SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 5
Baixar para ler offline
grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 1
É o clima, estúpido!
António Dores 17/10/2017
Bill Clinton, na sua campanha presidencial, tornou famoso o slogan “É a
economia, estupido!”. O seu vice-presidente, Al Gore, poderia ter preferido “É o
clima, estupido!”.
No caso dos fogos assassinos, em Portugal, que o governo reconhece que se
irão repetir, há duas opções: manter o regime centrado em fazer crescer a
economia – e como se sabe, mesmo no deserto, é possível encontrar como
fazer dinheiro extraindo do solo (ou da zona marítima exclusiva) aquilo que lá
possa haver – ou fazer um regime novo capaz de proteger as pessoas.
A mudança de regime político, que todos sabemos necessária, mas não
sabemos como se vai fazer, dá sinais de vida, pela boca do governo. A respeito
dos desastres dos fogos, o governo insiste que o estado não é capaz de
cumprir as suas funções: os fogos hão-de repetir-se, como já tinha avisado, e
as populações só têm uma possibilidade de defesa: a auto-organização.
O regime conduziu o país à incapacidade de defesa contra o clima e alheia-se
das populações. O novo regime que há-de sobrevir já tem um mote para se
orientar: favorecer a auto-organização das populações na sua luta contra os
fenómenos climáticos extremos, única solução perante a auto-proclamada
impotência do estado.
Quem o diz é um governo das esquerdas. Que não pode, realisticamente, ser
acusado de pretender reduzir o âmbito da intervenção do estado. O que ocorre,
como é público e notório, é que há uma evidente contradição insanável entre
os pressupostos de organização do ordenamento do território, incluindo a
extracção de madeira, a política de florestação, o estatuto da propriedade, e a
protecção da vida das pessoas e dos respectivos bens.
O regime democrático de integração europeia, em Portugal, caracterizou-se
pela infantilização, pela despolitização, pela anestesia da autonomia das
populações, em nome da autoridade e competência dos partidos e, de quando
em vez, da ciência.
Esta democracia que se afunda, assim desenhada, ajustou-se bem à
globalização: a minoria bem formada e bem colocada recolheu os frutos do seu
grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 2
cosmopolitismo. Temos os CEO mais bem pagos da Europa. Tratam o resto
das pessoas com salários de miséria e uma desorganização muito bem
organizada – como aquela que permitiu os escandalosos colapsos de todos os
bancos portugueses e da PT, mais a corrupção associada ao financiamento de
partidos e/ou de governantes.
As reacções do governo aos desastres dos fogos, a posição de indiferença da
ministra responsável pelo sistema de protecção civil à vergonha nacional –
aparentemente agarrada ao poder por ligações partidárias impossíveis de
desgrudar – reflecte bem o regime da pesporrência. O secretário de estado,
quando explica que do estado não se pode esperar mais, além de sinceridade,
está a mostrar o caminho que, racionalmente, um novo regime político útil
deveria saber inaugurar: a auto-organização das populações na sua própria
defesa. Para o que a geração mais bem formada de sempre, embora ensinada
na complacência, poderia, caso esteja disponível, dar uma ajuda preciosa. Por
exemplo, ajudando a multiplicar iniciativas como as da Rede Reflorestar
Portugal, da Aliança pela Floresta Autóctone ou da APAGAR – Aliança Para
Acabar com as vaGAs Recorrentes de Fogos.
Os defensores da tese da mão criminosa deverão ponderar quem deve passar,
a partir de agora, a ser perseguido: os tachistas que usam o comando da
protecção civil para subir na vida, desorganizando pelo caminho a capacidade
de intervenção do estado, ou as populações que resistem a viver fora das
cidades, despolitizadas pelas políticas das últimas décadas e agora chamadas,
sem mais avisos nem preparação, à auto-organização?
Quem precisa de se auto-organizar é todo o povo português (e, na verdade,
europeu e norte-americano).
O regime democrático fez do País, em termos de ordenamento do território e
protecção civil, aquilo que o governo reconhece: um país ingovernável. Aquilo
que as escolas e as universidades fizeram, a respeito da consciência
ambiental, foi integrar as preocupações ecológicas em recomendações de
consumo. O beco sem saída é hoje evidente. Mas é preciso tirar daí
consequências políticas: este regime não serve as populações!
Um país à espera da desertificação causada pelo aquecimento global, em vez
de se preparar e desenhar uma estratégia para enfrentar os novos tempos,
entretém-se a auto-satisfazer-se com o crescimento. Está tudo a correr bem,
no campo económico e financeiro, mostram os números. Os fogos excitarão
ainda mais o crescimento, pois será preciso reconstruir e comprar mais coisas
para substituir as que agora arderam, a somar às despesas da própria
actividade de combate a incêndios.
Isto prepara-se para ficar um deserto e os governos, nacionais e locais,
continuam a explorar a terra e as pessoas, como habitualmente. Para quem
manda e deveria ser responsável, de facto, a desertificação não é um
grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 3
problema. Se as estradas passarem a estar intransitáveis, passam a fazer
campanha de avião.
Quando a separação de interesses fundamentais entre quem nos governa e
quem é governado se torna tão profunda como o é actualmente, há que acenar
com espantalhos e prender uns bêbados, que não servem para outra coisa
senão fazer de bodes expiatórios. Já limpar da corrupção o país e, também, a
indústria de fogos, isso – é preciso tomar consciência – não está a ser feito.
Basta ler os trabalhos da TIAC para o saber.
A justiça criminal previne crimes depois deles ocorrerem. Como dizem os
juristas, é óptima a tratar de bagatelas penais, a prender pilha galinhas. Já é
praticamente impossível tratar com a corrupção ou a criminalidade de colarinho
branco, diz-se. Como se pode ver no caso Sócrates. Aquilo que o João
Cravinho gritou aos sete ventos, para quem o queria ouvir – de que a
corrupção estava instalada ao mais alto nível do estado (que ele conhece tão
bem) – não serviu de nada. As vozes do Banco Central Europeu, anos antes,
quando avisou que o primeiro problema financeiro de Portugal era a corrupção;
ou da recente campanha presidencial de Paulo Morais, cuja popularidade
política se pode comparar com a de Isaltino Morais, esbarram com a
indiferença nacional.
Tal como a guerra colonial ditou o fim da ditadura mais de uma década antes
do 25 de Abril, a crise financeira de 2008 ditou o fim do regime democrático em
Portugal, que se arrasta por falta de capacidade de encarar as realidades. Em
vez de ser dada a voz ao povo, a voz foi entregue à Merkel e aos seus
banqueiros preferidos, através da política “Para além da Troika!”. Ficou
evidente que o capital português vivia da especulação e corrupção (de que a
PT é o melhor exemplo). Como seria de outro modo se a convicção dos
economistas de serviço era – como o disse Guterres na ocasião da entrada no
Euro – Portugal não precisava mais de se preocupar com problema financeiros,
a cargo da Alemanha e outras grandes potências?
Com Passos Coelho, passou-se à ideia consensual do controlo financeiro,
depois da entrada de novos investidores (chineses, Vistos Gold) e novos
velhos gestores (até então, de segunda linha), nos bancos e empresas do
regime e na política.
Em 2014, a aliança de todas as esquerdas interrompeu, aparentemente, o
interregno da soberania nacional. Porém, a herança do regime decadente na
ordenação do território – usada pela aliança corrupta entre autarcas, partidos,
construção civil, para lavar e criar dinheiro – não foi subvertida. Adaptou-se às
novas circunstâncias.
O megaprocesso criado em torno de Sócrates pela Procuradoria-Geral da
República, para se auto-legitimar e recuperar da cegueira que caracterizou a
sua congénere até à crise financeira, consome todas as energias judiciais. O
grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 4
julgamento do regime, como é típico do nosso estado, demorará tempo
suficiente para quando acabar já o regime tenha acabado.
A política continua a ser a distribuição pelos amigos e a justiça porrada nos
mais desprevenidos. Apesar do peixe graúdo, e visto existir esse peixe graúdo,
como fazia o humorista, há que perguntar: “Que dê os outros?” Ninguém sabia
de nada?
Eu acredito que de facto, como aconteceu na Casa Pia, ninguém sabia de
nada. Porque o único que queria saber de denunciar os problemas estava
isolado e era tratado com doido. João Cravinho, Ana Gomes. Quem quer fazer
figura de alienado num país de gente cordata?
Na prática, continua a haver quem ganha balúrdios por alegadamente ser de
uma competência singular, nomeadamente por ter a desfaçatez de usar
influências para circular entre os sistemas público e privado, entre o partido e a
construção civil e a banca, entre os meios de comunicação social e as
sociedades secretas. Aprende – como disse o Salgado ter aprendido – que
nunca se confessa a culpa e o dolo. Se tiver que ser condenado, que seja no
fim do final mais longínquo possível. E sempre alegando inocência e
perseguição política, como terá ensinado Berlusconi.
O país assistiu à novela da licenciatura do Sócrates, alinhando na
complacência dos comentadores (que isso era irrelevante para a política,
diziam). Mesmo que a universidade que lhe concedeu a licenciatura tenha sido
fechada pelo governo de Sócrates, nada perturbou o marasmo. O homem até
teve a lata de se queixar à justiça de difamação contra quem quis manter o
caso na praça pública. Em 2017 ficámos a saber algumas das consequências
dessa atitude nacional: a inoperacionalidade dos comandos da protecção civil,
tomados por partidarite. Mais preocupados em fazer cursos superiores à
pressa para agarrar os tachos do que a assumir responsabilidades públicas
pelos seus actos.
No caso dos incêndios em Portugal, o estado falhou! O estado criado pelo
regime democrático, que custa a derrubar, é um perigo. Está tomado por
interesses alheios à protecção das pessoas e bens. Ele próprio reconhece a
necessidade de auto-organização dos portugueses, se se quiser pensar em
fazer alguma coisa quanto ao prognóstico de desertificação do país, no fim do
século. Ou antes.
É urgente reinventar a democracia, num regime novo, antes que a extrema-
direita, como está a fazer em grande parte da Europa e nos EUA, faça do
regime que está para vir uma ditadura belicista e persecutória dos direitos e
liberdades individuais.
https://sociologia.hypotheses.org/569
grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 5
Este e outros textos em:
http://grazia-tanta.blogspot.com/
http://www.slideshare.net/durgarrai/documents
https://pt.scribd.com/uploads

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...A. Rui Teixeira Santos
 
O Estado e a mediação política
O Estado e a mediação política O Estado e a mediação política
O Estado e a mediação política GRAZIA TANTA
 
Empreendorismo social como sistema de oportunidades, Prof. Doutor Rui Teixeir...
Empreendorismo social como sistema de oportunidades, Prof. Doutor Rui Teixeir...Empreendorismo social como sistema de oportunidades, Prof. Doutor Rui Teixeir...
Empreendorismo social como sistema de oportunidades, Prof. Doutor Rui Teixeir...A. Rui Teixeira Santos
 
Eleições em portugal o assalto à marmita
Eleições em portugal   o assalto à marmitaEleições em portugal   o assalto à marmita
Eleições em portugal o assalto à marmitaGRAZIA TANTA
 
Solidariedade com o povo grego
Solidariedade com o povo gregoSolidariedade com o povo grego
Solidariedade com o povo gregoGRAZIA TANTA
 
Jornal O Dia - Cada um ajuda como pode
Jornal O Dia - Cada um ajuda como podeJornal O Dia - Cada um ajuda como pode
Jornal O Dia - Cada um ajuda como podeODiaMais
 
Programa Eleitoral BE 2009
Programa Eleitoral BE 2009Programa Eleitoral BE 2009
Programa Eleitoral BE 2009maverick47
 
O vírus e quem dele se aproveita (1)
O vírus e quem dele se aproveita (1)O vírus e quem dele se aproveita (1)
O vírus e quem dele se aproveita (1)GRAZIA TANTA
 
Economia Política da Corrupção - Caso dos Estados Lusófonos, Rui Teixeira San...
Economia Política da Corrupção - Caso dos Estados Lusófonos, Rui Teixeira San...Economia Política da Corrupção - Caso dos Estados Lusófonos, Rui Teixeira San...
Economia Política da Corrupção - Caso dos Estados Lusófonos, Rui Teixeira San...A. Rui Teixeira Santos
 
Machete e a suspensão de direitos fundamentais
Machete e a suspensão de direitos fundamentaisMachete e a suspensão de direitos fundamentais
Machete e a suspensão de direitos fundamentaisGRAZIA TANTA
 
O estado isonómico, Rui Teixeira Santos (Plano, nº 1, BNOMICS, Lisboa, 2013)
O estado isonómico, Rui Teixeira Santos (Plano, nº 1, BNOMICS, Lisboa, 2013)O estado isonómico, Rui Teixeira Santos (Plano, nº 1, BNOMICS, Lisboa, 2013)
O estado isonómico, Rui Teixeira Santos (Plano, nº 1, BNOMICS, Lisboa, 2013)A. Rui Teixeira Santos
 
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...A. Rui Teixeira Santos
 
Para uma Constituição Democrática com Caráter de Urgência – 2
Para uma Constituição Democrática com Caráter de Urgência – 2Para uma Constituição Democrática com Caráter de Urgência – 2
Para uma Constituição Democrática com Caráter de Urgência – 2GRAZIA TANTA
 
3 D deficits, dívida, desigualdades
3 D   deficits, dívida, desigualdades3 D   deficits, dívida, desigualdades
3 D deficits, dívida, desigualdadesGRAZIA TANTA
 
2201 a precariedade suprema no capitalismo do século xxi
2201   a precariedade suprema no capitalismo do século xxi2201   a precariedade suprema no capitalismo do século xxi
2201 a precariedade suprema no capitalismo do século xxiGRAZIA TANTA
 
Imprensa internacional arrasa discurso de cavaco
Imprensa internacional arrasa discurso de cavacoImprensa internacional arrasa discurso de cavaco
Imprensa internacional arrasa discurso de cavacoDo outro lado da barricada
 
O desenvolvimento do subdesenvolvimento
O desenvolvimento do subdesenvolvimentoO desenvolvimento do subdesenvolvimento
O desenvolvimento do subdesenvolvimentoSinapsa
 
Os números e as pessoas final
Os números e as pessoas   finalOs números e as pessoas   final
Os números e as pessoas finalpr_afsalbergaria
 

Mais procurados (20)

O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
 
O Estado e a mediação política
O Estado e a mediação política O Estado e a mediação política
O Estado e a mediação política
 
Empreendorismo social como sistema de oportunidades, Prof. Doutor Rui Teixeir...
Empreendorismo social como sistema de oportunidades, Prof. Doutor Rui Teixeir...Empreendorismo social como sistema de oportunidades, Prof. Doutor Rui Teixeir...
Empreendorismo social como sistema de oportunidades, Prof. Doutor Rui Teixeir...
 
Eleições em portugal o assalto à marmita
Eleições em portugal   o assalto à marmitaEleições em portugal   o assalto à marmita
Eleições em portugal o assalto à marmita
 
Solidariedade com o povo grego
Solidariedade com o povo gregoSolidariedade com o povo grego
Solidariedade com o povo grego
 
Jornal O Dia - Cada um ajuda como pode
Jornal O Dia - Cada um ajuda como podeJornal O Dia - Cada um ajuda como pode
Jornal O Dia - Cada um ajuda como pode
 
Programa Eleitoral BE 2009
Programa Eleitoral BE 2009Programa Eleitoral BE 2009
Programa Eleitoral BE 2009
 
O vírus e quem dele se aproveita (1)
O vírus e quem dele se aproveita (1)O vírus e quem dele se aproveita (1)
O vírus e quem dele se aproveita (1)
 
Economia Política da Corrupção - Caso dos Estados Lusófonos, Rui Teixeira San...
Economia Política da Corrupção - Caso dos Estados Lusófonos, Rui Teixeira San...Economia Política da Corrupção - Caso dos Estados Lusófonos, Rui Teixeira San...
Economia Política da Corrupção - Caso dos Estados Lusófonos, Rui Teixeira San...
 
Machete e a suspensão de direitos fundamentais
Machete e a suspensão de direitos fundamentaisMachete e a suspensão de direitos fundamentais
Machete e a suspensão de direitos fundamentais
 
O estado isonómico, Rui Teixeira Santos (Plano, nº 1, BNOMICS, Lisboa, 2013)
O estado isonómico, Rui Teixeira Santos (Plano, nº 1, BNOMICS, Lisboa, 2013)O estado isonómico, Rui Teixeira Santos (Plano, nº 1, BNOMICS, Lisboa, 2013)
O estado isonómico, Rui Teixeira Santos (Plano, nº 1, BNOMICS, Lisboa, 2013)
 
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
O estado isonómico e o declínio das políticas públicas, Prof. Doutor Rui Teix...
 
Para uma Constituição Democrática com Caráter de Urgência – 2
Para uma Constituição Democrática com Caráter de Urgência – 2Para uma Constituição Democrática com Caráter de Urgência – 2
Para uma Constituição Democrática com Caráter de Urgência – 2
 
3 D deficits, dívida, desigualdades
3 D   deficits, dívida, desigualdades3 D   deficits, dívida, desigualdades
3 D deficits, dívida, desigualdades
 
2201 a precariedade suprema no capitalismo do século xxi
2201   a precariedade suprema no capitalismo do século xxi2201   a precariedade suprema no capitalismo do século xxi
2201 a precariedade suprema no capitalismo do século xxi
 
Imprensa internacional arrasa discurso de cavaco
Imprensa internacional arrasa discurso de cavacoImprensa internacional arrasa discurso de cavaco
Imprensa internacional arrasa discurso de cavaco
 
Rendimentos decrescentes
Rendimentos decrescentesRendimentos decrescentes
Rendimentos decrescentes
 
O desenvolvimento do subdesenvolvimento
O desenvolvimento do subdesenvolvimentoO desenvolvimento do subdesenvolvimento
O desenvolvimento do subdesenvolvimento
 
A decadência da humanidade
A decadência da humanidadeA decadência da humanidade
A decadência da humanidade
 
Os números e as pessoas final
Os números e as pessoas   finalOs números e as pessoas   final
Os números e as pessoas final
 

Semelhante a É o clima, estúpido!

Os números e as pessoas final
Os números e as pessoas   finalOs números e as pessoas   final
Os números e as pessoas finalCdjp Aveiro
 
Textos de Circunstância - 8
Textos de Circunstância - 8Textos de Circunstância - 8
Textos de Circunstância - 8GRAZIA TANTA
 
Folha de S.Paulo - Poder, p. 2
Folha de S.Paulo - Poder, p. 2Folha de S.Paulo - Poder, p. 2
Folha de S.Paulo - Poder, p. 2Luciana Moherdaui
 
Democracia, democracia das empresas e wikileaks
Democracia, democracia das empresas e wikileaksDemocracia, democracia das empresas e wikileaks
Democracia, democracia das empresas e wikileaksGRAZIA TANTA
 
Para um novo paradigma político; a re criação da democracia
Para um novo paradigma político; a re criação da democraciaPara um novo paradigma político; a re criação da democracia
Para um novo paradigma político; a re criação da democraciaGRAZIA TANTA
 
Inconfidência 227‏
Inconfidência 227‏Inconfidência 227‏
Inconfidência 227‏Lucio Borges
 
As mentiras de estado parte ii
As mentiras de estado  parte iiAs mentiras de estado  parte ii
As mentiras de estado parte iiBORGES- Borges
 
Portugal, os “mercados” e o empobrecimento generalizado
Portugal, os “mercados” e o empobrecimento generalizadoPortugal, os “mercados” e o empobrecimento generalizado
Portugal, os “mercados” e o empobrecimento generalizadoGRAZIA TANTA
 
Euforia da servidão
Euforia da servidãoEuforia da servidão
Euforia da servidãoSinapsa
 
DESCOBERTA A SINISTRA INTENÇÃO
DESCOBERTA A SINISTRA INTENÇÃODESCOBERTA A SINISTRA INTENÇÃO
DESCOBERTA A SINISTRA INTENÇÃOSoproLeve
 
TEXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 2
TEXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 2TEXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 2
TEXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 2GRAZIA TANTA
 
Entrev Guilherme d'Oliveira Martins
Entrev Guilherme d'Oliveira MartinsEntrev Guilherme d'Oliveira Martins
Entrev Guilherme d'Oliveira MartinsMarta Rangel
 
O governo do "faz de conta que não vê"
O governo do "faz de conta que não vê"O governo do "faz de conta que não vê"
O governo do "faz de conta que não vê"Nuno Cunha da Silva
 
Exerc2 aula3
Exerc2 aula3Exerc2 aula3
Exerc2 aula3Will Tkd
 
O Homem, ser social e fragmentado
O Homem, ser social e fragmentadoO Homem, ser social e fragmentado
O Homem, ser social e fragmentadoGRAZIA TANTA
 
Jdri 016 060113 criminalidade transnacional
Jdri 016 060113 criminalidade transnacionalJdri 016 060113 criminalidade transnacional
Jdri 016 060113 criminalidade transnacionalJosé Alves
 
Dívida pública – cancro não se trata com paracetamol
Dívida pública – cancro não se trata com paracetamolDívida pública – cancro não se trata com paracetamol
Dívida pública – cancro não se trata com paracetamolGRAZIA TANTA
 

Semelhante a É o clima, estúpido! (20)

Relatório totalitário
Relatório totalitárioRelatório totalitário
Relatório totalitário
 
Os números e as pessoas final
Os números e as pessoas   finalOs números e as pessoas   final
Os números e as pessoas final
 
Textos de Circunstância - 8
Textos de Circunstância - 8Textos de Circunstância - 8
Textos de Circunstância - 8
 
Folha de S.Paulo - Poder, p. 2
Folha de S.Paulo - Poder, p. 2Folha de S.Paulo - Poder, p. 2
Folha de S.Paulo - Poder, p. 2
 
Não somos gado
Não somos gadoNão somos gado
Não somos gado
 
Democracia, democracia das empresas e wikileaks
Democracia, democracia das empresas e wikileaksDemocracia, democracia das empresas e wikileaks
Democracia, democracia das empresas e wikileaks
 
Para um novo paradigma político; a re criação da democracia
Para um novo paradigma político; a re criação da democraciaPara um novo paradigma político; a re criação da democracia
Para um novo paradigma político; a re criação da democracia
 
Inconfidência 227‏
Inconfidência 227‏Inconfidência 227‏
Inconfidência 227‏
 
As mentiras de estado parte ii
As mentiras de estado  parte iiAs mentiras de estado  parte ii
As mentiras de estado parte ii
 
Portugal, os “mercados” e o empobrecimento generalizado
Portugal, os “mercados” e o empobrecimento generalizadoPortugal, os “mercados” e o empobrecimento generalizado
Portugal, os “mercados” e o empobrecimento generalizado
 
Euforia da servidão
Euforia da servidãoEuforia da servidão
Euforia da servidão
 
Comunicado nº 13
Comunicado nº 13Comunicado nº 13
Comunicado nº 13
 
DESCOBERTA A SINISTRA INTENÇÃO
DESCOBERTA A SINISTRA INTENÇÃODESCOBERTA A SINISTRA INTENÇÃO
DESCOBERTA A SINISTRA INTENÇÃO
 
TEXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 2
TEXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 2TEXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 2
TEXTOS DE CIRCUNSTÂNCIA - 2
 
Entrev Guilherme d'Oliveira Martins
Entrev Guilherme d'Oliveira MartinsEntrev Guilherme d'Oliveira Martins
Entrev Guilherme d'Oliveira Martins
 
O governo do "faz de conta que não vê"
O governo do "faz de conta que não vê"O governo do "faz de conta que não vê"
O governo do "faz de conta que não vê"
 
Exerc2 aula3
Exerc2 aula3Exerc2 aula3
Exerc2 aula3
 
O Homem, ser social e fragmentado
O Homem, ser social e fragmentadoO Homem, ser social e fragmentado
O Homem, ser social e fragmentado
 
Jdri 016 060113 criminalidade transnacional
Jdri 016 060113 criminalidade transnacionalJdri 016 060113 criminalidade transnacional
Jdri 016 060113 criminalidade transnacional
 
Dívida pública – cancro não se trata com paracetamol
Dívida pública – cancro não se trata com paracetamolDívida pública – cancro não se trata com paracetamol
Dívida pública – cancro não se trata com paracetamol
 

Mais de GRAZIA TANTA

Ucrânia – Uma realidade pobre e volátil.pdf
Ucrânia – Uma realidade pobre e volátil.pdfUcrânia – Uma realidade pobre e volátil.pdf
Ucrânia – Uma realidade pobre e volátil.pdfGRAZIA TANTA
 
As desigualdades entre mais pobres e menos pobres.doc
As desigualdades entre mais pobres e menos pobres.docAs desigualdades entre mais pobres e menos pobres.doc
As desigualdades entre mais pobres e menos pobres.docGRAZIA TANTA
 
Balofas palavras em dia de fuga para as praias.pdf
Balofas palavras em dia de fuga para as praias.pdfBalofas palavras em dia de fuga para as praias.pdf
Balofas palavras em dia de fuga para as praias.pdfGRAZIA TANTA
 
As balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia.pdf
As balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia.pdfAs balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia.pdf
As balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia.pdfGRAZIA TANTA
 
União Europeia – diferenciações nos dinamismos sectoriais.pdf
União Europeia – diferenciações nos dinamismos sectoriais.pdfUnião Europeia – diferenciações nos dinamismos sectoriais.pdf
União Europeia – diferenciações nos dinamismos sectoriais.pdfGRAZIA TANTA
 
As desigualdades provenientes da demografia na Europa
As desigualdades provenientes da demografia na EuropaAs desigualdades provenientes da demografia na Europa
As desigualdades provenientes da demografia na EuropaGRAZIA TANTA
 
A BideNato flight over
A BideNato flight overA BideNato flight over
A BideNato flight overGRAZIA TANTA
 
Um sobrevoo do BideNato.pdf
Um sobrevoo do BideNato.pdfUm sobrevoo do BideNato.pdf
Um sobrevoo do BideNato.pdfGRAZIA TANTA
 
NATO in the wake of Hitler - Drang nach Osten.pdf
NATO in the wake of Hitler - Drang nach Osten.pdfNATO in the wake of Hitler - Drang nach Osten.pdf
NATO in the wake of Hitler - Drang nach Osten.pdfGRAZIA TANTA
 
USA – A huge danger to Humanity.pdf
USA – A huge danger to Humanity.pdfUSA – A huge danger to Humanity.pdf
USA – A huge danger to Humanity.pdfGRAZIA TANTA
 
EUA – Um perigo enorme para a Humanidade.pdf
EUA – Um perigo enorme para a Humanidade.pdfEUA – Um perigo enorme para a Humanidade.pdf
EUA – Um perigo enorme para a Humanidade.pdfGRAZIA TANTA
 
A NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten.pdf
A NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten.pdfA NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten.pdf
A NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten.pdfGRAZIA TANTA
 
Nato, Ucrânia e a menoridade política dos chefes da UE
Nato, Ucrânia e a menoridade política dos chefes da UENato, Ucrânia e a menoridade política dos chefes da UE
Nato, Ucrânia e a menoridade política dos chefes da UEGRAZIA TANTA
 
Speculative electricity prices in the EU
Speculative electricity prices in the EUSpeculative electricity prices in the EU
Speculative electricity prices in the EUGRAZIA TANTA
 
Os especulativos preços da energia elétrica na ue
Os especulativos preços da energia elétrica na ueOs especulativos preços da energia elétrica na ue
Os especulativos preços da energia elétrica na ueGRAZIA TANTA
 
Human beings, servants of the financial system
Human beings, servants of the financial systemHuman beings, servants of the financial system
Human beings, servants of the financial systemGRAZIA TANTA
 
Seres humanos, servos do sistema financeiro
Seres humanos, servos do sistema financeiroSeres humanos, servos do sistema financeiro
Seres humanos, servos do sistema financeiroGRAZIA TANTA
 
Textos de circunstância - 10
Textos de circunstância  - 10Textos de circunstância  - 10
Textos de circunstância - 10GRAZIA TANTA
 
Glasgow – guinness mugs on the loose
Glasgow – guinness mugs on the looseGlasgow – guinness mugs on the loose
Glasgow – guinness mugs on the looseGRAZIA TANTA
 
As canecas de guiness e os co pos à solta
As canecas de guiness e os co pos à soltaAs canecas de guiness e os co pos à solta
As canecas de guiness e os co pos à soltaGRAZIA TANTA
 

Mais de GRAZIA TANTA (20)

Ucrânia – Uma realidade pobre e volátil.pdf
Ucrânia – Uma realidade pobre e volátil.pdfUcrânia – Uma realidade pobre e volátil.pdf
Ucrânia – Uma realidade pobre e volátil.pdf
 
As desigualdades entre mais pobres e menos pobres.doc
As desigualdades entre mais pobres e menos pobres.docAs desigualdades entre mais pobres e menos pobres.doc
As desigualdades entre mais pobres e menos pobres.doc
 
Balofas palavras em dia de fuga para as praias.pdf
Balofas palavras em dia de fuga para as praias.pdfBalofas palavras em dia de fuga para as praias.pdf
Balofas palavras em dia de fuga para as praias.pdf
 
As balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia.pdf
As balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia.pdfAs balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia.pdf
As balas da guerra parecem beliscar pouco as transações de energia.pdf
 
União Europeia – diferenciações nos dinamismos sectoriais.pdf
União Europeia – diferenciações nos dinamismos sectoriais.pdfUnião Europeia – diferenciações nos dinamismos sectoriais.pdf
União Europeia – diferenciações nos dinamismos sectoriais.pdf
 
As desigualdades provenientes da demografia na Europa
As desigualdades provenientes da demografia na EuropaAs desigualdades provenientes da demografia na Europa
As desigualdades provenientes da demografia na Europa
 
A BideNato flight over
A BideNato flight overA BideNato flight over
A BideNato flight over
 
Um sobrevoo do BideNato.pdf
Um sobrevoo do BideNato.pdfUm sobrevoo do BideNato.pdf
Um sobrevoo do BideNato.pdf
 
NATO in the wake of Hitler - Drang nach Osten.pdf
NATO in the wake of Hitler - Drang nach Osten.pdfNATO in the wake of Hitler - Drang nach Osten.pdf
NATO in the wake of Hitler - Drang nach Osten.pdf
 
USA – A huge danger to Humanity.pdf
USA – A huge danger to Humanity.pdfUSA – A huge danger to Humanity.pdf
USA – A huge danger to Humanity.pdf
 
EUA – Um perigo enorme para a Humanidade.pdf
EUA – Um perigo enorme para a Humanidade.pdfEUA – Um perigo enorme para a Humanidade.pdf
EUA – Um perigo enorme para a Humanidade.pdf
 
A NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten.pdf
A NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten.pdfA NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten.pdf
A NATO na senda de Hitler – Drang nach Osten.pdf
 
Nato, Ucrânia e a menoridade política dos chefes da UE
Nato, Ucrânia e a menoridade política dos chefes da UENato, Ucrânia e a menoridade política dos chefes da UE
Nato, Ucrânia e a menoridade política dos chefes da UE
 
Speculative electricity prices in the EU
Speculative electricity prices in the EUSpeculative electricity prices in the EU
Speculative electricity prices in the EU
 
Os especulativos preços da energia elétrica na ue
Os especulativos preços da energia elétrica na ueOs especulativos preços da energia elétrica na ue
Os especulativos preços da energia elétrica na ue
 
Human beings, servants of the financial system
Human beings, servants of the financial systemHuman beings, servants of the financial system
Human beings, servants of the financial system
 
Seres humanos, servos do sistema financeiro
Seres humanos, servos do sistema financeiroSeres humanos, servos do sistema financeiro
Seres humanos, servos do sistema financeiro
 
Textos de circunstância - 10
Textos de circunstância  - 10Textos de circunstância  - 10
Textos de circunstância - 10
 
Glasgow – guinness mugs on the loose
Glasgow – guinness mugs on the looseGlasgow – guinness mugs on the loose
Glasgow – guinness mugs on the loose
 
As canecas de guiness e os co pos à solta
As canecas de guiness e os co pos à soltaAs canecas de guiness e os co pos à solta
As canecas de guiness e os co pos à solta
 

É o clima, estúpido!

  • 1. grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 1 É o clima, estúpido! António Dores 17/10/2017 Bill Clinton, na sua campanha presidencial, tornou famoso o slogan “É a economia, estupido!”. O seu vice-presidente, Al Gore, poderia ter preferido “É o clima, estupido!”. No caso dos fogos assassinos, em Portugal, que o governo reconhece que se irão repetir, há duas opções: manter o regime centrado em fazer crescer a economia – e como se sabe, mesmo no deserto, é possível encontrar como fazer dinheiro extraindo do solo (ou da zona marítima exclusiva) aquilo que lá possa haver – ou fazer um regime novo capaz de proteger as pessoas. A mudança de regime político, que todos sabemos necessária, mas não sabemos como se vai fazer, dá sinais de vida, pela boca do governo. A respeito dos desastres dos fogos, o governo insiste que o estado não é capaz de cumprir as suas funções: os fogos hão-de repetir-se, como já tinha avisado, e as populações só têm uma possibilidade de defesa: a auto-organização. O regime conduziu o país à incapacidade de defesa contra o clima e alheia-se das populações. O novo regime que há-de sobrevir já tem um mote para se orientar: favorecer a auto-organização das populações na sua luta contra os fenómenos climáticos extremos, única solução perante a auto-proclamada impotência do estado. Quem o diz é um governo das esquerdas. Que não pode, realisticamente, ser acusado de pretender reduzir o âmbito da intervenção do estado. O que ocorre, como é público e notório, é que há uma evidente contradição insanável entre os pressupostos de organização do ordenamento do território, incluindo a extracção de madeira, a política de florestação, o estatuto da propriedade, e a protecção da vida das pessoas e dos respectivos bens. O regime democrático de integração europeia, em Portugal, caracterizou-se pela infantilização, pela despolitização, pela anestesia da autonomia das populações, em nome da autoridade e competência dos partidos e, de quando em vez, da ciência. Esta democracia que se afunda, assim desenhada, ajustou-se bem à globalização: a minoria bem formada e bem colocada recolheu os frutos do seu
  • 2. grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 2 cosmopolitismo. Temos os CEO mais bem pagos da Europa. Tratam o resto das pessoas com salários de miséria e uma desorganização muito bem organizada – como aquela que permitiu os escandalosos colapsos de todos os bancos portugueses e da PT, mais a corrupção associada ao financiamento de partidos e/ou de governantes. As reacções do governo aos desastres dos fogos, a posição de indiferença da ministra responsável pelo sistema de protecção civil à vergonha nacional – aparentemente agarrada ao poder por ligações partidárias impossíveis de desgrudar – reflecte bem o regime da pesporrência. O secretário de estado, quando explica que do estado não se pode esperar mais, além de sinceridade, está a mostrar o caminho que, racionalmente, um novo regime político útil deveria saber inaugurar: a auto-organização das populações na sua própria defesa. Para o que a geração mais bem formada de sempre, embora ensinada na complacência, poderia, caso esteja disponível, dar uma ajuda preciosa. Por exemplo, ajudando a multiplicar iniciativas como as da Rede Reflorestar Portugal, da Aliança pela Floresta Autóctone ou da APAGAR – Aliança Para Acabar com as vaGAs Recorrentes de Fogos. Os defensores da tese da mão criminosa deverão ponderar quem deve passar, a partir de agora, a ser perseguido: os tachistas que usam o comando da protecção civil para subir na vida, desorganizando pelo caminho a capacidade de intervenção do estado, ou as populações que resistem a viver fora das cidades, despolitizadas pelas políticas das últimas décadas e agora chamadas, sem mais avisos nem preparação, à auto-organização? Quem precisa de se auto-organizar é todo o povo português (e, na verdade, europeu e norte-americano). O regime democrático fez do País, em termos de ordenamento do território e protecção civil, aquilo que o governo reconhece: um país ingovernável. Aquilo que as escolas e as universidades fizeram, a respeito da consciência ambiental, foi integrar as preocupações ecológicas em recomendações de consumo. O beco sem saída é hoje evidente. Mas é preciso tirar daí consequências políticas: este regime não serve as populações! Um país à espera da desertificação causada pelo aquecimento global, em vez de se preparar e desenhar uma estratégia para enfrentar os novos tempos, entretém-se a auto-satisfazer-se com o crescimento. Está tudo a correr bem, no campo económico e financeiro, mostram os números. Os fogos excitarão ainda mais o crescimento, pois será preciso reconstruir e comprar mais coisas para substituir as que agora arderam, a somar às despesas da própria actividade de combate a incêndios. Isto prepara-se para ficar um deserto e os governos, nacionais e locais, continuam a explorar a terra e as pessoas, como habitualmente. Para quem manda e deveria ser responsável, de facto, a desertificação não é um
  • 3. grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 3 problema. Se as estradas passarem a estar intransitáveis, passam a fazer campanha de avião. Quando a separação de interesses fundamentais entre quem nos governa e quem é governado se torna tão profunda como o é actualmente, há que acenar com espantalhos e prender uns bêbados, que não servem para outra coisa senão fazer de bodes expiatórios. Já limpar da corrupção o país e, também, a indústria de fogos, isso – é preciso tomar consciência – não está a ser feito. Basta ler os trabalhos da TIAC para o saber. A justiça criminal previne crimes depois deles ocorrerem. Como dizem os juristas, é óptima a tratar de bagatelas penais, a prender pilha galinhas. Já é praticamente impossível tratar com a corrupção ou a criminalidade de colarinho branco, diz-se. Como se pode ver no caso Sócrates. Aquilo que o João Cravinho gritou aos sete ventos, para quem o queria ouvir – de que a corrupção estava instalada ao mais alto nível do estado (que ele conhece tão bem) – não serviu de nada. As vozes do Banco Central Europeu, anos antes, quando avisou que o primeiro problema financeiro de Portugal era a corrupção; ou da recente campanha presidencial de Paulo Morais, cuja popularidade política se pode comparar com a de Isaltino Morais, esbarram com a indiferença nacional. Tal como a guerra colonial ditou o fim da ditadura mais de uma década antes do 25 de Abril, a crise financeira de 2008 ditou o fim do regime democrático em Portugal, que se arrasta por falta de capacidade de encarar as realidades. Em vez de ser dada a voz ao povo, a voz foi entregue à Merkel e aos seus banqueiros preferidos, através da política “Para além da Troika!”. Ficou evidente que o capital português vivia da especulação e corrupção (de que a PT é o melhor exemplo). Como seria de outro modo se a convicção dos economistas de serviço era – como o disse Guterres na ocasião da entrada no Euro – Portugal não precisava mais de se preocupar com problema financeiros, a cargo da Alemanha e outras grandes potências? Com Passos Coelho, passou-se à ideia consensual do controlo financeiro, depois da entrada de novos investidores (chineses, Vistos Gold) e novos velhos gestores (até então, de segunda linha), nos bancos e empresas do regime e na política. Em 2014, a aliança de todas as esquerdas interrompeu, aparentemente, o interregno da soberania nacional. Porém, a herança do regime decadente na ordenação do território – usada pela aliança corrupta entre autarcas, partidos, construção civil, para lavar e criar dinheiro – não foi subvertida. Adaptou-se às novas circunstâncias. O megaprocesso criado em torno de Sócrates pela Procuradoria-Geral da República, para se auto-legitimar e recuperar da cegueira que caracterizou a sua congénere até à crise financeira, consome todas as energias judiciais. O
  • 4. grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 4 julgamento do regime, como é típico do nosso estado, demorará tempo suficiente para quando acabar já o regime tenha acabado. A política continua a ser a distribuição pelos amigos e a justiça porrada nos mais desprevenidos. Apesar do peixe graúdo, e visto existir esse peixe graúdo, como fazia o humorista, há que perguntar: “Que dê os outros?” Ninguém sabia de nada? Eu acredito que de facto, como aconteceu na Casa Pia, ninguém sabia de nada. Porque o único que queria saber de denunciar os problemas estava isolado e era tratado com doido. João Cravinho, Ana Gomes. Quem quer fazer figura de alienado num país de gente cordata? Na prática, continua a haver quem ganha balúrdios por alegadamente ser de uma competência singular, nomeadamente por ter a desfaçatez de usar influências para circular entre os sistemas público e privado, entre o partido e a construção civil e a banca, entre os meios de comunicação social e as sociedades secretas. Aprende – como disse o Salgado ter aprendido – que nunca se confessa a culpa e o dolo. Se tiver que ser condenado, que seja no fim do final mais longínquo possível. E sempre alegando inocência e perseguição política, como terá ensinado Berlusconi. O país assistiu à novela da licenciatura do Sócrates, alinhando na complacência dos comentadores (que isso era irrelevante para a política, diziam). Mesmo que a universidade que lhe concedeu a licenciatura tenha sido fechada pelo governo de Sócrates, nada perturbou o marasmo. O homem até teve a lata de se queixar à justiça de difamação contra quem quis manter o caso na praça pública. Em 2017 ficámos a saber algumas das consequências dessa atitude nacional: a inoperacionalidade dos comandos da protecção civil, tomados por partidarite. Mais preocupados em fazer cursos superiores à pressa para agarrar os tachos do que a assumir responsabilidades públicas pelos seus actos. No caso dos incêndios em Portugal, o estado falhou! O estado criado pelo regime democrático, que custa a derrubar, é um perigo. Está tomado por interesses alheios à protecção das pessoas e bens. Ele próprio reconhece a necessidade de auto-organização dos portugueses, se se quiser pensar em fazer alguma coisa quanto ao prognóstico de desertificação do país, no fim do século. Ou antes. É urgente reinventar a democracia, num regime novo, antes que a extrema- direita, como está a fazer em grande parte da Europa e nos EUA, faça do regime que está para vir uma ditadura belicista e persecutória dos direitos e liberdades individuais. https://sociologia.hypotheses.org/569
  • 5. grazia.tanta@gmail.com 13/11/2017 5 Este e outros textos em: http://grazia-tanta.blogspot.com/ http://www.slideshare.net/durgarrai/documents https://pt.scribd.com/uploads