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GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 1
Como Costa vai engolir a esquerda parlamentar
Na Grécia surgiu um Syriza que anulou o
desacreditado Pasok, adoptando a agenda
deste último. Em Portugal, foi o PS que se
preveniu e prepara a sua sobrevivência
cooptando a esquerda parlamentar. Dois
caminhos diferentes para uma normalização
neoliberal em tempos de crise duradoura
Contra todas as expectativas (nossas também1
), gerou-se um governo PS, apesar do
medíocre resultado eleitoral de António Costa2
, só possível com o apoio, o não
desapoio ou ainda, a neutralidade da “esquerda” BE/PC, para além do berloque “Os
Verdes”.
Uma “esquerda radical”?
Cabe aqui uma referência à campanha de desinformação do duo dos ressabiados
Passos/Portas secundados pelo imputado burlão Marco Antonio Costa3
. A acusação
de “esquerda radical” ao BE/PC é de todo descabida porque dirigida a formações
sociais-democratas fora do tempo, sem críticas ao capitalismo, que cultiva
hierarquias e autoridade, crentes no keynesianismo, ou mesmo num neoliberalismo
reformado, de “face humana”, na democracia de mercado, com eleições que
reciclam no poder os mesmos do costume. Digamos que são conservadores ma non
troppo.
A acusação de “esquerda radical” é uma atualização pela direita trauliteira e pós-
fascista actual, dos medos incutidos em 1975, num povo semi-analfabeto e beato,
deliberadamente assustado com a ideia de que os comunistas “comiam criancinhas”;
hoje, os portugueses não são semi-analfabetos mas, despolitizados o suficiente para
não reagirem a tão grosseira propaganda. Nem a mansa imprensa, naturalmente,
reage a tamanha falsificação.
Aliás, essa falta de radicalidade da dita esquerda é bem clara pelo facto de, após
decénios de prática favorável ao capitalismo por parte do PS, continuarem a
considerá-lo como uma força política de esquerda4
.
Há um começo histórico para essa atitude que remonta ao período que se seguiu às
primeiras eleições, em 1975. O PC tinha então enorme influência no poder e
procurava adiar as eleições sine die; aquelas acabaram por se realizar, deram um
resultado decepcionante para o PC e os seus apêndices (MDP e FSP) e um larga
vantagem ao PS. Como não podia negar essa realidade, o PC avançou com a ideia
de que havia uma maioria (PS+PC) favorável ao socialismo (?), uma maioria de
esquerda, no que foi mais ou menos seguido, por outros grupos que se
1
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/10/depois-da-romaria-eleitoral-o-programa.html
2
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/10/sobrevoando-40-anos-de-eleicoes-em.html
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/11/o-teatro-eleitoral-em-portugal-200515_5.html
3
http://expresso.sapo.pt/politica/2015-06-25-Marco-Antonio-Costa-vai-ter-de-ir-a-Contas
4
http://www.slideshare.net/durgarrai/esta-esquerda-a-tranquilidade-da-direita
GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 2
alimentavam da mitologia “socialista”. Mesmo depois do golpe de 25 de novembro,
essa ideia da maioria de esquerda manteve-se, numa atitude messiânica que foi
alicerçando esse mito conservador de que o PS é progressista por mais que os seus
comportamentos, em regra de caráter anti-social, tenham invalidado mudanças
substantivas a favor da multidão. Como Costa irá provar.
Isso teve desde sempre o mal disfarçado intuito, hoje concretizado, de estabelecer
uma osmose, entre a direita e a esquerda do sistema partidário, a manutenção do
actual regime de capitalismo low cost e de uma “democracia” na qual à esmagadora
maioria está vedado o acesso a responsabilidades políticas; e ainda, que permita o
regular acesso ao pote e às mordomias, pelos caciques dessa esquerda. Nessa
continuada política passaram decénios a branquear a atuação da direita,
posicionando-se ao lado de uma das alas do partido-estado, contra a outra, como
um pêndulo; ora estiveram ao lado de Passos para derrubar Sócrates, como de
Costa para afastar Passos, com o programa a seguir dentro de momentos.
Entrismo é ingenuidade ou oportunismo?
Uma das velhas práticas do vetusto trotsko-estalinismo é a crença nas virtudes do
entrismo; isto é da penetração em instituições estatais para influenciarem
burocratas, corruptos ou raros ingénuos a inserirem-se nas suas lógicas, procurando
apossar-se, com trabalho de sapador, desse regulador do capitalismo chamado
Estado. Isso, em regra, não acontece; pelo contrário, são os membros dos grupos
trotsko-estalinistas que, vendo poucos resultados nesses esforços de doutrinação, se
passam para o lado dos burocratas clássicos e da corrupção. Não é fácil encontrar
figuras que tenham saído de partidos de direita para outros da chamada esquerda
mas a inversa, apresenta dezenas ou centenas de casos; a doçura do mel que
escorre do pote é decisiva nessas decisões. Esse processo individual poderá mesmo
prosseguir de forma grupal, mesmo que se mantenham as siglas e as bandeiras.
Uma nova nobreza
Agora que Costa tomou posse com o seu governo, não deixa de ser curioso verificar
a existência de uma nova nobreza, onde filhos herdam ou partilham presenças no
governo com os seus pais, ou membros de um mesmo casal se encontram na mesa
do orçamento, revelando um certo grau de endogamia. Numa época em que se
tornou banal, o velho “sangue azul” se misturar com fluidos plebeus, eis que surge
uma nova classe de ungidos com gerações sucessivas em funções governativas, de
beneficiários de rendas e abastecedores de rendas a empresas que, certamente
manifestarão a sua gratidão. A endogamia aumenta a probabilidade de
malformações, como é sabido.
Cenário A - A esquerda parlamentar apoia estoicamente Costa
“Onde está a esquerda? Ao fundo, à direita”
(frase criada no âmbito do movimento 15 M, nas Puertas del Sol, Madrid)
GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 3
Costa irá lastimar-se da herança deixada por Passos que acusará de todos os males
estruturais construidos pelo partido-estado (PS/PSD) nos últimos 40 anos, como da
chuva ou do sol que fizer. Os ressabiados Passos e Portas irão protestar, contestar
Costa no areópago de S. Bento, com a raiva a gotejar dos queixos; e, para evitar a
óbvia obstrução da direita trauliteira, a chamada esquerda vai suportando tudo o
que Costa propuzer, bom, mau ou assim-assim.
Com essa postura da tal esquerda, Costa, matreiro como é, pode esticar a corda,
com propostas lesivas para a plebe pois a esquerda parlamentar não quererá, com
os seus votos ou abstenções colocar-se do mesmo lado da barricada com a direita
trauliteira; e menos ainda, inviabilizar a continuidade de Costa, alinhando em
moções de censura que inevitavelmente surgirão lá para maio, arrumada a questão
das presidenciais e no rescaldo do congresso do PSD, onde Passos, provavelmente
será dispensado. A esquerda do sistema, nesse contexto, jamais quererá repetir o
erro político de ter apeado Sócrates, de braço dado com a direita trauliteira, quando
imaginaram nas manifestações de 12 de março de 2011 um pulsar revolucionário
em terras lusitanas.
Em troca, Costa apoiará a tal esquerda em propostas sobre a igualdade de géneros,
dos direitos na identidade de género e na expressão da sexualidade, sobre a IVG, ou
outras, desde que tenham pouco impacto nas contas públicas e portanto,
irrelevantes para os economicistas do Eurogrupo ou do BCE.
Se a conjuntura se mantiver sem grandes agravamentos e a propaganda continuar a
formatar os tugas, como é habitual, o governo até pode chegar ao fim do ciclo
quadrienal. Nas eleições que então se realizarem Costa auto-elogiará o seu
desempenho e estará patente a sua maestria na domesticação da dita esquerda.
Esta, já hoje pouco dada a uma real contestação terá pela frente, a zanga dos
descontentes que deixarão de apoiar o BE e a indiferença dos conformados ou
satisfeitos com a atuação do governo, que irão apoiar a continuidade de Costa,
deixando Catarina a chorar com uns dez deputados à sua volta. Quanto ao PC
entendemos que chegou ao limite máximo da sua influência eleitoral, se se tiver em
conta os resultados que vem apresentando desde 2005; para mais, a CGTP tem
vindo a perder influência e não a ganhá-la junto de trabalhadores mais jovens,
precários, não sindicalizados e despolitizados.
Em suma, nesse cenário, Costa, terá então conseguido algo semelhante ao que o
Syriza levou a cabo na Grécia; percorrendo um mesmo caminho mas em direção
oposta. O Syriza, vindo da esquerda, secou o partido socialista grego (Pasok),
incorporando os seus apoiantes e substituindo-o nas suas funções governamentais.
Em Portugal tudo indica que é o PS que também cumprirá as instruções do
Eurogrupo e do BCE, refrescando-se com a domesticação de uma esquerda já
bastante dócil e ideologicamente pobre. Para a multidão dos residentes, acossada
pelo desemprego, pela austeridade e pelos cortes, a diferença entre os dois
processos políticos, no final, traz o mesmo resultado.
Dentro desta hipótese, pode ainda congeminar-se que numas eleições em 2019,
Costa se mostre agradecido e magnânimo integrando a chamada esquerda numa
ampla coligação, uma vez que, com com a passagem do tempo já ninguém se
atreveria a designar como radicais aqueles partidos. Provavelmente haveria lágrimas
GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 4
de comoção nas almas que suspiram, há décadas, pela unidade da esquerda,
mesmo que nunca tenham percebido o que é uma esquerda5
; ou que, com a idade,
já se tenham… esquecido do que isso é.
Ainda nessa linha, a quatro anos de distância, se Costa puder apresentar-se como
construtor da estabilidade política, mesmo com uma realidade económica pouco
reconfortante - com culpas facilmente imputáveis à conjuntura internacional, ao
Médio Oriente, a algum tombo nas bolsas e a crises no chamado “projeto europeu”
cujos contornos são particularmente difusos – Costa diziamos, surgirá como um
vencedor. E Brecht já cá não está para recordar que Napoleão conquistou o Egipto e
que não estava sozinho pois tinha cozinheiros ao seu serviço. Se alguém alguma vez
soube o nome desses cozinheiros, a verdade é que foram esquecidos, como poderá
acontecer a Catarina e Jerónimo quando Costa enumerar os seus feitos.
Por outro lado, a proximidade e a atuação concertada entre Costa e a esquerda
parlamentar, para mais se alargada a quatro anos, facilitará transições oportunísticas
de quadros mais jovens, qualificados ou ambiciosos no seio da esquerda, para as
hostes do PS; este estará, naturalmente, aberto a isso, para dar demonstrações de
carinho e recompensa que incentivem a transferência dos mais dotados. Ou não
estará já hoje o PS bem recheado de gente vinda da esquerda dos anos 70, bem
mais radical que a actual? Sampaio, Ferro, Vieira da Silva, Santos Silva, Pina Moura e
ainda Vital Moreira, José Luís Judas, Zita Seabra e os falecidos Barros Moura e João
Amaral são exemplos bem conhecidos.
Neste cenário não divisamos um futuro risonho para esquerda parlamentar.
Cenário B – Uma ruptura entre Costa e a esquerda do sistema partidário
Muita gente aponta para isso, sobretudo os que ainda vêem no binómio BE/PC uma
“esquerda radical”, como os trauliteiros gostam de lhe chamar. Cremos que isso só
acontecerá se Costa, obrigado pela UE, a acentuar a austeridade a tal ponto que
obrigue a esquerda do sistema a demarcar-se do governo para evitar o seu total
descrédito e procurar capitalizar o descontentamento com alguns ganhos eleitorais
que, convenhamos, nunca serão comparáveis aos obtidos pelo Syriza na Grécia. Na
UE, por seu turno, não parece haver muito preocupação com a presença do BE/PC
no suporte ao governo Costa.
Fora dessa hipótese extrema, entendemos ser suicídio político a dita esquerda abrir
caminho ou apoiar a direita trauliteira numa atitude de derrube de Costa e do seu
governo; nem sequer têm a possibilidade de uma abstenção a moções de censura
vindas da direita par(a)lamentar (esta tem 107 mandarins contra 86 do PS), da
mesma forma que os dois partidos da esquerda têm de se juntar para não deixarem
cair Costa (só os seus 36 deputados com os 86 do PS podem derrotar as investidas
dos trauliteiros de Passos/Portas, embora matematicamente, num cenário
surrealista, o PS com o BE, os dois deputados dos Verdes e o homem do PAN,
possam dispensar os eleitos pelo PC para segurar Costa no poleiro).
Costa, anos atrás, foi hábil e suficiente para anular o BE como força eleitoral e
política na capital enquanto o PC se apagava autonomamente no cenário autárquico
5
http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/10/o-que-e-uma-esquerda-pilares-para-sua.html
GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 5
de Lisboa. E vai conduzindo um processo semelhante agora, para o governo
nacional, isolando Francisco Assis e as suas teses trauliteiras.
Se Costa e os seus próximos mantiverem um posicionamento dialogante com a tal
esquerda, o binómio BE/PC ou, um daqueles partidos isoladamente, se decidirem a
apear o recém-nomeado primeiro-ministro, incorrem com todos os ónus da
defenestração de Costa pelos seus pares e o PS ficaria vacinado para voltar a
qualquer plataforma de entendimento com a esquerda do sistema, dando razão ao
tosco Francisco Assis. Os amantes da estabilidade política, tendo em primeiro plano,
os banqueiros, os chamados empresários do regime, acampados em entidades
tenebrosas como a CEP do Saraiva, a CIP, o Ferra(bra)z da Costa e outros pouco
recomendáveis, como os argutos economicistas que ainda se dignam falar com o
apodrecido Cavaco, ensaiariam afinada gritaria para reconduzir o PSD, com ou sem
a prótese Portas, ao poder. O que não seria um cenário grandioso para a esquerda
parlamentar que iniciasse esse processo.
- - -
Destes cenários sairá uma muito provável maior domesticação da chamada
esquerda portuguesa, entrelaçada em concubinato no seu todo ou parcelarmente
com o PS, tal como vai acontecendo com o CDS cuja existência depende da
utilidade que vá tendo para o PSD, reforçando-se assim a bipolarização típica dos
sistemas políticos europeus, constituidos, informalmente num partido-estado, único,
avassalador, que só não será totalitário porque as sociedades disciplinares passaram
de moda, substituidas pelo muito mais subtil controlo biopolítico.
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Como Costa vai engolir a esquerda parlamentar

  • 1. GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 1 Como Costa vai engolir a esquerda parlamentar Na Grécia surgiu um Syriza que anulou o desacreditado Pasok, adoptando a agenda deste último. Em Portugal, foi o PS que se preveniu e prepara a sua sobrevivência cooptando a esquerda parlamentar. Dois caminhos diferentes para uma normalização neoliberal em tempos de crise duradoura Contra todas as expectativas (nossas também1 ), gerou-se um governo PS, apesar do medíocre resultado eleitoral de António Costa2 , só possível com o apoio, o não desapoio ou ainda, a neutralidade da “esquerda” BE/PC, para além do berloque “Os Verdes”. Uma “esquerda radical”? Cabe aqui uma referência à campanha de desinformação do duo dos ressabiados Passos/Portas secundados pelo imputado burlão Marco Antonio Costa3 . A acusação de “esquerda radical” ao BE/PC é de todo descabida porque dirigida a formações sociais-democratas fora do tempo, sem críticas ao capitalismo, que cultiva hierarquias e autoridade, crentes no keynesianismo, ou mesmo num neoliberalismo reformado, de “face humana”, na democracia de mercado, com eleições que reciclam no poder os mesmos do costume. Digamos que são conservadores ma non troppo. A acusação de “esquerda radical” é uma atualização pela direita trauliteira e pós- fascista actual, dos medos incutidos em 1975, num povo semi-analfabeto e beato, deliberadamente assustado com a ideia de que os comunistas “comiam criancinhas”; hoje, os portugueses não são semi-analfabetos mas, despolitizados o suficiente para não reagirem a tão grosseira propaganda. Nem a mansa imprensa, naturalmente, reage a tamanha falsificação. Aliás, essa falta de radicalidade da dita esquerda é bem clara pelo facto de, após decénios de prática favorável ao capitalismo por parte do PS, continuarem a considerá-lo como uma força política de esquerda4 . Há um começo histórico para essa atitude que remonta ao período que se seguiu às primeiras eleições, em 1975. O PC tinha então enorme influência no poder e procurava adiar as eleições sine die; aquelas acabaram por se realizar, deram um resultado decepcionante para o PC e os seus apêndices (MDP e FSP) e um larga vantagem ao PS. Como não podia negar essa realidade, o PC avançou com a ideia de que havia uma maioria (PS+PC) favorável ao socialismo (?), uma maioria de esquerda, no que foi mais ou menos seguido, por outros grupos que se 1 http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/10/depois-da-romaria-eleitoral-o-programa.html 2 http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/10/sobrevoando-40-anos-de-eleicoes-em.html http://grazia-tanta.blogspot.pt/2015/11/o-teatro-eleitoral-em-portugal-200515_5.html 3 http://expresso.sapo.pt/politica/2015-06-25-Marco-Antonio-Costa-vai-ter-de-ir-a-Contas 4 http://www.slideshare.net/durgarrai/esta-esquerda-a-tranquilidade-da-direita
  • 2. GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 2 alimentavam da mitologia “socialista”. Mesmo depois do golpe de 25 de novembro, essa ideia da maioria de esquerda manteve-se, numa atitude messiânica que foi alicerçando esse mito conservador de que o PS é progressista por mais que os seus comportamentos, em regra de caráter anti-social, tenham invalidado mudanças substantivas a favor da multidão. Como Costa irá provar. Isso teve desde sempre o mal disfarçado intuito, hoje concretizado, de estabelecer uma osmose, entre a direita e a esquerda do sistema partidário, a manutenção do actual regime de capitalismo low cost e de uma “democracia” na qual à esmagadora maioria está vedado o acesso a responsabilidades políticas; e ainda, que permita o regular acesso ao pote e às mordomias, pelos caciques dessa esquerda. Nessa continuada política passaram decénios a branquear a atuação da direita, posicionando-se ao lado de uma das alas do partido-estado, contra a outra, como um pêndulo; ora estiveram ao lado de Passos para derrubar Sócrates, como de Costa para afastar Passos, com o programa a seguir dentro de momentos. Entrismo é ingenuidade ou oportunismo? Uma das velhas práticas do vetusto trotsko-estalinismo é a crença nas virtudes do entrismo; isto é da penetração em instituições estatais para influenciarem burocratas, corruptos ou raros ingénuos a inserirem-se nas suas lógicas, procurando apossar-se, com trabalho de sapador, desse regulador do capitalismo chamado Estado. Isso, em regra, não acontece; pelo contrário, são os membros dos grupos trotsko-estalinistas que, vendo poucos resultados nesses esforços de doutrinação, se passam para o lado dos burocratas clássicos e da corrupção. Não é fácil encontrar figuras que tenham saído de partidos de direita para outros da chamada esquerda mas a inversa, apresenta dezenas ou centenas de casos; a doçura do mel que escorre do pote é decisiva nessas decisões. Esse processo individual poderá mesmo prosseguir de forma grupal, mesmo que se mantenham as siglas e as bandeiras. Uma nova nobreza Agora que Costa tomou posse com o seu governo, não deixa de ser curioso verificar a existência de uma nova nobreza, onde filhos herdam ou partilham presenças no governo com os seus pais, ou membros de um mesmo casal se encontram na mesa do orçamento, revelando um certo grau de endogamia. Numa época em que se tornou banal, o velho “sangue azul” se misturar com fluidos plebeus, eis que surge uma nova classe de ungidos com gerações sucessivas em funções governativas, de beneficiários de rendas e abastecedores de rendas a empresas que, certamente manifestarão a sua gratidão. A endogamia aumenta a probabilidade de malformações, como é sabido. Cenário A - A esquerda parlamentar apoia estoicamente Costa “Onde está a esquerda? Ao fundo, à direita” (frase criada no âmbito do movimento 15 M, nas Puertas del Sol, Madrid)
  • 3. GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 3 Costa irá lastimar-se da herança deixada por Passos que acusará de todos os males estruturais construidos pelo partido-estado (PS/PSD) nos últimos 40 anos, como da chuva ou do sol que fizer. Os ressabiados Passos e Portas irão protestar, contestar Costa no areópago de S. Bento, com a raiva a gotejar dos queixos; e, para evitar a óbvia obstrução da direita trauliteira, a chamada esquerda vai suportando tudo o que Costa propuzer, bom, mau ou assim-assim. Com essa postura da tal esquerda, Costa, matreiro como é, pode esticar a corda, com propostas lesivas para a plebe pois a esquerda parlamentar não quererá, com os seus votos ou abstenções colocar-se do mesmo lado da barricada com a direita trauliteira; e menos ainda, inviabilizar a continuidade de Costa, alinhando em moções de censura que inevitavelmente surgirão lá para maio, arrumada a questão das presidenciais e no rescaldo do congresso do PSD, onde Passos, provavelmente será dispensado. A esquerda do sistema, nesse contexto, jamais quererá repetir o erro político de ter apeado Sócrates, de braço dado com a direita trauliteira, quando imaginaram nas manifestações de 12 de março de 2011 um pulsar revolucionário em terras lusitanas. Em troca, Costa apoiará a tal esquerda em propostas sobre a igualdade de géneros, dos direitos na identidade de género e na expressão da sexualidade, sobre a IVG, ou outras, desde que tenham pouco impacto nas contas públicas e portanto, irrelevantes para os economicistas do Eurogrupo ou do BCE. Se a conjuntura se mantiver sem grandes agravamentos e a propaganda continuar a formatar os tugas, como é habitual, o governo até pode chegar ao fim do ciclo quadrienal. Nas eleições que então se realizarem Costa auto-elogiará o seu desempenho e estará patente a sua maestria na domesticação da dita esquerda. Esta, já hoje pouco dada a uma real contestação terá pela frente, a zanga dos descontentes que deixarão de apoiar o BE e a indiferença dos conformados ou satisfeitos com a atuação do governo, que irão apoiar a continuidade de Costa, deixando Catarina a chorar com uns dez deputados à sua volta. Quanto ao PC entendemos que chegou ao limite máximo da sua influência eleitoral, se se tiver em conta os resultados que vem apresentando desde 2005; para mais, a CGTP tem vindo a perder influência e não a ganhá-la junto de trabalhadores mais jovens, precários, não sindicalizados e despolitizados. Em suma, nesse cenário, Costa, terá então conseguido algo semelhante ao que o Syriza levou a cabo na Grécia; percorrendo um mesmo caminho mas em direção oposta. O Syriza, vindo da esquerda, secou o partido socialista grego (Pasok), incorporando os seus apoiantes e substituindo-o nas suas funções governamentais. Em Portugal tudo indica que é o PS que também cumprirá as instruções do Eurogrupo e do BCE, refrescando-se com a domesticação de uma esquerda já bastante dócil e ideologicamente pobre. Para a multidão dos residentes, acossada pelo desemprego, pela austeridade e pelos cortes, a diferença entre os dois processos políticos, no final, traz o mesmo resultado. Dentro desta hipótese, pode ainda congeminar-se que numas eleições em 2019, Costa se mostre agradecido e magnânimo integrando a chamada esquerda numa ampla coligação, uma vez que, com com a passagem do tempo já ninguém se atreveria a designar como radicais aqueles partidos. Provavelmente haveria lágrimas
  • 4. GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 4 de comoção nas almas que suspiram, há décadas, pela unidade da esquerda, mesmo que nunca tenham percebido o que é uma esquerda5 ; ou que, com a idade, já se tenham… esquecido do que isso é. Ainda nessa linha, a quatro anos de distância, se Costa puder apresentar-se como construtor da estabilidade política, mesmo com uma realidade económica pouco reconfortante - com culpas facilmente imputáveis à conjuntura internacional, ao Médio Oriente, a algum tombo nas bolsas e a crises no chamado “projeto europeu” cujos contornos são particularmente difusos – Costa diziamos, surgirá como um vencedor. E Brecht já cá não está para recordar que Napoleão conquistou o Egipto e que não estava sozinho pois tinha cozinheiros ao seu serviço. Se alguém alguma vez soube o nome desses cozinheiros, a verdade é que foram esquecidos, como poderá acontecer a Catarina e Jerónimo quando Costa enumerar os seus feitos. Por outro lado, a proximidade e a atuação concertada entre Costa e a esquerda parlamentar, para mais se alargada a quatro anos, facilitará transições oportunísticas de quadros mais jovens, qualificados ou ambiciosos no seio da esquerda, para as hostes do PS; este estará, naturalmente, aberto a isso, para dar demonstrações de carinho e recompensa que incentivem a transferência dos mais dotados. Ou não estará já hoje o PS bem recheado de gente vinda da esquerda dos anos 70, bem mais radical que a actual? Sampaio, Ferro, Vieira da Silva, Santos Silva, Pina Moura e ainda Vital Moreira, José Luís Judas, Zita Seabra e os falecidos Barros Moura e João Amaral são exemplos bem conhecidos. Neste cenário não divisamos um futuro risonho para esquerda parlamentar. Cenário B – Uma ruptura entre Costa e a esquerda do sistema partidário Muita gente aponta para isso, sobretudo os que ainda vêem no binómio BE/PC uma “esquerda radical”, como os trauliteiros gostam de lhe chamar. Cremos que isso só acontecerá se Costa, obrigado pela UE, a acentuar a austeridade a tal ponto que obrigue a esquerda do sistema a demarcar-se do governo para evitar o seu total descrédito e procurar capitalizar o descontentamento com alguns ganhos eleitorais que, convenhamos, nunca serão comparáveis aos obtidos pelo Syriza na Grécia. Na UE, por seu turno, não parece haver muito preocupação com a presença do BE/PC no suporte ao governo Costa. Fora dessa hipótese extrema, entendemos ser suicídio político a dita esquerda abrir caminho ou apoiar a direita trauliteira numa atitude de derrube de Costa e do seu governo; nem sequer têm a possibilidade de uma abstenção a moções de censura vindas da direita par(a)lamentar (esta tem 107 mandarins contra 86 do PS), da mesma forma que os dois partidos da esquerda têm de se juntar para não deixarem cair Costa (só os seus 36 deputados com os 86 do PS podem derrotar as investidas dos trauliteiros de Passos/Portas, embora matematicamente, num cenário surrealista, o PS com o BE, os dois deputados dos Verdes e o homem do PAN, possam dispensar os eleitos pelo PC para segurar Costa no poleiro). Costa, anos atrás, foi hábil e suficiente para anular o BE como força eleitoral e política na capital enquanto o PC se apagava autonomamente no cenário autárquico 5 http://grazia-tanta.blogspot.pt/2014/10/o-que-e-uma-esquerda-pilares-para-sua.html
  • 5. GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 2/12/2015 5 de Lisboa. E vai conduzindo um processo semelhante agora, para o governo nacional, isolando Francisco Assis e as suas teses trauliteiras. Se Costa e os seus próximos mantiverem um posicionamento dialogante com a tal esquerda, o binómio BE/PC ou, um daqueles partidos isoladamente, se decidirem a apear o recém-nomeado primeiro-ministro, incorrem com todos os ónus da defenestração de Costa pelos seus pares e o PS ficaria vacinado para voltar a qualquer plataforma de entendimento com a esquerda do sistema, dando razão ao tosco Francisco Assis. Os amantes da estabilidade política, tendo em primeiro plano, os banqueiros, os chamados empresários do regime, acampados em entidades tenebrosas como a CEP do Saraiva, a CIP, o Ferra(bra)z da Costa e outros pouco recomendáveis, como os argutos economicistas que ainda se dignam falar com o apodrecido Cavaco, ensaiariam afinada gritaria para reconduzir o PSD, com ou sem a prótese Portas, ao poder. O que não seria um cenário grandioso para a esquerda parlamentar que iniciasse esse processo. - - - Destes cenários sairá uma muito provável maior domesticação da chamada esquerda portuguesa, entrelaçada em concubinato no seu todo ou parcelarmente com o PS, tal como vai acontecendo com o CDS cuja existência depende da utilidade que vá tendo para o PSD, reforçando-se assim a bipolarização típica dos sistemas políticos europeus, constituidos, informalmente num partido-estado, único, avassalador, que só não será totalitário porque as sociedades disciplinares passaram de moda, substituidas pelo muito mais subtil controlo biopolítico. Este e outros textos em: http://grazia-tanta.blogspot.com/ http://www.slideshare.net/durgarrai/documents https://pt.scribd.com/uploads