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Trata-se de uma questão de elementar gratidão perante a História, aprestação de homenagem aos militares que derrubaram uma...
Compete a uma esquerda defender estas posições e não refugiar-senum silêncio revelador de efectivas posições de direita, p...
Há um capitalismo global constituido pelas multinacionais, o sistemafinanceiro e o capital mafioso que cria e enforma as s...
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Perante a crise económica que se vem desenhando e o agravamentodas condições de vida da multidão, sobretudo na Europa, não...
de pessoas, como instrumento de centralização de capitais, de criaçãode um grande feudo para os capitais europeus. E isso,...
•   Unifica a multidão mundial, como entidade produtiva, para além       das barreiras e propagandas nacionalistas, que se...
e boas capacidades em termos de conhecimento científico, técnico etecnológico. Nenhum território com uma população reduzid...
criação de rupturas com o mandarinato comunitário e as suasinstituições.Não acreditamos na viabilidade de Portugal sair da...
regulamentos, despachos para manter os paisanos a trabalharserenamente… tal como serenamente se estabelecem as redesmafios...
da legalidade do Estado dos mandarins e do patronato. Em resumo,colocam todos os ovos na cesta do capital, que agradece.Qu...
trabalhadores, para que se perpetue o modelo da obediência dosúltimos perante os primeiros.Uma das apostas mais divertidas...
Foi durante a assembleia constituinte da PAGAN (30/9/2009) (7) quepublicamente se soube em Portugal haver em finais de 201...
nenhum dos membros do BE, simultaneamente activistas do colectivoanti-militarista.Durante a Contra-Cimeira, os dirigentes ...
estrangeiros participarem numa manifestação única contra a NATO;esse acordo viria a ser rasgado pelo PCP, como se verá adi...
apresentada pela USL – União dos Sindicatos de Lisboa, que melhor teriafeito se procurasse mobilizar os trabalhadores para...
http://esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt/2005/05/   (3) http://www.slideshare.net/durgarrai/pensar-esquerda-sem-vacas-   ...
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A miséria da esquerda que anda por aí. um “case study”, a cimeira da nato

  1. 1. A miséria da esquerda que anda por aí. Um “case study”, a Cimeira da NATOSumário1 - Aspectos de ordem histórica para uma fraca consciência anti- imperial e anti-militarista 1.1 – O passado colonial e uma soberania minguante 1.2 – A dívida eterna para com os militares de Abril2 – O enquistamento ideológico da esquerda institucional 2.1 - Hoje, o capitalismo está, essencialmente, globalizado 2.2 – A fusão entre funções policiais e militares 2.3 – A putrefacção do sistema de representação e a anti- democracia 2.4 – A soberania nacional 2.5 – Notas sobre o culto da obediência e da hierarquia3- A Cimeira da NATO em Portugal e o comportamento da esquerda institucional 3.1 - Atitudes da direcção do BE 3.2 - Atitudes do PCP ou das respectivas agênciasPor motivos e circunstâncias várias acompanhámos de muito pertotodas as vicissitudes que conduziram à realização dos eventos quemarcaram a presença do bando dos 28+1, na cimeira da NATO emLisboa, nos dias19/20 de Novembro.Desde o princípio mantivemos muita curiosidade em observar ocomportamento da esquerda de esferovite que anda por aí a flutuar,bem instalada no fofo conforto possibilitado pelos subsídios estatais oupela utilização do dinheiro das quotizações dos trabalhadores (ainda)sindicalizados.Texto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 1
  2. 2. 1 - Aspectos de ordem histórica para uma fraca consciência anti- imperial e anti-militaristaVamos referir apenas dois factores históricos que impedem que aesquerda institucional, na sua indigência política e ideológica consigaperceber o carácter imperial do sistema capitalista, o papel domilitarismo e da guerra para o esmagamento tanto das condições devida da multidão, como da democracia. E pior que tudo isso, o papeldessa dita esquerda, tresandando de tiques estalinistas, na limitação dageração de movimentos de massas ou de opinião, independentes dasua tutela.1.1 – O passado colonial e uma soberania minguanteQuinhentos anos de colonialismo, criaram em Portugal, entre os poderesdo Estado, da burguesia e do seu ignaro mandarinato, uma culturaimperialista, de pertença a uma imaginária posição de grande oumédia potência. Como é natural, essa postura, criou na multidão, nosanos 60 e 70 uma aceitação resignada ou, de apoio tácito, de guerrascoloniais durante treze anos.Mesmo alguns anos depois do 25 de Abril, muitos se perguntavam sePortugal sobreviveria à “perda” das suas colónias, talvez semsuspeitarem que as colónias, em 1974, eram mais um fardo do que umabenesse; e o natural regresso dos “pés-negros” (aqui designados porretornados) com o seu respeitável cortejo de sofrimentos individuais, sócontribuiu para essa ideia da difícil sobrevivência.Havia então, quem imaginasse a existência mirífica de uma burguesiainteligente, capaz e suficientemente poderosa, uma burguesia liberalinteressada em edificar em Portugal uma social-democracia de carizeuropeu, em substituição da máquina fascista. E, portanto, quemimaginasse a possibilidade de uma soberania económica e política sobo domínio da burguesia mais débil da Europa ocidental.Esse projecto fantasioso é muito claro, no âmbito da esquerdaportuguesa, através do divertido (1) conceito de “revoluçãodemocrática e nacional” proposto por Cunhal no seu “Rumo à Vitória”.Aí, o autor consegue divisar, em Portugal, uma burguesia liberal edemocrática, para além dos grupinhos de Soares e, mais tarde, de SáCarneiro, susceptivel de gerar uma unidade com as classestrabalhadoras, contra o regime fascista. Só nos sonhos de Cunhal, emParis ou Moscovo, essa burguesia existiu. Hoje, olhando para o PS/PSDTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 2
  3. 3. como legítimos descendentes daqueles grupinhos de advogados bemsucedidos, é bem visível como é reformista e democrático o seucarácter.Não estava nos planos da esquerda portuguesa, antes do 25 de Abril, apossibilidade de um golpe militar que provocasse um movimentopopular conducente à destruição da grande burguesia portuguesa. Osmanuais políticos de Lenin ou Mao não contemplavam essa solução. Osempre clarividente PCP, em comunicado do CC de Março de 1974,depois da intentona das Caldas, a 16, ainda referia “O governo e oregime não cairão por si próprios, nem tão pouco pela acção de umasdezenas de oficiais do Exército, mesmo que corajosos e patriotas. … énecessário um levantamento nacional, uma insurreição populararmada… Todas as vias “putchistas” ou oportunistas… que não vêemnas massas populares o papel decisivo, todas as ilusões quanto a umfácil derrubamento da ditadura fascista, não apressam masretardam…”. Um mês depois o fascismo caia perante umas centenasde militares corajosos, quase sem um tiro e sem o PCP ser metido ouachado no assunto, como resulta óbvio das suas próprias palavras.Por seu turno, a grande burguesia portuguesa procurava uma soluçãopara o regime fascista e o alívio da carga colonial, para se aproximarda CEE, onde a tutelar Inglaterra se havia integrado em 1973.Acreditava que poderia beneficiar da sua elevada concentração decapitais e entrar na CEE que era, então, a soma de uma pautaaduaneira favorável com uma política agrícola. E também sabia queteria de criar o regime padrão de representação minimal, como oconhecemos hoje.Para os trabalhadores e a multidão dos residentes em Portugal, o que seseguiu, não se traduz num balanço muito favorável, como resulta damais meridiana evidência. • A queda do fascismo e a montagem do regime cleptocrático que está no terreno, efectua-se num momento em que o neoliberalismo se implantava nas meninges do capitalismo, em processo de globalização; e não facilitava em nada a afirmação de burguesias nacionais “democráticas e patrióticas” • A globalização neoliberal que absorveu Portugal não foi aqui assumida por esse nome mas, foi levada a cabo através das intervenções do FMI (1977 e 1983); no seu seguimento, pelo processo de roubo a que se convencionou chamar de “privatizações” assinado, como tudo o que é negativo neste país, pelo PS/PSD, então sob a batuta de Constâncio e Cavaco ou vice-versa; e com a integração na futura UE em 1986;Texto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 3
  4. 4. • De permeio, em 1974/75, o movimento popular explodiu, apesar do papel do PCP, recém-implantado bombeiro, posteriormente indigitado responsável pelo controlo social e sindical após o 25 de Novembro, por acção inteligente de Melo Antunes; esse contrato vem sendo escrupulosamente cumprido há 35 anos; • O movimento popular e o apoio dos militares de esquerda atrasou o processo de transição do regime de autarcia fascista para uma democracia de mercado. A “normalização” durou cerca de dez anos, para grande lástima de patrões e mandarins, sempre ávidos de estabilidade política; • A grande burguesia de base lusitana sofreu um rude golpe com as nacionalizações, embora estas tenham sido parcialmente úteis para transferir para o Estado os custos da descolonização e permitir o financiamento público das inevitáveis concentrações de capital; • A globalização e o fim dos chamados “gloriosos trinta anos” de crescimento económico geral frustrou qualquer possibilidade de um desenvolvimento económico autóctone, acentuando, pelo contrário, a debilidade da estrutura produtiva, a dependência face às multinacionais e ao sistema financeiro, bem como o aumento do peso da economia mafiosa.Neste contexto, Portugal hoje, tem a soberania inerente à posse de umabandeira (cromaticamente horrível), um hino (estupidamente guerreiro)mas, que pode fechar as fronteiras… desde que autorizado pelos seussenhores acampados em Lisboa, para preparar as próximas guerras.Obama, em Portugal, só conhece os nomes do seu embaixador, do seuluso-Karzai (Sócrates hoje, talvez Passos dentro de algum tempo) e o domotorista da embaixada. Nada mais. Não sendo o futebol coisa popularnos EUA, Obama nem sequer ouviu falar de Mourinho ou do Ronaldo!Esta é a realidade embora vozes vindas dos túmulos da História gostemde mimar os portugueses com uma ilusória importância de Portugal,para o diálogo entre o Brasil ou as ex-colónias africanas, com a UE. Emtermos de política externa, a visibilidade de Portugal está apenas nospelotões de mercenários que vai distribuindo por aí, onde existirem asguerras do império; e, esses factos não têm sido reflectidos na políticainterna que, aliás, constitui quase toda a informação dos media,particularmente estreitos no seu provincianismo.1.2 – A dívida eterna para com os militares de AbrilTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 4
  5. 5. Trata-se de uma questão de elementar gratidão perante a História, aprestação de homenagem aos militares que derrubaram uma ditadurafascista com 48 anos de existência. Sabe-se também como os militaresmais consequentes em secundar o movimento popular que se seguiuao dia 25 de Abril foram afastados, alguns deles, após passarem mesesna prisão “democrática” do regime PS/PSD, entretanto inaugurado a 25de Novembro de 1975.Porém, hoje, 35 anos após a “normalização” de Novembro, as forçasarmadas (FA) portuguesas nada têm que as relacione com os militaresde Abril. As FA de hoje, têm muito mais as características que possuiamem tempos de fascismo, do que semelhanças com os militaresesforçados que derrubaram aquele regime.As FA em Portugal são um corpo estranho à sociedade, constituido porelementos contratados e doutrinados na obediência cega aos valorescanalizados através dos cursos NATO a que são submetidos. Comocasta, são profundamente elitistas, considerando-se como que ungidospela Pátria, acima do cidadão comum, dos paisanos.Por outro lado, não tendo os portugueses conflitos com outros povos ouestados, as FA são uma emanação do passado, cara e inútil; recorde-seque desde o êxito de Chaimite (Moçambique), em 1895, contra o povonguni, as FA portuguesas evidenciaram-se mais em crimes de guerra doque em vitórias militares meritórias. Actualmente, nem sequerconseguem uma fiscalização efectiva das águas territoriais,espalhando-se a oficialidade por uma miríade de órgãos burocráticos,com que justificam o seu elevado numero, os seus altos rendimentos eas mordomias de que usufruem os mais graduados.A integração na NATO e, mais recentemente com a constituição da UEcomo estrutura militar, as FA portuguesas passaram a ser apenas umadivisão lusitana daquelas alianças militares agressivas, susceptíveis detornar os portugueses como partes não ouvidas em conflitos decretadospelo dispositivo militar-estratégico ocidental – com os riscos inerentespara a sua segurança. E é nessa qualidade que destacamentosmilitares, com nutridos salários, comparativamente às dificuldades que amultidão vai arcando, vão servindo o capitalismo global, o império, noAfeganistão, na Somália, no Kosovo, na Bósnia, no Uganda.A única atitude coerente de uma esquerda responsável, hoje, édefender a extinção das FA, acompanhada da exigência de extinçãoda NATO e da renúncia à guerra como forma de resolução de conflitos.Compete-lhe promover a integração dos militares no reforço dopoliciamento das águas territoriais ou a sua incorporação no dispositivode protecção civil. Há já alguns anos defendemos esta posiçãoTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 5
  6. 6. Compete a uma esquerda defender estas posições e não refugiar-senum silêncio revelador de efectivas posições de direita, patrioteiras, deobjectiva concordância com a militarização das sociedades, com aactual integração de funções policiais e militares, com a existência deum corpo militar ao serviço do Pentágono e da NATO (2).Em suma, cabe a uma esquerda realista, desenvolverpermanentemente uma acção anti-militarista, de desmistificação darelevância das FA, de análise e denúncia da inutilidade da corporaçãoe dos recursos com ela gastos. A conjuntura de empobrecimento quese agudiza oferece condições favoráveis para essa acção. Combatero militarismo é lutar pela democracia.2 – O enquistamento ideológico da esquerda institucionalOs aspectos atrás referidos inserem-se nas concepções desactualizadas,erróneas ou ignoradas da esquerda institucional portuguesa, como aliásacontece, na generalidade das esquerdas europeias. A obediência civilé melhor paga que a desobediência.Em Portugal, como na Grécia, há, no que se refere à esquerdainstitucional, um problema adicional particularmente grave, que é olatente estalinismo, que se revelou em todo o seu esplendor, durante operiodo que mediou o anúncio da cimeira da NATO, em Lisboa e aconcretização das acções de contestação aos senhores da guerra;como mais à frente se descreverá. Como a desestalinização do PCP nosanos 60 nunca foi feita, dadas as condições de clandestinidade e apersonalidade dominante de Cunhal, os diversos grupos de dissidentesdali saídos foram sempre portadores de uma ganga ideológica e deuma prática autoritária e inquisitorial ainda presente em muitos dos quecompõem a esquerda actual; mesmo quando, geracionalmente, nãoviveram naquele tempo.Entende-se que a compreensão das insuficiências da esquerdainstitucional, nomeadamente quanto às características do capitalismoactual, tornarão mais claras as razões das suas atitudes no âmbito dospropósitos deste texto – os eventos de contestação à NATO – e ascausas da sua manifesta inoperância, da ineficácia da sua acção,perante as medidas empobrecedoras e repressivas que se abatemsobre a multidão, em Portugal.Alarguemos, pois os horizontes, na senda de artigos recentes,nomeadamente “Pensar à esquerda, sem vacas sagradas” (3).1 – Hoje, o capitalismo está, essencialmente, globalizadoTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 6
  7. 7. Há um capitalismo global constituido pelas multinacionais, o sistemafinanceiro e o capital mafioso que cria e enforma as suas própriasinstituições regulatórias, todas elas, formalmente, com um âmbitosupranacional. Nesse capitalismo global, nesse sistema imperial, nãocorrespondente a um espaço nacional hegemónico, domina umacasta de grandes gestores, banqueiros, detentores de capitalespeculativo e dos media globais, mandarins e militares de alto coturno.Este sistema global contém uma hierarquia de burguesias nacionais,com as suas rivalidades e conflitos mas, já não se pode confundir com osistema primordialmente composto por rivalidades inter-imperialistas,entre burguesias nacionais, com pretensões hegemónicas, comoaconteceu, sensivelmente até ao final da Guerra Fria. Contudo, aexistência das nações serve, como desde sempre, para dividir ostrabalhadores, para alimentar os antagonismos convenientes parabeneficiar o capital.A constituição de um capitalismo global, integrante das nações e,unificando no essencial, as burguesias nacionais num complexoalargado de poder não foi ainda incorporado pela esquerdaportuguesa, que continua apenas a actuar contra o seu governo,isolado no seu território. Como aliás as suas congéneres europeias eapesar da (virtual) criação de um Partido da Esquerda Europeia.Apetece dizer, abaixo os organismos de cúpula, vivam os orgasmos decópula, memorável frase escrita nas paredes de Lisboa durante o Prec.Acontece que há muito o poder económico tomou conta do poderpolítico; e como esse poder económico é global, o poder políticonacional é a agência local do capitalismo global, do império. É,particularmente claro, no momento presente, o escasso poder dogoverno português, de Sócrates ou do seu sósia Passos, meros robots dos“mercados” e das tutelas do BCE, da Comissão Europeia, do FMI, dacomissária Merkel.E, consequentemente, não está presente na prática da esquerdasocial-democrata – como na das esquerdas institucionais europeias –uma visão internacionalista da luta social e política, que dê prioridade àunidade dos povos europeus contra o capital. Há mesmo quem procure(PC) aliciar, explicitamente, os trabalhadores para um patriotismoridículo, serôdio, enganador e suicida.2.2 – A fusão entre funções policiais e militaresComo o capitalismo é global predomina no seu seio o antagonismoentre o capital globalizado e o trabalho, protagonizado pela multidãoTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 7
  8. 8. mundial e são subalternas as disputas entre as potências; portanto,serão sempre regionais ou localizadas as guerras do império. Nessecontexto, observa-se a integração das funções militares com as funçõespoliciais e dos serviços secretos, todos conjugados contra a multidão,sobretudo os trabalhadores do mundo, sendo este um dos muitosaspectos que desenham a actualidade que as esquerdas institucionaisnão incorporam.Está constituido um dispositivo militar-estratégico ocidental, parasalvaguarda do poder ocidental (europeu e norte-americano) e dassuas multinacionais, que pretende conservar o seu predomínio sobre oresto do planeta, iniciado no século XVI. São os interesses ocidentaisque, pretendendo controlar as fontes energéticas e os corredores detransporte (nomeadamente no Médio Oriente e no Índico), se queremtornar nos árbitros definidores do desenvolvimento dos outros povos,nomeadamente chinês, indiano e japonês, aqueles que sãoconsiderados como os adversários mais temidos.Esse dispositivo tem o seu cérebro no Pentágono e dois importantesbraços em duas alianças militares, a NATO e a UE, ambas, como o seucontroleiro, com propensão para a intervenção militar e outrasagressões em qualquer parte do mundo. E isso, directamente, com aintervenção própria ou, por intermédio de outras agências, como aUnião Africana, a ONU, Israel, a Active Endeavour, o Conselho deCoordenação do Golfo, etc.A integração das funções militares e policiais resulta da integração domundo num só sistema capitalista, global, definidor das regras e de umpensamento único, pretenso herdeiro do papismo inquisitorial durantelargos séculos dominante na Europa ou, do marxista-leninista,cientologia oficial na antiga URSS.As guerras, sendo internas ao sistema global, confundem-se comoperações de ordem interna, vulgarmente designadas como policiais; edaí resultam os conceitos de “nation building” a aplicar a paísesinvadidos, a contratação de muitos milhares de mercenários civis para oexercício de funções de apoio aos militares “strictu senso”, nos cenáriosde guerra, para o exercício da repressão e enquadramento daspopulações. A recente operação militarizada nas favelas do Rio deJaneiro, para preparação de um ambiente favorável à vinda de turistasem 2014 mostra bem essa sintonia, essa fusão. Na paróquia lusa, quemassistiu à manifestação anti-NATO de dia 20 de Novembro terá vistomais aparato militar do que prevenção policial junto dos manifestantesdenunciados pelo PC como perigosos díscolos, só por não teremprestado vassalagem ao seu comité central.Texto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 8
  9. 9. Esta integração entre funções militares e policiais, ainda não foidescoberta pela esquerda portuguesa ou então, só é discutida entreiniciados e considerada inconveniente para incorporação na práticapolítica.2.3 – A putrefacção do sistema de representação e a anti-democraciaParcela significativa da população mundial é consideradaexcedentária relativamente às capacidades do sistema capitalistaglobal e ir-se-á acentuar a pressão sobre as condições de vida e desobrevivência de milhões de trabalhadores desempregados, combaixas qualificações, precários, bem como de aposentados, pobres eminorias. A financiarização e a criação de riqueza através daespeculação financeira tende a estabelecer uma economia de jogo,de casino, cuja rendabilidade fácil e de curto prazo, desvia os capitaisda actividade produtiva e dos erários públicos, impossibilitando oinvestimento no bem-estar da multidão que, por esse motivo se revelaexcessiva para o sistema capitalista global.É dos livros que, onde as necessidades da carne estão presentes, hárevolta; e que o poder, em geral, utiliza o Estado e a repressão peloúltimo protagonizada, para procurar debelar ou prevenir essa revolta.Uma das formas de dominar ou ocultar essa revolta é a usurpação dademocracia, a apropriação da representação da multidão.O sistema capitalista globalizado vem desenvolvendo sistemas políticoscada vez mais autoritários em que, mesmo a pobre democracia demercado se torna totalmente cosmética. As decisões de ordem política,no capítulo do trabalho, das condições de vida, das finanças públicassão tomadas por directórios partidários fechados, mediocres ecorruptos, sem qualquer escrutínio popular. As instâncias comunitáriasmostram-se igualmente exemplares, no seu conteúdo anti-democrático,dedicando-se apenas à criação de factos e regulamentos quefavorecem o capital financeiro, os negócios das multinacionais e dasempresas em geral.A assunção da legitimidade da intervenção militar onde existamameaças está subjacente à prática dos EUA e dos seus aliadoseuropeus desde o final da Guerra Fria e acaba de ser consagrado naFIL no seio do Conceito Estratégico da NATO. Neste se consideramcomo argumentos de intervenção militar, conflitos internos ou externos,problemas ambientais, crime organizado e narcotráfego, imigraçãoclandestina, cibercrime, entre outros, onde avulta a pérola dasameaças, o terrorismo. Assim, fica colocado, como compromissomultilateral, o militarismo dentro das sociedades, como ameaça óbvia àmultidão de todos os países e, com uma pluralidade de pretextos.Texto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 9
  10. 10. Perante a crise económica que se vem desenhando e o agravamentodas condições de vida da multidão, sobretudo na Europa, não épreciso muito para de observar como o militarismo e a redução dademocracia, constituem peças centrais de um mesmo puzzle. Sobreestas questões a esquerda institucional, cala-se; e, prefere continuar acredibilizar sistemas políticos autoritários, considerando a actividadeparlamentar e institucional, como o centro da sua actividade.2.4 – A soberania nacionalBem recentemente abordámos esta questão a propósito do “vistoprévio” da UE à aprovação do orçamento na UE e dos protestospatrióticos de alguns grilos falantes (4)Integrado em várias esferas de dependência – Comissão Europeia, BCE,“mercados”, FMI, NATO, UE, EUA, OMC e das importações espanholas,Portugal não existe em termos de soberania. São os humores da Merkele dos “mercados” que determinam as nossas vidas, dando os devidosrecados ao Sócrates ou ao Passos, os sacripantas de serviço. O BurkinaFaso ou o Sri Lanka terão, porventura, maior autonomia, como países,uma vez que é menor a confluência de institutos da globalização sobreas suas populações, como também será menor a sua integração nochamado mercado global.Elementos factuais como o do parágrafo anterior, antes de seremvaloradas como bons ou maus, têm de ser consideradas como factos; eé a partir de factos que assenta o presente e se constrói o futuro.A multidão em Portugal percebeu há muito que pertencer à UE talcomo a submissão aos “mercados” não garantiram uma eficazaplicação dos fundos comunitários, o aumento da dimensão domercado interno, a reestruturação do tecido produtivo, um sistemaeducativo decente, nem evitou a instalação dos gangs mafiosos.Pertencer à UE não garante progresso, modernidade, evolução em paze com crescente bem-estar, pesem embora as expectativas iniciais,largamente exageradas pelo mandarinato. Garante, isso sim, unspoucos de milhões de consumidores para os exportadores alemães eespanhóis e uns volumosos arredondamentos nos rendimentos dosbeneficiários financeiros da entrada dos fundos comunitários.Nunca – e agora, isso é particularmente claro – houve qualquer fórmulade solidariedade entre os países europeus ou, propósitos de uma realredução das desigualdades internas, de construção de uma Europacomo união solidária de culturas e povos. O que sempre existiu foi umprojecto de criação de um mercado alargado a centenas de milhõesTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 10
  11. 11. de pessoas, como instrumento de centralização de capitais, de criaçãode um grande feudo para os capitais europeus. E isso, a despeito dosfundos de coesão, sociais, dos QCA, do QREN e outras fábulas que sónão o foram totalmente, pois esses fundos cairam direitinhos nas contas“offshore” de empresários e mandarins que agora clamam por umademocratização dos sacrifícios. Em Portugal, como na Grécia, naIrlanda, em Espanha, na Letónia…Sabe-se que a construção da UE foi, de certo modo, precursora eensaio regional da globalização, tal como ela hoje se apresenta. E aglobalização é um facto inelutável e subalterniza, ao mesmo tempoque une, as nações e os capitalistas nacionais, contra a multidão e ospovos, constituindo aquilo a que Negri chama “o comunismo docapital”.Portanto, a presença no seio da UE não tem, seriamente, umaalternativa como não tem alternativa a fuga à inserção no capitalismoglobal; o capitalismo não admite fugas, contempla apenas comoobjectivo sério, a sua destruição.O capitalismo global, sendo um sistema integrado que abrange todo oplaneta não irá voltar atrás, a fórmulas autárcicas de autonomizaçãodos espaços de manobra das burguesias nacionais, dos patronatosindígenas, cada qual com o seu rebanho de trabalhadores. Da mesmaforma que não é nada provável um retorno ao feudalismo, que foisuplantado pela criação de nações, em resposta à necessidade dealargamento de mercado próprio e da criação de uma reserva de mãode obra, por parte dos capitalismos regionais; que, criando as nações,se metamorfosearam em burguesias nacionais.A globalização da produção de bens e serviços, promoveu umaextrema integração e complexização dos processos produtivos,desenvolveu uma matriz muito densa e diversificada de trocas de bensacabados e produtos em vias de fabrico, pois as multinacionaissegmentaram a produção em termos regionais para se aproveitaremdas diferenças salariais e nos quadros ambiental, político eeducacional. Resulta daqui que o capitalismo vem acentuando atransformação da produção mundial num conjunto único.Este elemento objectivo, de carácter técnico da próprio modo deprodução capitalista e, que se acelerou, por mãos europeias a partir doséculo XVI, junta-se à tendência permanente para a concentração decapitais e para a centralização das decisões. Como temos afirmadonestas páginas, isso desemboca em dois aspectos importantíssimos decarácter político;Texto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 11
  12. 12. • Unifica a multidão mundial, como entidade produtiva, para além das barreiras e propagandas nacionalistas, que se tornam obsoletas; • Essa unificação cria as condições para lutas sociais, reivindicativas e políticas de carácter novo e de conteúdo, pelo menos, supra- nacional, cujo amadurecimento conduzirá certamente a uma mundialização paralela à do próprio capitalismo; • Essa unificação encontra diversíssimos e poderosos escolhos, entre os quais não são menores, o poder das burocracias sindicais e dos partidos ditos de esquerda, cuja sobrevivência exige o refrear da criatividade dos movimentos sociais, a manutenção das taras patrioteiras e o apoio mais ou menos óbvio aos capitalismos nacionais e aos mandarinatos indígenas; • Refira-se ainda que a multidão mundial, como resultado da imensa complexidade técnica da produção global e da dependência que esta tem do factor conhecimento torna absolutamente desnecessária a existência do capitalista. Sendo o conhecimento o elemento fulcral da produção de bens e serviços de hoje, pelas suas características, é elemento que fica sempre na posse do trabalhador e não apropriável pelo capitalista, contrariamente ao tempo em que o capital fixo fornecido pelo capitalista era a base técnica da típica produção fordista, ao qual se atrelavam trabalhadores, com funções simples, repetitivas e estupidificantes. (5) Por outro lado, como a produção moderna é constituida pela integração e interacção de múltiplas, constantes e micro- decisões, levadas a cabo pelos trabalhadores, nos seus postos de trabalho, munidos de um conhecimento não transferível para o capitalista, está-se criando a base para uma produção comum, de bens ou serviços, produzidos sem a contribuição necessária ou útil do capitalista, uma vez que a posse do capital fixo deixou de ser o determinante da produção. E sendo a produção um bem comum aos trabalhadores de uma empresa que, por sua vez está ligada a uma pluralidade de outros colectivos de trabalhadores, é toda a produção mundial que se tornou um bem comum. Em suma, tendo a produção um carácter global e comum, a soberania que deve existir é a da multidão mundial enquanto as soberanias nacionais tenderão a representar algo do passado, das fases inicial ou imperialista do capitalismo; tão pertencentes ao passado como os domínios do duque de Borgonha.Não há condições para avanços revolucionários que não para vastasmassas de territórios, com abundantes recursos, população abundanteTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 12
  13. 13. e boas capacidades em termos de conhecimento científico, técnico etecnológico. Nenhum território com uma população reduzida, emtermos globais, poderá ser viável num processo de ruptura com o“mercado global” uma vez que o cerco político e económico, oumesmo a intervenção militar do império, tornariam insustentável a suaposição. Essas massas populacionais encontram-se na Europa, nos EUA,na Rússia/Eurásia, na China ou na Índia ou no desenvolvimento daintegração sul-americana; “só” falta a criação de movimento socialintegrado, transformador da infraestrutura produtiva e do sistemafinanceiro em bens comuns; que, entenda-se, não corresponde àestafada fórmula da nacionalização, à inserção num aparelho deEstado, à passagem para um capitalismo de Estado.Há sistematicamente variações entre o papel das várias regiões domundo, dos vários países na produção global, observando-se mutaçõesdos mesmos na hierarquia da relevância na produção mundial. Assim,há regiões e países que vão decaindo nessa hierarquia, em constantetransformação e, outros que sobem degraus nessa mesma hierarquia.Não custa perceber que a Europa e os EUA estão perdendo pontos eposições nessa escala e que países como a China, a Índia mas,também o Brasil, o Irão ou a Turquia melhoram o seu posicionamentorelativo. Pode mesmo referir-se que há uma mudança histórica, decarácter “tectónico” de ressurgimento do Oriente (cujas civilizaçõessuperavam os rústicos europeus até ao século XV) e um apagamentodo designado Ocidente; como se já assistira ao domínio dos EUA face àEuropa colonialista, depois da I Guerra Mundial, em detrimento daInglaterra.Deste ponto de vista de projecção histórica e geo-estratégica, qual opapel de Portugal? O declínio iniciado no final do século XVI nuncadeixou de se verificar, em detrimento de outras potências,comparativamente às zonas de capitalismo avançado. Não vamosinventariar aqui as causas dessa decadência mas, sem dúvida que ofuturo, na próxima década, não será muito distinto de uma integraçãoformal ou informal num estado ibérico com centro em Madrid, estadoesse que, por sua vez, estará contido numa Europa, alicerçada numnúcleo duro, em torno dum eixo franco-alemão, com ramificações parao Benelux, para o norte da Itália e incluindo a Suiça.Neste contexto será manifestação de elementar inteligência, para sesair do marasmo actual, a criação de lutas ibéricas, de cooperação ecolaboração entre os movimentos e trabalhadores das várias entidadesibéricas; e, partir daí para uma unidade europeia contra o inimigocomum. Naturalmente que nada disto será concebível no seio da CESou do chamado Partido da Esquerda Europeu, cúpula de partidosnacionais mais ou menos representados no Parlamento Europeu, semqualquer enraizamento na multidão; e, sem qualquer perspectiva deTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 13
  14. 14. criação de rupturas com o mandarinato comunitário e as suasinstituições.Não acreditamos na viabilidade de Portugal sair da UE, pelo seu própriopé, como modo de remediar a marcha acelerada doempobrecimento. Porém, pelo contrário, existe uma probabilidaderazoável de o directório que domina a UE decidir que Portugal prejudicao euro, a bem-aventurança da União e dos “mercados”, fazer osportugueses regressar a uma moeda própria, a elevadas taxas deinflação, dificuldades ainda maiores no financiamento externo, comuma suspensão indefinidamente temporária da democracia restante,como proposto pela Ferreira Leite, no contexto de um filme negro como FMI em rédea solta na imposição da “estabilização”.É bom que a esquerda gaste alguns neurónios em perceber isto.Portugal é o seu povo, a sua capacidade de trabalho, a sua língua e asua cultura; tudo o mais é ficção. E, aproveite as suas capacidades demobilização popular (aliás, minguantes devido ao seu descrédito) parainverter as tendências actuais.2.5 – Notas sobre o culto da obediência e da hierarquiaA esquerda portuguesa como ainda não saiu das relações deprodução fordistas, da reivindicação tácita ou expressa do defunto“modelo social europeu” trata de reproduzir a cultura hierárquica, deobediência e resignação, que muito marca a sociedade portuguesa ea sua História, de matriz católica e rural.Só por periodos breves é que se observou desobediência de massa euma cultura de autonomia dos trabalhadores – o primeiro quartel doséculo XX, com toda a profusão movimentos anarquistas e de rebeldiacontra as dificuldades provocadas pela carestia e a guerra; sabe-secomo terminou esta erupção, com a ditadura clerical-fascista deSalazar. E também, de modo mais fugaz, em 1974/75 debelada pelanormalização novembrista dos generais e de toda a direita liderada porMário Soares, com a conivência do PC, “eleito” para a diversão dasmassas e para o esmagamento dos “esquerdistas”, seus inimigos deestimação, desde os anos 60. Esta última via que se vive hoje, entra emfase de putrefacção com a ditadura dos “mercados” e a instituição deum poder cleptocrático e musculado.O espírito hierárquico, historicamente recente, emana directamente daestrutura do poder da fábrica e da empresa, como expressão do poderdo capital. A obediência, por seu turno, cala fundo num povo pobre,com pouca instrução, perante um Estado omnipresente, totalitário (eportante omnisciente), tão hábil a manejar o cacete, como a gerar leis,Texto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 14
  15. 15. regulamentos, despachos para manter os paisanos a trabalharserenamente… tal como serenamente se estabelecem as redesmafiosas.A esquerda institucional insere-se no esquema de poder acima referido,incutindo um respeito reverencial para com a lei, o sistema judiciário e ocorpo legislativo que não pára de se estender e de se tornarcrescentemente incoerente e confuso para facilitar a actuação doEstado e dos que o manipulam. Citamos estes casos: (6) • A própria legislação do trabalho que, naturalmente, merece toda a atenção das esquerdas e dos sindicatos, estabeleceu a figura do trabalhador subordinado o que, sendo aberrante, introduz a figura medievalesca da sujeição pessoal; • Ao relevar de forma as figuras da ofensa da honra e da injúria como fontes de processo criminal, a propósito de tudo e qualquer facto menor – contra todas as tendências do direito moderno – a lei portuguesa dá ao Estado um poder repressivo imenso que fere, de facto a liberdade de expressão. Aconselhamos a esquerda institucional a explorar esta questão • Para terminar este parêntesis com uma ilustração, refira-se que um desembargador foi a entidade que teve de emitir um acórdão que teve como base inicial uma queixa da digna colecção de mandarins que dá pelo nome de Associação dos Municípios do Algarve contra o presidente do Instituto de Meteorologia só porque uma previsão deste… não se concretizou! Um sistema legislativo e judiciário que permite a colocação destes “problemas” e nele envolve avultados recursos públicos, merece o caixote do lixo. Porém, se assim é, por que não apresentar queixa das promessas eleitorais não cumpridas pelos mandarins?Está claro que este sistema não é de todo desconfortável ao poder nemàs burocracias pois o emperramento das decisões e o seu arrastar notempo são excelentes válvulas de descompressão da conflitualidadesocial. E de perpetuação das sujeições, da obediência às hierarquias,ad seculum seculorum…As tais esquerdas apostam também, como peça central, no primadoda lei, no cumprimento da legalidade, nos pareceres técnicos, nascompetências de gabinetes jurídicos para a resolução de conflitossociais, jogando exclusivamente no terreno montado e armadilhadopelo Estado e pelo poder económico. Desviam a luta do quadropolítico, do conflito social entre dominantes e dominados e conduzem-na para o campo técnico, para o quarto escuro, estreito e fedorentoTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 15
  16. 16. da legalidade do Estado dos mandarins e do patronato. Em resumo,colocam todos os ovos na cesta do capital, que agradece.Quanto ao aproveitamento da conflitualidade social para gerarresistências, desobediências, desrespeito pelo Estado e pelos seusaparelhos, para colocar abundantes “pauzinhos na engrenagem” ou,para a criação de alternativas fomentadoras de auto-confiança porparte da multidão, observa-se uma total indisponibilidade da esquerdainstitucional.Exemplo lapidar é o da aceitação do corporativismo montado naConcertação Social onde a santa aliança governo-patronato vaiimpondo regras, sucessivamente mais lesivas dos trabalhadores e damultidão em geral. Aos mandarins sindicais cabe obter umasconcessões daquele dueto, aceitar (regra UGT) ou refilar e não aceitar(regra CGTP). No entanto, a caravana dos bandidos, passa. Não nosrecordamos de ver uma manifestação convocada para junto doprofícuo conclave…Talvez não se tenha ainda descoberto a diferença entre legalidade elegitimidade. Se essa distinção estivesse clara e em prática acontestação legal seria articulada com formas de protesto oudesobediência, que envolvesse directamente os interessados, commodelos construtores da unidade dos cidadãos em luta, do reforço dasua auto-confiança e de pressão sobre o poder político e económico.Os partidos da esquerda institucional, criaram nos seus aparelhos umfuncionalismo de dirigentes e capatazes tal como uma empresa o faz,criando estruturas locais sem autonomia ou iniciativa que não asprovenientes do topo, como numa estrutura militar. Essas secções locais,subalternas, servem para veicular as instruções dos “de cima” ou, paraconvocar uns quantos basbaques que baterão palmas perante os altosconhecimentos dos deputados ou dos chefes. Trata-se de umcaciquismo ambulatório, representação de um anel mais largo do queo caciquismo paroquial, local, concelhio, distrital. A promoção pormérito, nas cliques partidárias em geral, produz varas, duarteslimas,diasloureiros e alguns milhares mais, menos mediáticos.Os sindicatos, por seu turno, também inventaram estruturas intermédiasde burocratas que nunca foram sindicalistas ou que já estão esquecidosdesse tempo. Para perpetuarem o seu poder e manter os trabalhadorescomo pagantes passivos de quotas sindicais, instituiram estatutosbloqueados a qualquer oposição, mesmo que isso promova odesinteresse da multidão pelo activismo sindical e mesmo umalheamento das transformações na área do trabalho, observadas nasúltimas décadas de definhamento do fordismo. O importante é que sereproduza a separação entre as direcções sindicais e a massa dosTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 16
  17. 17. trabalhadores, para que se perpetue o modelo da obediência dosúltimos perante os primeiros.Uma das apostas mais divertidas dos sindicatos. é no excursionismo aLisboa a propósito das manifestações, onde os passageiros se mantêmalinhados e juntinhos por grupos geográficos e profissionais que maisfazem parecer, quando desfilam em procissão pela avenida abaixo,uma representação teatral das antigas corporações de artes e ofícios.Essas procissões, qual reprodução de liturgias religiosas várias, terminajunto do altar, onde o sacerdote – num plano mais elevado que amultidão - perorará as vacuidades do costume e fará o elenco dasvitórias conseguidas, oferecendo a garantia de que os crentes serãocontemplados com a bem-aventurança eterna. Sobre essa vacuidade,um dos elementos mais recentes é o comunicado do CC do PCP, de29/11 último que seria apenas hilariante, se não fosse também trágicopela influência que irá ter sobre o comportamento de muitostrabalhadores.Neste contexto, quem falar de desobediência civil toca em algo queassusta os boiardos da esquerda institucional. Porque, se há coisa queos partidos não gostam é da iniciativa que vem de baixo, susceptível deperturbar o sossego e a rotina dos de cima. De facto, é arriscado se osde baixo, se unem, em acções concretas de desobediência, comelementos de outros partidos ou sem partido e descobrem asmaravilhas da unidade na base, em vez de estarem à espera que osdiversos directórios se entendam para a construir. E se os activistasconseguirem resultados positivos dessas lutas, construirem movimentosocial e concluirem não precisar de mandarins para nada? Percebe-seporque razão esses mandarins preferem estar todos juntinhos na AR, nascâmaras, nos sindicatos, a simular luta e contestação. A sua mediaçãoapaziguadora perder-se-ia e a sua boa vida estaria em causa.Papel importante neste contexto é o da imprensa. Por um lado,encontrando-se nas mãos de grupos económicos têm um interesseobjectivo em que a multidão se quede mansa e obediente. E, para amaioria dos jornalistas, dentro do quadro da autonomia informativa deque possam dispor, é mais cómodo manter a rotina com as frases feitasdos mandarins e os seus jogos florais, do que obter informaçãoqualificada sobre o que pensa a multidão e os seus movimentos. Comoconsequência disso, sempre que algo foge dessa rotina – caso dosassuntos NATO – em que os mandarins nada sabem ou querem saber,foi descortinável a ignorância da imprensa sobre o assunto, daíresultando um péssimo serviço informativo prestado ao público.3 - A Cimeira da NATO em Portugal e o comportamento da esquerda institucionalTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 17
  18. 18. Foi durante a assembleia constituinte da PAGAN (30/9/2009) (7) quepublicamente se soube em Portugal haver em finais de 2010 a Cimeirada NATO. É que o mundo do activismo anti-militarista europeu, dasredes de intervenção a nível político ou de desobediência civil, teve deencetar contactos com activistas individuais portugueses, pois ninguémreferenciava, o PC ou o BE como possuidores dessa vertente. Assim, nareunião de Berlim (Outubro de 2009) da Coligação “No to War, No toNATO”, só a PAGAN esteve representada.Para aquele acto constituinte da PAGAN, foram convidadas todas aspessoas, grupos e partidos com potencial interesse em construir umaunidade anti-guerra e anti-NATO, sem que a esquerda institucional cáda paróquia se tenha feito representar. Até ao princípio do anocorrente, o site do CPPC, por exemplo, estava francamentedesactualizado, abandonado.Em síntese, o comportamento do BE e do PCP, diversificado,caracterizou-se pelos seguintes factos:3.1 - Atitudes da direcção do BEEm Dezembro de 2009, o actual deputado Jorge Costa - pertencente àseita trotskista PSR, (inscrita numa tal quarta internacional) e integradano BE - anunciou na primeira reunião Pagan/ICC (InternationalCoordinating Commitee da Coligação “No to War, No to NATO”), oapoio da direcção do BE ao projecto PAGAN, o que nunca seefectivou. No entanto, alguns militantes ingressaram na PAGAN, onde semantêm.O BE não divulgou um baixo-assinado, promovido pela PAGAN para asaída de tropas portugueses do Afeganistão e foi-se recusando apromover sessões públicas de esclarecimento e debate, com a PAGAN(excepto em Torres Vedras onde os militantes locais em Novembroúltimo, tomaram uma atitude digna).Em Outubro, a direcção do BE lembrou-se que tinha de fazer algo apropósito da Cimeira da NATO e organizou uma conferênciainternacional, através de uma das suas agências (Cultra). Procurougarantir a presença, no evento, de membros estrangeiros da Coligaçãomas, recusou a de membros da PAGAN; isto é, uma atitude xenófobainvertida, uma atitude de pacóvios deslumbrados com “produto”estrangeiro.Quando começou a campanha de criminalização da PAGAN, adirecção do BE assustada, reuniu e mandou retirar da PAGAN um seufuncionário (membro do PSR) que, sublinhe-se, não foi seguido por maisTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 18
  19. 19. nenhum dos membros do BE, simultaneamente activistas do colectivoanti-militarista.Durante a Contra-Cimeira, os dirigentes do BE e os seus deputados(excepto José Soeiro) não apareceram, ficando por saber se por jásaberem tudo sobre a NATO ou por não lhes terem sido oferecidoslugares no pódio. Ou ainda, por se inserirem na categoria típica daesquerda portuguesa, pouco atenta aos problemas globais e domilitarismo.Na realidade, o BE manteve-se perto da PAGAN, para ver o que aquilodaria e dar uma satisfação à esmagadora maioria dos seus militantesque simpatizam com o projecto. Porém, a obsessão da direcção do BEcom Alegre (que é a favor da NATO) obrigou a direcção do BE anavegar entre duas águas, com todas as contradições que daíadvieram.Nesse desnorte, acabaram por se enquadrar na manifestação do dia20, entre os credenciados, no redil controlado pelo PC, defendidospelos gorilas que defendiam a turba contra a violência dos … “blackblock”, dos “anarquistas” dos “violentos”, da PAGAN, do ICC, do WRI,de deputados europeus, do parlamento inglês e outros perigososdíscolos, capazes de perturbar a ordem social vigente. Para um partidomaioritário à esquerda, portaram-se como mais uma daquelas secçõeslocais do aparelho do PC, com os respectivos pendões e bandeiras. Adirecção do BE comportou-se como o filho pródigo regressado a casado pai PC, arrependido de anos de desvario.O BE, como o PC, colaborou com a polícia na concretização do cercoàs centenas de manifestantes “não credenciados”, onde seencontravam vários dos seus membros, entre os quais se relevam odeputado já referido, Soeiro e o conhecido “major” Tomé, tambémmembro da PAGAN. Mesmo sem ter havido sangue na manifestaçãodos “não credenciados”, ele espirrou na cara de Louçã e de Jerónimo.3.2 - Atitudes do PCP ou das respectivas agênciasA posição do PC, relativamente à PAGAN foi sempre coerente e traduz-se pela palavra repúdio.Em Dezembro de 2009, dois membros do PCF, membros da Coligação aque a PAGAN pertence, encontraram-se na CPPC com responsáveisdeste, em procura da unidade, sem qualquer resultado. Em Junhooutros dois membros (alemães) da Coligação tiveram um encontro como CPPC e daí surgiu o acordo de a PAGAN e os seus companheirosTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 19
  20. 20. estrangeiros participarem numa manifestação única contra a NATO;esse acordo viria a ser rasgado pelo PCP, como se verá adiante.Somente em Fevereiro de 2010 se verificou um contacto PAGAN/CPPC,por intervenção de um quadro do PC, pouco agradado com a rigidezacampada no CPPC. Aí, um tal Carlos Carvalho, ao que sabemosgraduado da CGTP, da USL, da CPPC, da coligação PSNN (pelomenos…) afirmou taxativamente, a recusa das acções dedesobediência civil e da unidade com a Coligação “Not to War, No toNATO” porque não quereria estar sob a obediência … de estrangeiros!Para um quadro de uma organização como o PC que, durante dezenasde anos, registou a mais fiel obediência ao PCUS, essa afirmação só nãoprovocará gargalhadas em ignorantes ou recem-nascidos.Recorde-se que na sua vida de subserviência ao extinto PCUS e àpolítica seguida pela URSS (teoria da soberania limitada, formulada porBrejnev), o PC aceitou a invasão da Checoslováquia em 1968, o golpemilitar de Jaruzelski, na Polónia em 1981, (claramente contra amobilização da classe operária) e nunca considerou que a invasãosoviética do Afeganistão é tão condenável como a dos EUA e daNATO. Por isso, o carácter anti-guerra e anti-imperialista do PC e, maisconcretamente, do CPPC, madura organização com uns trinta anos deletargia é parcial, coxo e só engana quem quiser ser enganado.Quando foi anunciada a manifestação de dia 20 pela coligação do PCconsigo próprio (PSNN), a PAGAN, no seguimento do acordo de Junhopassou a divulgar e a convocar toda a gente para a mesma. Desdesempre foi inabalável a vontade, na PAGAN e nos seus aliadosestrangeiros que, perante a NATO, não haveria lugar a divisões oumanifestações separadas. Como é óbvio, para quem tenha presenteque a dimensão e a perigosidade da NATO não se compadece comatitudes corporativas e tentativas estúpidas de apropriação domovimento anti-NATO.Em meados de Outubro, do universo PCP sai a recusa, em comunicado,de manifestação conjunta, a partir de argumentos ridículos, como a deconvocatória de “outra” manifestação para o Marquês de Pombal,para a mesma hora e dia, por parte da PAGAN. Fica-se sabendo que areferida manifestação seria aberta a “todos os portugueses” provaevidente de um nacionalismo saloio e de que não terem percebido sera NATO uma instituição condenada por muita gente, para além daocidental praia lusitana; e mesmo para os nativos desta… alguns nãoeram dignos do aval do PC para participar.De seguida, a polícia convoca a PAGAN para duas reuniões, paraaquilatar se havia propósitos de violência por parte da Coligação.Soube-se entretanto que teria havido uma queixa contra a PAGAN,Texto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 20
  21. 21. apresentada pela USL – União dos Sindicatos de Lisboa, que melhor teriafeito se procurasse mobilizar os trabalhadores para os problemas docapitalismo de hoje.Na véspera da manifestação, novo comunicado da constelação PCPprocurando banir das ruas de Lisboa, não somente a PAGAN mas acoordenação da Coligação, a War Resistants International(nonagenária organização pacifista), a Bomspotting e, com mais umpouco de desvario, o pai Natal também estaria incluido no rol.Curiosamente, a linguagem utilizada no comunicado é muitosemelhante à utilizada pela pide. Esta, referia-se ao PC como o“chamado PCP” e agora, o PC refere-se à “chamada PAGAN”;coincidências reveladoras.A manifestação propriamente dita constituiu um momento de vergonhapara o PC, como foi evidenciado na imprensa e por testemunhosdiversos na internet. Foi mesmo divulgada a foto de João Dias Coelho,membro do CC do PCP, visto a orientar a polícia na determinação dos“não credenciados” a reprimir (8). Quando tal miserável tarefa cabe aum dirigente do mais alto nível cabe perguntar onde reside acapacidade de pensar no PCP?No entanto, os “não credenciados” desfilaram na Avenida, sob altorisco, entalados entre a polícia do Estado cleptocrático português e osgorilas do PCP cujos dentes rangiam pela impossibilidade de não teremum Gulag à mão para colocar os “esquerdistas”.Entretanto, em todos aqueles conturbados dias, alguém viu o auto-proclamado e inflamado lídimo defensor das liberdades democráticas –o PCP – protestar contra as centenas de estrangeiros retidos nafronteira? Ou gritar pela libertação dos 42 activistas presos noMonsanto? Dos que chegaram de fora para abrilhantar os eventos doPCP durante a cimeira da NATO, algum ficou retido na fronteira?Para terminar. As esquerdas institucionais portuguesa e europeia sãocomo pedaços de esferovovite na água; não se afundam, nem têmrumo.Notas: (1) divertido aqui não é sinónimo de gerador de boa disposição, de alegria mas, de elemento de distração, de chamada de atenção para algo não essencial ou erróneo (2) http://www.slideshare.net/durgarrai/para-que-servem-as-foras- armadasTexto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 21
  22. 22. http://esquerda_desalinhada.blogs.sapo.pt/2005/05/ (3) http://www.slideshare.net/durgarrai/pensar-esquerda-sem-vacas- sagradas (4) http://www.slideshare.net/durgarrai/portugal-os-mercados-e-o- empobrecimento-generalizado (5) http://www.slideshare.net/durgarrai/afinal-qual-a-funo-social-do- capitalista (6) Casos contidos em “Estado contra Direito”, de José Preto, edição Argonauta, 2010 (7) http://antinatoportugal.wordpress.com/ (8) http://viasfacto.blogspot.com/2010/11/avenida-da- liberdade.html 7/12/2010Texto Esquerda Desalinhada grazia.tanta@gmail.com 22

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