Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário todo o seu rendimento.  Quando passava revista ao exército,quando ia aos...
“ São vestuários impagáveis” - disse consigo o sultão – “graçasa eles, saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e rec...
Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedademaravilhosa do estofo, e ardiam em desejos de verificar se seriaexac...
— Então que lhe parece? - perguntou um dos tecelões.     — Encantador, admirável! - respondeu o ministro, pondo osóculos. ...
— Não acha um tecido admirável? - perguntaram ostratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas cores, quetinham apena...
— Não acha magnífico? - disseram os dois honradosfuncionários. O desenho e as cores são dignos de Vossa Alteza.     E apon...
Deram-lhe o conselho que se apresentasse com o fatonovo no dia da grande procissão.-    É magnífico! é encantador! é admir...
— Decerto - respondiam os ajudantes de campo, sem vercoisa alguma.     — Se Vossa Alteza se dignasse despir-se - disseram ...
Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias:     — Está à porta o dossel sob o qual Vossa Alteza deve assistir àprocissão - d...
Ninguém queria dar a perceber, que não via nada, porqueisso equivalia a confessar que se era tolo. Nunca os fatos dosultão...
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  1. 1. Era uma vez um sultão, que despendia em vestuário todo o seu rendimento. Quando passava revista ao exército,quando ia aos passeios ou ao teatro, nãotinha outro fim senão mostrar os seus fatosnovos. Mudava de traje a todos os instantes,e como se diz dum rei: Está no conselho -dizia-se dele - está-se a vestir. A capital doseu reino era uma cidade muito alegre,graças à quantidade de estrangeiros que porali passavam; mas chegaram lá um dia doislarápios, que, dando-se por tecelões,disseram que sabiam fabricar o estofo maisrico que havia no mundo. sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não sóeram extraordinariamente belos os desenhos e as cores, mas alémdisso, os vestuários, feitos com esse estofo, possuíam uma qualidademaravilhosa: tornavam-se invisíveis para os idiotas e para todosaqueles que não exercessem bem o seu emprego.
  2. 2. “ São vestuários impagáveis” - disse consigo o sultão – “graçasa eles, saberei distinguir os inteligentes dos tolos, e reconhecer acapacidade dos ministros. Preciso desse estofo!” E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães umaquantia avultada, para que pudessem começar os trabalhosimediatamente. Os homens levantaram com efeito dois teares e fingiram quetrabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada naslançadeiras. Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante, masguardavam tudo isso muito bem guardado, trabalhando até à meia-noite com os teares vazios. — Necessito saber se a obra vai adiantada. Mas tremia de medo, lembrando-se que o estofo não podia servisto pelos idiotas. E por mais que confiasse na sua inteligência,achou em todo o caso prudente mandar alguém adiante.
  3. 3. Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedademaravilhosa do estofo, e ardiam em desejos de verificar se seriaexacto. “Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro” - pensou osultão – “tem um grande talento; ninguém melhor do que ele podeavaliar o estofo.” Entrou o honrado ministro na sala em que os dois impostorestrabalhavam com os teares vazios. “Meu Deus!” - disse ele consigo arregalando os olhos, - “nãovejo absolutamente nada!» Mas, no entanto, calou-se. Os dois tecelões convidaram-no aaproximar-se, pedindo a opinião sobre os desenhos e as cores.Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava, olhava, mas não vianada, pela razão simplicíssima de nada lá existir… “Meu Deus!” - pensou ele – “serei realmente estúpido? Énecessário que ninguém o saiba!... Ora esta! Pois serei tolorealmente! Mas lá confessar que não vejo nada, isso é que eu nãoconfesso.»
  4. 4. — Então que lhe parece? - perguntou um dos tecelões. — Encantador, admirável! - respondeu o ministro, pondo osóculos. - Este desenho... estas cores... magnífico!... Direi aosultão que fiquei completamente satisfeito.» — Muito agradecido, muito agradecido - disseram ostecelões e mostraram-lhe de novo as cores e desenhosimaginários, fazendo-lhe deles uma descrição minuciosa. Oministro ouviu atentamente, para ir depois repetir tudo aosultão. Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais pratae mais oiro; precisavam-se quantidades enormes para estetecido. Metiam tudo no bolso, é claro; o tear continuava vazio e,apesar disso, trabalhavam sempre. Passado algum tempo mandou o sultão um novofuncionário, homem honrado, a examinar o estofo, e ver quandoestaria pronto. Aconteceu a este enviado o que tinha acontecidoao ministro: olhava, olhava e não via nada.
  5. 5. — Não acha um tecido admirável? - perguntaram ostratantes, mostrando o magnífico desenho e as belas cores, quetinham apenas o inconveniente de não existir. “Mas que diabo! Eu não sou tolo!” - dizia o homemconsigo. - Pois não serei eu capaz de desempenhar o meulugar? É esquisito! Mas deixá-lo, não o deixo eu.» Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a suaadmiração pelo desenho e o bem combinado das cores. — É de uma magnificência incomparável - disse ele aosultão. E toda a cidade começou a falar desse tecidoextraordinário. Enfim, o próprio sultão quis vê-lo enquanto estava no tear.Com um grande acompanhamento de pessoas distintas, entreas quais se contavam os dois honrados magnates, dirigiu-separa as oficinas, onde os dois velhacos teciam continuamente,mas sem fios de seda, nem de oiro, nem de espécie alguma.
  6. 6. — Não acha magnífico? - disseram os dois honradosfuncionários. O desenho e as cores são dignos de Vossa Alteza. E apontaram para o tear vazio, como se as outras pessoas queali estavam pudessem ver alguma coisa. “Que é isto!” - disse consigo mesmo o sultão – “não vejonada! É horrível! Serei eu tolo, incapaz de governar os meusestados? Que desgraça que me acontece!» Depois, de repente, exclamou: - É magnífico! Testemunho-vosa minha real satisfação. E meneou a cabeça com um ar prazenteiro e olhou para otear, sem se atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas doséquito olharam do mesmo modo, uns atrás dos outros, mas semver coisa alguma e, no entanto, repetiam como o sultão: «É magnífico!»
  7. 7. Deram-lhe o conselho que se apresentasse com o fatonovo no dia da grande procissão.- É magnífico! é encantador! é admirável! - exclamavamtodas as bocas. E a satisfação era geral. Os dois impostores foram condecorados e receberam otitulo de fidalgos tecelões. Na véspera do dia da procissão passaram a noite emclaro, trabalhando à luz de dezasseis velas. Finalmente fingiramtirar o estofo do tear, cortaram-no com umas grandes tesouras,coseram-no com uma agulha sem fio, e declararam, ao cabo,que estava o vestuário concluído. O sultão com os seus ajudantes de campo foi examiná-lo,e os impostores levantando um braço, como para sustentaralguma coisa, disseram:- Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como umateia de aranha; é a principal virtude deste tecido.
  8. 8. — Decerto - respondiam os ajudantes de campo, sem vercoisa alguma. — Se Vossa Alteza se dignasse despir-se - disseram oslarápios - provar-lhe-íamos o fato diante do espelho.O sultão despiu-se e os tratantes fingiram apresentar-lhe ascalças, depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo o quefazia era voltar-se defronte do espelho.— Como lhe fica bem! Que talheelegante! - exclamaram todos oscortesãos. –- Que desenho! Que cores! Quevestuário incomparável!»
  9. 9. Nisto entrou o grão-mestre de cerimónias: — Está à porta o dossel sob o qual Vossa Alteza deve assistir àprocissão - disse ele. — Bom! estou pronto - respondeu o sultão. Parece-me que nãovou mal. E voltou-se ainda uma vez diante do espelho, para ver bem oefeito do seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda domanto, não querendo confessar que não viam absolutamente nada,fingiam arregaçá-la. E, enquanto o sultão caminhava altivo sob um dosseldeslumbrante, toda a gente na rua e às janelas exclamava: Que vestuário magnífico! Que cauda tão graciosa! Que talheelegante!»
  10. 10. Ninguém queria dar a perceber, que não via nada, porqueisso equivalia a confessar que se era tolo. Nunca os fatos dosultão tinham sido tão admirados. — Mas parece que vai em cuecas- observou um pequerrucho, ao colodo pai. — É a voz da inocência - disse opai. — Há ali uma criança que diz queo sultão vai em cuecas – disse alguém. - Vai em cuecas! Vai em cuecas! -exclamou o povo finalmente. O sultão ficou muito aflito, porque lhe pareceu que realmente era verdade. Entretanto tomou a enérgica resolução de ir até ao fim e os camaristas submissos continuaram a levar com o máximo respeito a cauda imaginária. FIM

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