A crítica de gonzaga duque e a reprodução do real nas artes plásticas

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Luiz Gonzaga Duque Estrada, ou simplesmente Gonzaga-Duque, foi um destacado crítico de arte brasileiro que alcançou a condição de importante referência nos estudos sobre arte brasileira do final do século XIX e começo do XX.

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A crítica de gonzaga duque e a reprodução do real nas artes plásticas

  1. 1. A crítica de Gonzaga-Duque e a reprodução do real nas artes plásticasElizeu do Nascimento Silva Considerada em conjunto, a produção artística é uma expressão cultural de épocas elugares determinados, refletindo não apenas a estética predominante na sociedade onde vemà luz, como também sua ética e seus valores, seu modo de pensar e de se relacionar com omeio. Vista desta perspectiva, a apreensão de seus significados deveria constituir-se numprocesso natural para a sociedade contemporânea e conterrânea do artista, favorecida pelaproximidade na visão de mundo, nos valores e nas formas de relações com o meio. Alémdisso, quanto mais se torna abstrata, mais a arte se universaliza – o que, em tese, a tornariatambém mais decifrável. Sabe-se, contudo, que não é assim. Espíritos livres, os artistas atuam na esfera dodevir, sem compromisso com o cognoscível imediato. É uma visão particular que sepretende universal, exigindo a participação de todos os atores do jogo da arte1 relatado porCAUQUELIN (2005:98), jogo este no qual as imagens (tropos) apenas sugerem seussignificados e a organização da obra não se sujeita a uma sintaxe rígida e universal. Paraalém dos aspectos lúdicos, o jogo da arte avança para o campo filosófico em busca dasrelações entre o sujeito e o objeto artístico, cuja totalidade é condição indispensável para aexistência da obra. A obra como ‘jogo’ só brota com a condição de participação ativa, de interpenetração, de um diálogo no qual o que advém enquanto se dialoga é a verdade do diálogo, o fato de ele ocorrer e que, ocorrendo, consegue representar seu próprio ser de diálogo; o que se tem em vista não é a verdade que resultaria de uma argumentação, nem a verdade no sentido de uma correspondência entre real e ficção, nem a verdade ‘científica’, mas um ‘jogo como verdade’, um jogo que só é verdade quando está sendo jogado. (2005:99) Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (IA-UNESP), professoruniversitário na Universidade de Mogi das Cruzes, jornalista e editor.1 Constituição hermenêutica de sentido da arte baseada na experiência estética “desenvolvida na confrontaçãopermanente de si e do outro” CAUQUELIN (2005:98).
  2. 2. Cabe à crítica participar do jogo refletindo sobre a arte e seus processos, bem comosobre as conexões com a história e com o pensamento filosófico. Desta forma, a críticarealiza a mediação tanto ilustrando os meandros da arte às vezes impenetráveis para o leigo,como contextualizando-a num sistema filosófico e cultural mais amplo. Por outro lado,desafia o artista a trilhar caminhos inexplorados e a experimentar processos inovadores,desempenhando o seu papel numa atuação de mão dupla. Luiz Gonzaga Duque Estrada, ou simplesmente Gonzaga-Duque, foi um destacadocrítico de arte brasileiro que alcançou a condição de importante referência nos estudossobre arte brasileira do final do século XIX e começo do XX. Nascido em 1863, viveu até1911, quando faleceu vítima de enfarte fulminante. Filho de uma brasileira com um suíço, aquem não conheceu, Gonzaga-Duque não frequentou cursos universitários. Adquiriurespeito exercendo o jornalismo cultural, publicando críticas e crônicas em veículos comoO Paiz, A Semana, Diário de Notícias, Folha Popular, Kósmos e Fonfon, entre outros. Asinformações são apresentadas pela pesquisadora Cristina Pierre de França, no artigo“Gonzaga Duque: Crônicas dos salões na Revista Kósmos”, publicado na revista eletrônicaDezenove & Vinte.2 Dezoito anos após a morte de Gonzaga-Duque, uma parte considerável de seutrabalho foi organizada e publicada na forma de coletânea, sob o título “Contemporâneos”,com textos que vão de 1901 a 1908. Segundo o ensaísta Tadeu Chiarelli (GONZAGA-DUQUE, 1995:46), nesta obra Gonzaga-Duque canaliza seus comentários para as soluçõesplásticas adotadas pelos artistas em detrimento da temática mais marcante em sua atuação,a questão da arte nacional. Chiarelli afirma que Gonzaga-Duque assimilou o valorcosmopolita da arte brasileira, postura que fez dele o “primeiro crítico no país a entenderque a arte brasileira se caracterizaria mais pelo diálogo que ela poderia estabelecer com aarte internacional”. Entretanto, ele recuaria desta posição alguns anos depois, voltando adefender a necessidade de uma arte genuinamente brasileira, “baseada nos sentimentos das‘três raças formadoras’.” (GONZAGA-DUQUE, 1995:48-50). O crítico que se revela naspáginas de “Contemporâneos” é um indivíduo de posições claras, que não hesita em tecerrasgados elogios ou disparar condenações mortais, conforme suas convicções indiquem omerecimento de cada artista.2 http://www.dezenovevinte.net
  3. 3. De Rodolpho Amoedo, afirma ser “o mestre”, comparável a Eugène Delacroix nãoapenas no domínio das técnicas da pintura e na qualidade do trabalho, mas também no“conhecimento exacto da sua arte e de tudo quanto lhe está relacionado, a philosophia, aliteratura, as escolas, os modos, os caprichos de cada época [...]”3. (p. 9) Sobre a tela Más Notícias, pintada em 1895, Gonzaga-Duque afirma ser ela“attestado das excepcionaes qualidades do mestre”, destacando a capacidade na pintura derevelar o “flagrante d’alma feminina, um instantâneo maravilhoso do tormento de umcoração que a carta amarrotada nas suas lindas garras de airosa dama senão de deusacontrariada, acaba de sangrar”. (p. 18). Da exposição de Elyseu Visconti, aluno de grandesmestres, entre os quais Rodolpho Amoedo, afirma ter sido “uma das mais completas, dasmais importantes exposições de arte aqui franqueadas ao público”. (p. 19). Uma obra,especificamente, merece longo comentário do crítico. Referindo-se à tela Oréadas, pintadaem 1899, Duque escreve: Interpretando assumpto de tão remota creação, o artista procurou dar-lhe o tom característico [...] O aspecto sadio desses corpos em que a adolescencia está desabrochando com o frescor d’uma Veiga em Maio, a plastica rythmica de seus movimentos, a alegria franca de seus rostos innocentes, compõem um todo adoravel de ingenuidade e jubilo, de bucolismo e venturas, a que serve de adequado, perfeito, imprescindível enquadramento, por contraste, a discreta e risonha paizagem do scenario. (p. 23) Na crítica branda endereçada a Antônio Parreiras a propósito da tela “Semtrabalho”, integrante da exposição de 1905, Gonzaga-Duque revela mais uma vez a suapreferência pela arte figurativa que procura reproduzir iconograficamente a cena possível: [...] se as expressões do pobre pae e da misera mulher estão flagrantemente reproduzidas nas posturas e nas physionomias, com especialidade a figura do homem, cujo rosto traduz a dor sem lagrimas, sobre possuir n’attitude do corpo a authenticidade da sua condição social... (p. 47) De Hélios Seelinger, afirma não ser ele naturalista:3 Nos excertos de “Os Contemporâneos” será respeitada a grafia da época, como registrado no livro.
  4. 4. O que o tóca no centro emotivo, o que o commove e o leva da idéa á imagem, é esse natural depurado na sua imaginativa. E essa se nos desvenda nos bizarrismos duma superexcitação, dum estado hypernervoso que determina phases geraes da psychopathia. (p. 53) No entanto, Gonzaga-Duque não poupa críticas ao irmão de Pedro Américo, Auréliode Figueiredo, na exposição deste. A propósito do quadro “Redempção do Amazonas”, ocrítico acusa o pintor de ter-se deixado guiar pela fantasia. Percebe-se unicamente agglomeração calclada de estofos, verdes, roseos, azues, roxos; um luxo oriental de tecidos finos, sedas e vasos, perolas e joias, e flores, sempre flores, as mais bellas, as mais viçosas por toda a parte, n’uma apotheose á Primavera que vae surgir. [...] O distinto artista não quiz dar-se ao trabalho de meditar sobre o assumpto. Fel-o confiado no seu talento. (p. 80-81) Ainda se referindo à obra de Aurélio Figueiredo, Gonzaga-Duque demonstra suadecepção: Sinceramente: a concepção do quadro do Sr. Aurélio é infeliz. (p. 83) Vê-se claramente que o artista não estudou o quadro como deveria ter feito para conseguir obra digna do seu nome e do assumpto. As figuras parecem feitas de cór e distribuidas á primeira impressão, em algumas, como na do negro, o desenho é horrível, e se não fosse o brilhantismo de colorido, uma certa graça na collocação dos grupos, o trabalho estaria perdido. (p. 85) Reforçando sua predileção pela figuração naturalista, afirma: Ah! Se o artista em logar de encher a sua tela decorativa de tanta riqueza de estofos, columnas de marmore, e tapetes e flores e amphoras, tivesse pintado uma paysagem do Amazonas, a matta virgem d’aquella região vastíssima!... Talvez tivesse interpretado o assumpto. (p. 86)
  5. 5. Quando, porém, se depara com obras por meio das quais o artista conseguereproduzir as sensações do real, Gonzaga-Duque se sente recompensado. Ele não hesita emelogiar a exposição de Modesto Brocos, destacando a capacidade de observação do artista: Vê-se bem que esse trabalho requereu grande paciencia observadora, e cada uma das figuras desse bello quadrinho, valioso tanto por seu merecimento de arte transportadora como pelo assumpto, é um estudo de typos conseguido com o mais feliz exito e constitue um excellente producto... [...] Mas onde Modesto Brocos dá a sua nota característica, accusa a sua decisiva tendencia, é nos retratos, de uma realidade adoravel, de uma reprodução fidelissima. (p. 89) A observação feita ao trabalho de Modesto Brocos – “realidade adorável, de umareprodução fidelíssima” – oferece ao leitor contemporâneo, afastado em um século daépoca em que o crítico atuava, uma chave valiosa para a compreensão da orientaçãoestética seguida por Gonzaga-Duque. Vivendo sob a influência do pensamento cientificista e da busca obstinada pelaracionalidade, orientado por uma ética que se despojava das tradições em favor doempírico, Gonzaga-Duque se entusiasmava com trabalhos que revelavam o esmero doartista em reproduzir com máxima perfeição a realidade visível. Obviamente a sua análisenão se limita à capacidade do artista de reproduzir o real, ocupando-se também do tema.Entretanto, salta aos olhos na coletânea “Contemporâneos” o maior interesse do crítico pelahabilidade do artista, o que permite uma compreensão maior sobre seus pontos de vista eseus escritos.BibliografiaABRÃO, Bernadette Siqueira (org.). História da filosofia. São Paulo : Editora NovaCultural, 2004.CAUQUELIN, Anne. Teorias da arte. São Paulo : Martins Fontes, 2005.
  6. 6. DUQUE, Gonzaga. Contemporâneos: pintores e esculptores). Rio de Janeiro, RJ :Typografia Benedicto de Souza, 1929______. A arte brasileira. Campinas, SP : Mercado de Letras, 1995Sítios na InternetESPINDOLA, Alexandra Filomena. Vida na arte em Gonzaga Duque. 19&20, Rio deJaneiro, v. IV, n.4, out. 2009. Disponível em:http://www.dezenovevinte.net/criticas/gd_afe.htm>. Página consultada em 13/12/2009.FRANÇA, Cristina Pierre de. Gonzaga Duque: Crônicas dos Salões na Revista Kósmos.19&20, Rio de Janeiro, v. II, n. 2, abr. 2007. Disponível em:<http://www.dezenovevinte.net/criticas/gd_Kósmos.htm>. Página consultada em13/12/2009.

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