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Volta a ser mais claro agora que antecipar o humano à lei e ao capital não émais do que querer viver. Voltando (?) a ser n...
nasce na arbitrariedade e faz-se valer da violência. Rege a tua vida. Éconfronto. Estabelece-te como um oponente, ao mesmo...
violência, alguém deu sumiço aos maus, que voltarão no próximo episódio, eainda podes contar com o sorrisinho do pivot ao ...
causa mal-estar, pensa se essa determinação e energia não têm de estarcontigo da próxima vez em que sairmos à rua.Na verda...
intrínseca a esses aparatos de poder – de flagrar essa realidade doméstica coma brutalidade da violência que o seu regime ...
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Reflexão sobre os tempos que correm. Do amigo "Vadio"

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Lembras-te de Mohammed Bouazizi ?

  1. 1. Lembras-te de Mohammed Bouazizi?(como recuperar a memória do confronto)Eu sei que te recordas, facilmente te recordarás: era aquele jovem que vendiafruta e legumes em Sidi Bouzid. Imolou-se, e veio a morrer dias depois emconsequência da imolação.Bouazizi tinha um diploma como tu; desemerdava-se com o seu carrinhoambulante, tal como tu te orientas com as tuas merdas, para contornar oabandono a que te sentes votado pela sociedade, pelo Estado, pelo mundo quete rodeia. Bouazizi já não tinha sequer a solução da emigração, porque a nossaquerida Europa deixou de precisar “deles”, sabes como é: abriu-lhes as portasquando dava jeito para enriquecer mais um pouco e depois atira-os ao mar,bye bye, hasta la vista.Não queria começar a falar num tom mais sério, porque estamos todos tãofartos que já nos fartamos de tudo. Estamos fartos de ler o jornal, fartos dereceber emails, fartos da mesma conversa na rua... Não queria que mecompreendesses mal. Se escrevo, não é para fazer-te mal, mesmo se por vezespareço estar contra ti por causa das interrogações que me parecem necessáriaspara atravessar o deserto de olhos abertos. Pensar em determinados ângulos devisão só nos fará bem. Mas não os tomes como pontos fixos. Nem de fuga àrealidade, aquela que nos espera fora dos plasmas, das redes sociais, dostextos de circunstância.Dá-me o benefício da dúvida: não te apresses a compreender-me, às minhaspalavras, se gastas tanta da tua compreensão, no dia-a-dia, para encaixares omal-estar que te provoca este tempo de impostura política, de opressão social,de barbárie humana e ecológica. Repara: o patrão exige-te a qualquermomento que lhe obedeças e que o ouças, dita-te tudo tim tim por tim tim, outem alguém que faz isso por ele, e tu comes e calas; o governo sussurra-tetodos os dias aos ouvidos, naquele ar contido e esgazeado dos tecnocratas,uma melopeia cínica, pedindo-te encarecidamente que acredites na mentira,que engulas a austeridade como inevitável e para todos, e que as medidasgovernamentais, determinadas pelo círculo dos máximos responsáveis pelaconjuntura social actual, são para o bem comum, em suma, o governo manda-te rever por baixo a tua condição de explorado, oprimido, humilhado, e pede-te estabilidade, sacrifício, contenção, ordem; a TV entra-te pelos olhos dentroe desvia para canto a realidade, desvia-te da tua realidade, uma espécie denarcótico, cujo contrabando está nas mãos de um cartel de elite, hábil nafabricação da realidade, exímios ficcionistas sociais; os bancos esmifram-te oque tens e o que não tens...
  2. 2. ...então, se estás embebid@ neste interminável programa organizado deintoxicação dos teus neurónios e se apanhas, a toda a hora, socos no estômago,diz-me, será que podes ouvir o que tenho para dizer? Será que o teu mal-estarpode ser provocado por um simples texto? Será que é a mim e a outr@s, cadaqual à sua maneira, que te dão um treino menos digestivo ao estômago, quedeves rechaçar de uma assentada e, na maioria das vezes, por reacçãoemocional, as perguntas que te damos? Não te iludas, não são as “perguntas”que te encostam contra a parede. As “perguntas” apenas te impedem de nãover o que teimas não querer ver: que a parede já lá estava e continua a serconstruída; que tu, e eu, e tantos outr@s, estamos cercados, por todos oslados.Sei que te apressas também a pedir-me brandura, que escreva o que tenhoa dizer como se tratasse de uma tese e dedicasse o último parágrafo à síntese,às conclusões. Em suma, que ordenasse os factos e os acontecimentos sem osinterrogar ou pôr em causa. Por outras palavras, aceitando-os, isentando-mede interrogar a realidade, esse pobre papel levado tão a peito pelosjornalistas*.Porquê isentarmo-nos da realidade? A realidade não é uma conclusão? Adestruição do bem-estar da tua vida por uma ordem económica e autoritárianão é uma conclusão? A morte brutal de milhares de iraquianos não é umaconclusão? A eliminação do sistema público de saúde não é uma conclusão?A perda contínua de direitos laborais não é uma conclusão? O alargamento dofosso entre ricos e pobres não é uma conclusão? (Conclusão essa numcontexto de crescimento económico...!) A hipocrisia dos discursos dosgovernantes não é uma conclusão? O poder discricionário das agências derating não é uma conclusão? A desastrosa cultura anti-ecológica dominantenão é uma conclusão? Guantánamo não é uma conclusão? Polícia à paisana abater e prender manifestantes numa rua de Lisboa, não é uma conclusão?Alguns também me chamarão de trágico, quiçá de vate.O Vale do Ave e o Grande Porto são tradicionalmente as regiões do paíscom as taxas de sucídio mais baixas. No Ave, ainda entre 1996/99,suicidava-se uma pessoa por 100 mil habitantes, bem longe da realidade doAlentejo, onde em alguns concelhos mais de 30 pessoas por 100 milhabitantes cometem anualmente suicídio. Sabe-se também pelos dadosexistentes que são sobretudo os homens que se suicidam. E a diferença, emrelação às mulheres, é significativa.Nos últimos anos, na região do Ave, a realidade parece ter mudadoabruptamente. Em 2010, um alto responsável de saúde falava em mais de 30suicídios nesta região. O director do Departamento de Psiquiatria e SaúdeMental do Centro Hospitalar do Alto Ave afirmava que “num ano fizemos 15mil consultas, 200 internamentos e temos seis mil pessoas em atendimento
  3. 3. continuado”, por motivos de saúde mental. Outra técnica do mesmo serviçohospitalar, referindo-se ao problema do suicídio e apenas no Alto Ave,explicava “que num só ano de avaliação destes casos foram 162 as tentativasde suicídio na região do Alto Ave, 128 das quais perpetradas por mulheres e34 por homens”.Que circunstâncias podem explicar esta alteração súbita e, principalmente, querazões podem explicar esta disparidade relativa entre as tentativas de sucídiodas mulheres, que agora se sobrepõem exponencialmente às perpetradas peloshomens?Será da depressão acentuada do Vale? Condições orográficas específicas?Masoquismo genético por consanguinidade geográfica? Valerá a pena fazer ascontas? Determinar a percentagem de crescimento do suicídio feminino?Estabelecer o índice de suicídio X, ípsilones acima da média habitual para aregião? Porque se apaga este desesperante mal-estar social? Por que razão atéhoje nenhum suicídio do Vale do Ave foi visto como um acto de desesperopolítico? Acharás também que o facto de a prostituição feminina teraumentado visivelmente no Ave é uma questão de gosto pessoal? Economiaalternativa? Ali abundam factos que estabelecem a ligação da lógica de podercapitalista ao patriarcado. Observa-se como os fins lucrativos domercantilismo, ao assentarem numa visão patriarcal, ganham rentabilidade aofazerem perdurar uma discriminação sobre a mulher, que sofre uma “dupla”opressão conjugada.A prostituição e o sucídio são gestos extremos. Gestos carregados até à bocacom o silêncio. Ou, mais precisamente, carregados pela atmosfera desilenciamento. Gestos coagidos a reprimirem o próprio grito. E esses gritosreprimidos, se audíveis fossem, atingir-nos-iam. Como nos atingiu a imolaçãode Mohammed Bouazizi. E se ninguém havia reparado nisso é porque asestruturas sociais que determinam o que é e não é político lavam a humilhaçãoa que homens e mulheres anónimos estão submetidos e sublimam osofrimento humano através do prozac; do gabinete do psicólogo, que encerra ahumilhação económica e espiritual em causas individuais; através dos padrõesde sucesso e insucesso moldados pelo omnipresente central-shopping, essaamável atmosfera de luxo e falsa abundância; através do culto ao artigo-consumidor, do Ferrari do patrão à publicidade, esse programa contínuo dastelevisões; através da impostura dos Centros de Emprego, pressionando osdesempregados (já em si fragilizados pelas condições de violência económicaque enfrentam) a aceitarem a integração na máquina exploratória, oupromovendo acções de formação compulsivas, que qualificam para melhorproduzir, ou seja, para tornar mais eficiente a exploração, sem qualquer intuitode fortalecer os recursos dos trabalhadores para melhorarem a sua condiçãolaboral; enfim, apaga-se a condição do suicidado pela sociedade através dadestruição dos laços comunitários e, nessas latitudes nortenhas, ainda com a
  4. 4. excomunhão da alma-penada católica. Esse apagamento planeado das razõespolíticas e sociais do mal-estar humano, enfraquece-nos e destrói o sentimentode pertença a um colectivo, tudo aquilo que, a pouco e pouco, serviu e serve arenovada estratégia do neoliberalismo, o braço cultural do capitalismo: fazercrer que cada um de nós é um corpo-autómato que vive separado da realidadedos outros... tudo aquilo que engendra as condições óptimas de inércia eisolamento, a ponto de a cultura dominante ter feito de cada um de nós umaespécie de técnico de assistência à eutanásia colectiva.Porém, tomados por átomos individuais, continuamos a ser usadossecularmente, em massa, na engrenagem colectiva da organização da mentiraeconómica do capitalismo: a máquina de produção. Como se pode chegar aoartifício de fazer crer que o espaço físico e temporal onde as pessoas passammais horas da sua vida activa não é, precisamente, a matéria mais política quepode existir (existe) na vida social? Se esse espaço se intromete na existênciahumana dessa forma tão extensa, como despolitizar todas as consequênciasque acarreta estar compungido a um local de trabalho, onde se é explorado,onde não se dispõe de poder de decisão, onde se está submetido a umahierarquia, onde se faz, na maioria das vezes, um trabalho entediante, triste,opressivo, onde não se tem acesso ao que ali se passa, mesmo se o que ali sepassa é feito à custa do esforço e do sacrifício do trabalhador?O que tens a dizer? Que os problemas do Vale do Ave (que estão por todolado, mas ali concentrados) são inevitáveis?Diz-me, consegues tu explicar porque é que nos jornais não saem aquelasinfografias tão catitas, já não com bonequinhos em chamas na orla sul domediterrâneo mas com a corda do enforcado ou frascos de anti-depressivos?No teu jornal de eleição, não haverá ninguém especializado na farsa a frio?Tu conheces a lengalenga. Mas não te enganes. O ditado que corre de bocaem boca é a versão popularizada composta pela História oficial. Se te abeirasdas gentes dali e dacolá, tentando perceber como eles problematizam oproblema, porque enfrentam eles um contexto crónico de violência económicae social, ou, mais correctamente, porque foram submetidos a esse contexto,enquanto o patrão que os esmifrou se passeia sem peso na consciência e umincalculável peso na carteira, escutas como resposta: “Foi porque o patrãotrabalhou para isso...”, apesar de terem sido eles a esfalfarem-se, a fazerem opior trabalho, o mais rotineiro, o mais cinzento, o mais pesado, o mais sujo,apesar de terem trabalhado uma vida inteira para alimentar a opulência dopatrão; tu não aceitas essa versão e, então, eles e elas emendam a resposta,dizem, talvez tenha sido dos estudos, “estudou para isso o nosso patrão...”,esquecendo-se da sua própria filha diplomada e caixa no Intermarché, ouinscrita nessas agências de viagem à exploração em classe resort, à espera deuma vaga para camareira na Suíça... a troco, claro, de ter escondido que tem
  5. 5. um diploma, de que nada lhe serviu (tirando o estágio não remunerado que fezna fábrica do patrão dos pais, esse que para vencer na vida não precisou dediploma, munido que estava com um mestrado na arte do roubo organizado), ede ter pago uma maquia em euros pelo serviço da agência, essas que em brevereceberão subsídio do Estado para lucrarem em privado com a fraude daexploração pública; então, posto a nu que afinal o patrão não passa de umanalfabeto equipado, o tom da resposta muda um tanto, pressente-se que aconvicção começa a claudicar, então, então, “o patrão teve sorte!”, apre quesão sempre os mesmos poucos a ter sorte e tanta gente sem sorte nenhuma;apesar de menos crédulos, resta-lhes a expressão com que se refaz o mundo,um sentido total para a submissão e a exploração, mas inapreensível pelarazão: “Foi Deus que assim o quis”. Que qualquer deus seja umaarbitrariedade, ontem como hoje, não foi precisa muita ciência para que ocapitalismo o destronasse, como profeta incontestado dos tempos modernos.Tu, que já não tens a desculpa da crença na nossa Senhora, talvez queirasagarrar-te à mentira da meritocracia. Até onde penetrou a cultura liberal no teupensamento? Vamos, compete lá, já começaste a competir pelo teu mérito...mas convém que não olhes para as estatísticas, evita a náusea, toma I-só-star eserás o campeão… é que entre 700 mil desempregados (oficiais, fora aquelesque por instinto, consciência ou cansaço, há muito sabem da inutilidade deestarem inscritos numa anomalia), e 1 milhão de precários, olha que tens quecorrer muito, vá lá, por este andar ainda alcanças os mínimos para ires ao Rioem 2016, que rico carnaval mercantilista será…Explica-me, como podes acreditar na democracia (por democracia suponhoque entendes o que diz o senso comum, igualdade de direitos e oportunidades)se passas a tua vida num local de trabalho onde não experimentas ademocracia? Onde não só não experimentas a democracia, mas és estimuladoà competição, ao individualismo, ao falso mérito, à obediência, àimpossibilidade de questionar o poder estabelecido nesse local onde passas avida, ainda assim, acreditando que acreditas na democracia? Diz-me, qual é atua evasão? Vergas pouco a mola, és maganão? (Não seria a menos resilientedas atitudes... Por falar nisso, será que se os maganões fossem tãosignificativos em número, seria possível criar tanta riqueza acumulada, tantafortuna nas mãos da oligarquia?).Se sabes que racionalmente não há compatibilidade nenhuma entre aconstrução da democracia, das tuas necessidades, da tua palavra, do teu direitoa viver, com o desprezo humano que está imbuído nas organizações ondetodos estamos integrados (que sob a lógica do mercantilismo, do lucro, dosmercados, qual pesadelo global, se baseiam no princípio da hierarquia, doautoritarismo, da oligarquia, do segredo, e da força da violência), comocompatibilizas a “verdade” da tua vida e dos teus valores com a mentira que tecerca? Dir-me-ás como fazes, para te compatibilizares na tua vida diária com
  6. 6. essa mentira que nos cerca? Diz-me, não terás uma única esperança, as tuasentranhas não guincham?Ali no vale do Ave vê-se melhor a precariedade em que assenta aglobalização neoliberal, base em que por sua vez assenta toda a sociedade e acivilização capitalista. Via-se desde há mais de uma década o que nas nossasvidas parecia estar a salvo (fazer-te crer que estavas a salvo, fazia parte dailusão, da cosmética e do marketing das indústrias de distração), quandoapenas estava um pouco mais oculto, mas já entranhado na nossa pele. Agoravês.Ali também se estabelece a relação com a crise ecológica global. Com odesprezo pelo ambiente natural, com a utilização devastadora e anti-racionalde recursos. Da urbe veio o que nela é pobreza para aniquilar o que no“campo” era riqueza. Na medida em que a civilização assenta na escravizaçãoda natureza não existirão pessoas livres, sociedades igualitárias eautodeterminação generalizada. Não existirá sustentabilidade ecológica sem odesmantelamento da máquina de produção e consumo do mercantilismo.A Indústria e a ideologia do industrialismo significam a dominação técnicados meios do capital para atingir os fins do capitalismo, à custa da submissãodos trabalhadores e da exploração irracional dos recursos naturais. Amaquinação, a automação, a tecnologia moderna, a tecnociência, sãorealizadas dentro de um plano de necessidades da produção capitalista, da suaexpansão e domínio. A Indústria e o mito do (falso) progresso que a legitimanão nasceram de uma necessidade esboçada pela sociedade, entendida estacomo colectivos conscientes e politicamente capazes de decisões conjuntas,nem procuram na sua essência a emancipação humana. Se quisermos entender(ecologicamente) a humanidade no seu todo, se admitirmos o princípiodemocrático de que humanos somos todos – todos, e não apenas “nós,brancos, ricos e civilizados”... –, se não condescendermos que a abundânciamaterial é um bem em si e que a degradação espiritual é um mal menor,dificilmente encontraremos argumentos para ver na industrialização umprocesso emancipatório. Sobretudo, se questionarmos o resultado maisprofundo e nocivo deste falso progresso: a renúncia humana a ser dono e donadas suas próprias condições de vida.No ensaio eficaz da sociedade mercantilista no Ave, vê-se a Europa e omundo. E o que vês (particularmente na Europa) parece-me medonho: ocapitalismo avançado (é sempre divertido dar uso a este tipo de jargão tãosedoso...) foi tão longe que para o capitalismo sobreviver tem de hojeregressar ao capitalismo primitivo. A Europa que acumulou recursosmateriais, tecnológicos, culturais, científicos – à custa da exploração contínuae da pilhagem de bens naturais nos países dominados -, como provavelmentenenhum outro continente (o ponto de vista da acumulação vale por ser uma
  7. 7. constatação, não cabendo nesta passagem nenhum cunho avaliativo a esseprocesso de acumulação), não conseguiu mais do que conduzir a sociedade aeste beco absurdo: a proletarização caminha para que um assalariado trabalhepara fortalecer o poder e a riqueza de uma elite, não assegurando ao mesmotempo para si as condições necessárias para pagar a casa onde vive e a suacomida. Nem ao senhor lhe ocorreria negar um tecto e a comida aos seusescravos...Em termos gerais, a campanha do capitalismo actual é baixar salários, destruirdireitos laborais e restaurar condições reais de submissão dignas de traficantesnegreiros, esvaziar (ainda mais) os sindicatos e, com estas linhas de força,fortalecer o seu poder e manter o nível dos seus lucros. Nestas crises, queservem para o grande capital redefinir a sua parada, constata-se que ospoderes que regulam governos e economias não só já não se esforçam poresconder que legitimam com as suas acções e práticas políticas a desigualdadeexistente e o ecocídio actual, como provam que desejam expandi-las. Isto é,tornar essa realidade, já de si intolerável, não só real e planetária, como dar-lhe corpo de lei e normalizá-la. Uma agenda de dominação e de devastação.Num olhar atento, saltará à vista a coerência entre o princípio capitalista decrescimento contínuo (premissa anti-económica e, por isso, irracional) e estaintrínseca necessidade de o capitalismo só conseguir sobreviver se se expande,se essa agenda de dominação e devastação cresce continuamente.Na Europa pejada de recursos, parece uma ironia de mau-humor que massasmaterialmente privilegiadas (nas últimas três décadas, uma geração cresceugeneralizadamente com um manancial de condições materiais dificilmentecomparável em grau a qualquer outro período histórico na Europa) sóreconheçam o colapso de uma fase do capitalismo quando elas próprias sesentem em colapso... material. Não andará longe da verdade dizer que adespossessão espiritual, levada a cabo pela cultura de integração neoliberal,nunca bateu tão fundo no tocante à separação das causas e dos responsáveisdesse colapso civilizacional. Num contexto de degradação social e humana tãoprofundo, quer a incapacidade generalizada de reconhecer o confronto, quer aperda intuitiva e racional de apontar na direcção daqueles que estabelecem aviolência e o mal-estar que entram nas nossas vidas, parecem paradoxais. Acultura liberal jogou alto na assimilação dos valores espirituais cultuados pelocapitalismo (individualismo, obediência, quebra de laços comunitários,competição, meritocracia, patriarcado, empreendedorismo, consumo-logo-existo) e venceu a toda a linha.Neste contexto de destituição dos meios espirituais e da sua autonomia, osmovimentos contestatários (em Portugal) poderão cair no caminho equívocoda reapropriação como fim da luta. Será que raiz destrutiva do sistema actual,tanto no campo espiritual como no económico, já não acumulou provassuficientes para que na Europa abastada seja ainda o peso na carteira e o
  8. 8. ditame económico, mais do que uma negação racional de um sistema culturalinadmissível e injusto e/ou um sentimento vital de revolta, a engrenarem amarcha da contestação?O equívoco da reapropriação do poder – que a própria esquerda marxista-trotskista deixou cair em 40 anos, edulcorada pela integração cultural danegociação dos direitos laborais e dos direitos do consumidor, abdicando depôr em causa os detentores de poder (que ao menos fizessem jus à consciênciaprática e combativa dos seus antepassados recentes, o que faria falta),malgrado jamais houvessem questionado o poder em si, os seus mecanismos,as suas práticas de hierarquização das organizações sociais, nem o modocapitalista de produção, nem a mentira do progresso enquanto extorsão danatureza para consolidar o lucro e a hegemonia de meios de controlo social epolítico... etc., etc., ...) –, pode voltar a repetir-se, se os intuitos detransformação da realidade social não trouxerem uma revolução espiritual, dosvalores e dos fins dessa transformação social. Enfim, se não formos capazesde desmantelar e de tornar obsoletas essas formas, aparatos e práticas dopoder dominante. Caminho que será esboçado quando as populaçõesreganharem a capacidade para agir sobre o seu próprio mundo, as suasnecessidades e os seus desejos.Desvalorizando a crítica radical à lógica do mercantilismo e condescendendocom o sistema de poder político da democracia representativa, assim secontinuará a dar a margem de manobra que o poder dominante precisa paraditar o que é o colapso e para pensar por antecipação nas estratégias depreservar o seu domínio. Enquanto não nos anteciparmos aos conceitos e àsrenovadas formas de dominação do capitalismo, continuaremos amarrados aosseus aparatos dissuasórios, aparatos que regulam a vida para impedi-la quetome lugar. É preciso extinguir o medo. E com ela, extinguir o medo à lei... seantes da lei vem a vida e o grito.Não chegou já o tempo de reclamar a vida, antes de pedir um emprego oumelhores condições salariais? Não chegou ainda o tempo de criar alternativaseconómicas que refutem a técnica destrutiva do capitalismo?É preciso questionar o tormento de não ter um emprego onde se passará a vidasem poder dizer népia sobre a vida, onde tudo o que ali se passará é decididopor quem nunca iremos conhecer. É preciso perceber que nesse altar invisívelreaparece uma miragem, uma miragem inquestionável, qual muti-milagre-multi-nacional, prá menina e pró menino, restabelecendo a pia crença nosenhor... É preciso extinguir o medo ao Estado, que se vende e que te vende ati... e que tormentos são estes face à vida que lá vai? Face à comunidade quedeixa de existir? Face à natureza destruída? Poderemos deixar que esse medoe esse tormento nos aviltem mais? Quanto tempo perderás mais à espera deuma libertação dependente de uma circunstancial rotina em que dizes “fazer
  9. 9. pela vida”, quando nesse espaço de tempo sabes que raramente tensoportunidade para viver? Porque essa circunstancial rotina não passa, bastasvezes, do bussiness as usual com que amos e chefes te tragam a vida.Padecendo de um aborrecimento mortal, sem desejo, fantasias argumentospara que te convenças que o pesadelo diário da tua vida (o sonho dos oligarcase amos da sociedade) é “um mal menor”, quando sabes que o sonho que tevende uma universidade, o paleio de um qualquer gestor de recursos humanosnum inquérito-entrevista ou um anúncio de TV, são tudo aquilo que (primeiro)não te podes permitir nem alcançar. E depois, (segundo) permitir o quê? Ealcançar o quê? Tornar-se um auto-empresário da sua condição exploratória?Ganhar um lugar ao sol na máquina de destruição de recursos? Passar aintegrar a gestão política ou económica do descalabro social e ecológico? Maspoderemos sair da impotência, que nos esmifra a vida e a vontade de viver,pedindo pela integração na máquina que perpetua a humilhação e a injustiçasocial? Podemos exigir reformas, a um sistema que argutamente não pára dese reformar, não na direcção das ilusórias expectativas de transformar a suabase anti-democrática e oligárquica, mas no sentido de se auto-sustentar aoexpandir a exploração e a dominação?Não é o sistema que tem de começar de novo, é a nossa vida emcomunidade, cooperação e autogestão. Trata-se antes de reganhar umaconsciência imediata das condições que asseguram a vida plena, a vidaautónoma e colectiva. Trata-se de perceber no imediato que a expropriaçãodessas condições e recursos, em nome de um falso progresso, equivale àdestruição de uma cultura, aquela que entende que a vida é inextricável domundo colectivo onde ela se dá e realiza. O rastro deste paralelo pareceextraviado. O liberalismo é isso mesmo: separa-nos do mundo e das pessoasque como nós passam por espaços “com gente”, onde a vida se perde. Assimnos separamos docilmente, homeopaticamente, do que há de humano, assimnos separamos de nós mesmos.E é necessário, de uma vez por todas, voltar a ver nisso um confronto à vida.E não ter dúvidas que esse confronto é organizado, é operativo. E que essaoperatividade é condição própria das máquinas de poder hegemónico (Estado,Banca, Indústria). O poder político, económico, financeiro e cultural, continuaa organizar essa violência e, simultaneamente, a apagar a proveniência desseconfronto.O monopólio oficial do poder – dos que dele usufruem – regula “a verdade” ebloqueia percepções e outros ângulos de visão – com a sua tropa, desde osMedia, instituições culturais e educativas, e a tropa armada para os casos emque a intoxicação espiritual não produziu os efeitos desejados e/ounecessários. Limpar o ar do fumo tóxico da ideologia liberal mercantilista queos governos e as suas nano-máquinas destilam é um passo necessário.
  10. 10. Volta a ser mais claro agora que antecipar o humano à lei e ao capital não émais do que querer viver. Voltando (?) a ser necessário na Europa responder aessa questão parida pelo tempo que vivemos, só parece possível uma respostafruto de uma cultura revolucionária, criativa e criadora.“Não se pode ser neutral num comboio em movimento”, dizia o historiadore activista norte-americano Howard Zinn. E precise-se: a neutralidade não éneutral. A neutralidade gera também ela energia neutral. A inacção gerainacção. E, entretanto, faz com que o comboio continue a sua marchaimparável.Fizeram-nos crer que somos neutrais. Que o nosso espaço comum normal é aneutralidade. Fizeram-nos crer que habitar neutralmente é uma espécie devida, quando se trata antes de assistir à sua destruição como um espectador.Sem que o houvéssemos pedido, fizeram da nossa vida confronto e violência,e chamaram-lhe contrato social, sociedade do bem-estar, contrato de trabalho,progresso, direitos universais do homem... Houve até quem tivesse bomhumor (é preciso rir!) e lhe chamasse capitalismo de rosto humano...Cai-se no engodo (quem não cai, assim sujeitos à parafernália da cultura quenos cerca), que um contrato de trabalho por se lhe chamar contrato é umacoisa feita igualmente pelas duas partes. O contrato, entre outras coisas, servepara legitimar e domesticar a oposição criada pela propriedade privada, porsua vez resultado da acumulação de lucro, de capital, por sua vez obtido àcusta de todos. E este “à custa de todos” parece hoje uma verdade oficial.Parece uma lei imemorial, praticamente inquestionada. “É vida... tem deser...”. Não será mais uma daquelas verdades fabricadas pelo tempo? E essaverdade, não servirá melhor os poucos que lucram à custa de todos, do queserve “aos todos e todas”? Há quem use termos económicos e académicospara explicar esta evolução técnica e cultural de um sistema de dominação seapropriar da vida de milhões de pessoas. Não há tempo, a tua paciênciaesgota-se. Sirva a caricatura para atalhar um outro ângulo de visão sobre essaverdade. Antes, à entrada, o senhor punha grilhetas, depois o feitorgovernava-se facilmente com a soberania do seu amo, que tinha o rei e umdeus a zelar por ele, veio ainda o capataz que explorava a miséria com umpolícia à porta da fábrica. Os corpos obedeciam, entravam, não tinhamremédio. Passaram muitos episódios, caíram grilhetas e os cassetetes foramguardados para outras ocasiões. Agora tu entras com o teu chipezinho bio-métrico para subires na vida, qual self-made-automatóide, e à saída põem-teum hiper-mercado e um playground para te entreteres, para seres tu e só tu,para escreveres a tua história privada. E a História estabelece que “a verdade”consentida é o remédio para a miséria espiritual e que funciona eficazmentenos tempos modernos e pós-modernos. Mas, como tu não gostas de passar porser um automatóide (nem ninguém), se calhas de recusar entrar nessa Históriaporque não queres essa saída, o cassetete ai bem que regressa. O capitalismo
  11. 11. nasce na arbitrariedade e faz-se valer da violência. Rege a tua vida. Éconfronto. Estabelece-te como um oponente, ao mesmo tempo que apaga ostraços da sua arbitrariedade.Que magia é essa que nos faz esquecer que, na sua base, o capitalismo éconfronto, é violência, é violação do teu poder de existir?Como restituir a memória e a consciência desse confronto?Não saberei demonstrar num texto (já demasiado longo...) aquilo que outr@ssouberam fazer no passado ou fazem hoje no presente.Eu sei que rechaças estas questões, eh pá, não vamos tão longe, também não éassim, a coisa não é assim tão negra!Será que o que tu gostas na democracia liberal-representativa é que te deixemem paz? Mas... que paz?E quando vês um prédio a arder no Porto? (Rechaças um prédio a arder noPorto...?) Será que o morador não cumpriu com as normas de segurança? Seráque não lhe reconheces o direito a aquecer o quarto frio onde dorme com osmeios de que dispõe, como tu fazes o mesmo com os meios que tu dispões?Será que as vítimas eram maganões? Não acreditavam na meritocracia? Achasque são os gestores executivos da EDP, por terem tido a qualificaçãogranjeada por serem ex-políticos ou amigos pessoais de políticos, que fizerampor merecer condições de privilégio absolutamente indignas, quando na basesocial a pobreza alastra a ponto de não haver meios senão para velas e baldesde tinta a arder com restos de lixo? E se fossem maganões e não acreditassemum pingo que fosse nesta “treta”, merecem morrer e passar frio sem que teinterrogues das razões e condições que os tornaram supostamente maganões edescrentes nesta sociedade? A parede deles estava mais encostada do que anossa... eu estou farto que ignores essa parede, a deles, a nossa, a tua... é sóisso.A violência e as chamas que tu admites são as que aparecem,fantasmáticas, na TV. Essa violência é espectáculo dócil, tem sempre umfinal feliz, porque tu sabes que está sempre resolvida sem que precises detomar parte nela. Aquela realidade não é tua, não é de ninguém, é de quem “aapanhar”, procede de um passe de mágica, todavia menos sofisticado (tantonos meios como na própria extensão tecnocrática dos dispositivos) do que atécnica cultural destilada para que te alienes da corda do enforcado do Ave edas paredes arruinadas e em cinza dum prédio do centro histórico do Porto.Assistes a um drama e sabes que a tua quota-parte é absolvida pelo feitiço doteu individualismo começar onde acaba a destruição do outro... Ao menos ali,na TV, haverá sempre os bons e os maus. Mal termina a reportagem, termina a
  12. 12. violência, alguém deu sumiço aos maus, que voltarão no próximo episódio, eainda podes contar com o sorrisinho do pivot ao serviço. Entretanto, tentasescapar ao campo da realidade.Deste modo, a aparente ordem social mantém-se estável. A distribuição dospapéis não sofre alteração: os bons são sempre os mesmos e passam,inatacavelmente, a verdade; a mentira desta verdade com que os bonspreservam a sua proeminente bondade e a sua mediática (e hiper-mediada)verdade é fabricada, diariamente, pelos Media de massa; os maus são actoressecundários, usados em palco para manterem a encenação do espectáculo,segundo as circunstâncias necessárias para a fabricação da bondade e daverdade dos bons; e depois, vens tu, protagonista indispensável para dar umsentido total e perfeito a esta ficção durável. Um fetiche funcional em lopp.A gestão da violência da democracia é invisível. É um “crime perfeito”, comodiria um sociólogo, tão certeiro quanto cínico. Está descansado, não te vendamos olhos. Muito menos te cegam. Não. Saturam-te a retina com um programaininterrupto de imagens, discursos, símbolos, de maneira a que percas ascondições para pensar no que vês e a faculdade para tomares decisões sobre oque vês; deixam-te sem a possibilidade de escolheres o que vês, excluem-te asopções de como ver.O que significa para ti a destruição de edifícios propriedade do poder e dogrande capital em Atenas (puramente simbólica – e os greg@s não pilham,como nos subúrbios de Londres... é apenas uma constatação, mas é notórioque a cultura contestatária grega não quer consolas como consolo...) e oconfronto físico com forças policiais, quando comparada à violêncianecessária para sustentar o funcionamento constante do sistema capitalistaglobal?Se ardem, como perder de vista que um sistema político de organização dasociedade queimou terreno, durante décadas e décadas, e foi deixando umlongo, mas muito longo rastilho? Dão-te guerra e exigem que sejas tu apacificá-la, eis a pedagogia de controlo da classe dominante. Pacificar aguerra em que converteram a tua vida.Quando não se quer violência, quando se rejeita a violação da vida e adepredação dos recursos naturais e o seu uso irracional, quando se acredita naautodeterminação, a sociedade em que vivemos deixa de se poder aguentarracionalmente dentro de nós. É possível abrir um mundo, um mundo distintodeste mundo enfeitiçado por falsos pactos de estabilidade, por sono, por tédio,humilhação, servidão, depressão e destruição. Sim, existem tantos caminhospossíveis como formas de pensar a realidade e o mundo. E nenhum porto é ofim da linha. Antes o começo de outras partidas. Mas pensa no exemplo degregos e gregas quererem determinadamente pôr em causa tudo aquilo que te
  13. 13. causa mal-estar, pensa se essa determinação e energia não têm de estarcontigo da próxima vez em que sairmos à rua.Na verdade, não basta sair à rua: é preciso ficar na rua. É preciso não virarcostas. Não se pode não ficar. É preciso passar a estar lá onde estamos sem-estar. Pensa nos caminhos de autogestão traçados pelo jornal Eleftherotypia,pelo hospital de Kilkis, na ocupação do Mercado Municipal de Kipseli, nasvárias ocupações que se deram de universidades gregas, onde sobressai aocupação da universidade de Exarchia. Pensa se não devíamos ser nós a tratarda nossa comunicação, do nosso corpo, do espírito e do estômago. Pensa noEs.Col.a no Alto da Fontinha, no Porto. Pensa no que começaria a mudar nanossa cultura, se cada bairro, (ao menos...) se cada cidade tivesse um espaçocolectivo e autogestionado, com decisões colectivas tomadas em assembleiaaberta, circulação transparente da informação e a todos acessível, trabalhomútuo e solidariedade. Enfim, em qualquer forma autónoma de construçãosocial com o horizonte numa vida livre de capitalismo e de estruturas anti-democráticas.Se as criações sociais revolucionárias te parecem hoje chatas, obsoletas, fora-de-moda (quem espera por vernissages na rua há-de partir de espíritoalcatifado...), num tempo de profundo mal-estar social, isso explica em grandemedida o grau de aculturação que nas últimas décadas baixou o imaginário davida humana e o medo que nela foi incutido.Tal como não era possível saber até que ponto chegaria o modelo capitalista(ou até que ponto chegará...), talvez nunca chegaremos a saber se serápossível quebrar o medo geral e construir um caminho de transformaçãoglobal. Porém, o que sabemos hoje é que existem caminhos já apontados e quesão necessários, se queremos mudar de vida e de sociedade.VADIOMarço 2012*(Um simples exemplo deste processo espectacular de reprodução de umarealidade: há dois dias no jornal Público, feito por pessoas inteligentes epreparadas, sai uma notícia sobre as actividades de recreio e distracção deBashar al-Assad, o ditador Sírio. A notícia não se isenta – menos mal, emborapareça transparecer que um ditador deve proceder de forma diversa, como sefosse mais normal um homem de estado conservar no frigorífico os corposque manda assassinar e, ao invés, não se refugiar nos aparatos de poder,estatais e culturais, que lhe permitam suavizar e sublimar a condiçãodesumanizante e de separação existencial com o outro, condição essa
  14. 14. intrínseca a esses aparatos de poder – de flagrar essa realidade doméstica coma brutalidade da violência que o seu regime faz abater sobre civis. Há cerca deum mês, noutro artigo assinado no mesmo jornal, a propósito da primeiradeclaração pública em que Obama assume que se recandidata à presidênciados EUA, tecem-se loas a um novo discurso do presidente que revela quererestar do lado dos “99%” de norte-americanos, preocupado e sensível com omovimento Occupy Wall Street, ao mesmo tempo que não aparecemreferências aos recursos caseiros usados por Obama para se distrair dos seusprojectos de guerra, morte e tortura, linhas de acção estruturais da políticanorte-americana e que a jornalista, por omissão, compatibiliza com os “99%”e o movimento Occupy, baseado em princípios opostos à administração dosEUA e em valores profundamente anticapitalistas. Mas sobretudo o artigoestabelece essa compatibilização ao aceitar que a palavra de Obama – o seudiscurso, o discurso que proferiu nesse acto público – não faz parte dalegitimação da impostura das suas práticas, não passa de um cínico discurso“da treta”, repescando as palavras de Bashar al-Assad a que a Media aludiu).

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