RELATO DA MANIFESTAÇÃO DE 14 DE NOVEMBRO

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RELATO DA MANIFESTAÇÃO DE 14 DE NOVEMBRO

  1. 1. RELATO DA MANIFESTAÇÃO DE 14 DE NOVEMBRORelatos sobre a bestialidade policial podem preencherverdadeiras enciclopédias. O que têm de diferente só é novo aprimeira vez em que a bestialidade está defronte dos nossosolhos ou deixa marcas no nosso corpo, no nossso espírito. E ochoque é multiplicado sempre que uma qualquer gravataencimada pela cabeça de um burro nos informa que vivemos"num Estado de direito". E geração atrás de geração oEstado, os seus governos, os seus polícias revelam sempre abestialidade que constitui cada elemento do seu códigogenético. Geração após geração há sempre quem acredite noconto do vigárioS D, (omitimos o nome) uma das capturadas pela PSP,durante a manifestação de 14 de Novembro, explica, naprimeira pessoa o que se passou e como foi no Tribunal deMonsanto (escrito no dia 15). E previnam-se, a bestialidadeveio para ficar e para se refinar; proporcionalmente aoempobrecimento e materializando a perda de direitos, oesmagamento da cidadania.RELATO DA MANIFESTAÇÃO DE 14 DE NOVEMBROAo contrário do que muitos possam pensar eu não tenhoqualquer sede de protagonismo ou vontade de me expor,antes pelo contrário, há até alturas em que prefirohonestamente passar despercebida, mas esta altura não é(porque não pode ser) uma delas.Decidi escrever este texto porque como cidadã sinto-me nãosó no direito como na obrigação de relatar o que realmenteaconteceu na passada manifestação de 14 de Novembro naAssembleia da República, e digo realmente porqueinfelizmente mais uma vez a comunicação social preferiumanipular e ocultar a verdade, já para não falar das nojentase falsas declarações da PSP.GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 1
  2. 2. Cheguei a São Bento acompanhada do meu namorado e doisamigos por volta das 16:00/16:30 quando o Arménio Carlosda CGTP ainda estava a discursar. Mantive-me lá algunsinstantes, tendo depois chegado outra amiga nossa.Entretanto desloquei-me com uma amiga ao Mini Preço e qualnão foi o meu espanto ao ver quando voltámos que já asgrades tinham sido derrubadas e já um enorme alvoroçoocorria. Quem esteve presente não pode mentir e serhipócrita dizendo que não houve violência da parte dosmanifestantes pois é claro que houve, durante duas horas ospolícias do corpo de intervenção foram agredidos com pedrasda calçada, balões de tinta, garrafas de cerveja, etc.Foram agredidos sim, mas por uma MINÚSCULA minoria dosque estavam presentes na manifestação! No meio de milharesde pessoas talvez só umas 10 (e bem visíveis) arremessavampedras e outros objectos. Independentemente da agressãoque sofreram NADA justifica o que se passou em seguida… derepente, sem qualquer aviso prévio, (embora a comunicaçãosocial e a PSP insistam que houve um aviso feito através demegafone quem esteve presente na manifestação sabe tãobem quanto eu que não se ouviu absolutamente nada e quenão foi feito qualquer esforço para que se ouvisse…) a políciacarregou sobre os manifestantes com uma brutalidade semmedida e que eu jamais tinha visto na vida. Como todos osoutros comecei a correr e encostei-me à parede, de seguidavárias dezenas de pessoas (muitas de idade avançada) sejuntaram a mim e tentámos todos proteger-nos uns aosoutros. A maioria das pessoas chorava e gritava “PAREM!PAREM POR FAVOR! NÃO FIZEMOS NADA!” e a políciacontinuava a espancar toda a gente sem dó nem piedade eainda com mais força! Vi velhotes a serem espancados, sei depessoas que viram pais a serem espancados com os filhospequenos ao colo, sei de pessoas que viram a polícia a tentarespancar uma pessoa de cadeira de rodas e váriosmanifestantes a rodeá-lo apanhando a pancada por ele para oprotegerem. No meio de tanta violência, confusão e multidãohistérica tentando sobreviver o melhor que sabia, conseguifugir com o meu namorado mas acabámos por nos perder dosGRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 2
  3. 3. nossos amigos. Continuámos sempre a fugir em direcção àAvenida Dom Carlos I, várias vezes parámos pelo caminhopensando que a polícia já não vinha atrás de nós, e váriasvezes tivemos que fugir novamente pois a perseguiçãocontinuava. Acabámos por encontrar novamente um dosnossos amigos e depois de vários chamadas telefónicassoubemos que as duas meninas nossas amigas tinham ficadoretidas pela polícia, marcámos um ponto de encontro epassados uns minutos elas lá conseguiram fugir eencontrámo-nos todos. Daí para a frente o nosso únicoobjectivo era conseguirmos perceber o que se estava a passarmas acima de tudo assegurarmos também a nossasegurança, mas rapidamente percebemos que tal não seriapossível. A polícia pura e simplesmente não parava deperseguir os manifestantes! Continuámos sempre a fugir,parando pelo meio para curtos descansos pois a perseguiçãocontinuava… já na Avenida 24 de Julho pensámos estar safosmas que mera ilusão, aí ainda foi pior! A Polícia continuavaatrás de nós e de muitos outros mas desta vez disparandobalas de borracha! Todos corremos apavorados o máximo quepodíamos até que de repente mesmo ao pé da estação decomboios fomos interceptados por um grupo de polícias àpaisana que violentamente e chamando-nos todos os nomes emais alguns nos obrigaram a encostar às grades da estaçãoenquanto mandavam ao chão e agrediam outras pessoas.Lá ficámos sendo enxovalhados e revistados vezes e vezessem conta. Os rapazes foram todos algemados (uns comalgemas e outros com braçadeiras) e separados das raparigase de seguida fomos obrigados a sentarmo-nos todos no chãosem saber o que ia acontecer pois os polícias só nosintimidavam e não respondiam a nada. Devo frisar quedevíamos ser cerca de 15/20 pessoas todos na sua maioriajovens adultos (18/20 anos) e inclusive um rapazinho de 15anos! Lá fui posta dentro da carrinha com as minhas duasamigas, com o meu namorado e com mais 6 jovens (um dosamigos que tinha ido connosco conseguiu fugir), ou seja 9pessoas dentro de uma carrinha com capacidade para 6.Fomos dentro da carrinha (os rapazes todos algemados) semGRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 3
  4. 4. nunca nos ter sido fornecida qualquer informação sobre olugar para onde íamos ou sobre o que nos ia acontecer.Chegando ao local estivemos uns intermináveis minutos todosfechados dentro da carrinha até que com intervalos pelo meionos foram tirando de lá um a um, até no final só ficar eu.Fora da carrinha agarraram em mim sempre a gritarem“BAIXA A CABEÇA! OLHA PARA O CHÃO CARALHO!”. Jádentro da “esquadra” (Tribunal de Monsanto, o que por si sórepresenta uma ilegalidade) fui escoltada por uma mulherpolícia até à casa de banho onde me obrigaram a despirINTEGRALMENTE, onde me obrigaram a colocar-me decócoras para verem se tinha algo escondido na vagina ou noânus, onde me obrigaram a tirar todos os brincos, anéis,pulseiras, atacadores dos sapatos e os próprios sapatos! Fuiobrigada a dar o meu nome e data de nascimento. Ficaramcom todos os meus pertences (incluindo o telemóvel queantes me tinham obrigado a desligar) e fui levada até à celade meias num chão gelado! Lá á minha espera estavam asminhas duas amigas e outras duas meninas que tambémtinham sido detidas. O que se passou a seguir foram duashoras e meia ridículas e sem qualquer sentido… foram-nossempre negados os telefonemas para casa, sempre quealguém falava nisso alegavam que não sabiam de nada,nunca nos disseram porque estávamos ali, nunca nosrespondiam concretamente a nada, apenas mandavam bocasestúpidas! Ficámos na cela duas horas e meia ao frio, semcomer, sem beber, descalços e vá lá que nos deixaram ir àcasa de banho embora às meninas tenham dito “espero quetenham aproveitado pois só lá voltam amanhã”. Passadasessas duas horas e meia fomos sendo chamados um a umpara recolhermos os nossos pertences e para serem feitas asidentificações. Foram preenchidas folhas em que nos erampedidos todos os nossos dados (BI, nome dos pais, morada,telemóvel, telefone fixo, profissão, etc. …) tendo que assinarno final, caso não o fizéssemos não sairíamos dali. Lá fomosembora, vendo-nos todos no meio do Monsanto muitos semsaberem sequer como ir para casa.GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 4
  5. 5. Não fomos espancados na “esquadra” mas fomos todosvítimas de humilhação e violência psicológica. Todos fomosdetidos injustamente sem nunca sequer termos sabido oporquê da detenção. Fomos perseguidos como criminososdesde São Bento até ao Cais do Sodré! Éramos todos jovens(como já frisei a média de idades devia rondar os 18/20 anos)cujo único crime cometido foi termos participado numamanifestação. Nem eu, nem nenhum dos meus amigosarremessámos qualquer pedra, garrafa ou o que quer quefosse, não o fiz desta vez nem em nenhuma outramanifestação. Fomos detidos e perseguidos injustamentequando já nos dirigíamos ao Cais do Sodré para apanharmosum táxi para casa!Quem não esteve presente e não viveu tudo isto certamentepensará que estou a exagerar ou a dramatizar, masacreditem que não, as coisas foram bem piores até do queaquilo que descrevo. A repressão policial sentida ontem foimuito, muito grave e digna dos mais nojentos regimesfascistas e ditatoriais! As pessoas estavam literalmente a serespancadas e perseguidas nas ruas e não tinham ninguémque as protegesse! Eu vi velhos cobertos de sangue! Vimulheres e homens aos gritos de medo e desespero!Há quem sem sequer ter estado presente insista em“proteger” os polícias e dizer que agiram muito bem, quequem lá estava só tinha era que apanhar, que elescoitadinhos foram agredidos com pedras durante duas horas,que muito pacientes foram eles, que nós os manifestantessomos todos uns arruaceiros. A essas pessoas eu só vos digo:VÃO-SE LIXAR! Abram os olhos, abram a mente e vejam arealidade que vos rodeia! Vão a manifestações e vejam porvocês próprios o que realmente acontece! Sejam humanos,sejam solidários e deixem de acreditar em tudo o que acomunicação social vos mostra! NADA justifica tudo aquiloporque eu e milhares de pessoas passámos e isto não podeficar impune! Toda a gente tem o direito de se manifestarsem ser agredido brutalmente ou perseguido! Fala-se numaviso feito pela Polícia de Intervenção mas ninguém ouviuGRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 5
  6. 6. esse aviso! Um dos rapazes que foi detido no Tribunal doMonsanto nem sequer tinha participado na manifestação, iaapenas a passar na Avenida 24 de Julho no momento dasdetenções! Acham isso bem? Acham correcto que dezenas dejovens inocentes tenham sido detidos sem terem cometidoNENHUM crime? Eu não acho, acho vergonhoso, nojento emuito grave num país que se diz democrático e de 1º mundo!Foram queimados caixotes do lixo e postos a bloquearestradas? Sim foram, mas tudo como uma resposta deenorme ódio e revolta em relação à acção desumana dapolícia! Eu era a primeira a ser contra o arremesso de pedrasmas depois do que vi e vivi ontem digo com a maior tristezado mundo: quem age assim não é um ser humano, é umacriatura maldosa e formatada e merecem o que lhes venha aacontecer daqui para a frente. São cães raivosos, mercenáriosdo Estado que vestem a farda da ditadura em vez deprotegerem o povo!A todos os que foram detidos comigo, principalmente quemveio comigo na carrinha e as minhas companheiras de cela:OBRIGADA a todos! Obrigada pelo apoio, pela união, peloconvívio e risos mesmo numa altura tão triste para todos,pelas canções e assobios, pela partilha de opiniões eexperiências e acima de tudo por lutarem por um país melhorpara todos! Obrigada também a todos os que estavam ànossa espera à saída do Tribunal do Monsanto e a todos osque se preocuparam connosco.Estou viva, bem fisicamente mas muito, muito triste edesiludida com tudo o que vivi … ainda estou em estado dechoque e a achar surrealmente grave tudo aquilo que sepassou. Peço desculpa se o texto não está o melhor possívelmas é muito complicado relatar com exactidão tão chocanteexperiência.O objectivo era incutir-nos medo e fazer-nos não frequentarmais manifestações? Teve o efeito exactamente contrário:não me calam e jamais me impedirão de lutar por aquilo emque acredito! A luta continua sempre! VOLTAREMOS!GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 6
  7. 7. Relatos sobre a bestialidade policial podem preencherverdadeiras enciclopédias. O que têm de diferente só é novo aprimeira vez em que a bestialidade está defronte dos nossosolhos ou deixa marcas no nosso corpo, no nossso espírito. E ochoque é multiplicado sempre que uma qualquer gravataencimada pela cabeça de um burro nos informa que vivemos"num Estado de direito". E geração atrás de geração oEstado, os seus governos, os seus polícias revelam sempre abestialidade que constitui cada elemento do seu códigogenético. Geração após geração há sempre quem acredite noconto do vigárioS D, (omitimos o nome) uma das capturadas pela PSP,durante a manifestação de 14 de Novembro, explica, naprimeira pessoa o que se passou e como foi no Tribunal deMonsanto (escrito no dia 15). E previnam-se, a bestialidadeveio para ficar e para se refinar; proporcionalmente aoempobrecimento e materializando a perda de direitos, oesmagamento da cidadania.RELATO DA MANIFESTAÇÃO DE 14 DE NOVEMBROAo contrário do que muitos possam pensar eu não tenhoqualquer sede de protagonismo ou vontade de me expor,antes pelo contrário, há até alturas em que prefirohonestamente passar despercebida, mas esta altura não é(porque não pode ser) uma delas.Decidi escrever este texto porque como cidadã sinto-me nãosó no direito como na obrigação de relatar o que realmenteaconteceu na passada manifestação de 14 de Novembro naAssembleia da República, e digo realmente porqueinfelizmente mais uma vez a comunicação social preferiumanipular e ocultar a verdade, já para não falar das nojentase falsas declarações da PSP.GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 7
  8. 8. Cheguei a São Bento acompanhada do meu namorado e doisamigos por volta das 16:00/16:30 quando o Arménio Carlosda CGTP ainda estava a discursar. Mantive-me lá algunsinstantes, tendo depois chegado outra amiga nossa.Entretanto desloquei-me com uma amiga ao Mini Preço e qualnão foi o meu espanto ao ver quando voltámos que já asgrades tinham sido derrubadas e já um enorme alvoroçoocorria. Quem esteve presente não pode mentir e serhipócrita dizendo que não houve violência da parte dosmanifestantes pois é claro que houve, durante duas horas ospolícias do corpo de intervenção foram agredidos com pedrasda calçada, balões de tinta, garrafas de cerveja, etc.Foram agredidos sim, mas por uma MINÚSCULA minoria dosque estavam presentes na manifestação! No meio de milharesde pessoas talvez só umas 10 (e bem visíveis) arremessavampedras e outros objectos. Independentemente da agressãoque sofreram NADA justifica o que se passou em seguida… derepente, sem qualquer aviso prévio, (embora a comunicaçãosocial e a PSP insistam que houve um aviso feito através demegafone quem esteve presente na manifestação sabe tãobem quanto eu que não se ouviu absolutamente nada e quenão foi feito qualquer esforço para que se ouvisse…) a políciacarregou sobre os manifestantes com uma brutalidade semmedida e que eu jamais tinha visto na vida. Como todos osoutros comecei a correr e encostei-me à parede, de seguidavárias dezenas de pessoas (muitas de idade avançada) sejuntaram a mim e tentámos todos proteger-nos uns aosoutros. A maioria das pessoas chorava e gritava “PAREM!PAREM POR FAVOR! NÃO FIZEMOS NADA!” e a políciacontinuava a espancar toda a gente sem dó nem piedade eainda com mais força! Vi velhotes a serem espancados, sei depessoas que viram pais a serem espancados com os filhospequenos ao colo, sei de pessoas que viram a polícia a tentarespancar uma pessoa de cadeira de rodas e váriosmanifestantes a rodeá-lo apanhando a pancada por ele para oprotegerem. No meio de tanta violência, confusão e multidãohistérica tentando sobreviver o melhor que sabia, conseguifugir com o meu namorado mas acabámos por nos perder dosGRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 8
  9. 9. nossos amigos. Continuámos sempre a fugir em direcção àAvenida Dom Carlos I, várias vezes parámos pelo caminhopensando que a polícia já não vinha atrás de nós, e váriasvezes tivemos que fugir novamente pois a perseguiçãocontinuava. Acabámos por encontrar novamente um dosnossos amigos e depois de vários chamadas telefónicassoubemos que as duas meninas nossas amigas tinham ficadoretidas pela polícia, marcámos um ponto de encontro epassados uns minutos elas lá conseguiram fugir eencontrámo-nos todos. Daí para a frente o nosso únicoobjectivo era conseguirmos perceber o que se estava a passarmas acima de tudo assegurarmos também a nossasegurança, mas rapidamente percebemos que tal não seriapossível. A polícia pura e simplesmente não parava deperseguir os manifestantes! Continuámos sempre a fugir,parando pelo meio para curtos descansos pois a perseguiçãocontinuava… já na Avenida 24 de Julho pensámos estar safosmas que mera ilusão, aí ainda foi pior! A Polícia continuavaatrás de nós e de muitos outros mas desta vez disparandobalas de borracha! Todos corremos apavorados o máximo quepodíamos até que de repente mesmo ao pé da estação decomboios fomos interceptados por um grupo de polícias àpaisana que violentamente e chamando-nos todos os nomes emais alguns nos obrigaram a encostar às grades da estaçãoenquanto mandavam ao chão e agrediam outras pessoas.Lá ficámos sendo enxovalhados e revistados vezes e vezessem conta. Os rapazes foram todos algemados (uns comalgemas e outros com braçadeiras) e separados das raparigase de seguida fomos obrigados a sentarmo-nos todos no chãosem saber o que ia acontecer pois os polícias só nosintimidavam e não respondiam a nada. Devo frisar quedevíamos ser cerca de 15/20 pessoas todos na sua maioriajovens adultos (18/20 anos) e inclusive um rapazinho de 15anos! Lá fui posta dentro da carrinha com as minhas duasamigas, com o meu namorado e com mais 6 jovens (um dosamigos que tinha ido connosco conseguiu fugir), ou seja 9pessoas dentro de uma carrinha com capacidade para 6.Fomos dentro da carrinha (os rapazes todos algemados) semGRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 9
  10. 10. nunca nos ter sido fornecida qualquer informação sobre olugar para onde íamos ou sobre o que nos ia acontecer.Chegando ao local estivemos uns intermináveis minutos todosfechados dentro da carrinha até que com intervalos pelo meionos foram tirando de lá um a um, até no final só ficar eu.Fora da carrinha agarraram em mim sempre a gritarem“BAIXA A CABEÇA! OLHA PARA O CHÃO CARALHO!”. Jádentro da “esquadra” (Tribunal de Monsanto, o que por si sórepresenta uma ilegalidade) fui escoltada por uma mulherpolícia até à casa de banho onde me obrigaram a despirINTEGRALMENTE, onde me obrigaram a colocar-me decócoras para verem se tinha algo escondido na vagina ou noânus, onde me obrigaram a tirar todos os brincos, anéis,pulseiras, atacadores dos sapatos e os próprios sapatos! Fuiobrigada a dar o meu nome e data de nascimento. Ficaramcom todos os meus pertences (incluindo o telemóvel queantes me tinham obrigado a desligar) e fui levada até à celade meias num chão gelado! Lá á minha espera estavam asminhas duas amigas e outras duas meninas que tambémtinham sido detidas. O que se passou a seguir foram duashoras e meia ridículas e sem qualquer sentido… foram-nossempre negados os telefonemas para casa, sempre quealguém falava nisso alegavam que não sabiam de nada,nunca nos disseram porque estávamos ali, nunca nosrespondiam concretamente a nada, apenas mandavam bocasestúpidas! Ficámos na cela duas horas e meia ao frio, semcomer, sem beber, descalços e vá lá que nos deixaram ir àcasa de banho embora às meninas tenham dito “espero quetenham aproveitado pois só lá voltam amanhã”. Passadasessas duas horas e meia fomos sendo chamados um a umpara recolhermos os nossos pertences e para serem feitas asidentificações. Foram preenchidas folhas em que nos erampedidos todos os nossos dados (BI, nome dos pais, morada,telemóvel, telefone fixo, profissão, etc. …) tendo que assinarno final, caso não o fizéssemos não sairíamos dali. Lá fomosembora, vendo-nos todos no meio do Monsanto muitos semsaberem sequer como ir para casa.GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 10
  11. 11. Não fomos espancados na “esquadra” mas fomos todosvítimas de humilhação e violência psicológica. Todos fomosdetidos injustamente sem nunca sequer termos sabido oporquê da detenção. Fomos perseguidos como criminososdesde São Bento até ao Cais do Sodré! Éramos todos jovens(como já frisei a média de idades devia rondar os 18/20 anos)cujo único crime cometido foi termos participado numamanifestação. Nem eu, nem nenhum dos meus amigosarremessámos qualquer pedra, garrafa ou o que quer quefosse, não o fiz desta vez nem em nenhuma outramanifestação. Fomos detidos e perseguidos injustamentequando já nos dirigíamos ao Cais do Sodré para apanharmosum táxi para casa!Quem não esteve presente e não viveu tudo isto certamentepensará que estou a exagerar ou a dramatizar, masacreditem que não, as coisas foram bem piores até do queaquilo que descrevo. A repressão policial sentida ontem foimuito, muito grave e digna dos mais nojentos regimesfascistas e ditatoriais! As pessoas estavam literalmente a serespancadas e perseguidas nas ruas e não tinham ninguémque as protegesse! Eu vi velhos cobertos de sangue! Vimulheres e homens aos gritos de medo e desespero!Há quem sem sequer ter estado presente insista em“proteger” os polícias e dizer que agiram muito bem, quequem lá estava só tinha era que apanhar, que elescoitadinhos foram agredidos com pedras durante duas horas,que muito pacientes foram eles, que nós os manifestantessomos todos uns arruaceiros. A essas pessoas eu só vos digo:VÃO-SE LIXAR! Abram os olhos, abram a mente e vejam arealidade que vos rodeia! Vão a manifestações e vejam porvocês próprios o que realmente acontece! Sejam humanos,sejam solidários e deixem de acreditar em tudo o que acomunicação social vos mostra! NADA justifica tudo aquiloporque eu e milhares de pessoas passámos e isto não podeficar impune! Toda a gente tem o direito de se manifestarsem ser agredido brutalmente ou perseguido! Fala-se numaviso feito pela Polícia de Intervenção mas ninguém ouviuGRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 11
  12. 12. esse aviso! Um dos rapazes que foi detido no Tribunal doMonsanto nem sequer tinha participado na manifestação, iaapenas a passar na Avenida 24 de Julho no momento dasdetenções! Acham isso bem? Acham correcto que dezenas dejovens inocentes tenham sido detidos sem terem cometidoNENHUM crime? Eu não acho, acho vergonhoso, nojento emuito grave num país que se diz democrático e de 1º mundo!Foram queimados caixotes do lixo e postos a bloquearestradas? Sim foram, mas tudo como uma resposta deenorme ódio e revolta em relação à acção desumana dapolícia! Eu era a primeira a ser contra o arremesso de pedrasmas depois do que vi e vivi ontem digo com a maior tristezado mundo: quem age assim não é um ser humano, é umacriatura maldosa e formatada e merecem o que lhes venha aacontecer daqui para a frente. São cães raivosos, mercenáriosdo Estado que vestem a farda da ditadura em vez deprotegerem o povo!A todos os que foram detidos comigo, principalmente quemveio comigo na carrinha e as minhas companheiras de cela:OBRIGADA a todos! Obrigada pelo apoio, pela união, peloconvívio e risos mesmo numa altura tão triste para todos,pelas canções e assobios, pela partilha de opiniões eexperiências e acima de tudo por lutarem por um país melhorpara todos! Obrigada também a todos os que estavam ànossa espera à saída do Tribunal do Monsanto e a todos osque se preocuparam connosco.Estou viva, bem fisicamente mas muito, muito triste edesiludida com tudo o que vivi … ainda estou em estado dechoque e a achar surrealmente grave tudo aquilo que sepassou. Peço desculpa se o texto não está o melhor possívelmas é muito complicado relatar com exactidão tão chocanteexperiência.O objectivo era incutir-nos medo e fazer-nos não frequentarmais manifestações? Teve o efeito exactamente contrário:não me calam e jamais me impedirão de lutar por aquilo emque acredito! A luta continua sempre! VOLTAREMOS!GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 12
  13. 13. Notas adicionais sobre os acontecimentos de 14 denovembro1 – Há evidentes infiltrações policiais, com tanto mais êxitoquanto o número de manifestantes não é muito elevado;2 – A concentração das manifestações em um só lugarfavorece a infiltração e a concentração da polícia;3 – Mesmo que o pessoal denuncie os provocadores da políciasujeita-se a ter problemas porque o número de manifestantesnão é muito elevado;4 – Há, sem dúvida pessoal desesperado que alinha logo naviolência mesmo quando colocada num cenário dominadopela polícia;5 - Se havia 15/18 tipos que atiraram pedras (dito pelapolícia) então porque bateram a eito em tudo o que mexia?Para promover o medo;6 – Porque se atrapalhou o Macedo quando lhe falaram emprovocadores? Porque lhe interessa ocultar que o governotoma atitudes próprias para gerar o medo;7 – O elogio do Macedo à CGTP é uma forma de encarrilar osprotestos para as procissões e os discursos do Arménio, paraa AR e a Concertação Social; isto é, conter a contestaçãodentro do sistema;8 – O que carateriza o momento actual é que o sistema é oinimigo a abater; o ordenamento económico, a organizaçãopolítica e o modelo de representação do povo. Por isso se diz“eles não nos representam!”;Para terminar uma dica de Mao Tse-Tung;GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 13
  14. 14. “Não participar nenhuma batalha sem preparação, nemprovocar nenhuma batalha sem ter a garantia de a ganhar;fazer todos os esforços para estar bem preparado para cadabatalha, fazer todo o possível para que a correlação existenteentre as condições do inimigo e as nossas nos assegure avitória” (recordo que no exército colonial português, aspreleções sobre guerra de guerrilha do Mao eram leituraobrigatória patrocinada pelo regime fascista!)Qual a correlação de forças em S. Bento? Escusamos dereferirHá mais uns aspetos a considerar:1 – Uma manifestação é, em princípio, um pronunciamento,um protesto de grandes massas de pessoas e não umexército ou um grupo de guerrilheiros preparado paracombater a polícia. Se por qualquer razão não provocada pelamultidão, a polícia decidir arrear - o que é sempre possível -não deveremos ser nós a dar-lhes argumentos para elesapresentarem no telejornal;2 – Não há polícias bons nem polícias maus, há polícias aoserviço do poder que nos oprime e rouba. Esse évisceralmente mau e a polícia articula-se em cadeiashierárquicas de caráter militarizado, obedecendo caninamenteà tática adotada pelo poder, em cada situação concreta;3 – Lastimavelmente, não tem sido possível a malta nãointegrada no sistema organizar-se de modo a banir ou isolaros provocadores policiais e enquadrar pessoal poucopolitizado mas, muito revoltado com isto em que vivemos.Revolta é um estado de espírito, revolução é um processomuito complexo que exige uma utilização inteligente darevolta;4 – Temos dito várias vezes que S. Bento politicamentesignifica o poder a que não reconhecemos legitimidade,sabendo-se que não é essa a posição daqueles que se sentemGRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 14
  15. 15. felizes por terem guarida entre os “gorilas” da CGTP,- quecomo é sobejamente conhecido têm relações amistosas com apolícia – e que andam entre nós mascarados de“movimentos”;5 – Topograficamente, S. Bento pretende mostrar o poder láem cima e a plebe, os inferiores, cá em baixo. E para ossonhadores da guerrilha, a topografia do local coloca a políciana posição dos guerrilheiros de Giap e os lançadores depedras no papel das tropas francesas (que se renderamdepois de levarem nos cornos) em Dien Bien Phu;6 – Se se pretende que mais e mais pessoas venham àsmanifs é preciso – mesmo quando na cauda das procissões doArménio – apresentar palavras de ordem inteligentes,mobilizadoras, transformar os finais das manifs em locais deconversa e discussão, sobretudo quando os fiéis do Arménioarrumam a trouxa, deixando para trás muitos trabalhadores àprocura de novidades, de ideias mobilizadoras, de alternativaspara além de um estafado “CGTP, unidade sindical”. E istosem quaisquer fatores de desacato, para não favorecer osistema;7 – Ao pessoal mais dado à ação direta, que queira partirmontras de bancos ou outras formas estritamente ilegais degolpear o sistema, que se organizem em grupos pequenos, deafinidade, preparando o melhor possível as coisas, para nãoserem engavetados; mas nunca misturados com manifs;8 – Perante a bestialidade policial e as atitudes contrárias àsleis do sistema do dia 14, fogo à peça para a denúncia, para ainstauração de processos, sobretudo onde se possa incriminaro agente A ou B, pois ao que parece, a instituição policial nãose mostra muito empenhada na defesa dos robocops nessasacusações individualizadas. Pena foi que durante as atitudesda polícia, há cerca de dois anos, durante a Cimeira da NATOou no seguimento dos acontecimentos de Setúbal no 1º demaio de 2011 não se tenha avançado nessa via. Teria sidodivertido.GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 15
  16. 16. Este e outros documentos em:http://pt.scribd.com/people/documents/2821310?page=1http://pt.scribd.com/people/documents/2821310?page=1http://grazia-tanta.blogspot.com/GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM 24-11-2012 16

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