a confirmação de que seus alertas não haviam sido em vão. Esta seria a última oportunidade que o grupo teria de so-breviver. Se o emissor falhasse, nada mais poderia ser feito. – É agora. A praça inteira se iluminou intensamente. O zumbido se tor-nou um estridente som indistinguível, insuportável. – Disparem! 27
  29. 29. 4 Justo — Sua vagabunda! Te falei que não era pra fazer isso comigo, sua piranha! Toma desgraçada! Três tiros ecoaram, estrondos, pelo saguão do fórum da peque-na cidade do interior. Como tudo havia sido muito rápido, nem a polícia que ali estava presente pôde intervir, mesmo es-tando a metros de distância do suspeito. A ação não foi preven-tiva, mas serviu para evitar que os outros três potenciais dispa-ros fossem feitos. O homem descontrolado, agora preso sob a ação de joelhos militares, debatia-se tentando se livrar da pri-são instantânea que, por total cegamento causado pelo ódio, não havia conseguido prever. Num mesmo saguão, o casal desfeito, policiais militares, dele-gada e investigadores, promotor de justiça, advogados e um juiz. Testemunhas e jornalistas foram o toque de mestre do Acaso, contribuindo para o desenrolar mais dinâmico da histó-ria da justiça brasileira. Não haveria perseguição, pois ali estava o orgulho ferido, imo-bilizado. Não haveria necessidade de investigação. Ouvir as testemu-nhas seria redundante. Não haveria o que ser relatado pela delegada de polícia ao Mi-nistério Público, considerando que o próprio representante do parquet ali estava presente. A denúncia não precisaria ser enviada por escrito ao Juiz para que decidisse quanto a sua inépcia. Não havia dúvidas quanto ao que ali se havia visto. O advogado ainda tentaria dizer que nada daquilo aconteceu. Os populares decidiriam quanto à autoria, materialidade e mo-tivação do acontecido, tal qual determina a lei. A sentença seria proferida ali mesmo, a plenos pulmões, pelo Juiz que a tudo também havia testemunhado. E então, condenado, o ex-marido seria encaminhado, atônito, para a penitenciária que agora era seu novo lar, tendo como última visão de libertado o corpo estirado de sua ex-viva ex-es-posa. Mas os planos do Acaso foram frustrados. A investigação acon-teceu, as testemunhas foram ouvidas em sede policial, em da-tas diferentes; o prazo foi dilatado pois a investigação ainda precisava de mais elementos probatórios. A delegada finalmen-te relatou o inquérito policial 1818/2011, encaminhando a 28
  30. 30. arma apreendida e os projéteis ao escrivão judicial, para que armazenasse em local seguro até o dia do júri popular. O Pro-motor ofereceu denúncia, nos termos do artigo 24 do Código de Processo Penal, e esta foi recebida pelo Juiz, que determi-nou a citação do acusado, para que constituísse um advogado para o defender. Uma audiência foi designada, em que algu-mas das testemunhas originais foram novamente ouvidas, para confirmarem o que haviam visto. O acusado foi pronunci-ado e a data para o Juri popular foi marcada. Providências to-madas, o acusado foi condenado, após manifestação dos popu-lares selecionados para compor o conselho de sentença. A sen-tença condenatória foi, então, proferida a parciais pulmões pelo Juiz, que a tudo havia visto. O corpo já não estava mais ali, estirado. 29
  31. 31. 5 Repeat: ON Estava morto. Se a luz brilhando, vindo do alto, naquela estra-da abandonada, longe de qualquer sinal de população, já não fosse um indício forte o suficiente, o fato de estar vendo seu carro capotado, e seu próprio corpo ensanguentado lá dentro, afastava qualquer dúvida de que o fim havia chegado. Olhou ao redor e se viu só, mas não estava só no carro, alguns minu-tos antes. Olhou para dentro do veículo novamente e lá estava seu amigo, igualmente ensanguentado, mas, surpreendente-mente, ainda respirando. E enquanto olhava, pensou em como poderia ter capotado naquele trecho tão idiota da estra-da. Mas estar morto não era algo que o assustava. Já havia pensa-do na possibilidade de morrer. Na verdade pensava nisso to-das as vezes que saía de casa, e sempre pensava que aquela po-deria ser a última vez que veria aquelas pessoas. Estar morto definitivamente era algo que ele esperava um dia acontecer. O que realmente lhe causava estranhamento num momento tão peculiar de sua vida, ou pós-vida, ou pré-pós-vida, era o som que ouvia agora. Trombetas? Mas já seria hora do juízo final? Se fosse, então o esquema da iluminação estava pecan-do pela simplicidade. Um evento tão grandioso requereria algo mais espetacular, pensou. Parou então para prestar aten-ção no que as notas que saíam daquelas trombetas, agora mais próximas, desenhavam no ar. E não conseguiu acreditar quan-do se deu conta de que a música que saía delas era, de fato, a detestável música brega que saía da boca de seu amigo no mo-mento exato que antecedeu sua passagem. Deve ser algum tipo de piada. Nunca poderia imaginar que a morte seria uma piadista, e ainda mais com um gosto tão duvidoso. Apurou os ouvidos e teve certeza de que estava ouvindo, num arranjo ce-lestial, aquele diabo de música. Sentiu uma pressão seguida por um empuxo como se todo o ar à sua volta tivesse ganho propriedades líquidas, e seguiu, involuntariamente, em direção àquela luz que brilhava cada vez mais forte. O som das trombetas aumentava, e agora ou-via, claramente um coral de anjos fazendo “ú ú ú” no ritmo ina-dequado para o momento. Para uma piada, já estava durando tempo demais. E chegou ao céu, e foi direcionado, ainda sem ter que se mo-ver, a um setor onde mais pessoas aguardavam pela confirma-ção da reserva, ao som ambiente da mesma música detestável. Ousou perguntar e ouviu a resposta de um anjo cicerone que passava por ali em seu horário de almoço: Sim amigo, passa- 30
  32. 32. rás a eternidade ao som da última canção que ouviste, canta-rolaste, ou mantiveste em tua cabeça. Deverias ter andado em companhias de gosto mais apurado. Deverias ter se dado conta disso antes. — Você não pode me guiar a outro setor? Eu curtia estilos mais refinados em vida! Você não vai me ajudar? — Vou não. Posso não. Quero não. 31
  33. 33. 6 Eu disse, mas ninguém ou-viu a tempo Aí agora eu estava lá. Parado, sozinho, com fome e com frio. Eu tentei avisar, mas parece que tudo que eu falo soa mal aos ouvidos das pessoas. Qual é o problema? Falo grego estando no lácio? Pisoteei as flores do lácio? Que se dane o lácio. Tô é com frio. E com fome. Escutei um barulho vindo da porta. Só me falta agora aparecer um bicho escroto pra me aporrinhar. Já não chega o bizarro da situação toda, e ainda vamos acrescentar elementos sinis-tros? Só me falta morrer devorado por um rato de esgoto gi-gante. Bom, pelo menos assim alguém vai comer nessa casa. Chega aí, ratão! Prato cheio essa noite! Não era rato. Era um raio duma vassoura mal apoiada que caiu no chão. Eu já tava me sentindo tão idiota de ter ficado, que pensei em sair. Mas eu odeio tomar chuva, ainda mais com todos esses relâmpagos lá fora. Vou telefonar pro disk pi-zza. Quero uma pizza de rato. 32
  34. 34. 7 Um novo começo Os primeiros raios de luz atrás das montanha anunciavam que o tempo havia se esgotado. Comte sentia dor e isso o deixava feliz. Sentir agora, seja dor ou o que fosse, significava ter so-brevivido. Do emissor nada havia sobrado. Anne, Airtom e Cla-rêncio estavam caídos, e não era possível saber, daquela dis-tância, se ainda respiravam. Comte tateou o chão procurando o comunicador. Também poderia haver sobreviventes na par-te norte da cidade. — Comte chamando! Comte chamando! Alguém na escuta? Apenas um chiado podia ser ouvido. Alguns instantes depois, Comte pôde ouvir o que parecia ser a respiração de alguém. — Comte chamando! Quem está aí? Quase inaudível, veio a resposta: — Renato… Todos os outros estão mortos… Acho que também estou morrendo. — Aguente firme, Renato. Me dê sua localização e vamos até aí. — Estou na igreja. Comte não entendeu. Ele estava em frente à igreja. Antes da ativação do emissor, porém, Renato e o resto do segundo gru-po estavam a pelo menos 5 kilômetros dali. Comte conseguiu se levantar e chegar até os outros. Airtom e Clarêncio estavam mortos, seus corpos com queimaduras seve-ras causadas pela ação do emissor. Anne, longe alguns metros, respirava com dificuldades. — Anne! Anne! Estamos vivos! — Não consigo mover minhas pernas. — Agarre-se no meu pescoço, vou te levar para a Igreja. Rena-to já está lá. — Mas eles estavam na parte norte! — Eu sei. Vamos saber dele o que houve. Comte mal conseguia se sustentar, mas reuniu suas forças e ergueu Anne, levando-a para dentro da igreja. Pelos escom-bros não era possível ver muito, e não havia luz natural sufici-ente para permitir ver onde estava Renato. Comte gritou cha-mando, mas não obteve resposta. Neste momento seu comuni-cador começou a chiar, e ele ouviu o que pareciam ser pedidos de socorro. 33
  35. 35. — São o Airtom e o Clarêncio! – disse Anne. — Eles estão mortos. Renato me disse que os outros também estavam. 34
  36. 36. 8 Olhei pro canto e vi um rato Olhei pro canto e vi um rato. Me olhou… olhei… correu. Não sabia que havia uma saída naquele canto. Pensei se daria aces-so a outro cômodo. Arrastei o móvel que criava aquele canto e não achei buraco. Nem rato. Se estivesse dentro do móvel, te-ria feito barulho ou movimento que eu perceberia. Não só não fez, como ainda me surpreendeu ao aparecer, teletransporta-do, no outro lado da sala. Me encarou por alguns segundos e tentou correr na direção da porta. Com certeza já vinha fazen-do aquele trajeto havia dias (qual será a duração de um rato?), mas hoje era a primeira vez que tinha uma platéia. Uma pla-téia solitária que não tinha a menor intenção de aplaudir. Só pensava nos lugares por onde aquele turista teria passado, so-bre que coisas ele teria andado e que eu teria logo depois toca-do, lambido, sei lá. Por segundos, os segundos em que ele me encarava (eu me sentia um intruso), me vieram à cabeça todas as recomendações sobre limpeza, asseio, cuidado com bactéri-as, fungos, vermes. Quis cuspir, limpar minha língua, me lim-par. Mas agora tudo estava infectado. Eu precisava de uma limpeza a vapor, matadora de germes. E depois de uma bolha pra morar. Aqueles segundos de impasse finalmente passa-ram. Mas agora meu único objetivo era matar o desgraçado. Veneno? Ratoeira? Porrete? Agulhas quentes? Bisturi? Tesou-ra? Um papo sincero? Tentei a paulada. Só que um outro tele-transporte veio e nem vestígios dele sobraram. Vou tomar um banho. 35
  37. 37. 9 De repente De repente (eu sei, leitor… começar com um “de repente” é du-reza, mas eu quero que você entenda quão de repente aconte-ceu) ela entrou correndo no salão e, esbaforida como não po-dia estar, berrou: — Água!!! Os olhares todos se voltaram. A música parou. Um corredor humano se abriu, revelando, na extremidade oposta à dela, o rosto perplexo do governador. — Como assim, mulher? – gritou ele (era um salão descomu-nal). — Muita!!! – disse ela, tremendo ainda mais agora – Onda!!! O burburinho com muitos “Ela surtou!” e “Dessa que ela be-beu eu não achei ainda nessa festa” começou a aumentar tan-to, que logo não mais se pode ouvir as palavras. Na verdade as próprias palavras tinham parado e agora os olhares perplexos eram unânimes. Depois disso, só um grito: — TSUNAAAA… 36
  38. 38. 10 O plano P O ar frio foi cortado pela sua chegada pontual. A luz trêmula e inconstante somente permitia ver o esboço do rosto que a aguardava naquele local. — Você foi sábia, Rosalyn. Você sabe que nunca poderia tomar frente do plano sozinha. Mas não se sinta inferior ou incapaz. É apenas algo fora do seu alcance. A arrogância de Arnie Folkman era uma das poucas coisas que conseguiam tirar Rosalyn Hash do sério. Já o desespero dele era uma das melhores recompensas para ela. Respirando fun-do, Rosalyn colocou na mesa os dois selos. — Onde está o terceiro selo? Rosalyn abriu um perturbante sorriso. — Em um lugar seguro. O que lhe fez pensar que seria tão fá-cil, Folkman? Você precisa de mim, tanto quanto do terceiro selo. Sem ele o plano não pode ir em frente. Sem mim você nunca saberá onde ele está. É bem verdade que o plano jamais seguiria sem sua habilidade com os códigos, mas daí a pensar que eu me rebaixaria tanto, me excluiria tão facilmente… é muito ingênuo de sua parte. — Você tem lido muitos romances policiais, minha querida. Manter com você um dos selos só adia seu inevitável desapare-cimento. Ou você pensa que, uma vez com a combinação corre-ta, eu compartilharia com você a localização final? Girando nos calcanhares ela se dirigiu à porta. Folkman sabia que Rosalyn entendia o risco que corria, e não conseguia en-tender a calma dela. —x—x—x— O telefone tocou no escritório do apartamento de Joan Cast. — Joan, preciso que você me encontre agora no Squire. Traga o que havia lhe pedido. Não demore, Folkman já está com os dois selos. — Não pude encontrar um item da sua lista, Rosalyn. Não exis-te mais nenhum J9—TTYL. O último de que se tinha notícia foi destruído no incêndio da repartição de investigação de Sweetwater. — Certo, não vamos falar disso ao telefone. Folkman já teve tempo suficiente. Venha logo. 37
  39. 39. 11 Abriu os olhos de repente. Um arrepio percorreu sua espinha. Preferia continuar acredi-tando que estava sozinho naquele quarto, mas algo estranho estava acontecendo, e quase podia ouvir a respiração de outra pessoa, que não estava lá. Sentia-se invadido, vigiado, preso no quarto que era seu, sem poder sair. Desesperado para cor-rer, mas sem conseguir mexer um músculo sequer. Correu os olhos pelo chão, mediu a distância entre a cama e a porta e chegou à conclusão mais óbvia: correr o levaria para longe do quarto, mas não para longe de seu medo. Ficou ali, até que o sono fosse mais forte que a paranóia e pudesse dormir. Não sonhou naquela noite. 38
  40. 40. 12 Em frente Depois da morte de Anne, e da total dominação a que havia sido sujeitado, Comte passou a apenas sobreviver. Tudo aqui-lo pelo que havia lutado, todos os combates que havia travado, toda sua motivação parecia ter se esvaído. Arrastava—se pelos campos onde havia sido confinado, executando as tarefas a que era forçado, sem esperanças de um dia recuperar seu pla-neta do caos que agora era a regra. Sua batalha era agora interna. Queria gritar e esbravejar, que-ria ser ouvido, como se isso fosse mudar algo. Mas, porque, no fundo, sabia que nada iria mudar, gritava apenas dentro de si. Seu grito, ouvido somente por ele mesmo, era alto o suficiente para o fazer fechar os olhos. Os dias se arrastavam numa interminável e brutal rotina. Sozi-nho, pois o contato com os outros confinados era impossibilita-do pelas mordaças apertadas e pelas trincheiras, Comte só en-xergava saída na morte, que nem mesmo conseguia provocar. Então, na verdade, não havia saída. “Impotente”, resumia—se, mordaça molhada por suor e lágri-ma. —x–x–x— Tendo conseguido infiltrar-se no comando dos dominadores, ainda que apenas para servi-los, Renato encontrava-se agora em situação privilegiada. Tinha contato visual com a outra es-pécie, e fazia-se quase que invisível aos olhos deles, com a ma-lícia humana que lhe restava. Ao contrário de Comte, ele ain-da tentava arquitetar um plano, uma fuga, que o permitisse voltar a viver. Sabia que seu antigo comandante ainda estava lá fora e que precisaria dele para executar sua estratégia. A cada dia, conseguia entender melhor o funcionamento da base de operações dos inimigos, e percebia algumas das brechas na segurança do complexo. Seu conhecimento de sistemas pareci-dos, ainda que rudimentares comparados com aqueles, se pro-vava mais útil ainda agora, no cárcere. — Preciso contatar Comte – pensou. 39
  41. 41. 13 Biblioteca Havia herdado uma biblioteca. Os mais variados títulos esta-vam presentes no acervo. Títulos que ele olhava na estante e pensava, “como tenho sorte de possuir essas obras”. Livros considerados clássicos da literatura universal, livros que ele não via a hora de começar a ler. Mas não começava. Sentia uma necessidade pungente de organizar sua biblioteca, antes de começar a ler os exemplares. Perdia a concentração quando, no meio da primeira página de algum livro, levantava os olhos e via aquele mundo literário em meio à desorganiza-ção. Pensava em como seria bom se houvesse um catálogo, um re-gistro identificando cada volume, ordenado por título, autor, ano de publicação, relançamentos, separados por edições co-memorativas e idiomas diferentes. Sentia prazer em mentali-zar a organização que desejava. Visualizava-se em sua gigante sala de livros tendo o poder de localizar qualquer um deles que quisesse em um instante. Mas sentia-se fraco ao abrir os olhos e deparar-se com a desor-ganização que recebeu por direito familiar. Os anos foram se passando, e ele pensava em como estava dei-xando todo aquele conhecimento à deriva de sua vida intelec-tual. Distraía-se lendo revistas e periódicos de fácil acesso em outros cômodos da casa, mas entrava numa espécie de círculo vicioso de pensamentos todas as vezes que entrava na bibliote-ca. “Preciso começar a usufruir destes livros, ou vou deixá-los de herança, como os recebi, sem ter lido nem mesmo um deles até o fim. Mas preciso indexá-los, catalogá-los, organizá-los, ou não vou ter paz para sentar nessa poltrona e lê-los. Assim nunca os lerei. Mas preciso começar a usufruir destes livros.” Organizar o grande saguão oval, que servia de armazém para toda a literatura que seu antepassado não havia consumido, passou a ser para ele uma questão de honra. E finalmente, de-pois de alguns anos, decidiu começar a hercúlea tarefa. O trabalho já estava em andamento, aproximando-se da meta-de da conclusão. Sua paixão por organização começava a ga-nhar forma nas estantes, antes empoeiradas. E sorria. O declínio da motivação, porém, não tardou a surgir. Havia exemplares sem capa, coleções incompletas, livros para os quais não havia referências facilmente localizáveis em suas fontes de pesquisa. 40
  42. 42. O trabalhou durou um longo período de tempo. Meses ou anos, não se pode precisar. Do acervo original, pouco restou. O que não conseguia indexar, queimava. 41

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