1º cap bem do seu tamanho

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1º cap bem do seu tamanho

  1. 1. UMA MENINA DO SEU TAMANHO RA uma vez uma menina. Não era uma menina E deste tamanhinho. Mas também nõo era uma menina deste tamanhõo. Era uma menina assim mais ou menos do seu tamanho. E muitas vezes ela tinha von- tade de saber que tamanho era esse, afinal de contas. Parque tinha dias que a mõe dela dizia assim: ' - Helena, você jó está muito grande para fazer uma coisa dessas. Onde já se viu uma menina do seu
  2. 2. tamanho chegar em casa assim tão suja de ficar brin- cando na lama? Venha logo se lavar. Então ela achava que já era bem grande. Mas às vezes, também, o pa¡ dela dizia assim: _ Helena, você ainda é muito pequenínínha para fazer uma coisa dessas. Onde já se viu uma menina do seu tamanho ficar brincando num galho de árvore tóo alto assim? Desça já daí. Se nõo, você pode cair. Ai' Helena achava que ela era mesmo uma bebezi- nha que não podia fazer nada sozinha. E era sempre assim. Na hora de ir ajudar no tra- balho da roça, ela já era bem grande. Na hora de ir tomar banho no río e nadar no lugar mais fundo, ela ainda era muito pequena. Na hora em que os grandes ficavam de noite conversando no terreiro até tarde, eia era pequena e tinha que ir dormir. Na hora em que es-
  3. 3. frente e grande atras. Ou grande na frente e pequena atrás. Ou de cada lado de um tamanho: por isso cada um via de um jeito, depende do pedaço dela que esti- vesse olhando. Mas ela se apalpava, se pegava, se olha- va como podia e achava que não era nada disso. Grande ou pequena, era de um tamanho só, ló isso era. Só que não sabia direito qual era. Resolveu perguntar. Mas não sabia a quem. Gente grande era grande, não podia entender dessas coisas. Tinha que ser alguém que ficasse mudando a toda hora. Quem podia ser? Bolão, claro. Só podia ser Bolão. Bolão era o brinquedo preferido de Helena. Não era muito vantagem, porque ele era o único brinque- do dela. Pelo menos, brinquedo feito. Por que brin- quedo vircido, ela tinha uma infinidade: os riscos de fazer amarelinha no chão, os seixos que ela catou no rio para o jogo das 'cinco pedrinhas, uma porção de CCIVCICOS de lenha do fogão que ela usava para fazer construções e mais um monte de coisas. Mas Bolão era especial. O amigo de todos as horas. Sempre companheiro e sem- pre diferente. Uns diasgrande, outros pequeno. Uns dias verde, outros amarelo, outros cor de laranja. Uns dias bem rechonchudo mesmo, como ele tinha sido no primeiro dia em que o pai dela ajudou a fazer e a mãe ajudou a batizar de Bolão. Mas outros dias, não tinham mamão muito redondo e ele ficava mesmo era comprido. Era até gozado, um boi tão magrela chamado Bolão. Teve até uma vez que nenhum mamoeiro do quintal es- tava com mamão, de cor nenhuma, de tamanho nenhum. Mas como o corpo do Bolão já . estava tão maduro que dai a pouco esborrachava e Helena queria porque que- ria continuar com seu Bolão, o jeito foi fazer um de abó- bora - daquelas compridas, que dão voltinhas. Ficou
  4. 4. até engraçado, imagine só, um boi de mamão feito de abóbora e com o pescoço metido a enrolado. Mas Helena gostou dele assim mesmo: u - Quando a gente gosta de alguém, não faz mal se esse alguém engorda ou emagrece, fica cabeludo ou careca. Bolão é meu amigo e pronto. E pronto mesmo. Por isso, foicom Bolão que ela foi conversar sobre o tamanho. , Sentou debaixo da árvore com o seu Boi de Mamão e começou: - Bolão, você entende de tamanho? - Entender como, Helena? _ Você sabe se as coisas e as pessoas são grandes ou pequenas? - Sei ló, Helena, é muito dificil. Eu acho que tudo está sempre mudando. As folhas, por exemplo. Quando eu ainda era só mamão e morava ló no alto do mamoei- ro, as folhas ali perto da gente eram enormes. Mas as 'folhas do pé de abóbora aqui na chão eram tão pequeni- nínhas. . . Depois que seu pai me tirou e vocês me bota- ram essas pernas, esse rabo e me fizeram essa cabeça, tudo mudou. _ - Claro que mudou, Bolão. Agora você é um Boi de Mamão. _ Não. As folhas mudaram. Agora eu olho as folhas do mamoeiro ló longe, ló em cima e vejo que elas são tão pequeninas. Mas as folhas de abóbora cresce- ram muito, estão imensas. Principalmente quando a gente senta junto delas. - E as pessoas. ? -- Também mudam. lgualzinho. Quando eu mo- rava no mamoeiro, vocês eram pequenos. Agora que eu
  5. 5. moro no chão, na mesa, na prateleira, nos lugares todos da casa, vocês estão bem maiores. -- Não sei, não, Bolão. Acho que é outra coisa. isso que você esta falando é outra coisa. É quando a gen- te vê de perto ou vê de longe. - Pode ser. Mas muda o tamanho, não muda? - Muda a distância. -- O tamanho também muda. - Eu acho que é diferente. Eu quero saber se a gente pode estar grande numa hora e pequena noutra. * Nem é isso. Eu quero mesmo é saber como é que eu sou, se eu sou grande ou sou pequena. Pensei que você ia me ajudar a descobrir, mas só serviu para atrapalhar mais. - Não tenho culpa. Eu disse o que eu achava. - Não estou dizendo que ninguém tem culpa. Mas eu queria saber. E se eu não sei, se você não sabe, se mamãe e papai a cada hora sabem uma coisa dife- rente, acho que o jeito mesmo é a gente sair por aí para descobrir. s _ E quando Helena cismava com uma coisa, não sossegava enquanto não fazia. Por isso, de noite, avisou aos pais: - Olhem, amanhã eu e Bolão vamos viajar. Vocês. podiam nos ajudar? - Ajudar em quê? -- Bom, Bolão precisa de um corpo nova, bem ver- dinho e duro para agüentar a viagem - a gente ainda não sabe quanto tempo vai demorar. i - E você? -' Eu quero ir com meu vestido de bolso para ca- ber coisa. E quero o samburã do papai emprestado para levar merenda . O pa¡ achou graça e disse: 10
  6. 6. - Está bem, pode levar. Mas a mãe disse: - O vestido eu lave¡ hoje, acabei de tirar do varal. Ainda falta passar. -- Então você passa, mãe? -- Você não quer merenda? Passo preparar um bolo de aipim para você levar. _Mas não passo passar roupa e fazer . bolo ao mesmo tempo. Você bem que po- dia ajudar. Afinal, já está bem grandinha e pode passar seu vestido. E quando Helena jó tinha pegado o ferro de passar roupa _ um daqueles ferros que se usam ande não tem eletricidade _ e ia até o fogão de lenha catar umas bra- sas para botar dentro do ferro e ele ficar bem quente, o pa¡ se meteu no meio: - Nada disso. Você é muito pequena para mexer em fogo. - Ah, é? Sou bem grandinha e sou muito pequena? -- Isso mesmo. Espere que sua mãe passa o ves- tido para você. - Ela não pode. Esta cuidando de minha merenda. - Então espere um pouco. - Mas, pai, você não acha que mamãe vai ficar muito cansada? .lã trabalhou o dia inteiro, ainda vai fazer um bolo, e no fim ainda precisa passar um vestida. --' Não posso fazer nada. lsso é serviço de mulher. Helena foi para um canto resmungando. O pai perguntou: - Que é que você está dizendo? - Estou falando com meu Boi de Mamão. Estou explicando a ele que serviço de homem dentro de casa é ficar sem fazer nada enquanto a mulher faz tudo. E estou explicando a ele que é porque homem é forte. 11
  7. 7. O pa¡ olhou para ela com um jeito esquisito e disse: -- Não entendi nada. Helena olhou para ele ainda mais esquisita e disse: - Também não entendo, mas é assim todo dia. O pai resolveu explicar: - É que o homem sai de casa, trabalha o dia todo, fica cansado, traz as coisas para dentro . de casa, comida, roupa. _ Mulher também. A mãe ajuda a plantar feijão na roça, traz qgua da poço para dentro de casa, traz roupa lavada da beira da rio dentro da bacia. E agora esta fazendo bola enquanto você esta aí enrolando seu cigarro de palha. _ Você está querendo o quê? Que eu vó passar roupa? Não faltava mais nada. -- Se você é forte demais e não agüenta, não pre- cisa ir. Não faz mal. Eu vou mesmo de roupa amassado. Ela estica no corpo. -- Menina, você já está muito grande para se meter a engraçadinho e responder aos mais velhos. Desde quando uma criança desse tamanhinho pode ficar. discutindo assim, com essas idéias? Pronto, olha ai'. De uma vez só, ele disse que ela era grande e pequena. Tinha mesmo que sair daquela casa e ir descobrir as coisas no mundo. Ali só ficava fazendo confusão. 12

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