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seja visto como dependente da consciência dos pais, a qual por sua vez depende dascircunstâncias materiais da existência d...
As camadas iletradas da população tendem a ser mais homogêneas pelas próprias condiçõesde pobreza em que vivem. Mas nelas ...
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  1. 1. PINTO, Álvaro Vieira. Estudo particular do problema da educação de adultos._________________. Sete Lições sobre Educação de Adultos. São Paulo: Cortez, p.82-93
  2. 2. 5º. TEMA: ESTUDO PARTICULAR DO PROBLEMA DA EDUCAÇÃO DE ADULTOSA realidade social do adulto. Sua qualidade de trabalhador e o conjunto de conhecimentosbásicos que pressupõe o adulto é o membro da sociedade ao qual cabe a produção social, adireção da sociedade e a reprodução da espécie.Existencialmente, o adulto é o homem na fase mais rica de sua existência, mais plena depossibilidades. Por isso, é o ser humano no qual melhor se verifica seu caráter de trabalhador.O trabalho expressa e define a essência do homem em todas as fases de sua vida (da infânciaà velhice), mas é no período adulto que melhor se compreende seu significado como fatorconstitutivo danatureza humana.O homem é produto de seu trabalho (Sartre: o garçom se faz ser garçom). Mas como estetrabalho se incorpora ao trabalho social geral, que configura a etapa vigente da sociedade,reverte em forma social, quer dizer, como trabalho aplicado a construir a sociedade tal como seencontra, ao próprio executante, sob a forma de condicionamentos sociais, de salários, devalores, de instituições, de idéias dominantes, etc.O adulto é, por conseguinte, um trabalhador trabalhado. Por um lado, só subsiste se efetuatrabalho, mas, por outro lado, só pode fazê-lo nas condições oferecidas pela sociedade ondese encontra, que determina as possibilidades e circunstâncias materiais, econômicas, culturaisde seu trabalho, ou seja, que neste sentido trabalha sobre ele.Mas o segundo aspecto não significa passividade, não significa que o homem adulto seja"nosso objeto" da vontade social geral, difusa, impessoal. Porque essa vontade é uma soma deliberdades (de vontades livres) entre as quais se conta a do próprio trabalhador ativo, sobre oqual atua, de retorno, a vontade geral.Os adultos, a quem cabe a direção da sociedade, exercem esta função como trabalho. É açãopolítica (no sentido sociológico) porque, em última análise, determina o regime de trabalhogeral e suas modificações. A influência sobre a superestrutura social (o direito, a legislação, asinstituições, etc.) é apenas a modalidade de mediação pela qual a parte social dirigenteconfigura e modifica o regime geral de trabalho.A participação cada vez mais ativa das massas — incluindo grande número de analfabetos —,no processo político de uma sociedade, expande a consciência do trabalhador e lhe ensina porque e como — ainda que analfabeto — deve caber a ele uma participação mais ativa navontade geral.Nesse sentido, sua situação de analfabeto ou de semi-analfabeto não representa um obstáculoà consciência de seu papel (seu dever) social. A falta de educação formal não é sentida pelotrabalhador adulto como uma deficiência aniquiladora, quando a outra educação — a que érecebida por sua participação na realidade social, mediante o trabalho — proporciona osfundamentos para a participação política, a atuação do indivíduo em seu meio. E a prova é queestes são indivíduos que exercem importante papel como representantes da consciênciacomum em sua sociedade, chegando até a serem líderes de movimentos sociais.Por isso é que, na medida em que a sociedade se vai desenvolvendo, a necessidade daeducação de adultos se torna mais imperiosa. É porque em verdade eles já estão atuandocomo educados, apenas não em forma alfabetizada, escolarizada. A sociedade se apressa emeducá-los não para criar uma participação, já existente, mas para permitir que esta se faça emníveis culturais mais altos e mais identificados com os estandartes da área dirigente, cumprindoo que julga um dever moral, quando em verdade não passa de uma exigência econômica.Como biologicamente cabe ao adulto a reprodução da espécie, é a ele que cabe o cuidadocom a prole. Tem que educá-la, o que primordialmente significa cuidar para que seus filhosaprendam a ler e a escrever, freqüentando a escola. Mas, já sabemos que esta necessidadeestá mediada pelas exigências materiais de subsistência da família, determinadas, por sua vez,pelas condições de desenvolvimento da sociedade. Daí que o problema da educação infantil
  3. 3. seja visto como dependente da consciência dos pais, a qual por sua vez depende dascircunstâncias materiais da existência da família.A educação do adulto não pode ser conseguida separada da educação da criança, porque oadulto não desejará se alfabetizar se não considera necessário saber ao menos tanto quantoseus filhos.Mas, universalmente, a escolarização infantil não se pode fazer sem a simultânea campanhade alfabetização e educação dos adultos. É uma tese errônea e cruel admitir que se devecondenar os adultos à condição perpétua de iletrados e concentrar os recursos da sociedadena alfabetização da criança, mais barata e de maior rendimento futuro. Deixando de lado overgonhoso desprezo moral pela dignidade do homem que esta tese encerra, ela é:sociologicamente falsa, pois o adulto rende muito mais depois de alfabetizado; epedagogicamente errônea, pois não se pode fazer uma correta escolarização da infância emum meio no qual os adultos, os chefes de família não compreendem sua importância.Entretanto, só a compreenderão na prática, alfabetizando-se eles mesmos. A educação dosadultos é, assim, uma condição necessária para o avanço do processo educacional nasgerações infantis e juvenis.O menosprezo pela educação dos adultos, a atitude de condená-los definitivamente aoanalfabetismo (de parte de sua profunda imoralidade) incide no erro sociológico de supor que oadulto é culpado de sua própria ignorância. Não reconhece que o adulto não é voluntariamenteanalfabeto, não se faz analfabeto, senão que é feito como tal pela sociedade, com fundamentonas condições, de sua existência.A educação de adultos não é uma parte complementar, extraordinária do esforço que asociedade aplica em educação (supondo-se que o dever próprio da sociedade é educar ainfância). É parte integrante desse esforço, parte essencial, que tem obrigatoriamente que serexecutada paralelamente com a outra, pois do contrário esta última não terá o rendimento quedela se espera. Não é um esforço marginal, residual, de educação, mas um setor necessáriodo desempenho pedagógico geral, ao qual a comunidade se deve lançar. O educando adulto e seu papel como membro pensante e atuante em sua comunidadeO educador de adultos tem que admitir sempre que os indivíduos com os quais atua sãohomens normais e realmente cidadãos úteis. Tem de considerar o educando não como um sermarginalizado, um caso de anomalia social, mas, ao contrário, como um produto normal dasociedade em que vive.O estado de ignorância relativa no qual se encontra é um índice social. Revela apenas ascondições exteriores da existência humana e os efeitos destas circunstâncias sobre o ser dohomem. Não significa que se trate de indivíduos mal dotados, de preguiçosos, de rebeldes aosestímulos coletivos, em suma, de atrasados.O educador tem de considerar o educando como um ser pensante. É um portador de idéias eum produtor de idéias, dotado freqüentemente de alta capacidade intelectual, que se revelaespontaneamente em sua conversação, em sua crítica aos fatos, e em sua literatura oral. Oque ocorre é que em presença do erudito arrogante, "culto" (o "doutor") o analfabeto se senteinferiorizado e seu comportamento se torna retraído. Mas, se o educador possui umaconsciência verdadeiramente crítica, que não pretende se sobrepor ao educando adulto, e simse identifica com ele e utiliza um método adequado (em essência catártico), o analfabeto revelauma capacidade de apreensão e uma agudeza de vistas que o equiparam à média dosindivíduos de sua idade em melhores condições.O educando adulto é antes de tudo um membro atuante da sociedade. Não apenas por ser umtrabalhador, e sim pelo conjunto de ações que exerce sobre um círculo de existência. O adultoanalfabeto é um elemento freqüentemente de alta influência na comunidade. Por isso é que sefaz tão imperioso e lucrativo instruí-lo.
  4. 4. As camadas iletradas da população tendem a ser mais homogêneas pelas próprias condiçõesde pobreza em que vivem. Mas nelas se destacam sempre (para elas) as personalidades quesobressaem, que dão forma expressa ao pensamento comum e por isso se tornam os líderesnos quais a massa se reconhece.A educação de adultos visa a atuar sobre as massas para que estas, pela elevação de seupadrão de cultura, produzam representantes mais capacitados para influir social mente. Seriaatitude ingênua acreditar que basta instruir os elementos mais destacados, supondo que estesirão depois modificar a massa. Em verdade, o caminho assinalado pela consciência crítica é ooposto. Não é o homem que se eleva que eleva consigo o mundo, e sim o mundo que se elevaque eleva consigo o homem. O que é que o adulto ignora?A pergunta se refere ao adulto em condições primárias de cultura, particularmente ao adultoanalfabeto. Porque, como já dissemos, o que cada adulto culto — mesmo o mais culto —ignora é infinito.É evidente que ignora os conhecimentos que definem o padrão médio do saber de suasociedade em seu tempo. Isto é o que o define em sua condição de iletrado.Todavia o que realmente é significativo é que ignora as causas de sua condição de atrasocultural e de pobreza. Como a compreensão destas causas é matéria ideológica, não competeao educador transferir mecanicamente para o educando adulto suas próprias concepções aeste respeito, do contrário não somente estaria violando os direitos de liberdade depensamento de um ser humano, como também praticaria um ato inútil, pois criaria uma cópiade si mesmo, julgando, apenas por vê-la em outro, que representaria um outro real. Emverdade, estaria iluminando-se com o simples reflexo de si mesmo em um espelho.Assim, o que compete ao educador é praticar um método crítico de educação de adultos quedê ao aluno a oportunidade de alcançar a consciência crítica instruída de si e de seu mundo.Nestas condições ele descobrirá as causas de seu atraso cultural e material e as exprimirásegundo o grau de consciência máxima possível em sua situação.Não importa que esta expressão esteja abaixo da compreensão crítica do educador. Este, se éverdadeiramente crítico, deverá compreender que de nada lhe vale dar ao outro umaexplicação ideológica mais clara, mais exata e verdadeira, porque o aluno adulto não aentenderia e em qualquer caso não poderia atuar utilmente em sua sociedade com umaconsciência mais avançada que aquela que lhe é permitida por sua própria reflexão. Docontrário passaria a ter uma atuação em falso, motivada por uma consciência de empréstimo.Por tudo isso, a ação do educador tem de consistir em encaminhar o educando adulto a criarpor si mesmo sua consciência crítica, passando de cada grau ao seguinte, até equiparar-se àconsciência do professor e eventualmente superá-la. O que é que se necessita aprender?Esta pergunta está em parte respondida pela resposta à pergunta anterior.É evidente que se necessita aprender os elementos básicos do saber letrado, as primeirasletras, a escrita, os rudimentos da matemática, mas este saber, ainda que fundamental eindispensável, só vale por seu significado instrumental, por aquilo que possibilita ao educandopara chegar a saber. É o saber para chegar a saber, para o mais saber. Por conseqüência, épreciso que a sociedade tenha preparado todo o elenco de oportunidades de saber para seradquirido pelo alfabetizando depois de terminada sua alfabetização. Do contrário, a simplesalfabetização é um jogo sem finalidade, um luxo social que não recompensa a comunidade doselevados custos que apresenta.
  5. 5. Em conseqüência, ao ensinar as primeiras letras ao adulto, a sociedade estará abrindo asportas para suas exigências educacionais futuras. E não somente é compelida a satisfazê-las,e, portanto deve desde agora preparar-se para isso, mas unicamente assim adquire sentido ointento atual da educação de adultos. Se assim não fosse, a sociedade estaria se empenhandonum enorme esforço para nada, pois o ato de ler ou escrever, em si mesmo, constitui umahabilidade lúdica, um jogo de decifração, um reconhecimento de sinais gráficos arbitrários, e sóganha valor pelo conteúdo de saber real que permite adquirir.O que o adulto precisa aprender é, em princípio, a totalidade do saber existente em seu tempo.A este respeito, sua perspectiva cultural não difere, de direito, daquela da criança. Unicamente,de fato (pelo menor tempo de vida restante, pelos "afazeres" de trabalho, por sua condiçãosocial não imediatamente modificada), suas possibilidades de alcançar níveis mais altos deconhecimento são com freqüência limitadas. Como lhe ensinar?O problema do método é capital na educação de adultos. Nesta fase é um problema muitomais difícil que na instrução infantil, porque se trata de instruir pessoas já dotadas de umaconsciência formada — ainda que quase sempre ingênua — com hábitos de vida e situação detrabalho que não podem ser arbitrariamente modificados. As características fundamentais quedevem satisfazer o método são as seguintes:Deve ser tal que desperte no adulto a consciência da necessidade de instruir-se e dealfabetizar-se. Isso só pode ocorrer se simultaneamente e mais amplamente desperta nele aconsciência crítica de sua realidade total como ser humano, o faz compreender o mundo ondevive, seu país — com as peculiaridades da etapa histórica na qual se encontra — sua região,desperta nele a noção clara de sua participação na sociedade pelo trabalho que executa, dosdireitos que possui e dos deveres para com seus iguais.Deve partir dos elementos que compõem a realidade autêntica do educando, seu mundo detrabalho, suas relações sociais, suas crenças, valores, gostos artísticos, gíria, etc. Assim, porexemplo, a aprendizagem dos elementos originais da leitura tem que partir de palavrasmotivadoras que são aquelas dotadas de conteúdo semântico imediatamente percebido peloaluno, que se destacam como expressão de suarelação direta e contínua com a realidade naqual vive.O método não pode ser imposto ao aluno, e sim criado por ele no convívio do trabalhoeducativo com o educador. Assim, as próprias palavras motivadoras pelas quais inicia suaaprendizagem da leitura e da escrita não podem ser determinadas pelo professor, mas devemser proporcionadas mediante uma técnica pedagógica especial pelo próprio alfabetizando.O mesmo raciocínio é válido para as etapas posteriores do processo educacional, depois daalfabetização. O conteúdo da instrução não deve ser imposto e sim proposto pelo professorcomo adequado às etapas do processo de autoconsciência crescente do aluno, e justificadocomo o saber corrente (nos diversos ramos das ciências) pelas possibilidades que oferece dedomínio da natureza, de contribuição para melhorar as condições de vida do homem. O equívoco da infantilização do adulto, concebido como um "atrasado"A concepção ingênua do processo de educação de adultos deriva do que se pode chamar uma"visão regressiva". Considera o adulto analfabeto como uma criança que cessou dedesenvolver-se culturalmente. Por isso, procura aplicar-lhe os mesmos métodos de ensino eaté utiliza as mesmas cartilhas que servem para a infância. Supõe que a educação(alfabetização de adultos) consiste na "retomada do crescimento" mental de um ser humanoque, culturalmente, estacionou na fase infantil. O adulto é considerado, assim, um "atrasado".Esta concepção, além de falsa e ingênua, é inadequada porque:- deixa de encarar o adulto como um sabedor;
  6. 6. - ignora que o desenvolvimento fundamental do homem é de natureza social, faz-se pelotrabalho, e que o desenvolvimento não pára pelo fato de o indivíduo permanecer analfabeto.- ignora o processo de evolução de suas faculdades cerebrais.- não reconhece o adulto iletrado como membro atuante e pensante de sua comunidade,na qual de nenhuma maneira é julgado um "atrasado" e onde, ao contrário, pode atédesenvolver uma personalidade de vanguarda.Esta concepção conduz aos mais graves erros pedagógicos pela aplicação ao adulto demétodos impróprios e pela recusa em aceitar os métodos de educação integradores do homemem sua comunidade, quer dizer, aqueles que lhe fazem compreendê-la e modificá-la, nos quaiso conhecimento da leitura e da escrita se faz pelo alargamento e aprofundamento daconsciência crítica do homem frente à sua realidade.O não reconhecimento do caráter relativo de sua ignorância e das causas sociais que a explicamEste é ainda um traço característico da consciência pedagógica ingênua. As conseqüênciasdeste comportamento são nocivas, pois impedem desde o primeiro momento a corretaconsideração do problema da educação de adultos.Já dissemos que o educador ingênuo recusa ver no educando analfabeto adulto um sabedor.Classifica o analfabetismo entre os "males" sociais. Isto significa que dá caráter patológico aoque em realidade é a expressão de um modo de ser do homem. Esse modo de ser éperfeitamente normal e explicável pelas condições sociais da existência do indivíduo. O defeitodesta concepção está em que converte a educação em terapêutica.Ora, pensando assim, o educador se desvia por caminhos completamente errôneos, passa ateruma visão idealista e antropocêntrica do processo pedagógico e jamais se encontrará com averdadeira realidade que se oculta por trás do fato do analfabetismo dos adultos. Cada vezacentuará mais sua ingenuidade, afastando-se da autêntica compreensão do fenômeno.Os erros fundamentais desta atitude consistem em:1)Partir da suposição de ignorância num indivíduo no qual, em verdade, há considerável acervode saber.2)Explicar a realidade do iletrado segundo causas abstratas, segundo conceitos imaginários etotalmente inadequados, deixando assim de buscar suas raízes objetivas no processo social noqual o indivíduo, efetivamente, se encontra inserido.3)Apresentar como recursos, para solucionar o problema social do analfabetismo, métodos dealfabetização e de educação que são de baixo rendimento e elevado custo, além de nãoconduzir ao esclarecimento da consciência do indivíduo, mas unicamente, no melhor doscasos, conseguem dotá-los da habilidade de saber ler e escrever, que permanece para elessem finalidade.4)Despertar uma atitude geral de alarme social em face da gravidade do problema doanalfabetismo, o que é um meio seguro de fazê-lo incompreendido em suas verdadeirascausas objetivas. Em lugar de reconhecer no analfabetismo um índice natural da etapa emque se encontra o processo de desenvolvimento nacional, apresenta-o como umaanormalidade, uma monstruosidade que é preciso "combater", "erradicar". Estas expressões,freqüentes na oratória dos promotoresde campanhas de alfabetização, demonstram bem queos pedagogos desta estirpe concebem o analfabetismo como um "mal", uma "enfermidade",uma "endemia", uma "erva daninha", ou seja, que o vêem como algo não natural no corpo dasociedade. Assim, enquanto este for o pensamento dominante não há possibilidade de que oeducador ou o legislador entre pela correta via de resolução do problema do analfabetismo,que é de fato uma deficiência culturalmente grave, mas que nada tem de sociologicamenteanormal.

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