A arte de pesquisar mirian goldenberg

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A arte de pesquisar mirian goldenberg

  1. 1. A antropóloga Mirian Goldenberg, autora de Toda mulheré meio Lei/a Dinize A outra, está diante de um novodesafio: mostrar que a pesquisa científica não se reduza meia dúzia de regras preestabelecidas. Em A arte de _ ^_,^ pesquisar, ela ensina aos futuros pesquisadores a importância do olhar científico. Curiosidade, criatividade, disciplina e especialmente paixão são algumas exigências para o desenvolvimento de um trabalho criterioso, baseado no confronto permanente entre o desejo e a realidade possível. ISBN 8 5 - 0 1 - 0 4 9 6 5 - 4Capa: Fábio CamposFotografia da autora: César Duarte 9 "788501"049650"
  2. 2. A arte depesquisar
  3. 3. Mirian Goldenberg A arte de pesquisar Como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais 8a EDIÇÃOE D I T O R A R E C O R D RIO DE J A N E I R O • SÃO PAULO 2004
  4. 4. CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Goldenberg, MiríanG566a A arte de pesquisar: como fazer pesquisa8*ed. qualitativa em Ciências Sociais / Mirian Goldenberg. - 8 ed. - Rio de Janeiro: Record, 2004. Inclui glossário Dedico este livro a todos os meus alunos e 1. Ciências sociais - Metodologia. 2. Pesquisa - Metodologia. 3. Pesquisa social. I. Título. II. alunas, que têm me ensinado a ser uma Título: Como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. pessoa cada vez melhor. CDD-300,1897-0797 CDU-301:001.8Copyright © 1997 by Mirian GoldenbergTodos os direitos reservados, inclusive os de reprodução,no todo ou em pane, através de quaisquer meios.Direitos exclusivos desta edição reservados pelaDISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000Impresso no BrasilISBN 85-01-04965-4PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTALCaixa Postal 23.052Rio de Janeiro, RJ - 20922-970 EDITORA AFILIADA
  5. 5. "Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Vem talvez agora a idade de uma outra experiência, a de desaprender, de deixar trabalhar o remane-jamento imprevisível que o esquecimento im-põe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiên- cia tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda, que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: sapientia- nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o máximo de saborpossível." ROLAND BARTHES
  6. 6. SumárioIntrodução 11(Re)Aprendendo a Olhar 13Pesquisa Qualitativa em Ciências Sociais 16A Escola de Chicago e a Pesquisa Qualitativa 25Estudos de Caso 33 ,O Método Biográfico em Ciências Sociais 36Objetividade, Representatividade e Controle de Bias na Pesquisa Qualitativa 44Pesquisa Qualitativa: Problemas Teórico-Metodológicos 53Integração entre Análise Quantitativa e Qualitativa 61Faça a Pergunta Certa! 68Formulando o Problema de Pesquisa 71Construindo o Projeto de Pesquisa 74Os Passos da Pesquisa 78
  7. 7. 10 / Mirian GoldenbergFichamento da Teoria 81Entrevistas e Questionários 85Pensando como um Cientista 92Análise e Relatório Final 94Algumas Palavras Finais 100Glossário 103 Introdução Quando inicio um curso de Metodologia de Pesquisa noto, no semblante de meus alunos, uma profunda má vontade. Costumo perguntar sobre suas experiências anteriores com esta disciplina e, com raríssimas exce- ções, são unânimes em afirmar que a matéria foi muito desinteressante na faculdade. Com esta recepção, não é fácil iniciar um curso de dezenas de horas ou semanas. Ao final do curso, no entanto, sempre encontro alu- nos entusiasmados, empolgados com seus projetos, e não raro com manifestações de carinho e agradecimentos. Quero, com este livro, passar um pouco desta expe- riência prazerosa em sala de aula e também mostrar que a postura científica não é algo de apenas alguns eleitos, podendo ser exercida em qualquer campo de estudo. Metodologia Científica é muito mais do que al- gumas regras de como fazer uma pesquisa. Ela auxilia a refletir e propicia um "novo" olhar sobre o mundo: um olhar científico, curioso, indagador e criativo. Minha primeira experiência com pesquisa científica foi em 1978, aos 21 anos, quando ingressei no Mestrado de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio
  8. 8. 12 / Mirian Goldenbergde Janeiro. Após dois anos e meio defendi minha disser-tação sobre "O deficiente auditivo no mundo do traba-lho: um estudo sobre a satisfação profissional". Comorientação da professora Nícia Bessa, que cobrava rela-tórios semanais, fui a primeira da turma a defender adissertação. É preciso registrar a importância dos nos-sos primeiros orientadores, que nos ensinam a pensar,ter disciplina e escrever corretamente. A minha verdadeira formação como pesquisadora,no entanto, se iniciou dez anos depois, em 1988, quando (REAPRENDENDO A OLHARingressei no Programa de Pós-Graduação em Antropo-logia Social, do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, para fazer meu doutoramento. Nesse ambiente de intensas e calorosas discussões, de profes- sores e alunos brilhantes, encontrei solo fértil para co- meçar a fazer pesquisa na área das assim chamadas "A ciência não corresponde a um inundo a des- Ciências Humanas ou Ciências Sociais. Desde então, con- crever. Ela corresponde a um mundo a construir." tagiada pelo vírus do "olhar científico", não consegui parar de pesquisar. Bachelard O objetivo principal deste livro é ensinar o "olhar cien- tífico" e mostrar que a pesquisa não se reduz a certos procedimentos metodológicos. A pesquisa científica exi- ge criatividade, disciplina, organização e modéstia, ba- seando-se no confronto permanente entre o possível e o impossível, entre o conhecimento e a ignorância. Nenhuma pesquisa é totalmente controlável, com início, meio e fim previsíveis. A pesquisa é um proces- so em que é impossível prever todas as etapas. O pes- quisador está sempre em estado de tensão porque sabe que seu conhecimento é parcial e limitado — o "possí- vel" para ele. No meu entender, não existe um único modelo de
  9. 9. r 14 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 15pesquisa. Neste livro apresentarei um dos caminhos Este livro é, na verdade, um difícil (e espero praze-possíveis: o caminho que tenho buscado seguir. Assim, rosp) desafio: um exercício para aprender a pensar cien-quando falo de Metodologia estou falando de um cami- tificamente, com criatividade, organização, clareza e,nho possível para a pesquisa científica. O que determi- acima de tudo, sabor.na como trabalhar é o problema que se quer trabalhar:só se escolhe o caminho quando se sabe aonde se querchegar. Anteriormente as ciências se pautavam em um mo-delo quantitativo de pesquisa, em que a veracidade deum estudo era verificada pela quantidade de entrevista-dos. Muitos pesquisadores, no entanto, questionam arepresentatividade e o caráter de objetividade de que apesquisa quantitativa se revestia. E preciso encarar ofato de que, mesmo nas pesquisas quantitativas, a sub-jetividade do pesquisador está presente. Na escolha dotema, dos entrevistados, no roteiro de perguntas, na bi-bliografia consultada e na análise do material coletado,existe um autor, um sujeito que decide os passos a se-rem dados. Na pesquisa qualitativa a preocupação dopesquisador não é com a representatividade numéricado grupo pesquisado, mas com o aprofundamento da com-preensão de um grupo social, de uma organização, deuma instituição, de uma trajetória etc. Neste livro ireime deter na pesquisa qualitativa, na qual venho traba-lhando desde 1988. É bom lembrar que nós, estudiosos brasileiros,estamos pouco acostumados ao verdadeiro debate deideias. Entendemos como ataques pessoais muitas crí-ticas que podem contribuir para o amadurecimento denosso trabalho. A socialização do pesquisador exige umexercício permanente de crítica e autocrítica. Esperoencontrar leitores-alunos dispostos a viver intensa-mente esta experiência decisiva: a de expor seus traba- lhos a uma crítica permanente.
  10. 10. A Arte de Pesquisar / 17 tureza. Estes pesquisadores se recusam a legitimar seus conhecimentos por processos quantificáveis que ve- nham a se transformar em leis e explicações gerais. Afirmam que as ciências sociais têm sua especificidade, que pressupõe uma metodologia própria. Os pesquisadores qualitativistas recusam o mode- lo positivista aplicado ao estudo da vida social. O fun- dador do positivismo, Augusto Comte (1798-1857), de- fendia a unidade de todas as ciências e a aplicação da PESQUISA QUALITATIVA EM abordagem científica na realidade social humana. Com CIÊNCIAS SOCIAIS base em critérios de abstração, complexidade e rele- vância prática, Comte estabeleceu uma hierarquia das ciências, em que a matemática ocupava o primeiro lu- gar, e a sociologia ou "física social", o último, precedi- da, em ordem decrescente, da astronomia, física, quí- mica e biologia. Para Comte, cada ciência dependia doAo se pensar nas origens da pesquisa qualitativa em desenvolvimento da que a precedeu. Portanto, a socio-ciências sociais, corre-se o risco de se perder num ca- logia não poderia existir sem a biologia, que não pode-minho longo demais, que procurando as origens das ria existir sem a química, e assim por diante.origens não chega jamais ao fim. Poderia chegar a He- Nesta perspectiva, na qual o objeto das ciênciasródoto, que, descrevendo a guerra entre a Pérsia e a sociais deve ser estudado tal qual o das ciências físi-Grécia, se dedicou a esboçar os costumes, as vesti- cas, a pesquisa é uma atividade neutra e objetiva, quementas, as armas, os barcos, os tabus alimentares e as busca descobrir regularidades ou leis, em que o pes-cerimónias religiosas dos persas e povos circunvi- quisador não pode fazer julgamentos nem permitir quezinhos. seus preconceitos e crenças contaminem a pesquisa. Não pretendo fazer um caminho tão longo mas, para Émile Durkheim (1858-1917), preocupado, comosituar a questão da utilização de técnicas e métodos Comte, com a ordem na sociedade e com a primazia daqualitativos de pesquisa nas ciências sociais dentro de sociedade sobre o indivíduo, também se posicionou auma discussão filosófica mais ampla, acredito ser im- favor da unidade das ciências. Tomando "os fatos so-portante elucidar o debate entre a sociologia positivista ciais como coisas", Durkheim defendia que o social ée a sociologia compreensiva. real e externo ao indivíduo, ou seja, o fenómeno social, Os pesquisadores que adotam a abordagem quali- como o fenómeno físico, é independente da consciência tativa em pesquisa se opõem ao pressuposto que defen- humana e verificável através da experiência dos senti- de um modelo único de pesquisa para todas as ciên- dos e da observação. cias, baseado no modelo de estudo das ciências da na- Durkheim acreditava que os fatos sociais só pode-
  11. 11. 18 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 19riam ser explicados por outros fatos sociais, e não por cupar com a compreensão de casos particulares e nãofatos psicológicos ou biológicos, como pretendiam al- com a formulação de leis generalizantes, como fazemguns pensadores de seu tempo. Defendendo a visão da as ciências naturais.ciência social como neutra e objetiva, na qual sujeito e Por meio de dois conceitos, Dilthey diferenciou oobjeto do conhecimento estão radicalmente separados, método das ciências naturais — erklaren —, que buscaDurkheim teve uma influência decisiva para que as generalizações e a descoberta de regularidades, do dasciências sociais tenham adotado o método científico ciências sociais — verstehen —, que visa à compreen-das ciências naturais. são interpretativa das experiências dos indivíduos den- Na segunda metade do século passado, alguns pen- tro do contexto em que foram vivenciadas.sadores, influenciados pelo idealismo de Kant, reagi- O maior representante da chamada sociologia com-ram criticamente ao modelo positivista de conhecimen- preensiva é Max Weber (1864-1920), que se apropriouto aplicado às ciências sociais, acreditando que o estu- da ideia de verstehen proposta por Dilthey. Para Weber,do da realidade social através de métodos de outras o principal interesse da ciência social é o comporta-ciências poderia destruir a própria essência desta rea- mento significativo dos indivíduos engajados na açãolidade, já que esquecia a dimensão de liberdade e indi- social, ou seja, o comportamento ao qual os indivíduosvidualidade do ser humano. agregam significado considerando o comportamento de A sociologia compreensiva, que tem suas raízes no outros indivíduos. Os cientistas sociais, que pesquisamhistoricismo alemão, distinguindo "natureza" de "cul- os significados das ações sociais de outros indivíduostura", considera necessário, para estudar os fenóme- e deles próprios, são sujeito e objeto de suas pesquisas.nos sociais, um procedimento metodológico diferente Nesta perspectiva, que se opõe à visão positivista dedaquele utilizado nas ciências físicas e matemáticas. objetividade e de separação radical entre sujeito e obje-O filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833-1911) foi um to da pesquisa, é natural que cientistas sociais se inte-dos primeiros a criticar o uso da metodologia das ciên- ressem por pesquisar aquilo que valorizam. Estes ci-cias naturais pelas ciências sociais, em função da dife- entistas buscam compreender os valores, crenças, mo-rença fundamental entre os objetos de estudos das mes- tivações e sentimentos humanos, compreensão que sómas. Nas primeiras, os cientistas lidam com objetos pode ocorrer se a ação é colocada dentro de um contex-externos passíveis de serem conhecidos de forma obje- to de significado.tiva, enquanto nas ciências sociais lidam com emoções, Esta discussão filosófica mais geral, que diferen-valores, subjetividades. Esta diferença se traduz em cia as ciências sociais das demais ciências, contex-diferenças nos objetivos e nos métodos de pesquisa. Para tualiza o surgimento e o desenvolvimento das técnicasDilthey, os fatos sociais não são suscetíveis de e métodos qualitativos de pesquisa social.quantificação, já que cada um deles tem um sentido Frédéric Lê Play, contemporâneo de Comte, foi umpróprio, diferente dos demais, e isso torna necessário dos primeiros a estudar a realidade social dentro deque cada caso concreto seja compreendido em sua sin- uma perspectiva científica que considerava a observa-gularidade. Portanto, as ciências sociais devem se preo- ção direta, controlável e objetiva da sociedade como o
  12. 12. 20 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 21método mais adequado à pesquisa social. Em La Refor- vez de depender dos relatos dos viajantes, como faziamme Sociale en France (1864), Lê Play expõe o método os "antropólogos de gabinete".das monografias, que se caracteriza por ser uma técni- Nos primeiros trinta anos do século XX, o trabalhoca, ordenada e metódica, de observação direta da soci- de campo passou a orientar as pesquisas antropológi-edade. Trouxe de sua experiência de mineralogista, na cas. Boas, um geógrafo de formação, crítico radical dosqual estava habituado a colher amostras de jazidas para antropólogos evolucionistas, ensinou que no camposerem analisadas, a preocupação de observar direta- tudo deveria ser anotado meticulosamente e que ummente e analisar sistematicamente as famílias operá- costume só tem significado se estiver relacionado aorias localizadas nos diferentes países da Europa onde seu contexto particular. Ensinou também o "relati-pesquisou. De seus registros minuciosos e ordenados vismo cultural": o pesquisador deveria estudar as cul-resultou um conjunto de monografias reunidas em Lês turas com um mínimo de preconceitos etnocêntricos.ouvriers européens (1855). Para Boas, o que constitui o "génio próprio" de um No final do século XIX e início do século XX, os povo repousa sobre as experiências individuais e, por-estudos dos antropólogos nas sociedades "primitivas" tanto, o objetivo do pesquisador é compreender a vidaforam determinantes para o desenvolvimento das téc- do indivíduo dentro da própria sociedade em que vive.nicas de pesquisa que permitem recolher diretamente Boas foi o grande mestre da antropologia americanaobservações e informações sobre a cultura nativa. As na primeira metade do século XX. Formou toda umasociedades estudadas diretamente por esses antropó- geração de antropólogos, como Ralph Linton, Ruthlogos são sociedades sem escrita, longínquas, isoladas, Benedict e Margaret Mead, considerados representan-de pequenas dimensões, com reduzida especialização tes da antropologia cultural americana, que utilizamdas atividades sociais, sendo classificadas como "sim-ples" ou "primitivas" em contraste com a organização métodos e técnicas de pesquisa qualitativa somados a "complexa" das sociedades dos pesquisadores. modelos conceituais próximos da psicologia e da psi- O primeiro antropólogo a conviver com os nativos canálise1.foi o americano Lewis Henry Morgan, um dos mais A primeira experiência de campo de Malinowski foi expressivos representantes do pensamento evolucio- em 1914, entre os mailu na Melanésia. Impedido de nista. Jurista de formação, em 1851 publicou The Lea- voltar à Inglaterra, no início da Primeira Guerra Mun-gue of Ho-dé-no-sau-nee, or Iroquois, considerado o dial, ele começou sua pesquisa nas ilhas Trobriand, de primeiro tratado científico de etnografia. Mas foram 1915 a 1916, retornando em 1917 para uma estada de os trabalhos de campo de Franz Boas, entre 1883 e mais um ano. Esta longa convivência com os nativos 1902, e, particularmente, a expedição de Bronislaw teve uma influência decisiva na inovação do método Malinowski às ilhas Trobriand, que consagraram a ideia de que os antropólogos deveriam passar um lon- go período de tempo na sociedade que estão estudando A expressão "culturalismo" ou "teoria culturalista da personalidade" foi empregada pela primeira vez nos anos 50 para se referir às pesquisas para encontrar e interpretar seus próprios dados, em americanas sobre as relações entre cultura e personalidade.
  13. 13. 22 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 23de pesquisa antropológica. Argonauta of the Western realmente fazem? O que pensam a respeito do que fazem?Pacific, publicado em 1922, é um verdadeiro tratado Por meio do contato íntimo com a vida nativa, exaustiva-sobre o trabalho de campo. A convivência íntima com mente registrado no diário de campo, Malinowski bus-os nativos passou a ser considerada o melhor instru- cou as respostas destas questões preocupando-se em com-mento de que o antropólogo dispõe para compreender preender o ponto de vista nativo."de dentro" o significado das lógicas particulares ca- Para Malinowski, a antropologia era o estudo se-racterísticas de cada cultura. Malinowski demonstrou gundo o qual compreendendo o "primitivo" poderíamosque o comportamento nativo não é irracional, mas se chegar a compreender melhor a nós mesmos. A rica ex-explica por uma lógica própria que precisa ser desco- periência de campo de Malinowski, assim como suasberta pelo pesquisador. Colocou em prática a obser- propostas metodológicas, influenciaram decisivamentevação participante, criando um modelo do que deve a aplicação de técnicas e métodos de pesquisa qualitati-ser o trabalho de campo: o pesquisador, através de uma va em ciências sociais.estada de longa duração, deve mergulhar profunda- Na década de 1970, surge nos EUA, inspirada na ideiamente na cultura nativa, impregnando-se da mentali- weberiana de que a observação dos fatos sociais deve le-dade nativa. Deve viver, falar, pensar e sentir como os var à compreensão (e não a um conjunto de leis), a antro-nativos. pologia interpretativa. Um dos principais representantes Malinowski, considerado o pai do funcionalismo, da abordagem interpretativa é Clifford Geertz, que pro-acreditava que cada cultura tem como função a satis- põe um modelo de análise cultural hermenêutico: o an-fação das necessidades básicas dos indivíduos que a tropólogo deve fazer uma descrição em profundidadecompõem, criando instituições capazes de responder a ("descrição densa") das culturas como "textos" vividos,estas necessidades. A análise funcional consiste em como "teias de significados" que devem ser interpreta-analisar todo fato social do ponto de vista das relações dos. De acordo com Geertz, os "textos" antropológicosde interdependência que ele mantém, sincronicamente, são interpretações sobre as interpretações nativas, já quecom outros fatos sociais no interior de uma totalida- os nativos produzem interpretações de sua própria expe-de. A conduta de observação etnográfica, assim como a riência. Tais textos são "ficções", no sentido de que sãoapresentação dos resultados sob a forma monográfica, "construídos" (não falsos ou inventados). Esta perspec-obedecem aos pressupostos do método funcional. tiva se traduz em um permanente questionamento do Grande parte da renovação das ciências sociais se antropólogo a respeito dos limites de sua capacidade dedeve às influências (diretas ou indiretas) dos métodos conhecer o grupo que estuda e na necessidade de expor,de pesquisa de Malinowski. Argonauta of the Western em seu texto, suas dúvidas, perplexidades e os caminhosPacific provocou uma verdadeira ruptura metodológica que levaram a sua interpretação, percebida sempre comona antropologia priorizando a observação direta e a parcial e provisória.experiência pessoal do pesquisador no campo. Geertz inspirou a tendência atual da chamada antro- Malinowski sugeriu três questões para o trabalho de pologia reflexiva ou pós-interpretativa, que propõe umacampo: o que os nativos dizem sobre o que fazem? O que auto-reflexão a respeito do trabalho de campo nos seus
  14. 14. 24 / Mirian Goldenbergaspectos morais e epistemológicos. Esta antropologiaquestiona a autoridade do texto antropológico e propõeque o resultado da pesquisa não seja fruto da observaçãopura e simples, mas de um diálogo e de uma negociaçãode pontos de vista, do pesquisador e pesquisados. A ESCOLA DE CHICAGO E A PESQUISA QUALITATIVA A Universidade de Chicago surgiu em 1892 e em 1910 o seu departamento de sociologia e antropologia tornou-se o principal centro de estudos e de pesquisas sociológicas dos EUA. Em 1930, o termo Escola de Chicago foi utili- zado pela primeira vez por Luther Bernard, em "Schools of sociology". Por este termo, designa-se um conjunto de pesquisas realizadas, a partir da perspectiva intera- cionista, particularmente depois de 19152 na cidade de Chicago. Um de seus traços marcantes é a orientação multidisciplinar, envolvendo, principalmente, a sociolo- gia, a antropologia, a ciência política, a psicologia e a filosofia. O departamento de sociologia e antropologia da Universidade de Chicago esteve unido até 1929, o que sugere que as pesquisas etnográficas contribuíram para dar legitimidade às técnicas e métodos qualitativos na pesquisa sociológica em grandes centros urbanos. 2 Após 1935, acentuou-se o conflito entre uma sociologia quantitativista, que viria a se tornar dominante nos EUA, e a sociologia qualitativa que se produzia na Escola de Chicago.
  15. 15. 26 / Mirian Goldenberg r A Arte de Pesquisar / 27 Já desde o final do século XIX, o interacionismo senta o outro incorporado ao indivíduo. É formado atra-simbólico* exercia uma profunda influência sobre a vés das definições feitas por outros que servirão desociologia de Chicago, através da presença de George referencial para que o indivíduo possa ver a si mesmo.Herbert Mead e do filósofo americano John Dewey. Enfatizando a natureza simbólica da vida social,Dewey, que lecionou em Chicago de 1894 até 1904, trou- Mead postula que são as atividades interativas dos in-xe para o interacionismo o pragmatismo, uma filoso- divíduos que produzem as significações sociais. Umafia de intervenção social que postula que o pesquisa- consequência importante deste postulado é que o pes-dor deve estar envolvido com a vida de sua cidade e se quisador só pode ter acesso a esses fenómenos particu-interessar por sua transformação social. lares, que são as produções sociais significantes dos Mead, considerado o arquiteto da perspectiva indivíduos, quando participa do mundo que se propõeinteracionista, lecionou na Universidade de Chica- estudar. O interacionismo simbólico, ao contrário dago até 1931. Sua perspectiva teórica, fortemente concepção durkheimiana que defende que as manifes-marcada pela influência da psicologia social e de tações subjetivas não pertencem ao domínio da socio-Georg Simmel, que trouxe para a sociologia a filoso- logia, afirma que é a concepção que os indivíduos têmfia de Kant, é apresentada em Mind, Self and do mundo social que constitui o objeto essencial daSociety*. pesquisa sociológica. Para Mead, a associação humana surge apenas O interacionismo simbólico destaca a importânciaquando cada indivíduo percebe a intenção dos atos dos do indivíduo como intérprete do mundo que o cerca e,outros e, então, constrói sua própria resposta em fun- consequentemente, desenvolve métodos de pesquisa queção desta intenção. Tais intenções são transmitidas por priorizam os pontos de vista dos indivíduos. Ò propó-meio de gestos que se tornam simbólicos, ou seja, pas- sito destes métodos é compreender as significações quesíveis de serem interpretados. A sociedade humana se os próprios indivíduos põem em prática para construirfunda em sentidos compartilhados sob a forma de com- seu mundo social. Como a realidade social só aparecepreensões e expectativas comuns. O componente sig- sob a forma de como os indivíduos vêem este mundo, onificativo de um ato acontece através do role-taking: o meio mais adequado para captar a realidade é aqueleindivíduo deve se colocar no lugar de outro. Ao afir- que propicia ao pesquisador ver o mundo através "dosmar que o indivíduo possui um self, Mead enfatiza que, olhos dos pesquisados".da mesma forma que interage socialmente com outros A pesquisa da Escola de Chicago tem a marca doindivíduos, ele interage consigo mesmo. O self repre- desejo de produzir conhecimentos úteis para a solução de problemas sociais concretos que enfrentava a cida-3 Em 1937, Blumer criou o termo interacionismo simbólico e sistemati- de de Chicago. Grande parte de seus estudos refere-sezou seus pressupostos básicos em Symbolic Interactionism, Perspective aos problemas da imigração e da integração dos imi-and Method, onde discute os mais importantes aspectos da interaçãosimbólica tentando ser fiel ao pensamento de Mead.4 grantes à sociedade americana, delinquência, crimi- Mead não publicou, em vida, uma obra sobre a sua teoria. Seus quatro nalidade, desemprego, pobreza, minorias e relaçõeslivros foram organizados, após a sua morte em 1931, a partir de palestras,aulas, notas e manuscritos. raciais.
  16. 16. 28 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 29 Devido à sua forte preocupação empírica, uma das durante vários anos, jornalista, atividade que influen-contribuições mais importantes da Escola de Chicago ciou seus métodos de pesquisa e de seus discípulos. Parkfoi o desenvolvimento de métodos originais de pesqui- considerava a cidade como o laboratório de pesquisassa qualitativa: a utilização científica de documentos sociológicas por excelência.pessoais, como cartas e diários íntimos, a exploração Muitas pesquisas de Chicago voltaram-se para umde diversas fontes documentais e o desenvolvimento problema candente nos EUA: os conflitos étnicos e asdo trabalho de campo sistemático na cidade. tensões raciais. Pesquisas sobre as comunidades de O estudo de W. I. Thomas e F. ZnaniecM, sobre a imigrantes, sobre os conflitos raciais entre brancos evida social dos camponeses poloneses nos EUA, é um negros, sobre criminalidade, desvio e delinquência ju-ótimo exemplo da sociologia praticada pela Escola de venil, tornaram a sociologia de Chicago famosa em todoChicago. The Polish Peasant in Europe and America o mundo.(1918-1920) é um estudo da emigração de camponeses Frederic Thrasher publicou, em 1923, sua tese depoloneses e dos seus problemas de assimilação nos doutorado sobre as gangues de Chicago. John LandescoEUA. Os dois pesquisadores reuniram dados coletados publicou, em 1929, uma obra com uma vasta pesquisana Polónia e nos Estados Unidos: artigos de jornais sobre a criminalidade de Chicago, a partir de histórias diários, arquivos de tribunais e de associações ameri- de vida de gângsteres. Uma das obras mais famosas da cano-polonesas, fichários de associações de assistên- Escola de Chicago, The Jack-Roller: A delinquent boys cia social, cartas trocadas entre famílias que viviam own story, publicada em 1930, é baseada na história de nos Estados Unidos e na Polónia, além do longo relato vida de um jovem delinquente de dezesseis anos, Stanley, autobiográfico de um imigrante polonês. que Clifford Shaw acompanhou durante seis anos, den- Thomas e Znaniecki dedicaram todo um volume de tro e fora da prisão. Logo depois, em 1931, Shaw publi- The Polish Peasant5 a uma autobiografia escrita por cou The natural history of a delinquent career, sobre um imigrante polonês em Chicago. Essa autobiografia um adolescente acusado de estupro. Em 1937, Edwin foi cotejada com outras fontes, como cartas familia- Sutherland publicou um estudo, baseado no relato au- res, jornais diários e arquivos. Aplicando um dos prin- tobiográfico de um ladrão profissional, sobre sua vida cípios do interacionismo simbólico, os dois pesquisa- cotidiana e suas diferentes práticas (roubo, estelionato, dores acreditavam que através do registro da vida de fraude, extorsão etc.). Estes estudos demonstram a pre- um imigrante poderiam penetrar e compreender "por ocupação dos pesquisadores de Chicago em analisar os dentro" o seu mundo. graves problemas enfrentados pela cidade a partir do Grande parte da produção da Escola de Chicago foi ponto de vista dos indivíduos que são vistos socialmen- orientada por Robert Park, que, antes de se tornar pro- te como os principais responsáveis. fessor de sociologia em Chicago de 1914 a 1933, foi, The Polish Peasant, em 1918-1920, inaugurou o período mais expressivo da sociologia qualitativa de*The Polish Peasant in Europe and America tem mais de 2.200 páginas, Chicago, que, em 1949, com a publicação de The ameri-distribuídas em cinco volumes. can soldier, de Samuel Stouffer, deu lugar a um perío-
  17. 17. 30 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 31do de crescente utilização de técnicas de pesquisa quan- de maconha, discute os processos pelos quais ostitativa na sociologia americana. Stouffer, desde 1930, desviantes são definidos como tais pela sociedade quedefendia a estatística ccomo um método de pesquisa os cerca, mais do que pela natureza do ato que prati-mais eficaz e mais científico do que a história de vida cam. The Presentation ofSelfin Everyday Life (1959),ou o estudo de caso. de Goffman, analisa os "desempenhos teatrais" dos Apesar da importância e originalidade das pesqui- atores sociais em suas açóes do dia-a-dia.sas qualitativas da Escola de Chicago, não se pode dei- A Escola de Chicago abriu caminho para correntesxar de lado suas pesquisas quantitativas. Em 1929, teóricas que, mesmo não podendo ser diretamente asso-Shaw e outros pesquisadores publicaram uma obra ciadas a ela, não deixam de apresentar certa influênciasobre a delinquência urbana em que recensearam cer- de sua abordagem metodológica, como a fenomenologiaca de 60 mil domicílios de "vagabundos, criminosos e sociológica e a etnometodologia. A primeira busca suadelinquentes" de Chicago, para demonstrar as taxas fundamentação na filosofia de Husserl, que faz uma crí-de criminalidade em diferentes bairros. tica radical ao objetivismo da ciência. O argumento de E. Burgess, um dos nomes mais representativos da Husserl é o mesmo de W Dilthey e Max Weber: os atosEscola de Chicago, apontava, em 1927, que os métodos sociais envolvem uma propriedade—o significado — queda estatística e dos estudos de caso não são conílitivos não está presente em outros setores do universo abarca-mas mutuamente complementares e que a interação dos pelas ciências naturais. Proceder a uma análisedos dois métodos poderia ser muito fecunda. Afirmava fenomenológica é substituir as construções explicativasque as comparações estatísticas poderiam sugerir pis- pela descrição do que se passa efetivamente do ponto detas para a pesquisa feita com estudos de caso, e que vista daquele que vive a situação concreta. A fenomeno-estes poderiam, trazendo à luz os processos sociais, logia quer atingir a essência dos fenómenos, ultrapas-conduzir a indicadores estatísticos mais adequados. sando suas aparências imediatas. O pensamento É preciso destacar que a sociologia da Escola de fenomenológico traz para o campo de estudo da socieda-Chicago abriu caminhos para a sociologia como um de o mundo da vida cotidiana, onde o homem se situatodo, principalmente no que diz respeito à utilização com suas angústias e preocupações. A etnometodologia de métodos e técnicas de pesquisa qualitativa. O tra- apóia-se nos métodos fenomenológicos e hermenêuticosbalho de campo tornou-se uma prática de pesquisa cor- com o objetivo de compreender o dia-a-dia do homem co- rente também na sociologia e não apenas na antropo- mum na sociedade complexa. Harold Garfínkel estabele- logia. Também proporcionou vários temas de pesquisa ceu as bases metodológicas e o quadro conceituai da à sociologia contemporânea e desenvolveu novas cor- etnometodologia em Studies in Ethnomethodology, pu- rentes teóricas, como as teorias do rótulo e do desvio. blicado em 1967 nos EUA. Garfínkel define sua teoria Dentre os estudos mais representativos desta corrente como uma forma de compreender a prática artesanal da estão os de Howard Becker e Erving Goffman. Outsi- vida cotidiana, interpretada já numa primeira instância ders: studies in the sociology of deviance (1963), de pelos atores sociais. A etnometodologia procura desco- Howard Becker, sobre músicos profissionais fumantes brir as práticas e representações segundo as quais as pés-
  18. 18. 32 / Mirian Goldenbergsoas negociam, cotídianamente, a sua inserção nos gru-pos A sociologia de Garfinkel repousa sobre o reconhe-cimento da capacidade reflexiva e interpretativa de todoator social. Estas duas escolas, a fenomenologia e aetnometodologia, inserem-se na tradição metodológicaqualitativa ao tentar ver o mundo através dos olhos dosatores sociais e dos sentidos que eles atribuem aos obje-tos e às ações sociais que desenvolvem. ESTUDOS DE CASO O termo estudo de caso vem de uma tradição de pes- quisa médica e psicológica, na qual se refere a uma análise detalhada de um caso individual que explica a dinâmica e a patologia de uma doença dada. Este mé- todo supõe que se pode adquirir conhecimento do fenó- meno estudado a partir da exploração intensa de um único caso. Adaptado da tradição médica, o estudo de caso tornou-se uma das principais modalidades de pes- quisa qualitativa em ciências sociais. O estudo de caso não é uma técnica específica, mas uma análise holística, a mais completa possível, que considera a unidade so- cial estudada como um todo, seja um indivíduo, uma família, uma instituição ou uma comunidade, com o objetivo de compreendê-los em seus próprios termos6. O estudo de caso reúne o maior número de informa- ções detalhadas, por meio de diferentes técnicas de pes- quisa, com o objetivo de apreender a totalidade de uma 6 Uma das dificuldades do estudo de caso decorre do fato de a totalidade pesquisada ser uma abstração científica construída em função de um problema a ser investigado. Torna-se difícil traçar os limites do que deve ou não ser pesquisado já que não existe limite inerente ou intrínseco ao objeto.
  19. 19. 34 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 35situação e descrever a complexidade de um caso con- não são padronizados e não existe nenhuma regra ob-creto. Através de um mergulho profundo e exaustivo jetiva que estabeleça o tempo adequado de pesquisa,em um objeto delimitado, o estudo de caso possibilita a um estudo de caso pode durar algumas semanas oupenetração na realidade social, não conseguida pela muitos anos. O pesquisador deve estar preparado paraanálise estatística. lidar com uma grande variedade de problemas teóri- Diferente da "neutra" sociologia das médias esta- cos e com descobertas inesperadas, e, também, paratísticas, em que as particularidades são removidas reorientar seu estudo. E muito frequente que surjampara que se mostre apenas as tendências do grupo, no novos problemas que não foram previstos no inícioestudo de caso as diferenças internas e os comporta- da pesquisa e que se tornam mais relevantes do quementos desviantes da "média" são revelados, e não as questões iniciais.escondidos atrás de uma suposta homogeneidade. Uma proposta de Pierre Bourdieu é "boa para pen-Moacir Palmeira7 mostra que a pesquisa quantitati- sar" a utilização do estudo de caso em ciências sociais.va pressupõe uma padronização e se ilude com a ideia Bourdieu, em Introdução a uma sociologia reflexiva,de que questões formalmente idênticas tenham o mes- explica a importância da "interrogação sistemática demo significado para indivíduos diferentes. A observa- um caso particular" para retirar dele as propriedades ção direta, diz o autor, apresenta a vantagem gerais ou invariantes, ocultas "debaixo das aparências metodológica de permitir um acompanhamento mais de singularidade". prolongado e minucioso das situações. Essa técnica, "É ele [o raciocínio analógico] que permite mer- complementada pelas técnicas de entrevista em pro- gulharmos completamente na particularidade do fundidade, revela o significado daquelas situações caso estudado sem que nela nos afoguemos, como faz para os indivíduos, que sempre é mais amplo do que a idiografia empirista, e realizarmos a intenção de aquilo que aparece em um questionário padronizado. generalização, que é a própria ciência, não pela apli- O tipo de dados e de procedimentos de pesquisa que cação de grandes construções formais e vazias, mas normalmente se relacionam com o método de estudo por essa maneira particular de pensar o caso par- de caso, como a observação participante e as entrevis- ticular que consiste em pensá-lo verdadeiramente tas em profundidade, têm suas origens em uma tradi- como tal. Este modo de pensamento realiza-se de ção de pesquisa antropológica nas sociedades "pri- maneira perfeitamente lógica pelo recurso ao méto- mitivas". do comparativo, que permite pensar relacionalmente Não é possível formular regras precisas sobre as um caso particular constituído em caso particular técnicas utilizadas em um estudo de caso porque cada do possível."8 entrevista ou observação é única: depende do tema, do pesquisador e de seus pesquisados. Como os dados 8 Moacir Palmeira. "Emprego e mudança sócio-econômica no Nordeste" Pierre Bourdieu. "Introdução a uma sociologia reflexiva" em O poder em Anuário antropológico 76. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977. simbólico. Lisboa: Difel, 1989. pp. 32-33 (grifos do autor).
  20. 20. A Arte de Pesquisar / 37 fia", conhecer o social partindo-se da especificidade irredutível de uma vida individual. Ou, como afirma Norman Denzin10, inspirado em Sartre, o homem é "um singular universal". Aspásia Camargo, ao defender a utilização do "méto- do biográfico" para estudar a elite política brasileira, lem- bra que os ganhos iniciais dos estudos de História de Vida podem ser identificados em pesquisas sobre o comporta- mento desviante desenvolvidas pela Escola de Chicago. O MÉTODO BIOGRÁFICO EM A autora, ao adotar a abordagem de História de Vida, concentrou-se em estudar o que chamou de inner circle, CIÊNCIAS SOCIAIS um pequeno número de pessoas que formulam e im- plementam políticas estratégicas. Para ela, reconstituir suas Histórias de Vida é o melhor caminho para conhe- cer estes indivíduos que tomam decisões estratégicas, suas origens, seus instrumentos para controlar e manter o poder, seus valores e interesses. Uma das dificuldadesA utilização do método biográfico em ciências sociais desta abordagem, apontada pela autora, é que se limitavem, necessariamente, acompanhada de uma discussão àquelas pessoas que "querem falar". Para muitos mem-mais ampla sobre a questão da singularidade de um in- bros da elite, o silêncio e a discrição são a regra poisdivíduo versus o contexto social e histórico em que está "quanto mais destacados e politicamente ativos forem osinserido. Para Franco Ferrarotti9, por exemplo, cada vida atores, mais conscientes são também do risco de conce-pode ser vista como sendo, ao mesmo tempo, singular e der informações verdadeiras sobre seu próprio desem-universal, expressão da história pessoal e social, repre- penho ou de seus pares"11. A autora aponta como seussentativa de seu tempo, seu lugar, seu grupo, síntese da melhores informantes os políticos aposentados, os exclu-tensão entre a liberdade individual e o condicionamen- ídos, os exilados, os perdedores: aqueles que, ao contrá-to dos contextos estruturais. Portanto, cada indivíduo é rio de temer o interesse do pesquisador, procuram de-uma síntese individualizada e ativa de uma sociedade, nunciar injustiças, traições, corrupção e os interesses do uma reapropriação singular do universo social e histó- grupo. rico que o envolve. Se cada indivíduo singulariza em seus atos a universalidade de uma estrutura social, é 10 Norman K. Denzin. "Interpretando as vidas das pessoas comuns: Sartre, possível "ler uma sociedade através de uma biogra- Heidegger e Faulkner" em Dados-Revista de Ciências Sociais, vol. 27, nfi l, 1984. p. 30.9 "Aspásia Camargo. "Os usos da História Oral e da História de Vida: Traba- Franco Ferrarotti. Histoire et Histoires de Vie: lê méthode biographique lhando com elites políticas" em Dados-Revista de Ciências Sociais, vol. 27,dans lês sciences sociales. Paris: Librairie dês Méridiens, 1983. nfi l, 1984. p. 14.
  21. 21. 38 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 39 A autora propõe que se supere a dicotomia determi- que o liga aos outros homens, limitando o que é possí- vel decidir ou fazer. Elias busca compreender como onismo e livre-arbítrio, como princípios conflitantes que homem que se tornou o "símbolo do maior prazer mu-objetivam explicar o desempenho individual e a ação sical que o mundo conhece" encontrou uma morte pre-social, para enxergar nas trajetórias singulares o re- matura. Analisa os dois elementos que considera fun-flexo das condições históricas e culturais em que se damentais para explicar o curso trágico da vida deinserem. A abordagem de História de Vida cria "um Mozart: a relação com o pai e os conflitos com a aristo-tipo especial de documento no qual a experiência pes- cracia de corte.soal entrelaça-se à ação histórica, diluindo os antago- Elias revela que as razões pelas quais Mozart senismos entre subjetividade e objetividade"12. O objeti- sentiu um fracasso só podem ser entendidas conside-vo é estabelecer uma clara articulação entre biografia rando-se o conflito existente na Áustria, e em quaseindividual e seu contexto histórico e social. Ao tomar toda a Europa da segunda metade do século XVIII, en- como exemplo algumas das trajetórias mais significa- tre os padrões de uma classe mais antiga, a aristocra- tivas da elite política dos anos 30, a autora afirma que cia de corte, e os de outra, a burguesia em ascensão. vê, em cada uma delas, "o reflexo perfeito das condi- Na geração de Mozart, um compositor que quisesse ter ções históricas e culturais do período, sem no entanto sua música reconhecida e garantir a subsistência de- perder seu caráter singular e típico"13. pendia de um cargo numa corte. Elias lembra que os Um estudo exemplar para discutir a relação indiví- músicos eram tão indispensáveis nos palácios dos prín- duo e sociedade a partir de uma análise de biografia é o cipes quanto pasteleiros, cozinheiros e criados: tinham de Norbert Elias, Mozart: sociologia de um génio1*. o mesmo status na hierarquia da corte. Esta análise é uma importante referência teórica para Ao apresentar o modelo das estruturas sociais em compreender o que uma determinada trajetória diz so- que vivia um músico no século XVIII — e a posição bre o momento histórico, cultural e político em que dominante dos padrões cortesãos de comportamento, ocorreu, sobre comportamentos e valores que reflete sentimento, gosto musical e vestuário —, Elias de- ou antecipa e as condições sociais existentes para o monstra o que Mozart era capaz de fazer como indiví- aparecimento de um artista singular. duo, e o que não era capaz de fazer, apesar de sua gran- Norbert Elias estuda não apenas Mozart, mas a deza e singularidade. Mozart viveu o drama de um ar- posição que o compositor ocupou na sociedade de sua tista burguês na sociedade de corte: a identificação com época, as determinações que pesaram sobre seu desti- o gosto cortesão e a vontade de ter sua música reco- no pessoal e os constrangimentos que sofreu no exer- nhecida pela nobreza; e o ressentimento pela humilha- cício de sua criação. O autor pensa a liberdade de cada ção de ser tratado como serviçal pelos aristocratas da indivíduo inscrita numa cadeia de interdependências corte. Ao contrário do pai, nunca aceitou esta posição e, consciente do valor de sua música, queria ser reco- 12 Idem, p. 16 (grifos da autora). nhecido como igual (ou superior) por quem o tratava como inferior. "Norbèrt Elias. Mozart: sociologia de um génio. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
  22. 22. 40 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 41 Norbert Elias chama a atenção para a curiosa con- Para Norbert Elias, o caso individual de Mozart temtradição dos desejos dos outsiders: a tentativa de rom- uma importância paradigmática: interessa a todos com-per com o establishment e, ao mesmo tempo, a luta pelo preender como surge um talento criativo singular. Nor-reconhecimento e aceitação deste establishment. Para bert Elias lembra que a "sociologia de um génio" não éser um músico da corte, além de qualificações musicais, feita para reduzir ou destruir sua fama, mas para melhorera necessário assimilar o padrão de comportamento compreender sua dimensão humana. O autor, ao forne-cortesão. Mas Mozart não tinha as habilidades necessá- cer instrumentos para compreender como um indivíduorias para conquistar os nobres: odiava bajulações, era se transforma, após sua morte, em "génio", permite pen-franco, direto e até rude com as pessoas de quem depen- sar como indivíduos se transformam em modelos para asdia. Com pouco mais de 20 anos, desistiu de seu posto demais pessoas de suas sociedades e de suas épocas. Eliasrelativamente seguro de regente da orquestra e orga- demonstra que somente condições muito particulares denista da corte de Salzburgo e foi ganhar a vida como existência (sociais, históricas, familiares e psicológicas)artista autónomo, dando aulas de música e concertos permitiram o reconhecimento ãa genialidade de Mozart.para o público vienense, vendendo seu talento e suas Sua análise contribui para questionar a visão essencia-obras em um mercado incipiente, predominantemente lista que percebe o indivíduo como encarnação de um gé-composto de aristocratas da corte. nio, como algo que está contido em si próprio, inexplicável, Elias mostra que o conceito de génio é aplicado a hereditário, que vem do berço. Elias demonstra que o in-Mozart com os olhos do presente, já que esta noção sur- divíduo se faz por suas atividades e pelas condições quegiu muito depois de sua morte, com o romantismo. Na dispõe para realizá-las no contexto histórico e social emsua época, era muito difícil se estabelecer como artista que existiu. Norbert Elias ajuda a compreender a vidaautónomo e conseguir "dar rédea livre às suas fantasi- não só de Mozart, mas a trajetória de outros indivíduosas", como Mozart desejava. Elias, analisando a mudan- considerados génios, revolucionários, heróis ou loucos.ça na posição social do artista — do patronato ao mer- Elias, um estudioso que combina sólida formaçãocado livre —, lembra que Beethoven, nascido em 1770, em filosofia, psicologia e sociologia, mostra que o casoquase 15 anos depois de Mozart, conseguiu com muito de Mozart é "bom para pensar" a relação de um indiví-menos problemas libertar-se da dependência do duo com o mundo em que vive e contribui para trans-patronato da corte, impor seu gosto a um público formar.pagante e alcançar sucesso com a venda de suas compo- Foi a partir desta perspectiva que desenvolvi mi-sições para os editores. Mozart antecipou atitudes e sen- nha tese de doutorado sobre a trajetória de Leila Diniz,timentos de um tipo posterior de artista: o artista livre, buscando entender como ela se tornou um modelo paraque confia acima de tudo em seu talento, numa época as pessoas de sua época. Ao tomar emprestado o títu-em que a estrutura social não oferecia tal lugar para os lo da minha tese de uma música de Rita Lee, Todamúsicos. Mozart nasceu numa sociedade que não per- mulher é meio Leila Diniz, tento demonstrar que aomitia a existência de um artista individualizado e inde- analisar a vida de Leila Diniz estou analisando, tam-pendente, "foi um génio antes da época dos génios". bém, o "campo de possibilidades" e as questões colo-
  23. 23. 42 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 43cadas para as mulheres de sua geração, particular- buindo grande importância às interpretações que asmente na cidade do Rio de Janeiro. Analiso, através pessoas fazem de sua própria experiência como expli-de uma trajetória singular, as transformações dos cação para o comportamento social. Defendendo a uti-papéis femininos ocorridos na década de 60, princi- lização de outras fontes, para serem cotejadas às His-palmente no que diz respeito à sexualidade, conju- tórias de Vida, Becker utiliza a imagem do mosaicogalidade e maternidade. Inicio com a desconstrução para pensar sobre este tipo de método. Para ele, cadado mito Leila Diniz, através de uma análise minucio- peça acrescentada num mosaico contribui para a com-sa de cinco materiais biográficos (dois livros, dois preensão do quadro como um todo. O método biográfi-vídeos e um filme feito sobre a vida da atriz). Inspira- co pode acrescentar a visão do lado subjetivo dos pro-da em Michael Pollak, realizei entrevistas em profun- cessos institucionais estudados, como as pessoas con-didade com os familiares de Leila Diniz, buscando cretas experimentam estes processos e levantar ques-apreender o "não-dito" no material biográfico. To- tões sobre esta experiência mais ampla.mando como referência os estudos de Pierre Bourdieu, A utilização do método biográfico em ciências sociaiscomparei a trajetória artística de Leila Diniz com a é uma maneira de revelar como as pessoas universalizam,trajetória de Cacilda Becker. Através destas duas atri- através de suas vidas e de suas ações, a época históricazes, discuto o campo do teatro, cinema e televisão no em que vivem.Brasil, do início do século até a década de 70. Howard Becker15 tem algumas reflexões interessan-tes sobre a utilização do método biográfico nas ciên-cias sociais. Este autor considera que a principal dife-rença entre o método biográfico nas ciências sociais eas biografias e autobiografias tradicionais está na pers-pectiva a partir da qual o trabalho é realizado e nosmétodos utilizados. O pesquisador, alerta Becker, deveestar consciente do fato de que as biografias, autobio-grafias e Histórias de Vida não revelam a totalidadeda vida de um indivíduo, mas apenas uma versão sele-cionada de modo a apresentá-lo como o retrato de sique prefere mostrar aos outros, ignorando o que podeser trivial ou desagradável para ele, embora de grandeinteresse para a pesquisa. Howard Becker enfatiza o valor das biografias, atri-16 Howard Becker. Métodos de pesquisa em ciências sociais. São Paulo:Hucitec, 1994.
  24. 24. A Arte de Pesquisar / 45 tar o bias do pesquisador. Recusam a suposta neutra- lidade do pesquisador quantitativista e propõem que o pesquisador tenha consciência da interferência de seus valores na seleção e no encaminhamento do pro- blema estudado. A tarefa do pesquisador é reconhe- cer o bias para poder prevenir sua interferência nas conclusões. Para os autores citados, não existe outra forma para excluir o bias nas ciências sociais do que enfrentar as valorações introduzindo as premissasOBJETIVIDADE, REPRESENTATIVIDADE valorativas de forma explícita nos resultados da pes- E CONTROLE DE BiAS16 NA quisa. Não podendo ser realizada a objetividade nas pes- PESQUISA QUALITATIVA quisas sociais, e o conhecimento objetivo e fidedigno permanecendo como o ideal da ciência, o pesquisador deve buscar o que Pierre Bourdieu chama de objeti- vação: o esforço controlado de conter a subjetividade. Trata-se de um esforço porque não é possível realizá- lo plenamente, mas é essencial conservar-se esta meta,Muitos cientistas sociais acusam a pesquisa qualitati- para não fazer do objeto construído um objeto inventa-va de não apresentar padrões de objetividade, rigor e do. A simples escolha de um objeto já significa um jul-controle científico, já que não possui testes adequados gamento de valor na medida em que ele é privilegiadode validade e fidedignidade, assim como não produz como mais significativo entre tantos outros sujeitos àgeneralizações que visem à construção de um conjunto pesquisa. O contexto da pesquisa, a orientação teóri-de leis do comportamento humano. Outra crítica diz ca, o momento sócio-histórico, a personalidade do pes-respeito à falta de regras de procedimento rigorosas quisador, o ethos do pesquisado, influenciam o resul-para guiar as atividades de coleta de dados, o que pode tado da pesquisa. Quanto mais o pesquisador tem cons-dar margem para que o bias do pesquisador venha a ciência de suas preferências pessoais mais é capaz demodelar os dados que coleta, que, portanto, não podem evitar o bias, muito mais do que aquele que trabalhaser usados como evidência científica. com a ilusão de ser orientado apenas por considera- Cientistas sociais como Max Weber, Pierre Bour- ções científicas.dieu e Howard Becker acreditam ser fundamental a Wright Mills, em A imaginação sociológica17, pro-explicitação de todos os passos da pesquisa para evi- põe que o cientista social seja autoconsciente, reco- nhecendo que, necessariamente, seus valores estão16 A utilização do termo em inglês é comum entre os cientistas sociais. Podeser traduzido como viés, parcialidade, preconceito. "C. Wright Mills. A imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.
  25. 25. 46 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 47envolvidos na escolha dos problemas estudados e, por durante um longo período de tempo, o que torna maisisso, devem ser permanentemente explicitados. E pre- difícil que elas fabriquem o seu comportamento durantecisamente quando se pretende uma objetividade ab- toda a duração da pesquisa. A pesquisa qualitativa,soluta, quando se crê ter recolhido fatos objetivos, através da observação participante e entrevistas emquando se eliminam dos resultados da pesquisa to- profundidade, combate o perigo de bias, porque tornados os traços da implicação pessoal no objeto de es- difícil para o pesquisado a produção de dados que fun-tudo, que se corre mais o risco de se afastar da obje- damentem de modo uniforme uma conclusão equivo-tividade possível. cada, e torna difícil para o pesquisador restringir suas Howard Becker é um dos cientistas sociais que mais observações de maneira a ver apenas o que sustentatem se preocupado em refletir sobre a questão da obje- seus preconceitos e expectativas.tividade nas ciências sociais. Para refutar a pretensa Para Becker, as técnicas de pesquisa qualitativaneutralidade dos surveys, Becker levanta o problema, permitem um maior controle do bias do pesquisadorbastante frequente, dos entrevistadores que induzem do que as da pesquisa quantitativa. Por meio, porou falsificam seus dados com respostas imaginárias exemplo, da observação participante, por um longopara entrevistas que nunca foram realizadas. Mas se o período de tempo, o pesquisador coleta os dados atra-bias do pesquisador pode afetar os dados coletados em vés da sua participação na vida cotidiana do grupo oupesquisas mais controladas, não afetará muito mais da organização que estuda, observa as pessoas paraem pesquisas qualitativas, onde o pesquisador tem um ver como se comportam, conversa para descobrir asnúmero maior de oportunidades de escolher apenas as interpretações que têm sobre as situações que obser-evidências que lhe são convenientes? Os pesquisado- vou, podendo comparar e interpretar as respostasres qualitativos têm muito mais liberdade do que os dadas em diferentes situações. Ele terá dificuldade deentrevistadores de surveys e podem ter vários tipos de ignorar as informações que contrariam suas hipó-atitudes que vão desde sorrisos até intervenções mais teses, do mesmo modo que as pessoas que estuda te-diretas. Como, então, podem ser consideradas objeti- riam dificuldade de manipular, o tempo todo, impres-vas as conclusões baseadas em dados que podem ter sões que podem afetar sua avaliação da situação. Ob-sido assim coletados? servações numerosas feitas durante um longo perío- Becker lembra que o entrevistado de um survey é do de tempo ajudam o pesquisador a se proteger con-abordado por alguém que nunca viu antes e espera nun- tra seu bias, consciente ou inconsciente, contra "verca mais ver de novo. Uma vez que ele não é constrangi- apenas o que quer ver".do por nada além das pressões que surgem na situação Becker também discute a questão do bias do pes-imediata da entrevista, estas pressões têm grande pro- quisador ao tratar da hierarquia de credibilidade dosbabilidade de exercer um efeito de bias sobre o que ele informantes da pesquisa qualitativa. Em geral, sãodiz. Já as pessoas que um pesquisador qualitativo es- entrevistados aqueles que estão nos níveis superio-tuda, em geral, são observadas de diferentes maneiras res de uma organização, que parecem "saber mais"
  26. 26. 48 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 49sobre o problema estudado, do que aqueles que estão cita e sistemática de todos os passos do processo, des-nos níveis inferiores. Uma das maneiras de evitar este de a seleção e definição dos problemas até os resulta-bias é entrevistar todos os envolvidos, comparando dos finais pelos quais as conclusões foram alcançadasas versões dos superiores com as dos subordinados, e fundamentadas. Becker chama esta solução para oevitando, conscientemente, ficar a favor de um lado problema da apresentação dos resultados da pesquisaou de outro. Outra maneira de evitar o bias é assu- qualitativa de "história natural" das conclusões. Semir, também conscientemente, "de que lado o pesqui- este método for empregado, outros estudiosos serãosador está", explicitando esta escolha nas conclusões capazes de acompanhar os detalhes da análise e verda pesquisa. como e em que bases o pesquisador chegou às suas con- Outro possível bias decorre do fato da pesquisa clusões. Isso daria, então, a oportunidade de outros pes-ficar restrita aos indivíduos e organizações que per- quisadores fazerem seus próprios julgamentos quantomitam ser pesquisados, deixando de lado aqueles que à adequação da prova e ao grau de confiança a serse recusam a ser estudados. Este fato pode ter sérias atribuído à conclusão.implicações nos resultados das pesquisas, já que aque- Na discussão sobre a representatividade dos dadosles que resolvem falar devem ter motivações e inte- coletados através de uma pesquisa qualitativa estáresses bastante diversos daqueles que se recusam a embutida a questão da possibilidade (ou não) de suafalar. Mais uma vez, a única forma de tentar minimi- generalização, a partir do modelo das ciências natu-zar este problema é explicitando detalhadamente os rais que se impõe como paradigma. Nas abordagenslimites das escolhas feitas. Além disso, Becker enfa- que privilegiam a compreensão do significado dos fa-tiza a necessidade de tornar explícitos os resultados tos sociais, a questão da representatividade dos dadosnegativos dos estudos, de mostrar as dificuldades e é vista de forma diferente do positivismo.os (dês) caminhos percorridos pelo pesquisador até Partindo do princípio de que o ato de compreenderchegar aos resultados de sua pesquisa. Em geral, os está ligado ao universo existencial humano, as abor-pesquisadores "escondem" as suas dificuldades em dagens qualitativas não se preocupam em fixar leis paraseus relatórios de pesquisa, preferindo mostrar ape- se produzir generalizações. Os dados da pesquisa qua-nas "o que deu certo". litativa objetivam uma compreensão profunda de cer- Diferentemente dos dados estatísticos, que podem tos fenómenos sociais apoiados no pressuposto da maiorser resumidos em tabelas, os dados da pesquisa quali- relevância do aspecto subjetivo da ação social. Contra-tativa não se prestam a tal resumo. Um dos problemas põem-se, assim, à incapacidade da estatística de darda pesquisa qualitativa é que os pesquisadores geral- conta dos fenómenos complexos e da singularidade dosmente não apresentam os processos através dos quais fenómenos que não podem ser identificados através desuas conclusões foram alcançadas. O pesquisador deve questionários padronizados.tornar essas operações claras para aqueles que não par- Enquanto os métodos quantitativos supõem umaticiparam da pesquisa, através de uma descrição explí- população de objetos comparáveis, os métodos qualita-
  27. 27. 50 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 51tivos enfatizam as particularidades de um fenómeno ponde, já que os pesquisadores podem ter se preocupa-em termos de seu significado para o grupo pesquisado. do com questões e enfoques diferentes. A diferença deÉ como um mergulho em profundidade dentro de um resultados indica não a falta de objetividade dos pes-grupo "bom para pensar" questões relevantes para o quisadores mas que estavam observando coisas dife-tema estudado. rentes a partir de enfoques, teóricos e metodológicos, O reconhecimento da especificidade das ciências diferentes. Não se deve esperar resultados semelhan-sociais conduz à elaboração de um método que permi- tes e sim que estes resultados sejam compatíveis, queta o tratamento da subjetividade e da singularidade as conclusões de um estudo não contradigam, implíci-dos fenómenos sociais. Com estes pressupostos bási- ta ou explicitamente, as de outro.cos, a representatividade dos dados na pesquisa qua- Seja qual for o método, qualitativo ou quantitati-litativa em ciências sociais está relacionada à sua vo, ele sempre dirige sua atenção apenas para certoscapacidade de possibilitar a compreensão do signi- aspectos dos fenómenos, os que parecem importantesficado e a "descrição densa" dos fenómenos estuda- para o pesquisador em função de suas pressuposições.dos em seus contextos e não à sua expressividade nu- A totalidade de qualquer objeto de estudo é uma cons-mérica. trução do pesquisador, definida em termos do que lhe A quantidade é, então, substituída pela intensida- parece mais útil para responder ao seu problema dede, pela imersão profunda—através da observação par- pesquisa. É irreal supor que se pode ver, descrever eticipante por um período longo de tempo, das entrevis- descobrir a relevância teórica de tudo. Na verdade, otas em profundidade, da análise de diferentes fontes pesquisador acaba se concentrando em alguns pro-que possam ser cruzadas — que atinge níveis de com- blemas específicos que lhe parecem de maior impor-preensão que não podem ser alcançados através de uma tância.pesquisa quantitativa. O pesquisador qualitativo bus- Por fim, cabe assinalar as possíveis consequênci-cará casos exemplares que possam ser reveladores da as de uma interação de longo prazo com o objeto decultura em que estão inseridos. O número de pessoas é estudo, em que é difícil evitar sentimentos de amiza-menos importante do que a teimosia em enxergar a de, lealdade e obrigação, que podem provocar censu-questão sob várias perspectivas. ras nos resultados da pesquisa. O pesquisador, em suas Um motivo pelo qual as pessoas se preocupam com conclusões, corre o risco de censurar dados conside-a possibilidade de as conclusões das pesquisas qualita- rados "negativos" pelo grupo, vistos como compro-tivas não serem objetivas é que os pesquisadores às metedores de sua imagem pública ou sua auto-ima-vezes surgem com conclusões bastante diferentes a res- gem. Este bias pode ser evitado reproduzindo cuida-peito de organizações ou comunidades supostamente dosamente um relato completo de todos os eventos semelhantes. Se os métodos são objetivos, pergunta-se observados, em momentos diferentes do dia ou ano, Becker, dois estudos do mesmo grupo não deveriam procurando membros de grupos diferentes da comu- produzir resultados semelhantes? Não, ele mesmo res- nidade ou organização. Observar aspectos diferentes,
  28. 28. 52 / Mirian Goldenbergsob enfoques diferentes, pode não só contribuir parareduzir o ôias da pesquisa como, também, propiciaruma compreensão mais profunda do problema es-tudado. PESQUISA QUALITATIVA: PROBLEMAS TEÓRICO-METODOLÓGICOS Grande parte dos problemas teórico-metodológicos da pesquisa qualitativa é decorrente da tentativa de se ter como referência, para as ciências sociais, o modelo positivista das ciências naturais, não se levando em con- ta a especificidade dos objetos de estudo das ciências sociais. Os dados qualitativos consistem em descrições detalhadas de situações com o objetivo de compreender os indivíduos em seus próprios termos. Estes dados não são padronizáveis como os dados quantitativos, obri- gando o pesquisador a ter flexibilidade e criatividade no momento de coletá-los e analisá-los. Não existindo re- gras precisas e passos a serem seguidos, o bom resulta- do da pesquisa depende da sensibilidade, intuição e ex- periência do pesquisador. Mesmo os pesquisadores que usam métodos de pesquisa qualitativa criticam a falta de regras de procedimento rigorosas para guiar as ati- vidades de coleta de dados e a ausência de reflexão teóri- ca, o que pode dar margem para que o bias do pesquisa- dor venha a modelar os dados que coleta.
  29. 29. 54 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 55 Ruth Cardoso18 apontou para a falta de uma críti- claras que definam o papel do pesquisador no campoca teórico-metodológica consistente no campo das desde o momento de sua inserção.ciências sociais e para algumas das armadilhas e li- Mariza Peirano, em A favor da etnografia21, afir-mitações das pesquisas qualitativas. A autora descre- ma que nossa tradição etnográfica se baseia no prin-ve um "indisfarçado pragmatismo (muitas vezes con- cípio de que a criatividade pode superar a falta defundido com politização)" que dominou as ciências disciplina e a carência de um ethos científico. Não sesociais contemporâneas e desqualificou o debate so- pode, diz a autora, ensinar a fazer pesquisa de cam-bre os compromissos teóricos que cada método exige. po como se ensinam os métodos estatísticos, técni-Eunice Durham19 concorda com esta crítica ao afir- cas de surveys, aplicação de questionário. A pesqui-mar que ocorreu uma politização crescente dos estu- sa qualitativa depende da biografia do pesquisador,dos em ciências sociais, com a preocupação dos pes- das opções teóricas, do contexto mais amplo e dasquisadores em descobrirem uma aplicação imediata e imprevisíveis situações que ocorrem no dia-a-dia dadireta dos resultados de sua pesquisa que beneficie a pesquisa.população estudada. Sem deixar de ver como necessá- Um dos principais problemas a ser enfrentado naria a identificação do pesquisador com seu objeto, por- pesquisa qualitativa diz respeito à possível conta-que sem ela é impossível a compreensão "de dentro", minação dos seus resultados em função da persona-Durham adverte para o risco de se explicar a socieda- lidade do pesquisador e de seus valores. O pesquisa-de através das categorias "nativas", sem uma análise dor interfere nas respostas do grupo ou indivíduocientífica sobre as mesmas e sem uma reflexão teóri- que pesquisa. A melhor maneira de controlar estaca e metodológica sobre a postura militante do cien- interferência é tendo consciência de como sua pre- sença afeta o grupo e até que ponto este fato podetista social. ser minimizado ou, inclusive, analisado como dado Aaron Cicourel20 já havia advertido para o perigo da pesquisa. de o pesquisador ficar tão envolvido com o grupo estu- Maria Isaura Pereira de Queiroz enfatiza que a dado que poderia se tornar um "nativo", sem compre- omissão de fatos, de ocorrências, de detalhes pode ser ender as consequências desta "conversão" para os ob- tão significativa quanto sua inclusão nos depoimen-jetivos da pesquisa, como, por exemplo, "tornar-se cego tos. Para a autora, o importante não é verificar se o para muitas questões importantes cientificamente". entrevistado conhece ou não o fato, "mas sim buscar Cicourel aponta para as faltas de regras processuais saber por que razão ele o havia esquecido, ou o havia18 ocultado, ou simplesmente dele não tivera registro"22. Ruth C. L. Cardoso. "Aventuras de antropólogos em campo ou comoescapar das armadilhas do método" em A aventura antropológica. Rio deJaneiro: Paz e Terra, 1986.19 21 Eunice R. Durham. "A pesquisa antropológica com populações urba- 22 MarizaPeirano. A favor da etnografia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995.nas" em A aventura antropológica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. Maria Isaura Pereira de Queiroz. Variações sobre a técnica de gravador20 no registro da informação viva. (Col. Textos, 4). São Paulo: CERU e Aaron Cicourel. "Teoria e método em pesquisa de campo" em Desven-dando máscaras sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980. FFLCH/USR 1983. p. 76.
  30. 30. 56 / Mirian Goldenberg A Arte de Pesquisar / 57O pesquisador deve estabelecer um difícil equilíbrio trevistas: interesse real e respeito pelos seus pesqui-para não ir além do que pode perguntar mas, também, sados, flexibilidade e criatividade para explorar no-não ficar aquém do possível. Além disso, a memória é vos problemas em sua pesquisa, capacidade de demons-seletiva, a lembrança diz respeito ao passado mas se trar compreensão e simpatia por eles, sensibilidadeatualiza sempre a partir de um ponto do presente. As para saber o momento de encerrar uma entrevista oulembranças não são falsas ou verdadeiras, simplesmen- "sair de cena" e, como lembra Paul Thompson24, prin-te contam o passado através dos olhos de quem o cipalmente, disposição para ficar calado e ouvir.vivenciou. Um trabalho de negociação e compromisso, Thompson, ao analisar a situação de entrevista, afir-como afirma Pollak, que consiste em interpretar, orde- ma que quem não consegue parar de falar nem resis-nar ou rechaçar (temporária ou definitivamente) toda tir à tentação de discordar do informante e de imporexperiência vivida de maneira a torná-la coerente com suas próprias ideias, irá obter informações que sãouma identidade construída: "U sagit, en un mot, inúteis ou enganosas.dintégrer lê présent dans lê passe"23, Howard Becker admite que, no lugar de procedi- Ainda sobre as entrevistas em profundidade, é pre- mentos uniformes, prefere um modelo artesanal deciso apontar algumas de suas inúmeras limitações e ciência, no qual cada pesquisador produz as teorias edificuldades, como, por exemplo, o constrangimento técnicas necessárias para o trabalho que está sendoque pode causar ao pesquisado o fato de ter suas in- feito. Segundo Becker, os cientistas sociais podem eformações gravadas ou anotadas pelo pesquisador. devem improvisar soluções para os seus problemasEsta é uma "negociação" que deve ser feita desde logo, de pesquisa, sentindo-se livres para inventar os mé-para minimizar o problema. O pesquisador deve ela- todos capazes de responder às suas questões. Beckerborar um roteiro de questões claras, simples e dire- alerta que a escolha das teorias que orientam a pes-tas, para não se perder em temas que não interessam quisa também está contaminada pelas preferências eao seu objetivo. Um problema frequente é o da con- dificuldades do pesquisador, já que uma organizaçãoservação do material coletado. Muitos pesquisadores ou grupo pode ser visto de muitas maneiras diferen-qualitativos não se preocupam com o registro minu- tes, nenhuma delas certa ou errada, visto que são al-cioso e a conservação dos documentos ou gravações, ternativas possíveis e talvez complementares. Não éimpossibilitando que outros pesquisadores tenham possível formular regras precisas sobre as técnicasacesso aos seus dados ou que ele próprio possa retomá- de pesquisa qualitativa porque cada entrevista oulos no futuro. observação é única: depende do tema, do pesquisador Existem algumas qualidades essenciais que o pes- e de seus pesquisados.quisador deve possuir para ter sucesso em suas en- A delimitação do objeto de estudo deve ser clara-^Michael Pollak. "Lê Témoignage" em Actes de Ia Recherche en Sciences 24 Paul Thompson. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz eSociales (62-63). Terra, 1992.

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