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Intencionalidade e significação do discurso literario em "A Hora

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Este texto propõe uma possível interpretação de A Hora da Estrela, considerando
a conversa que Clarice Lispector estabeleceu com o escritor Jorge Amado. Esta conversa está
na reunião de diálogos organizada por Claire Williams em uma obra intitulada “Entrevistas”.
Para a elaboração deste livro, o autor baseou-se em entrevistas publicadas por Clarice na
revista Manchete, entre maio de 1968 a outubro de 1969, na seção “Diálogos possíveis com
Clarice Lispector.

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Intencionalidade e significação do discurso literario em "A Hora

  1. 1. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEF INTENCIONALIDADE E SIGNIFICAÇÃO DO DISCURSO LITERÁRIO EM “AHORA DA ESTRELA” X OUTROS DISCURSOS EM “ENTREVISTA” DE CLARICE LISPECTOR1 Ellen dos Santos Oliveira(FSLF)2 Profa. Dra. Vilma Mota Quintela3 Este texto propõe uma possível interpretação de A Hora da Estrela, considerandoa conversa que Clarice Lispector estabeleceu com o escritor Jorge Amado. Esta conversa estána reunião de diálogos organizada por Claire Williams em uma obra intitulada “Entrevistas”.Para a elaboração deste livro, o autor baseou-se em entrevistas publicadas por Clarice narevista Manchete, entre maio de 1968 a outubro de 1969, na seção “Diálogos possíveis comClarice Lispector. Cabe aqui, levantar possíveis interpretativos sobre: intenção de Clarice Lispectorem escrever “A Hora da Estrela”, provavelmente nove anos depois dessa conversa com Jorge;a intenção da autora em criar o narrador-escritor carioca Rodrigo S.M. para contar a históriada nordestina; o significado da obra. Tendo em vista que tudo isto compõe sua essência, econstitui o indispensável, o necessário e o fundamental do texto literário. O crítico e sociólogo Antonio Candido, em sua obra Noções de análise histórico-literária, enfatiza que o texto literário apresenta dois aspectos básicos, que são: o acessório eo essencial. “O primeiro é a sua realidade material (aspecto, papel, caligrafia, tipo, estado dotexto, etc.), mais a sua história (por quem , como, onde, quando, em que condições foiescrito)”, constituindo “o corpo da obra literária e a história desse corpo”. O segundo aspecto“é a sua realidade íntima e finalidade verdadeira: natureza, significado, alcance artístico ehumano. É, de certo modo, a sua alma” (CANDIDO, 2005, p. 13). Com base nessa explicaçãofeita por Candido, este trabalho tratará do aspecto básico essencial da obra “A Hora da1 Esse trabalho é construído a partir de estudos e diálogos durante o projeto de extensão “Ciclo LiteraturaComentada”.2 É monitora de Teoria Literária do curso de Letras na Faculdade São Luís de França (FSLF). E-mail paracorrespondência: ellenletrinhas@hotmail.com3 É professora das disciplinas Teoria Literária I e II, e orientadora de TCC na FSLF. É graduada em LetrasVernáculas pela UFS. Mestre em Linguística pela UNICAMP, e Doutora em Teoria e Crítica Literária pelaUFBA. E-mail para correspondência: 1
  2. 2. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEFEstrela”, a sua alma. Pois captar a essência desta obra é essencial para o que é proposto nessainterpretação de intenção e de significado. O livro Entrevista, organizado por Claire Williams, reúne um conjunto deconversas entre Clarice Lispector e grandes personalidades brasileiras de seu tempo. Totalizaquarenta e dois amigos entrevistados, desses: dezesseis são da área de Literatura: LygiaFagundes Teles, Rubem Braga, Jorge Amado, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino, ÉricoVerissimo, Nélida Piñon, Ferreira Gullar, Millôr Fernandes, Hélio Pellegrino, AntônioCallado, Pablo Neruda, Marly de Oliveira, José Carlos Oliveira, Pedro Bloch e AlceuAmoroso Lima; seis são músicos: Chico Buarque, Vinicius de Morais, Tom Jobim, ElisRegina, Isaac Karabtchevsky e Jacques Klein; seis são da área das Artes Cênicas: PauloAutran, Bibi Ferreira, Tônia Carrero, Tarcísio Meira, Jardel Filho e Jece Valadão;onze são daárea das Artes Plásticas: Oscar Niemeyer, Carlos Sciliar, Maria Bonomi, FaygaOstrower,Augusto Rodrigues, Maria Martins, Mário Cravo, Djanira, Bruno Giorgi, Iberê Camargo eCarybé; e três são da área dos Esportes: Zagallo, João Saldanha e Emerson Fittpaldi. Tais entrevistas, além de dar uma ideia do Panorama Cultural do Brasil em queClarice vivia e escrevia, elas também nos revelam muito sobre a entrevistadora, pois esta sedeixa entrever nas perguntas e comentários. Sobre o gênero entrevista Cremilda Medina, emseu livro Entrevista, o diálogo possível, traz a seguinte abordagem: A entrevista pode ser apenas uma eficaz técnica para obter respostas prepautadas por um questionário. Mas certamente não será um braço da comunicação humana, se encarada como simples técnica. Esta – fria nas relações entrevistado entrevistador – não atinge os limites possíveis da inter-relação, ou, em outras palavras, do diálogo. Se quisermos aplacar a consciência profissional do jornalista, discute-se a técnica da entrevista; se quisermos trabalhar pela comunicação humana, proponha-se o diálogo. (MEDINA, 1995, p. 5) Para Clarice as entrevistas não eram encaradas como uma simples técnica, edevem ser observadas como diálogos entre a entrevistadora e seus entrevistados, no sentidoem que a entrevista, além de ser uma especificidade de texto de cunho jornalístico é umamodalidade do gênero discursivo que possui um objetivo e uma intencionalidade, e éconstituído por um discurso interativo. Para a análise em questão, chamou atenção um comentário, feito por Clarice, àuma resposta dada pelo Escritor Jorge Amado, enquanto este estava sendo entrevistado porela. Nesse comentário ela deixa compreender que Rio de Janeiro contribui muito para osurgimento do escritor, pois deixa este diante das adversidades da grande metrópole. Clarice 2
  3. 3. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEFLispector conta que a entrevista aconteceu no sítio Tapeceiro Genaro de Carvalho, a uns vintequilômetros de Salvador, o escritor estava a dois meses nesse sítio em companhia da esposa.Clarice relata que foi recebida pelo casal com um refresco de mangaba. As entrevistas ouconversas assumiu um caráter informal, pois não possuíam a objetividade de reportagem,podendo a qualquer momento tornar-se uma conversa íntima. A data provável em que Clariceentrevistou Jorge foi em 1968. Para uma compreensão mais acurada do contexto do ato do discurso estabelecidonesta entrevista, segue abaixo a transcrição de uma das perguntas feitas por Clarice, daresposta dada por Jorge Amado a essa pergunta, e do comentário feito por ela neste contexto,sendo este um dos pontos de discursão e de análise. Segue abaixo a transcrição: - Qual ou quais são as cidades onde a atmosfera conduz um artista a criar mais e melhor? - Penso que existem duas cidades feitas à medida do homem, cidades que não são, ainda e somente, campos de trabalho: Salvador da Bahia de Todo os Santos e Paris. - Aqui, em Salvador, eu realmente senti que poderia escrever mais e melhor. Mas o Rio de Janeiro, com o seu ar poluído, não é nada mau, Jorge. Coloca-nos frente a frente com condições adversas e também dessa luta nasce o escritor. É verdade que muitos escritores que moram no Rio são saudosistas de seus estados e têm nostalgia da província ( LISPECTOR, 2007, p.26). Parece que nessa conversa com Jorge Amado Clarice demonstrava já asinquietações que a inspira ou a obriga a compor a sua última obra, “A Hora da Estrela”,publicada em 1977, conta a história da nordestina Macabéa que, com a morte de sua tia, migrapara o Rio de Janeiro, o inacreditável Rio de Janeiro. Como afirma Clarice, “esta história acontece em estado de emergência e decalamidade pública” (Idem, 1998, p.10). Nesta obra, a autora vai retratar as condiçõesadversas em que nasce seu escritor Rodrigo S.M. que se questiona frequentemente, durante anarrativa, sobre sua escrita, e é durante esse processo de criação literária que ele depara-secom uma luta entre o interior, e sua própria condição humana, e o exterior, que a condição(des)humana de Macabéa, então Clarice irá se inventar toda, em Rodrigo S.M., para contar oudenunciar a existência ou inexistência dessa nordestina. Para a autora, este livro é uma obrainacabada, pois, faltam respostas (Idem, p.10). Clarice Lispector afirma na “Dedicatória do autor” que A Hora da Estrela “Trata-se de um livro inacabado porque lhe falta a resposta”, pode-se dizer então que é uma obrainterrogativa, que impõe ao leitor uma busca por respostas. 3
  4. 4. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEFINTECIONALIDADE E SIGNIFICAÇÃO: UMA DENÚNCIA Patrick Charaudeau, em sua obra Linguagem e discurso, afirma que interpretar écriar hipóteses sobre o saber do sujeito enunciador, sobre seus pontos de vista em relação aosseus enunciados, e também seus pontos de vista em relação ao sujeito destinatário. Para oautor toda interpretação é uma suposição de intenção (CHARAUDEAU, 2009, p.31). É nessaperspectiva que esse trabalho se delineia, pois esboçará possíveis suposições a fim de trazer àluz a possível intenção profunda da escrita de Clarice Lispector, como escritora, eespecificamente em A Hora da Estrela. Tanto a obra literária “A Hora da Estrela” como a “Entrevista”, constituem fontesdocumentais históricas sociais, no sentido em que são analisadas como fontes documentaisque constatam e explicam, implicitamente, e através de história fictícia baseada na realidade,a intenção e o significado do processo de criação literária por escritores cariocas, ou poraqueles exilados na cidade do Rio de Janeiro no século XX. Isso permite uma possívelinterpretação sobre o contexto social da cidade Carioca, pois esta é o espaço coletivo dasociedade em que Clarice viveu, e também o espaço e ambiente social de sua obra A Hora daEstrela, e como esta contribui para o surgimento de um escritor e para o processo de criaçãoliterária. Neste caso, o texto literário assumi um caráter documental. A esse respeito, JérômeRoger, em A crítica Literária, explica que a obra literária como um documento “não pretendeter como finalidade compreender a individualidade artística, mas, sim, extrair da obra averdade social” (ROGER, 2002, p.36). É fato que a significação de uma obra literária está relacionada à abordagemtemática em que esta se delineia. Nesse sentido, A Hora da Estrela deve ser analisada, aqui,pelo seu viés temático. Neste contexto, Mikhail Bakhtin, em Marxismo e filosofia dalinguagem, afirma que o “tema é um sistema de signos dinâmico e complexo, que procuraadaptar-se adequadamente às condições de um dado momento da evolução”, ou seja, é emtorno dessa temática, que é a marginalização da nordestina na cidade do Rio de Janeiro, quedesencadear-se-á um sucessão de acontecimentos que compõe a trajetória dessa nordestina nanarrativa de Rodrigo S.M. É nesse tema que reside o significado de A Hora da Estrela, poiscomo afirma Bakhtin “O tema é uma reação da consciência em devir ao ser em devir”. Ouseja, a “significação é um aparato técnico para a realização do tema” (BAKHTIN, 2006,p.132). 4
  5. 5. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEF Para Bakhtin a maneira mais correta de formular a inter-relação do tema edasignificação é a seguinte: o tema constitui o estágio superiorreal da capacidade lingüística de significar. De fato, apenas otema significa de maneira determinada. A significação é o estágioinferior da capacidade de significar. A significação não quer dizernada em si mesma, ela é apenas um potencial, uma possibilidade de significar no interior de um tema concreto. A investigação da significação de um ou outro elemento lingüístico pode, segundo adefinição que demos, orientar-se para duas direções: para o estágio superior, o tema; nesse caso, tratar-se-ia da investigação da significação contextual de uma dada palavra nas condições de uma enunciação concreta. Ou então ela pode tender para o estágio inferior,o da significação: nesse caso, será a investigação da significação da palavra no sistema da língua, ou em outros termos a investigação da palavra dicionarizada. ( id.ibid., p.134) Para absorver a significação de A Hora da Estrela, é preciso direcionar a buscapor seu significado para um estágio superior, pois trata-se de uma investigação da significaçãocontextual, em que será analisadas as palavras nas condições de sua enunciação concreta. Poroutro lado, a significação pertence a um elemento ou conjunto de elementos na sua relaçãocom o todo. Pode-se dizer ainda que a significação da obra está na relação e na forma comoesta está relacionada, ou seja, no contexto em que Rodrigo S.M. narra a história de Macabéa,que estando no Rio de Janeiro seria, ilusoriamente, o sossego para a sua tia, como pensarammuitos que deixam suas cidades interioranas. Porém a verdade é que o Rio de Janeirotransforma-se no cenário final e trágico da inexistência de Macabéa. É possível imaginar (erroneamente) que Macabéa tivesse alcançado o paraíso aque muitos nordestinos sonhavam. Sonho este, de morar em uma cidade do sudeste do Brasil,na capital do Rio de Janeiro, conhecida por muitos como “A Cidade Maravilhosa”, queconstitui na verdade o espaço urbano de ciclo de fugas intermináveis de nordestinos como ospersonagens de Vidas Secas, por exemplo (SOARES, 2009). Segundo o pesquisador Norte-Americano Benjamim Moser em sua obrabiográfica Clarice, Macabéa “é uma moça pobre de Alagoas, o estado em que os Lispector seestabeleceram ao chegar ao Brasil, e que migrou, como os Lispector e tantos milhões deoutros para a Metrópole do Rio de Janeiro” ( MOSER, p.633). O autor, ainda lembra que “oRio de Janeiro havia se tornado o destino mais chique do planeta”( id.ibid., p.151). Noromance, Rodrigo S.M. desabafa: “tenho então que falar simples para captar a sua delicada evaga existência. Limito-me a humildemente [...] a contar as fracas aventuras de uma moçanuma cidade toda feita contra ela. Ela deveria ter ficado no sertão de Alagoas[...]”(LISPECTOR, 1998, p.15) 5
  6. 6. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEF O Rio é, para Macabéa,o cenário para sua morte, o signo esfíngico das arribaçõesde todas as dívidas, pagas com fome, emboscada, desespero, dor, indiferença, tédio,hipocrisia, sonho de cadafalsos, com o seu, enfim, atropelamento, trágico fim, porém, nãomais trágico que a sua inexistência (SOARES, 2009). Herbert Viana, em sua músicaAlagados, gravada pelos Paralamas do Sucesso em 1986, faz uma irônica crítica social àcidade do Rio de Janeiro, neste trecho da música é expressa, melodicamente, uma denúncia decomo Rio de Janeiro tornava-se o mal na realidade de muitos nordestinos ali exilados: [...] E a cidade que tem braços abertos Num cartão postal Com os punhos fechados da vida real Lhes nega oportunidades Mostra a face dura do mal [...] Nessa música Hebert Viana, expõe a irônia de uma cidade que aparentemente temos braços abertos para aqueles que buscam encontrar sentido para sua existência, como porexemplo o escritor Rodrigo S.M., ou para tantos nordestinos que nela ingressam buscandooportunidades, como Olímpico de Jesus que queria ser político, ou até mesmo para Macabéaque só sabia mesmo existir, ou melhor dizendo, estar no mundo, embora não soubesse omotivo de estar nele. A intencionalidade em A Hora da Estrela está na retratação da verdade social dacidade do Rio de Janeiro, e como, ou em que, a cidade contribui para o nascimento doescritor, como Clarice comenta em “Entrevista”. O que se pode captar da obra, é que aintenção de Clarice ao inventar o narrador-escritor Rodrigo S.M., é usar a liberdade artística,que o escritor, enquanto artista das Letras, tem, e denunciar tudo que estava ‘invisível’ paramuitos alienados, mas visível para ela, como também para Rodrigo S.M. durante todo otempo que passou no Rio de Janeiro. A história de Macabéa pode ser comparada à estrutura de um átomo, que comonas palavras de Clarice, em Dedicatória do Autor, “a estrutura do átomo não é vista, mas,sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também. Não se pode dar uma prova daexistência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando”( LISPECTOR,1998, p.10) Tal passagem, faz refletir, aqui, sobre a intenção de Clarice, como escritora, emrevelar, muita ‘coisa’ que não é vista, ou talvez até vista, mas ignorada. A autora estabeleceuma forma expressiva ou significativa para sua escrita, sentindo-se obrigada a tornar visível 6
  7. 7. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEFtudo o que estava oculto e invisível na sociedade. Macabéa, como muitos nordestinos quechegam às grandes metrópoles, era ‘invisível’, e isso se confirma na própria narrativa, quandoé afirmado: “Ninguém olhava pra ela na rua, ela era o café frio” ( id.ibid., p.27). Sabe-se que,frequentemente, o café é associado a uma substância que é usada muitas vezes para combatero sono, porém, frio ele não serve mais, fica claro que Macabéa, em sua invisibilidade, nãotirava o sono de ninguém, pois a moça ao ser tratada metaforicamente, como sendo o caféfrio, é posta como um ser desprovido de sua condição de natural de humano, sendo assim,desprovida de direitos humanos, o que deixa entender que ela não existia, embora existisse, eisso é motivo de denúncia para Rodrigo, pois até os animais e as plantas têm seus direitos. Em Entrevista, Clarice não só diz que: “ o Rio de Janeiro, com o seu ar poluído,[...] Coloca-nos frente a frente com condições adversas e também dessa luta nasce o escrito”( LISPECTOR, 2007, p.26) como também, faz nascer, em A Hora da Estrela, o escritorcarioca, intelectual e burguês, para extravasar toda a experiência vivenciada pela escritora,durante sua passagem pelo Rio de Janeiro. É dessa luta, desse convívio com social, e da experiência desses conflitosexistências que nasce o escritor. E o Rio de Janeiro, com seu ar poluído e com todas suasadversidades é um espaço favorável para esse nascimento. A Hora da Estrela é o cenáriodessas grandes lutas e contrastes. Nela, é nítido o contraste cultural em que, de um lado,figura a cultura da elite representada pela rádio Cultura, que contrapõe-se à cultura de massaque tem, como ícone pop Marilyn Monroe, e a coca-cola, como produto que lideracomercialmente o período marcado por grandes avanços industriais e muita desigualdadesocial e cultural. Rodrigo S.M., não é apenas narrador, é o escritor que vivencia essa luta a qualClarice se referiu, como ele afirma: “Tudo isso acontece no ano este que passa e só acabareiesta história difícil quando eu ficar exausto da luta, não sou um desertor” ( id.ibid.,p.32). Sóque Rodrigo S.M. não aceita apenas saber dessa existência ou inexistência da nordestina, elerecusa-se a ser cúmplice e sente-se obrigado a escrever, e dar vida ou tornar visível a históriade Macabéa, pois sua intenção, como escritor, não é apenas inventar arte, mas, sim, denunciaro que estar escondido: “O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação contarsobre essa moça entre milhares delas. É dever meu, nem que seja de pouca arte, o de revelar-lhe a vida” ( id.ibid., p.13) Jean-Paul Sartre em sua obra, Qu’est-ce que lalittérature?, enfatiza que “A funçãodo escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e ninguém possa se dizerinocente”(SARTRE, 1985, p.31). Ou seja o escritor ele não deve ser alienado ou afastado das 7
  8. 8. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEFmazelas sociais que afetam a sociedade, pois, como afirma Sartre, “Um dos principaismotivos da criação artística é certamente a necessidade de nos sentirmos essenciais emrelação ao mundo (id.ibid., p.34). E para Rodrigo S.M. escrever é necessidade fundamental,uma forma de não reprimir-se diante das condições adversas que este trava, em A Hora daEstrela, Rodrigo diz: “preciso falar dessa nordestina senão eu sufoco”( id.ibid., p.17). O professor Carlos Magno Gomes, em seu artigo Um Fantasma ronda A Hora daEstrela, publicado no livro Sombras do Mal na Literatura, afirma que há um mal queatormenta Rodrigo e esse mal “pode ser visto como um mal maior, um problema coletivo” earticula “a concepção de culpa como parte integrante da narrativa”(MAGNO, 2011, 265).Magno afirma ainda que: Rodrigo escreve para se livrar do mal e expurgar sua culpa. Assim, o ato estético da construção de uma personagem que só fala por meio de um discurso esvaziado da indústria cultural, projeta problema coletivo. Um mal que está além da boa vontade do escritor de problematizar sua contemporaneidade.( id.ibid., p.266) O que só confirma que a intenção de Clarice era denunciar os problemas sociaistão visíveis para ela, e invisíveis para tantos sujeitos alienados de sua época. A criação deRodrigo S.M. demonstra como esta vê o ato de criação literária como uma espécie dedenúncia na representação desses problemas vivenciadas pelo escritor, possuidor deautonomia e dotado de poder intelectual. Magno baseado em Foucault diz que essa forma estética de representação dosproblemas sociais faz parte de um artista preocupado com sua sociedade, todavia, conscientedos limites de seu lugar de fala. Como um intelectual, Lispector se preocupa em não exagerarao dar a voz para a sua personagem, talvez, por isso, construa um outro tão esvaziado dediscurso, como Macabéa por exemplo. Assim, pode-se dizer que Rodrigo S.M., como aprópria Clarice, luta contra as formas de poder onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e oinstrumento: na ordem do saber, da verdade, da consciência, e do discurso (FOUCAULTapud. MAGNO, p. 270). Supõe-se que a intenção de Clarice ao criar Rodrigo S.M. para narrar a trajetóriade Macabéa, é fazer com que sua escrita signifique uma denúncia das problemáticas sociais deseu tempo. E sirva, também, para torna-las visíveis.CONSIDERAÇÕES FINAIS 8
  9. 9. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEF Tanto em sua obra “A Hora da Estrela” como no fragmento analisado da“Entrevista” a intenção de Clarice Lispector era revelar tudo que estava invisível e eraignorado pela sociedade alienada em que vivia Rodrigo S.M. e tantos outros escritorescariocas, assim como a própria Clarice Lispector, porém estes não aceitam tal alienação. A Hora da Estrela é uma obra interrogativa, pois faltam respostas. Pode-seconcluir então que tanto em Entrevista como em A Hora da Estrela, Clarice estabeleceupossíveis diálogos, só que na primeira, o diálogo é entre Clarice e os entrevistados, já nasegunda a autora irá dialogar com o leitor, impondo a esses o comportamento ativo para queesse, talvez, possa dar as respostas que Clarice sempre buscou enquanto uma escritora nãoalienada da realidade social que a cerca. Pode-se finalizar dizendo que esta realidadeproblemática em que ela vivia era o motivo de sua escrita, era também o significado daexistência de Rodrigo S.M. e também o significado se sua própria existência. E finalmenteconcluir que a intenção da autora era tornar visíveis as mazelas sociais de uma sociedadealienada e cega para aqueles que se encontravam marginalizados e invisíveis. REFERÊNCIASBAKHTIN, Mikhail. 2006 . Marxismo e filosofia da linguagem. 12.ed. UCITEC:CANDIDO, Antonio. 2005. Noções de análise histórico-literária. São Paulo: AssociaçãoEditorial Humanitas.GOMES, Carlos Magno. 2011. Um Fantasma ronda A Hora da Estrela. In. SANTOS, JosalbaFabiana dos et al. Sombras do Mal na Literatura. Maceió: EDUFAL.CHARADEAU, Patrkic. 2009. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo:Contexto.LISPECTOR, Clarice. 2007. Clarice Lispector Entrevistas. Claire Williams (org.). Rio deJaneiro: Rocco._______. 1998. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Rocco.MEDINA, Cremilda de Araújo. 1995. Entrevista, o diálogo possível. São Paulo: Ática.MOSER, Benjamin. Clarice, 2009.Trad.José Geraldo Couto. São Paulo: Cosac Naify.ROGER, Jérôme. 2002. A crítica Literária. Trad. Rejane Janowitzer. Rio de Janeiro: DIFEL.SARTRE, Jean-Paul. 1985. Qu’est-ce que lalittérature?Paris,Gallimard,1948, col. “Folio”. REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS 9
  10. 10. ANAIS – Filologia, Crítica e Processo de Criação I Congresso Internacional de Estudos Filológicos – CIEF VI Seminário de Estudos Filológicos – SEFSOARES, Luís Eustáquio. 2009.A hora da estrela, de Clarice Lispector: Macabéa, DomQuixote da fome. Espéculo. Revista de estúdios literarios. UniversidadComplutense deMadrid. Disponível em: <http://www.ucm.es/info/especulo/numero42/macabea.html> Últimoacesso em: 17/01/2012. REFERÊNCIAS DE CDVIANA, Herbert. 1986. Alagados In. Selvagem? Rio de Janeiro: EMI Records. 1 música(5:00min) 10

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