Jsnome27a morte do_rei

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  1. 1. NÚMERO 27 caderno três junho 2015 A morte do Rei
  2. 2. 2 A morte do rei Equipa responsável Alexandra Cabral Miguel Teixeira Coordenação Alexandra Cabraljornalsemnome@gmail.com Associação de Pais e Encarregados de Educação dos Alunos da Escola Secundária du Bocage http://apesbocage.blogspot.pt/ https://sites.google.com/site/apesbocage/ Novo email da associação Participantes: Alice Fonseca Ana Madeira Ana Rita Marçal Bárbara Parreira Carolina Contreiras Carolina Lopes João Miguel Nobre Margarida Monteiro Maria Inês Ferreira Mariana Vinhas Miguel Anjos Miguel Teixeira Fialho de Almeida Guerra Junqueiro Pedro Ceia Susana Capela Susana Roque Tiago Cadete Fotografias: António Vasconcelos Quinze ensaios realistas sobre "A Morte do Rei", com a profética anunciação republicana de Guerra Junqueiro
  3. 3. 3 A morte do rei A leitura do texto “A Morte do Rei” de Fialho de Almeida representou para mim o contacto com uma perspetiva, sobre a implantação da República e os principais acontecimentos que a envolveram, diferente de todas aquelas que até agora tinha tido a possibilida- de de encontrar. Esta época histórica já foi estudada por mim várias vezes durante a minha vida escolar e eu considerava que a imagem mental que tinha forma- do da mesma, com base nos ensinamentos dos pro- fessores e nas informações dos vários manuais, era objetiva e não tendenciosa. No entanto, depois de ana- lisar este texto, venho a aperceber-me de que esta viragem marcante na história política portuguesa tende muitas vezes a ser representada e interpretada de for- ma bastante imprecisa e parcial, saindo sempre valori- zados desta narrativa os ideias da República, instituída pela primeira vez no ano de 1910. Tal como nos indica Fialho de Almeida, a história não deve ser nunca olha- da de um único ângulo e é sempre necessário ter em conta o carácter complexo e profundo das diversas situações e personagens históricas: só assim se alcan- çam relatos verdadeiros capazes de nos apoiar na re- flexão e decisão em problemas da atualidade. Apesar disso, na realidade, esta análise objetiva dá muitas vezes lugar a interpretações mais facciosas, incomple- tas ou orientadas, e é este tipo de discurso histórico que, na minha perspetiva, domina maioritariamente os relatos do período conturbado que foi o da implantação da República em Portugal. Quando se aborda esta época histórica é importan- te, tal como faz notar Fialho de Almeida, manter a objetividade nomeadamente na forma como se descre- ve a figura do Rei D. Carlos. Devem evitar-se as repre- sentações que o apresentem de uma forma simples e unidimensional, uma vez que estas recaem necessari- amente numa imagem excessivamente negativa ou demasiado branda do monarca. O Rei D. Carlos, tal como observa o autor do texto, apesar de responsável por vários e graves erros na governação do País, não deixou de ser um homem com qualidades apreciáveis, possuidor de grande inteligência e cultura. Estes ou- tros traços do seu carácter não podem deixar de ser referidos porque asseguram uma visão mais clara, completa e complexa de uma das figuras centrais no desenrolar das tensões entre monárquicos e republica- nos. Segundo o meu ponto de vista, também é algo in- génuo procurar apontar um único culpado ou respon- sável pela situação de profunda crise que então domi- nava o país. O estado de degradação, a todos os ní- veis e em todos os sectores, que caracterizava Portu- gal no ano de 1910 só pode ser logicamente justificado por uma conjunção de vários fatores e por uma longa acumulação das mais variadas causas, determinadas pelos mais diversos agentes. No meu entender, consi- derar o Rei como único e principal causador do des- norteamento do país consiste num raciocínio falacioso, que ignora desta forma muitos dos outros anteceden- tes, que para lá da qualidade da governação, determi- naram a insustentabilidade económica e social do Es- tado Português. Considero ainda que é incorreto representar histori- camente a República como um sistema político des- provido de defeitos, enquanto se insiste numa imagem da Monarquia enquanto organização política inteira e completamente inimiga da liberdade. Tal como nos demonstram as várias Monarquias Constitucionais que vigoram até aos nossos dias, o princípio monárquico é conciliável com a prática da democracia, uma vez que não implica a concentração total dos poderes políticos na figura régia. A República, por seu lado, apesar da nobreza dos seus fundamentos, também deve ser, como qualquer outro sistema político, alvo de crítica e questionamento. A vitória republicana no ano de 1910, se analisada criticamente, acabou por não conduzir a uma alteração nas condições do país, não tendo de- sencadeado alterações capazes de modificar as estru- turas económicas e sociais que prevaleciam anterior- mente. Para além disso, esta mudança de regime teve como motor o Regicídio, isto é, o assassínio do rei, um ato violento que mesmo que justificado é sempre con- denável. Por fim, queria apenas referir aquilo que mais me chama à atenção no texto de Fialho de Almeida: a sua atualidade. A descrição da mentalidade e maneiras portuguesas, as práticas políticas e económicas referi- das e a ilustração do estado geral das coisas apresen- tam-nos um Portugal que vivia uma situação bastante semelhante à atual. Ao ler o texto encontramos o mes- mo ambiente de crise e um país onde, tal como nos dias de hoje, a classe endinheirada se devota unica- mente à defesa dos seus interesses pessoais, parasi- tando muitas vezes o Estado; onde os políticos gover- nam de forma medíocre e sem método, investindo na burocracia e esquecendo os interesses da nação; on- de a corrupção e o desrespeito à lei são aceites; onde domina um sentimento geral de apatia, inatividade e sonambulismo. O povo português retratado em “A Mor- te do Rei” é um povo desligado das ideias de pátria e de nação e que, tal como atualmente, se deixa orientar por uma atitude de inércia, cujos lemas são o “deixa andar” e o “não te rales”. A História, quando encarada com a sua verdadeira complexidade, e os seus exem- plos podem constituir úteis ferramentas para nos de- bruçarmos e agirmos sobre o presente. Alice Fonseca
  4. 4. 4 A democracia levou à ilusão de que nos governamos a nós mesmos, o que, por sua vez, leva a uma redução daquela resistência que havia contra os reis. O rei, por ter uma perspetiva de longo prazo, tem o interesse de preservar ou aumentar o valor do país, ao passo que um político numa democracia tem uma perspetiva de curto prazo, daí que não investisse tanto no desenvolvimento do país, dando por vezes lugar à corrupção. Um exemplo de um monarca foi o rei D. Carlos. Os portugueses na altura não lhe deram o devido va- lor, mas não sabiam o que estava por vir. Naquele momento, a república ainda não estava presente no nosso país e foi precisamente numa tentativa de a instaurar que o melhor rei que Portugal alguma vez teve foi morto. Apesar das suas extravagâncias, era um homem muito inteligente e com uma capacida- de de persuasão incrível. Este não dispôs de conselheiros e sugestores habilidosos para um progresso moderno e, no entanto, devido ao seu espírito reto e bem formado e até pela sua cordialidade foi capaz de trazer a Lisboa os chefes dos três grandes estados políticos da Europa: tudo isto numa altura de grandes dificuldades económicas. A Europa ficou revoltada com o regicídio, uma vez que D. Carlos era estimado pelos restantes chefes de estado europeus e também por o regicídio se ter tratado de uma organização metódica - profetizado e rigorosamente ilustrado vinte anos antes em um texto de 1891, "O caçador Simão", escrito por Guerra Junqueiro. De facto abandonou-se completamente a posição de força seguida por João Franco. Anularam-se as medidas ditatoriais, soltaram-se presos políticos e ainda se consentiu que se fizessem comícios republi- canos em que se fazia a apologia do atentado. D. Carlos era um monarca constitucional muito consciente do quão importante era a defesa da consti- tuição liberal. Atualmente diz-se que este se refugiava dos seus deveres na caça, muitas das vezes di- famando-o com a despreocupação relativamente ao reino apenas por ser um homem superior. A figura de D. Carlos tem sido desmerecida ao longo do tempo, uma vez que sempre se criticou a monarquia, obliterando que era constitucional e nunca a procuraram estudar, nem querem que se estude. D. Carlos pagou com a vida os crimes do seu povo e o fim da monarquia foi um mal para a democratização do país, uma vez que tudo se podia ter obtido resolvendo as questões políticas. A implantação da república em Portugal ocorreu a 5 de Outubro de 1910, destruindo assim a monar- quia constitucional. Esta atual república que supostamente vinha para melhorar o nosso país não trouxe mais do que aquilo que cá já se tinha. A primeira república portuguesa não conseguiu liquidar os problemas de um país imerso em conflitos sociais, corrupção e confrontos com a igreja. Ocorreu a bancarrota - só podia ser um sinal de que a monarquia era o mais correto para o nosso país. Em 1926, um golpe militar pôs fim à primeira república exaurida e inepta, e mergulhámos então num revitalizador mar autoritário. Após o estado novo e após a guerra do ultramar, ou seja de 1974 até este exato momento, reapareceu, no nosso país, a profunda decadência e crise de sempre. Hoje é possível concluir que a alma portuguesa é profundamente monárquica. Os problemas que ainda hoje se verificam na nossa sociedade, como a corrupção entre os “mais po- derosos” e os menos e até os ataques terroristas contra a liberdade de expressão são apenas sinais de que a nossa democracia se está a esgotar, tudo tem um fim e tudo é cíclico. Será a monarquia uma luz ao fundo do túnel? Ana Madeira A morte do rei
  5. 5. 5 Fialho de Almeida, através do seu texto “A Morte do Rei”, apresenta-nos a sua visão da figura do rei D. Carlos, o último rei de Portugal, que morreu de uma forma trágica e inesperada – ou talvez não, como adiante veremos. De facto era um homem inteligente, culto, bravo e generoso, no entanto, pouco acarinhado pelo povo português que, aliás, não lhe era muito afeto. Na verdade, muitos consideravam-no, injustamente, mau go- vernador e portanto o único responsável pelo atraso, nas muitas questões nacionais, que se observava em Portugal, talvez por espelhar o que os portugueses não queriam ver. Apesar de ser o monarca e, portanto, o responsável último pela governação do país, tal como Fialho de Almeida afirma e bem, não reuniu simpatias por parte das classes sociais dominantes, tão pouco do povo, nem soube escolher para seus conselheiros os melhores homens que o pudessem orientar. Contrariando o que podia ser uma tendência das monarquias europeias, verificada tanto em Itália como na Alemanha, em que a mentalidade destas classes sociais era bem diferente, pois assente numa noção de bem comum e ajudando o respetivo rei, em prol de uma nação bem constituída e governada, Portugal man- teve-se à margem, infelizmente, desta “evolução”. Os burgueses e a classe média dirigente, que viviam uma aparência que não correspondia à realidade, apenas contribuíam para a evolução do próprio país, desde que soubessem, à partida, que sairiam beneficiados. Por outro lado, em Portugal, passaram a existir cada vez mais partidos políticos e, consequentemente, menor qualidade política. Assim, tal como os burgueses e a classe média, também os políticos defendiam os seus interesses pessoais, abandonando progressivamente os interesses monárquicos. Relativamente à classe social que se encontra na base da pirâmide, tal como Fialho de Almeida refere, o povo não manifestava qualquer tipo de opinião, transparecendo uma certa apatia pelas questões de origem nacional e, por extensão, pelo seu rei. Contribuindo para intensificar esta antipatia sentida pelas diferentes classes sociais em relação ao monarca, Bragança tende para um progressivo isolamento, mal interpretado pelos diversos grupos da sociedade. Contudo, D. Carlos apresentava grande poder de persuasão, no que se refere a questões políticas. Con- seguiu trazer, para um país apagado, os chefes dos três grandes estados políticos da Europa, alcançando, assim, um triunfo diplomático. Porém, apesar de todos os seus sucessos políticos e glórias diplomáticas, o rei não foi valorizado pela sua nação, que continuou a construir dele uma imagem de fraqueza, fragilidade e até de incompetência. Tal impressão negativa conduziu ao seu trágico e cruel assassinato, que não obteve o resultado esperado pelos seus oponentes. Em abono da verdade, pode concluir-se, partilhando da opinião de Fialho de Almeida, que a morte do rei não trouxe quaisquer mudanças à realidade do país, tendo tudo permanecido igual. Fortalece-se, assim, a ideia de que a verdadeira responsabilidade não recaía, única e exclusivamente, na figura do monarca, mas também sobre aqueles que constituíam a Pátria, o povo e as classes dirigentes que aquele governava. Ana Rita Marçal A morte do rei
  6. 6. 6 No texto A Morte do Rei de Fialho de Almeida, é-nos apresentada uma perspetiva totalmente diferente da habitual em relação ao regicídio de D. Carlos. A monarquia no tempo de D. Carlos foi alvo de críticas sem fundamento. Num país que conta com apenas um homem para controlar todas as questões políticas e económicas, a monarquia não pode ter sucesso. O modo como se governa um país depende obrigatoriamente da disposição do povo em ajudar e progredir. A ideia principal de todo o texto é a de um rei mártir que tentou fazer de tudo para reacender a chama do seu povo, mas sem qualquer efeito, estando sempre próximo de desistir do país. Segundo Fialho de Almeida, o rei não era mais que um crente da pátria, compreensivo e com grande capacidade de persua- são (característica essencial num indivíduo que pretende mover massas), “ (…) mas nunca deixou de vir impressionado pela sua maneira fina e subtil de tocar os assuntos de palestra, (…)”. No nosso país era alvo de má fama, mas no estrangeiro era elogiado pelos governantes de maior prestígio. A imagem do nosso país estaria assegurada pela sua arte de impressionar, só o próprio povo não o aceitava enquanto indivíduo e colocava defeitos onde podia. Na altura, as crises eram de índole económica e o espirito guerreiro ter-se-ia perdido há muito. Critica- se um rei pelo vício da caça? Todos os homens encontram refúgio em algo e o rei teria inúmeras razões para se isolar de um povo mal-agradecido e revoltado. Tal como diz Fialho de Almeida, “ (…) e até por imi- tação, certos presidentes da república, que são monarcas a dias”, vícios são vícios, inevitáveis à raça hu- mana, sejam monarcas ou republicanos. Por outro lado, o que não é comum a todos e devia ser é a cons- ciência e moral. Aliás, os republicanos ao invés de encontrarem onde depositar a sua vontade revolucioná- ria inconsciente, organizavam reuniões onde expunham ideias irracionais e proporcionadoras de assassi- nato. “Povo? Não há povo”, aqueles que deviam lutar pelo seu país não o fazem, limitam-se a criar conflitos que não conseguem justificar, uma vez que não são racionais. Oliveira Martins, "último duma certa estatu- ra intelectiva”, teria aconselhado D. Carlos a emendar o “indefinido sentimento de tédio e desconsolação que tem invadido muitos dos que melhores serviços podiam prestar ao seu país”. Poucos homens decen- tes existiam para oferecer auxílio ao rei e os que mais condições tinham preferiam defender os seus bens. Critica-se um rei pelo seu apego aos bens materiais (“O País era pobre, e se não podia ter um rico rei, mui- to menos podia sustentar um rei rico.”), quando o próprio povo protege os seus interesses pessoais. O Rotativismo foi um sistema que só gerou problemas e crises económicas e D. Carlos tinha noção dessa situação. Por essa razão, tomou a decisão de acabar com esse sistema e passou a apoiar, consci- entemente, o partido ao qual pertencia João Franco. Os republicanos não estavam a defender a república, senão o seu orgulho. Fialho de Almeida afirma “como macacos que se careteiam a um espelho, num ímpeto de fúria partiu-o, julgando que assim deixava de ser mono…”, ou seja, estes que serviam a república, não queriam mais que ser eles os representantes, nada tinha a ver com governo. No fim, eram de gene idêntico ao do monarca. Gente que vê o homicídio como solução não é mentalmente capaz de assumir qualquer tipo de papel no governo de um país em re- gressão. O interesse deve ser sempre a pátria, nunca a vitória num conflito. José Falcão, adversário da realeza teria dito “Se a Monarquia nos pode salvar, faça-o: o nosso alvo é o País e não o sistema.” No final, D. Carlos era um monarca preocupado com o futuro do seu país, que foi assassinado por atitu- des impulsivas e sem fundamento. A salvação não provém da eliminação de um individuo. Basta ter em vista a situação de Portugal atualmente. Um país que continuará em decadência, enquanto apenas inte- ressar aos homens serem eles próprios reis de todos. É impossível todos reinarem e o problema reside na incompreensão disso mesmo. Os republicanos tiveram a oportunidade de justificar o seu comportamento animal de 1 de Fevereiro de 1908 e falharam. Nada melhorou. A monarquia nunca foi obstáculo, mas sim o povo. Bárbara Parreira A morte do rei
  7. 7. 7 É difícil falar em poucas linhas da morte do rei D. Carlos. O rei era uma pessoa de extremos com de- feitos e virtudes e, tal como a maior parte dos homens, era antipático e sedutor. Era um rei amado por uns e odiado por outros e ao longo deste texto vários são os ‘’quadros’’ pintados acerca do monarca. Os que o amavam descreviam-no como ser generoso, culto, bravo, inteligente, apaixonado pela pátria, tendo a mania dos desportos, em particular o seu entusiasmo pela caça. Era cordial no trato íntimo, no en- tanto quando se encontrava em público salientava-se o seu aspeto bisonho e aborrecido que afastava o povo apesar de o monarca nunca ter tomado medidas favoráveis à sua conquista. A sociedade da época era bastante distinta e temos como exemplo Vítor Manuel II ou kaiser Guilherme, que governavam países nos quais a multidão tem uma autonomia mental patente e um nível de cultura ele- vado, contrariamente ao que acontecia em Portugal. A classe média regia-se apenas pela defesa dos seus interesses pessoais, enquanto o povo era uma força sem consciência que continuava a ser explorada. Deve salientar-se que o rei não estava rodeado dos melhores conselheiros nem tinha uma vontade ener- gética de acabar com os vícios e manhas da nação. No reinado anterior, de D. Luís, morreram os últimos grandes homens da época como Saldanha, Herculano... Oliveira Martins era o último intelectual que ainda podia influenciar o rei. Neste reinado existiam dois partidos que disputavam o poder, porém nunca governavam e as medidas que tomavam serviram ainda mais para o isolamento moral do rei. A atmosfera política era cada vez mais densa e a imagem do rei encontrava-se cada vez mais denegrida. Estávamos perante um país com poucos recursos e com problemas urgentes na área de administração e das conquistas materiais. Se o rei tivesse tido outro aconselhamento, se se tivesse tentado aproximar mais das classes operárias, dos principais cidadãos de um estado, das classes produtoras e dirigentes, talvez tivesse conseguido fazer florescer a monarquia. A expressão facial colocada pelo rei, quando se encontrava em público, era considerada como sendo desdenhosa, sendo talvez mal interpretada, pois poderia ser em parte timidez frente a uma multidão pouco expansiva que demonstrava pouco carinho para com ele. Também o desprezo sentido pelos políticos e a visão crítica do atraso do trabalho agrícola e fabril, do baixo nível cultural da população, dos hábitos indo- lentes faziam com que se sentisse impotente face a seis milhões de inconsciências. Ao contrário do que acontecia em Inglaterra, onde o rei era adorado, em Portugal o povo não gostava do seu rei, pois considerava que tinha um carácter incerto e poucas qualidades, mas D. Carlos, em muitos atos da sua vida pública e privada deu provas de ter o perfil de um homem superior, como exemplo temos o triunfo diplomático por ele alcançado ao ser o responsável pelas questões de política exterior. Esta sua for- ça de persuasão fez com que os jornais referissem que o rei era o único político em Portugal. O próprio rei afirmou que isto é uma monarquia sem monárquicos, após se ter dado conta do seu isolamento. A 16 de Maio de 1906, numa carta a Hintze Ribeiro, o rei recusava a dissolução das Cortes, pedida pelo primeiro e afirmava que repressão violenta pode e deve ser empregada quando seja absolutamente neces- sária para a salvação pública; nunca quando haja outros meios e creio que ainda os há. Foi assim que se estabeleceu um clima de violência, de perseguições e represálias. João Franco dissolveu o Parlamento e passou a governar, ditatorialmente, a partir de 7 de Maio de 1907, com as consequências óbvias de violên- cias e atentados contra o monarca ditador. E foi esta situação que deu origem ao Regicídio. D. Carlos pa- gou com a vida os crimes do seu povo. Carolina Contreiras A morte do rei
  8. 8. 8 Um regime fracassado, um reinado cujas asas foram cortadas... Será D. Carlos o aristo- crata por detrás deste insucesso, ou a culpa foi de uma sociedade apedeuta e incapaz de se discipli- nar? Fialho de Almeida, dedicado jornalista e escritor do século XIX, apresenta-nos uma perspetiva de- talhada dos dias em que um escândalo avassalou todo um Portugal em decadência: o regicídio de 1908. Carlos I de Portugal é apresentado como um indivíduo dotado de complexas facetas que combina qualidades e defeitos de forma insólita. Muitos apoiaram este assassinato, julgando o rei inconformado e nocivo para a nação, já que ar- rastava consigo infortunas para o Estado. Lembremo-nos de que este reinado foi marcado por enorme instabilidade. Ainda assim nem tudo neste rei foi desastroso e Fialho de Almeida evidencia bem essa “estatura de homem superior, inteligente, culto, bravo e mesmo generoso”. Ganhou o título de cientista, lavrador e pintor, contudo o seu interesse exagerado pela caça e outras extravagâncias desnecessárias levam- nos a supor uma certa cobardia, uma vez que esta era a sua desculpa para fugir às responsabilidades do seu cargo. Ainda assim me questiono: não serão os políticos de hoje ainda mais extravagantes nas suas escolhas? Este jornalista recolheu diversas opiniões de pessoas sem qualquer ligação política e todas elas revelaram um certo apreço por D. Carlos. Fialho de Almeida descrevia-se como um misantropo, claramente desconfiado da sociedade. Co- meça então uma dura critica à sociedade portuguesa, descrevendo um Portugal anárquico possuidor de uma ‘turba acéfala’. A exploração de África de nada servia se enviam para lá indivíduos malevolentes e inábeis. E o problema não residia todo no povo, na burguesia e na classe dirigente. Essas, demasiado focadas nos seus interesses pessoais, foram incapazes de investir na ciência, na educação pública e na indústria (já que possuíam a ‘maior e melhor parte da riqueza pública’). Uma classe média egocêntrica e com falta de civismo. Dito isto, compreendemos a dificuldade do rei perante maus conselheiros, em tu- do ignorantes. Tinham morrido figuras ilustres que podiam ter alguma influência positiva no Estado. Nesta altura [1863-1908] vigorava uma monarquia constitucional que limitava os poderes do rei. O governo era composto por partidos corruptos e incompetentes. Estes contestavam o regime monárqui- co. Tudo isto contribuiu ainda mais para o isolamento moral do rei, que recusava impor-se perante a delapidação das finanças e o deplorável atraso da nação. A insatisfação popular fazia-se sentir cada vez mais à medida que o rei entrava num colapso de angústia. Afirmou-se até chefe de “uma monarquia sem monárquicos”. Esta solidão em que se desva- necia, explica Fialho de Almeida, deve-se ao facto de já não serem os reis que fazem os povos mas sim estes que vincam o rei. A propaganda republicana fez passar a ideia de que o povo português não reve- renciava o seu rei e o via como um ‘monstro rancoroso’, um desavergonhado que nada fazia para salvar o país da sua situação política. Por fim a trágica chacina que mancha o solo português. Será esta a porta para a revitalização de uma nação moribunda? Pois bem, D. Carlos paga com a sua vida toda a ignorância de um povo adepto de mesmice, fã de preguiça e desobediente. Difícil será governar um país quando se é o ‘único’ político, mas este rei não era nada mais que uma mente brilhante com uma inteligência superior à que o reino suportava. Morre com ele a dignidade que restava de Portugal. Carolina Lopes A morte do rei
  9. 9. 9 Não é difícil classificar a morte do Rei D. Carlos, Chefe de Estado, representante da Nação, homem culto e um literato, como um crime frio e sanguinário, perpetrado por homicidas que, influen- ciados pelo seu ódio desmesurado à Monarquia, poderiam porventura pensar que a precipitação do fim do regime e a sua substituição pela República contribuiriam para o avanço do país, como a turba republicana agitadora de massas queria fazer crer nos seus comícios. Acontece que, num país que na altura tinha um nível analfabetismo de mais de setenta por cento, qualquer alteração significativa demoraria vários anos a ser feita, não sendo alcançada com uma simples troca de tiros. As atitudes e o clima mental do povo Português, a sua languidez, a sua fácil manipulação, não foram em nada alteradas no dia cinco de Outubro de 1910, e, se tanto, foram ain- da mais fomentadas por aqueles republicanos que se aproveitavam de multidões acéfalas com o seu populismo e demagogias. A instauração da República não foi assim um momento de rejuvenesci- mento da Nação ou de inversão do ciclo descendente em que esta seguia, tendo sido a continuação da deterioração das instituições, de que é exemplo aquilo que ocorreu durante o período da Primeira República, caraterizada por uma constante instabilidade política e insegurança nas ruas, com crimes e atentados. Parece-me evidente que, como defende Fialho de Almeida, D. Carlos não está isento de culpas na sua desprestigiação e na queda da Monarquia, devendo ter sido mais expediente em questões pre- mentes como a questão do ensino primário obrigatório, a nacionalização do trabalho ou a divisão da grande propriedade. Esse aparente afastamento dos assuntos da Nação valeu-lhe fortes críticas, e contribuiu mesmo para a queda do regime, dado que uma população com níveis de educação extre- mamente reduzidos, que vive insatisfeita e na pobreza, é facilmente convencida e seduzida por pro- messas ocas como aquelas feitas pelos Republicanos. É assim incorreta a correlação entre o sistema político de um país e o desenvolvimento cultural, técnico e moral de um povo, dado que não faltam exemplos de países como a Bélgica, o Japão ou a Holanda, que, mantendo a Monarquia Constitucional, são dos mais desenvolvidos do mundo. A Mo- narquia permite assim "a prática da mais larga democracia, e a evolução de quantas remodelagens necessitem os povos", não sendo necessário substituir o Rei pelo Presidente, cargos que, aliás, apresentam grandes parecenças, com a diferença de que o Rei, não sendo eleito, é uma figura que representa todos os Portugueses, independentemente de ideologias políticas, procurando o consen- so e contribuindo para o progresso. Se D. Carlos não foi esse tipo de Rei, talvez o tivesse sido o Príncipe Herdeiro D. Luís, que também foi assassinado. Depois do Regicídio ascendeu ao trono, mal preparado, D. Manuel II, que reinou durante um perío- do muito curto durante o qual nada pôde fazer para evitar a predestinada queda da Monarquia. Após o fim desta, imediatamente a República passou a servir de teto a todos os vícios que minavam a vi- da cívica e política Portuguesa, além de começar a implantar, em certos casos, a sua doutrina ex- cessivamente anticatólica. Resta-nos o pasmo perante a situação atual do país e a lídima esperança de que se o Regicídio não tivesse ocorrido, talvez tudo se tivesse desenrolado de maneira diferente. João Miguel Nobre A morte do rei
  10. 10. 10 De personalidade muito rica, D. Carlos era um homem culto, inteligente e a sua bondade chegava a ser humilde. Notável diplomata, visitou a Espanha, França, Alemanha e Inglaterra, recebeu as visitas dos reis Eduardo VII de Inglaterra, Afonso XIII de Espanha, do Imperador Guilherme II da Alemanha e do presidente da república francesa Emile Loubet. Desportista nato, sendo a caça a sua modalidade favorita. Amante da arte e da ciência, foi um natu- ralista apaixonado que estudou especialmente aves e peixes. Personalidade privilegiada que ele publi- camente encobria sob a máscara de uma pessoa altiva e antipática. Foi uma das figuras mais expos- tas e mais atacadas do seu tempo. O texto de Fialho de Almeida constitui um bom diagnóstico da difícil relação que o rei mantivera com a opinião pública portuguesa. Fialho de Almeida começou por declarar que consultara 200 ou 300 pes- soas ”desinteressadas e serenas” para formar o seu juízo sobre D. Carlos. O rei fracassou, é certo, mas talvez não por sua culpa. Um Vítor Emanuel ou um Kaiser Guilherme (reis populares e fortes) só eram possíveis em países com uma “consciência cívica perfeita” e uma forte opinião pública. Em Por- tugal isso nunca existira, o povo português não tinha uma intelectualidade disciplinada e consciente e a classe média demonstrava unicamente interesses pessoais e indiferença pelos atos da vida política e administrativa da nação. Faltara a D. Carlos o que Fialho de Almeida designava por conselheiros e sugestores habilidosos. Talvez o problema de D. Carlos tenha sido o facto de, para má sorte da monarquia, o jornalismo mais influente (porque mais audível pelo público), ter estado nas mãos de republicanos ou, pelo me- nos, de oponentes do consenso monárquico que planeavam o ataque à corte. A ideia de decadência foi alimentada pelo ultimato inglês, que trouxe, com os políticos republicanos a agitarem a vida da nação e os monárquicos liberais a perderem o crédito, graves consequências. O papel da monarquia não parece ter sido bloqueador do funcionamento das instituições republica- nas, mas sim o contribuir para que elas funcionassem. Desde logo porque o rei representava um ele- mento de estabilidade capaz de evitar ruturas constantes que fizessem perturbar ainda mais a perma- nente agitação politica. Para Fialho de Almeida, a conhecida frase do rei de que Portugal era “uma monarquia sem monár- quicos” constituía então uma formulação para exprimir essa separação que sempre existira entre o poder e o povo. No final do seculo XIX, os partidos monárquicos estavam esgotados de sentido ideológico pois as organizações de grandes burgueses (classe média) disputavam o poder. A simplicidade do programa republicano - acabar com a monarquia, obtém a atenção da grande maioria do povo. A popularidade dos republicanos crescia constantemente sobretudo nas cidades e a monarquia foi acusada do fracasso da nação. Para conter a agitação, o governo foi entregue a João Franco, que impôs uma ditadura, dissolvendo o parlamento, com o objetivo de transformar, cívica e culturalmente, a mentalidade da nação portugue- sa. Este facto causou grande emoção nos meios republicanos. O rei foi morto a tiro por elementos mais exaltados que o esperaram quando este regressava a Lis- boa. Era nesta altura o único verdadeiro apoio do seu próprio trono “ pagando com a vida os crimes do seu povo, de ignorância, de antipatia pelo progresso, de desamor pelo trabalho, de corrupção, de am- bição pessoal, de irrespeito as leis e de indiferença ou burla pelas ideias substanciais de pátria e de nação ”. Com ele morreu o que talvez fosse a última tentativa séria de reforma do sistema parlamen- tar monárquico. Margarida Monteiro A morte do rei
  11. 11. 11 O texto "A Morte do Rei", escrito por Fialho de Almeida, é um breve mas bem estruturado do- cumento que se centra nas circunstâncias que rodeiam a queda da Monarquia e a injusta execução públi- ca do rei D. Carlos. Este ensaio ir-se-á basear nas características do rei e nos verdadeiros motivos que levaram à sua mor- te. Antes, porém, de analisar D. Carlos como rei, irei apresentá-lo enquanto homem. Aqueles que o trata- ram e viram de perto descreviam-no como um homem culto, arguto e encantador, um "assombro de pure- za citadina e graça fidalga". Era um homem lúcido, amante das coisas belas e entusiasta de desporto. Uma pessoa descrita com tais características não seria, decerto, alguém adequado para governar um reino? Apesar da sua forma descontraída de governar, o rei nunca cessou de impressionar o palácio com os seus modos finos e com a sua agilidade mental. De facto, D. Carlos revelou ser um diplomata brilhante, recebendo em dois anos consecutivos três dos maiores chefes políticos da Europa - Eduardo e Alexandra, Guilherme II e Loubet. Isto evidencia as notáveis capacidades carismáticas do rei, que, no entanto, cada vez mais se isolava do governo do seu reino. As massas apenas vislumbravam este lado mais distante do rei. Certamente que D. Carlos se apresen- taria ausente e frio em público, enfadado pelos seus conselheiros, os ditos "políticos" que nada mais queri- am para além de reclamar a sua parte do governo. De facto, o rei estava disposto a realizar mudanças e fazer progredir o reino, mas não conseguiu reunir a vontade para "sobrelevar os pendores viciosos e as ronceiras manhas da nação". D. Carlos cada vez mais se via rodeado por homens que o enojavam, sem qualquer pingo de lealdade, cujo único interesse era assinar decretos. Como poderia o rei manifestar interesse pelo seu governo nes- tas situações? Então e o povo? Detestavam o rei por apenas verem o seu "orgulho pueril", "carácter incerto" e "qualidades frouxas". Projetavam no rei a sua infelicidade e culpavam-no pelas dificuldades que viviam, vendo um inocente como alguém a eliminar. Fialho de Almeida descreve esta classe social como algo pri- mitivo, uma "turba acéfala, alternadamente feroz e sentimental". É um facto que o povo não tinha cultura, nem uma forte capacidade de raciocínio em relação às emoções. Deixava-se guiar pelo momento, vindo mais tarde a lamentar as suas decisões... Ora, D. Carlos foi precisamente uma vítima desta impulsividade. Foi também uma vítima da manipulação que o povo sofreu, não tendo a cultura necessária para pensar por si próprio e seguindo então os interesses dos republicanos, que escolheram o rei como bode expiatório para o estado degradado do país. O facto é que a República não trouxe qualquer melhoria à vida da população. Mesmo após a tão dese- jada Implantação da República se pode verificar a ganância dos governadores e a miséria dos governa- dos. A diferença é que agora é progressivamente mais fácil a manipulação do próximo chefe eleito, que será aquele que mais convém a quem já tem um posto a seu cargo. O rei não era nem monstro nem ídolo. Era meramente um homem a tentar cumprir o seu dever e que "pagou os crimes do seu povo". Maria Inês Ferreira A morte do rei
  12. 12. 12 O rei D. Carlos I foi, talvez, o rei que mais sucesso teve com as relações de Portugal com o es- trangeiro, tendo conseguido trazer os três dirigentes das maiores potências da Europa a Portugal (por dois anos consecutivos) e tendo conseguido afirmar Portugal diante da Europa. Apesar das tentativas de o rei se tentar relacionar com os portugueses, a complexidade da sua personalidade terá levado o povo (e não só) a aplaudir quem o matou. Mas... povo? Na época, "povo" era apenas uma força bruta e acéfala que alternava entre a ferocidade e o sentimentalismo, uma força inerte sem consciência de si mesma, sem opinião que a levasse a realmente tomar partido de algo. Ou seja, não havia povo. E burguesia? Possuidores da maior e melhor parte da riqueza pública, mas a quem o ensino público nada devera. Visto que Portugal se encontra- va num transe de perdição, incumbia aos ricos o dinheiro para Portugal ressurgir ao seu antigo lugar na civi- lização. Em suma, burguesia era sinónimo de um aglutinado social com escassas luzes de civismo e ape- nas com uma sórdida defesa de interesses pessoais. A nacionalidade portuguesa não conferia uma sensa- ção autónoma de força. Fialho de Almeida recolheu a opinião de duzentas a trezentas pessoas que de perto trataram e viram o rei, e nenhuma delas divergiu da sua opinião, de que D. Carlos fora um homem de uma estatura superior, um homem culto, inteligente, bravo e generoso. Um homem cujas ideias geniais lhe permitiam dirigir vistas para uma infinidade de questões, com um grande amor pela pátria. Dizia-se que tinha um furor pela caça. Mas quem não tinha? Mesmo assim, teimava em afastar-se em caçadas e explorações oceanográficas de forma a fugir à consciência do cargo e ao que os jornais de si diziam. Nestas alturas, o rei escapava com poucos dos seus conselheiros (os que mais tolerava). Mas culpar um homem pela desgraça de um país inteiro? Um rei disposto a um reinado eficaz que não teve perto de si sugestores e conselheiros habilidosos, que tinha uma nação a julgá-lo constantemente (sem consciência), sem olhar aos seus feitos para com a Europa e, em especial, o Reino Unido (sendo que a primeira visita monárquica de Eduardo VII do Reino Unido foi a Portugal). O seu tédio dera-lhe uma imagem pública desdenhosa, ainda que sendo uma timidez mal interpretada face a uma multidão pouco expansiva. A sua frase "isto é uma monarquia sem monárqui- cos" revelara a sua solidão e isolamento enquanto rei. Já não eram os reis a fazer o povo, mas sim o povo a fazer os reis. Daí D. Carlos ter pago com a vida os crimes deste mesmo povo. Crimes seculares de bestificação, ignorância, antipatia pelo progresso e desa- mor pelo trabalho. Corrupção, ambição pessoal, desrespeito pelas leis e indiferença para com as ideias de pátria e nação. Como é possível que, após todos os feitos (ainda que desvalorizados) que D. Carlos fez por Portugal, os que o assassinaram tenham sido beneméritos da história? Pobre, pobre D. Carlos! Quando se pensa que afinal era mais inteligente, e teve talvez virtudes superio- res às dos seus adversários (…)... Mariana Vinhas A morte do rei
  13. 13. 13 Fialho de Almeida redigiu um texto intitulado “A morte do rei”, no qual manifesta o seu ponto de vista acerca do rei D. Carlos e do povo português. Sendo completamente contra os que retratam D. Carlos como um rei inapto, que assinou a sua sentença de morte ao ter suspendido a Carta Constitucional, não aceito que defendam os que o assassinaram e sus- tentam que estes sacrificaram a sua vida a lutar pela liberdade. Na mi- nha opinião, enquanto existir uma ordem constitucional baseada na Lei, na separação de poderes e nos direitos individuais, uma Monarquia pode garantir o mesmo, ou até um maior grau de liberdade em relação à Re- pública. Aliás, caso contrário, não teria sido necessário um 25 de abril, uma revolução na qual o povo lutou pela liberdade em pleno regime re- publicano. Penso que este povo não é, tal como refere Fialho de Almeida, nem de perto, “uma multidão intelectualmente disciplinada e consciente”, ou seja, não é um verdadeiro povo. Face à Monarquia, mostrou-se descon- tente, e quando finalmente foi feita a sua vontade, isto é, quando foi im- plantada a República, o sentimento de insatisfação mostrou, com o pas- sar do tempo, ter permanecido. Desta forma, não é de admirar que o po- vo português retrate o rei como um monstro e dê relevância apenas aos seus erros: na realidade, acaba por ver no rei as suas próprias caracte- rísticas, não dando qualquer importância ao que D. Carlos fez de bom pelo nosso país. Por exemplo, no final do século XIX, graças às suas grandes qualidades de diplomata, o rei conseguiu inverter a situação de crise originada pelo Ultimato Britânico. Assim sendo, acho ridículo ter ocorrido a queda da monarquia, que, para além do mais, foi, em grande parte, graças à morte de um rei que cumpria devidamente as suas funções. Os responsáveis pelo regicídio, Alfredo Costa e Manuel Buíça, assassinaram o rei para, julgando eles, evitar males bem maiores, mas o que se seguiu (a República) não cor- respondeu propriamente a uma forma de isto se suceder. Segundo a minha perspetiva, o regime republicano não passa de uma forma de iludir as pessoas, fazendo com que estas pensem que há, rela- tivamente à Monarquia, uma maior igualdade entre todos os cidadãos, e que estes podem todos ambicionar chegar ao topo da carreira política. Isto porque estes “princípios” da República não se verificam na prática. Por exemplo, as hipóteses de uma pessoa que deseja o cargo de Presi- dente da República, mas não faz parte de qualquer partido político e é desconhecida da sociedade em geral, ser eleita, é praticamente nula. É isto que a República toma como igualdade? Tendo em conta tudo o que referi anteriormente, considero que o rei não merecia ter sido assassinado, pois demonstrou ser um homem bas- tante competente no desempenho da sua função. Para além disso, al- guns dos ideais republicanos, tais como a liberdade e a igualdade, não se verificam na realidade, pelo que o Regicídio, em vez de melhorar, acabou por piorar a situação do nosso país, por ter conduzido à queda da monarquia. Miguel Anjos A morte do rei
  14. 14. 14 O regicídio de D. Carlos I foi um dos acontecimentos mais marcantes do século XX que se deram no nosso país, tendo um impacto tanto a nível nacional como europeu, contudo, com uma acentua- da discrepância entre as opiniões dessas duas faces. Em Portugal, a atitude política de el-rei era tida como entediante, apagada das causas sociais, teimosa e até mesmo descrente na “salvação” do povo, ideia resultante das ideias revolucionárias dos republica- nos. Na verdade, estando isolado do seu povo, vivia como que num mundo paralelo onde os problemas do reino português eram alheios, devido, sobretudo, aos seus conselheiros, homens que revelavam pouco interesse em questões políticas ou burocráticas, ou no estado da nação (que se agravava celeremente com a educação praticamente inexistente, a fraca cultura do povo, a situação económica e política que se vivia desde os dias do Ultimato Inglês, e ainda com os ideais republicanos que se iam entranhando na mente dos “acéfalos”, fomentado a rebelião republicana da qual foi vítima o rei). Nestas condições foi portanto bem recebido esse ato bárbaro, numa tentativa de implementar um revo- lucionário modelo político já em vigor nos Estados Unidos da América – a República – que prometia dar voz aos cidadãos e que lhes parecia conferir o poder de destituir e eleger o seu máximo representante. No entanto, a República parecia não ser um modelo consensual a nível mundial: na Europa, onde a monarquia vigorava com força (tanto absolutista como constitucionalista), o recente modelo não era bem visto. Por conseguinte, também o regicídio não o foi. O regicídio foi, muito pelo contrário, visto como um ato brutal, radical, e notoriamente recriminado na imprensa internacional na qual se publicaram imagens do atentado, acima de tudo representações baseadas nos relatos de testemunhas, com legendas como “Lisbon’s Shame”, deitando por terra a reputação internacional de Portugal que o D. Carlos conseguira cri- ar e manter. Por este motivo, pode então deduzir-se que esta onda de incredulidade não foi despoletada apenas pelo homicídio em si, mas também por essa imagem que o rei tinha construído de si no estrangeiro: uma imagem de prestígio, de minúcia e cuidado com a sua aparência, sendo conhecido pela sua faceta persua- siva e perspicaz (amigos mais próximos consideravam esta a verdadeira faceta do rei, fora do ambiente sufocador e supérfluo do Conselho, na qual não se sentia à vontade). Transmitia assim uma visão positiva da situação do seu país. Ora, a fim de conseguir acalmar o clima revolucionário que se havia instalado essencialmente nos ele- mentos da classe baixa portuguesa, permanentemente angustiados pelas condições em que viviam, D. Carlos necessitava de tomar uma atitude semelhante à que tomava em situações de política exterior: ser persistente, usar a sua força de persuasão pela qual era conhecido na sua vida pessoal e, acima de tudo, reinar pelas suas mãos, tornando-se vital uma reestruturação do Conselho. Mas como não só de pão vive o Homem nem tão pouco tem apenas o rei de se ajustar ao povo (como é o caso do Reino Unido), também a burguesia, a classe mais privilegiada e abonada da sociedade, teria de contribuir para a melhoria das condições do povo, para o progresso científico, para o desenvolvimento da cultura e da economia, de forma a permitir a modernização de Portugal, compensando o seu perma- nente atraso (artístico, científico, político…), fundamental razão do homicídio do rei D. Carlos I. Atendendo a estas situações, teria sido possível evitar tal horrendo atentado contra a identidade de uma país (que o colocou numa situação de instabilidade que ainda hoje se sente), fruto de uma profunda ignorância e alheamento da vida política da plebe. Pedro Ceia A morte do rei
  15. 15. 15 O Rei D. Carlos nasceu em 1863 e foi assassinado a 1 de Fevereiro de 1908. Foi um Rei con- troverso, amado por uns, odiado por outros. Neste ensaio, iremos refletir, ainda que de forma superficial, sobre este assunto. O Rei pagou com a própria vida o descontentamento do povo. Culpa? Irresponsabilidade? Falta de sentido de Estado? Pouco depois de subir ao trono, em 1809, deu-se o “Ultimato Inglês" – Os Ingleses fizeram um ultima- to a Portugal: ou os Portugueses desistiam da ideia de ligar Angola e Moçambique (o que seria prejudici- al para os Ingleses) ou Portugal era invadido. A agitação que se produziu no país culminou na revolta militar do Porto em 31 de Janeiro de 1891, perturbando o início deste reinado. Aliás, foi um reinado difícil: as lutas políticas entre republicanos e monárquicos, a ditadura de João Franco (apoiada pelo monarca), revoltas por todo o Ultramar, nova tentativa revolucionária a 21 de Janeiro de 1908. Assim, o crescer do Partido Republicano Português, o apoio ao Partido Regenerador Liberal de João Franco, o desgaste do sistema político português, criado em parte pela alternância de dois partidos no poder (Progressista e o Regenerador), deram origem ao descontentamento geral. O Rei, como já afirmámos, era amado ou odiado: tinha, segundo afirma Fialho de Almeida, um caráter complexo, antitético, de extremos: na intimidade, era cordial; em público, mostrava-se, por vezes, deslei- xado e rude. Parecia desinteressado do seu governo e dos assuntos do Estado. A sua evasão – tradição Portuguesa, aliás – era a caça. Mas, se pensarmos que a história nos descreve um Rei culto, inteligente, corajoso, interessado pela sua Pátria, como justificar “desinteresse”? Segundo Fialho de Almeida, pode- ria aceitar-se o facto de o Rei estar rodeado por pessoas incompetentes, com visão limitada, pensando, acima de tudo, nos seus próprios interesses. Acresce ainda o facto de o povo, em geral, e a burguesia não terem uma verdadeira disciplina intelectual, deixando-se levar pelas emoções, colocando, acima do interesse da Pátria, o interesse pessoal. O Rei afirmou “isto é uma monarquia sem monárquicos”, o que mostrou o seu desespero, o seu isola- mento, o facto de os monárquicos não se empenharem de forma responsável e inteligente. É de relembrar que o Rei conseguiu vários triunfos diplomáticos: trouxe a Lisboa, em dois anos con- secutivos, os chefes de três grandes estados políticos da Europa (Reino Unido, Espanha e França). Acabou, no entanto, por pagar com a vida o descontentamento do povo, a sua ignorância e, citando Fialho de Almeida, a sua “antipatia pelo progresso”, o “desamor pelo trabalho”, a falta de ambição, a cor- rupção. Perante o Regicídio, a Europa ficou revoltada, Portugal passou uma vergonha. Concluindo, o Rei certamente tinha qualidades e defeitos, como qualquer ser humano. Preocupava-se com a Pátria, tinha ambição política, mas, por um lado, os acontecimentos externos e internos, por outro lado, a falta de consciência de Estado dos que o rodeavam, culminaram no lamentável assassinato, ato pleno de cobardia dos republicanos. O Rei morreu, mas a monarquia ainda sobreviveu e, com ela, as ideias monárquicas, o amor à pátria acima de tudo. Susana Capela A morte do rei
  16. 16. 16 Nunca nenhum rei sofrera tão dura e cruel morte como nosso El-Rei D. Carlos, penúltimo rei de Por- tugal. Quem iria esperar que, de uma saudosa multidão, dois homens premissem o gatilho, disparando peque- nas e inúmeras balas que tinham como objetivo ferir mortalmente toda a família real. Por sorte (e arrepio-me a escrever estas duas palavras), apenas dois membros dessa família morreram naquele atentado, o qual tirou a vida a pai e filho: El-Rei e seu primogénito, Luís Filipe. É-me impossível imaginar a confusão que se instaurou em pleno Terreiro do Paço, naquele 1 de fevereiro de 1908: os calafrios que percorreram a espinha dos que assistiam e que nenhuma culpa tinham do sucedido; os gritos de mulheres aflitas com o som dos disparos e posterior imagem de uma horrenda morte, mesmo em fren- te dos seus olhos; os olhares discretos daqueles que, secretamente, já há muito desejavam aquela morte a san- gue frio. Uma réstia de culpa e vergonha por parte destes e também dos assassinos? Talvez. Creio que nin- guém dá vivas de alegria por matar ou pela simples ideia de matar. Porém, é-me inimaginável a dor que D. Amélia teria sentido naquele momento e nos que a este sucederam. Num só dia, aquela pobre mulher perdera filho e esposo, de uma maneira tão trágica e cruel, em frente a centenas de pessoas. O Regicídio foi a última peça do puzzle, o último passo a dar para se implantar o que se viria a chamar de República: uma forma de governo na qual o chefe de Estado (Presidente da República) é eleito pelo povo, atra- vés de um voto livre e secreto, tendo a sua chefia uma duração máxima de quatro anos. Assim, dois anos após a queda da monarquia portuguesa, no dia 5 de outubro de 1910, instaurou-se a Primeira República em Portugal, liderada por Teófilo de Braga. Há quem defenda que uma República é de longe a melhor forma de governar um país, devido ao seu sistema democrático que permite eleger os seus deputados e os seus governadores. Toda- via, tenho a noção de que, se Portugal não era bem governado há 107 anos atrás, atualmente toda a situação política, económica e social encontra-se profundamente enferma. Este país deixou de ser um barco em que os seus marinheiros se esforçam para tapar todos os buracos com o objetivo de impedir a água de entrar, pois sa- bem que este já foi ao fundo; ou então, Portugal tornou-se um barco à deriva, perdido no meio do oceano, cheio de perigos, navegando por onde o vento e as marés o levam. Muito se criticava em D. Carlos: a sua mania do desporto, o seu furor pela caça… Tantos outros vícios e ta- ras, comuns a reis e príncipes, assim como a membros da nobreza em geral. No que é que esses vícios diferem dos de muitos ministros e presidentes e toda a gente? Estes também o fazem, também têm os seus dias monár- quicos e ninguém é capaz de criticar! No início do século XX, uma determinada elite, ambicionando dinheiro e poder, uniu-se em torno da ideia de eliminar definitivamente o Rei e o regime político que este representava. Contudo, esta elite não tinha consciên- cia nem saber para governar Portugal. D. Carlos não conseguiu desempenhar de forma grandiosa a sua tarefa, possivelmente porque estaria rodeado de pessoas incompetentes e algumas delas, no seu íntimo, desejariam a sua morte. Já dizia Fialho de Almeida, um jornalista e escritor pós-romântico português: “Pobre, pobre D. Car- los! Quando pensa que afinal era mais inteligente, e teve talvez virtudes superiores às dos seus adversários – e por não dizer – às dos seus cúmplices…”. Susana Roque A morte do rei
  17. 17. 17 Devo admitir, antes de mais, que, neste texto, não se irá tratar da vida do Rei D. Carlos, não apenas porque não tive o prazer de conviver com o próprio, mas por saber apenas o que está escrito e o que se diz, principalmente porque a sua morte e o que dela adveio será um tema muito mais urgente. Queria propor ao leitor um exercício mental: imaginemos uma família constituída pelos pais, uma criança e dois adolescentes e, num surto de ira, os dois adolescentes decidem, após ver um programa estrangeiro na televisão, que os seus pais não sabem educar propriamente os seus filhos, logo “expulsam os pais” e querem educar a criança eles próprios cada um com um ideal diferente, mas, não chegando a consenso, decidem que deve ser a criança a decidir quem a educa. Esta situação é uma alegoria, sendo os “pais” o rei e respetiva corte, os “adolescentes” os republicanos e por fim a “criança” o povo. Não pondo em causa o intelecto do leitor, nem querendo impor nenhuma lógica específica, creio que não estou errado em deduzir que, em condições normais, esta situação não seria nada desejável levando até à “ruína” a família em causa. Admito poder ter exagerado nas comparações que fiz, no entanto pergunto: não foram as ações dos republicanos comparáveis com as de um adolescente? Um adolescente com défice de atenção, claro! Matar o Rei D. Carlos não foi um grito desatento? A morte do Rei foi para alguns um alívio, uma oportunidade de redirecionar o rumo do reino num outro sentido mais "confortável", mais “adequado”, enquanto que para outros, mesmo que poucos, apenas tornou El rei D. Carlos um verdadeiro mártir, mostrando, através da sua morte, a índole dos republicanos. Em relação ao povo, custa-me crer que se interessasse verdadeiramente pela orientação política dos regentes do reino desde que lhes fosse prometida uma melhoria extraordinariamente rápida do seu estado. Acusava-se o Rei de um certo desinteresse no que tocava a assuntos de governação, mostrando-se até entediado e dando demasiada importância às suas caçadas e aos “sports”. No entanto que se pode dizer do comportamento dos Portugueses? Será que algum dia se irá curar a inércia que infeta as nossas mentes? Recuso-me a acreditar que isso seja possível enquanto for uma prática aceitável defender o país com argumentos de acontecimentos arcaicos e de beleza natural para imediatamente a seguir admitir que apenas as políticas externas e as condições estrangeiras são aceitáveis e que não há mais nada a fazer pelo país. É necessário que cesse este orgulho tão extremo de um passa- do distante que ofusca a visão do futuro. Da morte do Rei D. Carlos, resultou uma nova maneira de pensar. Não discordo. Permitiu que os portuguese pen- sassem que teriam a possibilidade de não trabalhar e ter todos os benefícios de alguém que trabalha, de ter todos os direitos e nenhum dever. Apenas penso que Portugal, ao matar D. Carlos, criou aproximadamente 10 milhões de reis. Tiago Cadete A morte do rei
  18. 18. 18 Não é fácil em meia dúzia de linhas falar do rei D. Carlos morto, pois se trata dum homem cujo carácter e cujo espírito têm complexas facetas, onde se mirraram e refrangeram defeitos e qualidades de invulgar poder de antipatia e sedução. Esses que o desvairamento arrastou à ignomínia de aplaudirem e defenderem os que o mataram, farão dele a pintura de um monstro rancoroso e armado de manhas cíni- cas, com que acabou de apodrecer os políticos e fomentar o descalabro de toda a máquina oficial e bu- rocrática. Os que porém lhe viveram cerca, pintá-lo-ão como um assombro de pureza citadina e graça fidalga, enojado da torpitude dos partidos, e tendo pela ideia de pátria um culto inverosimilmente alto e absorven- te. Entre tais extremos suponho deva medir seus passos a história, acautelando-se de dar à figura do rei- mártir, qual a ferocidade sinistra do monstro, qual a rigidez arcaica do ídolo, pois nem dum nem doutro se trata, e não há razão para da serena análise dos factos se não colher o depoimento justificativo duma estatura de homem superior, inteligente, culto, bravo e mesmo generoso, sofrendo é certo, a espaços, a depressão moral que é tara de toda a família portuguesa, e em especial estigmatiza o grupo ou grupos donde verosimilmente saíram os assassinos do monarca. De feito, se vamos às prendas que ornaram, no campo da pura cultura mental, o espírito de D. Carlos, vemos um homem com uma soma de ideias gerais permitindo-lhe dirigir vistas para uma infinidade de questões, interessando-se, não direi como um sábio, mas como um mecenas lúcido, por uma especialidade científica, amando as belas coisas, fazendo ele mesmo arte como um pastelista de talento, e enfim exagerando um pouco a mania dos sports, o que até certo ponto havia utilidade num país onde ainda há pouco a ginástica era uma coisa só aconselhada aos acrobatas. O seu furor pela caça?... Mas quase todos os príncipes o têm, e até por imitação, certos presidentes da república, que são monarcas a dias — pois na verdade o que hão de fazer os reis, los de verdad, senão cevar em coelhos e perdizes as ancestralidades fogosas com que a sua proveniência de castas guerrei- ras lhes trabalha o sangue, nesta época em que as guerras são mais de Bolsa que de exércitos, e em que para os indivíduos até os códigos de honra preconizam, em vez de duelos, indemnizações pecuniá- rias? Recolhi pacientemente o testemunho de duzentas ou trezentas pessoas que me pareceram desinte- ressadas e serenas, isto é, sem expoente político acirrado e que todas trataram e viram de perto o rei D. A morte do rei A MORTE DO REI
  19. 19. 19 Carlos: pois nenhuma diverge desta opinião char- mée que o monarca mais ou menos acentuada- mente lhes deixou. Quem tratava com ele podia não aquiescer na sua forma laxa e nonchalante de fazer governo, mas nunca deixou de vir do palácio impressionado pela sua maneira fina e subtil de tocar os assuntos de palestra, os mais diversos, pela sua agilidade mental de homem afeito a fazer da inteligência um sport quotidiano, e mesmo até da sua alta compre- ensão por coisas a que ordinariamente os da sua entourage eram alheios. Porque esta cordialidade risonhamente fidalga no trato íntimo, e o aspeto bisonho, e aborrecido e duro com que o monarca usava estar em público? Porque esta cerebralidade arguta, culta, indiscu- tível, e o seu afastamento quase proposital dos homens que pelo talento e estudo mais legitima- mente lha poderiam apreciar e quotar em famas cívicas? E mais: se o rei D. Carlos aquentou no coração um ideal triunfante e dominador de pátria portu- guesa, porque esse abandono, anos e anos, das coisas do Estado, às aventuras dos dois partidos alternantes, exercendo o poder co- mo numa ca- verna onde cada qual reclama a sua parte? Não será fácil a um misantropo nostalgizado, como eu, em aldeotas selvagens da planície be- jense, esclarecer e explicar com precisão todas as contradições flagrantes da maneira de ser do rei D. Carlos; e só por induções longínquas, pressen- timentos, saltos, eu lhes poderei dizer da formação deste carácter, estranhamente complexo, profundo mesmo apesar de fútil, e tão cheio de singulares belezas, tão alternado de fugas e senões, e que provavelmente vem a soçobrar sobre as calúnias da história, falto de ter tido a si junto alguém capaz de o justificar e exprimir pelos rigores do método científico, que não à luz das labaredas de ódio que acendera a demagogia bronca, a par da sepultura sangrenta que lhe abriu! Foram taras de educação? Foram taras de cas- ta, as causas propulsoras do desacordo entre os atos do trato íntimo de D. Carlos como pessoa, e parte dos seus atos públicos como rei? Se ele foi um espírito reto e bem formado, por- que, vencendo a morrinha corrupta dos áulicos, se não impôs como devia à delapidação das finanças e ao deplorável atraso da nação? Porque não empenhou ele a palavra e pôs a coroa sobre alguma ou algumas das questões ca- pitais da sua terra — questão do ensino primário obrigatório, questão de salubridade e revigora- mento da raça, nacionalização do trabalho, subsis- tências, proteção agrícola, divisão da grande pro- priedade, etc. —, coisas que num momento lhe teriam conquistado as almas, como já sucedera na revolucionária Itália ao neto de Vítor Manuel, em meia dúzia de anos de reinado?! Mas não lancemos sobre a cabeça do rei todas as culpas, nem tornemos um homem só responsá- vel pelos erros de todo um país rotinário e de ca- rácter incerto, com inveterados vícios de educação e formação, deploráveis misérias de orgulho, mo- nomanias de grande, bazófias — preguiçoso, inve- joso, aborrecido do trabalho e da penúria, numa história de mais de 80 anos de liberalismo cons- purcado de oratória e catilinárias de imprensa; e tudo isto sob o avoejar duma bandeira gloriosa sem dúvida, mas que se fartou de proteger, em Asia e Africa, morticínios, ladroeiras e extorsões de toda a ordem. Volvamos, volvamos à realidade, dos sonhos épicos de que tanto temos abusado para mistificar a civilização e os portadores da dívida externa. Um Vítor Manuel II ou um kaiser Guilherme só são possíveis em países onde a cultura elevada e o nível moral criaram uma consciência cívica perfei- ta e uma opinião pública robustecida no amor pá- trio e na mais alta noção da liberdade e do pro- gresso. Nesses países a multidão tem uma iniciativa, um critério, uma autonomia mental com que se conta, e que uma élite de sábios artistas e homens de Estado guia, afina, educa, movendo-as por corren- tes em espraiados mares de marés voluntariosas, com que se forma isso que à luz da sociologia se chama a nacionalidade, com seu carácter uno e indivisível. Mas em Portugal onde está essa multidão inte- lectualmente disciplinada e consciente? Onde a nacionalidade ou classes que a formam aglutinan- do-se em bloco donde cada homem aufira uma sensação autónoma e tranquila de força? Povo? Não há povo. A turba acéfala, alternadamente feroz e senti- mental (tarada em todo o caso), que em Portugal faz as vezes de povo, é uma força de inércia sem a menor consciência de si própria, e que no esta- do de bestialidade africana em que jaz, tão cedo não pode ter papel na marcha do país, restando- lhe continuar a ser explorada por caciques, ou le- vada para o mal por papagaios de comício, no sentido das suas taras homicidas. Burguesia, classe média?... essa que nas suas mãos retém a maior e melhor parte da riqueza pú- blica, e cuja ação educativa e filantrópica em In- glaterra e Estados Unidos avança, se não excede muito a ação do Estado, que iniciativas, que coo- perações, que sacrifícios, que esforços (colónia do Brasil à parte) lhes deve a educação pública, tão triste, e os temerosos problemas que no campo da viricultura social teremos de resolver se não qui- sermos soçobrar num cativeiro espanhol cada vez mais verosímil? Universidades, bibliotecas, mu- seus, escolas práticas, missões operárias e cientí- ficas aos países de avanço, instituições de benefi- cência, bairros salubres, lactários, maternidades, cantinas, companhias de irrigação, de navegação, A morte do rei
  20. 20. 20 de agricultura colonial, etc., todos estes laborató- rios de ciência, de indústria, de riqueza e de vida, que custam milhões, e com que o erário decidida- mente não pode, é evidente deviam estar sendo organizados pelo beau geste da iniciativa privada e de benfeitoria coletiva num país onde a burguesia tivesse abnegação e grandeza cívica; pois dado o transe de perdição em que nos vemos, incumbe aos ricos o rasgo de dinheiro para Portugal ressur- gir unificado e armado para a conquista do seu an- tigo lugar na civilização. O povo é o que eu disse; a classe média é o que se acaba de ver, um aglutinado social com escas- sas luzes de civismo, subalternizado à procura do pão, e sem mais virtudes que não sejam uma sórdi- da defesa de interesses pessoais. Toda esta gente, em vez de dar, parasita mais ou menos, roubando o público, roubando o Estado, na mais perfeita indiferença do que sejam virtudes ex- trafamiliares e deveres de cidadãos. Mas enfim, parte dessa burguesia inda trabalha e adquire os capitais com que se doira. A má agricul- tura, a indústria hesitante e as explorações finan- ceiras pertencem-lhe. Mas que dizer das classes dirigentes? Dos políticos, dos professores, dos ho- mens de letras, dos artistas, dos filósofos e dos sábios — da gente de luxo e da gente de corte, de tudo isso que, ao de cima dum povo na culminância das classes, faz o casco doirado da vida refinada e superior?!... É evidente que o rei, magnificamente disposto para um reinado eficaz no campo do progresso mo- derno, não teve junto de si conselheiros e sugesto- res habilidosos, nem dispôs duma vontade enérgi- ca, capaz de sobrelevar os pendores viciosos e as ronceiras manhas da nação. No reinado de D. Luís foram morrendo os últimos grandes homens da época, Saldanha, Herculano, Sá da Bandeira, Sampaio, Fontes, e outros próce- res. Oliveira Martins que, cerca do trono, era o últi- mo duma certa estatura intelectiva, envolveu-se ao chegar a Lisboa numa tertúlia de janotas e snobes que lhe diminuíram a ação, se alguma pudesse ter no ânimo do rei. E o Bragança ficou só, entre os dois grandes partidos que se disputavam o mando, e cercado duma camarilha que, à parte intrigas de prato, não fazia falar de si pelas aldeias. Esses partidos sabe-se como entenderam gover- nar um país de escassos recursos e mui trabalhosa urgência de medidas no campo da administração e das conquistas materiais. Não governaram nunca (nem governam) segun- do a letra dum programa esquiçado com método, e levado a executar quand même, através as resis- tências da preguiça e da selvajaria das massas; mas gastavam todo o tempo a inventar fórmulas burocráticas, a remover com expedientes questões sem espera, a tramar empréstimos que ficavam em A morte do rei
  21. 21. 21 gorjetas um pouco nas mãos de todos, e a amorda- çar para os efeitos cobardes da tolerância as dissi- dências rebeldes, com presentes de cruzes e de empregos. Assim se avolumaram e embruteceram esses partidos, afastando as raras colaborações sérias que por inadaptabilidade a estas práticas funestas preferiam deixar a vida pública, e chamando a si clientelas de medíocres que encheram as secretari- as, entraram na diplomacia e nos cargos de respon- sabilidade, tornando a administração pública um privilégio de caciques, donde o fundamental divórcio entre os interesses da política e os interesses da nação. Tudo isto serviu para aumentar ainda mais o iso- lamento moral do rei, e para relegar na opinião pú- blica o prestígio da monarquia, como instituição civi- lizadora, a um plano apagado e secundário, íamos a dizer regressivo, de cuja funesta reputação seremos vítimas se os monárquicos continuarem a ser para os efeitos revolucionários do descrédito, verdadeira- mente, os primeiros republicanos. Se o rei tem tido alguém de mirada dúctil que aconselhando lhe fosse o carinho por certos indiví- duos ou grupos capazes de maís cedo ou mais tar- de interferir na opinião; se mercê dos conselhos pérfidos dos janotas não tivesse feito um frio nos homens de letras, preferindo-lhes guitarristas e con- tadores de escândalos domésticos; se tem atraído a si, com a sedução dos seus dias de bom humor, os poucos sábios e professores ilustres que houvesse, se tem procurado aproximar-se de certas camadas operárias, dos próceres das classes produtoras e dirigentes, de tudo quanto enfim pode sentir a co- municabilidade dum espírito e propagar entusiasmo ou ternura por um credo; talvez que essa atmosfera de êxito, que os políticos lhe iam tornando mefítica, viesse a oxigenar-se outra vez, possibilitando a flo- ração irasolar do princípio monárquico, tanchado no solo português com oitocentos anos de raízes, e perfeitamente apto à prática da mais larga democra- cia, e à evolução de quantas remodelagens neces- sitem os povos para atingir a meta da liberdade polí- tica e da fortuna. Porém, o Bragança sentia-se cada vez mais iso- lado. Os grandes homens como Sá da Bandeira e Herculano tinham morrido; e conselheiros de juízo sereno e vistas largas, nem os havia, nem que os houvesse inspirariam confiança; porque, já o disse, o rei começava a fatigar-se das manigâncias dos políticos, começava a sentir a náusea das ambiciún- culas e baixezas adivinhadas à hora de assinar de- cretos, começava a descrer do estado apático das gentes, do saloísmo geral, das virtudes sentimentais sem profundeza, do carácter escorregado sem leal- dade — sim, sim, a desconfiar de todos, a negar no seu foro intimo, quem sabe? até a probidade pesso- al do maior número... Daí, consequentemente, essa espécie de tédio que durante tempo os negócios da política interior pareciam causar-lhe, e a sua insistência em só se entender com os presidentes do Conselho, e de raro falar em política com os titulares das outras pastas. Por ventura D. Carlos haveria sonhado, em vez da podridão ronceira que topava nos al- tos, e do não te rales forrado de sonambulismo asinino que era a expressão da massa plebeia, uma nervo- sidade de país com mais pendores para a ação, vontade firme, um ideal grande de pátria, como ain- da hoje tem o espanhol, e enfim esse instinto de solidariedade e de defesa que vive nas raças váli- das a quem se pode comunicar a febre de avançar e o gosto de viver. Em público aquele tédio do rei chegava a revestir um rito de máscara desdenhosa, que talvez fosse injustamente interpretado, e seria em parte timidez frente a uma multidão pouco expansiva, que de res- to sempre se lhe mostrara pouco afeta. O desdém pela inferioridade dos políticos, a visão crítica do irremediável atraso do trabalho agrícola e fabril, do nível cultural da gente ultra-selvagem, dos costumes ronceiros, finalmente o desalento do ho- mem orgulhoso visto a impotência duma vontade só poder galvanizar a paresia de seis milhões de in- consciências — quem sabe? Quem sabe se não seriam estas as causas de D. Carlos se recluir indi- ferente e aborrecido ao papel de rei prescrito pela Carta, e que Condorcet compara ao dum fantoche! Em certas épocas, aquela teimosia em se absor- ver nas caçadas e explorações oceanográficas qua- se revela propósitos de esquecer e fugir à consciên- cia do cargo que o esborracha, à surda cólera que os jornais adversos ululam, àquele alastramento de pântano que, visto de alvo, deve ser no mapa a sen- sação da terra portuguesa. Nestes períodos o rei foge aos políticos, mete a bordo alguns guitarristas e dois ou três confidentes, que ele mais tolera do que estima: e ei-lo na lande em batidas incansáveis, dormindo ao acaso das cabanas de pastores, ou cruzando a costa de yacht- man, sobre o Atlântico gris-perla, onde pinta de dia aquelas portuguesas marinhas que ele sentiu e ex- primiu como poeta, para levar a noite nessas cava- queiras joviais, picadas de má-língua, que são o prato e o vício de todo o português civilizado. Ah, os tempos mudaram! Já não são os reis que fazem os povos. Mercê da cultura e da aspersão democrática moderna, os povos é que vincam hoje os reis. O povo inglês adora o seu king, pois exal- tando-o reverencia-se a si mesmo. Rei ou rainha são magistrados que interpretam e servem a consci- ência grandiosa da Inglaterra. O povo português não gostava do seu rei, porque justa ou injustamente veria nele a imagem do seu orgulho pueril, do carácter incerto e das suas frou- xas qualidades. E como os macacos que se caretei- am a um espelho, num ímpeto de fúria partiu-o, jul- gando que assim deixava de ser mono... Que D. Carlos fosse um cérebro de mentalidade clara e aperceção subtil no trato dos homens, pro- A morte do rei
  22. 22. 22 vam-no muitos atos da sua vida pública e privada, os excelentes, os bons os muito maus, que to- dos desenham o perfil dum homem superior, casando certas degenerescências estetas de raça com outras predileções, nobres e belas, e tendo uma força de persuasão a lhe permitir nas cortes estrangeiras verdadeiros êxitos políticos. Trazer a Lisboa, em dois anos consecutivos, os chefes dos três grandes estados políticos da Euro- pa — Eduardo e Alexandra, Guilherme II, e Loubet (os três príncipes diretamente e sem itinerário por Espanha) para um país abatido, de cinco milhões e meio de habitantes, na ponta da Europa, e sem papel algum na política mundial, é um triunfo diplomático de tal maneira claro, que ninguém contestará tenha ele sido alcançado pelo prestígio e esforços de tática pessoal do rei D. Carlos, que todos sabem, quis sempre tratar por suas mãos, e com particular cuidado, as questões de polí- tica exterior. Esta força de persuasão, insinuando argúcias de limier sagaz na traça de burlar ou afastar estadis- tas importunos, de cortar situações embaraçosas, fazia dizer por vezes aos jornais que o rei era em Portugal o único político, a ponto de se chegar a alegar, como panaceia salvadora, o engrande- cimento do prestígio régio, o que exigia a intromissão do poder pessoal, contra que a opinião, sem- pre incoerente, nos últimos tempos se voltou, depois de quase a ter pedido. Boutades suas, san- grentas, satirizando políticos e personagens de evidência; certos impromptus sensatos, invetivando sob formas de dicção pitoresca, alguns dos aspetos precários da parada vida lusitana, eis outras tantas lucarnas que alumbram para dentro do critério amargo do homem descontente da morrinha da terra e iniciado pelas viagens nos mais intensos problemas da progressividade europeia em to- dos os ramos. A sua frase isto é uma monarquia sem monárquicos, clamada num colapso de angústia, ao cabo dalgum demorado exame às forças defensivas do trono, grita a clareza cutilante com que ele sente o seu isolamento de rei, entre o egoísmo abjeto das cáfilas retaliando misérias de marmita, no completo alheamento da pátria e das instituições tutelares da autonomia. A carta de 16 de Maio a Hintze Ribeiro, de que a inconveniência parlamentar, pouco escrupulosa das fórmulas, exigiu a divulgação, ao atribuírem ao rei a ordem dumas cutiladas da Polícia em po- A morte do rei
  23. 23. 23 pulares arruaceiros; aquela carta dos erros que de longe vêm, tão sinceramente sentida e de critério tão nítido, acaso não deixa ver como o rei entendia seu papel constitucional, e através da expressão cautelosamente velada, via claro os erros dos partidos, a insuficiência dos chefes, a mancomunagem rotativa envolvente, a urgência, numa palavra, de dar fim ao laisser aller que era o lema amarelo da caquexia nacional? Um dia este desejo de vida nova, cuja irredutível necessidade D. Carlos, se viu, chegou a sentir niti- damente, topou-lhe um bravo condottieri cavalheiroso e obsidiado, como todos os tenazes, pela ideia duma missão messiânica na pátria. O rei ouviu João Franco, e como quantos se lhe acercavam, foi seduzido pelo verbo imperioso e mordente do homem puro; que apenas confiado na sua estrela, e sem as forças dos seus lugares-tenentes, nem antes de ter feito a psicologia portuguesa, julgou que seria fácil transformar, no lapso breve dum ministério, a alquimia moral dum povo inteiro. O resultado todos o viram, e não vem ao caso forçar a paciência do leitor com mais palavras. Em plena rua, numa chacina que visava exterminar toda a família, D. Carlos pagou com a vida os crimes do seu povo, crimes já seculares de bestificação, de ignorância, de antipatia pelo progresso, de desamor pelo trabalho, de corruptela, de ambição pessoal, de irrespeito às leis e de indiferença ou burla pelas ideias substanciais de pátria e de nação. A sua morte, pela barbaria sanguinária e cafrealmente besta em que se envolve, e pelas apoteoses abjetas que a seguiram, lança um labéu na terra portuguesa, porque nenhuma obra neste século já se cimenta com sangue, e os que assassinam não podem ser beneméritos da história, por mais que a demagogia o escreva em folhas, e ouse insinuar em discurseiras. Foi a tragédia da Sérvia com as orgias do populacho de Paris quando o Terror; e sem o advento du- ma vida nova, administrativa e social, que ainda lhe atenuaria a virulência... Mas não! O rei assassina- do a 1, e ainda não recluído à sepultura, se ressuscitasse, poderia ver a 2, no governo os mesmos homens, a mesma graxa nas almas, mesma passividade nas ruas, mesmo palavreado nos comícios, e nos jornais os mesmos artigos sem fundo e as mesmas reles palavradas. Pobre, pobre D. Carlos! quando se pensa que afinal era mais inteligente, e teve talvez virtudes superi- ores às dos seus adversários — e por não dizer — às dos seus cúmplices... Fialho de Almeida (1857-1911) A morte do rei
  24. 24. 24 Jaz el-rei entrevado e moribundo Na fortaleza lôbrega e silente… Corta a mudez sinistra o mar profundo… Chora a rainha desgrenhadamente… Papagaio real, diz-me, quem passa? – É o príncipe Simão que vai à caça. Os sinos dobram pelo rei finado… Morte tremenda, pavoroso horror!... Sai das almas atónitas um brado, Um brado imenso d’amargura e dor… Papagaio real, diz-me, quem passa? – É el-rei D. Simão que vai à caça. Cospe o estrangeiro afrontas assassinas Sobre o rosto da Pátria a agonizar… Rugem nos corações furias leoninas, Erguem-se as mãos crispadas para o ar!... Papagaio real, diz-me, quem passa? – É el-rei D. Simão que vai à caça. A Pátria é morta! a Liberdade é morta! Noite negra sem astros, sem faróis! Ri o estrangeiro odioso à nossa porta. Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis Papagaio real, diz-me, quem passa? – É el-rei D. Simão que vai à caça. Tiros ao longe numa luta acesa! Rola indomitamente a multidão… Tocam clarins de guerra a Marselhesa… Desaba um trono em súbita explosão!... Papagaio real, diz-me, quem passa? – É alguém, é alguém que foi à caça. Do caçador Simão!... Viana do Castelo, 8 de abril de 1890 Guerra Junqueiro G O CAÇADOR SIMÃO A FIALHO D’ALMEIDA A morte do rei

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