Cenira andrade de oliveira

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Cenira andrade de oliveira

  1. 1. TRABALHO, TOTALIDADE EM MARX E SERVIÇO SOCIAL  Cenira Andrade de Oliveira  RESUMO  Trata  este  estudo  de  uma  reflexão  acerca  da  importância  da  categoria  totalidade  em  Marx  para  pensar  a  prática  profissional  do  (a)  assistente  social  como  forma  de  resistência  aos  influxos da  pós­modernidade  e  afirmação  do  projeto­ético­político  da  categoria profissional.  Palavras­chave: Totalidade, Trabalho, Serviço Social  ABSTRACT  In this study of a reflection about the importance of the entire category in Marx to think  the  practice  of  (a)  as  a  form  of  social  resistance  to  inflows  of  post­modernity  and  affirmation of the ethical­political project­the professional category  Keywords: Entire, Work, Social Work  1 ­ A CATEGORIA TOTALIDADE EM MARX E SUA IMPORTÂNCIA PARA  A  ANÁLISE  DOS  PROCESSOS  SOCIAIS  QUE  ENVOLVEM  A  PRÁTICA  PROFISSIONAL DO (A) ASSISTENTE SOCIAL.  A explicitação e reafirmação da teoria social de K. Marx como imprescindível para a  compreensão  e  análise  dos  fenômenos  sociais,  bem  como  para  a  transformação  da  realidade,  embora  recorrente  no  meio  acadêmico  que  circunscreve  a  formação  profissional em serviço social, tornam­se necessárias mediante um contexto adverso e  crítico no que tange aos paradigmas totalizantes, voltados  para análises e práxis mais  abrangentes e progressistas.  As tendências a separar, dividir, fragmentar, isolar e se fixar nas partes como se estas  fossem  autônomas e descoladas  do  todo,  aparecem como uma onda ou  febre  à qual
  2. 2. 2  poucos se encontram  imunes.  Sujeitos como  idosos,  crianças,  mulheres são pensados  desprovidos de historicidade ou dentro de um espectro contextual muito reduzido, como  se  os  efeitos  nefastos  que  os  acometem  não  fossem  uma  produção desse  modelo  de  sociedade e fruto da sociabilidade inerente à mesma. Alguns fatores corroboram, mas  não  justificam  tais  tendências.  Entre  estes  fatores  pode­se  citar  a  “compressão  tempo/espaço”  (HARVEY,  1996),  a  pressão por  resultados  cada  vez  mais  rápidos,  a  negação da história representada pela indiferença à mesma, a negação da perspectiva de  classe ou seu embaçamento e o adensamento de uma cultura do individual transfigurada  em individualismo que atinge substancialmente pensamento e ação dos sujeitos sociais.  A  perspectiva  de  coletividade  é  empalidecida  e  não  tem  espaço  nessa  lógica.  São  fenômenos  típicos  da  era  pós­moderna.  Simionatto(1999),  a  partir  de  suas  reflexões  acerca das expressões ideo­culturais na atualidade, conclui que  A pós­modernidade representa, assim, um novo tipo de hegemonia ideológica nesse  estágio  do  capital  globalizado,  fundada  nas  teorias  do  fragmentário,  do  efêmero,do  descontínuo, que fortalecem a alienação e a reificação do presente, fazendo­nos perder  de vista os nexos ontológicos que compõem a realidade social e distanciando­nos cada  vez mais  da compreensão totalizante da vida social.(SIMIONATTO1999:31)  Neste  sentido,  esses fatores  afetam/impregnam  o  ideário  político­cultural dos sujeitos  sociais,  o  que  consequentemente  altera  a  ambiência  dos  espaços  sociais  coletivos  (públicos e privados) fazendo emergir um outro ritmo, uma nova lógica. Uma expressão  típica desse tempo é a pressa, o ritmo acelerado, ou seja, a necessidade quase insana de  se  tornar  inóspito.    No  meio  acadêmico,  percebe­se,  de  forma  assistemática,  que  o  processo de alijeiramento da formação, bem como a exigência incessante de produção e  publicação  de  novos  conhecimentos,  tem  posto  para  o  lado  o  necessário  amadurecimento e aprofundamento, e portanto , o tempo que essas práticas requerem. A  conseqüência disso irá rebater diretamente na qualidade daquilo que se produz. No que  concerne  à  prática  profissional  dos  (as)  assistentes  sociais,  a  situação  parece  não  se  apresentar  de  forma  distinta.  Os  governos,  as  prefeituras,  as  empresas  e  as  ONG’s  costumam exigir de seu corpo de funcionários resultados que sejam contabilizáveis a  fim de engrossarem seus caldos estatísticos na estética midiática. Também nessa lógica,  o que importa é fazer mais (lógica produtivista). O profissional, em inúmeras situações,  submerso  na  perversa  competição  do  mercado  de  trabalho,  tende  a  responder  às  demandas  que  lhe  são  postas/impostas  com  polivalência  objetivando  garantir  “seu
  3. 3. 3  espaço”. Desvelar e compreender os fatos, fenômenos e neles  os sujeitos sociais de uma  sociedade  cada  vez  mais  complexa,  requer  um  método  imbuído  de  uma  perspectiva  crítica, capaz de captar  as contradições,os antagonismos, o enredo , o pano de fundo e  de frente e o lastro histórico dos mesmos. Recorrendo às reflexões de LOWY (1987),  somente  um  mirante  mais  elevado  possibilita  essa  visão  do  todo  como  ele  é  concretamente, ou o todo em sua totalidade. Estar aposto neste mirante (teoria social  crítica) é fundamental para  atenuar possíveis cegueiras do agir, assim como ancorar  e  fundamentar as possibilidades  de pensar a realidade social.  Assim, o que se segue são alguns apontamentos acerca da “totalidade enquanto  categoria central no trato analítico de Marx” e a pertinência e atualidade dessa categoria  para a análise dos processos sociais, políticos, econômicos e culturais que tangenciam a  prática profissional do (a) assistente social.  2 ­ DESAFIOS POSTOS AO PROCESSO DE TRABALHO DO(A) ASSISTENTE  SOCIAL  A lógica pós­moderna e neoliberal que abrange a conjuntura sócio – política, econômica  e cultural , cujos rebatimentos afetam diretamente a vida do (a) trabalhador (a), incide  de modo contundente sobre o processo de trabalho do (a) assistente social. Referimo­  nos  aqui  não  somente  à  questão  estrutural  que  envolve  as  formas  absurdas  de  contratação ou às condições de execução do trabalho em si, mas, e fundamentalmente, à  possibilidade  de  afirmação  do  projeto­ético­político  no  cotidiano  do  exercício  profissional. De acordo com Netto (1999):  [...] a experiência sócio­profissional tem comprovado que para um projeto profissional  se afirmar na sociedade, ganhar solidez e responsabilidade frente às outras profissões,  às instituições privadas e públicas e, ainda, frente aos usuários dos serviços oferecidos  pela  profissão,  é  necessário  que  ele  tenha  em  sua  base  uma  categoria  fortemente  organizada. (p. 95).  A afirmativa supracitada de Netto (1999) é pertinente, no entanto vale ressaltar que um  projeto profissional identificado em sua essência com os desejos da classe trabalhadora  e  os  segmentos  subalternizados  dessa  sociedade  ocupa  um  lugar  de  contra­mão  ou  “contra­maré” como o próprio Netto o diz, e que outros atributos devem e/ ou merecem
  4. 4. 4  ser  analisados  à  luz  a  dessa  atual  conjuntura  que  fragiliza  a  própria  organização  da  categoria.  Braz (2004), ao fazer uma análise da conjuntura brasileira relacionando o tão promissor  governo Lula com o exercício profissional dos (as) assistentes sociais diz:  [...] como trabalhadores, os (as) assistentes sociais vivem situações precárias, com o  acirramento  de  políticas  neoliberais  entre  relações  de  trabalho.  Situações  de  degradação  salarial,  flexibilização  das  formas  de  contrato  de  trabalho,  piora  das  condições gerais de trabalho, além do desemprego, tenderão a aumentar, sobretudo se  reformas trabalhistas se realizarem. Estes elementos combinados entre si implicarão  notórias dificuldades ao exercício profissional qualificado e balizado por fundamentos  éticos consagrados no atual Código de ética. (p. 60)  Braz  (2004)  faz  projeções  em  que  aponta  para  o  comprometimento  das  dimensões  teórica,  jurídica­política  e  político­organizativo  no  âmbito  da  prática  profissional,  considerando o adensamento da conjuntura política que se apresenta no primeiro quarto  do Governo Lula, em seu primeiro mandato.  Na mesma linha de discussão, no entanto apresentando outros novos elementos dessa  conjuntura/Governo Lula,  Netto  (2004, p. 24) diz  que “o que  está  (e estará  cada  vez  mais) em jogo é a sua autonomia para conduzir o denominado projeto­ético­político que  construíram para a profissão nos anos 1980 e 1990”. O autor faz um resgate histórico  retomando a gênese de formação do referido projeto e o protagonismo do PT enquanto  referência importante nos processos de luta para a consolidação do mesmo. Fala ainda,  da  necessidade  de  um  debate  coletivo,  amplo,  reunindo  todos  os  níveis  da  categoria  profissional, para assim “preservar, contra ventos e marés, a autonomia para conduzir e  aprofundar as exigências do projeto ético­político [...]” (NETTO, 2004, p. 24).  Vale  ressaltar  aqui  o  quanto  é  desafiador,  para  o  profissional  subalternizado  e  precarizado  em  seu  trabalho,  vindo  de  um  processo  de  formação,  em  muitos  casos,  também  precarizado,  exercer  alguns  tipos  de  superações,  bem  como  desenvolver  algumas habilidades e competências que sejam consoantes ao projeto­ético­político. A  lógica do individualismo que atropela ou sufoca os projetos mais coletivos, talvez seja o  maior desafio a ser superado. Abramides (2007) aponta para a necessidade da:  [...] continuidade da direção sociopolítica do projeto profissional como processo de  ruptura construído nos últimos trinta anos do Serviço Social brasileiro e que sofre um  conjunto  de  inflexões  em  uma  quadra  histórica  em  que  a  classe  trabalhadora  se
  5. 5. 5  encontra  na  defensiva  mediante  a  avassaladora  ofensiva  hegemônica  do  capital  internacionalizado. (p. 44).  No  artigo  ao  qual  nos  reportamos  à  citação  acima,  a  autora  afirma,  de  forma  contundente,  a  necessidade  de  ruptura  com  o  conservadorismo  tendo  como  base  a  direção sociopolítica do projeto­ético­político e aponta que “a questão de fundo é a de  manutenção da autonomia do projeto profissional frente a qualquer governo, partido e  patronato”. (ABRAMIDES, 2007, p.46)  Assim,  algumas  respostas  relativas  aos  desafios  postos  ao  processo  de  trabalho  do  assistente social já foram produzidas por Iamamoto (2000), Abramides (2007) e Guerra  (2007), entre outros. Essas autoras reafirmaram, em outras palavras, a necessidade de  conhecimento  e  clareza  política  e  competência  técnica  para  garantir  no  cotidiano  do  exercício  profissional  as  premissas  contidas  no  projeto­ético­político.  Iamamoto  considera que:  Orientar o trabalho profissional nos rumos aludidos requisita um profissional culto e  atento às possibilidades descortinadas pelo mundo contemporâneo, capaz de formular  e  recriar  propostas  ao  nível  das  políticas  sociais  e  da  organização  das  forças  da  sociedade  civil.  Um  profissional  informado,  crítico  e  propositivo,  que  aposte  no  protagonismo  dos  sujeitos  sociais.  Mas,  também  um  profissional  versado  no  instrumental técnico­operativo, capaz de realizar as ações profissionais, aos níveis de  assessoria,  planejamento,  negociação,  pesquisa  e  ação  direta,  estimuladoras  da  participação dos usuários na formulação, gestão e avaliação de programas e serviços  sociais de qualidade. (IAMAMOTO, 2006, p. 144).  Iamamoto (2006) afirma que para atingir o citado perfil de profissional é necessário a  superação do teoricismo estéril e do pragmatismo. Entre outras afirmações que merecem  reflexões mais afinadas por nós, Guerra (2007) fala do redimensionamento que sofre o  exercício profissional mediado pela lógica do mercado,  [...] a lógica mercadológica que perpassa os serviços sociais, junto com as políticas  sociais  passa  a  se  constituir  a  própria  racionalidade  de  que  orienta  o  exercício  profissional,  configurando  concepções  de  eficácia,  eficiência,  produtividade,  competência,  de  acordo com  as exigências  do  mundo  burguês  para  a acumulação/  valorização do capital”. (cap.7, p. 7­8)  Neste sentido, Guerra (2007) fala da força do pensamento conservador no interior da  profissão que tem apontado para a inoperância do projeto profissional e afirma que:
  6. 6. 6  [...]  o  projeto  profissional  hegemônico,  pela  sua  perspectiva  crítica,  constitui­se  um  instrumento,  o  único  capaz  de  permitir  aos  assistentes  sociais  uma  antevisão  da  demanda,  a  captação  de  processos  emergentes  e  das  tendências  históricas  que  se  configuram e requisitam uma intervenção profissional a curto, médio e logo prazos, o  significado  social  e  político  da  profissão  e  da  intervenção  que  desenvolve.  Esta  capacidade  de  captar  tendências  e  de  se  preparar  técnica  e  intelectualmente  para  respondê­las  é  o  diferencial  que  se  estabelece  entre  os  profissionais  na  conjuntura  atual”. (p. 30)  Assim, pensar o processo de trabalho do(a) assistente social implica, necessariamente,  saber sob que perspectiva se pretende  fazê­lo. Uma vez que nossas análises e práticas  são  imbricadas  de  ideologias,  mas também  afinadas  com um  determinado  projeto de  sociedade,  torna­se  importante  cada  vez  mais  e  de  forma  o  mais  explicita  e  esclarecedora possível deixar claro essa direção, bem com a perspectiva teórica a qual  se vincula.  3 ­ TOTALIDADE EM MARX: ALGUNS APORTES  Este item possui um caráter apenas introdutório, onde recorre ­ se a algumas obras de  Marx no período de 1843  a 1848, onde já se encontrava expressa em suas produções a  perspectiva  da  totalidade.  Todavia,  a  questão  não  se  esgota  nas  obras  tratadas  aqui.  Reconhece­se,  que  o  trato  aqui  dispensado  não  explicita  a  grandiosidade  das  obras  tratadas. De acordo com Bottomore (1988)  A  totalidade  na  teoria  marxista    é  um  complexo  geral  estruturado  e  historicamente  determinado.  Existe  nas  e  através  das  mediações  e  transições  múltiplas pelas quais suas partes específicas ou complexas_ isto é, “totalidades  parciais”  _  estão  relacionadas  entre  si,  numa  série  de  interrelações  e  determinações  recíprocas  que  variam  constantemente  e  se  modificam.  (BOTTOMORE,1988)  O  devir  da  história  da  humanidade  em  sociedades  de  configurações  cada  vez  mais  complexas  coloca  o  desafio  cada  dia  mais  urgente  de  decifrar  seus  nexos  afim  de  compreender  a  lógica  e  direção  com  que  move  e  é  movido  o  ser  social  a  partir  dos  determinantes históricos dos quais é partícipe.
  7. 7. 7  O historiador Hobsbawn (1994) ao iniciar sua narrativa sobre o “Breve Século XX “,  que caracterizou como a “Era dos Extremos”, faz uma advertência crítica à destruição  do passado e à incorporação de um presente contínuo “como um dos fenômenos mais  característicos e lúgubres do final do século XX”.Para este autor, “os acontecimentos  públicos são parte da textura de nossas vidas” independentemente de termos vivido ou  não  a  época  de  determinado  acontecimento.  Os  fatos  e  acontecimentos  históricos  públicos  não  se  findam  em  si  mesmos.  Essa  reflexão  aponta  para  a  relação  de  interdependência ou inter­determinância entre passado ­ presente ­ futuro, onde somente  uma  teoria  que  abriga  uma  ontologia  do  ser  social  e  os  problemas  a  este  conexo,  é  passível de compreender e explicar os fios relacionais dessas instâncias temporais. Para  compreender  o  movimento  societal,  ou,  como  em  suas  palavras,  “compreender  e  explicar porque as coisas deram no que deram e como elas se relacionam entre si”, foi  preciso  ,por  exemplo,  elucidar  a  gênese  e  o  fundamento  das  grandes    e    pequenas  guerras  e revoluções sociais pelas quais as nações estiveram ou não envolvidas , bem  como as atitudes e relações estabelecidas pelos seus respectivos representantes (homens  e mulheres) em cada tempo e lugar. Fica claro o ponto de vista de Hobsbawn. Para saber  porque as coisas deram no que deram, a história da humanidade como um todo, se faz  necessária uma perspectiva que dê conta desse todo. Ainda que a captura analítica de  uma complexidade histórica como o é a sociedade, bem como todo emaranhado de suas  totalidades  parciais  somente  seja  possível,  segundo  o  mesmo  autor, post  ­  factum,  é  legítimo que somente um método que considere a categoria da totalidade como central  seja capaz de se aproximar da realidade concreta e decifrar seus nexos. É a perspectiva  da totalidade da qual Hobsbawn é congruente que permite e/ou possibilita uma análise  ampliada do que foi o “breve século XX”  Assim,  quando  em 1848  Marx e  Engels,  no Manifesto  ao  partido  comunista,  entre  a  crítica à sociedade burguesa da época e o apelo para a união dos proletários de todos os  países, denunciam as mazelas do sistema capitalista e apontam para o futuro, o fazem  numa  perspectiva  de  totalidade,  ainda  que  não  fundamentada  teoricamente  pelos  mesmos. De acordo com Netto (1998)  No  Manifesto,  Marx  e  Engels  já  dispõem  das  referências  teórico­metodológicas  fundamentais  com  que  trabalharão pelo  resto  de  suas  vidas_  nele,  a  sua  modalidade  original  de  processar  teoricamente  o  material  histórico­social  está  posta.  (NETTO,1998:XXIV).
  8. 8. 8  Segundo  Netto(1998),  não  só  o  Manifesto,  mas  o  conjunto  da  obra  “marx­  engelsiana” que compreende o período de 1843 a 1848(mais precisamente 45­46), irá  fornecer as bases de uma teoria social que propõe não somente uma inflexão, mas  também uma ruptura com os conhecimentos produzidos até então.  A ruptura consiste em que a crítica marx­engelsiana estrutura então as bases de uma  teoria social que desborda os quadros do estoque de conhecimentos existentes,  everte as modalidades de apreensão do real e subverte a função social do conhecimento  na exata medida em que se constitui, enquanto teoria, a partir do ponto de vista de classe  proletário.(NETTO,1998:XXVII)  Ainda segundo Netto,  O  traço  distintivo  dessa  teoria  é  que  ela  toma  a  sociedade  (burguesa)  como  uma  totalidade concreta: não como um conjunto de partes que se integram funcionalmente,  mas como um sistema dinâmico e contraditório de relações articuladas que se implicam  e  se  explicam  estruturalmente.  Seu  objetivo  é  reproduzir  idealmente  o  movimento  constitutivo da realidade (social), que se expressa sob  formas econômicas, políticas  e  culturais, mas que extravasa todas elas.(NETTO,1998:XXIX)  Outros textos de Marx no período supra citado apontam para o ponto de vista da  totalidade.  A  questão  judaica  (1843),  Miséria  da  filosofia(1847)  e  glosas  críticas  marginais ao artigo  “O rei da Prússia e a reforma social”(1844). Tanto na Questão  judaica  como  na  Miséria  da  filosofia  Marx  tece  a  sua  crítica  a  autores  que  são  hegelianos, porém não conseguem supera­lo e/ou o interpretam de forma equivocada  e limitada. A crítica a Bruno Bauer refere­se em sua essência à confusão que este faz  em sua concepção de Estado e de direito no trato das questões postas pelos judeus em  seu cotidiano enquanto membros daquela sociedade. Assim Marx tece uma crítica à  forma  rasa  com  que  Bauer  compreende  e  explica  a  questão  judaica  naquela  sociedade.  De  forma  localizada,  fragmentada  e  até  mesmo  isolada  do  todo  que  compõe a sociedade. Tratando­a como se fosse meramente religiosa e creditando ao  Estado o poder de solução de forma ainda mais absurda e contraditória. Bauer não  percebe  as  partes  interligadas  do  todo,  e  muito  menos  as  dimensões  da  política  econômica. Na verdade, ao tecer a crítica a Bauer em sua forma de compreender e  explicar a questão judaica, Marx já está apontando para as premissas do materialismo
  9. 9. 9  histórico e dialético que será a base de sua teoria social. Fica claro com sua crítica,  que o problema do judeu não é dele mesmo, mas sim do modelo daquela sociedade  e/ou da forma como as relações sociais são estabelecidas na mesma, segundo uma  ordem e uma lógica burguesas.  Quanto  à  crítica que  faz  a Proudhon  em  Miséria da filosofia,  Marx  aponta  para  uma nova concepção de história e as bases da teoria e ação política. Mostra o quanto  Proudhon é unilateral e equivocado quanto a origem da pobreza. Para isso, lança o  princípio da teoria do valor (valor de uso, valor de troca, mercadoria). Segundo Netto  (1985), trata­se da primeira explicitação sistematizada dos fundamentos da moderna  teoria social, bem como o primeiro desenho teórico da análise de conjunto do modo  de produção capitalista.  Pode­se perceber desde muito cedo, que a visão que Marx tinha  dos problemas  que  acometiam  a  sociedade  a  qual  tomou  como  objeto  iam  para  muito  além  da  aparência fenomênica dos mesmos.  De acordo com Netto (1998), Lukács foi “o primeiro a chamar a atenção para o  caráter  de  classe  revolucionário  que  porta  o  conhecimento  social  fundado  na  centralidade da categoria crítico ­ dialética da totalidade”.  Para Lukács,  É  o  ponto  de  vista  da  totalidade  e  não  a  predominância  das  causas  econômicas  na  explicação  da  história  que  distingue  de  forma  decisiva  o  marxismo da ciência burguesa. A categoria da totalidade, a dominação do todo  sobre  as  partes,  que  é  determinante  e  se  exerce  em  todos  os  domínios,  constituem a essência do método que Marx tomou de Hegel e que transformou  de maneira original para dele fazer o fundamento de uma ciência inteiramente  nova.(LUKÁCS,1965:47, apud NETTO,1998:XXIX)  Também no dicionário do pensamento marxista encontramos a seguinte afirmativa  de Lukács:  A  concepção  dialético  ­  materialista  da  totalidade  significa,  primeiro,  a  unidade concreta de contradições que  interagem  (...), segundo, a relatividade  sistemática  de  toda  totalidade  tanto  no  sentido  ascendente  quanto  no  descendente(  o  que  significa  que  toda  totalidade  é  feita  de  totalidades  a  ela  subordinadas,  e  também  que  a  totalidade  em  questão  é,  ao  mesmo  tempo,  sobredeterminada  por  totalidades  de  complexidade  superior...)e,  terceiro,a  relatividade histórica de toda totalidade, ou seja, que o caráter de totalidade de  toda  totalidade  é  mutável,  desintegrável  e  limitado  a  um  período  histórico  concreto e  determinado. (LUKÁCS,1948:12, apud BOTTOMORE,1988:381).
  10. 10. 10  Assim, pode­se dizer que a categoria da totalidade remete a um ponto de vista  que  se  posiciona  política  e  criticamente  diante  da  realidade,  ou  seja,  revolucionário.  O  que  se  pretende  com  estes  breves  aportes,  ancorados  em  citações da obra de Marx e de renomados interlocutores (críticos e estudiosos) é  tão somente ressaltar abrangência e atualidade da teoria social marxista e nela o  lugar central que ocupa a categoria totalidade (objeto desta proposição). Todavia  sabemos ser incipiente diante da grandiosidade da obra de Marx, bem com da  teoria  social  por  ele  fundada.  Vale  registrar  a  importância  que  os  primeiros  escritos  de  Marx  tiveram  para  o  restante  da  sua  vida  e  o  quanto  ainda  são  capazes  de  determinar  e  assumir  um  grau  de  importância  significativo  para  aqueles  que  possuem  um  compromisso  político  com  a  transformação  da  realidade  tal  qual  está  posta  hoje.  Daí  a  importância  de  retomar  a  categoria  crítico­analítica  para  pensar,  analisar  e  compreender  a  realidade  atual  e  seus  vários complexos. Isso vale para todos os profissionais, em especial , para o (a)  assistente social, cujos motivos vamos ver a seguir.  4  ­  PRÁTICA  PROFISSIONAL  DO  (A)  ASSISTENTE  SOCIAL  E  TOTALIDADE  Falar  da  complexidade  e  dos  desafios  com  os  quais  os(as)  assistentes  sociais  lidam em seu cotidiano de labor é algo que renomados intelectuais da área (Iamamoto,  Netto, Guerra, Behring, entre outros) têm feito ao longo dessas ultimas duas décadas.  No  entanto,  para  fins  da  reflexão  que  está  sendo  proposta  aqui,  servimo­nos  das  palavras de Vasconcelos (2006) quando diz que,  Diante da complexidade da ordem capitalista – um quadro que não e desenrola  com transparência diante dos nossos olhos – a sustentação e o encaminhamento  de uma posição /ação vinculada a um projeto social radicalmente democrático  e  compromissado  com  os  trabalhadores  não  estão  determinados,  exclusivamente,pelo  posicionamento e  condução  ético­políticos,  mas também  pela  postura  teórico—metodológica,  na  medida,  aqui,  da  capacidade  dos
  11. 11. 11  agentes  profissionais  para  captar  a especificidade  própria  da  realidade  social  objetivando referenciar essas opções.( VASCONCELOS,2006:36)  A realidade atual nos apresenta um quadro conjuntural marcado pelo agravamento da  crise capitalista global, que tem no desemprego sua expressão maior. Não se pretende  afirmar  com  isso  que  o  desemprego  seja  o  problema  maior  da  atual  crise  capitalista  global. Contudo, essa expressão massificada do desemprego, acentua num quadro geral,  racionalidades  condizentes  ou  afinadas  com  a  lógica  pós­moderna  naquilo  que  esta  apresenta de degradante, ou seja, que compromete e/ou destrói a razão.  Guerra  (2004)  faz  uma  afirmação  acerca  de  como  os  partidários  dessa  racionalidade pós­moderna entendem o mundo contemporâneo. Para eles,  o mundo contemporâneo é o lócus das individualidades, do arbitrário,  do virtual,do simulacro, do “aqui e agora”, daí a simpatia que nutrem  pelo  individualismo  possessivo,  por  um  sujeito  psicológico,  pelo  presente  perpétuo (  presentificação),pela  psicologização das relações  sociais,  pelo  local,  pelo  micro,pelo  efêmero,  pelas  teorias  comportamentais(ou  neobehavioristas),  e,  finalmente  pelos  jogos  de  linguagem. (GUERRA,2004:17/18)  O  conjunto  de  processos  sociais  que  tangencia  a  prática  profissional  do(a)  assistente  social    demanda  do  mesmo  um  conhecimento  crítico  da  realidade.  Assim,  pensar  os  limites  e  as  possibilidades  de  análise  dos  processos  sociais,  políticos,  econômicos e  culturais,  que  envolvem  a  prática  profissional  do  (a)  assistente  social,  num  contexto  de  manutenção  do  modelo  neoliberal  e  de  todas  as  conseqüências daí  advindas no que tange ao Estado e às políticas públicas, requer uma teoria social que dê  conta  de  captar  as contradições e  complexidades  que  atravessam  e  singularizam  essa  prática profissional. Acreditamos ser a teoria social fundada por Marx aquela capaz de  fazer frente e de se contrapor à lógica pós­moderna.  Para Guerra (2004)  Somente  uma  concepção  de  teoria  social  critica  e  radical  como  conjunto de pressuposições que buscam captar o modo de ser e de se  constituir  dos  processos  sociais,  a  sua  lógica  e  sua  dinâmica  de  constituição(NETTO,1986)  é  que  permite  à  profissão  superar  a  aparência do real cristalizada nos fenômenos. (GUERRA, 2004:34)
  12. 12. 12  Então, quando aqui buscou­se realçar a importância da categoria totalidade em  Marx para o serviço social, nossa intenção não é a de subtraí ­la da teoria social na qual  se  assenta,  mas  simplesmente  lançar­lhe  luzes,  já  que  no  cotidiano  percebemos  um  movimento inverso.  Finalizando, vale dizer que, tal qual um lembrete, este breve e inacabado ensaio  objetiva registrar que a falta ou a subtração de uma  perspectiva de totalidade na análise  dos  fatos  e  fenômenos  sociais,  políticos,  econômicos  e  culturais  pode  favorecer  ao  chamado neoconservadorismo, ou ao pragmatismo, ou ainda ao julgamento moral e por  fim, ao lastimável retrocesso do serviço social profissional.
  13. 13. 13  REFERÊNCIAS  ABRAMIDES,  Maria  Beatriz  C.  Desafios  do  projeto  profissional  de  ruptura  com  o  conservadorismo. Serviço Social e Sociedade, ano XXVIII, Nº 91. São Paulo :  Cortez,  2007.  BOTTOMORE, T. Dicionário do Pensamento Marxista. Rio de Janeiro: Jorge  Zahar,  1988.  GUERRA, Yolanda. O projeto profissional crítico : estratégia de enfrentamento  das  condições contemporâneas da prática profissional. Serviço Social e  sociabilidade.  Ano XXVIII, Nº 91. São Paulo : Cortez; 2007.  ­­­­­­­­­­­­­­ Y.D. A Força Histórico­ontológica e crítico­análitica dos fundamentos.In  Praia Vermelha nº10: estudos de política e teoria social. Questão social e serviço social:  fundamentos e práticas, UFRJ/PPGESS, 2004.  HARVEY, D. Condição pós­moderna.Loyola, 1996.  HOBSBAWN, E. J. A Era dos Extremos : o breve século XX : 1914­1991.São Paulo,  Companhia das Letras:1995.  LOWY, M. As  aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchhausen: marxismo e  positivismo na sociologia do conhecimento.São Paulo: Busca Vida,1987.  LUKÁCS, G. Ontologia do ser social.Os princípios ontológicos fundamentais de Marx.  São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas,1979.  MARX, K. Miséria da Filosofia. São Paulo: Global, 1985.  _____  Manifesto ao partido comunista. São Paulo: Cortez, 1998.  _____  Glosas críticas marginais  ao artigo “O rei da Prússia e a reforma social”.  NETTO, J. P. Introdução à Miséria da Filosofia de K. Marx. São Paulo: Global, 1985.  _____  Prólogo ao Manifesto do Partido Comunista. Comemoração aos 150 anos de  lançamento do Manifesto. São Paulo: Cortez,1998.  SIMIONATTO,I.  As  expressões  ideo­culturais  da  crise  capitalista  na  atualidade.  Capacitação em Serviço Social e Política Social. Módulo II, Brasília, CEAD, 1999  VASCONCELOS,  A.  M.  A  prática  do  serviço  social:  cotidiano,  formação  e  alternativas na área da saúde. 3ª ed. ­ São Paulo: Cortez,2006.

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