Os novos alquimistas1

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Os novos alquimistas1

  1. 1. OS NOVOS ALQUIMISTASUma nova era está sendo criada pela complexidade e pela convergência entrenovos materiais, novos modelos, biocomputação, neurociência, entre outroscomponentes. Isso está mudando a sociedade e abrindo novas e múltiplas oportunidadesde negócios e também ameaças. É o que garante Christopher Meyer nesta entrevistaexclusiva.A ciência e os negócios parecem atuar em espaços e tempos diferentes: orientadaem longo prazo, a ciência pertence ao âmbito do laboratório; atentas ao mercado,as empresas se concentram em gerar ganhos o mais rápido possível. Mas no livroIts Ative o sr. sugere que as empresas demoram cada vez menos para capitalizar asinovações...Geralmente costumamos pensar que, em grande medida, o mundopermanecerá tal como está até o resto de nossas vidas. No entanto, como apontou RayKurzweil, o índice de progresso tecnológico duplica a cada década. Isso significa que, sealguém prevê que algo demorará 50 anos para ocorrer, na realidade se equivoca:acontecerá em menos de 20. Acostumadas às estimativas dos anos 90, as pessoas nãopercebem que a tecnologia avança cada vez mais rápido, e o que ocorreu há uma décadateria levado meio século para o que hoje leva 20 anos. Talvez não possamos definir comprecisão nem detalhes as mudanças, mas é possível antecipar o que ocorrerá de modogeral. Assim como a Revolução Industrial, que surgiu de descobertas em química,termodinâmica e eletricidade, modificou as técnicas de fabricação - estas, por sua vez,provocaram mudanças na sociedade, nas táticas de guerra, na demografia e no estilo devida - os atuais avanços em ciência e tecnologia terão profundos efeitos em nossasorganizações econômicas e sociais. Alguns poderão pensar que se trata de tendências delongo prazo; no entanto, toda empresa voltada para a fabricação deveria estar informadados desenvolvimentos na ciência dos materiais, para poder elaborar produtos de melhorqualidade, mais baratos e que não danifiquem o meio ambiente. O mesmo ocorre com ascompanhias que atuam no mercado de cuidados com a saúde ou na agricultura: semexceção, elas têm de prestar atenção ao que ocorre no campo da biotecnologia. Por suavez, as firmas de comunicação ou de publicidade precisam analisar como as novasgerações utilizam as redes e encontrar uma maneira de manter contato com elas. Todasteriam de pensar que a forma da organização corporativa, que surgiu no século 19,provavelmente não seja apropriada para atuar no século 21.Quais são os principais avanços científicos aos quais devemos dar mais atenção?O primeiro grande grupo tem a ver com a “ciência molecular”. Uso esse temapara indicar que a biotecnologia, a ciência dos materiais e a nanotecnologia aproveitamos novos conhecimentos sobre o comportamento das moléculas e as ferramentasnecessárias para a sua manipulação. Os chamados “nanomanipuladores" são máquinascapazes de movimentar átomos individualmente, desenvolvidas no âmbito da ciência dosmateriais e da microeletrônica com o objetivo de fabricar chips cada vez menores.O segundo avanço importante está vinculado à ciência das redes, ou seja, aárea da matemática que explica a forma como crescem e se comportam os sistemasinterconectados, como o sistema nervoso ou a internei.
  2. 2. O terceiro avanço-chave é o dos modelos de simulação baseados em agentes;está muito ligado à ciência das redes, porque, quanto mais as entendemos, maior é nossacapacidade de criar simulações que sejam reflexo das decisões, as quais, de formametafórica, vão desde as de um gene para regular outro gene até aquelas que umapessoa normalmente toma. A capacidade de simular comportamentos individuais, assimcomo as interações com os modelos de agentes, nos permitirá usar o que aprendemosdas ciências molecular e das redes para administrar as empresas.Quais áreas serão mais afetadas por essas correntes?Sem dúvida, a fabricação será transformada por tudo que temos aprendido noâmbito molecular. As duas aplicações mais significativas em termos quantitativos sãorelativas a revestimentos de superfícies e cosméticos. Como resultado da incorporação deelementos em escala manométrica, obtêm-se as tintas mais brilhantes para automóveis,que não descascam, e cosméticos de melhor qualidade.Há também muitos avanços no campo da biologia que provocam impacto nasindústrias farmacêutica e de alimentação e na agricultura. A empresa Cyrano Sciences,por exemplo, criou um dispositivo que identifica odores: o Cyranose. Essa tecnologiapermitirá aos médicos diagnosticar infecções a partir do ar exalado por uma pessoa,assim como servirá a aplicações militares, podendo detectar produtos tóxicos naatmosfera. Por outro lado, os avanços no estudo das redes já são capitalizados porempreendimentos na indústria dos meios de comunicação. Um exemplo é o ATTAP (siglaem inglês de all things to all people, ou tudo para todos), que analisa como ocomportamento de um indivíduo na internet pode corresponder ao de outros, para entãodisponibilizar essa informação em uma rede de pessoas com interesses similares.Que forças impulsionam esse tipo de desenvolvimento?A mais importante é o poder do processamento barato. O maior mercado desupercomputadores da IBM está na biologia. As pesquisas sobre o genoma, por exemplo,demandam tanta capacidade de processamento que seriam impossíveis sem osbenefícios do cálculo barato. O segundo fator está relacionado às redes. Há alguns anos,Duncan Watts, diretor do projeto SmallWorld e conhecido internacionalmente por teratualizado a teoria dos "seis graus de separação", escreveu um ensaio extraordinário noqual demonstrava a semelhança entre a estrutura matemática do sistema nervoso donematódeo (um helminto microscópico que se alimenta de raízes), a rede de energiaelétrica da região oeste dos Estados Unidos e a ligação disso com as estrelas deHollywood. São três tipos diferentes de rede: a primeira se desenvolve biologicamente; asegunda é construída por engenheiros; e a terceira constitui um processo sociológico. Decerta forma, elas apresentam uma estrutura matemática idêntica.Uma das palavras-chave na ciência atual é “bio-computação”. Em que consiste equais são suas aplicações nos negócios?Biocomputação significa que, se podemos expressar o código biológico comocódigo computacional, tudo que sabemos fazer com o código digital pode ser aplicado àanálise e simulação dos sistemas biológicos. E é isso o que está acontecendo: cada vezmais sistemas biológicos são projetados, e a pesquisa em medicina avança por meio dasimulação "em sílicio", isto é, feita pelo computador. Há alguns anos, por exemplo, umgrupo de pesquisadores conseguiu simular o músculo cardíaco, e a FDA (Federal DrugAdministration), dos Estados Unidos, aprovou a simulação como prova daquilo que seimagina ser a batida cardíaca. A partir dessa descoberta, simulou-se o funcionamento
  3. 3. completo do coração, para que fosse possível estudar os efeitos das diferentes drogas.Outro exemplo da convergência da simulação para as ciências moleculares é o Institutefor Systems Biology, que trabalha com simulações para o estudo do funcionamento dosórgãos em nível celular.O eixo de Its Alive é a eminente convergência entre a tecnologia da informação, abiologia e os negócios. O sr. Acaba de dar exemplos das duas primeiras. Como osnegócios se integram com essa equação?Os algorítmos genéticos são um bom exemplo de sistemas informáticosinspirados em modelos biológicos para a resolução de problemas nas organizações.JohnDeere os aplicou para melhorar a eficiência de suas fábricas de máquinas semeadoras.Para a empresa, tornava-se muito difícil projetar os cronogramas das linhas de fabricação,já que há mais de 1 milhão de configurações diferentes para máquinas que devem adap-tar-se a diferentes condições de cultivo e de sementes. Algumas têm dosadores deplástico que armazenam fertilizantes e inseticidas; outras operam mecanicamente,enquanto há alguns modelos que funcionam por sistema hidráulico. O problema consistiaem criar o cronograma ideal ou a melhor sequência de fabricação de diferentes máquinassemeadoras. Depois de experimentar diversas técnicas sem bons resultados, John Deererecorreu aos algoritmos genéticos, que se baseiam nos princípios da evolução e cujoponto de partida é o conjunto de máquinas a fabricar. Com isso, muitos cronogramasforam gerados, assim como simulação do rendimento de cada um. Depois de escolhidosos melhores e após a etapa de "criação", eles são "recombinados" para criar umcronograma "filho". Cada noite são criados e avaliados 40 mil cronogramas, e osmelhores são utilizados na fábrica no dia seguinte.Que outras empresas utilizam algoritmos genéticos?A General Electric (GE) os utilizou para melhorar o desenho do motor doBoeing 777, e a Marks & Spencer, para avaliar as solicitações de cartões de crédito. Empoucas palavras, os algoritmos genéticos traduzem noções de evolução, como arecombinação genética, para a matemática. Mas a evolução também oferece lições paraa gestão de empresas.Quais?O que impulsiona a evolução é a diversidade: maior variedade no "poolgenético" - ou seja, o conjunto da informação genética de uma população em determinadomomento -, maior originalidade nas espécies. Nos Estados Unidos, por exemplo, sãocultivados quatro tipos de milho, com os quais, conforme o clima, é possível obterrendimentos máximos. No entanto, o Departamento de Agricultura guarda centenas decepas que lhe permitirão desenvolver uma variedade de milho para se adaptar melhor aoambiente, em caso de ocorrência de mudanças climáticas ou de pestes que afetem asquatro variedades cultivadas. Assim, a diversidade se torna um ingrediente fundamental.O segundo algoritmo é a recombinação - o processo por meio do qual dois genomas sãocombinados para criar um novo. E, por último, a pressão seletiva ou sobrevivência dosmelhores, a dos mais aptos para se adaptar ao ambiente.Nesse caso, a forma de inovar das empresas pode ser vista comoevolucionista, ou seja, um processo regido pelas leis da diversidade, da recombinação e
  4. 4. da pressão seletivo. Antes as organizações costumavam formar grupos de pessoas comantecedentes parecidos, que compartilhavam expectativas semelhantes.Na época da industrialização, esse enfoque fazia sentido, porque as empresas, emtermos biológicos, eram de "monocultura” e, como tais, podiam ser muito eficientes paraalcançar altos rendimentos. As companhias denominadas "adaptativas", por sua vez,caracterizam-se pela grande variedade: congregam pessoas provenientes de culturasdiferentes, com idioma, formação e experiências distintos. A segunda característica é arecombinação de idéias: são empresas que sempre se reorganizam porque sabem quecriar novas aproximações entre pessoas e atualizar as redes de contato aumenta aflexibilidade e a capacidade de adaptação. Elas promovem a rotatividade da equipe,designando aos funcionários diferentes funções e criando oficinas abertas que incentivama comunicação. O terceiro ponto é a pressão seletiva. Às vezes, existem muitas novasidéias, mas isso não significa que são boas, ou há tantas boas idéias que talvez sejaimpossível desenvolver todas; em ambos os casos, é preciso encontrar a forma deselecionar as melhores. Nos Estados Unidos, o treinador de uma das principais equipesde beisebol aplicava a seguinte regra: cada ano, um dos oito jogadores estaria fora daequipe e se ausentaria na temporada seguinte. Isso levava a uma grande pressão. O queaconteceria se um alto executivo fosse substituído cada ano? O efeito seria interessante,porque garantiria a sobrevivência dos melhores.No entanto, as mudanças no mercado e a astúcia dos concorrentes, entre outrosfatores, também causam pressão. Por que seria necessário tomar medidasinternas?O problema é que as empresas não assimilam a pressão externa antes queseja tarde demais. Sempre percebem que o mundo ao redor muda, mas não conseguemadptar-se a ele porque, enquanto o mercado é regido por suas próprias leis econômicas,o sistema interno é determinado por jogos políticos e de poder, que são forças bem maisconservadoras.De que forma elas podem aumentar sua capacidade de adaptação?Percebemos que as empresas adaptativas se caracterizam pelas capacidades deperceber e reagir e de aprender a se adaptar. Assim como um ritmo cardíaco inalterável ésinal de coração doente - porque o normal é que varie de acordo com as emoções e avelocidade em que trabalha, entre outros fatores -, as organizações que procuram sermuito estáveis não aproveitam o feedback que seu ambiente proporciona em doissentidos. Um deles é o que chamamos "perceber e reagir", e equivale a captar deimediato as variações nos mercados e a elas reagir. O segundo é identificar os erros ecom eles aprender. A Amazon, por exemplo, cada vez que recebe uma reclamação decliente, analisa a ocorrência e determina o que deve ser mudado. Em síntese, asempresas adaptativas percebem e reagem às variações no mercado e em seguidaavaliam a efetividade das respostas, procedendo aos ajustes necessários e aprendendocom seus erros.
  5. 5. AS NOVAS CIÊNCIASSegundo uma das versões da lenda, o filósofo e geômetra Tales de Miletocaminhava absorto na contemplação das estrelas quando tropeçou e caiu num poço. Acriada trácia que o acompanhava o fez perceber, risonha, que, enquanto ele estudava océu com paixão, não enxergava o que estava diante de seu nariz nem sob seus pés.Dessa forma, a atitude pragmática zombava da aparente inutilidade da teoria pura. Umaversão posterior inverteu os termos. Nela, Tales previu que haveria uma boa colheita deazeitonas e alugou com antecedência (e sem gastar muito, pois ninguém concorreria comsua oferta) os moinhos de azeite de Mileto e Quios. Quando a época da colheita chegou ea demanda disparou, ele sublocou as instalações por um preço muito bom,demonstrando, assim, que se pode obter sucesso nos negócios por meio doconhecimento dos fenômenos celestes. Stuart Kauffman estuda sistemas que estão muitomais próximos de nós, embora nem por isso sejam mais fáceis de compreender. Osmodelos que projetou simulam desde o comportamento da cadeia de distribuição até aevolução tecnológica e biológica, permitindo que empresas como Unilever e Procter &Gamble, entre outras, tornassem seus processos mais eficientes. Claro que, como boateoria que é, a complexidade exige um esforço de abstração. Mas a dedicação rendemuitos frutos nesse caso, e é por isso que há cada vez mais pesquisadores demanagement; dedicados a ela. Um deles é Daniel Levinthal, professor da WhartonSchool, que a utiliza para a elaboração de estratégias eficazes. Nesta entrevista exclusivaa HSM Management, Kauffman se refere às possibilidades que o novo campo científicoabre e sua utilidade para as organizações.Em que consistem as ciências da complexidade?Não há uma resposta simples a essa pergunta. O que acontece é que estamosatravessando um período de transição na ciência. Deixamos para trás 350 anos deciências reducionistas, que separavam as coisas, e passamos para uma era na qualestamos tentando juntá-las. Sempre soubemos que elas teriam de ser reunidas, posNewton o fez com a lei da gravidade universal. A novidade é que agora temoscomputadores e podemos observar os sistemas e suas partes enquanto interagem deformas muito diferentes, assim como estudar o comportamento de um sistema em suatotalidade, constituído por todas essas interações. Os físicos diriam que podemosobservar o comportamento coletivo de muitas partes diferentes. É isso que estáimpulsionando as ciências da complexidade em todas as áreas. Chaman-se “dacomplexidade” porque há muitas variáveis interagindo com outras. A disciplina nasceu há20 anos, no Santa Fé Institute, do Estado do Novo México, Estados Unidos. Muitas idéiasque hoje são trabalhadas pelos departamentos de física, biologia, sociologia, economia epelas escolas de administração de empresas e de direito de muitos países surgiram ali.Ao mesmo tempo, a biologia é uma fonte ,muito rica em idéias para as ciências dacomplexidade, embora minha opinião possa ter sofrido influência, porque sou biólogo.Outras fontes são a economia, a física e, em menor grau, as ciências da computação.
  6. 6. Quais os métodos ou ferramentas utilizados para estudar a complexidade?Começou-se com modelos computacionais de sistemas complexos deequações matemáticas. Eram equações que não podiam ser analisadas por meio detécnicas matemáticas clássicas, mas sim com um computador. Depois chegou odesenvolvimento de modelos baseados em agentes. Um exemplo desse tipo de modelosé o que Andy Illachinsky desenvolveu para o Center for Naval Analyses (CNA), dosEstados Unidos. É um modelo de campo de batalha no qual cada soldado tem diferentes“propriedades”, tais como a distância a que sua arma sua arma poderia disparar, aprecisão com que dispararia, sua probabilidade de escapar do fogo inimigo ou de socorrerum soldado ferido, entra outras. O soldado é um "agente" e, como tal, tem um cojunto depropriedades ou “genótipo”. Illachinsly criou genótipos para os soldados de cada bando,em um modelo de grade de duas dimensões que simula o campo de batalha. Ao fazermudanças nas propriedades dos agentes, modifica-se comportamento coletivo doexército, que descrevem e resolvem equações, nos modelos baseados em agentesoferecemos as propriedades dos agentes e depois permitimos que eles interajam, paraver o que acontece.Como se aplicam nos negócios esses modelos baseados em agentes?Na BiosGroup estudamos, por exemplo, a cadeia de distribuição da Procter &Gamble (P&G). Fizemos um modelo que levava em conta, entre outros fatores, osdepósitos, os caminhões, as caixas de mercadorias carregadas nos caminhões, acapacidades destes de reabastecer as lojas onde certos artigos se esgotavam e afabricação de produtos. E observamos de que forma as mudanças produzidas emdiferentes aspectos da cadeia repercutiam na operação – por exemplo, o que aconteciaquando se acumulava mercadoria nos depósitos ou se ampliava ou reduzia o tempo queos produtos demoravam em chegar ao mercado.E o que descobriram?Várias coisas interessantes. A P&G insistia em enviar os caminhões com suacarga completa, mas descobrimos que esse procedimento é muito ineficiente e que orendimento melhora se os caminhões vão parcialmente carregados. Embora o custo porpacote seja mais alto, a flexibilidade gerada compensa com juros esse aumento decustos. A P&G modificou suas operações a partir dessa descoberta. Tambémdescobrimos que existem várias formas de reabastecer um grupo de lojas vizinhas. Todasessas coisas aumentam consideravelmente a eficiência da cadeia de distribuição.Como se obtém a informação sobre as propriedades dos agentes? Da observaçãoou da dedução?É uma combinação das duas.Tentamos ser inteligentes e deduzir o modelo,mas também saímos para nos informar sobre o que as pessoas estão fazendo. No casoda P&G, conversamos com o pessoal da companhia. ndy Illachinsky, no Center for NavalAnalyses, aproveitou seu conhecimento das táticas militares e das características dossoldados. Depois, os margines tomaram seu modelo para entender como as mudançasno genótipo dos soldados modificam o resultado da batalha.
  7. 7. Somente as propriedades dos agentes determinam o resultado final? Não há regrasexternas?Sempre há regras externas. Um dos problemas que resolvemos na Bios estavarelacionado com a recolocação de tanques que continham gases como oxigênio enitrogênio. Nosso cliente era uma empresa fornecedora dessas substâncias, que tinhaque levar os tanques de um comprador a outro. Nesse modelo, a rede viária era umapropriedade ou variável externa que devíamos levar em conta para otimizar o tempo deviagem.Que outras lições as ciências da complexidade oferecem ao mundo dos negócios?Há um modelo para resolver um problema de fluxos de trabalho em uma oficinaindustrial. A idéia é que uma empresa tem determinada quantidade de máquinas e certonúmero de objetos para fabricar, e para cada objeto devem ser utilizadas as máquinasdurante um tempo e ordem predeterminados, que poderiam ser diferentes para cada umdeles. O tempo total que demanda a fabricação de um grupo de objetos recebe o nometécnico de "intervalo de produção". Se o intervalo é longo, podem ser encontradas váriasmaneiras de fabricar os produtos, mas, à medida que ele diminui, as possibilidades sereduzem e é mais difícil resolver o problema de encontrar a distribuição mais eficiente dosobjetos nas máquinas. Intuitivamente, tendemos a pensar que a melhor solução é umprograma com o menor intervalo possível. No entanto, em tais casos, acontece que,quando uma máquina falha, tudo é derrubado e a conseqüência é catastrófica. Se, noentanto, o intervalo de produção se estende um pouco, podem ser desenhadosprogramas alternativos que são igualmente bons e também permitem evitar a queda dosistema. De modo que é preciso encontrar um equilíbrio entre a otimização do intervalo deprodução e a fragilidade que leva a falhas catastróficas.Na Bios fizemos um trabalho para a Unilever com base nessas noções. A Unilevertinha um problema de fluxo de trabalho: eles haviam otimizado o fluxo para minimizar otempo requerido para realizá-lo, mas tropeçavam em falhas catastróficas. Demonstramosque. Se aumentassem até certo ponto, e não além desse ponto, a capacidade deprodução, aumentariam a flexibilidade e não teriam tais falhas. Foi assim que resolveramo problema com um investimento de US$ 1 milhão, em vez de gastarem US$ 20 milhões.Essa idéia também se aplica à estratégia ou à logística militar, em que há sempre umdebate entre ter a estratégia mais eficiente, que pode ser frágil, e a mais sólida, que podecustar um pouco mais, mas evita problemas.Várias escolas de administração de empresas utilizam seu modelo NK, para odesenho de estratégias. O sr. poderia nos explicar em que consiste?É um modelo bastante simples. Imaginemos uma cadeira composta por trêspartes-encosto, assento e pés - e que cada parte pode ser de metal ou de plástico. Dessemodo, há oito cadeiras possíveis: uma totalmente metálica; uma com pés e assento deplástico e encosto de metal; uma com pés e assento de metal e encosto de plástico etc. Omodelo NK começa com um objeto que tem N partes (nesse caso, três) e cada uma delaspode estar em vários estados alternativos (metal ou plástico). A idéia é que cada parte fazuma contribuição para a função do objeto completo (a cadeira), que depende do materialdela (metal ou plástico) e do material das outras partes, ou seja, depende da parte em si ede K outras partes, daí o modelo chamar NK. Todo o resto é aleatório. Se você decideque K é 2 e N é 3, terá um objeto em três partes, cada uma delas contribuindo para aaptidão total. Depois se determinam ao acaso cada parte e as outras duas, e todas ascombinações possíveis dessa parte e das outras, e se designa uma contribuição de
  8. 8. aptidão seguindo alguma distribuição matemática, como o intervalo uniforme entre zero eum, ou seja, designa-se um decimal ao acaso. Dado um objeto com um conjunto departes, soma-se a contribuição de todas elas e divide-se o resultado pelo número departes, para assim obter a aptidão do objeto. No caso da cadeira, a aptidão poderia serquanto ela é confortável ou quanto custa produzí-la. A conseqüência disso é um conjuntode objetos (cadeira), cada um ao lado do seguinte, com uma distribuição de alturas comoem uma cordilheira, na qual o cume mais alto representa o melhor objeto (a melhorcadeira). O pesquisador pode trabalhar com essa paisagem adaptativa e ver o queacontece quando modifica uma parte de cada vez. Isso é o que chamamos “trabalho deadaptação”. Podemos aprender muitas coisas com esses modelos. Por exemplo, ascurvas de aprendizado na economia.A análise de paisagens adaptativas é um exemplo de olhar sobre o todo, típicodas ciências da complexidade e com todo tipo de implicações. Implica, por exemplo, que,quando uma pessoa não é muito boa em algo, ela tem muitas formas de melhorar, mas, àmedida que se aperfeiçoa, fica-lhe mais difícil continuar avançando. No início, há muitasramificações ou direções possíveis, mas as possibilidades se reduzem à medida que elaprogride. É o que se vê na evolução biológica, o chamado "rebote pós-extinção". Depoisde um episódio de extinção, formam-se novas espécies, que têm enorme quantidade devariáveis menores, até que a mudança se detém. Essa característica básica da evoluçãobiológica é também um rasgo essencial da evolução tecnológica. Os primeiros aeroplanosinventados pelos irmãos Wright eram muito diferentes dos que foram fabricados uma ouduas décadas depois. Os primeiros aparelhos tinham sete asas, seis asas ou uma asa e omotor na frente ou na parte posterior, até que, em poucos anos, o desenho estabilizou-se.
  9. 9. A NOVA NATUREZA HUMANAEm um futuro não muito distante, quando próteses sintéticas aguçarem nossossentidos e implantes cerebrais melhorarem nosso desempenha, talvez se torne possívelmover objetos e até alterar nossos sistemas endócrino e imunológico com o pensamento,como escreve Susan Greenfield, especialista da Royal Institution of Great Britain.Como espécie, provavelmente não aceitaríamos bem a idéia de uma reformade nossa mente. À medida que as tecnologias cada vez mais nos surpreendem e chocam,normalmente buscamos refúgio em nossa natureza humana e em nossa obstinadadisposição de amar, odiar e fazer vingança, como faziam nossos ancestrais da Gréciaantiga.Então por que, agora, na virada do século 21, deveria ser rompido o último dosbastiões? Para entender como, pela primeira vez em quase 100 mil anos, nossas mentespodem ser radicalmente transformadas, precisamos primeiramente explorar o que amente humana realmente pode ser como realidade física.A mente humana é moldávelQuanto mais aprendemos da neurociência, mais parece que, em vez de seruma antítese alternativa ao cérebro, a mente tem um substrato físico na pegajosa massacinzenta entre nossas orelhas.Vejamos primeiramente como o cérebro realmente é organizado. A unidade detrabalho básica ali é uma célula cerebral (neurônio), porém ainda mais importantes são oscircuitos de células cerebrais, que depois viram conjuntos complexos que formammacroestruturas cerebrais reconhecíveis. Cada uma dessas estruturas cerebrais é comoum instrumento em uma orquestra: elas podem desempenhar muitas funções, de acordocom as combinações e o grau em que estão operando em determinado momento.No ato de ver, por exemplo, existem pelo menos 30 regiões diferentes docérebro envolvidas. No entanto, em termos de anatomia grosseira, todos os cérebrosparecem ser praticamente iguais. Se estivéssemos procurando uma mente, ouindividualidade, ela não residiria em nenhuma estrutura altamente variável. De fato, anoção de um cérebro dentro de um cérebro não só não faz sentido, como também é inútil.A mente tem ainda menos probabilidade de residir nos componentes maisbásicos que permitirão às células cerebrais trabalhar dentro dos conjuntos: os genes.Estes fazem proteínas, mas não têm uma missão própria.Eles não são obstinadamente predispostos a escravizar o cérebro para seuspróprios propósitos; ao contrário, estão ali como pequenos, porém importantes,participantes que são necessários - mas não suficientes - para características mentaiscomplexas.Quer um exemplo de como é importante a interação entre natureza eexperiência de vida? Pense em um estudo de alguns anos atrás em que ratos que foramcriados deliberadamente para carregar o gene aberrante para a doença de Huntington.Trata-se de uma doença neurodegenerativa caracterizada por um distúrbio grave demovimento que, diferentemente do que ocorre na maioria dos distúrbios cerebrais, estárelacionada com um único gene trapaceiro. Pois bem. Quando os ratos que eramgeneticamente fadados a desenvolver o distúrbio recebiam estímulos ambientais – tubosde papelão e rodas com os quais interagir - desenvolviama doença em uma idade bemmais avançada e sua deficiência de movimento era muito menor.Com esse estudo, fica óbvia, portanto, a relação - ainda que indireta - entre ogene e a conduta mental, uma vez que o cérebro humano é ainda mais sensível ao
  10. 10. ambiente do que o cérebro do rato. E a relação tende a ser mais estreita ainda emenfermidades em que agem múltiplos genes.Os genes são importantes pelo fato de produzirem proteínas, mas essasproteínas, assim como as regiões cerebrais, podem ter muitas funções. Nas regiõescerebrais, os genes se conectam e desconectam ao longo da vida toda e as proteínas queeles produzem, por sua vez, mudam as configurações das conexões das célulascerebrais. O que causa essas mudanças é simplesmente a interação contínua com oambiente.Por essa razão, a velha dicotomia "natureza versus experiência de vida" - ouseja, a herança genética versus os fatores ambientais - não se sustenta. Na verdade, ainteração interminável entre os estímulos do ambiente e a química do cérebro é o queleva a mudanças na conectividade dos neurônios, o que, por sua vez, determina,literalmente, como você vê o mundo.É a essa personalização de conexões de células cerebrais por meio daexperiência, oriunda do diálogo constante com o mundo exterior, que eu dou o nome de"mente". Você nasce em meio a uma confusão crescente e ruidosa, quando avalia omundo em termos de doçura, rapidez, frio, brilho e assim por diante. Mas gradualmenteessas sensações abstratas se juntam a rostos ou objetos que, no final, ganharão rótulos esignificados, desencadeando cada vez mais associações à medida que forem surgindo.Essa plasticidade do cérebro tem sido documentada não apenas em ratos delaboratório, nos quais a mera exposição a rodas e escadas pode aumentar a quantia deconexões, mas também em seres humanos. Talvez o exemplo mais fascinanterecentemente seja o relatório mostrando que os motoristas de táxi de Londres, com amemória de trabalho sobrecarregada com o desafio extra de lembrar todos os nomes deruas da cidade, têm uma parte de seu cérebro maior do que a da maioria das pessoas.Então, a conclusão é elementar: se o cérebro é tão sensível à mudança,qualquer coisa no ambiente, ou qualquer coisa que vise essas conexões cerebrais, podemudar a mente.NeurochipsEntão, o que acontecerá com nossa mente no século 21, quando finalmentetodas as promessas das descobertas científicas do século 20 estiverem subitamenteproporcionando rápida e furiosamente uma cornucópia de tecnologias?O brilhante trabalho de Peter Fromhertz na Alemanha, entre outros, mostrouque agora é possível fazer com que as células nervosas humanas cresçam em circuitosintegrados. Essa idéia imediatamente dá origem ao neurochip, no qual as excelentespropriedades eletrônicas das células cerebrais podem ser exploradas para a produção deneurochips híbridos de carbono e silício.E, se esses sinais elétricos gerados por células cerebrais puderem secomunicar diretamente com os sinais elétricos gerados no silício, então ocorre que nãoapenas podemos ter um novo tipo de computador mas que se poderiam implantareletrodos dentro do cérebro.Por exemplo, na Emory University, um paciente paralisado do pescoço parabaixo já pode "ordenar" por pensamento que um cursor se mova em uma tela decomputador: um implante faz com que um pensamento seja transformado em ummovimento para compensar seu sistema motor lesionado.Então, em um futuro não muito distante, quando não apenas as prótesessintéticas aguçarem nossos sentidos, mas os implantes cerebrais melhorarem nossodesempenho, talvez se torne possível mover objetos com o pensamento e até alterar
  11. 11. nossos sistemas endócrino e imunológico com o pensamento. Além disso, todas essasinformações serão lidas por minúsculos dispositivos nanotecnológicos dentro do corpo.Outra barreira que será, portanto, cruzada é a existente entre mental e físico,entre objetivo e subjetivo. E, da mesma forma que o advento dessa tecnologia dainformação (TI) invasiva e incrivelmente sofisticada mudará a maneira como enxergamoso mundo e como enxergamos a nós mesmos, também inevitavelmente mudará a maneiracomo trabalhamos.Em um mundo caracterizado pelo crescimento do comércio eletrônico, robôs ebancos de dados estão gradualmente substituindo os especialistas. Portanto, aterceirização e a subcontratação substituirão a hierarquia corporativa, dado que aspessoas trabalham de maneira independente - como fre-lancers - a partir de onde querque estejam - até de suas casas. E será cada vez mais difícil definir que parte da vidacotidiana será atividade mental recreacional distinta do trabalho.Outra mudança importante que a TI pode trazer é uma força de trabalho cadavez mais velha, livre da necessidade de exercitar habilidades físicas ou até mesmo de serextremamente móvel. Pode ser que estejamos enfrentando um mundo onde aaposentadoria se torne coisa do passado.Os avanços das tecnologias desafiarão a própria noção de vida. Por exemplo,as biotecnologias estão prometendo genes adicionais aperfeiçoados, que podem até sersintéticos e talvez se apóiem em cromossomos artificiais sem interferir nos genesnaturais. Além disso, a engenharia de uma linha de células embrionárias que têm omaterial genético de uma geração permitirá selecionar os genes de forma mais eficiente,sem a enorme responsabilidade de inculcar essa característica por gerações.E somemos a esse cenário a possibilidade de extrair material genético dequalquer célula do corpo, de forma que qualquer pessoa de qualquer idade esteja emcondições de reproduzir-se. É razoável imaginar que isso pode sinalizar o fim da vidacomo a conhecemos. Se qualquer pessoa de qualquer idade puder ter um filho comqualquer pessoa, então as barreiras entre gerações com certeza serão quebradas.A nova natureza humanaEntão, o que tudo isso significará para nós, para nossa tão propalada ecelebrada natureza humana? Podemos dizer que a natureza humana é uma forma depensar, um estado da mente. Como já vimos, as conexões cerebrais que fazemosrefletem as experiências que temos, e a mente pode ser essa personalizarão do cérebro.Nossa situação na sociedade, portanto, depende de como evolui a configuração dasconexões e do contexto do tempo e do espaço específicos em que vivemos.Nosso ambiente pode estar prestes a mudar para sempre, para se tornar umambiente em que não precisaremos mais coexistir em sociedade. Podemos viver por meiodas telas de computador. Pela primeira vez em 100 mil anos, a natureza humana podeser radicalmente mudada ou até mesmo desaparecer. Portanto, a questão vital para nósagora é canalizar essas novas tecnologias para obter maior percepção da naturezahumana. Assim, podemos nos preparar - como nunca antes – para celebrar nossaindividualidade, em vez de aniquilá-la.
  12. 12. AS NOVAS MÁQUINASEm 2029, os computadores serão milhares de vezes mais poderosos do que o cérebrohumano, pois combinarão as atuais vantagens da inteligência humana, sobretudo a capacidade dereconhecimento de padrões, com os aspectos em que eles já nos superam. E, em 2045, nossaporção tecnológica superará nossa porção biológica, como diz o inventor Ray Kurzweil nestaentrevista a Tom Peters.Não é todo dia que uma máquina de idéias se encontra com outra máquina de idéias. Quandoduas máquinas desse tipo interagem, é grande a probabilidade de ocorrer um curto-circuito de proporçõesdesconhecidas. Ou podem abrir-se novos horizontes de pensamento.Na entrevista a seguir, que o inovador especialista em gestão Tom Peters fez com o inovadorinventor norte-americano Ray Kurzweil, abrem-se tais horizontes. E justamente sobre as máquinas - tantoas computacionais, que mudam com o advento da biocomputação, como as humanas, ou seja, nós.O que é a singularidade de que você tanto fala?É uma metáfora emprestada do campo da física e designa um horizonte de acontecimentos noqual é difícil ver mais além. Na física, trata-se de um horizonte de acontecimentes físicos que cercam umburaco negro. Em nosso caso, estamos falando de fatos futuros na história da humanidade, que serão tãoprofundamente transformadores que a análise se torna bastante difícil. Envolve a ampliação de nossainteligência por meio da fusão com as formas não-biológicas que estamos criando.São muitos os passos para conseguir compreender esse processo. O primeiro é a recriaçãoem máquina da inteligência humana, com todas suas sutilezas, flexibilidade, capacidade de reconhecimentode padrões e inteligência emocional, entre outros fatores. Para isso, será preciso envolver tanto o hardwarecomo o software.Então vamos começar pelo lado "hardware" da inteligência humana. Quando você falaem "hardware", está referindo-se ao cérebro humano?Exatamente, refiro-me à memória e à capacidade de processamento do cérebro humano.Tenho diversas análises de pessoas diferentes, inclusive de mim, que mostram que é preciso atingir umacapacidade de cálculo entre 1014e 1016por segundo para recriar funcionalmente a capacidade do cérebrohumano. Assim, para estimular de modo realista todas as áreas do cérebro humano (várias centenas delas),precisaremos contar com essa capacidade em um computador. Isso será atingido no final desta décadacom o supercomputador; e em 2020 tal capacidade estará presente em um equipamento que custará porvolta de US$ 1 mil.A questão seguinte envolve os softwares, pois sem eles não teríamos mais do quecalculadoras de alta velocidade. Temos de entender os princípios do funcionamento da inteligência humanae, para isso, estamos envolvidos em outro projeto grandioso, que é a engenharia reversa do cérebrohumano. A situação é similar a do projeto genoma uma década atrás, o que quer dizer que se vemampliando em rítmo exponencial. Fizemos mais progressos do que as pessoas podem imaginar.Estamos apenas obtendo as ferramentas para realizar a tarefa. Pela primeira vez, os scannersde cérebro apresentam resolução alta o bastante para vermos os sinais individuais das conexõesinterneuroniais em tempo real. Até pouco tempo, tecnologias como a da fMRI [abreviação de functionalmagnetic resonance imaging, ou imagem por ressonância magnética funcional] só conseguiam mostrargrandes grupos de células.Agora, estamos conseguindo dados detalhados e mostrando que podemos transformá-los emreproduções e simulações. Quinze regiões do córtex auditivo foram reproduzidas e simuladas em umcomputador, por exemplo. Há também uma simulação do cerebelo, que é onde se formam nossashabilidades e que abriga mais da metade dos neurônios existentes no cérebro.Assim, o progresso já é maior do que as pessoas comseguem perceber.Então, no longo prazo acontecerão mais coisas do que podemos supor......Sim. As pessoas estão fazendo projeções de modo linear para o futuro. É um erro. Em meulivro, eu abordo a diferença radical entre a tendência exponencial e a linear. Faz parte da intuição humanaachar que o progresso será linear, ou seja, seguirá no ritmo atual. Mas o ritmo do progresso estáacelerando-se e a ampliação das ferramentas em todas as áreas (informática, comunicações, compreensãodo cérebro e da biologia humanos) dobra todo ano. A tecnologia da informação já afeta profundamentediversos aspectos de nossa vida e, se você imaginá-la multiplicada por 1 bilhão nos próximos 25 anos, veráuma transformação imensa.Em 2020 já deverá haver estruturas de software com os princípios de funcionamento de todasas regiões do cérebro. Seremos capazes de aplicar esses padrões aos computadores, e, em 2029, estesserão milhares de vezes mais poderosos do que o cérebro humano.Que tem de tao importante colocar a inteligência humana em uma máquina?
  13. 13. Poderemos combinar as atuais vantagens da inteligência humana, sobretudo nossacapacidade de reconhecimento de padrões, com os aspectos nos quais as máquinas nos superam. Oscomputadores conseguem partilhar seu conhecimento a velocidades eletrônicas, por exemplo.Hoje precisamos de anos para transferir o conhecimento para cada criança. Mas, com osrecursos da inteligência não-biológica, é possível apenas fazer o download dos padrões de um computadorque aprendeu as lições.Além disso, os computadores sempre poderão ampliar-se tanto o hardware como o softwarecontinuarão a evoluir de forma intensa, enquanto a inteligência humana, em si, permanecerá fixa.Mas por que a inteligência humana é fixa? O tamanho do cérebro constitui umalimitação?O cérebro humano é limitado pelo tamanho e, mais importante, pelo paradigma do uso desinais, de gradientes químicos que se deslocam a poucas centenas de centímetros por segundo, o que émilhões de vezes mais lento do que a velocidade eletrônica.O cérebro não consegue reprojetar-se de modo a incorporar um método de informação 1milhão de vezes mais veloz. É claro que no limite faremos exatamente isso - mas por meio da tecnologia, enão da biologia. De acordo com minhas estimativas, temos uma capacidade de cálculo de 1026por segundonos mais de 6,5 bilhões de seres humanos. Daqui a meio século, a parte biológica de nossa inteligênciaainda será de 1026, mas a porção não-biológica será imensamente maior, porque está crescendo a umaproporção de mais de mil por década.Podemos dizer que a parte não-biológica de nossa inteligência excederá em grande medida aporção biológica. Situei a singularidade em 2045, porque nesse momento a [capacidade da] partenão-biológica [do homem] será 1 bilhão de vezes maior do que toda a porção biológica. Trata-se de umamudança profundamente transformadora. De acordo com meu modo de pensar, ainda assim seráinteligência humana. Não gosto do termo "transumano", porque pressupõe ultrapassar o aspecto humano e,em minha opinião, ainda estamos falando da civilização humana. É "transbiológico": meu livro fala sobre asuperação da biologia, e não de nossa humanidade.Importante: não se trata de uma invasão alienígena de máquinas inteligentes. Oscomputadores já são parte muito importante de nossa civilização. Se todos os programas de inteligênciaartificial do mundo fossem interrompidos amanhã, nossa civilização entraria em colapso: não seria possívelretirar dinheiro do banco e todos os sistemas de transporte e de comunicações seriam interrompidos.Seu livro é assustador em certa medida, mas acredito que você fundamenta bem suateoria. A singularidade se parece com alguma coisa que já conhecemos? Trata-se apenas de umgrupo seleto de pessoas?Não se trata de um grupo seleto. Se olharmos o que acontece com a tecnologia hoje, veremosque apenas os mais ricos conseguem bancar as novidades assim que elas surgem, quando nem semprefuncionam bem. Alguns anos depois, tudo funciona um pouco melhor e ainda custa caro, mas já é maisacessível para maior número de pessoas. Com o passar do tempo, a tendência é custar menos e funcionarmelhor.Então, os usuários de primeira hora, singulares, de certo modo são cobaias...Isso mesmo, e em geral em um momento muito experimental. Veja só como os telefonescelulares custam menos hoje. No caso dos países asiáticos, o Banco Mundial estimou que a pobreza nocontinente caiu pela metade e terá uma redução de 90% na próxima década. Em muitos desses países, quehoje constituem prósperas economias baseadas na informação, há 15 anos a maioria da população puxavaarado.Certo, porém essa não parece ser a percepção geral...A percepção geral está errada.Mas certamente essa é uma das barreiras que você vem encontrando em relação a suasteorias, certo? A percepção das pessoas em relação ao que você diz...Em geral, existe uma espécie de percepção anômala em relação às máquinas, mas ao mesmotempo há forte crença no progresso e na capacidade de solução de problemas atribuída à tecnologia. Asduas reações ocorrem simultaneamente. O processo de transformação de uma tecnologia nova e cara emuma commodity de preço baixo e acesso fácil hoje leva dez anos, mas daqui a uma década bastarão cincoanos e, em 20 anos, apenas dois ou três.Isso está relacionado com outra tendência da duplicação do ritmo de mudança dos paradigmasa cada década. Essas tecnologias se transformarão com muita velocidade. Vejamos o caso dosmedicamentos antiaids, uma tecnologia da informação. Há 15 anos, o gasto anual com medicamentos (quenão funcionavam muito bem) era de US$ 30 mil por paciente. O valor hoje é de US$ 100 nos paises pobres,e o tratamento é eficaz.Esta conversa me faz lembrar de uma cena do filme Matrix, na qual Trinity precisa pilotarum helicóptero, mas não sabe fazer isso. Rapidamente, ela "baixa" as informações para pilotar oaparelho. Isso faz parte da singularidade? Trata-se de uma semi-realidade possível para 2050?
  14. 14. Deixando de lado as anomalias, esse filme apresentou, sim, uma série de conceitos que fazemsentido. A idéia básica de uma imersão total na realidade virtual é bastante realista. Você me perguntoucom o que a singularidade pode ser comparada. Para quem participar dela, será algo fantástico, porqueuma das aplicações dos nanorrobôs no cérebro será a imersão completa na realidade virtual dentro dosistema nervoso. Se você quiser entrar em um ambiente virtual, os nanorrobôs "desligarão" os sinais vindosdos sentidos naturais e os substituirão por sinais do ambiente virtual. Para seu cérebro, será como se vocêestivesse no ambiente virtual, no qual você poderá ser um ator.A criação dos ambientes de realidade virtual será uma nova forma de arte: alguns terãoinspiração no mundo que conhecemos, como uma praia do mar Mediterrâneo, mas outros serão purafantasia. As pessoas poderão ter um corpo diferente e não terão de ser quem de fato são.E será possivel recorrer ao botão de "deletar" se as coisas começarem a dar errado,certo?Isso mesmo, o que é uma grande vantagem. Poderemos interromper uma chamada telefônica,que é realidade virtual auditiva. Assim, o sexo virtual é mais seguro - por exemplo, não há riscos dedoenças sexualmente transmissíveis ou de gravidez e, no caso de violência ou de outras dificuldades,pode-se abandonar a experiência. Sempre haverá esses "nichos de segurança".Muito provavelmente passaremos grande parte do tempo nesses ambientes de realidadevirtual. Se contarmos com a nanotecnologia plena e conseguirmos criar as coisas físicas com grandevelocidade, também poderemos trazer parte dessas habilidades de adaptação veloz para a realidade.Eu li que você toma 250 suplementos por dia para "renovar" a química de seu corpo eque conseguiu eliminar o diabetes do tipo 2 de sua bioquímica. É verdade?Bem, essa é outra questão importante, outro aspecto que gostaria de abordar, que é acompreensão da longevidade humana. No ano passado, publiquei o livro Fantastic Voyage: Live LongEnough to Live Forever, escrito em parceria com Terry Grossman. Nele discutimos o impacto dessastecnologias especificamente na saúde e na expectativa de vida das pessoas. Definimos três “pontes"capazes de ampliar radicalmente a vida humana. Já estamos vivenciando a primeira delas, que consiste naaplicação radical de todo o conhecimento atual para bem mais do que as desgastadas recomendações dasaúde pública.Nós, da geração do baby-boom [crianças nascidas após a Segunda Guerra Mundial, quando houve umaexplosão demográfica], temos de nos esforçar muito para estar em boa forma daqui a uns 15 anos, quandodeverá ocorrer a segunda ponte, que é o pleno amadurecimento da revolução da biotecnologia. O grandeparadigma da biologia hoje é a tentativa de remoldar os processos biológicos, como a arteriosclerose, ocâncer ou a resistência à insulina, e reprogramá-los. Temos meios de “desligar" os genes com alterações deRNA. Novos métodos permitem o acréscimo de genes responsáveis por “corrigir” a informação nocromossomo certo. Podemos “ligar” e “desligar” as enzimas.Para dar apenas um exemplo, o medicamento Torcetrapib, da Pfizer, consegue desativar umaenzima necessária em determinado estágio da arteriosclerose. Os testes da segunda fase mostram que omedicamento basicamente contém o processo de deterioração, mas não o reverte, e hoje o laboratório, estáinvestindo uma cifra recorde de US$ 1 bilhão nos testes da terceira fase. E esse é apenas um dos milharesde avanços.O pleno florescimento da revolução da biotecnologia deverá ocorrer em aproximadamente 15anos. Também se trata de um processo exponencial. Quando isso acontecer, contaremos com ferramentasmuito poderosas para deter essas doenças e os processos de envelhecimento - e estaremos apenas nasegunda ponte. Em seguida virá a terceira, que envolve a nanotecnologia e nos permitirá ultrapassar aslimitações da biologia. O grande destaque dessa fase serão os nanorrobôs, aparelhos do tamanho de umacélula sanguínea que poderão circular por nosso corpo e nosso cérebro e auxiliar na manutenção da saúde.Assim, nosso livro fala sobre essas três fases, porém mais da metade da obra está dedicada àprimeira ponte, incluindo um guia prático para a reprogramação de nossa bioquímica nos dias de hoje. Nãodispomos atualmente dos recursos que teremos em 15 anos; no entanto, com a adoção de um programacorreto de suplementos nutricionais, é possível, por exemplo, reduzir drasticamente os níveis de colesterol.Minha taxa de colesterol já chegou a 280, mas há muitos anos não passa de 130. Eu tive diabetes do tipo 2e há 20 anos não tenho mais. Quase todos meus índices estão próximos do ideal hoje; há algumas décadasnão era assim. Como sou engenheiro, eu não me limito a tomar alguns medicamentos e esperar que ascoisas melhorem - só me movimento se puder contar com instrumentos de vôo. Regularmente faço 40 ou 50exames, do tipo daqueles destinados a verificar os níveis do sangue.Entendo, mas, para mim (e imagino que para muitas outras pessoas também), parece umpouco de exagero. Há muito mais gente no planeta fazendo isso?São poucos os que têm esse tipo de postura, mas tivemos diversos depoimentos animados depessoas que conseguiram superar complicações de saúde sérias utilizando as informações presentes nolivro.Não se trata de um programa do tipo “receita única", pois nossa idéia é compreender cadasituação. Em minha opinião, exagero é alguém sofrer um ataque cardíaco, enfrentar um câncer ou qualquer
  15. 15. uma dessas doenças mais graves. Do ponto de vista filosófico, as pessoas podem advogar os aspectospositivos da morte, mas na realidade é uma tragédia terrível.Em toda essa discussão, parece que há uma idéia de viver para sempre. Neste momento,conseguir imaginar uma vida sem morte parece radical demais para nossos cerebros humanospequenos e inferiores, não é?No capítulo 7 do livro, chamado "Ich bin ein Singularitarian", eu apresento a idéia de seguir umafilosofia capaz de incorporar essas mudanças significativas. Não estou tentando introduzir um novo conjuntode dogmas, mas, em minha opinião, um Singularitarian é alguém que já pensou nessas coisas. Não se tratade uma proposta que dura 20 minutos e acaba. Se eu coloco a questão para pessoas que jamais pensaramem algo parecido, é comum que elas passem a enfrentar dilemas e dúvidas. Eu precisei de décadas paradesenvolver o assunto até aqui, pois não é um conceito de fácil digestão.Para mim, trata-se de algo bastante libertador. Embora ainda não disponhamos dessastecnologias, acredito que podemos ter um grau de confiança bastante alto de que isso acontecerá. Essacerteza talvez afete nosso comportamento atual. Podemos aplicar o conhecimento que temos hoje, que já ébastante volumoso, com objetivo de nos mantermos em boa forma quando esses progressos foremrealidade.Nós racionalizamos a morte e a doença como coisas positivas porque não tínhamosalternativa. Diversas religiões, por exemplo, dedicam-se a apresentar a morte como algo positivo. Nãofaltam filmes ou obras escritas sobre "a boa morte" - uma expressão que, em minha opinião, é umacontradição.Mas, na realidade, começamos a morrer já no momento do nascimento, não e isso?Bem, podemos dizer que começamos a crescer no momento do nascimento. Eu acredito queconseguiremos continuar fazendo isso. Não precisamos da morte para dar sentido à vida: o que realmentedá sentido à vida é a expansão do conhecimento humano. Somos a única espécie que consegue transmitirconhecimento de uma geração para outra, e nossa capacidade de compreender e de se beneficiar com oconhecimento tende a continuar a se expandir em ritmo exponencial. Acredito que essas são notícias muitoboas. Não considero como conhecimento apenas as áridas bases de dados, mas também a música, a arte,a ciência, a engenharia, a literatura e a valorização da história, entre outros.Estou pensando no mundo dos negócios, onde sempre se falou muito sobre gestão doconhecimento. As pessoas e as empresas estão preocupadas com a possibilidade de que osprofissionais da geração baby-boom se aposentem e Ievem consigo todas as informações quepossuem. Não vai ser assim então?Estamos acumulando cada vez mais nosso conhecimento não-biológico e, ao mesmo tempo,adquirimos ferramentas cada vez mais poderosas para ter acesso a esse conhecimento. As pessoasperguntam como nos acostumaremos a todas essas mudanças, e respondo que basta ver a rapidezcom que as mudanças no mundo foram absorvidas. Com certeza, na Tom Peters Company!, vocês estãoatentos a isso. Há apenas três anos, ninguém achava viável ganhar dinheiro com propaganda na internet,por exemplo. E, hoje, existem empresas com capital de bilhões de dólares que garantem a maior parte deseu faturamento vendendo espaço de publicidade na internet.A primeira referência à web, feita pelo hornal The New York Times, aconteceu em 1993. Comose pode ver, as novidades são absorvidas com grande rapidez e não acredito que haverá hesitação paraaceitar a cura das doenças. Se alguém colocar no mercado um produto capaz de retardar oenvelhecimento, terá absorção muito rápida. O envelhecimento não é uma coisa boa, pois envolve perda denossas faculdades.Sim, e certo que toda a geração do baby-boom está esforcando-se para desafiar oenvelhecimento, embora neste momento a questão pareça estar mais voltada para o aspectoexterno, como a cirurgia plástica. Talvez esse seja o começo...Vamos encontrar maneiras melhores de resolver tudo isso.Você chegou a dizer que a maioria das invenções fracassa porque o timing não estácorreto. Mas você tem alguma idéia de timing em relação a seu corpo? Gostaria de ter nascido umpouco depois? Quero dizer, você estabeleceu o ano 2045 como data com base em seu caso?Considero o ano 2045 como um ponto de transformações muito profundas. Mas, com oamadurecimento da revolução da biotecnologia, conseguiremos solucionar os problemas da biologiadentro.de 15 anos. Neste exato momento hä muita coisa interessante sendo preparada e a cada ano vemosmais e mais coisas acontecerem.
  16. 16. Pelo fato de me preocupar com o assunto e tê-lo estudado um pouco, e depois de ter escritodois livros sobre essas questões, estou confiante de que me encontro fora da curva. Tenho feito detalhadosexames de envelhecimento biológico.Existe certa controvérsia quanto a essas avaliações, mas eu acho que elas nos fornecemalgumas informações razoáveis: determinam o nível bioquímico e identificam outros indicadores, como asensibilidade tátil, a memória e o tempo de reação, e depois os comparam com os padrões da populaçãoem idades diferentes. Quando eu tinha 40 anos, de acordo com esses testes, contabva com uma idade de38. Hoje estou com 57 e os testes atribuem a mim uma idade biológica de aproximadamente 40 anos.Então quer dizer que você não envelheceu nos últimos 17 anos?Bem, de acordo com esses testes, eu envelheci só dois anos. Minha intenção é voltar aos 38antes de atingir a idade cronológica de 60 anos. Acredito realmente que estou envelhecendo bem devagar.A prática de exercicios faz parte desse processo?Sem dúvida, isso é muito importante. Nós combinamos uma série de idéias diferentes. O quenosso programa tem de peculiar é a suplementação agressiva, com o objetivo de realmente reprogramar abioquímica das pessoas.Por um lado, é muito bom priorizar o que é natural, e certamente existem diversoscomponentes artificiais em nossa alimentação que não nos fazem bem. Mas, por outro, não basta apostarapenas no que é natural. Nossos genes evoluíram quando não havia a preocupação para a espéciehumana em viver muito mais do que a idade que tenho hoje. No passado, as crianças contavam apenascom os recursos da tribo, e as calorias eram escassas. Há 10 mil anos, a expectativa de vida era de 20 epoucos anos e, em 1800, não passava de 37. Precisamos ir além da biologia para conseguir colocar nossabioquímica em um estado mais produtivo.É isso que estou fazendo. Não posso dar 100% de garantia de sucesso, pois sempre podemacontecer acidentes e por isso tomo muito cuidado quando dirijo.E o que você me diz sobre a possibilidade de uma imensa descontinuidade?Bem, eu me preocupo com os riscos existenciais dos aspectos negativos dessas tecnologias.O capítulo 8 do livro trata da promessa e dos perigos da genética, nanotecnologia e robótica. Tem havidomuita discussão sobre os perigos da bioengenharia e da nanotecnologia de auto-replicação. Abordei essesassuntos em 1999, no livro The Age of Spiritual Machines, e a revista Wired fez uma matéria de capa emreação ao livro, intitulada "Por que o futuro não precisa de nós". Também escrevi recentemente um artigopara o New York Times criticando a publicação do genoma da gripe 1918, porque seria mais fácil recriar aenfermidade do que construir uma bomba atômica: a tarefa não exige materiais raros como o plutônio.Seria uma interpretação utópica demais achar que tudo transcorrerá sem sobressaltos.Até hoje nada foi assim, certo?Exatamente. Mas também vale lembrar que essas grandes rupturas não impediram osavanços tecnológicos. Cinquenta milhões de pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial, porém ocrescimento exponencial da relação preço-lucro (PL) das empresas transcorreu tranqüilamente no decorrerde todo o século, enfrentando altos e baixos, mais ou menos possibilidades, depressões e booms, períodosde guerra e de paz.Tendo a pensar que somos uma espécie bélica. Com a singularidade, isso poderá mudarou o que mudará serão os motivos dos conflitos?Não afirmo que conseguiremos ficar livres de todos os conflitos. Acredito que teremos maisconhecimento de nós mesmos e seremos capazes de identificar algumas fontes de disfunções humanas,mas não creio que isso nos livre de todas as disputas.Eu realmente acredito que os conflitos humanos estejam diminuindo. Podemos não ter essaimpressão porque hoje percebemos os conflitos com mais sensibilidade. Na Segunda Guerra Mundial, 20mil pessoas podiam morrer em uma batalha e talvez duas semanas depois alguma imagem pouco definidado episódio chegasse a algum cinema. Hoje temos imagens em tempo real de tudo que acontece. Existemestudos que mostram que as guerras estão diminuindo, e acho que isso ocorre porque toda essacomunicação eletrônica descentralizada contribui bastante para a democracia.Quando abordei o assunto no livro The Age of Intelligent Machines, previ o colapso da União Soviéticaporque as autoridades não seriam capazes de controlar a informação. Na realidade, o golpe contraGorbachev em 1991 fracassou graças a essa rede clandestina de aparelhos de fax e e-mails em
  17. 17. contraposição às máquinas de telex. Controlar as estações de rádio e a TV centralizada não bastava maispara manter as pessoas alheias ao que ocorria. E essa rede de comunicação cresceu imensamente com ainternet e os blogs. Hoje existem milhões de blogs, até mesmo na China.Participei recentemente de uma conferência na qual Rebecca McKinnon, estudiosa daHarvard Uníversity, ressaltou que todos os mecanismos de busca de internet chineses operam comcensura prévia. Se alguem estiver na China e procurar por "Praça da Paz Celestial", não obteránenhum resultado...É verdade, mas é uma censura marginal.De certa maneira, a especialista vê o fenômeno se espalhar porque atualmente empresasnorte-americanas estão desenvolvendo programas para o mercado chinês e incluindo osmecanismos de censura neles. Ou seja, de certa maneira, a prática está tornando-se parte docódigo-base...Mas isso não equivale a interromper o fluxo de comunicação.Não sei se é bem assim...Existe certa informação “delicada", que as pessoas compreendem que não podem divulgar,mas o que isso representa? É 1% do que é dito? Isso não basta para alterar o fluxo da democratização,esse enorme poder da comunicação descentralizada. Eles não estão detendo os avanços da internei, masapenas impondo censura a algumas questões.E você não considera isso grave?Com certeza eu não apóio isso, mas não vejo como um fator capaz de frear realmente anatureza dessa tendência.E isso basta...Outro assunto que as pessoas debatem é o das células-tronco. A oposição do governo [dosEUA] tem conseguido interromper o processo da biotecnologia? Não! Acho que é bastante parecido. Hápedras no rio, mas elas não impedem a passagem da água. Até na restrita área da biotecnologia chamadade "transdiferenciação", que é a essência da questão das células-tronco, tem havido um progresso imenso.Sou favorável às pesquisas e contrário às proibições, mas, deixando de lado os aspectos éticos e políticosnão queremos usar as células-tronco embriônicas de qualquer maneira, porque existem poucas delas e oDNA não combina com o receptor. Eu quero que se criem células pluripotentes a partir das células de minhapele, processo que foi demonstrado recentemente. A questão é que a oposição às pesquisas sobre célulastronco não está obstruindo os progressos na biotecnologia.Muito obrigado, Ray. Gostei da conversa que tivemos. Sempre quis conversar com vocêsobre um de seus livros!Eu também gostei da entrevista, foi divertida!

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