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O apelo dos movimentos gregos e a situação política na europa

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Verifica-se na Grécia, hoje, uma escalada na violência de caráter fascista que atinge e mata, imigrantes, esquerdistas e outros “impuros” no conceito da Aurora Dourada, aglomerado de grupos nazis, objeto de grande tolerância por parte do governo; também este, da troika.
À esquerda, mormente na institucional, domina a ideia de que vivemos em democracia plena, menosprezando as práticas repressivas, a vigilância de todos os actos, a remessa de pensionistas, desempregados e pobres, previamente criminalizados, para o abandono, para uma morte antecipada.
Apesar dos avanços realizados, é ainda insuficiente a solidariedade, a coordenação, a organização dos povos contra a deriva empobrecedora emanada do neoliberalismo e que traz o fascimo à espreita
Apelamos à construção de uma solidariedade ativa com o povo grego.
A Grécia é também aqui em Portugal; também somos gregos

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O apelo dos movimentos gregos e a situação política na europa

  1. 1. O apelo dos movimentos gregos e a situação políticana Europa Rui Viana Pereira e Vítor LimaVários movimentos gregos lançaram há dias uma proposta para que se reponha naordem do dia a luta militante antifascista e antinazi.Este apelo deve ser lido à luz da situação particular vivida na Grécia, onde o partidoneonazi Aurora Dourada cresceu de forma assustadora – é o terceiro partido de âmbitonacional com representação parlamentar e no momento em que escrevemos estas linhas(setembro-2012) as sondagens colocam-no já em segundo lugar (30%). O AuroraDourada não se limita a fazer propaganda dos seus ideais – em plena luz do dia executaimigrantes, ciganos, minorias (turcos da Trácia), homossexuais e militantes de esquerda.O posicionamento geográfico periférico e a longa ausência de guerra no territórionacional torna os portugueses, incluindo boa parte da esquerda militante, relativamentealheios ao que se passa além de Badajoz e a terem subjacente um nacionalismo serôdio.Mesmo uma unidade de acção ibérica tem sido difícil de implantar. Ora esse pendornacionalista promove a percepção errónea de que há uma saída localizada para a crise,através de memorandos nacionais gizados pelo capital financeiro global, e dificulta oentendimento do que é o fascismo, visto de forma simplista e caricatural numa visão dopassado. Convém por isso fazer algumas chamadas de atenção.Em primeiro lugar destacamos a questão da solidariedade internacional e a experiênciahistórica – iremos virar costas ao apelo de camaradas em luta contra tropas de choquenazis bem armadas, à semelhança do desprezo votado no passado aos resistentesespanhóis por uma parte da Europa? Devia ser claro que o crescimento de ummovimento de extrema direita num país europeu tende a prenunciar uma vaga deextrema direita em toda a Europa. Neste momento já temos pelo menos dois exemplosextremos à vista: a Grécia e a Hungria.Tarda em ser entendido que a deriva fascista comporta uma lógica genocida(provavelmente sem Auschwitz) que tende a promover uma condenação em massa decategorias sociais, como os desempregados, os pobres, os reformados; uns vocacionadospara uma morte antecipada, outros para a emigração, outros ainda para formas detrabalho degradantes. A esquerda europeia ainda não incorporou que, com afinanciarização, a criação de valor é supérflua e o trabalho desvalorizado, tornando-seos potenciais trabalhadores um estorvo, um simples custo social.Estamos cientes de que o regime de democracia burguesa nunca foi verdadeiramentedemocrático; sempre serviu para defender os interesses do capital; sempre foirepressivo; nunca foi equitativo – donde, segundo muitos teóricos, tudo estaria adecorrer na normalidade. No entanto não é possível arrumar a questão desta maneirasimplista. É preciso verificar se o comportamento «normal» do regime de poderultrapassou uma determinada fronteira, configurando uma mudança qualitativa doregime. Trocando por miúdos: • As empresas e os locais de trabalho nunca foram espaços de democracia mas sim de hierarquias rígidas e de autoritarismo. Porém, a contratualização
  2. 2. individualizada, precária, sem horários e com direitos restritos vem-se tornando regra consagrada por lei. Esta entrega ao foro privado da negociação e arbitragem entre partes desiguais, com demissão do papel do Estado e deixando os mais fracos desprotegidos, constitui uma clara regressão a formas de regime totalitárias ou medievais, com extinção de algumas das funções do estado de direito.• Já sabíamos que a justiça não é igual para todos, que nenhum trabalhador tem meios e recursos para se defender capazmente em tribunal. O que não era corrente vermos (à parte excepções pontuais) era a aplicação sistemática de dois pesos e duas medidas e até a profusa publicação e aplicação de leis contraditórias entre si. Não era corrente vermos todas as semanas as autoridades centrais e autárquicas actuarem à revelia da lei, sob protecção dos tribunais e das instâncias de fiscalização do regime.• Que o exército, os tribunais e as «forças da ordem» servem essencialmente para reprimir os trabalhadores e a contestação, já nós sabíamos. O que é novidade é a perseguição sistemática dos militantes de esquerda, dos subscritores das manifestações, dos imigrantes e militantes nos bairros de lata. Estas acções têm vindo a crescer nos últimos anos e atingiram no último ano um grau iniludível: citação em tribunal de centenas de militantes; execução sumária em bairros de lata da periferia metropolitana, feita pelas «forças da ordem», com exibição de material bélico pesado e leve, criando cenários semelhantes aos de uma zona de guerra; etc.• As instâncias do poder político e do poder cultural sempre procuraram manter o controle da população através da vigilância mútua e da pressão social. As minorias culturais, religiosas, étnicas, artísticas e de género são tradicionalmente contidas e reprimidas por esse sistema repressivo, tão barato e eficaz. Os regimes autoritários, porém, vão mais além: instituem a obrigação de cada cidadão ser o bufo do seu vizinho. Embora o convite à denúncia mútua nas sociedades democráticas europeias tenha sido iniciado aparentemente por boas causas (contra os abusos sexuais, a violência doméstica, etc.), está claramente a extravasar para muitos outros aspectos do quotidiano.• A autocensura e censura social são um dos mecanismos universais de manutenção do poder. Esta situação «normal» ultrapassa uma certa fronteira de regime quando a censura é institucionalmente instalada. No actual sistema a censura foi entregue à iniciativa privada – a substância é a mesma, apenas a forma é diferente: certos aspectos do estado de direito foram anulados em favor do exercício directo e privado do poder pelas empresas. A breve prazo assistiremos igualmente à privatização na administração da justiça, das polícias, etc. (leiam o Memorando da Troika).• Todos os regimes autoritários ambicionam o panóptico – o escrutínio de todos os actos, de todas as pessoas, a todo o instante. Muito antes da invenção da câmara de vídeo foram construídas prisões onde esses princípios foram aplicados. Hoje vivemos num sistema panóptico total, tecnicamente capaz de constituir bases de dados imensas sobre a vida de cada um de nós, de nos vigiar 24 horas por dia através de meios visuais e electrónicos. George Orwell deu-nos o retrato duma sociedade totalitária, policial e panóptica no seu auge. É nessa sociedade panóptica que vivemos actualmente.
  3. 3. • O facto de não haver brigadas de nazis encarregues de exterminar os idosos, os incapacitados, os indigentes, os homossexuais, as minorias e o pensamento livre não significa que esse massacre não esteja a acontecer. Perguntem, por exemplo, aos doentes em tratamento de hemodiálise, de norte a sul do país e em especial nas aldeias, aos quais foram retirados os meios de acesso aos centros de tratamento. Ah, é verdade, não podem perguntar, porque essa realidade não implica tiros, bombas ou câmaras de gás, e desaparece rapidamente da vista por si mesma (prazo de vida: 3 dias). Também não podem perguntar aos milhares de imigrantes sem documentação legal o que aconteceu aos seus filhos, para onde foram levados e porquê, porque esses imigrantes ou não existem oficialmente, ou não ousam manifestar-se, mesmo quando os filhos lhes são roubados. Muitos outros exemplos de extermínio poderiam ser dados.Em Portugal a perseguição e execução de militantes e camadas da populaçãomarginalizadas já começou. Alguns dos corpos policiais transformaram-se em brigadasde acção nazi. Aqui não há necessidade de brigadas neonazis gregas – o próprioaparelho de Estado se encarrega dos procedimentos neonazis.Todos os povos da Europa se encontram sujeitos à mesma deriva autoritária. Podemosainda não estar na posse de uma palavra que exprima sinteticamente esta realidade emcurso – mas isso não anula a realidade.Por tudo isto, o essencial do apelo grego à militância antifascista faz sentido, emboraem termos europeus tenha de ser reformulado para se tornar mais abrangente face àscircunstâncias particulares de cada país.Os movimentos políticos que não queiram reconhecer esta realidade assumirão a mesmaresponsabilidade histórica que lhes coube nos casos da Alemanha e da Espanha, naprimeira metade do século XX – já para não falar da Itália, de Portugal, de vários paísesda América Latina e do Oriente, e da Europa de Leste.Os regimes autoritários são como a gripe: depois de a apanharmos, ficamos vacinados,acabou-se o problema; mas o problema regressa quando o vírus evolui para uma formamodificada, totalmente nova – o resultado é sempre o mesmo: gripe. Os regimesautoritários e antidemocráticos partilham este efeito surpresa – só damos por elesquando já estamos infectados, a não ser que observemos atentamente os sintomas ànossa volta e tomemos as precauções devidas.Não devia ser difícil diagnosticar os sintomas do vírus do autoritarismo. Incluemsempre a instituição de novas formas de exploração do trabalho a níveis próximos daescravatura, do trabalho forçado ou da servidão; novas formas de desapropriaçãomassiva; novas formas extremas de desigualdade institucionalmente implementadas;criação de cidadãos de 1ª e de 2ª categoria; silenciamento total da oposição (por meiossuaves ou por meios sangrentos, mas em todo o caso eficazes); destruição, numa dadafase do processo, dos meios de produção e das forças produtivas (incluindo oextermínio, por meios directos ou indirectos, de uma parte da força de trabalho), deforma a gerar no momento seguinte uma maior taxa de lucro do capital – a soluçãoclássica, «perfeita», costumava ser a guerra, mas isso não significa que não haja outras.Será o médico de serviço capaz de reconhecer os sintomas ou tornar-se-á co-responsávelpela morte do paciente?
  4. 4. Poderá haver quem argumente que tocar a rebate pela luta contra o novo tipo defascismo que se desenha no horizonte é um passo atrás – que nos faz perder de vista aquestão essencial, que é a da contradição entre o capital e o trabalho, o salto para umasociedade nova e mais justa. Foi por causa dessa ligeireza política que Allende morreunum Chile que muitos consideravam definitivamente democrático. E foi então que oChile se tornou o primeiro laboratório do neoliberalismo.15 setembro 2012

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