Sigmund freud feminilidade (conferência xxxiii)

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Sigmund freud feminilidade (conferência xxxiii)

  1. 1. 1 ______. Feminilidade. (1932-1936) In: ______. Novas confer€ncias introdut•rias sobrepsican‚lise (Confer€ncia XXXIII). Rio de Janeiro: Imago, 1986. (Edi•‚o eletrƒnicacorrespondente „ Edi•‚o standard brasileira das obras psicol…gicas completas de Sigmund Freud,22). CONFERÊNCIA XXXIII FEMINILIDADESENHORAS E SENHORES: Durante todo esse tempo em que me estou preparando para falar-lhes, luto com umadificuldade interna. N‚o tenho certeza, por assim dizer, da extens‚o daquilo que me † permitido.‡ verdade que, no decurso de quinze anos de trabalho, a psicanˆlise modificou-se e se tornoumais rica; apesar disso, uma introdu•‚o „ psicanˆlise poderia ter ficado sem altera•‚o ousuplemento. Estˆ constantemente em meu pensamento que estas confer€ncias n‚o t€m uma raisond’€tre. Para analistas estou dizendo muito pouca coisa e n‚o estou absolutamente dizendo algonovo; mas, para os senhores, estou dizendo muit‰ssimo, dizendo coisas que os senhores n‚o est‚opreparados para entender, coisas que n‚o est‚o no seu campo de atividade. Procurei desculpas etentei justificar cada confer€ncia, isoladamente, com base em motivos diferentes. A primeira,sobre a teoria dos sonhos, assim se supƒs, reconduziu-os, novamente e sem delongas, „ atmosferaanal‰tica e mostrou-lhes como nossos pontos de vista se revelaram durˆveis. Passei, depois, „segunda confer€ncia, que abrangeu desde os sonhos at† o chamado ocultismo, aproveitando aoportunidade de, sem restri•Šes, dizer o que penso acerca de uma ˆrea de trabalho, na qual,atualmente, expectativas preconceituosas lutam contra resist€ncias acirradas, e eu podia esperarque o discernimento dos senhores, instru‰dos para serem tolerantes, tendo como exemplo apsicanˆlise, n‚o se recusaria a acompanhar-me nessa empreitada. A terceira confer€ncia, sobre adissec•‚o da personalidade, exigiu dos senhores o mˆximo, com seu tema desconhecido; maspara mim foi imposs‰vel sonegar-lhes esse primeiro come•o de uma psicologia do ego, e, se ativ†ssemos quinze anos atrˆs, t€-la-ia mencionado para os senhores naquela †poca. Por fim,minha ‹ltima confer€ncia, que os senhores provavelmente s… puderam acompanhar com grandeesfor•o, apresentou corre•Šes necessˆrias — novas tentativas de solucionar os mais importantesenigmas; e minha introdu•‚o t€-los-ia deixado desorientados, se tivesse silenciado a respeito
  2. 2. 2delas. Como v€em, quando algu†m come•a a desculpar-se, no final resulta que tudo foiinevitˆvel, foi tudo obra do destino. Submeto-me a ele, e pe•o-lhes que fa•am o mesmo. A confer€ncia de hoje tamb†m n‚o deveria caber numa introdu•‚o; pode, contudo, servirpara ilustrar-lhes uma parte detalhada do trabalho anal‰tico, e posso dizer duas coisas pararecomendˆ-la. Ela n‚o nos apresenta sen‚o fatos observados, quase sem qualquer acr†scimote…rico, e trata de um assunto que, quase mais do que qualquer outro, faz jus ao interesse dossenhores. Atrav†s da hist…ria, as pessoas t€m quebrado a cabe•a com o enigma da natureza dafeminilidade. H•upter in HieroglyphenmŽtzen, H•upter in Turban und schwarzem Barett,PerŽckenh•upter und tausend andre Arme, schwitzende Menschenh•upter … E nem os senhores escaparam de se preocupar com esse problema — aqueles dentre ossenhores que s‚o homens; a quem, dentre os senhores, † mulher, isto n‚o se aplica — as senhorasmesmas constituem o problema. Quando encontram um ser humano, a primeira distin•‚o quefazem † ‘homem ou mulher?’ e os senhores est‚o habituados a fazer essa distin•‚o com certezatotal. A ci€ncia anatƒmica compartilha dessa certeza dos senhores num ponto, n‚o mais que isto.O produto sexual masculino, o espermatoz…ide, e seu ve‰culo s‚o masculinos; o …vulo e oorganismo que o abriga s‚o femininos. Em ambos os sexos, formaram-se …rg‚os que servemexclusivamente „s fun•Šes sexuais; provavelmente desenvolveram-se da mesma disposi•‚o[inata] em duas formas diferentes. Ademais disso, em ambos os sexos os outros …rg‚os, as formase tecidos corporais mostram a influ€ncia do sexo do indiv‰duo, mas isto † inconstante, suaquantidade † variˆvel; s‚o aquilo que se conhece como caracter‰sticas sexuais secundˆrias.Depois, a ci€ncia diz-lhes algo que se opŠe „s expectativas dos senhores e por certo haverˆ deconfundir os seus sentimentos. Chama a aten•‚o dos senhores para o fato deque partes doaparelho sexual masculino tamb†m aparecem no corpo da mulher, ainda que em estado atrofiado,e vice-versa. Considera tais ocorr€ncias como indica•Šes de bissexualidade, como se umindiv‰duo n‚o fosse homem ou mulher, mas sempre fosse ambos — simplesmente um poucomais de um, do que de outro. E ent‚o se lhes pede familiarizarem-se com a id†ia de que apropor•‚o em que masculino e feminino se misturam num indiv‰duo, estˆ sujeita a flutua•Šesmuito amplas. De vez que, excetuando casos muit‰ssimos raros, apenas uma esp†cie de produto
  3. 3. 3sexual — …vulos ou s€men — estˆ presente numa pessoa, os senhores, contudo, n‚o poder‚osen‚o ter d‹vidas quanto „ import’ncia decisiva desses elementos e devem concluir que aquiloque constitui a masculinidade ou a feminilidade † uma caracter‰stica desconhecida que foge doalcance da anatomia. Estaria, quem sabe, nos dom‰nios da psicologia? Estamos habituados a empregar‘masculino’ e ‘feminino’ tamb†m como qualidades mentais, e da mesma forma temos transferidoa no•‚o de bissexualidade para a vida mental. Assim, dizemos que uma pessoa, seja homem oumulher, se comporta de modo masculino numa situa•‚o e de modo feminino, em outra. Ossenhores, por†m, logo percebem que isto † apenas ceder „ anatomia ou „s conven•Šes. Ossenhores n‚o podem conferir aos conceitos de ‘masculino’ e ‘feminino’ nenhuma conota•‚onova. A distin•‚o n‚o † uma distin•‚o psicol…gica; quando dizem ‘masculino’, os senhoresgeralmente querem significar ‘ativo’, e quando dizem ‘feminino’, geralmente querem dizer‘passivo’. Ora, † verdade que existe uma rela•‚o desse tipo. A c†lula sexual masculina †ativamente m…vel e sai em busca da c†lula feminina, e esta, o …vulo, † im…vel e esperapassivamente. Essa conduta dos organismos sexuais elementares †, na verdade, um modelo daconduta sexual dos indiv‰duos durante o coito. O macho persegue a f€mea com o prop…sito deuni‚o sexual, agarra-a e penetra nela. Com isso, os senhores justamente reduziram ascaracter‰sticas de masculinidade ao fator agressividade, no que se refere „ psicologia. Bem podemduvidar se auferiram da‰ alguma vantagem real, quando refletem que, em algumas classes deanimais, as f€meas s‚o mais fortes e mais agressivas e o macho † ativo unicamente no ato dauni‚o sexual. Assim ocorre, por exemplo, nas aranhas. Mesmo as fun•Šes de criar e de cuidar dofilhote, que temos na conta de papel feminino par excellence, n‚o est‚o invariavelmente ligadasao sexo feminino, nos animais. Em esp†cies animais bem superiores, verificamos que ambos ossexos dividem entre si o trabalho de cuidar do filhote, ou que o pr…prio macho, sozinho, dedica-sea essa tarefa. At† mesmo na esfera da vida sexual humana, os senhores logo ver‚o como †inadequado fazer o comportamento masculino coincidir com atividade e o feminino, compassividade. Uma m‚e † ativa para com seu filho, em todos os sentidos; a pr…pria amamenta•‚otamb†m pode ser descrita como a m‚e dando o seio ao beb€, ou ela sendo sugada por este.Quanto mais se afastarem da estreita esfera sexual, mais …bvio se lhes tornarˆ o ‘erro desuperposi•‚o’. As mulheres podem demonstrar grande atividade, em diversos sentidos; os
  4. 4. 4homens n‚o conseguem viver em companhia dos de sua pr…pria esp†cie, a menos quedesenvolvam uma grande dose de adaptabilidade passiva. Se agora os senhores me disserem queesses fatos provam justamente que tanto os homens como as mulheres s‚o bissexuais, no sentidopsicol…gico, concluirei que decidiram, na sua mente, a fazer coincidir ‘ativo’ com ‘masculino’ e‘passivo’ com ‘feminino’. Mas advirto-os de que n‚o o fa•am. Parece-me que n‚o serve anenhum prop…sito ‹til e nada acrescenta aos nossos conhecimentos. Poder-se-ia considerar caracter‰stica psicol…gica da feminilidade dar prefer€ncia a finspassivos. Isto, naturalmente, n‚o † o mesmo que passividade; para chegar a um fim passivo, podeser necessˆria uma grande quantidade de atividade. Talvez seja o caso de que numa mulher, combase na sua participa•‚o na fun•‚o sexual, a prefer€ncia pelo comportamento passivo e por finspassivos se estenda „ sua vida, em grau maior ou menor, proporcionalmente aos limites, restritosou amplos, dentro dos quais sua vida sexual serve, assim, de modelo. Devemos, contudo, nosacautelar nesse ponto, para n‚o subestimar a influ€ncia dos costumes sociais que, de formasemelhante, compelem as mulheres a uma situa•‚o passiva. Tudo isso ainda estˆ longe de umaelucida•‚o. Existe uma rela•‚o particularmente constante entre feminilidade e vida instintual, quen‚o devemos desprezar. A supress‚o da agressividade das mulheres, que lhes † institu‰daconstitucionalmente e lhes † imposta socialmente, favorece o desenvolvimento de poderososimpulsos masoquistas que conseguem, conforme sabemos, ligar eroticamente as tend€nciasdestrutivas que foram desviadas para dentro. Assim, o masoquismo, como dizem as pessoas, †verdadeiramente feminino. Mas, como acontece tantas vezes, se os senhores encontrammasoquismo em homens, que lhes resta sen‚o dizer que tais homens mostram tra•os femininosmuito evidentes? Os senhores, agora, jˆ est‚o preparados para saber que tamb†m a psicologia † incapaz desolucionar o enigma da feminilidade. Sem d‹vida, a explica•‚o deve provir de outras fontes e s…pode vir quando houvermos aprendido de que modo, em geral, se efetuou a diferencia•‚o dosorganismos vivos em dois sexos. Disto nada sabemos, conquanto a exist€ncia de dois sexos sejauma caracter‰stica muito surpreendente da vida org’nica, que a distingue nitidamente da naturezainanimada. Contudo, encontramos muito que estudar nesses indiv‰duos humanos que, mediante aposse de genitais femininos, s‚o caracterizados como manifestamente ou predominantementefemininos. De acordo com sua natureza peculiar, a psicanˆlise n‚o tenta descrever o que † amulher — seria esta uma tarefa dif‰cil de cumprir —, mas se empenha em indagar como † que a
  5. 5. 5mulher se forma, como a mulher se desenvolve desde a crian•a dotada de disposi•‚o bissexual.Em †pocas recentes, come•amos a aprender um pouco acerca dessas coisas, gra•as „circunst’ncia de vˆrias de nossas excelentes colegas de anˆlise terem come•ado a trabalhar aquest‚o. A discuss‚o desse aspecto adquiriu atra•‚o especial, a partir da distin•‚o entre os sexos.Pois essas senhoras, sempre que alguma compara•‚o parecia mostrar-se desfavorˆvel ao seusexo, conseguiram expressar a suspeita de que n…s, analistas homens, n‚o t‰nhamos conseguidosuperar determinados preconceitos profundamente arraigados contra aquilo que era feminino, eque esse fato estava sendo responsˆvel pela parcialidade de nossas pesquisas. N…s, por nossa vez,com base na bissexualidade, n‚o t‰nhamos dificuldade em evitar a indelicadeza. Apenas t‰nhamosde dizer: ‘Isto n‚o se aplica „s senhoras. As senhoras s‚o a exce•‚o; neste ponto, s‚o maismasculinas do que femininas.’ Abordamos a investiga•‚o do desenvolvimento sexual da mulher com duas expectativas.A primeira † que, aqui, novamente, a constitui•‚o n‚o se adaptarˆ „ sua fun•‚o sem uma luta. Asegunda reside em que os pontos cr‰ticos decisivos jˆ ter‚o sido preparados ou completados antesda puberdade. Ambas as expectativas confirmam-se de imediato. Ademais, a compara•‚o com oque acontece com os meninos nos mostra ser o desenvolvimento de uma menininha em mulhernormal mais dif‰cil e mais complexo, de vez que inclui duas tarefas extras „s quais n‚o hˆ nadade equivalente no desenvolvimento de um homem. Acompanhemos as linhas paralelas desde oseu come•o. Indubitavelmente, o material † diferente, no in‰cio, em meninos e em meninas: n‚oera necessˆrio que a psicanˆlise estabelecesse isto. A diferen•a na estrutura dos genitaisacompanha-se de outras diferen•as corporais que s‚o por demais conhecidas para requerermen•‚o aqui. As diferen•as sobressaem tamb†m na disposi•‚o instintual que permite entrever anatureza subseqŽente das mulheres. Uma menininha †, em geral, menos agressiva, desafiadora eauto-suficiente; ela parece ter mais necessidade de obter carinho e, por esse motivo, de ser maisdependente e d…cil. Provavelmente, † apenas como conseqŽ€ncia dessa docilidade que ela podeser ensinada mais facilmente e com maior rapidez a controlar suas excre•Šes: urina e fezes s‚o asprimeiras dˆdivas que as crian•as d‚o a quem cuida delas [ver [1]], e controlˆ-las † a primeiraconcess‚o a que pode ser induzida a vida instintual das crian•as. Tamb†m fica-se com aimpress‚o de que as menininhas s‚o mais inteligentes e mais espertas do que os meninos damesma idade; elas saem mais ao encontro do mundo externo e, ao mesmo tempo, formamcatexias objetais mais intensas. N‚o sei dizer se essas sondagens no desenvolvimento foram
  6. 6. 6confirmadas por observações exatas; mas, em todo caso, não há dúvida de que as meninas nãopodem ser classificadas como intelectualmente atrasadas. Essas diferenças sexuais não possuemconseqüência maior: podem ser sobrepujadas por variações individuais. Para nossos finsimediatos, podem ser negligenciadas. Ambos os sexos parecem atravessar da mesma maneira as fases iniciais dodesenvolvimento libidinal. Poder-se-ia esperar que, nas meninas, já teria havido algumabrandamento da agressividade na fase sádico-anal, mas não é este o caso. A análise dobrinquedo de crianças mostrou às nossas analistas de crianças que os impulsos agressivos demenininhas não deixam nada a desejar em matéria de quantidade e de violência. Com seuingresso na fase fálica, as diferenças entre os sexos são completamente eclipsadas pelas suassemelhanças. Nisto somos obrigados a reconhecer que a menininha é um homenzinho. Nosmeninos, conforme sabemos, essa fase é marcada pelo fato de que aprenderam a obter sensaçõesprazerosas do seu pequeno pênis, e relacionam seu estado de excitação às suas idéias de relaçãosexual. As menininhas fazem o mesmo com seu diminuto clitóris. Parece que em todas elas aatividade masturbatória é executada nesse equivalente do pênis e que a vagina verdadeiramentefeminina, a essa época, ainda não foi descoberta por ambos os sexos. É verdade que há tambémalguns relatos isolados de sensações vaginais precoces, mas não poderia ser fácil distingui-las desensações no ânus ou no vestíbulo; de qualquer maneira, não podem ter muita importância.Estamos autorizados a manter nossa opinião segundo a qual, na fase fálica das meninas, o clitórisé a principal zona erógena. Mas, naturalmente, não vai permanecer assim. Com a mudança para afeminilidade, o clitóris deve, total ou parcialmente, transferir sua sensibilidade, e ao mesmotempo sua importância, para a vagina. Esta seria uma das duas tarefas que uma mulher tem derealizar no decorrer do seu desenvolvimento, ao passo que o homem, mais afortunado, só precisacontinuar, na época de sua maturidade, a atividade que executara anteriormente, no períodoinicial do surgimento de sua sexualidade. Retornaremos ao papel que desempenha o clitóris; passemos agora à segunda tarefa quesobrecarrega o desenvolvimento da menina. Para um menino, sua mãe é o primeiro objeto de seuamor, e ela assim permanece também durante a formação do complexo de Édipo e, em essência,por toda a vida dele. Para a menina, também, o seu primeiro objeto deve ser sua mãe (e as figurasda babá e da nutriz, que nela se fundem). As primeiras catexias objetais ocorrem em conexãocom a satisfação de necessidades vitais importantes e simples, e as circunstâncias relativas à
  7. 7. 7cria•‚o dos filhos s‚o as mesmas para ambos os sexos. Na situa•‚o edipiana, por†m, a meninatem seu pai como objeto amoroso, e espera-se que no curso normal do desenvolvimento elahaverˆ de passar desse objeto paterno para sua escolha objetal definitiva. Com o passar do tempo,portanto, uma menina tem de mudar de zona er…gena e de objeto — e um menino mant†m ambos.Surge ent‚o a quest‚o de saber como isto ocorre: particularmente, como † que a menina passa davincula•‚o com sua m‚e para a vincula•‚o com seu pai? ou, em outros termos, como passa ela dafase masculina para a feminina, „ qual biologicamente estˆ destinada? Seria uma solu•‚o idealmente simples, se pud†ssemos supor que, a partir de determinadaidade em diante, a influ€ncia fundamental da atra•‚o rec‰proca entre os sexos se faz sentir eimpele a mulherzinha para o homem, enquanto a mesma lei permite ao menino continuar com suam‚e. Poder‰amos supor, de resto, que nesse ponto os filhos est‚o seguindo a indica•‚o que lhesfoi dada pela prefer€ncia sexual de seus pais. N‚o haveremos de encontrar as coisas t‚o fˆceisassim, contudo; mal sabemos se podemos acreditar com seriedade no poder do qual os poetasfalam tanto e com tanto entusiasmo, o qual, por†m, analiticamente n‚o pode ser investigado emmaior profundidade. Encontramos uma resposta de tipo bem diverso „ custa de laboriosasinvestiga•Šes, e pelo menos foi fˆcil chegar ao material respectivo. Pois os senhores devem saberque † muito grande o n‹mero de mulheres que continuam, ainda em idade madura, dependentesde um objeto paterno, ou, na verdade, de seu pai real. A respeito dessas mulheres com umaintensa vincula•‚o de longa dura•‚o para com o pai, temos constatado alguns fatossurpreendentes. Sab‰amos, naturalmente, que houvera um estˆdio preliminar de vincula•‚o com am‚e, mas n‚o sab‰amos que pudesse ser t‚o rico e t‚o duradouro, e pudesse deixar atrˆs de sitantas oportunidades para fixa•Šes e disposi•Šes. Durante essa fase, o pai da menina † apenas umrival incƒmodo; em alguns casos, a vincula•‚o „ m‚e perdura al†m do quarto ano de vida. Quasetudo o que posteriormente encontramos em sua rela•‚o com o pai, jˆ estava presente em suavincula•‚o inicial e foi transferido, subseqŽentemente, para seu pai, Em suma, fica-nos aimpress‚o de que n‚o conseguimos entender as mulheres, a menos que valorizemos essa fase desua vincula•‚o pr†-edipiana „ m‚e. Serˆ ent‚o de nosso agrado conhecermos a natureza das rela•Šes libidinais da menina paracom sua m‚e. A resposta † que tais rela•Šes se apresentam sob muitas formas diferentes. De vezque persistem atrav†s de todas as tr€s fases da sexualidade infantil, tamb†m assumem ascaracter‰sticas das diversas fases e se expressam por desejos orais, sˆdico-anais e fˆlicos. Esses
  8. 8. 8desejos representam impulsos ativos e tamb†m passivos; se os relacionamos „ diferencia•‚o dossexos que vai surgir depois — embora devamos evitar de faz€-lo, at† onde for poss‰vel —,podemos chamˆ-los de masculino e feminino. A par disto, s‚o completamente ambivalentes,possuindo tanto uma natureza carinhosa, como hostil e agressiva. Esta ‹ltima muitas vezes s…vem „ luz depois de haver-se transformado em id†ias angustiantes. Nem sempre † fˆcil precisaruma formula•‚o desses desejos sexuais iniciais; o que mais claramente se expressa † um desejoda menina, de ter da m‚e um filho, e o desejo correspondente de ela mesma ter um filho —ambos desejos pertencentes ao per‰odo fˆlico e certamente surpreendentes, por†m estabelecidos,acima de qualquer d‹vida, pela observa•‚o anal‰tica. O aspecto atraente dessas investiga•Šes estˆnas detalhadas e surpreendentes descobertas que nos trazem. Assim, por exemplo, descobrimos omedo de ser assassinada ou envenenada, o qual posteriormente poderˆ formar o n‹cleo de umadoen•a paran…ide, presente jˆ nesse per‰odo pr†-edipiano, em rela•‚o „ m‚e. Ou um outro caso:os senhores haver‚o de recordar-se de um interessante epis…dio da hist…ria da pesquisa anal‰tica,que me causou muitas horas de dissabor. No per‰odo em que o principal interesse voltava-se paraa descoberta de traumas sexuais infantis, quase todas as minhas pacientes contavam-me haveremsido seduzidas pelo pai. Fui for•ado a reconhecer, por fim, que tais relatos eram inver‰dicos, eassim cheguei a compreender que os sintomas hist†ricos derivam de fantasias, e n‚o deocorr€ncias reais. Apenas mais tarde pude reconhecer nessa fantasia de ser seduzida pelo pai aexpress‚o do t‰pico complexo de ‡dipo nas mulheres. E agora encontramos mais uma vez afantasia de sedu•‚o na pr†-hist…ria pr†-edipiana das meninas; contudo, o sedutor † regularmente am‚e. Aqui, a fantasia toca o ch‚o da realidade, pois foi realmente a m‚e quem, por suasatividades concernentes „ higiene corporal da crian•a, inevitavelmente estimulou e, talvez, at†mesmo despertou, pela primeira vez, sensa•Šes prazerosas nos genitais da menina. N‚o tenho d‹vidas de que os senhores est‚o dispostos a manifestar a suspeita de que essequadro da quantidade e da intensidade do relacionamento sexual da menininha com sua m‚eestaria exagerado. Afinal, tem-se ocasi‚o de ver menininhas, e n‚o se observa nada dessa esp†cie.A obje•‚o n‚o procede, entretanto. S‚o muitas as coisas que se pode ver nas crian•as, basta saberolhar. Ademais, deveriam considerar qu‚o pouco dos seus desejos sexuais uma crian•a podeadmitir em plano pr†-consciente, ou, muito menos, pode comunicar. Por conseguinte, estamossimplesmente dentro dos nossos direitos quando estudamos, em retrospecto, os remanescentes eas conseqŽ€ncias do mundo emocional de pessoas nas quais esses processos de desenvolvimento
  9. 9. 9atingiram um grau de expans‚o especialmente evidente, e at† mesmo excessivo. A patologiasempre nos serviu para tornar percept‰veis,ao isolar e exagerar, aquelas situa•Šes quepermaneceriam ocultas em um estado normal. E como nossas investiga•Šes foram efetuadas empessoas que n‚o eram, de modo algum, gravemente anormais, penso que devemos considerarmerecedores de cr†dito os seus resultados. Orientaremos, agora, nosso interesse no sentido de saber unicamente que coisa pŠe fim aessa poderosa vincula•‚o da menina „ sua m‚e. Conforme sabemos, este † o seu destino habitual:estˆ determinado a dar lugar a uma vincula•‚o a seu pai. Aqui, deparamos com um fato queconstitui uma indica•‚o para nosso esclarecimento subseqŽente. Esse passo no desenvolvimenton‚o envolve apenas uma simples troca de objeto. O afastar-se da m‚e, na menina, † um passo quese acompanha de hostilidade; a vincula•‚o „ m‚e termina em …dio. Um …dio dessa esp†cie podetornar-se muito influente e durar toda a vida; pode ser muito cuidadosamente supercompensado,posteriormente; geralmente, uma parte dele † superada, ao passo que a parte restante persiste. Oseventos de anos subseqŽentes naturalmente influenciam muito isto. Entretanto, limitar-nos-emosa estudˆ-lo na †poca em que a menina se volta para seu pai, e a pesquisar os motivos desse fato.Apresenta-se-nos, ent‚o, uma longa lista de acusa•Šes e queixas contra a m‚e, as quais, supŠe-se,justificam os sentimentos hostis da crian•a; sua validade † variˆvel e n‚o deixaremos de examinˆ-la. Muitas dentre elas s‚o evidentes racionaliza•Šes e as verdadeiras origens da hostilidade restampor ser encontradas. Penso que os senhores ficar‚o interessados se lhes apresento agora todos osdetalhes de uma investiga•‚o psicanal‰tica. A censura contra a m‚e, que remonta „ †poca mais remota, † a de que esta deu „ crian•amuito pouco leite — censura que lhe † feita como falta de amor. Ora, existe alguma justifica•‚opara essa acusa•‚o em nossas fam‰lias. As m‚es, ami‹de, t€m leite insuficiente para dar a seusfilhos e se contentam com dar-lhes de mamar por uns poucos meses, por meio ano ou tr€s quartosde ano. Entre povos primitivos, as crian•as s‚o amamentadas ao seio materno por dois ou tr€sanos. A figura de nutriz que amamenta a crian•a geralmente se funde com a figura da m‚e;quando isso n‚o acontece, a censura transforma-se numa outra — a de que a nutriz, queamamentou a crian•a com tanta vontade, foi mandada embora pela m‚e muito precocemente.Mas, seja qual for a verdadeira situa•‚o ocorrida, † imposs‰vel que a acusa•‚o da crian•a possaser justificada tantas vezes quantas surgir. Mais parece que a avidez da crian•a pelo primeiroalimento † completamente insaciˆvel, que a crian•a nunca supera o sofrimento de perder o seio
  10. 10. 10materno. N‚o me causaria surpresa se a anˆlise de uma crian•a primitiva, que ainda pudesse seramamentada ao seio materno quando jˆ capaz de andar e de falar, viesse a apresentar a mesmaqueixa. O temor de ser envenenada provavelmente tamb†m estˆ relacionado ao desmame.Veneno † comida que faz adoecer. Talvez as crian•as atribuam suas primeiras doen•as tamb†m aessa frustra•‚o. Uma grande soma de aprendizado intelectual † pr†-requisito para se acreditar noacaso; os povos primitivos e os povos sem instru•‚o, e certamente tamb†m as crian•as,conseguem atribuir um motivo para tudo o que acontece. Talvez originalmente se tratasse demotivos de natureza animista. Ainda hoje em dia, em determinadas camadas da popula•‚o,ningu†m pode morrer sem ter sido morto por outrem — de prefer€ncia pelo m†dico. E a rea•‚ohabitual de um neur…tico „ morte de algu†m de suas rela•Šes pr…ximas † colocar a culpa em simesmo por haver causado a morte. A acusa•‚o seguinte contra a m‚e da crian•a explode quando surge o beb€ seguinte. Seposs‰vel, a conex‚o com a frustra•‚o oral † mantida: a m‚e n‚o podia, ou n‚o iria, dar mais leite „crian•a, porque necessitava do alimento para o rec†m-chegado. Nos casos em que duas crian•ast€m uma diferen•a de idade t‚o pequena, que a lacta•‚o † prejudicada pela segunda gravidez, essacensura adquire uma base real, sendo surpreendente que uma crian•a, at† com uma diferen•a deidade de apenas 11 meses, jˆ tenha suficiente capacidade para perceber o que estˆ acontecendo.Contudo, o que a crian•a n‚o perdoa ao indesejado intruso e rival n‚o † apenas a amamenta•‚o,mas sim todos os outros sinais de cuidado materno. Sente que foi destronada, espoliada,prejudicada em seus direitos; nutre um …dio ciumento em rela•‚o ao novo beb€ e desenvolveressentimento contra a m‚e infiel, o que muitas vezes se expressa em desagradˆvel mudan•a naconduta. Torna-se ‘arteira’, talvez, irritˆvel e desobediente, e sofre um retrocesso nos progressosque havia feito quanto ao controle das excre•Šes. Tudo isso tem sido conhecido hˆ muito tempo eaceito como evidente por si mesmo; mas, raramente formamos uma id†ia correta da for•a dessesimpulsos ciumentos, da tenacidade com que persistem e da magnitude de sua influ€ncia nodesenvolvimento ulterior. Especialmente porque esse ci‹me recebe constantemente novosrefor•os nos anos seguintes da inf’ncia, e todo o abalo se repete com o nascimento de cada novoirm‚o ou irm‚. Ademais n‚o faz muita diferen•a se acontece a crian•a continuar sendo apreferida de sua m‚e. As exig€ncias de amor de uma crian•a s‚o ilimitadas; exigem exclusividadee n‚o toleram partilha.
  11. 11. 11 Uma fonte abundante de hostilidade de uma crian•a para com sua m‚e † o queproporcionam os desejos sexuais multiformes, que se modificam de acordo com a fase da libido eque, em sua maior parte, n‚o podem ser satisfeitos. As mais intensas frustra•Šes ocorrem noper‰odo fˆlico, se a m‚e pro‰be a atividade prazerosa com os genitais — muitas vezes comamea•as severas e todos os sinais de desagrado —, atividade em que, afinal de contas, ela mesmainiciara a crian•a. Daria para pensar que estas s‚o razŠes bastantes para fazer com que a meninase afaste de sua m‚e. Se assim for, seria de julgar que a desaven•a decorra inevitavelmente danatureza da sexualidade infantil, do carˆter ilimitado de suas exig€ncias de amor e daimpossibilidade de realizar seus desejos sexuais. Na verdade, poder-se-ia pensar que essaprimeira rela•‚o amorosa da crian•a estˆ destinada „ dissolu•‚o pelo pr…prio motivo de ser aprimeira, pois essas primeiras catexias objetais s‚o, habitualmente, em grau elevadoambivalentes. Uma poderosa tend€ncia „ agressividade estˆ sempre presente ao lado de um amorintenso, e quanto mais profundamente uma crian•a ama seu objeto, mais sens‰vel se torna aosdesapontamentos e frustra•Šes provenientes desse objeto; e, no final, o amor deve sucumbir „hostilidade acumulada. Ou ent‚o deve ser rejeitada a id†ia de que haja uma ambival€ncia inicialbˆsica como esta nas catexias objetais, podendo ser assinalado que † a natureza especial darela•‚o m‚e-filho que leva, com igual inevitabilidade, „ destrui•‚o do amor da crian•a; a pr…priaeduca•‚o mais branda n‚o pode evitar o uso da coer•‚o e a introdu•‚o de restri•Šes, e todainterven•‚o desse tipo na liberdade da crian•a deve provocar como rea•‚o uma inclina•‚o „rebeldia e „ agressividade. Penso que seria muito interessante uma discuss‚o dessaspossibilidades; no entanto, logo surge uma obje•‚o que for•a o nosso interesse noutra dire•‚o.Todos esses fatores — as desfeitas, os desapontamentos no amor, o ci‹me, a sedu•‚o seguida daproibi•‚o — afinal tamb†m est‚o atuantes na rela•‚o do menino com sua m‚e e, ainda assim, n‚os‚o capazes de afastˆ-lo do objeto materno. A menos que possamos encontrar algo que sejaespec‰fico das meninas e n‚o esteja presente, ou n‚o esteja presente da mesma maneira, nosmeninos, n‚o teremos explicado o t†rmino da vincula•‚o das meninas „ sua m‚e. Acredito havermos encontrado esse fator espec‰fico, e, na verdade, no lugar ondeesperˆvamos encontrˆ-lo, embora numa forma surpreendente. Eu disse onde esperˆvamosencontrˆ-lo, pois se situa no complexo de castra•‚o. Afinal, a distin•‚o anatƒmica [entre ossexos] deve expressar-se em conseqŽ€ncias ps‰quicas. Foi uma surpresa, no entanto, constatar, na
  12. 12. 12anˆlise, que as meninas responsabilizam sua m‚e pela falta de p€nis nelas e n‚o perdoam porterem sido, desse modo, colocadas em desvantagem. Como v€em, pois, atribu‰mos „s mulheres um complexo de castra•‚o. E por boas razŠes ofazemos, embora seu conte‹do n‚o possa ser o mesmo que o dos meninos. Nestes, o complexo decastra•‚o surge depois de haverem constatado, „ vista dos genitais femininos, que o …rg‚o, quetanto valorizam,n‚o acompanha necessariamente o corpo. Nisto, acodem „ lembran•a do meninoas amea•as que provocou contra si, ao brincar com esse …rg‚o; come•a a dar cr†dito a elas, e caisob a influ€ncia do temor de castra•‚o, que serˆ a mais poderosa for•a motriz do seudesenvolvimento subseqŽente. O complexo de castra•‚o nas meninas tamb†m inicia ao veremelas os genitais do outro sexo. De imediato percebem a diferen•a e, deve-se admiti-lo, tamb†m asua import’ncia. Sentem-se injusti•adas, muitas vezes declaram que querem ‘ter uma coisa assim,tamb†m’, e se tornam v‰timas da ‘inveja do p€nis’; esta deixarˆ marcas indel†veis em seudesenvolvimento e na forma•‚o de seu carˆter, n‚o sendo superada, sequer nos casos maisfavorˆveis, sem um extremo disp€ndio de energia ps‰quica. O fato de a menina reconhecer quelhe falta o p€nis, n‚o implica, absolutamente, que ela se submeta a tal fato com facilidade. Pelocontrˆrio, continua a alimentar, por longo tempo, o desejo de possuir algo semelhante e acreditanessa possibilidade durante muitos anos; e a anˆlise pode mostrar que, num per‰odo em que oconhecimento da realidade hˆ muito rejeitou a realiza•‚o do desejo, por sab€-lo inating‰vel, elepersiste no inconsciente e conserva uma considerˆvel catexia de energia. O desejo de ter o p€nist‚o almejado pode, apesar de tudo finalmente contribuir para os motivos que levam uma mulher „anˆlise, e o que ela racionalmente pode esperar da anˆlise — capacidade de exercer umaprofiss‚o intelectual, por exemplo — ami‹de pode ser identificado como uma modifica•‚osublimada desse desejo reprimido. ‡ dif‰cil duvidar da import’ncia da inveja do p€nis. Os senhores podem imaginar comosendo um exemplo de injusti•a masculina eu afirmar que a inveja e o ci‹me desempenham,mesmo, um papel de relevo maior na vida mental das mulheres, do que na dos homens. N‚o † queeu pense estarem essas caracter‰sticas ausentes nos homens, ou julgue que elas n‚o tenham nasmulheres outras ra‰zes al†m da inveja do p€nis; estou inclinado, no entanto, a atribuir suaquantidade maior nas mulheres a essa influ€ncia. Alguns analistas mostraram uma tend€ncia aminimizar a import’ncia dessa primeira instala•‚o da inveja do p€nis na fase fˆlica. Opinam queaquilo que encontramos dessa atitude em mulheres, †, principalmente, uma estrutura secundˆria
  13. 13. 13surgida por ocasi‚o de conflitos posteriores, mediante regress‚o a esse impulso infantil inicial.Isto, por†m, † um problema geral de psicologia profunda. Em muitas atitudes instintuaispatol…gicas — ou mesmo raras — (por exemplo, em todas as perversŠes sexuais) a quest‚o quesurge †: que parcela de sua for•a deve ser atribu‰da a fixa•Šes do in‰cio da inf’ncia e que parcelase atribuirˆ „ influ€ncia de experi€ncias e desenvolvimento posteriores. Em tais casos, quasesempre se trata de uma s†rie complementar, tal como aquela que apresentamos em nossaexposi•‚o sobre a etiologia das neuroses. Ambos os fatores desempenham um papel na causa•‚o,em propor•Šes variˆveis; a menor influ€ncia de uma parte † compensada por uma influ€nciamaior da outra parte. O fator infantil estabelece o padr‚o em todos os casos, mas nem sempredetermina o resultado, embora freqŽentemente o fa•a. Justamente no caso da inveja do p€nis,argumento a favor da preponder’ncia do fator infantil. A descoberta de que † castrada representa um marco decisivo no crescimento da menina.Da‰ partem tr€s linhas de desenvolvimento poss‰veis: uma conduz „ inibi•‚o sexual ou „ neurose,outra, „ modifica•‚o do carˆter no sentido de um complexo de masculinidade, a terceira,finalmente, „ feminilidade normal. Temos aprendido uma quantidade considerˆvel, embora n‚otudo, a respeito das tr€s. O conte‹do essencial da primeira † o seguinte: a menininha viveu, at† ent‚o, de modomasculino, conseguiu obter prazer da excita•‚o do seu clit…ris e manteve essa atividade emrela•‚o a seus desejos sexuais dirigidos „ m‚e, os quais, muitas vezes, s‚o ativos; ora, devido „influ€ncia de sua inveja do p€nis, ela perde o prazer que obtinha da sua sexualidade fˆlica. Seuamor pr…prio † modificado pela compara•‚o com o equipamento muito superior do menino e, emconseqŽ€ncia, renuncia „ satisfa•‚o masturbat…ria derivada do clit…ris, repudia seu amor pela m‚ee, ao mesmo tempo, n‚o raro reprime uma boa parte de suas inclina•Šes sexuais em geral. Seuafastamento da m‚e, sem d‹vida, n‚o se dˆ de uma s… vez, pois, no in‰cio, a menina considera suacastra•‚o como um infort‹nio individual, e somente aos poucos estende-a a outras mulheres e,por fim, tamb†m „ sua m‚e. Seu amor estava dirigido „ sua m‚e fˆlica; com a descoberta de quesua m‚e † castrada, torna-se poss‰vel abandonˆ-la como objeto, de modo que os motivos dehostilidade, que hˆ muito se vinham acumulando, assumem o dom‰nio da situa•‚o. Isso significa,portanto, que, como resultado da descoberta da falta de p€nis nas mulheres, estas s‚o rebaixadasde valor pela menina, assim como depois o s‚o pelos meninos, e posteriormente, talvez, peloshomens.
  14. 14. 14 Os senhores todos conhecem a imensa importância etiológica atribuída por nossospacientes neuróticos à sua masturbação. Fazem-na responsável por todos os seus problemas, etemos a maior dificuldade em persuadi-los de que estão equivocados. Na realidade, porém,devíamos admitir-lhes que têm razão, pois a masturbação é o agente executor da sexualidadeinfantil, de cujo desenvolvimento falho estão verdadeiramente sofrendo. O que os neuróticosmais censuram, porém, é a masturbação do período da puberdade; na sua maior parte,esqueceram-se da masturbação da infância, a qual, realmente, é o que está em questão. Desejariater, um dia, a oportunidade de explicar aos senhores, minuciosamente, quão importantes todos osdetalhes concretos da masturbação inicial se tornam para a ulterior neurose ou caráter doindivíduo: se ela foi, ou não, descoberta, como os pais a combateram ou permitiram, ou se oindivíduo por si mesmo conseguiu suprimi-la. Tudo isso deixa marcas permanentes no seudesenvolvimento. De um modo geral estou satisfeito, contudo, porque não necessito fazê-lo.Seria tarefa difícil e enfadonha, e, no final, os senhores me colocariam em situação embaraçosa,porquanto muito provavelmente iriam pedir-me para dar-lhes alguns conselhos práticos sobre omodo como um pai ou educador deve lidar com a masturbação dos filhos pequenos. Dodesenvolvimento das meninas, e é disso que se ocupa esta minha presente conferência, posso dar-lhes o exemplo de uma menina que tenta livrar-se da masturbação. Ela nem sempre o consegue.Se a inveja do pênis suscitou um poderoso impulso contra a masturbação clitoridiana, e esta, nãoobstante, se recusa a desaparecer, trava-se uma violenta luta pela liberação, na qual a própriamenina assume, por assim dizer, o papel de sua mãe deposta e dá expressão a toda a suainsatisfação com seu clitóris inferior, em seus esforços contra a obtenção de satisfação a partirdele. Muitos anos depois, quando sua atividade masturbatória há muito já fora suprimida, aindapersiste algum interesse, o qual deve ser interpretado como defesa contra uma tentação aindatemida. Manifesta-se na emergência de simpatia por aqueles a quem são atribuídas dificuldadesparecidas, desempenha o papel de motivo para contrair casamento e, realmente, pode determinara escolha de um marido ou amante. Suprimir a masturbação infantil não é, verdadeiramente, umatarefa fácil ou destituída de importância. Paralelamente ao abandono da masturbação clitoridiana, renuncia-se a uma determinadasoma de atividade. Predomina, agora, a passividade, e o voltar-se da menina para seu pai realiza-se com o auxílio de impulsos instintuais passivos. Os senhores podem verificar que semelhantesinuosidade no desenvolvimento, o qual remove a atividade fálica, prepara o caminho para a
  15. 15. 15feminilidade. Se, no decurso desse desenvolvimento, n‚o se perdem demasiados elementosatrav†s da repress‚o, essa feminilidade pode vir a ser normal. O desejo que leva a menina avoltar-se para seu pai †, sem d‹vida, originalmente o desejo de possuir o p€nis que a m‚e lherecusou e que agora espera obter de seu pai. No entanto, a situa•‚o feminina s… se estabelece se odesejo do p€nis for substitu‰do pelo desejo de um beb€, isto †, se um beb€ assume o lugar dop€nis, consoante uma primitiva equival€ncia simb…lica, ver em [[1]]. N‚o nos passoudespercebido o fato de que a mesma desejou um beb€ anteriormente, na fase fˆlica n‚operturbada: este era, naturalmente, o significado de ela brincar com bonecas. Todavia essebrinquedo n‚o era, de fato, express‚o de sua feminilidade: serviu como identifica•‚o com suam‚e, com a inten•‚o de substituir a atividade pela passividade. Ela estava desempenhando opapel de sua m‚e, e a boneca era ela pr…pria, a menina: agora ela podia fazer com o beb€ tudo oque sua m‚e costumava fazer com ela. N‚o † sen‚o com o surgimento do desejo de ter um p€nisque a boneca-beb€ se torna um beb€ obtido de seu pai e, de acordo com isso, o objetivo do maisintenso desejo feminino. Sua felicidade † grande se, depois disso, esse desejo de ter um beb€ seconcretiza na realidade; e muito especialmente assim se dˆ, se o beb€ † um menininho que trazconsigo o p€nis t‚o profundamente desejado. Com muita freqŽ€ncia, em seu quadro combinadode ‘um beb€ de seu pai’, a €nfase † colocada no beb€, e o pai fica em segundo plano. Assim, oantigo desejo masculino de posse de um p€nis ainda estˆ ligeiramente vis‰vel na feminilidadealcan•ada desse modo. Talvez dev€ssemos identificar esse desejo do p€nis como sendo, parexcellence, um desejo feminino. Com a transfer€ncia, para o pai, do desejo de um p€nis-beb€, a menina inicia a situa•‚o docomplexo de ‡dipo. A hostilidade contra sua m‚e, que n‚o precisa ser novamente criada, agora seintensifica muito, de vez que esta se torna rival da menina, rival que recebe do pai tudo o que deledeseja. Por muito tempo, o complexo de ‡dipo da menina ocultou „ nossa observa•‚o a suavincula•‚o pr†-edipiana com sua m‚e, embora seja t‚o importante e deixe atrˆs de si fixa•Šes t‚oduradouras. Para as meninas, a situa•‚o edipiana † o resultado de uma evolu•‚o longa e dif‰cil; †uma esp†cie de solu•‚o preliminar, uma posi•‚o de repouso que n‚o † logo abandonada,especialmente porque o in‰cio do per‰odo de lat€ncia n‚o estˆ muito distante. E ent‚o nossurpreende uma diferen•a entre os dois sexos, provavelmente transit…ria, no que diz respeito „rela•‚o do complexo de ‡dipo com o complexo de castra•‚o. Num menino, o complexo de‡dipo, no qual ele deseja a m‚e e gostaria de eliminar seu pai, por ser este um rival, evolui
  16. 16. 16naturalmente da fase de sexualidade fálica. A ameaça de castração, porém, impele-o a abandonaressa atitude. Sob a impressão do perigo de perder o pênis, o complexo deÉdipo é abandonado,reprimido e, na maioria dos casos, inteiramente destruído [ver [1]],e um severo superego instala-se como seu herdeiro. O que acontece à menina é quase o oposto. O complexo de castraçãoprepara para o complexo de Édipo, em vez de destruí-lo; a menina é forçada a abandonar aligação com sua mãe através da influência de sua inveja do pênis, e entra na situação edipianacomo se esta fora um refúgio. Na ausência do temor de castração, falta o motivo principal queleva o menino a superar o complexo de Édipo. As meninas permanecem nele por um tempoindeterminado; destroem-no tardiamente e, ainda assim, de modo incompleto. Nessascircunstâncias, a formação do superego deve sofrer um prejuízo; não consegue atingir aintensidade e a independência, as quais lhe conferem sua importância cultural, e as feministas nãogostam quando lhes assinalamos os efeitos desse fator sobre o caráter feminino em geral. Voltemos um pouco atrás. Mencionamos na [[1]], como segunda reação possível face àdescoberta da castração feminina, o desenvolvimento de um intenso complexo de masculinidade.Com isto queremos dizer que a menina se recusa, digamos, a reconhecer o fato indesejado, e,desafiantemente rebelde, até exagera sua masculinidade prévia, apega-se à sua atividadeclitoridiana e refugia-se numa identificação com sua mãe fálica ou com seu pai. Que será quedecide em favor de um tal desfecho? Só podemos supor que é um fator constitucional, umaquantidade maior de atividade, tal como geralmente é característico do homem. Seja como for, aessência desse processo é que, nesse ponto do desenvolvimento, evita-se a afluência dapassividade que abre caminho à mudança rumo à feminilidade. O máximo de realização desemelhante complexo de masculinidade pareceria ser a influência sobre a escolha de um objetono sentido do homossexualismo manifesto. A experiência analítica realmente nos ensina que ohomossexualismo feminino raramente, ou nunca, é continuação direta da masculinidade infantil.Mesmo para uma menina nessas condições, parece necessário que ela deva tomar seu pai comoobjeto, por algum tempo, e ingressar na situação edipiana. Depois, contudo, em conseqüência doinevitável desapontamento com o pai, é forçada a regressar a seu complexo de masculinidadeanterior. A importância desses desapontamentos não deve ser exagerada; uma menina que estádestinada a se tornar feminina, não é poupada deles, embora eles não tenham igual efeito. Apredominância do fator constitucional parece indiscutível; mas as duas fases do desenvolvimentodo homossexualismo feminino se espelham bem nas práticas das homossexuais, que
  17. 17. 17desempenham entre si pap†is de m‚e e de beb€, com tanta freqŽ€ncia e t‚o claramente como osde marido e mulher. Isto que estive mostrando-lhes, aqui, pode ser descrito como a pr†-hist…riada mulher. ‡ o produto desses anos mais recentes e pode ter-lhes interessado como um exemplode trabalho anal‰tico detalhado. Como o seu tema † a mulher, proponho-me, nesta ocasi‚o,mencionar o nome de algumas das mulheres que fizeram valiosas contribui•Šes a estainvestiga•‚o. A Dra. Ruth Mack Brunswick [1928] foi a primeira a descrever um caso de neuroseque remontava a uma fixa•‚o na fase pr†-edipiana e que jamais, absolutamente, atingira asitua•‚o edipiana. O caso assumia a forma de paran…ia de ci‹mes e mostrou-se acess‰vel aotratamento. A Dra. Jeanne Lampl-de Groot [1927] constatou, por meio de observa•Šescomprovadas, a incr‰vel atividade fˆlica de meninas em rela•‚o „ m‚e, e a Dra. Helene Deutsch[1932] mostrou que os atos er…ticos de mulheres homossexuais reproduzem as rela•Šes entre m‚ee beb€. N‚o † minha inten•‚o seguir o comportamento ulterior da feminilidade atrav†s dapuberdade at† o per‰odo de maturidade. Nossos conhecimentos seriam, de resto, insuficientes pratal prop…sito. No que se segue, por†m, acrescentarei alguns esclarecimentos. Tomando sua pr†-hist…ria como ponto de partida, apenas acentuarei, aqui, que o desenvolvimento da feminilidadepermanece exposto a perturba•Šes motivadas pelos fenƒmenos residuais do per‰odo masculinoinicial. Muito freqŽentemente ocorrem regressŠes „s fixa•Šes das fases pr†-edipianas; notranscorrer da vida de algumas mulheres existe uma repetida altern’ncia entre per‰odos em queora a masculinidade, ora a feminilidade, predominam. Determinada parte disso que n…s, homens,chamamos de ‘o enigma da mulher’, pode, talvez, derivar-se dessa express‚o da bissexualidadena vida da mulher. Uma outra quest‚o parece madura para um julgamento no curso dessaspesquisas. Denominamos a for•a motriz da vida sexual de ‘libido’. A vida sexual † dominadapela polaridade masculino-feminino; assim, insinua-se a id†ia de considerarmos a rela•‚o dalibido com essa ant‰tese. N‚o seria surpreendente se se verificasse ter cada sexualidade a sualibido especial, apropriada para si, de forma que um tipo de libido perseguiria as finalidades deuma vida sexual masculina e um outro tipo, as finalidades de uma vida sexual feminina. Masnada disso procede. Existe apenas uma libido, que tanto serve „s fun•Šes sexuais masculinas,como „s femininas. “ libido como tal n‚o podemos atribuir nenhum sexo. Se, consoante aconvencional equa•‚o ‘atividade e masculinidade’, nos inclinamos a qualificˆ-la comomasculina, devemos n‚o esquecer que ela tamb†m engloba tend€ncias com uma finalidade
  18. 18. 18passiva. Mesmo assim, a justaposi•‚o ‘libido feminina’ n‚o tem qualquer justifica•‚o. Ademais,temos a impress‚o de que maior coer•‚o foi aplicada „ libido quando ela † moldada para servir „fun•‚o feminina, e de que — falando teleologicamente — a Natureza tem em menor conta assuas exig€ncias referentes a essa fun•‚o, do que „s da masculinidade. E a raz‚o disto pode estar— novamente pensando em termos teleol…gicos — no fato de que a realiza•‚o do objetivo dabiologia foi confiada „ agressividade dos homens e se tornou, em certa medida, independente doconsentimento das mulheres. A frigidez sexual das mulheres, cuja freqŽ€ncia parece confirmar esse descaso, † umfenƒmeno ainda insuficientemente compreendido. “s vezes, † psicog€nica e, nesse caso,acess‰vel a influ€ncia; em outros casos, por†m, sugere a hip…tese de ser constitucionalmentedeterminada e, at† mesmo, de existir um fator anatƒmico coadjuvante. Prometi referir-lhes mais algumas peculiaridades ps‰quicas da feminilidade madura,conforme as encontramos no trabalho anal‰tico. N‚o pretendemos sen‚o adjudicar a tais asser•Šesuma validade m†dia; e nem sempre † fˆcil distinguir o que se deveria atribuir „ influ€ncia dafun•‚o sexual e o que atribuir „ educa•‚o social. Assim, atribu‰mos „ feminilidade maiorquantidade de narcisismo, que tamb†m afeta a escolha objetal da mulher, de modo que, para ela,ser amada † uma necessidade mais forte que amar. A inveja do p€nis tem em parte, como efeito,tamb†m a vaidade f‰sica das mulheres, de vez que elas n‚o podem fugir „ necessidade devalorizar seus encantos, do modo mais evidente, como uma tardia compensa•‚o por suainferioridade sexual original. A vergonha, considerada uma caracter‰stica feminina parexcellence, contudo, mais do que se poderia supor, sendo uma quest‚o de conven•‚o, tem, assimacreditamos, como finalidade a oculta•‚o da defici€ncia genital. N‚o nos estamos esquecendo deque, em †poca posterior, a vergonha assume outras fun•Šes. Parece que as mulheres fizerampoucas contribui•Šes para as descobertas e inven•Šes na hist…ria da civiliza•‚o; no entanto, hˆuma t†cnica que podem ter inventado — tran•ar e tecer. Sendo assim, sentir-nos-‰amos tentados aimaginar o motivo inconsciente de tal realiza•‚o. A pr…pria natureza parece ter proporcionado omodelo que essa realiza•‚o imita, causando o crescimento, na maturidade, dos p€los pubianosque escondem os genitais. O passo que faltava dar era fazer os fios unirem-se uns aos outros,enquanto, no corpo, eles est‚o fixos „ pele e s… se emaranham. Se os senhores rejeitarem essaid†ia como fantasiosa e considerarem idée fixe a minha cren•a na influ€ncia da falta de p€nis naconfigura•‚o da feminilidade, estarei, naturalmente, sem apoio.Os fatores determinantes da
  19. 19. 19escolha objetal da mulher muitas vezes se tornam irreconhec‰veis devido a condi•Šes sociais.Onde a escolha pode mostrar-se livremente, ela se faz, freqŽentemente, em conformidade com oideal narcisista do homem que a menina quisera tornar-se. Se a menina permaneceu vinculada aseu pai — isto †, no complexo de ‡dipo —, sua escolha se faz segundo o tipo paterno. De vezque, quando se afastou da m‚e e se voltou para o pai, permaneceu a hostilidade de sua rela•‚oambivalente com a m‚e, uma escolha desse tipo asseguraria um casamento feliz. MuitofreqŽentemente, por†m, o resultado † de molde a representar uma amea•a geral „ solu•‚o doconflito devido „ ambival€ncia. A hostilidade que ficou para trˆs segue na trilha da vincula•‚opositiva e se alastra ao novo objeto. O marido da mulher, inicialmente herdado, por ela, do pai,ap…s algum tempo se torna tamb†m o herdeiro da m‚e. Assim, facilmente pode acontecer que asegunda metade da vida da mulher venha a ser preenchida pela luta contra seu marido, do mesmomodo como a primeira metade, mais breve, fora preenchida pela rebeli‚o contra a m‚e. Quandoessa rea•‚o foi esgotada no decurso da vida, um segundo casamento pode facilmente vir a sermuito mais satisfat…rio. Uma outra modifica•‚o na natureza da mulher, para a qual o casal n‚oestˆ preparado, pode, num casamento, ocorrer ap…s o nascimento do primeiro filho. Sob ainflu€ncia da transforma•‚o da mulher em m‚e, pode ser revivida uma identifica•‚o com suapr…pria m‚e, contra a qual ela vinha batalhando at† a †poca do casamento, e isto † capaz de atrairpara si toda a libido dispon‰vel, de modo que a compuls‚o „ repeti•‚o reproduz um casamentoinfeliz dos pais. A diferen•a na rea•‚o da m‚e ao nascimento de um filho ou de uma filha mostraque o velho fator representado pela falta de p€nis n‚o perdeu, at† agora, a sua for•a. A m‚esomente obt†m satisfa•‚o sem limites na sua rela•‚o com seu filho menino; este †, sem exce•‚o,o mais perfeito, o mais livre de ambival€ncia de todos os relacionamentos humanos. Uma m‚epode transferir para o seu filho aquela ambi•‚o que teve de suprimir em si mesma, e dele esperara satisfa•‚o de tudo aquilo que nela restou do seu complexo de masculinidade. Um casamenton‚o se torna seguro enquantoa esposa n‚o conseguir tornar seu marido tamb†m seu filho, e agircom rela•‚o a ele como m‚e. A identifica•‚o de uma mulher com sua m‚e permite-nos distinguir duas camadas: a pr†-edipiana, sobre a qual se ap…ia a vincula•‚o afetuosa com a m‚e e esta † tomada como modelo, ea camada subseqŽente, advinda do complexo de ‡dipo, que procura eliminar a m‚e e tomar-lhe olugar junto ao pai. Sem d‹vida justifica-se dizermos que muita coisa de ambas subsiste no futuroe que nenhuma das duas † adequadamente superada no curso do desenvolvimento. A fase da
  20. 20. 20liga•‚o afetuosa pr†-edipiana, contudo, † decisiva para o futuro de uma mulher: durante essa fases‚o feitos os preparativos para a aquisi•‚o das caracter‰sticas com que mais tarde exercerˆ seupapel na fun•‚o sexual e realizarˆ suas inestimˆveis tarefas sociais. ‡ tamb†m nessa identifica•‚oque ela adquire aquilo que constitui motivo de atra•‚o para um homem; a liga•‚o edipiana deste „sua m‚e transfigura a atra•‚o da mulher em paix‚o. No entanto, com quanta freqŽ€ncia sucedeque apenas o filho obt†m aquilo a que o homem aspirava! Tem-se a impress‚o de que o amor dohomem e o amor da mulher psicologicamente sofrem de uma diferen•a de fase. O fato de que as mulheres devem ser consideradas possuidoras de pouco senso de justi•asem d‹vida se relaciona „ predomin’ncia da inveja em sua vida mental; isso porque a exig€nciade justi•a † uma fixa•‚o da inveja e estabelece a condi•‚o sob a qual uma pessoa pode pƒr delado a inveja. Tamb†m consideramos as mulheres mais d†beis em seus interesses sociais epossuidoras de menor capacidade de sublimar os instintos, do que os homens. O primeiro dessesdois aspectos certamente deriva da qualidade dissocial que indiscutivelmente caracteriza todos osrelacionamentos sexuais. O casal basta-se a si mesmo, e tamb†m as fam‰lias resistem „ inclus‚oem associa•Šes mais amplas. A capacidade de sublima•‚o estˆ sujeita „s maiores varia•Šesindividuais. Por outro lado, n‚o posso deixar de mencionar uma impress‚o que estamos tendoconstantemente durante a prˆtica anal‰tica. Um homem, nos seus trinta anos, parece-nos umadolescente, um indiv‰duo n‚o formado, que esperamos fa•a pleno uso das possibilidades dedesenvolvimento que se lhe abrem com a anˆlise. Uma mulher da mesma idade, por†m, muitasvezes nos atemoriza com sua rigidez ps‰quica e imutabilidade. Sua libido assumiu posi•Šesdefinitivas e parece incapaz de trocˆ-las por outras. N‚o hˆ vias abertas para um novodesenvolvimento; † como se todo o processo jˆ tivesse efetuado seu percurso e permanecesse, da‰em diante, insuscet‰vel de ser influenciado — como se, na verdade, o dif‰cil desenvolvimento nadire•‚o da feminilidade tivesse exaurido as possibilidades da pessoa em quest‚o. Comoterapeutas, lamentamos tal estado de coisas, ainda quando conseguimos pƒr um fim „ doen•a dapaciente eliminando o conflito neur…tico. Isto † tudo o que tinha a dizer-lhes a respeito da feminilidade. Certamente estˆ incompletoe fragmentˆrio, e nem sempre parece agradˆvel. Mas n‚o se esque•am de que estive apenasdescrevendo as mulheres na medida em que sua natureza † determinada por sua fun•‚o sexual. ‡verdade que essa influ€ncia se estende muito longe; n‚o desprezamos, todavia, o fato de que uma
  21. 21. 21mulher possa ser uma criatura humana também em outros aspectos. Se desejarem saber mais arespeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem ospoetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e maiscoerentes.

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