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1
SOCIOLOGIA APOSTILA
Hiran I UNIDADE
Aluno(a): ________________________________________________________ Nota: ________
Série: 1ª Ensino Médio Data: / / 2015
POR UM OLHAR SOCIOLÓGICO
O fascínio da Sociologia está no fato de que sua perspectiva nos leva a ver sob nova luz o próprio mundo
em que todos vivemos. Isto também constitui uma transformação da consciência (...). O sociólogo não examina
fenômenos de que ninguém mais toma conhecimento. Entretanto, ele olha esses mesmos fenômenos de um
modo diferente. (Berger, 1986, p. 31 e 38)
1
1 – Para que estudar Sociologia?
Ao olharmos para a trajetória da Sociologia, percebemos que ela surge como uma ciência que estuda as
conseqüências sociais do mundo moderno e contemporâneo. De tal modo, temas como a ascensão da burguesia
e surgimento do proletariado; formação do Estado Moderno; industrialização crescente e êxodo rural; aglomerados
urbanos, conflitos trabalhistas, desemprego e marginalidade; trabalho infantil, mendicância, prostituição e
criminalidade; reivindicações sociais e políticas; desigualdades sociais; globalização; impactos trazidos pelas
novas tecnologias etc. surgem como questões sociológicas a serem exploradas e esclarecidas. Assim, nomes
como Comte, Durkheim, Marx (também Engels) e Weber constituíram aqueles que, pela primeira vez, tentaram
discutir de forma racional e metódica tais pontos que marcam, em menor ou maior grau, o mundo em que
vivemos.
Apesar disso, mesmo sendo a Sociologia um campo do saber que surge como uma “ciência da crise”,
independente dessa conceituação elementar, ela busca um claro entendimento dos elementos fundamentais da
sociedade em que vivemos. De tal modo, algumas dessas subseqüentes questões fazem parte de suas
inquietações:
 Por que as pessoas na maioria das vezes parecem agir ou pensar de forma relativamente padronizada?
 Por que existe tanta desigualdade, desemprego, violência e criminalidade? Como tudo isto acaba se
configurando e repercutindo na sociedade?
 Por que existe a hierarquia e as relações de poder nos mais variados setores da vida em sociedade, tais como
no Estado, na família, na igreja e na escola?
 O que é o Estado e como ele age? Temos direitos e deveres? O que é ser cidadão? Somos todos iguais
perante a execução das leis?
 Por que alguns grupos ou comunidades agem de um modo peculiar e outros de outra maneira? Por que há
conflitos étnicos e choques culturais?
1
BERGER, Peter Ludwig. Perspectivas sociológicas: Uma visão humanística. Petrópolis, Rio de Janeiro, Vozes, 1986.
2
 Por que existem movimentos sociais e sindicatos com interesses tão diversos?
 O que é cultura? Existe gente inculta? Como os gostos criam distinções e preconceitos em todas as camadas
da sociedade? Como as segregações operam?
 O que é ideologia? O que é alienação? Como isso pode nos afetar? Como os meios de comunicação acabam
estruturando formas de conduta? Por que muitas pessoas seguem a moda cegamente?
Estas são algumas das questões que rondam o pensamento sociológico. Portanto, percebamos que muito
embora a Sociologia se estabeleça enquanto uma ciência do “caos moderno”, por assim dizer, na realidade ela
passa a querer compreender tudo aquilo que, de uma forma geral, incide na vida em sociedade. Tudo isso porque
a Sociologia pretende nos ajudar a entender com mais domínio essas e tantas outras questões que envolvem
nosso cotidiano. O fundamental nessa empreitada da Sociologia é, sem dúvidas, oferecer-nos conceitos e
categorias precisas para analisar a sociedade com mais perspicácia. Assim, de um modo mais sistemático,
consistente e crítico a Sociologia tenta compreender tudo aquilo que é estabelecido socialmente.
É justamente em face de seu papel crítico e não dogmático que para Pierre Bourdieu, sociólogo francês, “a
Sociologia é um esporte de combate.”, pois incomoda muito, revelando e desmascarando coisas aparentemente
despercebidas se olhadas sob o prisma religioso ou do senso comum. A propósito, é nesta perspectiva de
desvelar coisas não tão visíveis que Peter Berger, sociólogo austríaco, compara o papel do sociólogo ao papel do
detetive, do agente secreto. Berger assim procede porque o sociólogo além de tratar dos traços oficiais e
conhecidos da sociedade, deve também conhecer os bastidores do teatro social e, de tal modo, catalogar os
traços informais, não oficiais e não tão conhecidos por todos. Portanto, o exercício sociológico é uma busca
incessante e curiosa dos aspectos sociais aparentemente não existentes.
A Sociologia, em virtude da tomada de consciência que nos proporciona, tende a formar indivíduos
conscientes e autônomos, que se transformam em “juízes” da realidade; pessoas capazes de analisar por si
mesmas o discurso dos políticos, os noticiários de jornais, as telenovelas, os programas de rádio etc.,
apreendendo assim o que se oculta nesses mesmos discursos e formando seu próprio ponto de vista sobre aquilo
que lhes rodeia. Conseqüentemente, a sociologia acaba por despertar em nós o que Charles Wright Mills,
sociólogo americano, chamou de “imaginação sociológica”, isto é, a capacidade de pensarmos o social fora das
rotinas comuns e familiares de nossas vidas cotidianas, para que assim possamos enxergá-lo de forma renovada
e reconstruída, ou seja, destituídos dos óculos turvos e obsoletos do senso comum.
2 – Como a Sociologia pode nos ajudar?
Ainda para Charles Wright Mills, a Sociologia apresenta muitas contribuições práticas para as nossas vidas.
Apontando para alguns desses aportes, poderíamos dizer que ela nos proporciona uma consciência crítica das
diferenças sócio-culturais e uma visão mais cuidadosa dos efeitos que algumas medidas políticas podem
ocasionar, por exemplo. Contudo, inegavelmente, talvez sua maior contribuição seja a de nos munir de um auto-
esclarecimento, isto é, de um melhor entendimento sobre nós mesmos e daquilo que nos rodeia.
2.1– Conscientização das diferenças: A Sociologia possui a capacidade de nos proporcionar um ponto de vista
crítico sobre as diferenças sócio-culturais. Sendo assim, ela nos lembra, por exemplo, que há culturas diferentes e
não culturas inferiores ou superiores, o que nos ajuda a desenvolver certa tolerância com grupos culturais
diversos. Ela nos lembra ainda que esquecer todos nossos preconceitos e estereótipos e dedicar algum tempo a
tentar conhecer a cultura e valores alheios constituem uma excelente forma de entender melhor os outros e a nós
mesmos.
2.2– Visão mais cuidadosa sobre as medidas políticas: As pesquisas sociológicas podem fornecer suportes
práticos na avaliação de medidas políticas. Por exemplo: Um gestor público que almeja saber se certa política
pública é viável numa determinada região, pode solicitar uma pesquisa sociológica sobre as práticas e costumes
dos agentes sociais dessa mesma região. Assim, caso um determinado estudo assevere que os indivíduos que aí
residem costumam se locomover de bicicleta e que há inúmeros acidentes em virtude das péssimas condições de
tráfego, o mesmo gestor pode pensar na possibilidade de construir uma ciclovia nessa localidade, medida que
poderia ajudar a diminuir os acidentes de trânsito que envolvem ciclistas.
2.3 – Auto-esclarecimento: A Sociologia pode nos oferecer ainda uma melhor compreensão de nós mesmos,
de nossa própria trajetória, de nossa historicidade. Quanto mais soubermos sobre nós mesmos, mais estaremos
aptos para viver melhor. Quanto mais soubermos sobre a nossa sociedade e sobre o universo social em que
estamos inseridos, provavelmente estaremos mais aptos para proceder de forma consciente. Auxiliar a nos
conhecer melhor, bem como a observarmos que somos agentes sociais que edificam a história, constituem as
mais fascinantes tarefas da Sociologia.
3
Para refletir...
Coragem para pensar
POR DANIEL MARTINS DE BARROS
30 dezembro 2014 | 09:37
Um dos grandes problemas dos debates que vêm ocorrendo vem da dificuldade que as pessoas
têm de diferenciar opinião de conhecimento. Antes de sair dizendo que a legalização da maconha é boa ou
ruim, que a essa ou aquela idade penal é um absurdo, que cotas raciais são positivas ou negativas, dê
uma olhada nas pesquisas que já foram feitas.
“Todo mundo tem direito às próprias opiniões, mas não aos próprios fatos.”
Que frase mais apropriada para encerrar o ano. Dita pelo sociólogo Daniel Patrick Moynihan, ela é citada
no novo livro da dupla freakonomics, “Pense como um freak”, lançado esse ano pela editora Record. Talvez um
dos livros mais importantes do ano. Não estou exagerando.
Um dos grandes problemas dos acalorados e estéreis debates que vêm ocorrendo, não só no Brasil
“dividido” mas no mundo todo, vem da dificuldade que as pessoas têm de diferenciar opinião de conhecimento.
Opinião é um palpite sobre como as coisas são, conhecimento é quando tal opinião não só é verdadeira, mas com
uma justificativa tão racional que supere pontos de vista, ideologias, preferências. Muito dos debates acontecem
porque, crendo que suas opiniões são fatos, as pessoas envolvem-se em raciocínios falaciosos, buscando
apresentar essa necessária justificativa, mas que nesse caso nem existe. A conversa torna-se um diálogo de
surdos, que não ajuda a esclarecer a questão nem tampouco favorece reflexão ou a construção (e quiçá
mudanças) de opinião.
Em “Pense como um freak” Steven Levitt e Stephen Dubner resolvem expor o método por trás de seus
best sellers anteriores, Freakonomics e SuperFreakonomics, permitindo que todas as pessoas desenvolvam esse
tipo de raciocínio. E qual é ele? Simples: questione. Tenha coragem de questionar não só o establishment, mas
suas próprias opiniões. Será mesmo que você está certo? Mais do que isso: teste. A “abordagem econômica” que
eles propõe aplicar aos vários domínios da vida nada mais é do que a busca de dados concretos, garimpando
pepitas de conhecimento no lamaçal das opiniões. Só pensar, influenciados por pré-concepções que nem
sabemos ter, pode não levar a nada. Lembremos da advertência de Willian James, segundo quem muitas pessoas
acreditam estar pensando, quando estão apenas reorganizando seus preconceitos. Ou seja: abrace a dúvida.
Como eles mostram no livro, a variável que mais leva as pessoas a errar é o dogmatismo – a certeza é inimiga do
aprendizado.
Permito-me acrescentar uma dica própria, complementar ao método freak: pesquise. Você não pode
passar a vida criando experimentos para pôr à prova todos conceitos que precisa ou quer formar. Mas muita
pesquisa é feita no mundo. Muita, você não não imagina. Então, antes de sair dizendo que o casamento gay é
prejudicial ou não para os filhos, que a legalização da maconha é boa ou ruim, que a essa ou aquela idade penal é
um absurdo, que cadeias são universidades do crime, que cotas raciais são positivas ou negativas, dê uma olhada
nas pesquisas que já foram feitas. Mas o faça com coragem de encontrar fatos que contradigam sua opinião.
Porque se você já tem uma posição muito firme sobre determinado assunto, nesse caso, não perca tempo. Pensar
seria desperdício de energia.
Aproveito para desejar a todos um 2015 muito bem pensado!
(Fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/coragem-para-pensar/)
DANIEL MARTINS DE BARROS é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde
atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em
Ciências e bacharel em Filosofia, ambos pela Universidade de São Paulo (USP).

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Por que estudar Sociologia

  • 1. 1 SOCIOLOGIA APOSTILA Hiran I UNIDADE Aluno(a): ________________________________________________________ Nota: ________ Série: 1ª Ensino Médio Data: / / 2015 POR UM OLHAR SOCIOLÓGICO O fascínio da Sociologia está no fato de que sua perspectiva nos leva a ver sob nova luz o próprio mundo em que todos vivemos. Isto também constitui uma transformação da consciência (...). O sociólogo não examina fenômenos de que ninguém mais toma conhecimento. Entretanto, ele olha esses mesmos fenômenos de um modo diferente. (Berger, 1986, p. 31 e 38) 1 1 – Para que estudar Sociologia? Ao olharmos para a trajetória da Sociologia, percebemos que ela surge como uma ciência que estuda as conseqüências sociais do mundo moderno e contemporâneo. De tal modo, temas como a ascensão da burguesia e surgimento do proletariado; formação do Estado Moderno; industrialização crescente e êxodo rural; aglomerados urbanos, conflitos trabalhistas, desemprego e marginalidade; trabalho infantil, mendicância, prostituição e criminalidade; reivindicações sociais e políticas; desigualdades sociais; globalização; impactos trazidos pelas novas tecnologias etc. surgem como questões sociológicas a serem exploradas e esclarecidas. Assim, nomes como Comte, Durkheim, Marx (também Engels) e Weber constituíram aqueles que, pela primeira vez, tentaram discutir de forma racional e metódica tais pontos que marcam, em menor ou maior grau, o mundo em que vivemos. Apesar disso, mesmo sendo a Sociologia um campo do saber que surge como uma “ciência da crise”, independente dessa conceituação elementar, ela busca um claro entendimento dos elementos fundamentais da sociedade em que vivemos. De tal modo, algumas dessas subseqüentes questões fazem parte de suas inquietações:  Por que as pessoas na maioria das vezes parecem agir ou pensar de forma relativamente padronizada?  Por que existe tanta desigualdade, desemprego, violência e criminalidade? Como tudo isto acaba se configurando e repercutindo na sociedade?  Por que existe a hierarquia e as relações de poder nos mais variados setores da vida em sociedade, tais como no Estado, na família, na igreja e na escola?  O que é o Estado e como ele age? Temos direitos e deveres? O que é ser cidadão? Somos todos iguais perante a execução das leis?  Por que alguns grupos ou comunidades agem de um modo peculiar e outros de outra maneira? Por que há conflitos étnicos e choques culturais? 1 BERGER, Peter Ludwig. Perspectivas sociológicas: Uma visão humanística. Petrópolis, Rio de Janeiro, Vozes, 1986.
  • 2. 2  Por que existem movimentos sociais e sindicatos com interesses tão diversos?  O que é cultura? Existe gente inculta? Como os gostos criam distinções e preconceitos em todas as camadas da sociedade? Como as segregações operam?  O que é ideologia? O que é alienação? Como isso pode nos afetar? Como os meios de comunicação acabam estruturando formas de conduta? Por que muitas pessoas seguem a moda cegamente? Estas são algumas das questões que rondam o pensamento sociológico. Portanto, percebamos que muito embora a Sociologia se estabeleça enquanto uma ciência do “caos moderno”, por assim dizer, na realidade ela passa a querer compreender tudo aquilo que, de uma forma geral, incide na vida em sociedade. Tudo isso porque a Sociologia pretende nos ajudar a entender com mais domínio essas e tantas outras questões que envolvem nosso cotidiano. O fundamental nessa empreitada da Sociologia é, sem dúvidas, oferecer-nos conceitos e categorias precisas para analisar a sociedade com mais perspicácia. Assim, de um modo mais sistemático, consistente e crítico a Sociologia tenta compreender tudo aquilo que é estabelecido socialmente. É justamente em face de seu papel crítico e não dogmático que para Pierre Bourdieu, sociólogo francês, “a Sociologia é um esporte de combate.”, pois incomoda muito, revelando e desmascarando coisas aparentemente despercebidas se olhadas sob o prisma religioso ou do senso comum. A propósito, é nesta perspectiva de desvelar coisas não tão visíveis que Peter Berger, sociólogo austríaco, compara o papel do sociólogo ao papel do detetive, do agente secreto. Berger assim procede porque o sociólogo além de tratar dos traços oficiais e conhecidos da sociedade, deve também conhecer os bastidores do teatro social e, de tal modo, catalogar os traços informais, não oficiais e não tão conhecidos por todos. Portanto, o exercício sociológico é uma busca incessante e curiosa dos aspectos sociais aparentemente não existentes. A Sociologia, em virtude da tomada de consciência que nos proporciona, tende a formar indivíduos conscientes e autônomos, que se transformam em “juízes” da realidade; pessoas capazes de analisar por si mesmas o discurso dos políticos, os noticiários de jornais, as telenovelas, os programas de rádio etc., apreendendo assim o que se oculta nesses mesmos discursos e formando seu próprio ponto de vista sobre aquilo que lhes rodeia. Conseqüentemente, a sociologia acaba por despertar em nós o que Charles Wright Mills, sociólogo americano, chamou de “imaginação sociológica”, isto é, a capacidade de pensarmos o social fora das rotinas comuns e familiares de nossas vidas cotidianas, para que assim possamos enxergá-lo de forma renovada e reconstruída, ou seja, destituídos dos óculos turvos e obsoletos do senso comum. 2 – Como a Sociologia pode nos ajudar? Ainda para Charles Wright Mills, a Sociologia apresenta muitas contribuições práticas para as nossas vidas. Apontando para alguns desses aportes, poderíamos dizer que ela nos proporciona uma consciência crítica das diferenças sócio-culturais e uma visão mais cuidadosa dos efeitos que algumas medidas políticas podem ocasionar, por exemplo. Contudo, inegavelmente, talvez sua maior contribuição seja a de nos munir de um auto- esclarecimento, isto é, de um melhor entendimento sobre nós mesmos e daquilo que nos rodeia. 2.1– Conscientização das diferenças: A Sociologia possui a capacidade de nos proporcionar um ponto de vista crítico sobre as diferenças sócio-culturais. Sendo assim, ela nos lembra, por exemplo, que há culturas diferentes e não culturas inferiores ou superiores, o que nos ajuda a desenvolver certa tolerância com grupos culturais diversos. Ela nos lembra ainda que esquecer todos nossos preconceitos e estereótipos e dedicar algum tempo a tentar conhecer a cultura e valores alheios constituem uma excelente forma de entender melhor os outros e a nós mesmos. 2.2– Visão mais cuidadosa sobre as medidas políticas: As pesquisas sociológicas podem fornecer suportes práticos na avaliação de medidas políticas. Por exemplo: Um gestor público que almeja saber se certa política pública é viável numa determinada região, pode solicitar uma pesquisa sociológica sobre as práticas e costumes dos agentes sociais dessa mesma região. Assim, caso um determinado estudo assevere que os indivíduos que aí residem costumam se locomover de bicicleta e que há inúmeros acidentes em virtude das péssimas condições de tráfego, o mesmo gestor pode pensar na possibilidade de construir uma ciclovia nessa localidade, medida que poderia ajudar a diminuir os acidentes de trânsito que envolvem ciclistas. 2.3 – Auto-esclarecimento: A Sociologia pode nos oferecer ainda uma melhor compreensão de nós mesmos, de nossa própria trajetória, de nossa historicidade. Quanto mais soubermos sobre nós mesmos, mais estaremos aptos para viver melhor. Quanto mais soubermos sobre a nossa sociedade e sobre o universo social em que estamos inseridos, provavelmente estaremos mais aptos para proceder de forma consciente. Auxiliar a nos conhecer melhor, bem como a observarmos que somos agentes sociais que edificam a história, constituem as mais fascinantes tarefas da Sociologia.
  • 3. 3 Para refletir... Coragem para pensar POR DANIEL MARTINS DE BARROS 30 dezembro 2014 | 09:37 Um dos grandes problemas dos debates que vêm ocorrendo vem da dificuldade que as pessoas têm de diferenciar opinião de conhecimento. Antes de sair dizendo que a legalização da maconha é boa ou ruim, que a essa ou aquela idade penal é um absurdo, que cotas raciais são positivas ou negativas, dê uma olhada nas pesquisas que já foram feitas. “Todo mundo tem direito às próprias opiniões, mas não aos próprios fatos.” Que frase mais apropriada para encerrar o ano. Dita pelo sociólogo Daniel Patrick Moynihan, ela é citada no novo livro da dupla freakonomics, “Pense como um freak”, lançado esse ano pela editora Record. Talvez um dos livros mais importantes do ano. Não estou exagerando. Um dos grandes problemas dos acalorados e estéreis debates que vêm ocorrendo, não só no Brasil “dividido” mas no mundo todo, vem da dificuldade que as pessoas têm de diferenciar opinião de conhecimento. Opinião é um palpite sobre como as coisas são, conhecimento é quando tal opinião não só é verdadeira, mas com uma justificativa tão racional que supere pontos de vista, ideologias, preferências. Muito dos debates acontecem porque, crendo que suas opiniões são fatos, as pessoas envolvem-se em raciocínios falaciosos, buscando apresentar essa necessária justificativa, mas que nesse caso nem existe. A conversa torna-se um diálogo de surdos, que não ajuda a esclarecer a questão nem tampouco favorece reflexão ou a construção (e quiçá mudanças) de opinião. Em “Pense como um freak” Steven Levitt e Stephen Dubner resolvem expor o método por trás de seus best sellers anteriores, Freakonomics e SuperFreakonomics, permitindo que todas as pessoas desenvolvam esse tipo de raciocínio. E qual é ele? Simples: questione. Tenha coragem de questionar não só o establishment, mas suas próprias opiniões. Será mesmo que você está certo? Mais do que isso: teste. A “abordagem econômica” que eles propõe aplicar aos vários domínios da vida nada mais é do que a busca de dados concretos, garimpando pepitas de conhecimento no lamaçal das opiniões. Só pensar, influenciados por pré-concepções que nem sabemos ter, pode não levar a nada. Lembremos da advertência de Willian James, segundo quem muitas pessoas acreditam estar pensando, quando estão apenas reorganizando seus preconceitos. Ou seja: abrace a dúvida. Como eles mostram no livro, a variável que mais leva as pessoas a errar é o dogmatismo – a certeza é inimiga do aprendizado. Permito-me acrescentar uma dica própria, complementar ao método freak: pesquise. Você não pode passar a vida criando experimentos para pôr à prova todos conceitos que precisa ou quer formar. Mas muita pesquisa é feita no mundo. Muita, você não não imagina. Então, antes de sair dizendo que o casamento gay é prejudicial ou não para os filhos, que a legalização da maconha é boa ou ruim, que a essa ou aquela idade penal é um absurdo, que cadeias são universidades do crime, que cotas raciais são positivas ou negativas, dê uma olhada nas pesquisas que já foram feitas. Mas o faça com coragem de encontrar fatos que contradigam sua opinião. Porque se você já tem uma posição muito firme sobre determinado assunto, nesse caso, não perca tempo. Pensar seria desperdício de energia. Aproveito para desejar a todos um 2015 muito bem pensado! (Fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/coragem-para-pensar/) DANIEL MARTINS DE BARROS é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em Ciências e bacharel em Filosofia, ambos pela Universidade de São Paulo (USP).