São Paulo 460

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In the 2014 special edition for the anniversary of the foundation of São Paulo, the subject was the future of the city. We interviewed urban planners and architects and invited them to envision the urban transformations in the next decades.
In this collaborative effort, I helped edit the special edition and wrote many sections. Among them, is this article about the predictions for 2054.

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São Paulo 460

  1. 1. ESPECIALDE ANIVERSÁRIO Para este aniversário de 460 anos de São Paulo, o Estado ouviu, nas últimas semanas, 16 especialistas das mais diver- sas áreas e com eles buscou entender as principais transfor- mações pelas quais a cidade deve passar nas próximas déca- das – afinal, faltam apenas 40 anos para a metrópole come- morar cinco séculos. Ocenárioesboçadoéotimista.UmaSãoPaulomaisverde, com melhores serviços, com mais qualidade de vida, enfim, commaisfelicidade.Nãopodiaserdiferente:quandoimagi- namosa cidade do futuro, acabamosdesenhandojustamen- te aquela que queremos. Também pedimos para os leitores contarem o que amam hoje em São Paulo, o que deve ser preservado e não pode acabar.Asrespostasforamasmaisvariadas,todassentimen- tais. São Paulo trouxe o amor, o trabalho, amigos, vida nova e, principalmente, esperança. O Parque do Ibirapuera, a Avenida Paulista e o centro ve- lhoapareceramemváriashistórias,atuaisoulembrançasde infância.Mashouvetambémquemtenhafaladodeumaárvo- re específica ou de um prédio favorito. Esse mosaico virou um “mapa afetivo” das 460 coisas que amamos em São Pau- lo,umguiaimperdívelparaconhecermelhoranossacidade. Este é o nosso “parabéns” para São Paulo. Festivo, é claro. Mas também reflexivo. Estamos certos de que, para termos umlugarmelhorparaseviver,éprecisoqueautoridades,cida- dãos,políticosesociedadecivilponhammãosàobra.Sótere- mos a cidade com que sonhamos se começarmos a mudá-la desde já. Rumo aos 500 anos. PARA QUE LADO VAI A CIDADE NOS PRÓXIMOS 40 ANOS? ESPECIALISTAS DESENHAM CENÁRIO OTIMISTA %HermesFileInfo:H-1:20140125: H1 SÁBADO, 25 DE JANEIRO DE 2014 O ESTADO DE S. PAULO
  2. 2. 2054 Apromessaérepetidaporgovernosdesdeosanos1980:nofuturopróximo, os Rios Tietê e Pinheiros estarão limpos. O discurso é corroborado por be- las ilustrações, pessoas nadando no rio, outras se divertindo nas margens, natureza verdejante, felicidade. O fato é que, ainda em 2014, os rios chei- ram mal, sem muito sinal de vida na Região Metropolitana de São Paulo. Quase todos os especialistas ouvidos pelo Estado apostam na limpe- za deles. Mais cedo ou mais tarde. “Acreditamos que, em 20 anos, Tietê e Pinheiros já serão navegáveis, embora ainda não completamente limpos”, afirma Rodrigo Ferraz, arquiteto do escritório FGMF. A solução, de acordo com ele, está na tecnologia, que vai possibilitar uma limpeza mais eficiente e adequada. Maséem2054queteríamosocenárioideal.“Comarenaturalizaçãodos córregos, poderemos ter uma malha de rios em toda São Paulo. Um impac- to paisagístico fundamental”, vislumbra o arquiteto Lourenço Gimenes, do FGMF. Ou seja: todos aqueles córregos que foram canalizados ao longo dos anos voltariam à tona, limpos e prontos para o uso. Água límpida cor- rendoemlocaisondequaseninguémsabequeanteshaviaumcursod’água. Riozinhosladeadospormataciliar,parqueslineares,ciclovias,equipamen- tos de lazer. Todos navegáveis. E, quem sabe, “nadáveis”. A cidade cujas praias, segundo a piada, são os shopping centers vai ter umasemipraiade50quilômetrosentreaPenha,nazonaleste,eInterlagos, na zona sul, um arco azul e verde nos dois principais rios da Grande São Paulo. Os galpões que hoje ocupam as margens internas dos cursos d’água dariam espaço para parques e oficinas culturais. Rearranjo. Mas essa desapropriação em massa não seria de graça. O “es- vaziamento dos cheios”, como define o arquiteto Decio Tozzi, dependeria de um rearranjo completo dos bairros vizinhos ao eixo hidrográfico pau- listano. Tozzi já fez sua parte na retomada dessa margem – é dele o projeto doParqueVilla-Lobos,áreaverdede732milmetrosquadradosdeespécies da Mata Atlântica que alivia a paisagem (e um pouco do odor) no Alto de Pinheiros,zonaoeste.Agora,oarquitetodefendeumatransformaçãomais intensa,umprojetodedécadasparabuscar“umnovoequilíbrioentreoes- paço construído e o espaço natural”. A ideia é fazer uma troca. O mercado imobiliário desocuparia a parte mais próxima dos rios, o que permitiria a criação de parques em toda a sua extensão.Emcontrapartida,construiriaeexplorariamegaempreendimen- tosmaisparadentrodacidade,noschamadospésdemorro–regiõescomo a Avenida Marquês de São Vicente, na Barra Funda, na zona oeste, por exemplo.Masmesmoessesprojetosnãoseriamsimplesmente“espigões”. Seriam bairros verticais autônomos, com residências, comércio, serviços e entretenimento. “Eles teriam uma escala medieval. O sujeito, nos cinco diasdasemana,iriaaotrabalhoapé,aocinemaapé.Todacirculaçãoneces- sária ficaria em um raio de um quilômetro”, diz Tozzi. Arquitetonicamente,osbairrosverticaispoderiamservariados.Masto- dos teriam a mesma orientação básica: estruturas parecidas com prédios empilhados,comáreasmultifuncionais,praçassuspensas,passarelasesis- temas de trânsito aéreo, como elevadores e monotrilhos. Tozzi admite que é uma ideia difícil, mas perfeitamente possível, com planejamento a longo prazo. “Há muitas áreas nesses 50 km da Penha a Interlagos que ainda estão com ocupação rala”, ressalta. “É possível fazer macro-operações urbanas em um prazo de décadas.” Mas, para isso, o po- der público e o empreendedorismo devem ter um objetivo conjunto claro. “O negócio imobiliário vai ser dirigido para isso. O poder público, em vez de se submeter aos interesses do capital, deveria orientar.” O executivo Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e pre- sidente da Associação Viva o Centro, defende que, para viabilizar esses grandes empreendimentos, o governo federal passe a encarar São Paulo como uma “metrópole nacional”, com direito a um aporte maior de verbas considerando a importância que tem para todo o País. “Aí conseguiríamos recuperar as áreas verdes, expandi-las e despoluir todo o sistema fluvial da cidade, garantindo fontes de lazer e embelezamento”, explica. “É preciso devolver o espaço público para a população”, diz Meirelles. Tozzi concor- da: “O grande sonho é reverter a ocupação das beiras dos rios”. ENFIM, TEMOS NOSSOSRIOS DEVOLTALIMPEZADOS CURSOSD’ÁGUA VAIPERMITIR TIRARCÓRREGOS DOSUBSOLOE TRANSFORMÁ-LOS EMEIXOSDELAZER TRANSFORMAR OSDOISESGOTOS ACÉUABERTOQUE TEMOS,OTIETÊEO PINHEIROS,EMRIOS ÉIMPORTANTISSIMO PARAMELHORAR ACIDADE ODEDGRAJEW, COORDENADORDAREDE NOSSASÃOPAULO %HermesFileInfo:H-4:20140125: H4 Especial SÁBADO, 25 DE JANEIRO DE 2014 O ESTADO DE S. PAULO
  3. 3. Édifícilpensaremumautopiacomrioslimposeáreasverdesparaacidade de São Paulo com a poluição atual – dos 12 pontos de medição da Compa- nhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) nos Rios Tietê e Pinhei- ros, só dois (ambos em Mogi das Cruzes) apontaram situação boa de qua- lidade da água em 2012. O resto ficou ruim ou péssima. “Gosto de imaginar o Rio Tietê como a metáfora da própria dinâmica da cidade. Enquanto ele continuarsujo,acidadevaicontinuardesigual”,dizoativistaculturalLivio Tragtenberg. “Gosto dessa metáfora: limpando os rios é como se a cidade fosse lavada, mas acho isso muito improvável”, diz. “Daqui a 50 anos, va- mos conversar sobre a mesma questão. O rio vai estar sujo. Isso porque, por aqui se ganha muito em não se fazer coisas, mais do que em fazer. A inércia é muito mais lucrativa do que o movimento.” Mas, mesmo quem é mais otimista ressalta que o trabalho de melhora devecomeçarhoje,eaudaciosamente.“Atéagora,aslegislaçõesvêmsendo feitas pressionadas pelo capital imobiliário”, alerta o arquiteto Decio To- zzi. “É preciso ter um equilíbrio, uma troca.” Tozzi destaca que a evolução urbana está ocorrendo em termos numé- ricos (aumento de população, número de empreendimentos), mas não em termos qualitativos. “É um quadro impraticável em uma sociedade que se diz civilizada e detém um certo conhecimento.” A principal preocupação é a situação ambiental da cidade de São Paulo. O arquiteto Lucio Gomes Machado cita como um dos principais pontos o assoreamento e a poluição da Represa do Guarapiranga, na zona sul, im- portante fonte de abastecimento em uma cidade com água cada vez mais rara – relatório de 2013 da Cetesb aponta que o Reservatório do Guarapi- ranga tem sedimentos muito tóxicos e quantidade considerada péssima de coliformes fecais. “Em 2054 talvez ela não exista mais. Mas temos de dar um jeito de existir, porque é fundamental.” Para ele, o fornecimento de águaéoprincipalproblemadaspróximasdécadasparaaGrandeSãoPaulo. Já Tozzi destaca o aumento das ilhas de calor, causadas pela imperme- abilização do concreto e pela redução das áreas verdes. “A flora some. Só asfalto e concreto. E a fauna, essa é triste. Não há mais passarinhos. Só há insetos, ácaros, aranhas e escorpiões”, afirma Tozzi. “O processo de pro- vínciaametrópolefoitãorápidonessesúltimos50anos–eaumentadonos últimos 30 – que o centro expandido já é uma grande ilha de calor.” Tozzi diz que o conhecimento para reverter essa tendência existe há tempos. “Houve distração dos órgãos públicos? Não. Houve aceitação da pressão econômica”, aponta, afirmando que, se não houver mudança de posicionamento, a ilha de calor vai aumentar. “Em 2030, estará muito pior. A desertificação da cidade estará em grau mais elevado. E os municípios da Região Metropolitana de São Paulo acompanham esse processo. Vai se so- mar uma metrópole desértica.” Mas ele diz que ainda não é tarde: “É hora de mudar isso”. CAIXOTESDE DINHEIRO PAULA FÁBRIO I greja, shopping, livraria. Agência bancária. No formato qua- drado a cidade se empenha. É o futuro-já, com janelas encravadas no cimento dos pré- dios. Centenas, numa única braçada de olho. Milhares, na vi- são periférica. Algumas mais ao alto, com vista para o elevado e o engavetamento, ou para o cemitério, onde se retêm mais caixotes. Estes, uns sobre outros, para não sermos iguais. Nunca. Privilégio é ter caixinhas envidraçadas gourmet e avistar palmeiras no asfal- to. Na garagem, um minitanque de guerra. É verdade. O horizonte subiu ao céu num contorno quadriculado metálico. Também pudera, muito tempo se passou desde 1984 e dos últimos leitores de livros. No formato quadrado a cidade se empenha e ganha dinheiro. O cartaz colorido e o sorriso plantado já não interessam. Apenas a tela do jogo, o link do link do link. O novo eletrônico intuitivo. Pulsoecartãodecrédito.Tudonumchipimplantado.Contraçãoe expansão em linhas desordenadas, pontas desencaixadas e lascas soltas. Não obstante, emergem caixotes maiores, câmpus, retân- gulos, onde o conhecimento se mede pelo número de aplicativos. Napraça,oquadriláteroéavessoàsvoltas.Agoranofuturo,oroléé démodé.Jáninguémsaidetrásdasgrades.Denenhumlado.Confi- nados, a nos suportar. Como carneiros com ferraduras quadradas. Mas antes de agonizar, janelas se espremem e sobem ao alto como árvores à procura do sol. Enfim, sós e emoldurados. O cadeado se- guro. O portão automático. A tela 4D. Sonha-se em ângulo reto. O caixote da morte. O da vida. O achatamento da terra, na luz branca e roxa do sol que se pôs, e outro dia que passou, tão rápido, nas ho- ras extras fingidas – a brincadeira mórbida a ver quem se aguenta mais no escritório. E o escape fugidio, nos parques temáticos, no jardim simulado. Janelas de computador. A despeito de tudo, a mão redondinha da criança deixa sua marca de tinta no papel. Um deslize. Pois no final, não há ponto. O cerco. Fechado. Em linhas perpendiculares. E você não resiste. VENCEDORA DO PRÊMIO SÃO PAULO DE LITERATURA COM O ROMANCE DESNORTEIO (PATUÁ, 2012) NA CATEGORIA ESTREANTE +40 ANOS, NASCEU EM SÃO PAULO E FORMOU-SE EM COMUNICAÇÃO. ATUALMENTE, FAZ MESTRADO EM LETRAS NA USP E EM BREVE PUBLICARÁ SEU NOVO LIVRO, PONTO DE FUGA, PREMIADO PELO PROAC, DA SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA DE SÃO PAULO PARAMUDAR, ÉPRECISO COMEÇARHOJE %HermesFileInfo:H-5:20140125: O ESTADO DE S. PAULO SÁBADO, 25 DE JANEIRO DE 2014 Especial H5

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