Oguardaabilolado

180 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
180
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
9
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
3
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Oguardaabilolado

  1. 1. O Guarda AbiloladoDoutor, eu tento razão,De ser abilolado,Venho do tempo marcadoPor seca e revolução.Quando eu tinha ano e meio,Escapei de um tiroteio,De meu pai, na bolandeira.Se meu pai ganhou, eu não seiE também nunca perguntei,Nem, sequer, por brincadeira.Vim conhecer a cidade,Quando votei pra prefeitoE, por sinal, ele foi eleito,E, para minha felicidade,Ele me deu um emprego:Me entregou uma farda,Um capote, um coturno,Um capacete envernizado,Um apito enferrujado,Eu fui ser guarda noturno.Passeava as noites inteiras,Apitando na cidade,Escola, igreja, cinema,Mercado e maternidade.Nas noites frias do inverno,Eu usava um velho terno,Umas meias de crochê,Bebia quatro cachaças,Dava três voltas na praçaE corria pro cabaré.Lá existia de tudo:Discursão, briga, lorota,Um contava aventura,
  2. 2. Outro pagava uma meiota;Quando um bêbado se zangava,Eu ia lá e ajeitava.O bêbado ficava manso,Pagava pra mim uma bebidaEu dava um apito e saía,Na velha ginga de ganso.Até que um dia o prefeito,Fez uma reuniãoE nela perguntou aos guardas:- Querem aumento ou promoção?Antes de fechar a boca,Eu gritei com voz rouca:- Quero promoção seu Zé!Disse ele ta garantido,Aprovado e promovido,No maior posto que houver.Me deu uma farda nova, florada,Quem nem chita enfeitada,De galão, estrela, medalha e fita,Broche, botão e alfinete;Trocou meu velho cacetetePor um novo profissional,E me disse: de hoje em diante,Você é comandante,De Guarda Municipal.Pois três meses depois,Veio a guerra mundialE, nesse tempo, uma irmã minhaTava morando em Natal.Eu fui visitá-la;Botei a farda na mala,Passei o cargo a RaimundoQue era quase um irmão.Peguei o trem na estação,E me intupigaitei no mundo.Que lugar longe da gota.Quase o trem não chegava mais;Tinha hora que pensavaQue ele tava andando pra trás.Entre solavancos e berros,O velho embuá de ferro,Viajou a noite inteira,E de manhã cedo, chegou
  3. 3. Deu um apito e parouNa estação da Ribeira.Desembarquei e fiqueiPerdido na multidão.Quando eu puxava uma conversaNinguém me dava atenção.Quando mais bom dia dava,Mais o povo se abusava,Talvez me achando chato.Era um povo diferente,Da qualidade da gente,Das cidadinhas do mato.Perguntei a mais de mil,Se eles davam notíciaDe Carmelita de Sousa,Uma cabocla mestiça,Mulher do guarda Pompeu,Mais morena do que euE de cabelo meio ruim,Que morava na Ari Parreira,Que fica perto da feiraNo bairro do Alecrim.Depois de tanta pergunta,Depois de ouvir tanto não,Me apareceu carmelita,No pátio da Estação,Toda cheia de finesses,Puxando nos Rs e SsQue nem mulher de doutor,Nem parecia a matuta,Que lavrou a terra bruta,No Sertão do interior.Mesmo assim me recebeu,Na sua casa modesta,Os primeiros cinco dias,Para nós foram de festa.Quando o sexto dia veio,Resolvi dar um passeio.Mandei engomar a farda,Me banhei, tirei o grude,Me preparei como pude,Para ter um dia de glória.Passei o resto da tarde,
  4. 4. Sentado num tamborete,Pregando estrelas, galões,Broche, alfinete, botões,Comprei mais uns acessórios,Enfeitei o suspensório,Feito de sola curtida.De manhã cedo me vesti,Tomei café e sai,Dando risada da vida.Na praça Gentil Ferreira,Onde tinha um mercado,Eu parei para tomar fôlego,Quando passava um soldadoE fez continência para mim.Eu fiquei pensando assim:Que danado ele viu neu,Na certa ta me confundindo,Ou me achando parecido,Com algum colega seu.E haja passar soldado,Fazendo assim com a mão.Daqui a pouco era sargento,Coronel, capitão, cabo,Tenente, majorE todo o estado maior,Dos quartéis da redondezaCumprimentavam-me aliAté hoje nunca viTamanha delicadeza.Desfilaram tanques de guerra,Aviões em vôo rasantes,Sirenes tocaram mais fortes,Canhões dispararam distantes.Um praça do Coronel,Puxou do bolso um papel,Onde tinha um letreiroQue dizia: - Nossa terraTem um espião de guerra,Que chegou do estrangeiro.Não quis falar com ninguém,Não pergunta e nem responde,Ninguém sabe de onde vem,Ninguém sabe onde se esconde.A sua farda é de cor de ameixa,
  5. 5. A impressão que nos deixa,É que é um grande guerreiro,Filho de outra nação,Ou um perigoso espião,Das guerras do estrangeiro.Vamos levá-lo ao quartel,Para uma averiguação,Pois precisamos saber,De onde veio esse espião.Em seguida me levaramAo quartel e me entregaramAo Comandante GeralQue, quando me viu fardado,Perguntou meio assustado:- Que ta fazendo em Natal?Donde diabo é essa farda?Faça o favor de informar,E como se chama a naçãoQue usa uniforme diferente?E quem lhe deu tanta patente?A troco não sei de que.E porque Vossa ExcelênciaNão responde as continências,Afinal, quem é você?Coronel, eu sou Zé Carrapeta,Sou filho do Cariri.Não sei fazer continência,Pra gente que nunca vi.Porém, nunca fui intrusoE, acredite, eu só usoEsse quepe de biriba,Essa farda e esse coturno,Porque sou Guarda Noturno,Em Sapé, na Paraíba.CHICO PEDROSA Uma colaboração de ARMANDO CEZAR BEZERRA.

×