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O critério de desempenho do behaviorismo ao funcionalismo

  1. 1. Acta Scientiarum, Maringá, 23(1):223-230, 2001.ISSN 1415-6814.O critério de desempenho: do behaviorismo ao funcionalismoMax Rogério VicentiniDepartamento de Ciências Sociais, Universidade Estadual de Maringá, Av. Colombo, 5790, 87020-900, Maringá, Paraná,Brasil. e-mail: mrvicentini@uem.br Mas uma máquina certamente não pode pensar! - É essa uma sentença empírica? Não. As coisas que dizemos que pensam são o ser humano e o que é como ele. Wittgenstein RESUMO. Pretende-se, aqui, investigar as origens, alcance e limitações do funcionalismo. Busca-se, em um primeiro momento, as raízes históricas da filosofia da mente dirigindo a atenção a aspectos relevantes da obra cartesiana. De posse da concepção subjetivista de mente, defendida por Descartes, analisa-se a estruturação das teorias que procuram abordar cientificamente o mental. Deter-se-á, particularmente, na consideração das idéias behavioristas e no impacto que elas tiveram na delimitação de um campo de estudo próprio do mental, analisando as causas de seu insucesso. Como decorrência, apura-se de que maneira o funcionalismo, que pretende ser uma resposta alternativa à pergunta pela natureza do mental, supera ou recai nos mesmos problemas que invalidaram o behaviorismo. Essas críticas ao funcionalismo serão baseadas na noção de qualia, que surge como um empecilho às pretensões reducionistas das teorias da mente atuais. Palavras-chave: mente, funcionalismo, behaviorismo, materialismo. ABSTRACT. Performance criterion: from behaviorism to functionalism. The aim of this article is to investigate the origins, range and limitations of functionalism. At first the historical roots of mind philosophy with special regard to relevant aspects of Descartes’ writing will be studied. Based on the subjectivist concept of mind as advocated by Descartes the structure of the theories dealing scientifically with the mind will be analyzed giving special emphasis to the behaviorist ideas and to their influence on the delimitations of the field of mental studies, including the causes of their failure. And as a consequence it will be verified how functionalism, which intends to be an alternative answer to the question of the mind’s nature, overcomes or relapses into the same problems that invalidated behaviorism. This criticism of functionalism is based on qualia notion that constitutes an impediment to the reductionist claims of current mind theories. Key words: mind, functionalism, behaviorism, materialism. Este artigo busca aprofundar aspectos teóricos da primeiro momento considerar-se-á as raízesatual filosofia da mente. O objetivo é o de realizar cartesianas da filosofia da mente, evidenciando-se ouma consideração crítica da mais representativa caráter subjetivo do mental extraído desta obra.teoria da mente atual, isto é, do funcionalismo. Num segundo momento, passa-se à consideração daEmbora seja uma teoria muito difundida, a virada behaviorista que procura imprimir umperspectiva, neste trabalho, é a daqueles que a aspecto científico ao estudo do mental, ressaltando-encaram com uma certa reserva. Procura-se se os problemas que surgem desta concepção. Eminvestigar em que medida o funcionalismo supera as seguida, analisar-se-á o surgimento dolimitações da concepção behaviorista de mente, para funcionalismo como reação às limitações das teoriasa qual pretende ser uma alternativa. então vigentes e discutir-se-á seu sucesso em Para a execução deste objetivo, esta investigação responder aos problemas colocados aosserá dividida em quatro etapas, como se segue. Num behavioristas. Por fim, abordar-se-á o problema dos
  2. 2. 224 Vicentiniqualia dentro do contexto da moderna filosofia, formar essas idéias por meio da faculdade inata a ela1refletindo sobre as limitações da orientação (Descartes, 1985:304).reducionista das propostas atuais. O método introspectivo firmou o estudo dos A questão: qual a natureza da mente humana e estados mentais ou conscientes como umaqual o método mais indicado para o seu estudo, em atividade privada, colocando de maneira decisiva opauta ao menos desde Descartes, recebe hoje em dia conteúdo desses estados para além de qualquerum tratamento que a aproxima dos recentes avanços possibilidade de tratamento empírico. Ao contrário,em computação e neurologia. O objetivo aqui o fato de só se poder tratar desses fenômenos naalmejado é resgatar a perspectiva filosófica em um primeira pessoa é característica constitutiva dodiálogo que seja frutífero com essas novas ciências. mental. Como decorrência dessa situação, podemos apurar que existem determinadas características doA herança cartesiana mental que não são passíveis de comprovação Ao considerar as principais questões que pública.constituem a filosofia da mente, bem como a história Descartes afirma que qualquer tentativa dede sua origem e desenvolvimento, depara-se com a reprodução do aparato mental humano estáfigura de Descartes como um marco decisivo. Sua condenada ao fracasso e propõe duas maneiras muitomaneira de fazer filosofia, vale dizer, seu método de seguras de distinguir os homens, seres de razão, deinvestigação, bem como as conclusões a que chegou, qualquer animal ou mecanismo artificial. Por maismarcaram profundamente a maneira de conceber e perfeitos e complexos que esses últimos possam ser,investigar o fenômeno mental humano. A divisão em todas as ocasiões que se fizer um testeque efetuou entre res extensa e res cogitans estabeleceu comparativo das performances no campo dauma diretriz para as futuras investigações nesse linguagem e da ação, constatar-se-á diferençascampo. intransponíveis entre estes e os homens. Descartes As afirmações mais conhecidas de suas obras aponta para uma característica de sua concepção docomo a de que “penso, logo existo”, ou a de que “é mental que é impossível de reprodução oumais fácil conhecer as coisas da alma da que as coisas simulação mecânica, qual seja, aquilo a que podemosdo corpo” (Descartes, 1973b:106), ou ainda, de que chamar de a universalidade da razão. Esta “razão é“a alma é realmente distinta do corpo” (Descartes, um instrumento universal, que pode servir em todas1973b:142) são resultantes da abordagem as espécies de circunstâncias...” (Descartes,metodológica que empregou. Para a obtenção dessas 1973a:68).certezas, Descartes afirmava não precisar de nada O princípio que comanda o agir humano emmais que paz e isolamento para poder se dedicar à tudo se distingue daquele que determina oinvestigação de seus próprios estados mentais, comportamento de animais e máquinas. Enquantoprotegido de qualquer interferência exterior que nos primeiros é a razão, nos últimos é apenas apudesse conduzi-lo a julgamentos preconcebidos ou disposição das partes que os compõem. Assim, nopreconceituosos, transmitidos pela educação que caso da linguagem, Descartes diz que se pode:recebera ou pelos sentidos. A introspecção ...muito bem conceber uma máquina que seja feita dedesponta em sua obra como o modo privilegiado de tal modo que profira palavras, e até que profiraacesso ao mental. algumas a propósito das ações corporais que causem Seguindo uma longa tradição que se confunde quaisquer mudanças em seus órgãos: por exemplo, secom a própria história da Metafísica Ocidental, a tocam num ponto, que pergunte o que se lhe querDescartes desconsiderava o corpo e, por dizer; se em outro, que grite que lhe fazem mal, econseguinte, todo o sensível no processo de coisas semelhantes; mas não que ela as arranje diversamente, para responder ao sentido de tudoobtenção do conhecimento. Como para esse autor as quanto se disser na sua presença, assim como podemidéias são inatas, preferia, sempre que possível, fazer os homens mais embrutecidos (Descartes,prescindir de toda experiência: 1973a:68). [...] devemos admitir que em nenhum caso as idéias O mesmo se aplica no caso do agir, onde das coisas são apresentadas para nós pelos sentidos “embora fizessem muitas coisas tão bem ou talvez como nós as formamos em nosso pensamento. Tanto melhor do que qualquer de nós, falhariam que não há nada em nossas idéias que não seja inato à mente ou à faculdade de pensamento, com a única infalivelmente em algumas outras, pelas quais se exceção daquelas circunstâncias relacionadas à descobriria que não agem pelo conhecimento, mas experiência, elas transmitem alguma coisa que, naquele exato momento, dá à mente oportunidade de 1 Tradução nossa.
  3. 3. O critério de desempenho: do behaviorismo ao funcionalismo 225somente pela disposição de seus órgãos” (Descartes, definitiva, foi herdada pela filosofia posterior como o1973a:68). problema mente/corpo. Diferentemente dos filósofos da mente O legado da filosofia de Descartes para a filosofiacontemporâneos, cujas discussões centrais giram em da mente consiste num método para o estudo dostorno da oposição entre características objetivas e fenômenos mentais, a introspecção, e numasubjetivas do mental, Descartes se preocupava muito caracterização dos mesmos como essencialmentemais com a contraposição entre o determinado e o privados, distintos do corpo e tais que sua descriçãoindeterminado na natureza humana. Para esse autor só pode ser feita em primeira pessoa. Essa posiçãonada havia de mais objetivo, para os seres de razão, ficou conhecida como dualismo cartesiano oudo que as idéias claras e distintas obtidas pelo dualismo de substância.método introspectivo. A particularidade do mental é,na verdade, sua capacidade ilimitada de se amoldar às A virada behavioristasituações diversas, capacidade esta decorrente de sua Os pressupostos e procedimentos cartesianosliberdade de julgamento. dominaram o estudo do mental durante os séculos Embora não se saiba se por convicção pessoal ou que se seguiram, levando David Brewster a fazer apor medo da Igreja, como aponta Karl Popper seguinte declaração em 1854:(Popper, 1991:228), o fato é que a mente cartesiana,em sua essência metafísica, se destaca de um mundo Não há nenhum departamento do conhecimento nomecanizado como era aquele decorrente de sua qual tão pouco progresso tenha sido feito como no daconcepção física e filosófica. Nas palavras de Gilbert filosofia do mental. A mente humana tem sido estudada como independente do corpo, e, de umaRyle (Ryle, 1949) Descartes transformou a mente forma geral por filósofos que possuem uma quantidadenum fantasma que habita uma máquina, ou se relativamente pequena de conhecimento físico. Naquisermos ser mais fiéis à terminologia tradicional, verdade não foi feita nenhuma tentativa de examinarrealizou uma distinção real entre mente e corpo. seus fenômenos à luz do experimento e da observação, Uma tentativa de compreensão dessa situação ou de analisá-los em suas fases de anormalidade...passa pela análise do impacto que a nova maneira de Sem dados, sem axiomas, sem definições [a ciência dafazer ciência, nascente no século XVI, exerceu sobre mente] propõe problemas que não consegue resolver.todas as demais áreas de investigação. O grande (apud. Gardner, 1995:63).sucesso dessa nova perspectiva científica era Com grande clareza Brewster reclama a extensãodecorrente das novas práticas metodológicas calcadas da revolução ocasionada pela nova perspectivana valorização dos conhecimentos advindos da científica também para o campo de estudo doexperiência sensível2. A pretensão de matematizar mental. O espírito experimentalista e observacionalpara prever e controlar tornou-se uma perspectiva batia à porta daquele que era um dos últimosatraente para o exercício do pensamento. Com esses campos a resistir. Brewster aconselha, claramente,valores nascentes em mente, podemos recuperar um uma mudança na relação do “filósofo da mente”pouco da situação geradora do dilema no qual com seu objeto de estudo. Com essa mudançaDescartes se via envolvido. Como conciliar os procura-se tratar a mente como um objeto público,valores da nova ciência com a concepção do homem submetido a condições intersubjetivas de teste, a fimcomo um ser de Razão? A cisão mente/corpo surgiu de que se obtenha definições e se apure propriedadescomo solução. De um lado temos o corpo que possam ser reconhecidas indistintamente porsubmetido completamente às determinações da qualquer pessoa como sendo pertencentes aomecânica e, do outro, a mente, definida em oposição mental.às características corporais e possuidora de uma Embora Brewster estivesse pensando no Treatisevontade livre cuja liberdade não conhece limitações. de Hume3 ao escrever essas linhas, pode-se dizer, É uma solução que, contudo, encerra uma série contudo, que a elaboração de teorias sobre o mental,de problemas não superados pela própria filosofia resultantes de uma perspectiva experimentalista sócartesiana, como a questão de se determinar o modo veio a se realizar no século XX, através de uma tríadepelo qual essas duas substâncias distintas podem se de perspectivas sobre o mental que se sucederam: orelacionar. Assim, a divisão entre substâncias behaviorismo, o materialismo e o funcionalismo4.mentais e corporais que parecia ser a solução 3 A seqüência da citação de Brewster é a seguinte: “...A Treatise of human nature, being attempt to introduce the experimental2 Foi imbuído desse novo espírito investigativo que Newton foi method of reasoning into moral subjects”. 4 capaz de conceber a mecânica, cujo desenvolvimento rumo ao Naturalmente não podem ser esquecidos os esforços da determinismo parecia ameaçar até mesmo o reino da liberdade Psicologia científica no que diz respeito ao estabelecimento de humana. métodos empíricos para uma apreciação adequada do mental,
  4. 4. 226 Vicentini Podemos afirmar que tais empreendimentos comportamento observável é possível atribuirguardam algumas características em comum, como diferentes causas psicológicas, que podem, de igualpor exemplo, a reiterada busca por uma abordagem maneira, explicá-lo, tornando, conseqüentemente,científica do fenômeno mental. Isso equivale a dizer ineficaz este empreendimento, uma vez queque todos esses empreendimentos buscavam e podemos atribuir a um mesmo comportamentobuscam aplicar as diretrizes experimentalistas e motivações contrárias como causas. Por exemplo,observacionais das ciências bem sucedidas e tomando-se a situação de alguém que beba um copocondições intersubjetivas de teste, cujo modelo era a de veneno que esteja em cima de uma mesa semfísica, a todo tipo de fenômeno, mesmo àqueles que nenhuma identificação, pode-se considerar que talaté então pareciam resistir a esse tipo de estudo. pessoa ignorava que tal líquido fosse veneno. Mas éComo diz John Searle (1994), todas essas tentativas perfeitamente possível que o mesmode enquadramento do fenômeno mental, dentro de comportamento possa ser explicado em termos demétodos provenientes da física podem, ser vistas uma vontade suicida. O mesmo pode-se dizer docomo momentos de um mesmo movimento cristão que procura, a todo custo, evitar o pecado ematerialista5. viver segundo os preceitos de sua religião. Ele faz O materialismo afirma que tudo o que é real, esse esforço por amor a Deus ou por temor aostudo o que existe, é matéria e que, portanto, tudo sofrimentos do inferno? Tanto um motivo quanto opode, em princípio, ser conhecido objetivamente. outro explicam igualmente bem seuSearle (1994:16) aponta como afirmação típica dos comportamento. Analisando apenas de modo localmaterialistas: “Nós temos a convicção de que se aquele comportamento não se consegue decidir comalguma coisa é real, ela deve ser igualmente acessível toda certeza por uma ou outra explicação.a todos os observadores competentes.” A idéia Ao behaviorismo seguiu-se o materialismodominante, que funda as pretensões da ciência, no propriamente dito, também conhecido como “teoriaque se refere àquilo que se acredita poder conhecer, da identidade” mente/corpo ou mente x cérebro, quee estabelece as suas diretrizes metodológicas, é a defende a identificação dos estados mentais com oscrença de que o real é objetivo. Assim, qualquer estados cerebrais. Nessa abordagem há uma variaçãofenômeno que aparente algum aspecto subjetivo, ou marcante de propostas, indo daquelas que negam aé sumariamente descartado como um equívoco, ou existência de fenômenos mentais como asofre a tentativa de redução a uma base objetiva. consciência, até aquelas versões menos radicais que Em concordância com os critérios de procuram “naturalizar” os estados mentaisobjetividade científica, os behavioristas procuravam enxergando sua origem causal em processosreduzir todo estudo do mental a fenômenos que neurofisiológicos.pudessem ser observáveis publicamente. Dessa A teoria da identidade passou por duasmaneira, a tarefa do conhecido behaviorismo formulações. A primeira delas, conhecida porpsicológico era de realizar empiricamente essa identidade de tipo (type-type identity theory),redução, constituindo-se em uma hipótese de diferentemente do behaviorismo lógico que via natrabalho científico. A esta foi acrescentada uma nova identidade mente/comportamento uma verdadeversão, conhecida como behaviorismo lógico, analítica, desenvolvia a idéia de que a identidadesurgida da constatação de que um tal programa mente/cérebro era uma hipótese científica e quecientífico não seria validado a menos que se fizesse cabia aos pesquisadores demonstraremuma redução completa dos fenômenos psicológicos empiricamente a identificação dos dois termos daa comportamentos observáveis, o que seria relação de igualdade.extremamente trabalhoso. Os behavioristas lógicos Essa mesma corrente defendia a idéia de que apropuseram uma epistemologia que validasse a identidade mente/cérebro era do mesmo tipo quepretensão de reduzir a mente ao comportamento, descarga elétrica e raio luminoso, ou entre a água ebanindo para longe do vocabulário científico termos moléculas de H2O. A dificuldade que surge dessede origem mentalista (Hempel, 1980:16). empreendimento pode ser expresso na forma de um Objeções variadas se opõem a essa concepção dilema. Para se demonstrar empiricamente abehaviorista. Uma delas, talvez a mais séria, faz identidade de dois fenômenos quaisquer éreferência ao fato de que a um mesmo necessário que se chegue a um conjunto de propriedades através das quais ambos possam ser contudo, restringiremos nossa análise às três correntes acima descritos. Assim, ao se descrever um estado elencadas.5 prazeroso x qualquer como sendo idêntico a um Embora o funcionalismo seja uma posição neutra, de fato, pouquíssimos pesquisadores, atualmente, se assumem como estado neurofisiológico y qualquer, está-se não materialistas.
  5. 5. O critério de desempenho: do behaviorismo ao funcionalismo 227afirmando que existe um único evento que pode ser problema para os teóricos da teoria da identidade,identificado a partir de dois conjuntos distintos de cabendo aos mesmos responderem o que existe empropriedades, mentais e neurofisiológicas. Desse diferentes eventos cerebrais (os meus e os seus, pormodo, surge o dilema: ou diz-se que eventos exemplo) que os tornam instâncias de um mesmoprazerosos são subjetivos, mentais e introspectivos, e evento mental? A melhor resposta a que chegaramnão se consegue esquivar da intratabilidade do foi a de que a função dos eventos cerebraismental, ainda que se afirme apenas um dualismo de determina o evento mental. Dessa maneira, surge apropriedade; ou afirma-se que os eventos prazerosos terceira e mais recente tentativa de abordagem dosão apenas físicos e perde-se a característica mental, fenômeno mental humano, que recebeu o nome decomo já havia acontecido com os behavioristas. Em funcionalismo. Nela, não obstante as várias nuanças deoutras palavras, a teoria de identidade manteve-se posicionamentos, pode-se apurar a intenção comumdependente de uma forma de dualismo, o de de identificar os estados mentais humanos com apropriedades6. estrutura funcional de um sistema. Para os Outro grande problema que surge da funcionalistas:consideração das propostas de identidade ...duas diferentes ocorrências de estado cerebral seriammente/cérebro diz respeito à dificuldade, já apontada ocorrências de um mesmo tipo de estado mental se epor Descartes e Leibniz, de se conceber como uma somente se os dois estados cerebrais mantivessem asúnica coisa duas outras que possuem características mesmas relações causais entre os estímulos de entradapróprias e diferentes. Como aquelas atribuídas ao (inputs) que o organismo recebe, entre os seus várioscérebro e à mente, características não apenas outros estados mentais e com suas respostasdiversas, mas até mesmo, em alguns casos, comportamentais (Searle, 1994:4l).antagônicas. Uma extensa e complexa literatura foi Para os funcionalistas, a mente é consideradadesenvolvida tentando responder a essa questão uma caixa-preta, sendo abordada apenas em termos(Kripke, 1980:144-147). Uma outra dificuldade das entradas informacionais ou inputs e da atividadedessa abordagem é o que se pode denominar de funcional que os converte em informações de saída“problema das múltiplas realizações”, ou seja, uma ou output. Uma série de objeções foi levantada contravez que o materialista defende que os estados o funcionalismo. Deve-se também a Searle (1984) omentais são estados cerebrais, não haveria uma desenvolvimento do argumento do quarto chinês,maneira de defender a tese de que outros seres além através do qual enfatiza a impossibilidade, presentedo homem possuem quaisquer daqueles estados nos atuais modelos computacionais, dementais. Por exemplo, a dor seria explicada como contemplarem o aspecto semântico do discurso. Aum determinado processo no interior de um sintaxe, enquanto conjunto estruturado de regras,determinado tipo de célula nervosa que constitui o permite uma abordagem computacional cujossistema nervoso humano. Com base nisso, não se resultados não são desprezíveis. No entanto, parapoderia dizer que um cachorro sente dor se ele não Searle (1994) a atividade sintática não consegue, aopossui aquele tipo específico de célula; esse menos, aproximar-se da atividade humanaproblema também é conhecido como “chauvinismo consciente.neural” (Block, 1978). De um certo modo, a resposta funcionalista é de Num segundo momento, desenvolveu-se o que muitas maneiras semelhante àquela dada pelosficou conhecido como teoria de identidade de behavioristas. Fica claro, para aquele que seocorrências (token-token identity theory), que afirmava familiarizou com a estratégia behaviorista eque a cada ocorrência de evento mental, funcionalista, que o principal critério para a decisãocorrespondia uma ocorrência de evento cerebral. de se atribuir mente para determinados seres e nãoDesse modo, além de sofrer as mesmas críticas que a para outros reside na idéia de desempenho. Podemosteoria das identidade de tipos, cabia aos defensores dizer que para esses autores uma máquina poderá serda teoria da identidade de ocorrência explicar como considerada um ser pensante se, numa situaçãoa crença de que 2+2=4 podia ser identificada com o específica, desempenhar adequadamente omesmo evento neuronal em duas pessoas diferentes. comportamento que se esperaria de um ser humano normal naquela mesma situação. Esse critério pareceA proposta funcionalista ser bastante adequado e com exceção de alguns A concepção e justificação da relação dos estados autores (Searle, 1994), ninguém discordaria que émentais com os estados cerebrais torna-se um dessa maneira que se atribui mentalidade aos pares humanos. Entretanto, em alguns casos sua aplicação6 parece mostrar-se inadequada. Este dilema foi primeiro colocado em Stevenson (1960).
  6. 6. 228 Vicentini Tome-se como exemplo o teste empregado por Os qualia aparecem como candidatos resistentesTuring, o teste de Turing, por meio do qual, busca-se às tentativas de lhe outorgarem uma cidadaniaa comprovação de se uma máquina (máquina de científica. Por ora, será considerado como o termoTuring) poderia pensar ou não. Não interessa aqui o empregado para denotar as características intrínsecasque vem a ser esta máquina, mas sim as condições de nossas sensações, as quais podemos obter apenasque Turing acreditava serem decisivas para a por meio da introspecção (Churchland, 1989:23).realização do teste. Para o aprofundamento dessa tentativa de Tentando responder à questão de se uma definição e esclarecimento das particularidades que amáquina pode pensar, Turing propõe um teste que tradição atribui a esse fenômeno, apresentar-se-á umpode ser descrito da seguinte maneira: suponhamos exemplo através do qual suas principaisque se construísse uma máquina tão complexa que características serão evidenciadas. Toma-se atodas as suas respostas às questões (restritas ao seguinte situação: diante de uma paisagem marinha,compo intelectual) que se lhe propusesse fossem de onde o céu e o mar aparecem para mim como sendotal maneira que não se pudesse distingui-las das de igualmente azuis, como posso afirmar que estouum ser humano. Neste caso, se tal máquina percebendo uma única cor? Ninguém discordariaobtivesse este desempenho, que razões teríamos para que se conseguimos fazer justificadamente esse tipodizer que ela não pensa? pergunta-se Turing. de afirmação, é porque podemos comparar, em Embora herdeira do behaviorismo esta corrente nossa consciência, as duas sensações causadas pelosnega a possibilidade de explicação dos estados objetos e daí emitimos um juízo.mentais unicamente em termos dos estímulos do A situação torna-se diferente e mais complicada,ambiente e das respostas comportamentais. No entretanto, se são colocados em questão os recursosestudo do problema mente/corpo há a necessidade de que dispomos para afirmar justificadamente quede se apelar para a intrincada relação dos próprios um outro observador, que esteja olhando para o céuestados mentais, os quais serão definidos em termos e o mar, no mesmo momento que o fazemos, estejade sua estrutura funcional. tendo a mesma sensação que nós estamos tendo. Como apurar se a sensação que o outro está tendoO problema dos qualia (se ele está realmente tendo alguma) é igual a minha? É sensível para todo aquele que possui ao menos Parece que, em princípio, tal comparação éum pequeno conhecimento dos preceitos da ciência completamente impossível. Muito embora se possaatual, um aparente descompasso entre a visão concordar verbalmente que os dois objetos estejamresultante das descrições científicas e aquela imagem tingidos por uma mesma cor e que tal cor é igual àdo mundo que se obtém pela experiência, por meio cor da camisa que no momento estou usando, edos sentidos e que está baseada nas mais íntimas mesmo que todos os nossos juízos sobre a corintuições de como o mundo é. Esse mundo de cores, concordem, ainda assim ficaria sem resposta aodores, sabores, etc. é reduzido a um amontoado de pergunta de se as qualidades que experimentamosdesbotados elementos básicos e enunciados de leis são as mesmas. É possível que a sensação da cor queque não deixa ver como tão vívidas propriedades chamamos de azul seja para ele como a sensação dapossam ser deduzidas a partir de uma base tão cor que nós chamamos de vermelho é para mim. Ouelementar. mesmo, que sua experiência da cor azul se assemelhe É chamada de fisicalismo a perspectiva filosófica à qualidade que sinto quando ouço o som de umaque defende a idéia de que o vocabulário da Física é música, poderia ser o caso que sua percepção daso único com validade científica, devendo ser cores se desse de maneira completamente inversaempregado em todos os campos do conhecimento. àquela que eu experimento. Como diz Dennett:O fisicalismo é uma importante, e até mesmo “uma vez que todos nós aprendemos as palavras quemajoritária, perspectiva entre os cientistas. Sem designam as cores vendo objetos coloridos e públicos, nossoquestionar o sucesso que essa perspectiva científica comportamento verbal concordaria mesmo se nóstem alcançado, passar-se-á a analisar a questão de se experienciássemos as cores subjetivamente de modospor meio do fisicalismo é possível capturar, numa inteiramente diferentes (Dennett, 1991:524).estrutura teórica descritiva, todos os possíveis A impossibilidade intuitiva de comparação dasobjetos de conhecimento empírico. Ou, dizendo de impressões causadas a duas pessoas por um mesmooutra maneira, se é possível o tratamento objetivo de objeto sugere que, em primeiro lugar, os qualia sãotodos os objetos que são empiricamente alguma coisa que pode ser acessada unicamente porapresentados. aquele que os experiencia. Tem-se, então, constatada
  7. 7. O critério de desempenho: do behaviorismo ao funcionalismo 229uma característica de acesso privado que faz parte das saísse do quarto teria um acréscimo em seuexperiências qualitativas. Pode-se apurar também conhecimento: a experiência de ver as cores.que os qualia resistem a qualquer tentativa de Tanto no primeiro quanto no segundodescrição, pois são acessíveis somente à consciência argumento, a conclusão que se impõe é a de que odo experienciador, indicando uma característica de fisicalismo com suas pretensões objetivadoras nãoinefabilidade que resiste até mesmo às tentativas de consegue dar conta de todos os componentes doexpressão dos mais eloqüentes oradores. Essa real. Por um lado, decorre de tais argumentos que ainefabilidade deve-se, segundo a tradição (Dennett, natureza dos qualia é tal que impossibilita qualquer1991:522), às suas propriedades intrínsecas, que descrição objetiva dos mesmos, em face de suaindicam a impossibilidade de análise, uma vez que irredutível subjetividade; por outro, que osão fenômenos simples ou homogêneos. Além fisicalismo ou é uma perspectiva equivocada ou, nadessas características, reza a tradição que o acesso melhor das hipóteses, incompleta.que se tem dos próprios qualia é de tipo direto ouimediato, isto é, não se pode estar enganado a respeito Conclusãodas qualidades que se percebe das coisas. O relato das críticas e dos problemas endereçados Parece natural, nesse momento, perguntar qual, às teorias aqui analisadas tem por objetivo evidenciarafinal de contas, é o problema que a noção de qualia a constatação de que variações sobre um mesmocarrega consigo. conjunto de problemas vêm desafiando e vencendo Em poucas palavras, pode-se dizer que o todos aqueles que se debruçaram sobre a análise doproblema central que direciona esta investigação é o fenômeno mental no presente século.de apurar se um fenômeno com as características As críticas que historicamente surgiram noque, aparentemente, pertencem aos qualia pode ser debate com o fisicalismo, de maneira geral, aplicam-tratado a partir de uma abordagem fisicalista, como se com grande propriedade ao behaviorismo e aoparece ser a diretriz dominante nas ciências da funcionalismo. A razão para essa situação parece sermente contemporâneas. decorrente do fato de todas essas teorias se São encontrados, na literatura recente sobre o utilizarem de um mesmo critério para a aferição dosproblema, dois argumentos bastante contundentes estados especificamente mentais, o de desempenho,nos quais é defendida a idéia de que os qualia como fica bem claro a partir da análise do teste deapresentam dificuldades e/ou são resistentes a uma Turing.abordagem fisicalista. São eles: o argumento de O debate contemporâneo tem sido enriquecidoNagel (1980): “Como é ser um morcego” (What is it com os avanços nas áreas de computação e,like to be a bat?) e o “argumento do conhecimento” principalmente, de neurologia que seguem a(Jackson, 1991) exposto por Frank Jackson. tendência de reduzirem as propriedades mentais a Nagel argumenta em seu artigo que nenhuma um substrato objetivo, seja ele um conjunto dedescrição puramente objetiva do mundo, isto é, uma funções como os programas de computadores oudescrição que seja igualmente acessível a todos os algo mais complexo como as atividades realizadasobservadores não importando o seu ponto de vista, pelo cérebro, incluindo a multiplicidade de detalhespoderia fornecer o conhecimento de como é ser um tanto da estrutura cerebral quanto de sua atividademorcego. Tal conhecimento só poderia ser obtido físico-química. Ainda que muitos resultadospor alguém que pudesse ter a experiência de ser positivos tenham sido obtidos por meio dessascomo um morcego. A conclusão a que chega é que estratégias de pesquisa, os problemas referentes aodeve haver um aspecto subjetivo na experiência que emprego do critério de desempenho permanecemnão pode ser apreendido a partir de uma descrição ignorados.puramente objetiva. Uma proposta de pesquisa que abra possibilidade Jackson imagina uma situação hipotética na qual de avanços reais na compreensão das questões douma pessoa, chamada por ele de Mary, que cresce difícil campo dos estudos mentais tem que levar emaprisionada, desde o nascimento, num quarto onde consideração a impropriedade do critério detudo era preto ou branco e para a qual todo contato desempenho como balizador dos resultados obtidos.com o mundo exterior se dava através de ummonitor de televisão, também em preto e branco e Referênciasque, vencendo todas as adversidades, torna-se umabrilhante física e neurofisióloga especializada em BLOCK, N. Troubles with functionalism. In: BLOCK,cores. Todavia, mesmo com todo o conhecimento N. Readings in philosophy of psychology. Cambridge: Harvardteórico de Mary, Jackson afirma que quando ela University Press, 1980. p. 268-305.v. 1
  8. 8. 230 VicentiniCHURCHLAND, P. M. A neurocomputational perspective: JACKSON, E. “Epiphenomenal qualia”. In: LYCAN, W.the nature of mind and structure of science. Cambridge: A Mind and cognition: a reader. Cambridge: Basil Blackwell,Bradford Book; London: The MIT Press, 1989. 1991. p. 469-477.DENNETT, D. Consciousness explained. Boston: Little KRIPKE, S. A. Excerpt from “Identity and necessity”. In:Brown, 1991. BLOCK, N. Readings in philosophy of psychology. Cambridge:DESCARTES, R. Discurso do método. Tradução: J. Harvard University Press, 1980. p. 144-147. v. 1Guinsburg; Bento Prado Júnior. São Paulo: Abril NAGEL, T. “What is it like to be a bat?” In: BLOCK, N.Cultural, 1973a. (Os Pensadores) Readings in philosophy of psychology. Cambridge: HarvardDESCARTES, R. Meditações. Tradução: J. Guinsburg, University Press, 1980. p. 159-168. v. 1.Bento Prado Júnior. São Paulo: Abril Cultural, 1973b. (Os POPPER, K. R.; ECCLES, J. C. O eu e seu cérebro. Brasília:Pensadores) Editora Universidade de Brasília, 1991.DESCARTES, R. Comments on a certain broadsheet. In: RYLE, G. The concept of mind. London: Barnes & Nobles,DESCARTES, R. The philosophical writings of Descartes. 1949.London: Cambridge University Press, 1985. p. 295-324. SEARLE, J. Minds, brains and science: The 1984 ReithGARDNER, H. The mind’s new science: a history of the Lectures. Cambridge: Harvard University Press, 1984.cognition revolution. New York: Basic Books, 1985. SEARLE, J. The rediscovery of the mind. Cambridge: AHEMPEL, C. G. The logical analysis of psychology. In: Bradford Book; London: The MIT Press, 1994.BLOCK, N. Readings in philosophy of psychology. Cambridge: STEVENSON, F. T. “ ‘Sensations and brain processes’: AHarvard University Press, 1980. p. 14-23. v. 1 reply to J.J.C. Smart”. In: BORST, C. V. The mind brainHUME, D. Investigação acerca do entendimento humano. identity theory. London: The Macmillan Press, 1970. p. 87-Tradução: Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 1997. 92.(Os Pensadores). Received on December 19, 2000. Accepted on January 22, 2001.

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