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CIÊNCIA E FILOSOFIA PARA CONHECER E INTERPRETAR A
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Fernando Alcoforado*
A crítica de Marcelo Gleiser sobre a ob...
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Chegamos a uma cisão entre ciência e filosofia na qual se acredita que é possível
produzir ciência de alta qualidade sem...
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Ciência e filosofia para conhecer e interpretar a realidade

  1. 1. 1 CIÊNCIA E FILOSOFIA PARA CONHECER E INTERPRETAR A REALIDADE Fernando Alcoforado* A crítica de Marcelo Gleiser sobre a obra de Lawrence Krauss (A Universe from mothing. New York: Free Press, 2012) se insere no confronto entre a fé e a ciência que existe há séculos e que, provavelmente, irá até o final dos tempos. Marcelo Gleiser se posiciona contrário a Krauss porque acha que a ciência não deve buscar respostas que se inserem no campo teológico e vice-versa (Ver o texto Ciência x Religião – a opinião de Marcelo Gleiser no website http://professored.wordpress.com/2009/07/04/ciencia-x- religiao-a-opiniao-de-marcelo-gleiser/). Marcelo Gleiser se apoia na crítica de David Albert (professor de Filosofia, Diretor do Programa Philosophical Foundations of Phisics na Universidade Columbia de New York) e autor dos livros Quantum Mechanics and Experience e Time and Chance) ao livro já citado de Lawrence Krauss. Ao ler o artigo de Gleiser, constata-se as críticas ao livro de Lawrence Krauss seguintes: 1) A maior parte do livro não abordou a origem do Universo, mas tratou de outros assuntos, como a energia escura e similares, que já tinham sido cobertos em outras obras populares na física; 2) Krauss define "nada" como um "vácuo quântico", sem dar- nos razões de qual teria sido o estado padrão inicial do Universo; 3) Krauss não apresenta uma pista sobre a origem das leis da mecânica quântica; 4) A obra de Krauss está entremeada de críticas à religião e uma satisfação presunçosa de que a física explica o reduto final da religião: a origem do Universo a partir do espaço vazio. Percebe-se pelo artigo de Gleiser que a crítica de David Albert foi aguçada pela sua antipatia de ataques de Krauss sobre a fé. Trata-se, portanto, do confronto entre a fé e a ciência que existe há séculos que se manifesta nesta crítica. Em contraposição à crítica de Marcelo Gleiser e David Albert, Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio (São Paulo: Companhia das Letras) alegou que o livro de Krauss faria para a física e a cosmologia o que A Origem das Espécies fez pela biologia. Ressalte-se que Richard Dawkins é zoólogo, escritor de divulgação científica, além de ex-professor da Universidade de Oxford. Dawkins escreveu livros sobre evolução e apareceu em vários programas de televisão e rádio para falar de temas como biologia evolutiva, criacionismo e religião. Em enquete realizada pela revista Prospect em 2005, sobre os maiores intelectuais da atualidade, Richard Dawkins ficou com a terceira posição, atrás somente de Umberto Eco e Noam Chomsky. Marcelo Gleiser afirma no seu artigo publicado na Folha de S. Paulo, que “Krauss não dá bola para a antropologia cultural ou para a teologia e a filosofia. Para ele, exemplar típico da posição do "cientismo", só a ciência pode chegar a respostas úteis sobre esse tipo de questão”. Percebe-se que Gleiser valoriza muito a teologia e a filosofia, ao questionar Krauss. Ressalte-se que, historicamente, ciência e filosofia surgiram juntas e durante muito tempo se confundiram. A própria física começou como filosofia natural. À medida que o tempo passou, a ciência ganhou uma complexidade cada vez maior. Nossa compreensão do mundo e do Universo se expandiu e a ciência ficou cada vez mais distinta da filosofia. O território da ciência expandiu suas fronteiras para além das quais está a metafísica e a filosofia. Concordo que vivemos em uma época na qual os filósofos, em sua maioria, estão muito afastados dos cientistas e vice-versa.
  2. 2. 2 Chegamos a uma cisão entre ciência e filosofia na qual se acredita que é possível produzir ciência de alta qualidade sem nunca gerar qualquer pensamento filosófico novo e que seja possível filosofar sobre a realidade sem conhecer ou se reportar à ciência. Ora, em ambos os sentidos estamos cometendo erros crassos ao impedir tanto o progresso da ciência como o da filosofia. A ciência não pode avançar – ou sequer existir – sem a filosofia e vice-versa. As estruturas filosóficas constituem a ferramenta através da qual tentaremos interpretar a realidade. Assim, todo grande avanço na ciência – aquele tipo de avanço que alarga suas fronteiras – não só requer, mas consiste em uma mudança nas estruturas filosóficas através das quais pensamos a realidade. Por outro lado, em particular pelo exposto acima, a filosofia não pode ficar alheia aos avanços da ciência. À medida que a ciência avança, ela penetra em domínios que antes pertenciam à filosofia. Nossa apreensão da realidade se altera através das eras e, aos poucos, questões que antes pertenciam por excelência ao domínio do debate filosófico puro, e demarcavam até mesmo os limites do cognoscível, passam a poder ser tratadas cientificamente. Dessa forma, questões como “Que são as estrelas?”, “O que é a luz?”, “Será o Universo infinito?”, “De onde surgiram os seres humanos?”, “O tempo passa com a mesma velocidade em todos os lugares?” que em diferentes épocas já foram – e facilmente esquecemo-nos disso – questões filosóficas, hoje são tratadas pela ciência. Tal mudança de situação não impede incursões da filosofia em nenhum desses assuntos – porém é fundamental que quem se disponha a fazê-las considere – e para tanto precisará conhecê-los – os argumentos científicos relevantes. Já outras questões como “O que é o bem?”, “Por que estamos aqui?”, “Existe um Deus?”, “O futuro está predeterminado?”, ainda hoje são, eminentemente, competências da filosofia. A filosofia é mesmo mais abrangente que a ciência. No entanto, o filósofo deve perceber que as descobertas científicas revolucionárias não apenas apresentam consequências filosóficas profundas, mas mais do que isso, consistem em reformulações filosóficas, e muito bem fundamentadas. A ciência expandiu-se tanto nos últimos séculos que, muitas vezes, filósofos e cientistas perdem de vista que são atividades com uma fronteira – frequentemente nebulosa – em comum, e que quanto mais a filosofia fala sobre a realidade concreta, mais próxima ela está da ciência, assim como quanto mais a ciência se universaliza, mais próxima está da filosofia. Pretender conhecer a realidade e fazer ciência sem empregar a filosofia é como tentar construir a cobertura de um prédio antes de lançar as fundações. Porém, fazer filosofia ignorando a ciência é como estudar o problema genérico das fundações ignorando os arranha-céus que já estão construídos por aí. *Fernando Alcoforado, 73, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e
  3. 3. 3 Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.S

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