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O FANTASMA DA GEADA NEGRA
Copyright by Jacque F. Rodrigues. 2014.
Capa, diagramação e arte ilustrativa: Jacque F. Rodrig...
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PARA ROBSON
“Há tempo de nascer,
e tempo de morrer;
tempo de plantar,
e tempo de arrancar o que se plantou”
Eclesiastes ...
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No sertão norte paranaense, em meados da década de 1960,
um nome se destacava entre os grandes produtores da Capital
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Para agradar a esposa, Seo Guerezzi sugeriu que ela trouxesse
para casa uma filha pequena de algum empregado da fazenda ...
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Dona Gertrudes quase nunca visitava as roças. Mas naquela
manhã, talvez pela beleza rubro-verde da paisagem ou por conta...
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– Com muito gosto, comadre – respondeu entre encabulada e
honrada pela preferência da patroa diante dos companheiros de
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cuia) para a Casa Sede. Suas visitas à casa paterna passaram a se
dar somente aos domingos.
Não demorou para que Nâna se...
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Mas o tempo, tal qual o deus Hermes, tem asas nos pés. E de
estação em estação, a pequena Nâna foi ganhando corpo ...
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Dona Gertrudes, que desconhecia as fraquezas de caráter do
marido, vibrou com a ideia da festa. Proporcionaria à afilha...
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Jerônimo, sempre metido numas roupas surradas de algodão e
brim, veio prestigiar o evento com sua melhor camisa de casi...
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Iniciou-se ali um embate de preferência. Quem teria a honra da
primeira dança com Nâna? O pai, cuja tradição lhe favore...
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Seo Guerezzi tomou a atitude do rapaz como uma afronta.
Onde já se viu na casa dele?! Seu território estava sendo viola...
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Quando os últimos convidados se foram, a manhã já vinha
chegando tímida e ensolarada. Nâna se despediu comovida dos pai...
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perigo, tentou fugir se arrastando. Esforço inútil. O padrinho a puxou
pelos cabelos e impôs seu corpo massudo sobre a ...
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Exausto e cambaleante, ele se afastou do corpo inerte. Sentou-
se num pequeno banco de madeira, as mãos trêmulas e a re...
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mais importava além de Nâna. Ela se tornara seu motivo maior, seu
oxigênio. Tudo.
Parado no meio da sala, ele se comove...
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sua morte. Para tentar diminuir, em parte, o peso da cumplicidade
involuntária, tentou doar uns dois alqueires de terra...
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TRÊS
Tudo parecia ter voltado a uma relativa normalidade. Mas às
vezes a natureza caprichosa resolve impor sua justiça ...
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A temperatura despencava à medida que as horas avançavam.
Técnicos agrícolas foram chamados às pressas para empregarem
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com uma garrafa de cachaça e um facão. Bebeu no gargalo
lentamente. Quando tomou o último gole, atirou a garrafa na par...
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QUATRO
Depois de três anos, a Peroba Rosa foi tomada pelo banco
credor. Não havia produtividade para honrar as dívidas ...
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Já embebido pelo espírito de soldado, ele rumou pela
madrugada fresca em direção a Estação Ferroviária na cidade. A lua...
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– Mas será possível que ninguém vê o meu lado? Todos me
acusavam por trás, mas ninguém teve peito de dizer aqui na minh...
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Seo Guerezzi levou a mão fechada na altura do coração e
cismou com o olhar no horizonte.
– E nem você sabe do sentiment...
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as botas! Prefiro continuar pobre e temente, porque o pouco com
Deus é muito, mas o muito sem Deus não tem serventia. E...
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vez de ficar assombrando os viventes que passam por aqui. –
apanhou a mala do chão e se virou para ir embora.
O fazende...
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Florêncio José não se conteve e libertou a emoção entre
soluços.
– Que alegria! Senti tanta saudade!
– Também senti mui...
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Nâna sorriu condescendente.
– Você precisa saber que apesar de aparentar pouca idade,
devido a minha partida prematura ...
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Nâna se aproximou de Seo Guerezzi e lhe ofereceu um sorriso
fraternal.
– Você, que é homem do campo, sabe bem que a ter...
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– A tomada de consciência da própria iniquidade e o autoflagelo
mental que provém dela, já são o corretivo pra almas ig...
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O fantasma da geada negra

  1. 1. 1 V. 01
  2. 2. 2 O FANTASMA DA GEADA NEGRA Copyright by Jacque F. Rodrigues. 2014. Capa, diagramação e arte ilustrativa: Jacque F. Rodrigues Direitos autorais reservados. É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou qualquer meio, salvo com autorização da autora. Londrina, dezembro de 2014.
  3. 3. 3 PARA ROBSON “Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou” Eclesiastes 3:2
  4. 4. 4
  5. 5. 5 Um No sertão norte paranaense, em meados da década de 1960, um nome se destacava entre os grandes produtores da Capital Mundial do Café: Umberto Guerezzi (o Seo Guerezzi). Suas terras se perdiam além dos morros acarpetados de cafeeiros. Filho de imigrantes italianos, ele era um homem massudo e austero. Alongado na altura, mas econômico com as palavras. Ostentava com orgulho o bigode grosso na cara sempre amarrada. E por aquelas terras vermelhas, não havia quem não conhecesse sua fama de homem honrado e temente a Deus. No entanto, por baixo do verniz social, hibernava uma madeira podre que em breve iria derrubar o alicerce de sua reputação ilibada. Ele tinha uma notória predileção pela Fazenda Peroba Rosa, onde fixara residência com a família. Na confortável e avarandada Casa Sede da fazenda havia mais de dez quartos. Um exagero para uma família que contava só com pai, mãe e dois filhos. E quando os rapazes foram estudar na Europa, Dona Gertrudes entrou em depressão com a Síndrome do Ninho Vazio.
  6. 6. 6 Para agradar a esposa, Seo Guerezzi sugeriu que ela trouxesse para casa uma filha pequena de algum empregado da fazenda para lhe fazer companhia. Hábito comum à época e favorecido pelo fato do casal ser padrinho de quase todos os filhos dos colonos, meeiros e assalariados que trabalhavam nas suas terras. “Criança sempre alegra a casa”, ela se animou. Resolveu escolher a de família mais humilde para praticar a caridade. Ironicamente, esse gesto, misto de carência e filantropia, seria o começo da decadência trágica de sua família. Quando os ventos de março prenunciaram o início do outono, chegou a época da colheita. Os jornais anunciavam que a safra seria gorda. Com o preço da saca em alta na bolsa, cada quilo de café era quilate de ouro. E o produto nobre abundava nas roças, com seus galhos dos cafeeiros curvados ao chão rendidos pelo peso dos grãos em cereja. Ao longo da estrada vermelha, imagem mais comum, era a marcha de dezenas de migrantes do sudoeste do país e colonos ítalos, galegos e outros tantos filhos do estrangeiro. Eram chamados de Formadores de Roça, mas muito além disso, foram os precursores de um povo Pé–Vermelho, sem saúvas e picaretas. Famílias inteiras que se aventuravam na Terra Roxa, seduzidas pela promessa de enriquecer com o Ouro Verde. Soldados da lavoura que caminhavam para o front da derriça, armados de peneiras, pás e enxadas.
  7. 7. 7 Dona Gertrudes quase nunca visitava as roças. Mas naquela manhã, talvez pela beleza rubro-verde da paisagem ou por conta de alguma ideia pronta, lá foi ela, de charrete e sombrinha, se embrenhar pelas ruas dos cafeeiros. Dava gosto de ver toda aquela gente trabalhando e cantando as modas da terra natal. Havia alegria nos rostos corados pelo sol. Mas uma imagem singular chamou sua atenção. Mãozinhas pequenas colhiam habilmente os grãos desertores aos pés dos cafeeiros. Mal se podia ver seu rosto, coberto por um lenço lilás. As mechas avermelhadas do seu cabelo teimavam em escapar pelas beiradas do pano, feito labaredas de fogo buscando oxigênio fora da fornalha. Dona Gertrudes desceu da carroça apoiada pelo cocheiro e se abaixou, curiosa por identificar quem era. Da curiosidade para a ternura foi um suspiro. E ela se deixou cativar por aqueles dois olhinhos índigos que brilhavam no rosto sujo de terra. – Floriana Maria, cumprimenta a madrinha! – ordenou a mãe. A pequena Nâna, na sua inocência, lhe ofereceu seu melhor sorriso banguela. Com apenas seis anos, os dentes frontais já haviam caído. – Bênça, madinha! Dona Gertrudes se comoveu com a situação da menina. Tão franzina e obrigada a ajudar os pais no trabalho bruto. Decidiu-se por ela. Faltava agora fazer o pedido àquela mãe de rosto sulcado prematuramente pelo trabalho árduo. – Comadre Dalva, a senhora me recebe de tardinha na sua casa pra um café? Tenho um assunto pra tratar com a senhora e o compadre Jerônimo.
  8. 8. 8 – Com muito gosto, comadre – respondeu entre encabulada e honrada pela preferência da patroa diante dos companheiros de trabalho. Foi uma conversa sem rodeios. Dona Gertrudes fez a proposta expondo todas as vantagens que seriam dadas a Nâna se os pais permitissem que ela a levasse para morar na Casa Sede. Dalva olhou para Jerônimo esperando dele a decisão. O pai não negava o bem que isso seria para a filha, a qual amava profundamente. Doía seu coração ver aquele anjo ruivo esfolando as mãozinhas nos galhos do cafeeiro. Mas tinha o Florêncio José, irmão gêmeo de Nâna, eram muito apegados um ao outro. Como separar os dois? O menino não poderia ir, precisava do filho na lida da lavoura. Ainda mais naquele período da colheita. Esta era a decisão mais difícil que teria que tomar desde que migrara do sul de Minas com Dalva, já embuchada das crianças. Devolveu a responsabilidade para a esposa. – Minha patroa que sabe... Dalva barrou as lágrimas no nó da garganta e fez um único apelo materno: – Se a senhora permitir, eu gostaria de passar só mais essa noite com a menina aqui em casa. Prometo que amanhã cedinho, levo ela pra senhora. – Não precisa tanta pressa. Deixa passar o domingo da Festa da Colheita e me leve a pequena na segunda. E também não se preocupe em mandar muda de roupa nem calçado. Vou encomendar um enxoval novo pra ela nas casas de comércio da cidade. Naquele tempo, acordos tratados entre compadres eram irrevogáveis. E tal qual o combinado, Nâna se mudou (de mala e
  9. 9. 9 cuia) para a Casa Sede. Suas visitas à casa paterna passaram a se dar somente aos domingos. Não demorou para que Nâna se tornasse a menina dos olhos de Dona Gertrudes. Ela enfeitava seu “anjinho” com vestidos de lese e rendas e sapatos de verniz. Uma boneca viva de tez de porcelana e cachinhos de cobre. A madrinha devotada supriu sua carência materna com os cuidados da pequena. E tão logo a garota completou sete anos, correu para matriculá–la no Colégio de Freiras na cidade. Sempre desejou uma filha que falasse línguas e tocasse piano. O primeiro dia de aula foi uma mistura de ansiedade para Nâna e preocupação para Dona Gertrudes. De manhãzinha a menina já estava na varanda com seu uniforme escolar impecável para recebe recomendações da madrinha zelosa. – Veja lá como vai se comportar na frente das Irmãs, minha filha. Fale baixo, coma de boca fechada e não seja malcriada com a professora! E sobrou advertência também para o motorista da fazenda. – Virgílio, você me leva essa menina com cuidado e entrega ela na porta da escola. Fica fazendo hora lá pela cidade até o final da aula pra trazer ela pra casa!
  10. 10. 10 DOIS Mas o tempo, tal qual o deus Hermes, tem asas nos pés. E de estação em estação, a pequena Nâna foi ganhando corpo de moça. Embora o rosto conservasse a pintura angelical. E não tardou para que Seo Guerezzi, sempre tão impaciente com as peraltices infantis, lançasse o primeiro olhar de cobiça sobre as formas púberes da afilhada. Do nada, passou a não medir gastos com ela. A cada viagem de negócios, retornava com um presente caro para a menina. Um sapato, um corte de tecido fino para um vestido novo. Até que se superou nos mimos, anunciando à Dona Gertrudes que bancaria os custos da festa de quinze anos de Nâna. E de bom grado tratou de vender dezenas sacas de café para patrocinar o Debut da menina. Tudo a pretexto de agradar a esposa, que amava a afilhada como filha legítima. Mas no seu íntimo sombrio, ele imaginava que Nâna ficaria tão envaidecida com a festa franqueada que não se importaria de agradecê-lo de “outra forma”. Dia a dia, o simples desejo carnal do fazendeiro foi cedendo lugar à obsessão. A menor lembrança da afilhada já lhe despertava a fúria libidinosa. Mas a sombra da velhice danava seu espírito vaidoso. E quanto mais o espelho denunciava sua decadência física, maior a certeza que tinha de compensar o sequestro da sua juventude no corpo fresco da donzela. Nos seus desvarios, acreditava que a união das duas carnes poderia irrigar o sangue dos seus músculos flácidos. Sentiria novamente seu membro sob as calças tão viril e fértil quanto as terras que lhe pertenciam. E restituiria sua honra de macho com roçar sôfrego do seu couro curtido sobre a pele lisa e macia dela. O dispêndio da festa estaria bem pago.
  11. 11. 11 Dona Gertrudes, que desconhecia as fraquezas de caráter do marido, vibrou com a ideia da festa. Proporcionaria à afilhada um dia de princesa. Agora que os filhos já estavam formados, casados e vivendo em outras fazendas da família, Nâna ganhou sua dedicação exclusiva. E os preparativos da festa da afilhada passaram a tomar todo seu tempo. E assim, conforme os convites eram enviados à nata privilegiada, não se falava em outra coisa em toda região. As filhas da alta sociedade e as herdeiras dos grandes fazendeiros disputavam as costureiras à unha. Cada qual querendo que seu vestido se sobressaísse ao da outra. Travou–se uma disputa acirradíssima de modelos exclusivos copiados de revistas estrangeiras de moda. Os moldes eram segredados a sete chaves como armas secretas de Estado. Quando o baile começou, choveram elogios por parte dos convidados. Nunca se viu tanta fartura e beleza naquele sertão vermelho. A tulha foi esvaziada e caprichosamente transformada em salão de festa para receber os seletos ilustres. E nenhum luxo foi economizado. A melhor comida, bebida e música que o grão arábico podia comprar foram servidas aos presentes.
  12. 12. 12 Jerônimo, sempre metido numas roupas surradas de algodão e brim, veio prestigiar o evento com sua melhor camisa de casimira e calça de tergal. Dalva também se aprumou num vestido de costura própria e preencheu as rugas precoces com almofadadas de pó-de- arroz. Não desejavam envergonhar a filha na frente dos convidados. Florêncio José acompanhava os pais de terninho de risca e cabelo engomado. Mas sua presença foi empalidecida pela beleza da irmã debutante, alvo da atenção da festa. No entanto, ele não fez conta ruim do fato. Ao contrário, sentia orgulho. Era o dia dela! Além disso, estava mais interessado em aproveitar a ocasião para flertar com as damas da debutante. Borboletas de rara beleza que deslizavam elegantemente nos seus vestidos rosa. Na roça não havia moças tão finas e perfumadas como aquelas. Nâna entrou no salão ladeada pelos padrinhos. Estava deslumbrante no seu vestido branco. E muitos a compararam a mais delicada e alva flor do cafeeiro. Ao seu lado, Seo Guerezzi se pavoneava dentro do terno de linho bem talhado e de corte impecável que encomendou ao melhor alfaiate da cidade. O bigode nunca estivera tão lustroso e o cheiro de sua água de colônia deixava um odor de pinho e almíscar por onde passava. E para ostentar sua opulência, ele retirava do bolso, de quando em quando, o relógio italiano de ouro que herdara do pai, a pretexto de conferir as horas. A noite parecia perfeita. Apesar de ser alto verão, o clima estava fresco e agradável. Tudo corria dentro do planejado. Então chegou o ponto alto da festa: A primeira valsa de Nâna. Mas quando Jerônimo se aproximou da filha para trazê-la ao centro do salão, foi interceptado por Seo Guerezzi. – Compadre, o senhor me permite dançar com minha afilhada?
  13. 13. 13 Iniciou-se ali um embate de preferência. Quem teria a honra da primeira dança com Nâna? O pai, cuja tradição lhe favorecia o direito, ou o padrinho que além de patrão era patrocinador da festa? A banda parou a música. Por todo salão, olhares constrangidos eram trocados. No silêncio de sepulcro que se fez no ambiente, quase se podia ouvir as apostas mentais dos convivas torcendo pelo seu predileto. Mas para frustração de uns e alívio de outros, os olhares esgrimistas dos dois requerentes duraram pouco. A relação de poder patronal prevaleceu. Um Jerônimo derrotado, como lobo ferido na jugular, recuou para junto da esposa e o filho. Assim que a dança terminou, Nâna se desvencilhou dos braços do padrinho e voltou rapidamente para junto dos pais. Do outro lado do salão o jovem médico Augusto Zesqueti a admirava. Os olhares se cruzaram e ela sorriu para o moço bonito. Ele entendeu como um sinal de aceitação e a tirou pra dançar. E dançaram. Uma, duas, talvez dez músicas. Seo Guerezzi tomou Nâna pela cintura e a conduziu soberbo pelo salão. No entanto, não levou o troféu da vitória. Em nenhum momento da dança a moça correspondeu ao seu olhar. Ao contrário, pode até sentir uma alfinetada de enfado por parte dela. Mas ignorou esse pequeno deslize. Afinal, haveria de ter sua recompensa até o final da noite.
  14. 14. 14 Seo Guerezzi tomou a atitude do rapaz como uma afronta. Onde já se viu na casa dele?! Seu território estava sendo violado por outro macho mais jovem. Sentiu-se ameaçado. O inesperado rival estava prestes a lhe tomar a fêmea. Podia-se até sentir no ar o cheiro de testosterona que o fazendeiro exalava por todos os poros. Mas desta vez ele não poderia contar com a superioridade social. Tinha que ser discreto. Com muito custo se conteve. Porém, o ciúme o torturava. Anteviu a afilhada se entregando voluptuosamente ao adversário. Cerrou os punhos até quase cortar a palma da mão com as unhas, temendo que outro pudesse sorver o primeiro perfume de sua rosa. Nâna e Augusto pararam de dançar e foram se sentar com Jerônimo e Dalva. Os quatro conversavam animadamente e, vez por outra, riam alto. Em outra mesa, Seo Guerezzi não tirava os olhos dos pombinhos. Deveriam estar zombando dele, pensou. Desejava ir até lá e expulsar o rival a socos e pontapés. Porém, estava impotente diante da exposição pública. Engoliu o orgulho e mandou um empregado buscar uma garrafa de Whisky 12 Year Old no escritório. Não era dado a beber, mas a ocasião exigia que esfriasse o ânimo. Depois de algumas horas, o fazendeiro já havia bebido até a última gota da garrafa. O remédio virou veneno e o álcool avolumou o fogo do seu ódio. Então, o ciúme roubou seu bom senso e já não se importava com sua posição social nem com o constrangimento da família. Decidiu tomar satisfações com o rival. Quando estava a ponto de se levantar e meter–lhe uns safanões, a mãe de Augusto se aproximou do filho e o chamou para irem embora. Salvo pelo gongo. Era alta madrugada e a maioria dos convidados já se preparava para partir. Seo Guerezzi suspirou satisfeito e atribuiu ao destino o crédito a seu favor.
  15. 15. 15 Quando os últimos convidados se foram, a manhã já vinha chegando tímida e ensolarada. Nâna se despediu comovida dos pais, que regressaram extasiados para sua casa humilde. Enfim, os anfitriões puderam se recolher para dormir. Sozinha no seu quarto de princesa, a debutante expulsou aliviada os sapatos dos pés inchados. Os tornozelos estavam doendo e as pernas dormentes, mas nunca estivera tão feliz quanto naquela noite. A festa foi maravilhosa e conhecer Augusto foi a cereja do bolo. Sentiu vontade de mergulhar sob os lençóis de linho branco sem nem sequer se despir. Porém, dormir com as várias camadas de anáguas e o corpete não lhe pareceu uma ideia muito confortável. Vagarosamente, começou a tirar uma a uma as peças de roupa sem perceber o perigo que a espreitava. Momentos antes, Seo Guerezzi entrara no quarto da afilhada e se ocultara por trás das cortinas. Ele a observava, aguardando o momento de dar o bote. Quando a última peça de roupa foi substituída pela camisola, o fazendeiro saltou a sua frente com os olhos faiscantes. Nâna tentou gritar, mas o susto secou sua voz. E rapidamente, o padrinho tapou sua boca com um lenço de clorofórmio. Ela perdeu os sentidos. Tudo havia sido planejado meticulosamente. Para praticar seu plano ardil, Seo Guerezzi já havia dado folga aos empregados da casa naquele início de manhã. Com os moradores recolhidos em seus quartos e a ausência dos serviçais, não haveria testemunhas nem quem o impedisse. Ébrio, mas ainda forte, sequestrou a afilhada desfalecida carregando-a nos braços. Quando Nâna acordou, ainda zonza pelo cheiro do formol, percebeu que estava no meio do cafezal. Seo Guerezzi estava em pé a sua frente. Ele a admirava como uma obra de arte. Ela tentou se mexer, mas as mãos estavam amarradas às costas. Pressentindo o
  16. 16. 16 perigo, tentou fugir se arrastando. Esforço inútil. O padrinho a puxou pelos cabelos e impôs seu corpo massudo sobre a delicada estrutura física dela. Ela gritou por socorro na esperança de ser salva antes que sua desgraça se consumasse. Mas àquela hora e naquele lugar, quem viria em seu auxílio? Rendida diante da superioridade da força bruta, sentiu seu ventre de menina-moça ser violado sem compaixão. Muito sangue, dor e nojo. Ensandecido, o fazendeiro quis cobrar cada centavo gasto com os luxos da afilhada. Quando o abuso terminou, Nâna estava catatônica. Só então, o agressor teve um lampejo de realidade. “O que você fez, homem de Deus?” Gritava a voz acusadora em sua mente. Mas sua sanidade oscilava. Inverteu convenientemente as posições de vítima e réu. E com as mãos apertando o pescoço da menina, atribuiu a ela toda culpa da violência praticada. – Está feliz agora? Olha só o que você me obrigou a fazer! Você que ficava me atiçando, fingindo não querer nada só pra ter uma vida de dondoca. Sua fingida de uma figa. Eu que sempre fui um homem descente e resisti a sua feitiçaria esperando que você tivesse idade de mulher. Fosse outro, não teria respeitado não. Ingrata! Puttana maledetta, como dizia meu finado pai! Mas isso não vai ficar assim. Não vou borrar meu nome com uma mulher de viração. Vou dar cabo de você pra nunca mais desgraçar a vida de outro homem de bem! E quanto mais o ódio se avolumava em sua mente, mais ele apertava a garganta de Nâna. Ela não reagiu, parecia já estar em outro mundo. Até que ao final de minutos torturantes, os dedos das mãos duras do fazendeiro sentiram o ultimo pulsar do sangue no pescoço frágil dela.
  17. 17. 17 Exausto e cambaleante, ele se afastou do corpo inerte. Sentou- se num pequeno banco de madeira, as mãos trêmulas e a respiração ofegante. Então, se deu conta que não poderia fraquejar naquele momento. Precisava tratar de sumir com os restos mortais. Como havia premeditado tudo, escondera uma pá e um saco de cal entre os cafeeiros próximos do local no dia anterior. Mas não teve tempo de enterrar o corpo. Escutou vozes que pareciam estar bem perto dali. Por um momento, chegou a cogitar que nem fossem reais. Mas na dúvida, preferiu fugir do flagrante. No caminho de volta para casa, ele jogou a roupa do crime na latrina de um mictório na roça e vestiu uma muda limpa. Depois sorrateiramente, entrou pelos cômodos dos fundos da Casa Sede sem ser visto. Mas ao passar pela sala de estar, foi traído pela memória emocional e se lembrou da primeira vez que notou Nâna como objeto de desejo. Bem ali, naquela mesma sala. Era uma tarde fria de final de outono e a menina que acabara de entrar na adolescência, tocava Sonata ao Luar ao piano. Seus dedos muito brancos e finos deslizavam com destreza no teclado alvinegro. O fazendeiro já ouvira antes Dona Gertrudes se gabar do talento da afilhada. Mas o gosto musical dele fora talhado na moda de viola. Não tinha ouvido refinado para música dos grã-finos. Porém, como não se deixar enfeitiçar com a melodia da jovem sereia ruiva, bem ali, debaixo do seu teto? A brisa perfumada de Dama da Noite que entrava pela janela, fazia seus cachos de fogo dançarem no ar. E aqueles olhos azuis amendoados eram como pequenos cacos do mosaico celeste. A amálgama sensorial da música, do cheiro das flores e do azul dos olhos da menina travou a razão do homem maduro. E o coração rude do fazendeiro foi arado para semente da paixão. Desde então, nada
  18. 18. 18 mais importava além de Nâna. Ela se tornara seu motivo maior, seu oxigênio. Tudo. Parado no meio da sala, ele se comoveu com a lembrança. E dos seus olhos vidrados, duas piscadelas de remorso libertaram algumas lágrimas, cujo bigode represou. Mas logo tomou tenência. Precisava ser pragmático. Silenciosamente, foi para seu quarto forjar o álibi. Colocou o pijama e se meteu na cama ao lado da esposa. Dona Gertrudes ainda dormia o sono dos justos, embalada pelo vinho da festa. Depois de várias horas de busca, a espera angustiante teve o fim nunca desejado. O corpo de Nâna foi encontrado no mesmo lugar do crime. Luto na Fazenda Peroba Rosa. A família da menina se embotou num pesar profundo e silencioso. Durante o velório, Seo Guerezzi forjou uma comoção paternal. E embora já pairasse no ar nuances de sua culpabilidade, não houve quem lhe apontasse o dedo acusador. Nem mesmo quando seu relógio de bolso foi encontrado próximo à vítima. Prevaleceu o fato de o fazendeiro ser homem poderoso e amigo de advogados e juízes. O silêncio e a impunidade foram cambiados por sacas e sacas de café. Previsivelmente, o processo foi arquivado com o carimbo: SEM SOLUÇÃO. Sua reputação honrada permaneceu irrefutável, porém, o prejuízo material foi vultoso. Só lhe restaram as fazendas dos filhos e a Peroba Rosa. Mas ainda era muito rico. Seu patrimônio contava com centenas de milhares de cafeeiros. Nada poderia abalar sua vida de fartura e poder. Pelo menos, era no que ele acreditava. Mas Dona Gertrudes era mulher inteligente e nutria uma desconfiança velada do marido. Embora acreditasse que tudo que ela fez pela afilhada foi para seu bem, sentia-se também culpada pela
  19. 19. 19 sua morte. Para tentar diminuir, em parte, o peso da cumplicidade involuntária, tentou doar uns dois alqueires de terra para os pais da menina. Eles recusaram. Ainda lhes restava o orgulho. Ela retificou a oferta insistindo para que lhe comprasse a preço de banana, num financiamento a perder de vista. Só então, eles cederam à proposta. Menos pela oportunidade de independência financeira e mais pela possibilidade de permanecer próximos de onde os restos mortais da filha estavam enterrados. Seo Guerezzi nem contestou a atitude da esposa. Tratou logo de lavrar a escritura no nome de Jerônimo para por uma pá de cal no assunto.
  20. 20. 20 TRÊS Tudo parecia ter voltado a uma relativa normalidade. Mas às vezes a natureza caprichosa resolve impor sua justiça poética e destruir a soberba humana. O frio chegou mais rigoroso naquele inverno de 1975. Uma massa gelada atípica vinda do norte prenunciava má sorte para a agricultura. Todos os fazendeiros da região ficaram apreensivos. Mas nem mesmo o mais pessimista dos diagnósticos poderia prever a amplitude da devastação que se abateria por todo o estado. Um fenômeno glacial de proporções avassaladoras mudaria o cenário do campo e a vida de milhares de paranaenses para sempre. No dia 17 de julho a manhã chegou com lufadas de vento seco e gelado. Chovera muito nos dias anteriores, mas as nuvens estavam se dissipando rapidamente no céu azul. Os meses foram passando arrastados e embora a lembrança da morte estúpida de Nâna ainda permanecesse viva, o trabalho da Fazenda não podia ser interrompido. Havia muito dinheiro empenhado naquelas lavouras imensas de café. Sentado na varanda com sua xícara de café fumegante, Seo Guerezzi tinha um siso de preocupação na testa. O clima estava esfriando muito rápido e com a ausência de nuvens não haveria a proteção térmica que retivesse calor no cair da noite.
  21. 21. 21 A temperatura despencava à medida que as horas avançavam. Técnicos agrícolas foram chamados às pressas para empregarem medidas emergenciais profiláticas. Orações de proteção foram encomendadas às rezadeiras de todos os credos. E as mais pungentes preces foram rezadas de joelhos aos altares santos domésticos. Mas quando o sol anêmico encerrou seu expediente ao final do dia, os termômetros já marcavam zero grau. Por toda a madrugada, o frio avançou sobre os cafezais. Ele se deitou sobre cada cafeeiro, violando as folhas virgens com seu beijo gélido. E insaciável, penetrava bruto nas entranhas da planta até atingir e congelar a seiva vital. A geada devastadora cobrira com seu manto negro quilômetro por quilômetro das lavouras, até que não se pudesse enxergar um único ponto verde entre milhares de cafeeiros. Quando o dia amanheceu os fazendeiros atônitos correram até as roças para contabilizar os prejuízos. Nada foi poupado. Por todo lado só se via a paisagem grisalha. Os cafeeiros estavam duros e negros como estátuas de ébano. Mas a perda foi democrática. Todos os cafezais da região foram atingidos. O ouro verde virou cinzas. Da noite para o dia, fazendeiros milionários foram à bancarrota. Seo Guerezzi, no desespero de ver toda a fortuna da família virar carvão de gelo, teve um surto psicótico. Trancou-se na tulha Nenhum cafeicultor pregou os olhos aquela noite. Todos de vigília, com casacos grossos e insones por xícaras de café extraforte. O céu límpido era vigiado minuto a minuto. Lá fora, o vento soprava o frio por toda lavoura. E o cenário álgido anunciava a catástrofe.
  22. 22. 22 com uma garrafa de cachaça e um facão. Bebeu no gargalo lentamente. Quando tomou o último gole, atirou a garrafa na parede e alguns estilhaços atingiram seu rosto. Não se importou com o sangue que escorreu do ferimento. Aliás, depois daquela noite nada mais importava. Nâna estava morta e ele na miséria. Segurou firme o facão e dividiu o próprio abdômen a um único golpe. As pernas bambearam e ele se deixou escorregar até o chão. E foi desfalecendo... Cenas do baile passaram pela sua mente. Como se sentira poderoso com a menina nos braços! Nunca tivera tanto desejo por nenhuma outra mulher. E somente ele a possuiu. Sorriu o riso desapegado dos moribundos e se despediu da vida. Mas o apreço àquelas terras e a paixão por Nâna não deixariam sua alma partir para o Remanso Celeste.
  23. 23. 23 QUATRO Depois de três anos, a Peroba Rosa foi tomada pelo banco credor. Não havia produtividade para honrar as dívidas contraídas com a geada. Dona Gertrudes se mudou com a família para o Mato Grosso. Trocaram os morros cinzas de cafeeiros secos pelo gado da planície. Ironicamente, como um oásis do deserto, a inexpressiva extensão de terra dos pais de Nâna era farta. Seus produtos hortifrutigranjeiros abasteciam as quitandas de toda região. A geada que dizimou as grandes lavouras de café não foi tão cruel para a agricultura familiar de subsistência. Os pequenos produtores se refizeram rapidamente. Dalva e Jerônimo quase podiam se considerar afortunados, não fosse a cicatriz no coração pela falta da filha e a partida compulsória de Florêncio José. O filho que lhes restava atingira a idade de se alistar e foi convocado para o serviço militar em Curitiba. No dia da partida do rapaz para Capital, a família toda já estava de pé às quatro da manhã. Dalva preparou café preto adoçado com rapadura e pão de torresmo. Último carinho materno para suportar os dias difíceis no quartel. Florêncio José beijou a mãe e abraçou o pai. Jerônimo tirou do bolso uns trocados e pôs na mão do filho. Já embebido pelo espírito de soldado, ele rumou pela O rapaz prometeu escrever dando notícias e partiu cortando a escuridão da picada com a luz do lampião.
  24. 24. 24 Já embebido pelo espírito de soldado, ele rumou pela madrugada fresca em direção a Estação Ferroviária na cidade. A lua cheia estava tão brilhante que humilhava a mesquinha luz do lampião. Sozinho no meio da estrada erma, qualquer um sentiria medo. Ou de um animal notívago ou de algo além. Mas ele só tinha mágoa. Nunca superara a perda bruta da irmã gêmea. Ao passar em frente do cemitério da antiga Fazenda Peroba Rosa, decidiu entrar. Precisava se despedir de Nâna para seguir seu caminho. Ajoelhado em frente ao túmulo da irmã, ele se lembrou do quanto eram aguardados os domingos em que podiam compartilhar as traquinagens infantis. O coração se quebrantou no peito e ele chorou de raiva e ressentimento. Quando se levantou para partir, sentiu um sopro quente à suas costas. Virou-se e deu com a figura etérea de Seo Guerezzi parado à sua frente. Seu rosto jovem endureceu de ódio. O fazendeiro estranhou a impavidez do rapaz. – Não vai correr cagado nas calças? – Não, senhor. Só tô vendo UM covarde aqui! – Olha lá como fala comigo, ô moleque! Você me respeite! – Do mesmo jeito que o senhor respeitou minha irmã? O senhor pode ser defunto, mas continua o mesmo velhote sem-vergonha. Assassino de menina! Pode ter comprado a justiça dos homens, mas pela Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o senhor já tá pagando! Nesse chão que bebeu o sangue inocente não há de brotar nem mais um pé de café! Olhe que suas terras todas o banco tomou. Não sobrou mais nada que leva teu nome. Nem respeito dos amigos e nem parente pra acender vela em tua intenção nos Finados! Seo Guerezzi fechou os punhos e bufou contrariado.
  25. 25. 25 – Mas será possível que ninguém vê o meu lado? Todos me acusavam por trás, mas ninguém teve peito de dizer aqui na minha cara! – esbofeteou levemente o próprio rosto – E sabe por quê? Porque no fundo eles sabiam que eu fiz o que qualquer homem macho faria. Aquela puttana maledetta! Sempre dei do bom e do melhor pra ela. Era com o MEU dinheiro que ela vestia roupas boas e estudava lá seu piano e o tal do francês. Olha só, rapaz, você acha certo um cultivar a árvore pra outro colher as frutas? Florêncio José avançou sobre o fazendeiro com gana de esganar, mas se conteve. Era inútil bater num morto. Porém, as palavras saíram faiscadas pela boca. – O senhor pode até ter cultivado a árvore, mas quem deu a semente foi meus pais! Deus é testemunha que eles só te entregaram minha irmã pra criar por precisão. Eles não queriam que ela passasse necessidade. E o senhor nunca tratou dela como pai. Porque pai de verdade chega a dar a vida pelo filho. MAS O SENHOR MATOU ELA! – socou a cruz da sepultura, esfolando o nó dos dedos. O fazendeiro ignorou a fúria do rapaz e suspirou fundo com um ameaço de melancolia na voz. – Pois eu morri em pé depois que aquela mal agradecida se foi! Não tive mais gosto pra nada... Florêncio José estava transtornado de raiva e mal sentia a dor do ferimento. – Larga de ser mentiroso! O senhor continuou vivendo no bem- bom. Nem fez conta do sofrimento da gente. Só deu cabo da vida porque a geada te deixou só com a roupa do corpo. Não sabe o quanto dói ver a mãe da gente chorando todo santo dia agarrada nos trapinhos de berço da filha morta!
  26. 26. 26 Seo Guerezzi levou a mão fechada na altura do coração e cismou com o olhar no horizonte. – E nem você sabe do sentimento que trago constipado aqui dentro! – bateu três vezes no peito – Você ainda não foi velho, mas eu já fui moço. E te firmo que envelhecer é a maior das desgraças. Porque a gente ainda sente as vontades de rapaz, mas o mundo só vê a carcaça enferrujada. Até tua irmã me via como boi velho atrás de erva tenra. E mesmo aperreado, eu me sentia um menino de novo quanto tava perto dela. – Sentou-se num túmulo próximo e alisou os cabelos ralos com as mãos trêmulas. Florêncio José permaneceu ao lado do túmulo da irmã com os olhos sanguíneos. A mão ferida latejava e ele cuspiu a raiva armazenada em direção ao fazendeiro. – Eu vou envelhecer sim, mas nunca que vou ser igual ao senhor! Meus pais me deram boa criação! E se, Deus meu livre, eu matar alguém, não vou meter dinheiro gordo no bolso de juiz comprado porque eu tenho vergonha na cara e assumo o que faço! Seo Guerezzi, sarcástico, arcou os lábios e insistiu na autodefesa. – Você estufa o peito pra falar assim porque ainda é fedelho e pé-rapado. Queria ver se fosse um sujeito na minha posição. Homem respeitado, dono e proprietário de uma batelada de terra. Quando se faz o nome, se vira empregado da própria reputação! Florêncio José já tinha visíveis no pescoço duas veias largas que pareciam querer romper a qualquer momento. A boca espirrava saliva grossa como flechas venenosas. – E de que vale salvar a tal da reputação, se o homem perde a alma? Desfruta em vida, mas vira escravo na danação quando bate
  27. 27. 27 as botas! Prefiro continuar pobre e temente, porque o pouco com Deus é muito, mas o muito sem Deus não tem serventia. E se eu enricar, não vou virar as costas pra criação dos meus pais! Seo Guerezzi franziu o cenho e lhe apontou a estrada escura e deserta. – Pois então vai enfrentar a lida, ganhar o pão e juntar fortuna! E quando estiver por cima da carne seca, mas rançoso, e aparecer um rabo de saia fresco esfregando o cheiro do desfrute no seu nariz, quero ver se você não vai arriar pra ela! Dinheiro serve pra comprar o gozo e a liberdade mesmo, moleque! Deixa de ser tonto! Depois de ouvir essas últimas palavras do fazendeiro, Florêncio José suspirou desanimado. Estava perdendo seu tempo com alguém de valores tão inversos aos dele. – Bem diz minha mãe que alma penada é que nem cão que não larga o osso! É capaz mesmo que eu vou dar corda pros teus conselhos tortos. Eu posso ser novo e humilde, mas tenho feitio honesto! Seo Guerezzi comprimiu o cenho e lançou sua sentença. – Aguarde o capricho do tempo, que um dia você ainda há de me dar razão! Florêncio José meneou a cabeça. Desejava sair o quanto antes do local. O desfecho da conversa o deixou pior do que quando chegou ao cemitério. Mesmo assim, considerou prudente advertir o fazendeiro. – Bem, então é isso! Eu vou seguir meu rumo! E se eu fosse o senhor, ia caçar um jeito de ganhar a remissão dos teus pecados em
  28. 28. 28 vez de ficar assombrando os viventes que passam por aqui. – apanhou a mala do chão e se virou para ir embora. O fazendeiro se desconsertou com o comentário e pulou na sua frente, bloqueando a passagem. – Mas quem que tá assombrando alguém aqui? Em três anos, essa é a primeira vez que eu paro minha ocupação pra vir ter com você nessas paragens. Desde o dia daquela geada maldita que eu viro as noites plantando minhas sementes de café. Mas toda manhã só jorra sangue das covas semeadas. Olhe minhas mãos! – expôs as palmas vermelhas na direção do rapaz – Estão em carne viva de tanto cavoucar a terra lamacenta. Mas eu não desacorçoou! Vou enricar de novo e todos vão me respeitar como no tempo do Ouro Verde. Até sua irmã vai fazer questão de dançar a valsa comigo! Florêncio José foi pego de surpresa pela negativa do fazendeiro. E pela primeira vez naquela noite sentiu medo. – Mas se não é o senhor, quem... – Acho que sou eu “a assombração” que tantos temem, meu irmão! Ambos os homens reconheceram imediatamente a quem pertencia aquela voz. – Nâna! – Nâna! – Perdoem-me por aparecer assim. Não quis assustá-los. Aliás, nunca tive a intenção de assustar ninguém. Apenas vago diuturnamente por estas terras.
  29. 29. 29 Florêncio José não se conteve e libertou a emoção entre soluços. – Que alegria! Senti tanta saudade! – Também senti muitas saudades de você, do papai e da mamãe! Mas foi pelo meu padrinho que adiei minha partida. O fazendeiro se refez do susto e a corrigiu com aspereza. – Não sou mais teu padrinho. Sou teu homem! O primeiro e único! Florêncio José interveio em defesa da irmã. – Não fale assim com ela! Na minha frente o senhor não canta mais de galo não! Nâna tranquilizou o irmão. – Não se preocupe, meu irmão. Nada mais que ele faça pode me atingir. Seo Guerezzi fitou Nâna desconfiado. – Se você veio rir da minha desdita, eu te adianto que… – Não vim para tripudiar nem cobrar nada! Nem sequer te desejo mal. Todo esse tempo aguardava por essa aproximação. Mas você nunca se permitiu me notar. O fazendeiro relaxou os músculos do rosto e soltou os ombros. – Eu te enxergava sim! Tua assombração tava sempre me acoitando pra onde eu ia. Mas eu fingia que não via de vergonha da minha situação sem eira nem beira. Tinha medo de você se aproximar para me enxotar que nem cão sarnento.
  30. 30. 30 Nâna sorriu condescendente. – Você precisa saber que apesar de aparentar pouca idade, devido a minha partida prematura da vida, eu sou um Espírito Antigo. Já tenho bagagem existencial suficiente para aprender a perdoar. Mesmo os erros graves como os seus. Eu estou em paz com minha consciência e você? Seo Guerezzi esmoreceu a guarda com a absolvição de Nâna. – Eu... Eu não sei... Estou confuso! Ainda agora, só tinha gana de ficar rico e tomar você pra mim. Mas te vendo assim, tão caridosa com este traste aqui, depois de tudo que te fiz, me deu um acanhamento. Tô ficando com uma zonzeira na testa, um nó nos miolos, um sufoco na garganta. Acho que é a fraqueza do remorso que tá me dando gastura. Florêncio José se irritou com a súbita rendição do fazendeiro e não demonstrou a mesma indulgência da irmã nas palavras. – Pois o senhor tá é recebendo a paga pela desgraceira que fez na família de gente indefesa! – Eu não tive escolha. A vida me forjou um fraco de espírito! – E o senhor, deu escolha pra minha irmã? Seo Guerezzi baixou os olhos e cruzou as mãos nas coxas. A arrogância inicial da voz perdeu a luta para a fala mansa e contrita. – Tem razão, menino, não dei! Mas a morte tá me cobrando a injustiça que comprei na vida! Olha pra mim: um pobre diacho preso à lida sem frutos que me come as carnes das mãos. Nem tenho direito ao descanso eterno…
  31. 31. 31 Nâna se aproximou de Seo Guerezzi e lhe ofereceu um sorriso fraternal. – Você, que é homem do campo, sabe bem que a terra recebe e acolhe generosamente grão de qualquer qualidade. Cabe ao plantador se decidir pelo plantio da semente que gerará frutos bons ou ruins. Assim também é a vida. Um ciclo infindo de semear e resgatar a colheita! Seo Guerezzi concordou com a afilhada balançando a cabeça grisalha. – Então eu tenho que aceitar minha triste sina e colher a saroba. Aí quem sabe um dia Deus se lembra de perdoar esse criminado aqui e me leva pra junto Dele! Nâna fez intenção de se aproximar do padrinho para abraçá-lo, mas ele recuou. – Não! Estou sujo… Quem sabe um dia… Quando eu for puro e digno de me parelhar à sua pessoa! E subitamente seu simulacro humano se diluiu no ar. Porém, Florêncio José não se deu por satisfeito com o desfecho da reunião. – Sempre frouxo! Você viu, Nâna? O covarde fugiu de fasto pra não encarar o corretivo pras malvadezas dele! – A função de julgar, punir e corrigir não nos cabe, irmão! Acima de nós, há Aqueles que saberão dar a ele todos os recursos para reparar seus erros e ascender à Morada Celestial. – Tá certo, mas bem que ele merecia uma sova bem dada!
  32. 32. 32 – A tomada de consciência da própria iniquidade e o autoflagelo mental que provém dela, já são o corretivo pra almas ignorantes! Florêncio José se envergonhou diante da lisura de Nâna. – Você é boa demais pra esse mundo! Já deveria estar há muito tempo junto dos Seus, lá na Fazenda dos Anjos. – Já estou partido. Até… – Até… Eu vou me lembrar de você até o nosso reencontro na Casa do Pai! Uma coruja piou por perto. Florêncio José se distraiu como o barulho da ave por um momento. Quando tornou os olhos para Nâna, ela já não estava. Amanheceu. Florêncio José abriu os olhos. Estava deitado ao lado do túmulo da irmã. Levantou–se do chão duro ainda confuso. O perfume das damas da noite agonizava com o vento da aurora. Ele voltou para estrada e seguiu seu destino. Na primeira carta que escreveu para mãe contou com detalhes a experiência sobrenatural daquela noite. Desejava trazer um fiapo de acalanto para os corações dos pais. Mas eles se viram obrigados, por devoção e fé, a anunciar o “milagre” da filha. A notícia se espalhou por toda região. E já não se ouviram mais relatos de aparições noturnas no cemitério. Mas o episódio se transformou em lenda e até hoje é contado junto às fogueiras nas Festas Juninas da região. E assim, ano a ano, os mais velhos vão transmitindo aos mais novos o “causo” milagreiro do Fantasma da Geada Negra...

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