À PRIMEIRA VISTA     A Estação Ferroviária de São Paulo estava apinhada de gente.Faltava uma semana para o ano de 1968 e a...
A jovem ouviu seu chamado e retornou. Ele estendeu a mão emsua direção e lhe mostrou um pequeno caderno de capa rosa ondee...
A jovem retirou uma caneta de dentro da bolsa, anotou seunúmero numa folha que arrancou do caderno e a entregou a ele. Dep...
CHEGANDO EM CASA       Cristiano era um rapaz de vinte e três anos, honesto e de bomcoração. Pertencia a uma família humil...
Apanhou sua carteira de couro que havia deixado sobre o criado-mudo ea abriu. A folha de caderno com o número de Marina es...
O ENCONTRO     Logo no segundo dia do ano, Cristiano resolveu ligar para a jovemmaringaense. Enquanto ouvia os toques da c...
devolvendo meu caderno de estimação. Sem ele, eu não saberia comolocalizar o endereço de meus tios em São Paulo e estaria ...
– Nem imagina como é bom ouvir isso de você, pois compartilhodo mesmo sentimento. Sabe, às vezes, tenho a sensação que o c...
para a fazenda. A viagem foi tranqüila, mas o jovem apaixonado aindase sentia apreensivo, como que pressentido que algo mu...
VÓ ANA      Seis meses se passaram e Cristiano visitava Marina todos osdomingos. Ele vestia sua melhor roupa e ia à cidade...
porcelana. Era uma raridade, uma verdadeira relíquia que herdara damãe como presente de casamento. E que reinava absoluta ...
Enquanto ouvia o relato do neto, a gentil senhora passava um caféfresquinho no coador de pano e retirava do forno saboroso...
A CASA ESPÍRITA     A Casa Espírita ficava a cinco quarteirões de onde Vó Ana morava.Era um prédio antigo, de janelas à ca...
entrada de muita luz e a brisa do vento. Uma música instrumentalbarroca tocava na vitrola, criando um ambiente de reflexão...
orientando-a e utilizando-se do corpo físico dela para se manifestar,quando necessário. Ambos eram espíritos afins, que se...
HECTOR E DAMARIS     O jovem Hector caminhava cabisbaixo por uma praia de areiabranca   finíssima   e   um   imenso   mar ...
cachos lhe caiam sobre o colo, cobrindo displicentemente os seiosfartos. Era Damaris, filha do General Cirineu Kapranos, a...
novamente dirigiu-se a ele, com a mesma impetuosidade da primeiravez.       Hector, petrificado com tal situação, baixou o...
lado a lado, fitaram-se por um longo tempo. Para ele, enxergar Damarisali, tão naturalmente saciada depois do coito, era c...
– Será que ele desconfia de meu envolvimento com a filha doGeneral? Não pode ser, somos discretíssimos. É mais provável qu...
– Como dizes tu? Não entendo! Somos amantes, como podesquerer abandonar-me por aquele soldado boçal? Eu, que amo a ti milv...
Possuído por um pensamento obsessivo, dirigiu-se rapidamente acasa de Jerônimo e furtou-lhe o punhal do meio de seus perte...
– Cometi um crime, meu senhor! Puna-me como melhor teaprouver. Pois minha verdadeira senhora causou mais danos em mimque a...
OUTRO ESPÍRITO SE MANIFESTA     Assim que terminou de narrar a história, o espírito inferiorcontinuou sua explanação:     ...
Dito   isso,   Demêure   voltou-se   na   direção   do   médium   queincorporava o espírito de Daros e concluiu:     – Per...
Entretanto, ela me rejeitou, quando tudo que eu queria era uma novaoportunidade de retornar ao Plano Denso. Foi leviana e ...
ENRICO E MARCOS     Enrico Bizcaya era um menino ruivo que morava em Rayén, umducado espanhol em      meados do     século...
iaansiosamente na frente, pois nunca tinha visto membros da nobrezaantes e desejava conhecê-los.      Foi então que o meni...
cor de fogo, estavam sempre revoltos pelo toque do vento. Os treinospara os combates forjaram-lhe músculos perfeitamente e...
seu interesse pelo corpo do Capitão que balançava os       seus cabelosfazendo com que respingos de água atingissem o amig...
a retirada    intempestiva    do amigo e deixou          que duas lágrimasdescessem em sua face. Ponderou que talvez o Cap...
escreveu ao amigo ruivo. E embora tomasse sempre o devido cuidadode não identificar o objeto de sua paixão, o conteúdo das...
– Vós tenhais inflamado os habitantes deste pacato ducado comversos infames e hereges sobre a Sagrada Igreja do Senhor?   ...
– Quem fora seu comparsa em tão aviltante desatino? –perguntou um dos deputados com ar de repugnância.        Marcos mante...
tentais acobertar. Estais excomungado. Que Deus tenha piedade devossa alma!      Os carrascos arrancaram as vestes do pris...
que a acusação os atingisse por parentesco. Mesmo assim, tiveram seusbens confiscados pela Igreja.     Assim que soube da ...
Guarda grande respeito, afastando-se sem esboçar reação. A multidãoassistia a cena sem nada compreender, mas em reverência...
lágrimas brotaram de seus olhos e ele lamentou profundamente nuncater revelado a Marcos o amor que ele levava escondido em...
A VINGANÇA CONTINUA      Na Casa Espírita uma gargalhada esganiçada ecoou por todo salãoe o espírito inferior revelou:    ...
invólucro carnal de Damaris, quis viver em dois mundos distintos. Um,lhe dava prazeres sensuais; o outro lhe garantia conf...
– Vó, a senhora acha que eles vão voltar e prejudicar a mim e aMarina?      – Capaz que sim, Cris. Esses espíritu da sombr...
O ACIDENTE     Por telefone, Cristiano narrou a Marina toda a história que ouviuna Casa Espírita. Ela demonstrou uma certa...
Assim que desceu do Circular no ponto à beira da estrada, o rapaznotou a presença de Mateus, filho do capataz da fazenda, ...
alto e reparou na quantidade de frutos que pendiam dos galhos daárvore:      – Marina, olhe para cima! Quantas mangas-coqu...
– Senhor Deus, Pai Eterno, por favor, não leve a minha amada.Leve a mim. Assim, ainda que em espírito, poderei acompanhá-l...
enxergar além do casal a sua frente. Apavorado, evadiu-se do lugargalopando aos berros:     – Valha-me, Deus! Que este pom...
O RESGATE DE ÂNDROCLES      Na sala de espera do hospital, Cristiano estava angustiado demaispara permanecer sentado. Leva...
em observação. Seu quadro é estável no momento e não podemosprever como ela reagirá, devemos aguardar as próximas horas.Ac...
Cristiano levantou-se da poltrona mas percebeu que seu corpofísico continuava sentado e havia um cordão prateado ligando-o...
Agora vamos, pois o corpo físico de Marina jaz no leito e cada minuto éprecioso.      Os três caminharam lado a lado por u...
retalhado quando introduziste aquele objeto pontiagudo de metal emtuas entranhas e me deformaste mortalmente.     Ela ajoe...
A TRANSFORMAÇÃO DE DAROS     À medida que os três caminhavam em direção ao leste, apaisagem ia se transformando numa praia...
– Sim, realmente é o espírito de Daros. – concordou Demêure –Ele permanece nessa aparência com os ferimentos expostos por ...
Marina não conteve a emoção ao ver a cena:     – Ei! E eu não ganho um abraço também? – ralhou a moça, emtom de brincadeir...
atendimento e orientação e muito em breve irão reencarnar para darcontinuidade a seus processos de evolução.          – Ao...
O LAR DE DEMÊURE     Numa fração de segundo, os três foram transportados para umaCidade Espiritual. Cristiano e Marina fic...
adornos nem jóias. Nada de pulseiras, correntes ou anéis de pedras oumetais preciosos como prata, ouro ou diamantes. Usava...
seus próprios mundos, alguns mais densos, outros mais sutis comoeste.        – Sei... é como diz o ditado: “O Céu é um est...
Castelo. E eles foram todos juntos verificar o que estava ocorrendo porlá.      Marina ficou admirada com a quantidade de ...
– Este edifício verde – explicou Demêure – é a Mansão da Saúde.É pra cá que são encaminhados todos os recém-chegados quene...
– Você quer dizer que somos nós que escolhemos de que maneirairemos reparar nossos erros e se vamos reencarnar ou não?    ...
O RETORNO      O regresso para o corpo físico ocorreu naturalmente. Cristianoabriu os olhos e percebeu que se encontrava n...
Cristiano deu um impulso na cadeira e pôs-se de pé. Rapidamente,agradeceu a atenção do médico e foi ao encontro da amada. ...
CRISTIANO E MARINA     Cristiano e Marina estão sentados na ampla varanda da bela casaque compraram na praia de Icaraí em ...
Juntos, os três dedicam-se a missão árdua e recompensadora doresgate dos espíritos que padecem de sofrimentos físicos e mo...
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Você já imaginou como seria se a vida nos desse uma nova chance de nos confrontarmos com paixões e pessoas queridas de vidas passadas para "reconstruirmos" a nossa história e sermos felizes através do amor e do perdão? Esta é a história do livro UM GRANDE AMOR DO PASSADO.

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  1. 1. À PRIMEIRA VISTA A Estação Ferroviária de São Paulo estava apinhada de gente.Faltava uma semana para o ano de 1968 e a aglomeração depassageiros fazia com que todos se acotovelassem disputando um lugarna plataforma de embarque. Encostado na parede em frente ao portãode entrada, um rapaz esbelto, de cabelos e olhos castanhos aguardava achegada do trem que o levaria de volta para casa. Já passava das novehoras da manhã e ele pretendia estar em Belo Horizonte antes doanoitecer. Ele estava vindo do norte do Paraná e era necessário fazerbaldeação na estação paulistana antes de seguir para Minas Gerais. Derepente, uma jovem apressada esbarrou acidentalmente nele e semperceber deixou cair algo no chão. O rapaz prontamente se abaixou,apanhou o objeto e chamou por ela: – Moça, acho que você deixou cair isto... 2
  2. 2. A jovem ouviu seu chamado e retornou. Ele estendeu a mão emsua direção e lhe mostrou um pequeno caderno de capa rosa ondeestava grafado em letras douradas: “MINHAS ANOTAÇÕES”. – Nossa! Não sei o que faria se perdesse isto. Obrigada por meavisar. – disse ela. Eles se entreolharam por um momento e isso fez disparar ocoração do rapaz. A bela jovem apanhou seu caderno e saiurapidamente. Ele esboçou um leve sorriso e a observou sumir-se namultidão. No entanto, bastou que a perdesse de vista para sentir umdesalento no coração e um desejo desesperado assolou sua mente:“Não, não posso perder essa mulher”. Sem se dar conta do absurdo do ato, saiu correndo, seesgueirando entre os passageiros em busca daquela estranha que tãoabruptamente sensibilizara seus sentimentos. Por sorte, ela aindaestava na plataforma. Ele a viu acenar para um táxi e antes que elaentrasse nele, o afoito rapaz correu ao seu encontro e entrou em suafrente: – Desculpe, você deve me achar meio louco, mas não puderesistir. Quando olhei para você ainda há pouco, foi como se eu já aconhecesse de longa data. E eu nem sei sua graça... – Marina! – Prazer, senhorita! Sou Cristiano, seu criado. Mas pode mechamar de Cris. Não costumo abordar pessoas dessa forma, mesmo queseja uma moça linda como você. Não sei o que deu em mim, mas foimais forte do que eu. – Olha, Cris, eu sou muito grata a você pelo seu ato de gentilezadevolvendo meu caderno, mas agora eu realmente tenho que ir. Temgente me esperando e eu não quero deixá-los preocupados... – Imagino que sim. Mas gostaria de te ver novamente, é possível? – Sem problemas. Eu tenho telefone em casa. 3
  3. 3. A jovem retirou uma caneta de dentro da bolsa, anotou seunúmero numa folha que arrancou do caderno e a entregou a ele. Depoisentrou no táxi, partindo em seguida. Cristiano observou a partida delameio atônito. Quem é essa mulher que causa em mim sentimentos tãoestranhos? Pensou. Ele retornou para plataforma de embarque ainda surpreso comsua própria atitude. Nunca fora impetuoso. Realmente Marina mexeracom ele. Durante toda viagem de retorno a sua terra natal pensou nela.Lembrou-se dos seus olhos castanho-claros, tão tristes quantoenigmáticos. Seus cabelos cor de chocolate, longos e levementecacheados nas pontas. Toda ela era de uma beleza exótica, com seuslábios carnudos, nariz delicado e uma pele tão clara que mais parecia deporcelana. Ela estava vestida com uma saia longa à moda árabe e umabatinha customizada de algodão com bordados em forma demargaridas. Fato que deixou o rapaz mais fascinado ainda pela suaaparência tão ímpar... 4
  4. 4. CHEGANDO EM CASA Cristiano era um rapaz de vinte e três anos, honesto e de bomcoração. Pertencia a uma família humilde, mas era demasiadamenteesforçado e aplicado nos estudos. Conseguiu formar-se em TécnicoAgrícola graças a uma bolsa oferecida por mérito que ganhou do diretorda Escola Politécnica devido ao seu excelente desempenho no ginásio.Sempre sonhara em trabalhar com a terra e assim que concluiu o curso,rumou para o norte do Paraná. Com o diploma na mão, arranjourapidamente emprego promissor numa fazenda cafeeira, onde ele jáestava trabalhando havia dois anos. A lida no manejo de café lhe davaimensa satisfação. Ao chegar na Estação de BH, já no início da noite, ele emocionou-se com a recepção calorosa dos parentes e amigos que ali oaguardavam. Decidira passar apenas a virada de ano com a família, poisprecisava retornar ao trabalho em breve para a colheita do café. Depoisdos cumprimentos, seus pais o levaram para sua residência. Tão logopôs os pés em casa, banhou-se e comeu seu prato preferido: costelaassada em cheiro verde com mandioca amarela cozida, preparadocarinhosamente por dona Luísa, sua mãe. Embora exausto pela cansativa viagem, ele tentou permanecer nasala para matar a saudade da família, mas o cansaço falou mais alto erecolheu-se para deitar. A mobília de seu quarto refletia toda asimplicidade de sua personalidade: uma cama de solteiro, um pequenoroupeiro, sua velha escrivaninha com a fiel cadeira, um criado-mudo eum singelo tapete de retalhos confeccionado por Vó Ana, mãe de suamãe. A noite não foi tão tranquila como ele planejava. O sono tardou achegar e o belo rosto de Marina voltou a povoar seus pensamentos. 5
  5. 5. Apanhou sua carteira de couro que havia deixado sobre o criado-mudo ea abriu. A folha de caderno com o número de Marina estava lá e elepercebeu pelo código do DDD que ela morava em Maringá, cidadepróxima da fazenda em que ele trabalhava. Pensou em telefonar, maslembrou-se que provavelmente ela ainda estaria em São Paulo. Guardounovamente o papel na carteira e resolveu esperar as festas de fim deano passarem para ligar. Os dias que se seguiram passaram lentamente para ele e apesarde todo carinho que recebia da família, Cristiano estava se sentidoestranhamente melancólico. Sempre fora um rapaz bem humorado,cheio de amigos e rodeado de garotas. Mas em seu íntimo, sabia que ascoisas já não eram as mesmas desde o episódio na Estação de Trem emSão Paulo. Por mais que se esforçasse, não conseguia tirar Marina dacabeça. Tornou-se amofinado, pensativo e passou a sentir muito medode algo que não sabia definir... 6
  6. 6. O ENCONTRO Logo no segundo dia do ano, Cristiano resolveu ligar para a jovemmaringaense. Enquanto ouvia os toques da chamada, seu coração davapulos dentro do peito; suas mãos frias suavam em bicas e sentia umbolo no estômago. Nunca estivera tão ansioso em toda sua vida.Finalmente, depois de inúmeros toques, alguém do outro lado da linhaatendeu: – Alô! – disse uma voz feminina. – Alô! É você Marina? É o Cristiano que tá falando! – Oh, sim! Oi, Cris! Pensei que tinha desistido de querer me ligar. – Não, jamais! Apenas, imaginei que você ainda não haviachegado de São Paulo, e aguardava seu retorno. – Poderia ter me ligado antes. Eu fiquei apenas três dias lá. Fuivisitar meus tios e voltei para passar o Reveillon aqui. Você foi um amor 7
  7. 7. devolvendo meu caderno de estimação. Sem ele, eu não saberia comolocalizar o endereço de meus tios em São Paulo e estaria perdida. O rapaz estava à beira de um ataque, tal era seu nervosismo. Seupensamento estava confuso pelo excesso de ansiedade e ele achoumelhor por fim à conversa e se despedir logo antes que ela percebessesua insegurança. Em breve voltaria ao trabalho e poderia revê-la.Marcaram de se encontrar em Maringá dali a dois dias em frente àCatedral Metropolitana. No dia combinado, Cristiano desceu do trem na estaçãomaringaense com o coração saindo pela boca. Antes de rumar para aCatedral resolveu hospedar-se num hotel para tomar banho e raspar abarba, pois desejava fazer bonito para sua pretendente. Almoçou nasala de refeições e tentou ler um jornal até a hora do encontro. Apenastentou, pois não conseguiu se concentrar numa única frase, tal suaansiedade. O relógio marcava treze horas quando ele se levantou e foiao encontro de Marina. Quinze minutos antes do horário marcado, Cristiano chegou àfrente da Igreja. Poucos minutos depois foi a vez de Marina chegar. Osdois resolveram dar uma volta pelo centro da cidade para conversar. Odia estava muito quente e pararam numa sorveteria para tomar sorvetee se refrescarem. Sentados frente a frente, Cristiano colocou sua mãosobre a de Marina e não conteve a emoção: – Está ouvindo? – O quê? – perguntou a moça. – As batidas do meu coração. Ele bate em alto e bom som porvocê! Minha querida, antes de conhecê-la, eu não sabia o que era amarde verdade. Eu te amo tanto, mas tanto que chega a doer. Quero passaro resto da minha vida ao seu lado. Desde o primeiro momento em que avi, soube que não poderia mais ficar sem você... 8
  8. 8. – Nem imagina como é bom ouvir isso de você, pois compartilhodo mesmo sentimento. Sabe, às vezes, tenho a sensação que o conheçode outros tempos. Acho que a paixão está me tirando o juízo. – Então, somos dois desajuizados. – Mas sinto um medo estranho, sem motivo aparente. –entristeceu-se a moça. – De vez em quando, eu sinto o mesmo. Mas acho que deve serapenas insegurança. Enquanto os jovens conversavam entretidos sobre seussentimentos, duas sombras negras se aproximaram deles. No entanto,não podiam vê-las: – Vejas tu, que belo casal de enamorados! Não podemos permitirque se safem, os infames. Devemos impedir que sejam felizes, poisambos são pústulas, mormente o jovem mancebo. – Sim, tens toda razão. Foi a muito custo que os encontramos,mas sabia que esse dia chegaria novamente. Valeu a pena esperar.Vamos aniquilá-los! Maldita sejas tu, mulher imprudente! Um vento gélido soprou sobre o jovem casal. – Vamos embora daqui, meu anjo! – sugeriu Cristiano. – Sim, vamos. De repente me deu um arrepio pelo corpo todo,cruz credo! Deus me defenda! Decidiram sentar-se no banco da praça. Conversaram, riram etrocaram juras de amor. Cristiano segurou delicadamente o rosto deMarina entre suas mãos e a beijou com paixão e ternura. E ali, sob otestemunho das árvores e dos pássaros, o jovem rapaz desejou que otempo parasse naquele instante, pois queria perpetuar aquelesmomentos em sua memória como uma espécie de tatuagem mental. A jovem acompanhou Cristiano até a recepção do hotel onde eleestava hospedado e os dois se despediram com muitos beijosdemorados. No dia seguinte, logo pela manhã, ele tomou o Circular 9
  9. 9. para a fazenda. A viagem foi tranqüila, mas o jovem apaixonado aindase sentia apreensivo, como que pressentido que algo muito ruim estavapara acontecer. Embora procurasse disfarçar na frente do namorado, Marinatambém se sentia desconfortável e receosa. Tinha todos os motivos domundo para se sentir feliz: acabara de completar dezoito anos, eralinda, refinada, pertencia à alta sociedade maringaense e estudavainglês e piano clássico no Colégio das Freiras. No entanto, desde queconheceu Cristiano, fora surpreendida inúmeras vezes aos prantos pelospais, que consideravam a filha única como seu maior tesouro... 10
  10. 10. VÓ ANA Seis meses se passaram e Cristiano visitava Marina todos osdomingos. Ele vestia sua melhor roupa e ia à cidade de sua amada paraencontrá-la. No entanto, ele sentia cada vez mais o peito apertado euma angústia que o estava deixando deveras preocupado. Embora estivesse realizando seu sonho de infância no trabalho evivendo um romance apaixonado, ele não estava feliz. Havia algo deerrado com ele, pois um vazio sem fim tomava conta de seu coração.Sentiu que precisava fazer algo para reverter aquela situação. Imaginouque estivesse esgotado pelo excesso de trabalho e aproveitou o períodode entre- safra para visitar os parentes em Minas. Imaginou que a trocade ares iria lhe fazer bem. Cristiano chegou à cidade materna ao entardecer. Sua visitasurpresa foi recebida com muita alegria pelos pais e seu irmão maisnovo Júlio. No dia seguinte após o almoço, ele resolveu fazer uma visitaà casa de Vó Ana. Sempre que estava angustiado ou triste dirigia-separa lá, onde encontrava conforto espiritual. A casa de Vó Ana era muito simples. Uma construção caiada, comtelhas de barro e piso de tábuas enceradas na sala e nos quartos. Osmóveis de madeira de lei eram em estilo colonial e estavam sempreadornados com alvíssimos panos de renda. A zelosa dona da casa tinhapor hábito receber as visitas em sua ampla cozinha, com fogão à lenhae uma belíssima mesa de carvalho tendo sobre ela uma toalha brancacom desenhos de rosas. Tudo naquela singela casa recendia capricho elimpeza. O ladrilho vermelho da cozinha era tão lustroso que as pessoaspodiam se ver nele como um espelho. Vó Ana, apesar de desprendidados bens materiais, tinha uma única vaidade na vida: sua cristaleira deÉbano com entalhes barrocos, onde estava exposta sua louça de 11
  11. 11. porcelana. Era uma raridade, uma verdadeira relíquia que herdara damãe como presente de casamento. E que reinava absoluta entre osmóveis da sala de estar. Vó Ana era uma senhora na casa dos setenta anos, semi-analfabeta, mas retentora de uma sapiência admirável. Seus olhos azuiseram muito brilhantes e ela mantinha os cabelos grisalhosimpecavelmente presos num coque. Quituteira de mão cheia, era elaque fazia a merenda das crianças do orfanato belorizontino. Desde queenviuvara, dez anos antes, dedicava-se inteiramente a caridade na CasaEspírita que freqüentava. Descobriu sua mediunidade quando ainda erabem moça, mas os pais a proibiram de se envolver com os trabalhosmediúnicos enquanto era solteira. Somente quando se casou comCarlos, um rapaz espírita, foi que pôde desenvolver sua missão. Cristiano abriu a porta da sala sem bater antes. Estavaacostumado a entrar e sair da casa da avó sem fazer cerimônias. Assimque botou os olhos no neto mais velho, ela o recebeu com o cenhofranzido. – Vó, vim ver a senhora, porque estou com um aperto no peito.Mas pela sua expressão, imagino que a senhora já deve ter pressentidoisto, né? – Não, não! Isto não é nada bom, meu menino. Meu fio, meu véiocoração ficou danado di apertado quando ponhei os óio nocê! Não tôgostando nada dessas mancha preta que tão te seguindo! Cristiano começou a contar à avó tudo sobre Marina e a angústiainexplicável que estava sentindo. Ele sempre desabafava com elaquando algo não ia bem. Ela era seu porto seguro, alguém em quempodia confiar cegamente. Ele conhecia as faculdades mediúnicas da avóe tinha muito respeito e admiração por ela. Desde pequeno, aacompanhava à Casa Espírita e sabia que suas intuições eram infalíveis. 12
  12. 12. Enquanto ouvia o relato do neto, a gentil senhora passava um caféfresquinho no coador de pano e retirava do forno saborosos pães dequeijo. O rapaz sentia o aroma do café com um leve saudosismo dostempos de moleque, e comia com gosto os pãezinhos junto com “cuecavirada”, um bolinho doce frito muito popular na região. – Vó, eu deveria estar radiante de alegria, mas não estou. Há algoerrado comigo, mas não sei o que é. – Ocê tem que rezá, fio. Tem que rezá muito pra modi as mácompanhia i embora pro lugar deles. Caba de comê e vamô mais a vó lána Casa Espírita. O rapaz terminou calmamente a merenda e acompanhou suaavó... 13
  13. 13. A CASA ESPÍRITA A Casa Espírita ficava a cinco quarteirões de onde Vó Ana morava.Era um prédio antigo, de janelas à capelinha com esquadrilhas demadeira e pequenos vasos de onze-horas no parapeito. Sua fachada erade cor verde clara e em cima da porta de entrada, havia um letreiroindicando que ali era um centro espírita. Na recepção, um casal muito simpático de trabalhadoresvoluntários recebia os visitantes. Vó Ana era sempre muito bem vindaali, pois era uma das trabalhadoras mais dedicadas e seu marido foraum dos fundadores. Todos os dias ela participava da sessão dasdezesseis horas, onde comandava os trabalhos da mesa. Cristiano e a avó subiram as escadarias e entraram num salão liláscom muitas cadeiras de madeira. Bem ao fundo dele, havia um pequenopalco para palestras onde estava disposta uma mesa com toalha brancade algodão e sobre ela, um vaso de argila queimada com flores docampo. O salão possuía amplas janelas de madeira que permitam a 14
  14. 14. entrada de muita luz e a brisa do vento. Uma música instrumentalbarroca tocava na vitrola, criando um ambiente de reflexão e paz. Tudomuito simples e aconchegante. Várias pessoas aguardavam em silêncio sentadas em frente aopalco. Assim que notaram a chegada de Vó Ana, cinco trabalhadores dacasa se aproximaram da mesa e esperaram até que ela tomasse seulugar de costume. Cristiano foi então convidado pela avó para sentar-seao seu lado. Ele já havia assistido muitas sessões antes, mas era aprimeira vez que participava da mesa. Estava ansioso e angustiado como que poderia acontecer ali naquela tarde. Os sete membros da mesa deram-se as mãos e Vó Ana proferiu aprece inicial seguida de um Pai-Nosso. Em seguida, um outrotrabalhador da Casa fechou as janelas e a porta de entrada do salão. Oambiente ficou em penumbra e a música foi desligada. Vó Ana abaixou acabeça, fechou os olhos e concentrou-se. Nenhum ruído se ouvia alémda respiração dos presentes. Depois de alguns minutos, a humilde senhora levantou a cabeça,permanecendo de olhos fechados. Todos notaram uma ligeira mudançaem seu semblante que parecia mais jovem e sereno: – Boa tarde, meus queridos irmãos! Compareci desta vez aqui apedido de minha estimada irmãzinha Ana que intercede pelo seu netoCristiano. Aqueles que já estavam acostumados com sua maneira ponderadae suave de se expressar não tiveram dúvidas que se tratava do espíritode Demêure, um advogado que desencarnou no final da década detrinta, aos cinqüenta e dois anos em Espinosa, pequeno município deMinas Gerais. Vó Ana sempre solicitava sua presença amiga quando oassunto em questão era de perseguição obsessiva, pois ele já ajudara asolucionar muitos casos dessa natureza. Demêure era um reconciliador,que residia no Plano Superior e que sempre acompanhava Vó Ana, 15
  15. 15. orientando-a e utilizando-se do corpo físico dela para se manifestar,quando necessário. Ambos eram espíritos afins, que se conheciam deoutras encarnações e estavam sempre prontos a ajudar aqueles quesofrem. Um outro trabalhador da mesa, também médium, sentiu as baixasvibrações de um espírito inferior e permitiu que ele se manifestasseatravés dele: – Ah, débil anciã, de nada te adiantará pedir auxílio ao doutor dalei, eu o destruirei e a quem mais se atrever a atravessar meu caminho.Já não estou só em minha batalha, encontrei um aliado e juntos vamosarrebatar para os confins do umbral aqueles que nos prejudicaram. O tom ameaçador e tenebroso do espírito que se manifestou àmesa, não intimidou Demêure que tentou saber mais sobre aquelacriatura tão perturbada: – Irmão, aqui você está entre amigos. Queremos ajudar você equem mais estiver te acompanhando. Podemos sentir que você sofre.Mas prejudicar nosso irmão Cristiano não vai aliviar seu tormento, aocontrário, só vai piorá-lo. O que foi que nosso irmãozinho fez paraprovocar tanta revolta em você? – Tais palavras adocicadas não me comovem. Pensei que os “de láde cima”, soubessem distinguir os bons dos maus, mas vejo que meenganei. Este que aí está, envolto num manto de candura, já foi ocausador de muita dor em minha carne. E para vocês saberem que nãoestou mentindo, vou-lhes contar o que realmente aconteceu... 16
  16. 16. HECTOR E DAMARIS O jovem Hector caminhava cabisbaixo por uma praia de areiabranca finíssima e um imenso mar azul que despejava ondasespumantes, batendo na areia e recuando. Era de manhã, pois o solestava baixo e a praia parecia deserta. Ele ouvia o barulho dospássaros, das ondas do mar e das folhas das árvores balançando com ovento. Aquele era o único lugar onde se sentia bem. Ele era um escravo grego, no ano 801 a.C.; tinha dezenove anos,pele amorenada, músculos rígidos e um temperamento subserviente.Suas mãos eram grandes e rudes. Estava seminu, usando apenas umpano de algodão tingido cobrindo a região entre a cintura e as coxas ecalçando nos pés sandálias de couro com cordões trançados até quaseos joelhos. Seus cabelos negros eram grossos e revoltos. Os olhostambém negros, traziam sempre um olhar melancólico. De repente, enxergou um pequeno grupo de jovens mulheresdespindo-se e entrando no mar. Uma delas se destacava dentre asoutras por apresentar a pele muito alva e cabelos dourados cujo os 17
  17. 17. cachos lhe caiam sobre o colo, cobrindo displicentemente os seiosfartos. Era Damaris, filha do General Cirineu Kapranos, acompanhadapor suas escravas particulares. Quando as escravas perceberam que Hector as observava,imediatamente tentaram cobrir sua senhora atirando-se na frente dela.Mas Damaris as repeliu e foi na direção dele: – Gostaste do que viste? – disse em tom capcioso. – Perdoe-me, senhora! Não tive a intenção de ofender-te –respondeu ele, tentando desviar os olhos de seu corpo nu. – Ah, podes olhar-me à vontade! És apenas um escravo. Devora-me com teus olhos, pois é tudo que poderás ter de mim. Ha, ha! As palavras de escárnio da jovem golpearam profundamente oorgulho de Hector. Ele se manteve de cabeça baixa e retirou-se dalienvergonhado, tentando disfarçar a empolgação de sua virilidade pordebaixo das vestes. Nascera escravo e pertencia a Jerônimo Merkki, um ilustre oradorda cidade-Estado que, a pretexto de fazer valer sua autoridade desenhor, abusava dele desde menino. Por esse motivo, Hector tentouesquecer o que vira na praia e continuar a levar a vida que acreditavaser imposição dos deuses. Porém, a visão de Damaris saindo despida do mar, perseguia-onos seus devaneios noturnos. Quantas noites sonhara com tãoinacessível e bela jovem! O olhar dela era como mar: azul e intenso.Ainda soava em seus ouvidos a voz de sua musa dirigindo-lhe aviltantecomentário: “És apenas um escravo!”. Sim, um reles e parvo escravo.Mas um escravo que passou a adorá-la. Apaixonara-se no mesmoinstante que a viu. Passado um certo tempo, a reencontrou na praia. Ela estavadeslumbrante com suas vestes de cores vivas, contrastando com abrancura de sua cútis. Assim que ela o viu, afastou as escravas e 18
  18. 18. novamente dirigiu-se a ele, com a mesma impetuosidade da primeiravez. Hector, petrificado com tal situação, baixou os olhos enquantosentia que Damaris se aproximava. Seu perfume de essênciassilvestres, adiantaram-se a ela e ele ficou inebriado com tal odorprimaveril. – Ora, que temos aqui? – disse a jovem, com ar de deboche – Senão é o olheiro da praia! Vejo que gostas desta praia tanto quanto eu.Venha, vou mostrar-te meu lugar preferido! Ela pegou-o pela mão e o conduziu por entre as pedras altas.Hector a acompanhou feito um cordeiro. Estava acostumado a seguirordens sem questioná-las. – Quero que sejas meu! Cobicei-te desde o primeiro instante emque lancei os olhos sobre ti! – disparou a jovem senhora. – Perdoe-me, senhora. Mas serei de quem puder pagar o preçoque valho. Não cabe a mim decidir a quem pertenço! – És um biltre, logo vi! Pois não sabes tu que meu pai é o GeneralKapranos? Poderia adquirir, se quisesse, dezenas de escravos. Desejo-te, não como servil cativo, quero-te como amante. – Quem sou eu para decidir por ti? Se for assim que me queres...então, desde já, pertenço-te. Meu corpo e minha alma. Mas cuidemosque meu senhor não o descubra, pois é deveras ciumento com os seus. – Sim, será esse o nosso segredo, então. Eu e tu, amantes... eesse local será nossa alcova de amor. Sem mais dizer palavra, Damaris o puxou para junto de si e obeijou com ânsia de arrancar-lhe os lábios. O jovem escravo retribui obeijo enquanto suas mãos desobedientes, deslizavam da altura da nucaaté as ancas macias da sensual senhora. Finalmente, Hector conheceutodo interior da anatomia feminina. Apesar do adiantado da idade, elenunca havia partilhado da intimidade de uma mulher antes. Deitados 19
  19. 19. lado a lado, fitaram-se por um longo tempo. Para ele, enxergar Damarisali, tão naturalmente saciada depois do coito, era como ter a visão deuma divindade no momento mais sublime da existência. Tal a beleza efrescor da juventude que exalava do seu corpo escultural. Ela, e tãosomente ela, era senhora absoluta de seu coração. O seu ar desuperioridade e a maneira esnobe que tratava os menos afortunados,tornavam-na ainda mais bela aos seus olhos de apaixonado. Por diversas vezes, ao longo de meses, aqueles momentos serepetiram. Eles se entregavam aos desejos mais insanos ali, tendoapenas as inanes pedras como cúmplices. O jovem escravo tornou-semais cativo ainda dos caprichos sensuais da deusa da lascívia. Mas aotérmino de cada encontro, saíam ambos cada um para o seu mundo.Damaris chamava de volta suas escravas e regressava para junto doscidadãos nobres e livres, enquanto Hector voltava para as garras deJerônimo. – Onde estiveste tu? Mandei chamar-te e tu não te encontravasao meu dispor. Esta noite, desejo que me sirvas... – ordenou o devassoorador. Hector ouvia aquelas palavras com um profundo ressentimento.Odiava a maneira como era tratado. Sentia-se pior que um animal decarga naquela casa. Aquelas maneiras altivas de Jerônimo, que segabava na Acrópole de possuir os mais submissos escravos, lhe davanos nervos. Seu hálito sempre exalando vinho e assados de carneiro.Odiava Jerônimo e todos aqueles outros profanadores da honra de umhomem. Mas que era ele? Apenas mais um objeto da casa. Valia menosque os vasos e tapetes. Prometeu a si mesmo, que se um dia os deuseso ajudasse a se tornar liberto, jamais se deixaria escravizar novamente.Ele sentia profundo desprezo pela aquela forma estratificada desociedade. Desde então, um princípio de revolta tomou conta do seucoração. 20
  20. 20. – Será que ele desconfia de meu envolvimento com a filha doGeneral? Não pode ser, somos discretíssimos. É mais provável queJerônimo tenha obtido honrosa aclamação na Ágora, pois conta comlegião de admiradores, e deseja comemorar seu triunfo com uma noitedionisíaca – disse para si mesmo. O tempo passava e cada vez mais Hector se via enredado pelosencantos da frívola Damaris. Um dia, notando-lhe o abdômenavolumado, desconfiou de uma possível gravidez da amada. Sentiualegria e temor ao mesmo tempo. Queria filhos, seria muito bom teralguém do próprio sangue. Mas intimamente sabia que para umescravo, essa possibilidade deveria ser decidida pelo seu senhor e dono. – Estás prenha? – inquiriu Hector. – Temo que sim! Meu sangue cessou há três meses e tenhoengordado a olhos vistos. Terei que providenciar logo o meudesembaraço, pois em breve já não mais me será possível esconder –respondeu Damaris, demonstrando total indiferença. Hector sentiu um calafrio na boca do estômago ao imaginar taldesatino da amada, mas não pôs fé que ela levaria a cabo tão sombriointento. Porém, no encontro seguinte ela apresentava um semblanteabatido e não mais possuía vestígios de gravidez. – Que fizeste da semente que plantei em teu ventre, mulher?Ceifaste a vida de um inocente! – disse o escravo indignado. – Ora, teria eu, por certo, a desonra de parir a cria de umescravo? Sou de nobre estirpe e devo primar pela minha descendência.Vim aqui hoje tão somente para prevenir-te: em breve irei contrairnúpcias com Daros Comnynos, valoroso soldado do batalhão de meupai. E não mais teremos tais encontros escusos. Ele foi agraciando pelosdeuses que o fizeram louro e com belos olhos verdes. Por isso, pretendodar linhagem legítima a meu futuro consorte. 21
  21. 21. – Como dizes tu? Não entendo! Somos amantes, como podesquerer abandonar-me por aquele soldado boçal? Eu, que amo a ti milvezes mais que minha própria vida? Rogo-te, não me deixes, sou teu...tu és minha! Não posso perder-te! – Que tem o casamento a ver com amor? Caso-me por obediênciaa meu pai, que é homem e livre. Além do mais, não se pode perder oque nunca se teve. Nunca fui tua. Diverti-me muito contigo, comopretendo divertir-me com ele. Daros é a pessoa certa para mim, évigoroso e tem muito prestígio na Acrópole. E ao contrário de ti, é umcidadão livre. Isto é tudo. Sejas feliz! E que os deuses te protejam! –concluiu a jovem senhora, dando de ombros e chamando as escravaspara que partissem. A notícia do casamento de Damaris inundou de desespero ocoração do jovem Hector. Poderia suportar as humilhações de Jerônimo,sua triste sina de escravo, mas não sobreviveria sem a única pessoaque amava. Venerava Damaris e não poderia vê-la nos braços de outro,resignado. Ela era o único sentido de sua vida, não conhecera seus pais,nem tivera irmãos. Jamais havia se envolvido com alguém afetivamenteaté que a conheceu. Sempre soube que nunca poderia ter dela mais queuma atenção caprichosa. Sabia que era alvo apenas do entretenimentodela. Mas ainda assim, a amava ao desespero. Morreria por ela. E, sepreciso fosse, mataria também... Uma tarde, enquanto caminhava pela praia, ele viu Damaris eDaros de braços dados, trocando gentilezas e sorrisos capciosos umpara outro. Naquela mesma praia onde o jovem escravo a conhecera eonde se apaixonara por ela. Imaginou que provavelmente ela tambémdeveria ter ensinado a Daros o caminho entre as pedras altas. Osangue ferveu-lhe nas veias, permitindo que o ciúme doentio lhecorroesse a razão. 22
  22. 22. Possuído por um pensamento obsessivo, dirigiu-se rapidamente acasa de Jerônimo e furtou-lhe o punhal do meio de seus pertences.Retornou a praia e encontrou o casal entre juras de amor. Desobressalto, desferiu inúmeros golpes em Daros pelas costas. Damaris,ao presenciar a cena tão chocante, perdeu os sentidos. Hector tomou aamada desacordada nos braços e a beijou delicadamente nos lábios.Depois, rumou calmamente para casa de seu senhor. Quando Jerônimo o avistou com as mãos e roupasensangüentadas, o punhal manchado na mão, deduziu a trágicafatalidade. Embora Hector não soubesse, o renomado orador conheciaas escapadelas de seu viril escravo, mas fazia vistas grossas para nãose aborrecer. Porém, ao tomar conhecimento das bodas da filha doGeneral com o soldado Comnynos, previu mentalmente que taldesenlace pudesse acontecer, pois notara por diversas vezes o brilhonos olhos de Hector sempre que este regressava de seus encontrossecretos com Damaris. 23
  23. 23. – Cometi um crime, meu senhor! Puna-me como melhor teaprouver. Pois minha verdadeira senhora causou mais danos em mimque a pior de todas as sovas que tu já me deste! – Não quero que descubram que foste tu o responsável portamanha barbárie. Seria por demais vergonhoso que um escravo deminha casa tenha sido capaz de tal disparate. Pensarão que foi a meucomando que tu realizaste tal feito. Meus inimigos políticos não sefurtarão à oportunidade de atacar-me. Portanto, permitirei tua fugapara que tal crime não recaia sobre mim. Vai, apanhe meu barco eparta para sempre! Hector levou o barco de Jerônimo até o meio do mar. Devotou suaalma a Poseidon e atirou-se na água... 24
  24. 24. OUTRO ESPÍRITO SE MANIFESTA Assim que terminou de narrar a história, o espírito inferiorcontinuou sua explanação: – Damaris agora reencarnou como Marina, Hector está aqui hojecomo Cristiano e eu fui Daros Comnynos. Como podem notar, a vítimafui eu. O ciúme do insolente escravo ceifou-me no vigor de minhamocidade. E agora quero vingança! Todos na mesa demonstraram profunda tristeza com a narrativado espírito de Daros. Inclusive Cristiano, que foi às lágrimas ao final.Demêure, desejando enlevar o nível vibracional do ambiente, dirigiu-sea todos: – Meus irmãos, vejam como atos de egoísmo e sentimento deposse podem prejudicar uma pessoa mesmo depois de séculos. A moçaque este nosso irmãozinho, outrora escravo, julgava amar, mas que narealidade era uma grande paixão, não era um objeto que pudesse“pertencer” a outro. Ele que conhecia a realidade da escravidão, querepudiava essa prática mesquinha de um ser humano se apossar deoutro, deveria ter o senso de não fazer o mesmo com sua amada.Ninguém tem o direito de monopolizar outra pessoa, nem por “amor”. Oamor deve ser ofertado gratuitamente. Amar por amar, simples assim.Quem espera retribuição no amor, sempre acaba frustrado e infeliz,porque a paixão obsessiva aprisiona e fere. Porém, o amor verdadeiro,que é incondicional, liberta e cura todas as mazelas. Foi o orgulhoferido, provocado pelas reminiscências de uma hostilidade instintiva,que o tornou momentaneamente irracional. Faltou a ele a humildadepara compreender que a vida é muito mais do que a ilusão de possuir.Nascemos, morremos e tornamos a nascer para evoluir e aprender oamor verdadeiro! 25
  25. 25. Dito isso, Demêure voltou-se na direção do médium queincorporava o espírito de Daros e concluiu: – Perdoe-o, querido Daros! Não mais carregue este fardo em seupeito. Afaste-se desse nosso irmãozinho e permita que os Socorristas doAlém te auxiliem. Há um mundo tão maravilhoso a sua espera... – Nunca! É isso que tu queres, não é? Que eu o deixe ficarimpune. Ainda arde em meu dorso dor dilacerante pelos golpes que eleme deu. Neste momento, um outro espírito de vibração mais baixa queDaros se manifestou através de outro médium da mesa. – Ah, não permitirei que viva alma alguma, demova de meucompanheiro o ensejo de vingança. Estamos mais fortes agora que nosunimos pela mesma causa. Nada tenho contra este rapaz, o qual teriasido meu pai terrestre. Meu objetivo é destruir a ela. Aquela assassina! – É de Marina que você está falando? - Inquiriu Demêure. – Sim! É esse seu nome agora, mas eu a conheci como Damaris.Já a destruí em sua passagem terrena seguinte, mas não foi o bastante.Quero que ela venha para cá donde estou, para que sofra o mesmo queeu. Há cinco séculos a procuro e agora a localizei. Fui atraído para ondeela estava no instante em que ela se reencontrou com o tal cavaleiro naestação de trem. Percebi que outro igual a mim também os espreitavacom o mesmo objetivo e decidimos estabelecer um conluio para unirnossas forças. Demêure não se deixou impressionar pela áurea de negatividadeque pairava no ar e interpelou o espírito recém- chegado: – O que fez nossa meiga irmãzinha para ser merecedora de tantoódio de sua parte, irmão? – Lobo em pele de cordeiro. Isto sim, é ela. Eu era o filho que elaarrancou do ventre antes de eu conhecer a luz do dia. Viria ao mundocom a missão de fazer brotar em seu coração o sublime amor materno. 26
  26. 26. Entretanto, ela me rejeitou, quando tudo que eu queria era uma novaoportunidade de retornar ao Plano Denso. Foi leviana e cruel ao destruirmeu pequeno e frágil corpo que se formava em suas entranhas. A suaatitude egoísta despertou o ódio em minha alma no mesmo instante.Porém, quando me vi livre do invólucro carnal, depois de dolorosopassamento, decidi perseguí-la. Ela regressou ao plano terreno apósmuitos séculos. E eu já estava lá, à sua espera. Então, pude executarminha primeira vingança... 27
  27. 27. ENRICO E MARCOS Enrico Bizcaya era um menino ruivo que morava em Rayén, umducado espanhol em meados do século XVI. Tinha os cabelosencaracolados e olhos verdes como a esmeralda, sempre protegidos porimensos cílios negros. Seu rosto era muito rosado e ao redor de seusbem delineados lábios carnudos, surgiam duas charmosas covinhasquando ele sorria. Mas tinha o olhar distante, como se esperasse poralgo ou alguém que ele nem sequer conhecia. No entanto, era ummenino sagaz, aos nove anos, já aprendera o latim e iniciava-se nasartes de guerra carregando as espadas dos nobres cavaleiros. No seu aniversário de dez anos, um acontecimento inesperado iriamudar sua vida para sempre. Era mês de abril e os habitantes doducado assistiram curiosos à chegada de nobre família basca que semudava para Rayén. Como era de costume, todos os moradoresformaram um comitê de recepção para os recém-chegados. Enrico 28
  28. 28. iaansiosamente na frente, pois nunca tinha visto membros da nobrezaantes e desejava conhecê-los. Foi então que o menino ruivo conheceu Marcos Romero Ibáñez,primogênito da nobre família. Tinham quase a mesma estatura, maseram muito diferentes tanto na aparência quanto no temperamento.Marcos era dois anos mais jovem, tinha cabelos castanhos e sedosos, apele muito clara e olhos na cor e no formato de amêndoas. Era tímido,delicado e dado às Letras, além disso, era canhoto, peculiaridade malvista pelos membros da Igreja. Porém, surgiu entre os dois meninosuma empatia instantânea, criando entre eles uma estreita e felizamizade. Os anos passavam e sempre que tinham tempo livre, os doisbrincavam e conversavam no campo. Enrico costumava fazer planospara o futuro, contado ao amigo seu desejo de tornar-se um valentecavaleiro, casar-se com linda donzela e constituir um lar honrado e feliz.Marcos ainda não havia descoberto sua vocação, mas quando o assuntodiscorria sobre donzelas, ele era enfático: – Jamais me casarei! Dedicar-me-ei à poesia, pois esta é a únicadama que admiro. – Então, tereis que abraçar o celibato e vos deitar com penas etinteiro! – zombava Enrico. – Fá-lo-ei, pois então! Amo as palavras e os versos e não sinto omenor interesse por essas damas sem vontade própria. Vejo-asandando pelo vilarejo com seus seios enormes, ancas largas, como sevivessem apenas para parir, amamentar e servir aos seus esposos! Arotina doméstica é por demais limitada para mim. Quero viver umatórrida paixão, ser livre, criar, deixar um legado nas artes e serimortalizado no mundo das Letras... Uma década se passou desde que os dois meninos seconheceram. Enrico ganhou corpo sólido, alto e másculo. Seus cabelos 29
  29. 29. cor de fogo, estavam sempre revoltos pelo toque do vento. Os treinospara os combates forjaram-lhe músculos perfeitamente esculpidos,como se tivesse por modelo o próprio Adônis. Tornara-se membro daCavalaria e fora nomeado Capitão da Guarda d’El Rey por mérito, devidoàs inúmeras conquistas bélicas bem sucedidas. Sua vida era cercada deglória e belas donzelas. Não havia uma única cidade em que passasseque não ouvisse os suspiros de moças casadoiras quando ele desfilavaimponente pelas ruas no seu garboso cavalo. Marcos, para fugir de um possível matrimônio arranjado por seuspais, refugiava-se no Mosteiro, onde aprendia com os religiosos as artesdas Letras. De temperamento sensível, não via com bons olhos asarbitrariedades da Igreja, mas mantinha-se neutro por não se sentir emnada atingido. Não pretendia permanecer ali por muito tempo, apenas osuficiente para ser reconhecido como notório poeta e poder permanecersolteiro e respeitado perante a sociedade. Era um pouco mais baixo queEnrico, menos encorpado, mas igualmente formoso. Ainda conservava osemblante de menino com seus olhos cor de mel muito brilhantes, narizbem desenhado e os cabelos castanhos, que ganhavam sempre umtoque dourado quando ele se expunha ao sol. Também não perdera atez branca que se ruborizava levemente devido a sua excessiva timidez. Numa tarde ensolarada de verão, os dois amigos descansavamsentados no chão do bosque à beira do lago. O sol brilhava forte e aágua fresca que descia pela cachoeira parecia convidativa. Enricodespojou-se de seu uniforme e caiu na água, soltando um leve gemidopelo pequeno choque de temperatura. Marcos o observava brincar feitoum menino naquela água cristalina, mas não se animou a tirar a roupae imitar o amigo. Temia resfriar-se, embora o dia estivessedemasiadamente quente. Enrico saiu da água e veio deitar-se, nu e molhado, ao lado doamigo. Marcos, desconcertado, tentava sem grande sucesso disfarçar 30
  30. 30. seu interesse pelo corpo do Capitão que balançava os seus cabelosfazendo com que respingos de água atingissem o amigo poeta. Marcosvirou bruscamente a cabeça na direção de Enrico e os lábios dos doisficaram a poucos centímetros de distância. Naquele momento, os doisrapazes deram-se conta do sentimento que os unia e da afeição mútuaque ia além de uma amizade entre cavalheiros. Um arrepio percorreutoda a extensão do corpo de Marcos, que colocou a mão na nuca doamigo e puxou-o em sua direção. Enrico, assustando com o gesto inesperado do amigo de infância,o repeliu: – Apartai-vos de mim! Não percebeis o mal que pretendeis fazer? – Percebo tão somente que meu corpo arde de desejo pelo vosso. – Ainda ireis queimar na Fogueira! – Que me queimem então! Pois estou a arder de desejo. Já nãomais posso furtar-me de vos querer bem! – Sois um insano, Marcos! Tal sentimento é indigno. Sou umbravo Cavaleiro, honrado com Galardões de guerra. Não sou dado adonzelices como vós. – Ainda assim, sei bem que me quereis. Desejais tanto a mim,como eu a vós. – Basta! Deveríeis vos envergonhar de tal desatino. Não pensaisvós que vos safará dos arreios do Santo Ofício por ser membro de nobrefamília. – A europa toda vive sobre o manto negro da Inquisição! Mas eunada temo, só tenho olhos para vós... sempre tive! Nunca reparaste oquanto eu vos desejava? Que outro motivo teria eu para abster-me docasamento, senão por devoção à vós? Reservei meu coração paraservir a um único amor... e bem sabeis de quem se trata! Enrico levantou-se e se vestiu rapidamente. Calado, montou emseu cavalo e rumou para o castelo do ducado. O jovem poeta observou 31
  31. 31. a retirada intempestiva do amigo e deixou que duas lágrimasdescessem em sua face. Ponderou que talvez o Capitão da Guardaestivesse certo, que destino seria reservado a tão incomumrelacionamento? Deveria sublimar sua admiração pelo amigo apenasconfeccionado versos dedicados a ele. Quem sabe, o tempo seria seualiado para remover tão devastador sentimento de seu coração. Os dois amigos procuraram tirar da lembrança o episódio do lago,mas em ambos os corações havia um sentimento que os impelia abuscar um pelo outro. Marcos retirou-se para a torre de seu castelo e alipermaneceu durante todo o inverno, tocando a Lira e compondo versosromânticos. Quando a primavera chegou, os pais de Enrico arranjaram ocasamento dele com uma afortunada herdeira. O tempo passava e nunca mais os dois amigos retornaram aolago, seguindo suas vidas como homens honrados. Mas nenhum dosdois conseguiu a felicidade almejada. O Capitão da Guarda passavalongo tempo em terras estrangeiras, massacrando inimigos em batalhassangrentas, somente regressando para casa, quando atingia a vitóriapela conquista de territórios alheios. Também já não se deitava comBelisa, sua esposa. Marcos tornou-se o mais famoso poeta da penínsulaibérica. Porém, sua indignação o transformou num contumaz opositordos desmandos da Igreja e não mais sentia prazer nas Letras. O cerco aos opositores da Igreja tornou-se mais acirrado. Marcosrecitava imprudentemente versos atacando a arbitrariedade daInstituição Religiosa e passou a alardear aos quatro cantos o ladoobtuso do postulado religioso. Suas atitudes contrárias às convenções einteresses dos deputados do Santo Ofício, não passaram despercebidase chegaram aos ouvidos dos mais altos escalões da Inquisição. Mas a oportunidade que o Visitador do Santo Ofício aguardavapara apanhá-lo em flagrante, surgiu através de uma denúncia anônima.Em seu baú pessoal, foram encontradas dezenas de cartas que ele 32
  32. 32. escreveu ao amigo ruivo. E embora tomasse sempre o devido cuidadode não identificar o objeto de sua paixão, o conteúdo das cartas nãodeixava dúvida de que se tratasse de um amor sodomita. Por diversasvezes pensou em queimá-las, mas tinha a intenção de um dia, quemsabe, mostrá-las ao amigo, como prova de amor. Numa madrugada fria e nebulosa foi arrancado do leito em quedormia e levado à masmorra. Informado de que seu segredo foradescoberto, ele temeu por sua vida. Sabia bem quem fora seu delator,pois o único que conhecia a existência de suas cartas era Colares, umcriado decrépito, que vivia a espreitar seus pertences. Mas Marcos nãofez nenhuma menção sobre ele. Estava apavorado demais com o porvirincerto. Por meses sem fim, ficou trancafiado dentro de uma cela imundae insalubre, acorrentado, alimentando-se de pão e água. Até que umdia, o carcereiro girou os ferrolhos da porta e o arrastou violentamentepelos corredores. Ele estava magérrimo, as roupas pareciam andrajos,seus cabelos estavam compridos, desgrenhados e polvilhados depiolhos. Foi levado à sala de despachos da Santa Inquisição, onde estavamdispostos horripilantes aparelhos e objetos de tortura. Assim que láchegou, o colocaram diante de uma pomposa mesa inquisitorial em queestavam sentados um religioso taciturno, um notário e algunsdeputados do Santo Ofício. Ele permaneceu em pé, com as mãosamarradas atrás das costas. Então, os membros do Tribunal começarama inquirição: – Senhor Romero Ibáñez, estais ciente de que tudo que disseresdiante deste Santo Tribunal, será levado em consideração para vossalibertação ou vosso tormento? Marcos meneou afirmativamente com a cabeça. 33
  33. 33. – Vós tenhais inflamado os habitantes deste pacato ducado comversos infames e hereges sobre a Sagrada Igreja do Senhor? – Tenho dito apenas o que suponho ser digno e correto,Eminência. Sem perder o tom austero, o inquisidor prosseguiu: – É sabido e notório por toda europa civilizada que escreveisvossos versos com a mão sinistra, tenhais vós feito pacto com Satanás? – Não vos nego que uso minha mão esquerda para manejar apena e todas as demais cousas que exigem habilidade precisa. Masacredito que foi Nosso Senhor, primando pela diversidade de suascriaturas, que deu ao meu lado esquerdo a primazia sobre o destro.Veja a natureza, obra prima do Criador: a multiplicidade de cores,texturas e perfumes. Deus não gosta da monotonia. Por certo, Ele amaa diversidade. O clima na sala tornou-se mais tenso com as respostasdesconcertantes de Marcos. Os deputados estavam cada vez maisseguros de uma condenação certa: – Chegaram em nossas mãos missivas contrárias às Leis deMoisés e ofensivas a moral e os bons costumes, donde podemos notarevidências de sodomia. Dizei-nos então, foram tão enojantes epecaminosas cartas escritas pelo vosso próprio punho? O jovem poeta, sabendo que nada mais o salvaria das garrasdaqueles algozes sádicos, num ato de estrema coragem assentiu: – Sim. Eu mesmo as escrevi, com penas e tinta. E as teria escritocom meu próprio sangue, tal a intensidade de meu apreço pelo meuamigo. Houve um ligeiro alvoroço no recinto diante da confissão honestae implacável do acusado. No entanto, ao Tribunal não bastava apenas aconfirmação de desonroso delito, queriam também o nome de seu“cúmplice” em tais supostos atos de obscenidade. 34
  34. 34. – Quem fora seu comparsa em tão aviltante desatino? –perguntou um dos deputados com ar de repugnância. Marcos manteve-se calado. Morreria cedo ou tarde, seu destino jáhavia sido tratado, mas não exporia seu grande amor ao julgo daquelesabutres carniceiros. – O Tribunal pergunta novamente: Quem é o imundo invertidoque compactua convosco? – insistiu um dos deputados com olhar frio eacusador. De novo, nenhuma palavra saiu da boca de Marcos. Apenaslágrimas escorriam sobre sua face sulcada pelo abatimento. – Por ventura achais vós, que poupando o infiel que encobristesencontrarás graça aos olhos de Deus, Nosso Senhor? – Não espero recompensa divina. Tampouco renego o Deus deAmor e Paz, no qual acredito. Mas não posso deixar de sentir o quesinto pelo meu amigo. Que Deus é esse para o qual trabalhais, queamedronta, dilacera e mata aqueles que cometem o único e irreparávelcrime de amar e amar com todas as forças do coração,apaixonadamente... e, ao mesmo tempo, premia aqueles quedisseminam o preconceito e a carnificina aproveitando-se da ignorânciados fiéis? Por certo, não é a Deus que vós servis, e sim ao outro...Quereis que eu vos entregue meu amigo como um Judas? Quantasmoedas de prata achais que vale minha traição? Façais vosso preço, eeu vos direi que nem toda prata, nem todo ouro do mundo, valem umaúnica batida do meu coração pelo meu amado. Podeis interromper ofluxo do sangue que corre em minhas veias e aplicar-me golpe fatal,mas jamais matareis o amor que sinto, pois ele pertence a minha almae ela é imortal! Os deputados entreolharam-se e deram a sentença definitiva: – Pela vossa intransigência, vós nos obrigais a colocá-lo notormento da Polé. Quiçá assim, confessar-nos-á o nome daquele que 35
  35. 35. tentais acobertar. Estais excomungado. Que Deus tenha piedade devossa alma! Os carrascos arrancaram as vestes do prisioneiro, deixando-oseminu. Com os pulsos ainda atados às costas e preso a uma corda quegirava em torno de uma roldana foi içado no ar permitindo que todo opeso de seu corpo recaísse sobre as articulações. Este mecanismomacabro causou o rompimento de sua clavícula e da omoplata, o quelhe infringiu dor inimaginável. Para aumentar seu tormento, osInquisidores deram ordens ao carrasco para que colocasse pesos nospés do condenado, o que obviamente aumentava o deslocamento dosmembros pela força da gravidade. Ouvia-se por toda sala o estalar deseus ossos sendo partidos e transpassando sua pele. Ele soltava gritosensurdecedores de início, mas após algumas horas de longa agonia,desfaleceu-se. Uma sombra negra e invisível assistia a toda a cena com umsorriso sarcástico de satisfação. Depois, desapareceu soltando umagargalhada inaudível aos ouvidos dos presentes. Em frangalhos, Marcos foi devolvido à cela. Ele sabia que seu fimestava próximo e apenas lamentava acabar assim, sem nunca poderconsumar a paixão pelo amigo. Amarrado a ferros, o corpo tododeformado com fraturas expostas, a saudade de Enrico tornou-se maispresente. Imaginou onde estaria o valente Capitão naquele momento,talvez em alguma batalha no estrangeiro. Nunca em toda sua vida,sentira-se tão só. Aquele seria o último domingo que Marcos veria a luz do sol. Aose negar a fornecer o nome de seu amado, fora condenado à Fogueirapor blasfêmia e sodomia. A tortura física a que foi submetido nosúltimos dias cedeu lugar à tortura psicológica e desejava ardentementeque tudo acabasse logo. A praça estava lotada de expectadores. Seusfamiliares mudaram-se do ducado tão logo ele foi condenado, temendo 36
  36. 36. que a acusação os atingisse por parentesco. Mesmo assim, tiveram seusbens confiscados pela Igreja. Assim que soube da condenação do amigo, Enrico retornou paracasa. Ansiava encontrá-lo ainda com vida. Chegou à praça de execuçõesenquanto era feita a leitura da decisão do Tribunal. Seus olhosumedecidos encontraram-se com os de Marcos, que estava vestido como sambenito encharcado com enxofre. Enrico reparou no estadolastimável em que se encontrava o amigo e sentiu-se o mais impotentedos homens perante àquela situação. Era o Capitão da Guarda, umvalente soldado, que dizimava aldeias inteiras. Fora aclamado pormultidões apaixonadas nos seus retornos vitoriosos, dono e senhor deinúmeras terras. E no entanto, ele nada pôde fazer para impedir queferissem com absurda crueldade o amigo tão querido. Porém, quando o carrasco aproximou a tocha para acender afogueira mortuária, Enrico desesperou-se. Desceu de seu cavalo ecorreu até o amigo. Num movimento brusco, ele empurrou o carrasco,que embora cumpridor assíduo de seu dever, tinha pelo Capitão da 37
  37. 37. Guarda grande respeito, afastando-se sem esboçar reação. A multidãoassistia a cena sem nada compreender, mas em reverência ao seu postode bravo soldado, não houve um único sinal de protesto pela suaatitude. Ele desatou os nós que prendiam Marcos a estaca e o tomounos braços. Caminhou claudicante carregando o amigo semi-desfalecidoaté a beira do lago e o depositou delicadamente sobre a relva macia. – Não imaginei que veria a vós novamente, querido amigo! –balbuciou o combalido poeta, demonstrando um intenso esforço parafalar. – Eu não poderia vos abandonar à fornalha que eu mesmo ajudeia fomentar. Durante anos lutei por uma causa porque acreditava serjusta e santa. Permiti que inúmeros inocentes fossem torturados equeimados vivos naquela fogueira amaldiçoada. Mas, quando vi a vósvítima de tão cruel destino, decidi abandonar meus velhos conceitospuritanos e salvar-vos a vida. Vós sois para mim a mais preciosa dascousas. Se não tivesse vos arrancado de lá, seria como se eu próprioateasse fogo em vosso corpo. Perdoe-me se tardei para vos aceitar,porém, cá estou para redimir-me e devotar-me inteiramente a vós,meu... amigo! – Creio que já não mais seja possível tal entendimento entre nós!Os dias que estive nos porões úmidos e insalubres, onde apenas asratazanas me faziam companhia e as irascíveis torturas a que fuicovardemente submetido, levaram-me à prostração do corpo e estoupartindo em definitivo. Mas deixo convosco aquilo que me é indelével:meu apreço por vós! Eu vos amo... – Oh, meu caro, também eu amo a vós! Meu amigo... meucompanheiro... meu amor! Marcos sorriu ao ouvir a confissão derradeira do Capitão tãoamado, em seguida, fechou os olhos. Enrico se debruçou no peito doamigo e pôde ouvir a última batida de seu coração. Centenas de 38
  38. 38. lágrimas brotaram de seus olhos e ele lamentou profundamente nuncater revelado a Marcos o amor que ele levava escondido em seu peito.Sempre o amara, desde menino, mas jamais teve coragem de confessarseus verdadeiros sentimentos até aquele momento. Sua fama devalente e destemido não valia para as coisas do coração. Acovardou-sediante da opinião da sociedade e viu o grande amor de sua vida dar oúltimo suspiro em seus braços sem nunca ter sentido o calor de seuslábios. Com as próprias mãos e chorando copiosamente, enterrou o corpode Marcos próximo da beira do lago. Pouco tempo depois, tombou emcombate nas terras do oriente. Os companheiros de batalha assistiram-no ser golpeado à traição quando um inimigo cravou-lhe a lâmina afiadada espada em suas costas. Suas palavras terminais foram: – Preparai-vos, querido amigo! Estou indo para perto de vós e,muito breve, contemplaremos juntos o lago do jardim do Paraíso! O triste episódio da morte de Enrico foi comemorado com muitasatisfação por uma testemunha invisível, oculta nas sombras negras,que a tudo observava... 39
  39. 39. A VINGANÇA CONTINUA Na Casa Espírita uma gargalhada esganiçada ecoou por todo salãoe o espírito inferior revelou: – Sim, eu e Daros estávamos lá, ocultos e vitoriosos, apreciandoa justiça ser feita. O espírito da orgulhosa e pedante mulher que merejeitou, infringindo-me dores dilacerantes na carne e no coração,acabou como vítima do escárnio e selvageria dos membros da castareligiosa que desafiou, no corpo do famoso poeta. Seu orgulho impediu-me de viver e eu o envie para morte nos calabouços tétricos da SantaIgreja. Sim, fui que intui e instiguei o criado mexeriqueiro a remexer emsuas coisas e fazer a delação. Tive a ventura de vingar-me. Notem queo revés da vida é implacável. Meu companheiro Daros também teve aoportunidade de saborear sua vingança, quando instigou mentalmente osoldado inimigo do bravo Capitão Enrico Bizcaya a ferir estemortalmente pelas costas. Assim como Daros foi ferido por ele na praiagrega. Porém, necessitamos de mais, pois ainda não estamossatisfeitos. Todos os presentes no salão demonstraram estar consternadoscom o depoimento do espírito perturbado. – Irmão, você mesmo acabou de confessar que a vingança nãoapaziguou sua alma. Por que não perdoa? – disse Demêure –Compreendemos que o espírito que agora encontra-se reencarnadocomo nossa irmãzinha Marina errou abortando você, o filho que selariauma união feliz. Sabemos também que enquanto ele vivia sobre o 40
  40. 40. invólucro carnal de Damaris, quis viver em dois mundos distintos. Um,lhe dava prazeres sensuais; o outro lhe garantia conforto e prestígio, eacabou envolvendo irresponsavelmente o jovem escravo que assassinouo rival e depois se afogou nos mares gregos. Porém, deixe que aSabedoria Divina “apare nossas arestas”! Não permita que rançosantigos interfiram na sua elevação moral. Queremos muito ajudá-lo.Diga-nos ao menos o seu nome, para que oremos por você. – Se pudesse ter nascido filho de Damaris na Antiga Grécia, euseria chamado de Ândrocles, que significa homem glorioso. Se tu queresum nome, fica com este então. Demêure convidou todos a fazerem uma prece para os envolvidosna história. Porém, assim que as palavras de oração começaram a serproferidas, os médiuns que incorporavam os espíritos de Ândrocles eDaros passaram a se debater em seus lugares. A prece não foiinterrompida. – Vamos Daros, saiamos daqui, pois este local fede como umalatrina. – reclamou Ândrocles. – Partamos então, concordou Daros, mas não pensem que esteincauto casal está livre de nós. Pois continuaremos nossa perseguição aeles. Os dois espíritos deixaram o recinto e os médiuns se acalmaram.Uma atmosfera de paz tomou conta do ambiente. Demêure terminou aprece, despediu-se e retornou ao Plano Espiritual. A porta de entrada eas janelas foram abertas e um dos trabalhadores da casa convidou atodos os presentes para aplicação do Passe Magnético e ÁguaFluidificada. Assim que se encerraram os trabalhos daquela sessão, Cristiano eVó Ana regressaram para casa dela. Durante o trajeto, trocaramalgumas impressões sobre o que havia acontecido: 41
  41. 41. – Vó, a senhora acha que eles vão voltar e prejudicar a mim e aMarina? – Capaz que sim, Cris. Esses espíritu da sombra não sossegaminté consegui arriá suas vítima. Mas nóis vai fazê muita prece pra modieles encontrá a Luz. Se aquiete, fio. A vó não vai deixá eles destruívosmecê nem tua menina. O rapaz despediu-se da avó no portão e foi para Central Telefônicaligar para Marina. Estava ansioso para contar-lhe tudo que vivenciara naCasa Espírita... 42
  42. 42. O ACIDENTE Por telefone, Cristiano narrou a Marina toda a história que ouviuna Casa Espírita. Ela demonstrou uma certa descrença de início, masdepois ponderou que tudo aquilo que foi dito fazia muito sentido.Sempre achara estranho que, embora apaixonados, o casal nãoconseguisse se sentir bem com o romance. Cristiano resolveu voltar ao trabalho no próximo sábado e enviouum cartão postal a Marina noticiando seu retorno para breve. Um poucomais animada, ela decidiu fazer-lhe uma surpresa. Pediu autorizaçãoaos pais para ir a fazenda onde o namorado trabalhava e elesconcordaram, pois os dois jovens já estavam praticamente noivos. 43
  43. 43. Assim que desceu do Circular no ponto à beira da estrada, o rapaznotou a presença de Mateus, filho do capataz da fazenda, sentado nobanco de madeira improvisado. Marina mandara o menino avisá-lo queela o aguardava entre as ruas do cafezal. Cristiano entregou sua malapara Mateus e pediu que ele a levasse para a estalagem da fazenda,onde ficava seu alojamento. Depois, rumou apressadamente para oencontro com sua amada. Quando Cristiano chegou ao cafezal, procurou por Marina e aencontrou sentada em um toco de árvore. Ela estava encantadoramentelinda com um vestido tão vermelho quanto as sementes maduras dospés de café. No entanto, notou que ela apresentava um semblantetriste, atitude incomum para alguém que espera rever a pessoa amada.Ele aproximou-se dela e a beijou nos lábios. – Meu anjo, que carinha triste é essa? Esperava mais entusiasmode sua parte, depois de quase duas semanas separados. – disse orapaz. – Desculpe-me! Queria muito te ver, tanto que vim até aqui pra teesperar. Mas estou tão desolada, sinto que não deveria ter vindo. – Não diga isso! Fiquei muito contente de saber que você estavaaqui. Não quer dar um passeio? Posso selar os cavalos e te levar paraconhecer a fazenda. – Vamos então! – concordou a moça, sem muito ânimo – Quemsabe a sensação do vento soprando no rosto levante meu astral. Cristiano a tomou pela mão e foram até a estrebaria. Ele aprontouos cavalos e a ajudou a montar. Marina tinha porte de uma Amazona emcima do animal e o conduzia com muita habilidade. Eles cavalgaram pela propriedade rural por cerca de meia hora eCristiano resolveu mostrar o pomar para a namorada. Assim quechegaram entre as inúmeras árvores frutíferas, apearam dos cavalos esentaram-se no chão em baixo de uma mangueira. O rapaz olhou para o 44
  44. 44. alto e reparou na quantidade de frutos que pendiam dos galhos daárvore: – Marina, olhe para cima! Quantas mangas-coquinho maduras.Vou pegar algumas pra gente, você quer, amor? – Pode deixar que eu mesma as pego! Quando era menina euvivia encarapitada nas árvores, pior que moleque. Acho que não perdi aprática. Meio a contra gosto Cristiano aceitou a idéia para não contrariá-lae juntou as mãos para que ela apóia-se seus pés nelas e subisse notronco. Marina retirou as sandálias e surpreendeu o namorado aoescalar a árvore com uma destreza impressionante, apesar de estar devestido longo. Porém, quando a moça havia alcançado os galhos mais altos, foiacometida de um mal repentino e despencou ao chão batendoviolentamente a cabeça num toco de árvore, perdendo os sentidosimediatamente. Cristiano observou a cena paralisado. A mesmasensação de perda e abandono do ente querido que já havia conhecidoem outras vidas voltou a aterrorizá-lo. Passados os segundos dechoque, ele correu para junto da amada: – Não, Marina! De novo não... Não posso perder você outra vez.Você é minha vida... Cristiano ajoelhou-se no chão ao pé da mangueira e puxou para sio corpo inerte da namorada. Atordoado, encostou seu ouvido no peitodela. O coração ainda batia. Respirou aliviado. Entretanto, quandopassou a mão pelos cabelos dela notou que de sua cabeça minava umfio de sangue. Ele desesperou-se. Olhou para os lados na esperança deavistar alguém que pudesse socorrê-lo, mas não havia ninguém. Ao seperceber sozinho, sem ninguém que pudesse acudí-lo em momento tãodesesperador, ele apertou a namorada junto ao peito e rogou aos Céus: 45
  45. 45. – Senhor Deus, Pai Eterno, por favor, não leve a minha amada.Leve a mim. Assim, ainda que em espírito, poderei acompanhá-la emsua vida terrena, mas não a separe de mim novamente. Eu peço perdãoa quem quer que eu tenha prejudicado, aqui ou em outras vidas, maspoupem a Marina. Por misericórdia, pela Graça de Deus, por tudo quehá de mais sagrado, tenha compaixão de nós! Duas sombras negras e invisíveis estavam presentes à cena. EramDaros e Ândrocles, que a tudo assistiam com ares de satisfação: – Fizeste ótimo trabalho baixando a vibração da moça, impelindo-a ao chão, Ândrocles. – disse Daros. – Com efeito! Veja como sofrem. Mas eles fizeram por merecerisso, são os únicos culpados pelas suas desditas. Amargam dorsemelhante às nossas. Enquanto isso, Cristiano, consumido pela dor, choravadesesperado abraçado à amada que continuava desacordada. Derepente, ele começou a gritar por socorro.Talvez alguém estivesse porperto e pudesse ouví-lo, pensou. Joaquim, o capataz da fazenda, vistoriava o trecho da propriedadepróximo ao pomar e ouviu os apelos desesperados de Cristiano. A troteligeiro, ele chegou rapidamente ao local do acidente. Ao deparar-se como desespero de Cristiano, ele nada perguntou sobre o que ocorrera etratou de auxiliá-lo. No entanto, bastou que se aproximasse do casalpara que ouvisse os comentários dos dois espíritos que se encontravaminvisíveis ali: – Vamos conseguir separá-los de novo, é só uma questão detempo. – disse Daros. – Não estou tão certo disso. Parece que este que agora chegou,deseja ajudá-los. – preveniu-o Ândrocles. O capataz, que até aquele momento desconhecia seu dommediúnico auditivo, entrou em pânico ao ouvir as vozes sem nada 46
  46. 46. enxergar além do casal a sua frente. Apavorado, evadiu-se do lugargalopando aos berros: – Valha-me, Deus! Que este pomar deu de ser mal-assombradoagora! Porém, Demêure, que também assistia a cena tão entristecedora,resolveu interceder pelo jovem casal e intuiu mentalmente Joaquim abuscar ajuda. O capataz chegou à sede da fazenda lívido de medo etelefonou para o pronto-socorro do hospital que estava de plantão. Demêure permaneceu ao lado do jovem casal aplicando PasseMagnético em ambos. Daros e Ândrocles retiram-se do local tão logo oAmigo do Além começou uma prece, pois a elevação do nível vibracionaldo ambiente os incomodava demasiadamente. Cristiano começou a seacalmar assim que os dois espíritos inferiores partiram. Em seguida,ouviu-se o barulho da sirena da ambulância que se aproximava,levantando uma poeira vermelha do chão. Cristiano sentiu um poucomais de alívio e com os olhos vermelhos, a voz embargada pelaslágrimas, agradeceu: – Graças a Deus! Não se preocupe Marina, nós vamos sair dessa eainda seremos muito felizes, você vai ver. Agüente firme, meu amor... 47
  47. 47. O RESGATE DE ÂNDROCLES Na sala de espera do hospital, Cristiano estava angustiado demaispara permanecer sentado. Levantou-se e passou a andar peloscorredores em busca de notícias. Dentro da sala de atendimento, Marinaera socorrida pela equipe de emergência que administrava osprocedimentos de reanimação. Depois de mais de uma hora de expectativa angustiante, o médicoque atendera Marina compareceu a sala de espera e perguntou quemestava acompanhando a moça que chegara com um ferimento nacabeça. Cristiano sentiu seu sangue gelar e se apresentou: – Sou eu, doutor! Como ela está, ela vai sobreviver, não vai? –disse o rapaz com voz chorosa. – A paciente sofreu traumatismo craniano, mas conseguimosestabilizar seus sinais vitais. Ela será transferida para a UTI, onde ficará 48
  48. 48. em observação. Seu quadro é estável no momento e não podemosprever como ela reagirá, devemos aguardar as próximas horas.Aconselho que você avise a família dela assim que possível.Manteremos você informado sobre qualquer alteração no quadro. Porhora, é só o que temos a dizer. Cristiano ouviu essas palavras com um misto de desolação eesperança. Porém, tão logo o médico retirou-se da sala, ele desabou napoltrona entre lágrimas e soluços. Após horas sentado à espera de mais informações, foi vencidopelo cansaço e cochilou. Demêure, que permanecera invisível ao seulado durante todo o tempo, fez-se notar e tocou levemente no seuombro: – Acorde, meu bom menino! Cristiano abriu os olhos e enxergou a sua frente um homem demeia-idade, cabelos levemente grisalhos, olhos infantis e um sorrisoamistoso. Ele tinha uma aura muito brilhante que irradiava luz e paz.Instintivamente, o rapaz o reconheceu, pois já o havia visto em seussonhos. – O senhor é Demêure, não é? Não sei como, mas sinto que é, osenhor já esteve em meus sonhos. – Sim, querido, irmão. Já o visitei diversas vezes nos seus sonhos,mas nos conhecemos há muito tempo, embora você não se lembredisso. Eu e sua avó Ana fomos os pais biológicos que você não chegou aconhecer quando veio encarnado como escravo Hector. Também éramosescravos e você foi arrancado do seio de sua mãe e vendido paraJerônimo pelo nosso senhor. Mas não se preocupe com isso. Nomomento certo você se lembrará de tudo. Agora venha comigo, primeirovamos buscar uma pessoa muito querida e depois vou levá-los a umlugar muito especial. 49
  49. 49. Cristiano levantou-se da poltrona mas percebeu que seu corpofísico continuava sentado e havia um cordão prateado ligando-o a ele.Só então se deu conta que estava tendo um desdobramento espiritual.Apesar de estar confuso com a situação, ele resolveu acompanharDemêure. Num piscar de olhos viu-se dentro da sala de UTI ao lado do leitode Marina. Ela estava em coma profundo, mas mantinha um semblantesereno. Cristiano presenciou o mesmo fenômeno que ocorrera com elena sala de espera, ao vê-la se levantar, como que despertando de umsono habitual, enquanto seu corpo permanecia deitado no leito. Marina olhou para ele e sorriu, ela parecia mais linda do quenunca. O rapaz retribuiu seu sorriso e se aproximou dela segurando emsua mão. No mesmo instante, já não estavam mais na sala do hospital.Um belíssimo lago dourado surgiu na frente do casal de namorados. Suaágua era tão cristalina que podiam ver centenas de peixinhos coloridostransitando ao fundo. E ao redor do lago, havia um parque em estilovitoriano, com muitas árvores e um jardim colorido por flores daprimavera. Um vento brando e morno, vinha soprar seus cabelos,enquanto o sol brilhava suave e pássaros multicores riscavam o céuazul. Por um momento, Cristiano e Marina esqueceram-se de seusproblemas e sentaram-se na grama felpuda e macia, a contemplarmaravilhados a paisagem romântica que os cercavam. Demêure interrompeu-os dizendo com suavidade: – Eu sei que se dependesse unicamente da vontade vocês, nãosairíamos daqui tão cedo. Mas não podemos nos ater por muito tempoadmirando este pequeno pedaço do Paraíso. Viemos aqui com umpropósito. – E qual seria ele? – perguntou Cristiano com sincera curiosidade. – Encontrar Ândrocles e Daros para tentar demovê-los de suasidéias de vingança e deixar que vocês sigam seu rumo como deve ser. 50
  50. 50. Agora vamos, pois o corpo físico de Marina jaz no leito e cada minuto éprecioso. Os três caminharam lado a lado por um longo tempo. Conformeiam se afastando do jardim do lago, o terreno ia se tornando mais áridoe íngreme. E eles foram descendo cada vez mais, até que avistaram aolonge um pequeno templo grego. Ele tinha um melancólico aspecto deabandono e suas paredes externas eram de um cinza desbotado. Marinadisse ao namorado que preferia entrar sozinha nele. Cristiano consentiucom um aceno de cabeça e a beijou ternamente na face. A moça olhou para Demêure e foi de encontro ao templo. Ládentro, tudo era antigo e mal conservado. Os móveis empoeiradosestavam caindo aos pedaços e a tinta nas paredes estava descascada.Marina viu um homem sentado num degrau junto a um púlpito.Estranhou uma presença humana ali, pois tudo ao seu redor pareciater sido abandonado há muito tempo. O homem estava com a cabeçaenfiada entre os joelhos. Ele usava uma túnica negra, imunda e repletade furos. Tinha o corpo todo deformado e a pele com inúmeras cicatrizesprovocadas por cortes profundos. Instintivamente Marina reconheceu-ocomo o espírito de Ândrocles. Ela chorou ao ver aquele que deveria tersido seu filho amado, em situação tão lastimável. Então, pôs-se de pé asua frente. Ele levantou os olhos e surpreendeu-se com a presença dela: – Tu? Eu não sabia que já habitaste no mundo dos mortos tãorápido. Se estas aqui é porque então tive êxito em meu plano devingança novamente. – Ainda não desencarnei, se é o que quer dizer, apenas vim aquipara lhe pedir perdão e dizer que lamento demais tudo o que fiz vocêsofrer! – Pois perdeste teu tempo. Tu não mereces perdão. Vejas omonstro em que me tornei por tua causa. Tive todo meu corpo 51
  51. 51. retalhado quando introduziste aquele objeto pontiagudo de metal emtuas entranhas e me deformaste mortalmente. Ela ajoelhou-se perante ele e implorou com os olhos marejados: – Por Deus, meu irmão, perdoe-me! Por conta de meu orgulho eegoísmo, sofremos os dois. Mas te peço que me dê uma nova chancepara reparar meu erro, apenas isto. Duas grossas lágrimas rolaram pelo rosto de Ândrocles que já nãomais expressava ódio. Marina inclinou-se e o beijou na testa. Depois opegou pela mão e ordenou-lhe: – Venha! Vamos sair desse lugar tenebroso! – Não! Não posso sair daqui, minha aparência é horripilantedemais. Serei objeto de escárnio e repulsa por todos aqueles que meverem. – Meu filhinho, você não é um monstro, apenas imagina ser. Paramim, você é lindo. Vamos sair daqui já! Mesmo por pouco tempo, fuisua mãe e você vai me obedecer! A decidida moça agarrou-lhe o braço e o levou para fora. Assim,Ândrocles pôde ver o brilho do sol, depois de um longo tempo naescuridão. Quando sentiu a brisa morna do vento e o calor suaveaquecer sua face, ele sorriu e ajoelhou-se beijando os pés de Marina.Ela o puxou na altura do peito e lhe ofertou um abraço apertado. DepoisÂndrocles se desvencilhou de seus braços e caminhou em direçãooposta a ela, até desaparecer entre os arbustos numa mata densa. Marina experimentou uma sensação maravilhosa de paz. Nãosabia quando tornaria a vê-lo, mas no seu íntimo sabia que eles sereencontrariam um dia. Cristiano e Demêure observavam a cena de longe. Ao ver queÂndrocles se afastava, eles retornaram ao lado de Marina. O rapazpegou na mão da namorada e os três continuaram a busca. Aindaprecisavam encontrar Daros... 52
  52. 52. A TRANSFORMAÇÃO DE DAROS À medida que os três caminhavam em direção ao leste, apaisagem ia se transformando numa praia poluída, de águas turvas efétidas. As ondas do mar traziam milhares de peixes mortos quedesembocavam na areia suja e pegajosa. O céu cor de chumboanunciava uma tempestade iminente, compondo um cenário desolador. Cristiano foi o primeiro a notar a presença de um único homemsentado na areia com o olhar fixo nas águas do mar. Ele trajava umuniforme de soldado grego e tinha um ferimento profundo nas costas: – Vejam, aquele só pode ser Daros – deduziu o rapaz. 53
  53. 53. – Sim, realmente é o espírito de Daros. – concordou Demêure –Ele permanece nessa aparência com os ferimentos expostos por vontadeprópria. Aqui no Plano Espiritual somos nós que plasmamos nosso corpofluídico de acordo com o estado vibratório. E as vibrações de Darosestão baixíssimas devido à dureza do coração dele. Você deve ajudá-lo ase libertar do ódio que o domina para que ele possa recompor seuPerispírito. Cristiano deixou os dois companheiros e caminhou na direção deDaros. Este, assim que o viu se aproximando, tentou fugir se arrastandona areia. Cristiano apertou o passo e o alcançou, tocando levemente emseu ombro: – Por favor, não se vá! Precisamos nos reconciliar. Daros empurrou bruscamente a mão de Cristiano de seu ombro evociferou: – Afasta-te de mim, maldito escravo traiçoeiro! Vês o que mefizeste? Por tua causa já não posso andar, pois tive a coluna rompidaquando me apunhalaste covardemente pelas costas e tenho as pernasruins. Cristiano foi acometido de súbito remorso ao reparar na condiçãode aleijado do antigo rival e confessou-lhe entre lágrimas: – Se me fosse dado a Graça de inverter os ponteiros dos relógios evoltar o tempo, tenha certeza que jamais seria o autor de tamanhabrutalidade. Mas temos todos que seguir adiante. Neste momento,percebo o quanto meu ciúme orgulhoso foi prejudicial a você. Por isso,rogo-te humildemente: perdão! Agora só depende de você... Daros tentou manter o semblante impassível, mas duas lágrimassubversivas brotaram dos seus olhos duros. Cristiano ajoelhou-se a suafrente e o prendeu num abraço. Os minutos que se seguiram foramtestemunhas da enxurrada de lágrimas que se confundiam nos doisrostos, encostados um ao lado do outro. 54
  54. 54. Marina não conteve a emoção ao ver a cena: – Ei! E eu não ganho um abraço também? – ralhou a moça, emtom de brincadeira. Ela juntou-se aos dois rapazes e os abraçou em conjunto.Demêure assistia aquele desfecho feliz com a sensação de missãocumprida. Neste momento, os quatro presenciaram a transformação daquelapraia poluída em uma paisagem digna dos anjos: As nuvens cinzentasderam lugar a um céu límpido de brigadeiro, as águas do marretornaram ao tom azul-esverdeado e a areia deixou de ser o cemitériodos peixes para se tornar branca e fina novamente. Todos os presentesagradeceram em seus corações a magnitude da natureza exuberanteque os cercavam. Imediatamente, Daros pôs-se de pé. Suas pernas, antes débeis,tornaram-se firmes. O ferimento em suas costas sumiu por completo.Ele estendeu as mãos para Cristiano, que continuara ajoelhado, e oajudou a se levantar: – Agora, terei que partir, meus queridos! Tenho que me prepararpara os tempos vindouros. Basta de vinganças e ressentimentos, pois jáme encontro cansado de viver a perseguí-los. Uma nova era se iniciapara mim. Mas vos fio que muito em breve estaremos unidosnovamente. Daros beijou a face dos dois e desapareceu diante de seus olhos.O casal olhou-se com um sorriso mútuo. Depois se abraçaram, sentindoambos uma quietude plena na alma. Assim que o espírito de Daros deixou o local, Cristiano interpelouDemêure: – Para onde será que ele foi? – Ele agora será conduzido pelos irmãos Socorristas paratratamento, onde Ândrocles já se encontra. Lá eles receberão 55
  55. 55. atendimento e orientação e muito em breve irão reencarnar para darcontinuidade a seus processos de evolução. – Ao que parece aqui no Plano Espiritual existem muitas moradas,e você Demêure, onde mora? – perguntou Marina. – Moro num lugar maravilhoso. Se quiserem conhecê-lo, possomostrá-lo a vocês. Os dois jovens consentiram com a cabeça e Demêure os retiroudali... 56
  56. 56. O LAR DE DEMÊURE Numa fração de segundo, os três foram transportados para umaCidade Espiritual. Cristiano e Marina ficaram encantados com a belezadela. Seu clima era agradabilíssimo e se podia sentir um leve aroma deflores do campo no ar. Representantes de diferentes etnias caminhavam ou volitavam poruma praça enfeitada com jardins de Bonsai, cravada bem no centro daCidade. Eram pessoas de pele branca, negra, amarela e vermelha queziguezagueavam por ela, sozinhas ou em grupos. Algumas dialogavamanimadamente através da telepatia, outras reservavam-se nos seupensamentos; mas todas tinham uma aparência saudável e feliz. Umapeculiaridade comum entre todas elas era o fato de que ninguém exibia 57
  57. 57. adornos nem jóias. Nada de pulseiras, correntes ou anéis de pedras oumetais preciosos como prata, ouro ou diamantes. Usavam apenasprosaicas batas de linho, longas e coloridas e sandálias de tiras aos pés. Exatamente no meio da praça havia um único banco em mármoreitaliano, cujo encosto trazia a seguinte frase escrita em letras douradas: “Reservado para você” O casal sentiu um desejo irresistível de experimentá-lo e os doisfizeram menção de sentar-se nele. Porém, Demêure os conteve: – Não! Não é hora de vocês sentarem-se neste banco, meusamados. Ele está destinado apenas àqueles que já fizeram a passagemem definitivo. O que ainda não é o caso de vocês. Os dois namorados entreolharam-se envergonhados pelo gestoimpetuoso e, com um sorriso maroto, desculparam-se com Demêurepelo olhar. Em seguida, voltaram sua atenção para a Cidade erepararam que ao redor da praça central havia inúmeros prédiosconstruídos em estilos e cores diferentes. Cristiano quis saber maissobre eles: – Demêure, pensei que aqui no Plano Astral só existissem anjostocando harpas sobre nuvens. Mas me deparei com uma cidade muitopróxima dos moldes terrenos, não fosse a paz que exala por todoambiente e este conjuntos de prédios tão distintos entre si, porém,dispostos harmonicamente. Quem foi que projetou tudo isso? – Na realidade este local não existe materialmente, somos nós queo plasmamos. Espíritos afins unem-se para formarem residênciasetéreas. Há no Universo uma enormidade de planetas onde habitamirmãos em diversos níveis de evolução. Por afinidade, eles plasmam 58
  58. 58. seus próprios mundos, alguns mais densos, outros mais sutis comoeste. – Sei... é como diz o ditado: “O Céu é um estado de espírito” –definiu o rapaz. – É mais ou menos isso sim. Talvez não um estado “de” espírito,mas um estado “do” Espírito – completou Demêure. – Então, um espírito pode ascender de um planeta para outro,como um aluno que passa de ano? – questionou-o Marina. – A migração interplanetária realmente existe, mas é bem menoscomum do que pregam por aí. Todos os seres são criados simples eignorantes a partir de uma ínfima unidade inteligente. No caso doshabitantes da Terra, por exemplo, a imensa maioria deles passou portodos as etapas de aprendizado: a pedra que vira planta, que vira bicho,que vira homem, que vira um Ser de Luz. – Se os espíritos raramente vêem de outros planetas para a Terra,como você explica o aumento vertiginoso da população ano a ano? – Exatamente por esse processo de transformação de um tipobiológico para outro. Quantas pedras foram diluídas, quantos espécimesde plantas deixaram de existir e quantos animais foram extintos? Paraonde você acha que foi a inteligência essencial de cada um deles?Milhões que pertenciam ao Reino Mineral ascenderam para o ReinoVegetal e estes, para o Animal. Estamos todos caminhando numa escalacrescente e um dia seremos todos como os anjos. O jovem casal sorvia as explicações de seu cicerone com muitaadmiração e respeito. De repente, eles ouviram alegres risadas infantisque vinham de um prédio em forma do Castelo Encantado dos Contosde Fada. Ele era muito colorido, com paredes repletas de desenhos emarcas de tintas na forma de pequenas mãos. Demêure, percebendo acuriosidade dos namorados convidou-os para se aproximarem do 59
  59. 59. Castelo. E eles foram todos juntos verificar o que estava ocorrendo porlá. Marina ficou admirada com a quantidade de crianças lindas esaudáveis que encontrou brincando no playground do prédio lúdico. – Não sabia que havia crianças por aqui. Sempre imaginei quedepois do desencarne, todos os espíritos retornasse a sua forma adulta.– estranhou a moça. – Aqui é o Lar dos Infantes, – esclareceu Demêure – que abriga asalas de berçário, primeira e segunda infância e pré-adolescência. Naocasião de seu último desencarne, estes pequeninos tinham a idade emque aparentam, mas na realidade muitos deles já passaram por váriasencarnações e são espíritos antigos. No entanto, ainda estão sobre omanto da ilusão da matéria e ainda não se deram conta do querealmente são. Por isso, estão aqui sendo supervisionados pelas Tias-Babás, que é como são conhecidas nossas dedicadas irmãs que sedispõem a cuidar deles, sem interferir no seu livre-arbítrio. Em geral,estes espíritos infantis recobram rapidamente a memória e voltam à suaforma adulta sem muita dificuldade. Mas alguns permanecem pordécadas ou até mesmo séculos na condição de criança porque serecusam a “crescer”. – Quer dizer que é para cá que vêem todas as crianças quandodesencarnam? – perguntou Cristiano. – Não, todas não. Apenas aquelas que ainda necessitam de ajudapara o desligamento do mundo material. As de espírito mais esclarecidojá conseguem plasmar a forma condizente com seu estágio evolutivosem etapas intermediárias. Venham comigo, vou mostrar-lhes os outrossetores. Os três afastaram-se do Castelo e continuaram explorando aCidade. Passaram diante de um outro prédio cuja forma lembrava umhospital. 60
  60. 60. – Este edifício verde – explicou Demêure – é a Mansão da Saúde.É pra cá que são encaminhados todos os recém-chegados quenecessitam de cuidados médicos. Aqueles que desencarnaram demaneira trágica ou que padeceram de enfermidades por longo tempo,como Ândrocles e Daros. Aqui todos eles são tratados com muitadedicação e amor por irmãos que se especializaram em medicinaespiritual. E assim passaram longas horas visitando os diversos setores daCidade com Demêure explicando pacientemente o significado de cadaum dos edifícios. Até que se depararam com uma construção suntuosa,um prédio de vidro translúcido, ao mesmo tempo imponente e belo. Ojovem casal ficou boquiaberto com sua arquitetura de vanguarda, quepermitia ver nitidamente o interior de cada um dos sete andares.Inclusive sua mobília, também esculpida em vidro. – Que edifício magnífico, Demêure! Nem em meus sonhosimaginei que haveria de conhecer uma obra tão maravilhosa. É umverdadeiro espetáculo para os olhos! – assombrou-se Cristiano. – Este é o local onde passo a maior parte do meu tempo, quandonão estou em missão. É o prédio da Justiça Conscienciológica, por issotoda sua estrutura é transparente. Aqui nada é oculto. No último andarfica a sala do Tribunal onde são realizadas as audiências. – Ah, então é nela que são realizados os julgamentos dos bons edos maus? – questionou Marina. – Em absoluto, caríssima. Aqui não existem julgamentosmaniqueístas. Cada irmão, que espontaneamente aqui se apresenta, émovido por sua própria consciência e somente por ela, ele é julgado.Cada qual é seu próprio advogado de defesa, promotor e juiz. Nósoutros, apenas fazemos a parte de orientação. Pois, quem deciderealmente o destino do espírito é ele mesmo. 61
  61. 61. – Você quer dizer que somos nós que escolhemos de que maneirairemos reparar nossos erros e se vamos reencarnar ou não? – Sim. Mesmo as reencarnações compulsórias não se realizamsem o consentimento prévio do espírito. Sua própria consciência oobriga a resgatar suas “dívidas” com os outros e consigo. O que muitasvezes acontece é que quando chega ao Plano Denso, a maioria seesquece do compromisso firmado no Plano Astral e se revolta achandoque a vida é injusta, quando na verdade, foi o próprio espírito que seauto-impôs as provações. E por falar em Plano Denso, já é hora devocês retornarem para lá... 62
  62. 62. O RETORNO O regresso para o corpo físico ocorreu naturalmente. Cristianoabriu os olhos e percebeu que se encontrava novamente na poltrona dasala de espera no hospital. Lembrou-se de sua aventura pelo MundoEspiritual com um ligeiro sorriso de descrédito, achando que tudo nãopassou de um sonho bom. Dormira por cerca de duas horas, mas sentiao corpo leve e descansado como se tivesse passado o dia todo em sonoprofundo. Neste momento, o médico que socorrera Marina entrou nasala e dirigiu-se a ele: – Você pode levantar as mãos para os Céus e agradecer, meurapaz. Sua namorada inexplicavelmente saiu do coma e foi transferidapara o quarto. Você já pode ir vê-la se quiser. 63
  63. 63. Cristiano deu um impulso na cadeira e pôs-se de pé. Rapidamente,agradeceu a atenção do médico e foi ao encontro da amada. – Olá, mocinho! Veja só quem voltou para você com a ajuda deDemêure. E desta vez, vim para ficar, meu amor – disse Marina, queembora abatida trazia um largo sorriso no rosto bonito. O rapaz demonstrou-se surpreso com as palavras dela. Ele puxouuma cadeira ao seu lado e sentou-se segurando em suas mãos: – Meu bem, se você também se lembra, então não foi um sonho.Nós estivemos lá realmente e vivemos tudo aquilo. Tenho que agradecermuito a Deus por você estar bem. Eu te amo tanto, minha querida. Ecada vez, mais e mais... É por você que eu vivo, só por você. Nãoimporta quantas vezes terei que morrer e renascer, eu sempre aencontrarei, esteja onde estiver. Agora sei que nossas almas andamjuntas desde o início dos tempos e continuarão unidas pela eternidade.Porque você é meu grande amor do passado, do presente e do futuro... 64
  64. 64. CRISTIANO E MARINA Cristiano e Marina estão sentados na ampla varanda da bela casaque compraram na praia de Icaraí em Niterói. Esbanjando simpatia, elesrecepcionam os convidados que vieram para festa dos seus trinta anosde casados. Aos poucos, a casa vai se enchendo de gente animada. E aalegria do casal se completa com a chegada dos dois filhos que tiveram:Mariana Cristina e Marcos Henrique, nomes especialmente escolhidoscomo uma homenagem para selar sua fascinante história de amor. O casal, já na idade madura, se diverte muito com as peraltices deDário e André, os dois graciosos netinhos que os filhos lhe deram. Etodos os dias, agradem a feliz e unida família que possuem. No Plano Astral, Vó Ana, que desencarnara aos noventa anos, osobserva com alegria. Ela se reencontrou com o marido e com Demêure. 65
  65. 65. Juntos, os três dedicam-se a missão árdua e recompensadora doresgate dos espíritos que padecem de sofrimentos físicos e morais. – Olhe, Carlos, nosso netinho também já tem lindos netos comonós! – disse Vó Ana. – Pois é, querida irmã Ana, eles merecem tudo o que há de bom.Não concorda, Demêure? – Sim, eles superaram suas imperfeições e souberam perdoar.Inclusive Daros que voltou como o pequeno Dário, e Ândrocles, queaceitou retornar como seu irmãozinho André, ambos netos de nosso felizcasal. Por isso, devemos aceitar que o aprimoramento do espíritosempre ocorre através da renovação da matéria e do perdão. E semalguém ainda tem alguma dúvida, basta que analise a história deCristiano e Marina... Fim 66

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