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MÁRCIO JOSÉ MENDONÇAPORQUE USAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS       GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO   MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIX...
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A meus pais, Ana e José Lúcio que dedicam seus esforços na minhaeducação.Aos palestinos, que ainda sorriem diante da adver...
AGRADECIMENTOS       Agradecimentos, em especial, para a minha orientadora neste estudo, a Prof.ª Dr.ªMarisa Terezinha Ros...
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RESUMOO presente trabalho resgata as origens da formação de uma Geografia despolitizada, queossifica práticas de leitura d...
LISTA DE FIGURASGrupo A - Observando o espaço de vivência (páginas 3 e 73).Figura 1 – página 3____________________________...
LISTA DE QUADROQuadro 1 - Quadro de proposta de temáticas para se trabalhar o conflitogeopolítico entre israelenses e pale...
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SUMÁRIOIntrodução_____________________________________________________________ 11Pré-capítulo - A geopolítica do conflito ...
11INTRODUÇÃO1        O percurso do homem na história foi marcado por práticas de intervenção no meio.Assim, formas foram p...
12Fredric Wertham (VERGUEIRO, 2009). Este homem, de origem alemã e radicado nosEstados Unidos, entrou numa campanha acirra...
13       Na China, no governo de Mao Tse-Tung (década de 1950), ela foi intensamenteempregada pelo governo como ferramenta...
14         Por sua vez, o uso das HQs com um parecer histórico também pode ser útil aoprofessor de Geografia. Entre as pro...
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23       A carta é o instrumento de trabalho do geógrafo, com a qual deve buscar encontrar asinter-relações dos fenômenos ...
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26informações, que focam o homem no espaço. Aliás, não é incomum, ver em atlas(principalmente infantis) imagens de diverso...
27       Fazer a relação entre conjuntos espaciais mais ou menos sobrepostos, usando escalasvariadas para alcançar as inte...
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29Sudeste fazem dela a mais industrializada do país e que a região Nordeste é menosindustrializada. Pronto, já se criou um...
30geográfico, deve se valer, de duas abstrações da realidade; a primeira, o prazer dacontemplação que o olhar geográfico m...
31de captação da realidade espacial, relacionando-as com as ações de poder no meio, queempreguem a arte e a técnica da des...
32panorâmicas, etc. Ressaltar as ações humanas que moldam o espaço, dando-lhe umsignificado e uma identidade ao homem, é o...
33apresentada por Sacco, não é esboçada em uma única tela, ainda mais numa tela plana visívelapenas na visão vertical, ela...
34       Em suma, o trabalho de Sacco pode ser considerado uma descrição poéticaestruturalista, isto é, uma estrutura espa...
35                        de Ptolomeu, por exemplo) e aqueles que provinham de navegadores (os portulanos,                ...
36 Quadro de proposta de temáticas para se trabalhar o conflito geopolítico entre israelenses e  palestinos na Faixa de Ga...
37                                       quadrinho. Mais uma vez o trabalho de Sacco se mostra pioneiro,                  ...
38Grupo A – Observando o espaço de vivência (páginas 3 e 73).
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40Grupo B - Sionismo (páginas 21 e 81).
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42Grupo C - Intifada de 1987 (páginas 49 e 50).
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44Grupo D - meninos de Gaza (páginas 17 e 55).
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46Grupo E - Fronteiras e controle (páginas 22, 77, 78, 100, 129, 130).
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52Grupo F - Expansão dos assentamentos judaicos (página 110).
53Capítulo 3Do geral ao lugar: um caminho a se percorrer no estudo de Geografia        Novas formas de cartografar o mundo...
54tecnologias. No entanto, interferir nesse mesmo espaço, por outros caminhos que não sejamverticais, se mostra tarefa mai...
55utilizada é pequena. Se a escala é grande, a riqueza de detalhes será maior, porém, a extensãorepresentada será menor. E...
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  1. 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE EDUCAÇÃO DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO, POLÍTICA E SOCIEDADE MÁRCIO JOSÉ MENDONÇAPORQUE USAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIXA DE GAZA VITÓRIA 2010
  2. 2. MÁRCIO JOSÉ MENDONÇAPORQUE USAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIXA DE GAZA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Política, Educação e Sociedade do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para a obtenção do grau de licenciado em Geografia. Orientadora: Profª Drª Marisa Terezinha Rosa Valladares. VITÓRIA 2010
  3. 3. MÁRCIO JOSÉ MENDONÇAPORQUE USAR AS HQs NO ESTUDO DE CONFLITOS GEOPOLÍTICOS: UM ENSAIO DO MAPA-PAISAGÍSTICO NA FAIXA DE GAZATrabalho de Conclusão de Curso apresentado ao programa de graduação em Geografia doCentro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial paraobtenção do título de Licenciado em Geografia. Aprovado em 01 de julho de 2010. BANCA EXAMINADORA _______________________________________________ Profª. Drª. Marisa Terezinha Rosa Valladares Universidade Federal do Espírito Santo Orientadora _______________________________________________ Profª. Drª. Gisele Girardi Universidade Federal do Espírito Santo _______________________________________________ Prof. Dr. Paulo César Scarim Universidade Federal do Espírito Santo
  4. 4. A meus pais, Ana e José Lúcio que dedicam seus esforços na minhaeducação.Aos palestinos, que ainda sorriem diante da adversidade.
  5. 5. AGRADECIMENTOS Agradecimentos, em especial, para a minha orientadora neste estudo, a Prof.ª Dr.ªMarisa Terezinha Rosa Valladares, pela sua dedicação e exímia gestão do Laboratório deEnsino e Aprendizagem de Geografia (LEAGEO) que apoia os graduandos em Geografia nosestudos voltados para a área de educação. No entanto, essas não são as únicas loas à figura deMarisa: não poderia deixar de mencionar a autonomia concedida nesse estudo e,principalmente, à liberdade de “poder pensar” com a qual fui presenteado, pois em nenhummomento fui refém de obstáculos que truncassem meu raciocínio, ao contrário, suasobservações sempre me provocaram a investir no que eu acredito, com responsabilidade deautoria. Agradeço também a Marcos Cândido Mendonça, meu irmão, pela contribuição que fezna leitura do trabalho, acrescentando algumas ressalvas. Também sou grato a EEEFM Almirante Barroso, que me abriu suas portas para que eurealizasse a prática em suas turmas, propiciando-me o necessário espaço à experimentação e ocontato dialógico importante para reflexões. Por último, agradeço a Mahmoud Ahmadinejad (presidente do Irã) que, apesar de nãoser citado como referência neste estudo, sempre foi fonte de inspiração intelectual para mim,pois seria impossível dar sequência a esse projeto se não houvesse um estado de esperançaquanto à mudança para um mundo melhor, em uma alternativa de paz respeitosa – que não éum arremedo de paz, que finge não ser conflito, mas que nada mais é do que submissãoimposta. Só os incrédulos, usurpadores e integristas não acreditam em uma alternativa queprime por um viés mais solidário e humano, por isso, atacam seu vetor. Existe umacontribuição de Ahmadinejad na ordem geopolítica, que se está traçando, que resiste aosflagelos, enquanto as bestas saem da toca...
  6. 6. “A despeito das aparências cuidadosamente mantidas, de que osproblemas da geografia só dizem respeito aos geógrafos, elesinteressam em última análise, a todos os cidadãos. Pois, esse discursopedagógico que é a geografia dos professores, que parece tanto maismaçante quanto mais as mass media desvendam seu espetáculo domundo, dissimula, aos olhos de todos, o temível instrumento depoderio que é a geografia para aqueles que detêm o poder”. Yves Lacoste“Alguns dos buracos mais negros do mundo estão a céu aberto, paraqualquer um ver... Por exemplo, você pode visitar um campo derefugiados palestinos na Faixa de Gaza... É só ligar para a UNRWA, aagência da ONU de assistência aos refugiados palestinos, tel.: 051-861195[.] Eles providenciam tudo [,] levam você até lá de carro [,] aentrada é grátis... [...]”. Joe Sacco
  7. 7. RESUMOO presente trabalho resgata as origens da formação de uma Geografia despolitizada, queossifica práticas de leitura do espaço acríticas para a população em geral, realizada pelosatores hegemônicos do poder, os quais constroem uma representação homogênea e lisa do queseria real. Nessa Geografia, precária nas análises do espaço geográfico, o mapa se torna uminstrumento de manipulação dos grupos poderosos, sobre a massa populacional, ao mesmotempo em que desumaniza o próprio espaço. Um talho nessa alegoria, contudo, permite aesperança de construção de uma cartografia menos reducionista, que valoriza espaços evivências de grupos oprimidos pela ordem mundial vigente. Nesse contexto, elaboro a ideiade mapa-paisagístico para “territorializar” uma nova perspectiva espacial. Como metodologia,proponho olhar para o mundo a partir de alternativas como as histórias em quadrinhos de JoeSacco, para revelar a realidade vivida por indivíduos descartados – ou precariamente inseridos– no sistema. Neste ensaio, tomei o caso do conflito geopolítico entre palestinos e israelenses,como meu lócus de ruptura da ordem perversa de domínio do poderoso sobre o oprimido.Estudo a Faixa de Gaza como uma prisão a céu aberto, um lugar de opressão. É a partir daíque sustento meus aportes teóricos na companhia de autores como Sacco (2003), Lacoste(1988), Certeau (2008), dentre outros, para analisar geograficamente e cartograficamenteminiespaços políticos que constroem territorialidades ao nível do lugar. Esse estudo, tambémdesemboca numa prática em sala de aula voltada para a construção de um raciocíniogeográfico crítico na educação. O indivíduo como um outro, que deveria ser um igual, torna-se questão central na busca de um mundo melhor, menos homogêneo e liso, maisdiversificado e rugoso. Portanto, “territorializar” ideias de libertação, é o objetivo desseestudo.Palavras-chave: 1. Conflito geopolítico. 2. Histórias em quadrinhos. 3. Mapa-paisagístico.
  8. 8. LISTA DE FIGURASGrupo A - Observando o espaço de vivência (páginas 3 e 73).Figura 1 – página 3_________________________________________________________38Figura 2 – página 73________________________________________________________39Grupo B - Sionismo (páginas 21 e 81).Figura 3 – página 21________________________________________________________40Figura 4 – página 81________________________________________________________41Grupo C - Intifada de 1987 (páginas 49 e 50).Figura 5 – página 49________________________________________________________42Figura 6 – página 50________________________________________________________43Grupo D - meninos de Gaza (páginas 17 e 55).Figura 7 – página 17________________________________________________________44Figura 8 – página 55________________________________________________________45Grupo E - Fronteiras e controle (páginas 22, 77, 78, 100, 129, 130).Figura 9 – página 22________________________________________________________46Figura 10 – página 77_______________________________________________________47Figura 11 – página 78_______________________________________________________48Figura 12 – página 100______________________________________________________49Figura 13 – página 129______________________________________________________50Figura 14 – página 130______________________________________________________51Grupo F - Expansão dos assentamentos judaicos (página 110).Figura 15 – página 110______________________________________________________52Figura 16 - Esquema 1: modelo de representação vertical___________________________55Figura 17 - Esquema 2: quadro geral do percurso do geral ao lugar____________________58Figura 18 - Esquema 3: contato entre a 1º linha da realidade e 2º linhada realidade_______________________________________________________________60Figura 19 - Mapas trabalhados em aula__________________________________________67
  9. 9. LISTA DE QUADROQuadro 1 - Quadro de proposta de temáticas para se trabalhar o conflitogeopolítico entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza, utilizando“Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003)__________________________________36
  10. 10. LISTA DE SIGLASHQs - Histórias em quadrinhosIDH - Índice de Desenvolvimento HumanoOLP - Organização de Libertação da PalestinaONU - Organização das Nações UnidasURSS - União Soviética
  11. 11. SUMÁRIOIntrodução_____________________________________________________________ 11Pré-capítulo - A geopolítica do conflito entre israelenses e palestinos____________ 15Capítulo 1 - Crítica ao ensino de Geografia despolitizado______________________ 18Capítulo 2 - Na Faixa de Gaza com Joe Sacco: contemplando o espaço de vivênciapolitizado______________________________________________________________ 25Capítulo 3 - Do geral ao lugar: um caminho a se percorrer no estudo deGeografia______________________________________________________________ 53Capítulo 4 - Exercitando o raciocínio geográfico: uma pequena amostragem parareflexão_______________________________________________________________ 63Considerações finais_____________________________________________________ 71Referências____________________________________________________________ 75
  12. 12. 11INTRODUÇÃO1 O percurso do homem na história foi marcado por práticas de intervenção no meio.Assim, formas foram produzidas no espaço, equipando este grande globo com estruturashumanizadas a fim de adequar espaços naturais ao ato de habitar do homem. Uma verdadeiramorfologia humana foi erguida sobre a natureza. Como parte desta grande estruturaconstruída pelo e para o uso do homem, podemos também mencionar o movimento intrínsecode desenvolvimento de linguagens. Essas formas de comunicação, conhecimento e deexpressão simbólica são diversas e seria pretensão catalogar todas. Dentre muitas, alinguagem gráfica parece ser uma das mais notáveis, pois se materializou como parte dosfazeres do homem em seus viveres. E seria descuido não destacar um pouco de sua evoluçãohistórica, no que tange esse objeto de estudo. Os primeiros traços da linguagem gráfica foram realizados no tempo dos homens dascavernas, foram eles os primeiros a dar o seu testemunho por meio dessas práticas,registrando passagens de sua vida cotidiana nas paredes das cavernas, contando as primeirashistórias em uma sequência de imagens. Essa técnica foi absorvida e aprimorada pelashistórias em quadrinhos (HQs) na sociedade contemporânea. A ramificação da linguagem gráfica é numerosa, e uma de suas veias dedesenvolvimento veio a dar origem às HQs. A evolução das HQs caminhou junto aodesenvolvimento das relações capitalistas, movimento potencializado pela evolução daindústria tipográfica e pelo surgimento de grandes cadeias jornalísticas. Segundo Vergueiro(2009), foi nos Estados Unidos, no final do século XIX, que esse sistema criou as condiçõesmais vantajosas para a solidificação das HQs como veículo de comunicação de massa. As HQs ganharam espaço no cenário da comunicação desde então, e o período daSegunda Guerra Mundial (1939-1945) foi um de seus catalisadores, quando personagensfictícios foram nelas explorados como heróis no conflito. No mesmo período, o governonorte-americano utilizou as HQs como manuais de treinamento militar. Contudo, o período pós-guerra não rendeu bons frutos à indústria das HQs. Crescia umambiente de desconfiança em relação às HQs, em boa parte devido ao trabalho do psiquiatra1 Correção ortográfica e normatização feita por Selma de Souza Sanglard. Professora de português formada em1997 pela Faculdade de Filosofia, Ciênciais e Letras de Alegre – FAFIA. Pós-graduada em Letras – LínguaPortuguesa em 2000 pela Federação de Escolas Faculdades Integradas – Simonsen.
  13. 13. 12Fredric Wertham (VERGUEIRO, 2009). Este homem, de origem alemã e radicado nosEstados Unidos, entrou numa campanha acirrada contra as HQs. A base de seus argumentosera que as HQs poderiam trazer sérios prejuízos à sociedade americana, pois a leitura de HQs,como a história do Batman, por exemplo, poderia atrair as crianças e adolescentes para ahomossexualidade, ou como se as HQs do Superman pudessem levar as crianças à morte,quando buscassem imitar seu herói, jogando-se de uma janela de um alto apartamento.Wertham identificou nas HQs um grande órgão que agia para degenerar a sociedadeamericana e agiu para desmantelar a indústria das HQs. Vergueiro (2009) lembra que Wertham usava meios ludibriosos para convencer seupúblico de suas ideias. Com base nos atendimentos de jovens problemáticos em seuconsultório, Wertham generalizou conclusões e estabeleceu um conteúdo duvidoso sobre aquestão, que foi posteriormente apresentada em seu famoso livro “A sedução dos inocentes”(WERTHAM, 1954). Nessa obra, Wertham afirmava que as HQs contribuíam para provocaranomalias na juventude americana, o que gerou um movimento contra as HQs. Essa política resultou em um Comics Code elaborado pela Association of ComicsMagazine, na década de 1940, que proclamava a pais e educadores que o material das HQsnão traria malefícios morais e intelectuais aos seus filhos e alunos. Posteriormente ao ComicsCode, o campo fértil das HQs caiu num grande fosso, levando as HQs a serem descartadas dequalquer prática educacional séria. No Brasil, por exemplo, foi elaborado um Código de Éticados Quadrinhos, que aplicava políticas semelhantes às dos Estados Unidos. O resultado dessaempreitada foi o descarte das HQs no plano do ensino, figurando como uma penumbra àmargem dos pensadores intelectuais, pois foi acusada de afastar as crianças da leitura delivros, sendo estigmatizada como uma prática que prejudicava o raciocínio. O florescer das HQs só viria com o amadurecimento dos meios de comunicação, quetornaram as HQs formas de transmissão de conhecimento específico, desmascarando, nasociedade, a visão imaculada de que as HQs eram apenas instrumentos para o entretenimento.Sua descoberta como ferramenta educacional também se deu nos Estados Unidos, pelapublicação de revistas em quadrinhos de caráter educacional, ainda na década de 1940.Revistas em quadrinhos, como a: True Comics, Real Life Comics e Real Fact Comics, traziamantologias referentes a acontecimentos e personagens famosos da história.
  14. 14. 13 Na China, no governo de Mao Tse-Tung (década de 1950), ela foi intensamenteempregada pelo governo como ferramenta de manobra na formação do ideal comunistachinês. As historinhas retratavam militares chineses desempenhando um comportamentoexemplar, na busca de forjar, na sociedade da época, valores comunistas para o bem do país.Dessa forma, histórias e obras de personagens como Lênin e Karl Marx também foramabordadas pelas HQs. Com o passar dos anos, as HQs foram adquirindo credibilidade no meio educacional edeixaram de ser vistas como práticas educacionais obsoletas, e sim como ferramentas queauxiliam o estudo e incentivam a leitura, em virtude de sua forma de comunicação fácil einterativa com os alunos. Na prática de ensino voltada para a Geografia, as HQs também venceram barreiras: éde praxe, hoje, o entendimento de que as HQs são um excelente material para a representaçãode ambientes, paisagens e culturas de outros países, desde que se tenha cuidado para não criarestereótipos de determinados lugares, como as “Aventuras de Tintin”, criado por Hergé.Nessa historinha em série, o “Tintin” (principal personagem e mocinho do conto) viaja porvários países do mundo. Em uma de suas viagens, ele visita a União Soviética (URSS), ondedescreve os comunistas como figuras maléficas. Contudo, mesmo com essa falha do autor,esse material é considerado de boa qualidade. Mas, talvez, o material mais importante dasHQs para se trabalhar com a Geografia e, principalmente, com a geopolítica, sejam ostrabalhos produzidos por Joe Sacco. Certamente, uma das maneiras mais valiosas de se trabalhar a Geografia, utilizando-seas HQs, são as de linguagem cartográfica. Com seu uso adequado, é possível explorar arepresentação do espaço, da escala, e visão vertical, visão oblíqua e também leitura desímbolos, oferecendo uma gama de formas de trabalho viáveis ao professor. A cartografia semostra de suma importância, pois é um instrumento que possibilita exercitar a leitura doespaço, estando também, diretamente ligada aos afazeres da geopolítica. As possibilidades de se trabalhar com as categorias geográficas, por meio das HQs,são múltiplas e de natureza variada. Rama (2009) oferece algumas possibilidadesinteressantes. Cabe ao professor de Geografia averiguá-las e desbravá-las.
  15. 15. 14 Por sua vez, o uso das HQs com um parecer histórico também pode ser útil aoprofessor de Geografia. Entre as produções de HQs mais interessantes referidas por Vilela(2009), que tratam do ambiente de vivência de um conflito, que podem ser utilizadas emabordagens geopolíticas, estão “A guerra dos Farrapos”, escrito por Tabajara Ruas edesenhado por Flávio Colin, e “Adeus, chamingo brasileiro”, que trata da Guerra do Paraguai,escrito e desenhado por André Toral. Mas, sem dúvida, duas grandes obras de HQs que tratamde grandes conflitos geopolíticos são “Maus: a história de um sobrevivente” e “Gen: pésdescalços”. Em “Maus: a história de um sobrevivente”, o autor Art Spielgelman retrata odrama judeu durante o nazismo. Nessa obra, os personagens são retratados como animaisantropomorfizados: os gatos representam os nazistas e os ratos são encarnados pelos judeus.Já em “Gen: Pés Descalços”, Nakazawa retrata o sofrimento de sua família na explosão dabomba atômica, em sua cidade. De maneira geral, os trabalhos mencionados por Vilela (2009), apresentam algumasopções viáveis a práticas de ensino em Geografia, que estão à espera de práticas de ensinogloriosas por parte do professor de Geografia. No decorrer deste trabalho, vamos contemplaro trabalho de Joe Sacco, “Palestina: na Faixa de Gaza” (2003), com o qual pretendemosexplorar múltiplas escalas de percepção de um conflito geopolítico e, ao final, alcançar umaproposta de prática de ensino voltada para a geopolítica, usando o material específico de JoeSacco.
  16. 16. 15Pré-capítuloA geopolítica do conflito entre israelenses e palestinos Este pré-capítulo, ou este item, tem como objetivo traçar uma pequena evoluçãohistórica do conflito na região da Palestina, localizada no Oriente Médio, onde israelenses epalestinos (Árabes) vêm se digladiando desde a formação do Estado de Israel. Nesta ocasião, não farei uma construção histórica da evolução dos povos, nemtampouco abordarei aspectos culturais de tais povos. A linha de observação ficará no quetange aos fatos geopolíticos, nas tensões entre esses dois povos que acarretam tal conflito. Para que não haja nenhuma dúvida, o objetivo deste item se resume em colocar o leitora par da situação. Mas para isso, antes é necessário esclarecer no que consiste a geopolítica,para só assim, ser possível suscitar um de seus pontos de tensão e também evitar possíveisconfusões. [...] A geopolítica é um saber engajado, comprometido com um pensamento e com objetivos políticos; embora analisando o Estado como produtor de um espaço, ela não tem um rigoroso critério científico. A geografia política, ao contrário, é um dos enfoques da ciência geográfica no qual se estudam a distribuição dos Estados e os tipos de organização do território a que eles dão origem. Ela não é marcada fortemente pelos preconceitos do determinismo geográfico, que tenta explicar a expansão ou a necessidade de expansão dos Estados, com base em condições naturais (ANDRADE, 2001, pag. 9, 10). Como pode se notar essas duas práticas se confundem e até mesmo se tocam, poisambas dão foco ao papel do Estado como gestor do espaço, todavia, a Geografia política temcaráter científico da distribuição dos Estados e os tipos de organização do território a que dãoorigem, enquanto a geopolítica é vista como saber dos políticos e militares, que se apropriamde seus conhecimentos para empreenderem práticas estratégicas no espaço que manifestamem alguma espécie de poder. Sendo assim, o desenho que hoje delineia a situação na Palestina, começa a ser pintadocom traços mais claros em 1947, quando a Organização das Nações Unidas (ONU), poriniciativa dos Estados Unidos, aprovou um plano para a partilha da Palestina, que seriaconcretizado em 1948, com a fundação do Estado de Israel. Essa medida se valeu dosacontecimentos do Holocausto na Europa, comandado pelas forças nazistas de Hitler,gerando, do meu ponto de vista, um campo de supervalorização do sofrimento judeu esensibilização da comunidade global em prol de concessão de um lar nacional para os judeus.
  17. 17. 16 A decisão da ONU satisfez a comunidade judaica, que se aclamava detentora dosdireitos sobre aquelas terras, de onde havia sido expulsa nos anos 50 da Era Cristã, peloImpério Romano, evento que ficou conhecido como Diáspora. Entretanto, a resolução daONU não agradou aos palestinos que habitavam a região. Eles eram maioria na área e viramseu território ser recortado (os palestinos ficaram com a Cisjordânia e Faixa de Gaza) eentregue a uma população que entendiam como invasora e que ficou com a maior parte dadivisão do território, enquanto os palestinos foram empurrados para as franjas do território enão tiveram a concessão de um Estado independente. A partir desse período, os palestinos passam a sofrer pressões dos israelenses,apoiados pelo governo norte-americano, sendo equipados militarmente por este aliado. Comoos palestinos não foram capazes de fazer frente ao aparato militar dos israelenses foramreduzidos a uma população de segunda classe ou expulsos de suas terras, confiscadas pelogoverno israelense. O crescimento dessas tensões entre judeus e palestinos resultou, em 1967, num grandeconflito que ficou conhecido como Guerra dos seis dias. Nessa ocasião, os israelenses levaramvantagem, destroçando as tropas egípcias, sírias e jordanianas que tinham aderido à causapalestina. Ao final do conflito, os israelenses passaram a controlar Jerusalém Oriental e aCisjordânia (território antes sob a administração da Jordânia), a península do Sinai e a Faixade Gaza (Egito) e as Colinas de Golã (Síria). Todavia, em 1973, Egito e Síria tentaramreverter à situação, na oportunidade lançaram um ataque surpresa no “dia do perdão para osisraelenses”. Mas essa tentativa também fracassou e mais uma vez as forças árabes saíramderrotadas. Em virtude de pressões diplomáticas, o Sinai foi reincorporado ao Egito na décadade 1980, mediante um acordo de paz com Israel. Já a Faixa de Gaza só foi devolvida aospalestinos formalmente em 2005, o que não inibiu o governo israelense a realizar incursõesmilitares e a expandir os assentamentos nesta área. Por outro lado, as Colinas de Golãcontinuam sobcontrole de Israel. Em 1987, novamente, um grande conflito foi deflagrado, dessa vez pelos palestinos. AIntifada (que quer dizer “sacudir-se” ou “levantar-se”), como ficou conhecido o movimentopopular de resistência palestina à ocupação israelense, tomou as ruas em protesto à morte dequatro crianças na Faixa de Gaza. Apesar dos palestinos terem sido ferozmente reprimidospelas forças israelenses, o movimento revelou ao mundo a triste condição dos palestinos e deuinício a tentativas diplomáticas mais claras em busca de se solucionar o problema.
  18. 18. 17 Porém, as tentativas de paz não caminharam bem e, em 2000 os palestinos deflagrarama segunda Intifada – essa mais violenta do que a primeira. Novamente os palestinos forambrutalmente repelidos. O último grande embate entre israelenses e palestinos foi no final doano de 2008, quando o exército israelense bombardeou a Faixa de Gaza supostamente paradesmantelar o “grupo terrorista” Hamas, que opera intensamente na região. Esses são alguns fatos históricos marcantes que ressalvamos para relembrar ao leitor,de maneira resumida, visando situá-lo minimamente na situação do conflito na Palestina emais diretamente na Faixa de Gaza. De maneira nenhuma traçamos todos os eventosconsideráveis em toda essa marcha. Acontecimentos importantes, datados de antes de 1945,não foram relatados, nem mesmo o importante papel outrora da Organização de Libertação daPalestina (OLP) e do Hamas após 1987, e é claro dos governos de linha-dura de Israel. Nessa pequena entrada para o capítulo 1 deste trabalho, o objetivo foi demonstrar queexiste um grande foco de tensão nesta área, isto é, um grande conflito geopolítico que vaialém de suas fronteiras. Com essa premissa, irei tomar a questão na Palestina como meuaporte de análise. Neste contexto, a Faixa de Gaza será o local onde depositarei minhas basesteóricas, sempre voltadas para as formas de representação e compreensão do espaço, que vãoalém das formas tradicionais da Geografia clássica. Ao leitor que deseja se aprofundar noestudo histórico do conflito entre palestinos e israelenses, sugiro buscar outras fontes deinformação. Existem excelentes livros sobre o assunto disponíveis em português, dentre osquais, para o uso do professor no ensino médio, indico “Geopolítica: o mundo em conflito”(FUSER, 2006) que certamente iniciará qualquer ledor ao conturbado universo das relaçõesinternacionais e, principalmente, acrescentará ao leitor mais informações sobre os fatoshistóricos do conflito entre israelenses e palestinos.
  19. 19. 18Capítulo 1Crítica ao ensino de Geografia despolitizado Alguns dos problemas nas práticas de ensino de Geografia se referem à maneiradespolitizada como a transposição didática dos conteúdos é feita, com forte enfoque nodidatismo e não numa perspectiva crítica, que permita ao professor mediar o conhecimento eo senso comum. Percebe-se que essa fragilidade tem raízes na formação docente inicial econtinuada. A formação inicial, entendida como o tempo de licenciatura, trata de umaGeografia que desde algum tempo foi desalojada de qualquer ênfase nos estudos relacionadosàs estratégias geopolíticas de ação no espaço, colaborando com o desenvolvimento de umaGeografia acrítica. Nesse sentido, a crítica dirigida às práticas de ensino de Geografiadespolitizada deve atacar os alicerces de tal mal-estar e para constatar a produção das práticasde ensino de Geografia apolíticas, cabe-me o retorno as suas condições estanques. A Geografia se funda como ciência dentro do quadro positivista, no século XIX, sobreas bases de seu primeiro pensador moderno, Alexander Von Humboldt, o primeiro a sepreocupar com as questões metodológicas do estudo de assuntos geográficos e a estabelecerleis gerais e evolutivas para essa ciência. Porém, foi com o fomento de outro grande mentor,Friedrich Ratzel, que a Geografia alcançou voos mais altos e se firmou definitivamente comociência. Foi Ratzel que calcou as pretensões dos estudos geográficos, relacionados à política. Em sua concepção, a Geografia política devia se interessar pelas questões do Estado,dando prioridade aos assuntos referentes às fronteiras, as nações e suas estruturas emovimentos internos. Assim, para Ratzel, o Estado-nação era um complexo organismo quefuncionava conforme a coesão garantida pela articulação de suas partes. Uma verdadeiraestrutura biológica do espaço onde a morfologia natural se fundia com os equipamentoscriados pelo homem, dando origem a uma estrutura morfológica do Estado, isto é, uma obrade organização do espaço criada pelo homem. Neste viés, Ratzel preconizou o que talvez seja a máxima de seu pensamento “[...]quando a sociedade se organiza para defender território, transforma-se em Estado [...]”(RATZEL, apud MORAES, 2007, p. 70). Preocupado com as questões de unicidade da recémAlemanha unificada, Ratzel valorizou os assuntos de organização do Estado, onde apopulação tem papel importante como corpo sólido, tornado nação, considerada como, grupo
  20. 20. 19mais ou menos homogêneo que habita um determinado recorte espacial do globo, que sedesenvolve conforme as riquezas naturais de sua área de vivência, associadas as suas técnicasespecíficas de intervenção no espaço. Contudo, foi o discurso geopolítico de Karl Haushofer que promoveu uma visão daGeografia associada ou vinculada diretamente a práticas militares da Alemanha na SegundaGuerra Mundial. É Haushofer que materializa mais claramente alguns dos ideais doexpansionismo alemão, associando-a a geopolítica alemã. Destarte, os estudos geopolíticosdesse período são vistos como manuais de práticas e ações de intervenção no espaço, comouma verdadeira campanha pelo poder, empreendida pela política hitlerista. Essas são algumas das primeiras chagas que causaram aversão ao estudo de assuntosgeopolíticos pela academia e, consequentemente, para o ensino escolar. Como lembra Lacoste(1988), essas práticas foram denunciadas como não científicas e avaliadas como ferramentasde manobra do poder dos Estados, cabendo à Geografia se distanciar de tais propósitos e sefundar como uma verdadeira ciência acadêmica, tendo como seu objeto de estudo o espaçoregional. Segundo Lacoste (1988), coube ao pai da Geografia francesa, Vidal de La Blache,na obra “Quadro de Geografia da França” (1905), a consolidação e difusão dessa Geografiaregional que se distanciou das abordagens relacionadas ao papel do homem no espaço,preconizando uma análise naturalista de certos recortes do espaço, entendidos como únicos eprontos. Assim, para Lacoste (1988), esta geopolítica agressiva do Estado alemão poderia tercausado aversões ao estudo de assuntos geopolíticos, o que teria escamoteado qualquer práticaséria de estudo de assuntos políticos por parte da Geografia. Entretanto, o próprio Lacostechega a se perguntar se isso seria de fato verdade. Suas críticas dirigidas a Vidal e,posteriormente a Lucien Febvre, acusam esses dois de terem promovido um campo de estudoapolítico para a Geografia. O primeiro, como já ressaltei, teria banalizado o campo de estudoda Geografia e amputado desta ciência qualquer tipo de análise de ação no espaço, produzindoum conceito-obstáculo para qualquer avaliação espacial crítica, pois o objeto da Geografia deVidal, que é a região, estabeleceu uma Geografia essencialmente descritiva em detrimento deuma analítica. Com essa implicação, as ações do homem, empreendidas no espaço, ficamnuma penumbra na qual os geógrafos não podem tocar. Já o segundo, Lucien Febvre, teriadefinido a Geografia como uma ciência modesta, que não se preocupa com os estudosrelacionados à política, cabendo esses à História.
  21. 21. 20 Enfim, considerando a participação desses dois personagens e o contexto histórico dedesenvolvimento da política hitlerista, o embasamento geopolítico resultante criou traumas eafastou os geógrafos dos assuntos geopolíticos. É de responsabilidade, também, de grandeparte da comunidade geográfica, a formação dessa Geografia despolitizada, pelo desinteressee falta de olhar crítico no estudo de temas políticos que essa classe se absteve – e ainda seabstém – de fazer. Para Lacoste (1988), existem duas Geografias atualmente, mas elas emanam do séculoXIX. A primeira é a Geografia dos Estados-maiores, como ele a define. Esta é a Geografiaantiga, constituindo [...] um conjunto de representações cartográficas e de conhecimentos variados referentes ao espaço; esse saber sincrético é claramente percebido como eminentemente estratégico pelas minorias dirigentes que o utilizam como instrumento de poder (LACOSTE, 1988, p. 31). O geógrafo francês apelida essa Geografia como a dos reis, pois essa seria, há muitotempo praticada por esses antigos homens do poder. Era privilégio do rei, conhecer todo o seuvasto ou pequeno território, para articular práticas que garantissem a sua organização e seucontrole. Por meio de cartas, elaboradas por cartógrafos, os reis tomavam conhecimento doseu território administrativo e podiam empreender suas atividades militares, econômicas,políticas, etc. Dessa forma, cabia ao geógrafo-cartógrafo fornecer ao rei uma representação darealidade do território em uma carta, função importante na época, que cabia ao geógraforealizar como homem de confiança do rei. Já a outra Geografia é a dos professores, [...] que apareceu há menos de um século, se tornou um discurso ideológico no qual uma das funções inconscientes, é a de mascarar a importância estratégica dos raciocínios centrados no espaço. Não somente essa geografia dos professores é extirpada de práticas políticas e militares como de decisões econômicas (pois os professores nisso não têm participação), mas ela dissimula, aos olhos da maioria, a eficácia dos instrumentos de poder que são as análises espaciais. Por causa disso a minoria no poder tem consciência de sua importância, é a única a utilizá-las em função dos seus próprios interesses e este monopólio do saber é bem mais eficaz porque a maioria não dá nenhuma atenção a uma disciplina que lhe parece tão perfeitamente „inútil‟ (LACOSTE, 1988, p. 31). Nos ditames de disciplina desinteressante, em especial pela prática de inúmerascatalogações de elementos espaciais e suas localizações, é que a Geografia vai serreconhecida pelas outras disciplinas, como um saber de enumeração de diversos elementos deoutras ciências. Uma ciência inútil, para geógrafos semianalfabetos no que se refere às
  22. 22. 21apreciações do espaço. É neste bojo que a Geografia se difunde em diversas escolas pelomundo, como prática de decoreba de nome de capitais, rios, climas, etc. Uma representaçãohomogênea diluindo a imagem real posta em diversas telas de fenômenos históricos: tais telas,mal sobrepostas, encobrem as ações do poder. Este teatro de observações, onde os bastidoresnão são vistos, manipula e descaracteriza a razão de ser da Geografia: um conhecimentoestratégico do espaço, que permite agir eficazmente nele. É nesta crise de leitura do espaço político que práticas obsoletas de interpretação doespaço são absorvidas pelo consumismo de massa. A Geografia do espetáculo, assinalada porLacoste (1988), ganha espaço entre os manuais de Geografia, sendo difundidos pelo mercadoem formato de belas imagens de diversas partes do mundo. Esses cartões postais ou imagenstelevisivas de diversos lugares oferecem ao público uma visão de lugares nunca antes vistos,mas escondem as relações de poder quando desprovidas de raciocínio crítico do espaço e deuma representação adequada do real. De todo modo, para Lacoste (1988), a representação do espaço não é tão simplesassim. Ela advém de uma carta onde se tem uma representação vertical, mais ou menosrefinada, da realidade espacial a qual se pretende inferir. Essa abstração do espaço é, acima detudo, cartográfica, mas ela no máximo atinge ao nível de representatividade de 1 metro.Estando o homem excluído desse mapeamento em suas maiores escalas, pois não faz parte doespaço absoluto de objetos imóveis. A técnica de interpretação de uma realidade espacial exposta em uma carta deve levarem conta o método de diferenciação espacial. Este consiste em prender em uma carta umdeterminado fenômeno, sobrepondo-o a outros conjuntos que deem foco a outros fenômenos.Só assim é possível elaborar um complicado quebra-cabeça que associe esses fenômenos aoutros fenômenos, em cartas de variadas escalas, onde se busca a correlação entre taisfenômenos. Essa prática se assemelha a uma pilha de papéis transparentes mal organizados,onde todos estão empilhados, mas de maneiras diferentes. Esses papéis têm dimensões eformatos diversos, mas estão empilhados na mesma coluna, esta coluna claro, é a escala deuso. Cabe ao raciocínio geográfico perfurar esses papéis e achar a interseção entre eles,construindo a delimitação de tais fenômenos sobrepostos. É como montar um conjunto dequebra-cabeças sobrepostos e fazer a relação entre eles. Contudo, quando se muda de escala, arelação entre esses conjuntos também se modifica, pois as colunas ganham ou perdemalgumas folhas.
  23. 23. 22 Entre todas essas cartas de escala tão desigual, não somente diferenças quantitativas, de acordo com o tamanho do espaço representado, mas também diferenças qualitativas, pois um fenômeno só pode ser representado numa determinada escala; em outras escalas ele não é representável ou seu significado é modificado [...] (LACOSTE, 1988, p. 74, grifos do autor). São essas representações de espaços diferenciais que põem em destaque a análise deassimilação de diversos conjuntos espaciais em multiescalas de representação. Contudo, essa representação do espaço, já bem complexo, não é suficiente para ser operacional. Não é suficiente, de fato, raciocinar como fizemos até agora, sobre as interseções entre as diferentes espécies de conjuntos espaciais, no âmago de um mesmo território é preciso também considerar suas dimensões, que podem se referir a ordens de grandeza muito diversas [...] (LACOSTE, 1988, p. 70).Essas são desde grandes dimensões, como a de um continente, ou de pequeninas dimensões,como de uma vila. Como se percebe “[...] a representação mais operacional e mais científicado espaço não é a de uma divisão simples em „regiões‟, em compartimentos justapostos unsaos outros, mas a de uma superposição de vários quebra-cabeças bem diferencialmenterecortados”. (LACOSTE, 1988, p. 70). Essa concepção sistêmica de leitura do espaço é quepossibilita o geógrafo combinar diferentes níveis de análise com diferentes ordens degrandeza, acoplada ao exame de múltiplos conjuntos espaciais. As práticas vidalinas de descrição das regiões, como conjuntos harmoniosos, soprampara longe qualquer exercício de raciocínio estratégico por parte dos geógrafos. Asinterseções de relações entre as cartas são maquiadas por traços firmes que sucumbem ogeógrafo de realizar uma pesquisa aplicada. E quando este atinge a escala de observação dolugar, uma maquiagem da paisagem naturalista, que evoca em muito pouco o papel dohomem, o faz míope na observação das manifestações do poder no espaço, e seu diagnósticofica apenas no nível de observação das energias dos fenômenos naturais. O que parecia ser oapanágio da Geografia se revela como um infortúnio dessa ciência. De fato, a Geografia do professor ou acadêmica promoveu a difusão dessa ciência emdiversos países do mundo, mas sob-bases ideológicas que camuflam o papel do geógrafo nasociedade como interventor no espaço. Contudo, ao crer que a Geografia deve cumprir o seupapel na sociedade como ferramenta de apoio ao cidadão, busca-se, o amadurecimento de umolhar crítico na educação, algo que possibilite as pessoas referir-se a diversos conjuntosespaciais complexos de seu dia-dia. Mas, frequentemente, esta ciência se abstém dessa funçãofazendo com que o cidadão, na lida com conjuntos espaciais complexos, nos quais estáinserido, se sinta no meio de um furacão.
  24. 24. 23 A carta é o instrumento de trabalho do geógrafo, com a qual deve buscar encontrar asinter-relações dos fenômenos entre diferentes cartas de escalas variadas. Somente assim, podese construir um verdadeiro raciocínio geográfico, tomando conhecimento da superposiçãoespacial de diferentes categorias de fenômenos em extensões desiguais. Todavia, a carta éuma representação abstrata do espaço como realidade, construída por inúmeras escolhas, ondenão se pode alcançar o nível mais fundo da representação do real. A carta tem limitações derepresentação do fino do ambiente de vivência, muitas vezes, não alcança uma representaçãoadequada do meio em que o homem age e faz parte. Num mapeamento de uma pequena aldeia pode se obter uma excelenterepresentatividade do espaço, entretanto, esta não incluirá o homem, se detendo na descriçãoda superfície terrestre. Isso se torna um problema, na medida em que certos movimentos sãoperdidos na transposição da representatividade do real em sua fase de transformação (ação),somente alcançando o seu resultado final, isto é, sua forma (ato). A Geografia vem se preocupando, nas últimas décadas, com outras formas derepresentação do espaço, não somente aquelas que tangem os recortes da geopolíticatradicional, onde os Estados são a praxe de estudo. Se as fronteiras políticas de um Estado sãoum recorte no espaço de um determinado modo de produção do espaço geográfico, existemoutras internas a essa, as quais muitas vezes são focos de tensões e de conflitos diversos. Diversos recortes coexistem dentro de outros recortes no espaço, e assimsucessivamente. Todos estão mais ou menos relacionados com as suas partes, o quenormalmente gera uma forma que se subentende seja uma representatividade da realidadeespacial. Estando esta representação em certa escala, ela vai valorizar certas medidas, o quepode distorcer ou esconder algumas formas. Vai camuflar ainda mais se essa representação doque se entende como real for alguma que deprecie alguma comunidade ou grupo, que nãoconsegue fazer voz diante da representação da classe ou grupo dominante. Portanto, a Geografia dos que são dominados vai ser ocultada pelas classesdominantes, por essa representação do espaço imprecisa, tomada como conjunto da realidade.Num Estado, uma representação dos limites de suas fronteiras internacionais vai gerardeterminada representação de realidade, esboço em um recorte do espaço. Entretanto, asregiões que constituem esse mesmo Estado, não necessariamente vão ser representadas nestemesmo nível, ficando num nível de análise em segundo plano; as suas subregiões já seriam
  25. 25. 24um nível mais abaixo e subsequentemente, os lugares, (isso se ficarmos apenas no nível daorganização política). A tarefa mais difícil é representar os lugares, ou seja, os míni recortesdo espaço, como partes integrantes de um grande corpo espacial, e ressaltar os seus conflitosinternos a este grande recorte espacial, quando esses fazem parte do cotidiano de grupos quenão se deseja cartografar. Escalas de representação da realidade espacial, muitas vezes são telas de formasdominantes de se ler o mundo, conforme o alfabeto dos atores hegemônicos do poder.Normalmente, os grupos excluídos de algum tipo de apreciação da realidade-espaço, seencontram no nível mais baixo de leitura, não sendo cartografados pelos de cima. Quando sealcança algum tipo de representação desses grupos, suas representações são moldadas comconotações estereotipadas, que muitas vezes os definem com argumentos negativos, sendovistos pela totalidade, como inimigos do grande conjunto da massa, e não como parteintegrante do todo. Suas reivindicações são abafadas por uma forma de compreender o mundo que nãolhes cabe. A educação e a ciência como ferramenta do discurso das classes dominantestambém inculca nas pessoas a sua maneira de apresentar o mundo. Indivíduos descartáveissão riscados do mapa, sua cultura e sua identidade são vistas como invasoras e não convémrepresentá-las, pois essas seriam tratadas como uma enfermidade do grande organismo. Pode se dizer então, que a Geografia aguarda ansiosa por novas formas de apreciaçãoda realidade que descrevam todos os recortes espaciais em seus mais diversos níveis depercepção. Esta nova forma de entender o mundo deve permear todas as camadas deobservação da realidade espacial, sejam elas formas de representação vertical, por meio de ummapa, ou outras maneiras multifacetadas e multiescalares de aprender e construir uma visãocoerente do mundo.
  26. 26. 25Capítulo 2Na Faixa de Gaza com Joe Sacco: contemplando o espaço de vivênciapolitizado Como se utiliza a cartografia para representar um dado espaço, pode-se destacar queesse é um dos campos que reúne muitos problemas para o ensino de Geografia. Considerandoque um mapa é uma representação de uma determinada área do mundo, com o uso de umaescala para transposição do registro em um papel, é preciso entendê-lo como algo quedescreve uma realidade espacial, sendo obra do olhar geográfico de quem seleciona oselementos para mapear (uma carta temática, por exemplo), além de representar o desejo ou ocritério de quem detêm os meios estratégicos para produção dos mapas. A cartografia mapeiaos conjuntos espaciais homogeneizando as particularidades, sendo o trabalho final derepresentação do espaço, muitas vezes, o resumo de um ou vários conjuntos espaciais. Então,como realizar a cartografia de uma particularidade, soterrada pelas representações verticais deatores dominantes? Seja como for, esses não são os únicos ônus que pesam sobre a Geografia e suaprincipal ferramenta de trabalho. Os problemas na Cartografia vão além das formasinadequadas de seleção de escalas, tipos de representação e de símbolos, entre outrasdificuldades. Os elementos de representação se atolam em uma confusa malha de conjuntosespaciais verticalmente sobrepostos e, ao final do trabalho de enquadramento, revelam poucodas práticas de ação do homem no espaço. Em todo caso, acredito, que a melhor maneira de se representar uma realidade espacialnum mapa, seja a dos famosos “quebra-cabeças” de Lacoste (1988), nos quais são sobrepostosconjuntos espaciais de variadas formas e dimensões, e se verifica a interseção entre eles,utilizando uma escala adequada para tal propósito. Como se percebe, a representação doespaço não implica numa cartografia simplista, mais num emaranhado de recortes espaciais,que constituem um jogo de quebra-cabeças sobre quebra-cabeças, e assim sucessivamente.Entretanto, esses também têm limites de abstração da realidade espacial, pois revelam comoqualquer outro mapa, apenas o nível de visão vertical. Em decorrência dessa opacidade das formas de representar o espaço verticalmente,tendo o homem incluso nele, se somam aos mapas, outras fontes de enriquecimento de
  27. 27. 26informações, que focam o homem no espaço. Aliás, não é incomum, ver em atlas(principalmente infantis) imagens de diversos lugares do mundo, que já se encontramrepresentados num mapa do local fotografado. Essas fotografias, normalmente, focalizam aspráticas de produção do espaço geográfico pelo homem, buscando revelar uma prática de açãodo homem no seu meio, que não é expresso no mapa. No entanto, essa representação do trabalho do homem no espaço por meio defotografias, revela apenas pontos específicos no mapa: é como se o cartógrafo escolhessecertos lugares para uma representação mais aprofundada das práticas de vivência de umindivíduo ou de determinado grupo em seu meio. Todavia, essas fotografias paisagísticaspouco revelam as ações de poder no espaço, pois a imagem estática do homem no espaço nãoexplica a conexão de suas ações no mesmo. Assim, como o “quebra-cabeça” de Lacoste(1988) necessita de uma interseção entre mapas de escalas diferentes, que revelem aoperacionalidade dos conjuntos espaciais, essas imagens também pedem uma sequência deimagens, de ângulos, de dimensões, e de realidades sócio-espaciais diversas para possibilitar aconstrução de um raciocínio geográfico dinâmico por meio da imagem. Quando se observa uma imagem de determinado lugar do globo, sempre se buscaalcançar um horizonte que se encontra espremido em algum canto da fotografia. A falta desequência de imagens angustia quem busca entender uma realidade espacial, já que estapermanece num ostracismo visual, impedida de fazer relação entre os fatos, pois, essacaptação, no máximo foca os objetos do espaço em uma situação estática do homem emrelação a eles. Estando a cartografia clássica numa situação, onde encontra problemas em representaro homem em interação com o espaço, na qual reduz esse homem a números quantitativos,distribuídos sobre determinado território, em uma representação em pequena escala. No nívelda grande escala, o resultado é ainda mais desastroso, estando esse homem ausente de talrepresentação. Se uma representação geopolítica se refere à organização do espaço, ainda quese reportando ao papel do Estado como gestor territorial, os homens que efetuam talorganização, simbolizando a ação da máquina estatal, não podem ser esquecidos nomapeamento, sob pena de naturalização dos fatos, tornando-os como se fossem efeito defantasmas que ninguém vê. Dessa forma, acredito as interseções das quais Lacoste (1988)tanto deu ênfase na representação do espaço em sua visão vertical, também podem caber aohomem, em outros moldes.
  28. 28. 27 Fazer a relação entre conjuntos espaciais mais ou menos sobrepostos, usando escalasvariadas para alcançar as interseções horizontais, verticais ou oblíquas, consiste em umverdadeiro raciocínio geográfico. Mas esse raciocínio deve incluir o homem, em todo seupacote, pois somente assim será possível realizar a transformação ou metamorfose do formatode representação vertical da realidade espacial para uma multiorientada, quando essa atinge asmaiores escalas. Como já salientei, as imagens estilo fotografias não são suficientes, porquenão captam o movimento das ações desenvolvidas no espaço geográfico. Creio que será interessante para a Geografia, pensar em outras formas derepresentação do homem no espaço, formas que rompam com esses obstáculos demapeamento, que não dão ênfase ao homem em suas práticas. Invisto, neste estudo, em promover uma representação da realidade espacial quemescle a capacidade de descrição do cartógrafo, com pontos de fuga da paisagem estáticarepresentados por uma ferramenta que demonstre a dinâmica de movimento dosacontecimentos. Busco, assim, uma alternativa para romper com esse gargalo que não insere ohomem no espaço, em interação com seus sistemas de vivências. A representação dedeterminado conjunto, como o proletariado ou o campesinato, desprovido da interação dohomem com o espaço, não revela a situação desses grupos, porque não se consegue ligá-los,por meio de suas ações, às diversas estruturas às quais estão submetidos, sejam elas do espaçofísico ou dos modos de produção. Como entender a situação de um trabalhador de umafábrica, se a representação vertical demonstra apenas o telhado da fábrica? Parece, no mínimo, contraditório, mas penso que, Lacoste já tinha apontado essecaminho, apenas não se aprofundou nele, como se pode analisar em seus estudos: [...] Sem dúvida, pode se facilmente fazer a carta das estruturas agrárias nesta ou naquela área, mas ela não explica completamente a situação na qual se encontram os camponeses. É preciso também levar em consideração as condições climáticas, pedológicas, topográficas, que não derivam, fundamentalmente, da análise dos marxistas e que estes tendem a negligenciar, em prol do estudo das relações de produção [...] (LACOSTE, 1988, p. 147). A questão fundamental, não é dar foco a esse ou aquele elemento, mas sim constatar,no caso duma representação em grande escala, mas não necessariamente vertical, umarealidade espacial, que insira o homem dentro da estrutura da qual ele faz parte e que constróitodos os dias, por meio de suas práticas no espaço de vivência. Esses espaços, mesmo quesejam miniespaços, também são políticos, pois fazem parte de uma complexa estrutura de
  29. 29. 28camadas confusas, onde cada ser humano integra o todo como uma célula que compõem umcorpo. “[...] Em suma, tudo é político, mas toda política é ao mesmo tempo macropolítica emicropolítica” (DELEUZE e GUATTARI, apud HAESBAERT, 2007, p. 115, grifos dosautores). Esses miniespaços politizados são carregados de valores simbólicos e estéticos, que apopulação local deposita por meio de suas práticas de vivência ao longo do tempo. Comoconstatou Corrêa, existe um sentido de pertencer a um determinado local, com o qual se criouvínculos, originando um significado que é expresso num modo de viver em determinadorecorte espacial. Dessa maneira, um rio, uma montanha, uma praça, uma esquina, um óculos,todas essas formas ganham sentido quando conectados aos afazeres cotidianos no espaço devivência (informação verbal) 2. Esses significados se situam em escalas variadas, é como se os significadospercorressem vastos espaços os conectando, pois “[...] uma cultura nacional atua como umaponte de significados culturais, um foco de identificação e um sistema de representação [...]”nacional (HALL, 2006, p. 58). Contudo, a peculiaridade é que todo lugar tem um significadoancorado no conjunto nacional, mas também possui seu significado interno, sendo assim, paravislumbrar esse entroncamento, articule-se o uso da escala a uma representação (possível) dosignificado que emana de um conjunto. Ao falar que sou brasileiro, construo uma ligação com todos os brasileiros que habitamo território nacional, mas quando falo, sou capixaba originário da Região do Caparaó,construo uma ligação mais estreita com um grupo menor de pessoas, em um recorte espacialtambém menor, que se afunila ainda mais se me refiro a minha cidade-natal (Guaçuí) ou aomeu bairro. Esse enquadramento cria reciprocidade entre envolvidos e atinge o mais altonível, quando eu mantenho contato intenso com um lugar, que me garante e no qualdesenvolvo uma identidade particular. É fácil representar o território nacional e generalizar vivências homogêneas de grandesespaços de vivência: basta realizar determinado recorte para concluir, por exemplo, que oregistro de muitas indústrias e empresas de serviços nos estados que compõem a região2 CORRÊA, R. L. Processo, Forma e Significado – Uma Breve Consideração. Aula proferida naUniversidade Federal do Espírito Santo. 2009.
  30. 30. 29Sudeste fazem dela a mais industrializada do país e que a região Nordeste é menosindustrializada. Pronto, já se criou uma visão superficial de um espaço de vivência empequena escala. Porém, como realizar tal tarefa numa grande escala, quando os homensdesaparecem do espaço absoluto, e o espaço de vivência é dissociado dos grupos que oconstroem e o habitam, ao mesmo tempo em que a pequena estrutura do grande corpoestrutural ganha diversidade e até identidades próprias? Ora, minha cidade natal faz parte daregião Sudeste, que é industrializada. Suas pouquíssimas indústrias não são como as de SãoPaulo, por exemplo. Entretanto, ela faz parte dessa rede, estando a ela conectada por meio delinhas complicadas de se visualizar: situação geográfica, localização territorial, inserção narede de bacias hidrográficas, inclusão na dinâmica de movimentação de ventos, peladisposição no relevo, do clima tropical da região, etc. Como, então, explicar e conectar o meuespaço vivido, com tantos outros estruturados em uma complexa rede de economias, climas,geomorfologias, etc. que desvalorizam as formas de representação do lugar e suasparticularidades? A Geografia humanista valoriza diversos espaços e se “o espaço vivido deve, portanto,ser compreendido como um espaço de vida, construído e representado pelos atores sociais quecirculam neste espaço, mas também vivido pelo geógrafo, que, para interpretar, precisapenetrar completamente este ambiente [...]” (GOMES, 2003, p. 319), como a Geografia vai“descrever o mundo”, se suas formas de representação não atingem as finas ranhuras doespaço, e se o geógrafo também não vai a todas as partes do mundo. Sendo o lugar, o lócus onde se germina a construção do espaço político, este ficaencoberto por meios inadequados de mapeamento, porque não há como expressar a totalidadedas ações de poder no espaço territorial e se não é devidamente representado, a cadeiaestrutural da realidade perde sentido. Como é sabido, o geógrafo não pode estar em todas aspartes do mundo. O mapa é que tem a finalidade de informar ao leitor um conhecimentomínimo sobre uma realidade expressa em uma imagem. Todavia, devido a essas reduções darepresentação cartográfica, os lugares mapeados são frequentemente dissociados da realidadeque tentam captar e apresentar. Para tentar responder a essas questões, proponho um olhar ao passado, resgatandoduas expressões de Humboldt. Não se trata aqui de realizar uma discussão epistemológicasobre a dualidade da concepção geográfica, mas apenas jogar luz sobre dois aportes teóricosdesse prussiano. Humboldt enfatiza que o geógrafo, determinado a realizar um estudo
  31. 31. 30geográfico, deve se valer, de duas abstrações da realidade; a primeira, o prazer dacontemplação que o olhar geográfico minucioso pode proporcionar ao observador, quandoesse constata a numerosa diversidade das formas e dos fenômenos, que poderiam ser descritospoeticamente. A segunda é o prazer intelectual de compreender as leis gerais da natureza, quepodem dar a ideia de supremacia sobre outras ciências, porque a Geografia é incumbida comdo papel de síntese. Assinaladas a capacidade de descrição e relação dos fenômenos pelos geógrafos, umarepresentação adequada dessa simbiose seria de suma importância para solucionar alguns dosproblemas de representação cartográfica da realidade espacial. Tal representação deverepousar no que circunda o espaço de vivência, o que implica numa descrição política deminiespaços, onde o homem age. A paisagem a que me refiro, e para a qual defendo a elaboração de uma cartografia pormeios alternativos, não é uma paisagem naturalizada, tendo o homem como observadorapenas. É uma paisagem política, onde o homem estende sua mão e toca o espaço palpável.Para o qual ele simplesmente não vira as costas quando tira uma fotografia, na qual quercaptar ao fundo certo horizonte da paisagem. Esse homem deve segurar a câmera e tocar oponto no qual pretende inferir; somente assim pode explicá-lo e moldá-lo quando o flashacontece. Tirar apenas uma fotografia de uma paisagem é como, se no ato do flash, ocamponês fizesse pose para a câmera e deixasse de realizar o seu trabalho em seu ambiente devivência. Também não estou sugerindo, uma sequência de imagens em ângulos diferentes paraexplicar um lugar: isso não seria suficiente, pois esta possibilidade descaracterizaria o papeldo geógrafo e de seu olhar geográfico. Outrossim, reconheço a impossibilidade de representartudo do espaço geográfico em um pedaço de papel. Por isso, a capacidade técnica de síntesedo geógrafo precisa ser valorizada, uma vez que sua competência profissional deve permitir-lhe realizar a interseção entre diversas formas de representar a realidade espacialcartograficamente, sejam elas verticais, horizontes, oblíquas, panorâmicas, etc. Por outro lado, não estou querendo inculcar na cartografia, desenhos desprovidos decaráter científico. Saliento apenas que a cartografia não pode ficar refém do modelo derepresentação vertical, quando a gama de realidades vivenciadas que ela quer/deve/precisaexplicar é tão complexa. Sustento que seja valioso para o geógrafo fazer uso de outras formas
  32. 32. 31de captação da realidade espacial, relacionando-as com as ações de poder no meio, queempreguem a arte e a técnica da descrição, impregnadas e impressoras do raciocíniogeográfico: esse, é o mapa-paisagístico que procuro e para o qual, neste trabalho, proponhouma alternativa de elaboração. À inquietude que esse encaminhamento de proposta possa estar proporcionando, é queme movimentou nessa pesquisa, e na qual busco esboçar algumas considerações. Nos estudosaté aqui realizados para esta pesquisa, constatei que existem problemas na representação darealidade espacial pelas técnicas da cartografia tradicional, disponibilizadas para o curso degraduação de Geografia. A principal dificuldade em representar a realidade espacial pareceacontecer quando essa busca atinge o nível do lugar, possível apenas numa representação emgrande escala. Essa dificuldade existe mesmo quando o mapa é obra de um raciocíniogeográfico maduro e complexo. Então, para captar a realidade espacial vivida em uma folhade papel, que seja contundente com a realidade do lugar, em especial para instrumentalizaçãoda Geografia Escolar, proponho novas alternativas de leitura do espaço local, ou do lugar. É aqui que o mapa-paisagístico se insere, revelando uma malha de ações sobre aestrutura humanizada, onde pode se notar o peso das energias humanas agindo sobre o espaçoe com as pessoas. Diferente das formas tradicionais de mapeamento, que se prendem noformato de representação vertical, o mapa-paisagístico está livre desta lei. Como ele buscadescrever a comunhão de interações numa relação de totalidade-totalizante com o lugar, suasnecessidades de absorção do indivíduo-real-espaço são outras e mais diversas (SANTOS,2004). Esta construção se encontra no último nível de descrição da realidade espacial, seupropósito é absorver as relações de poder pessoa a pessoa e também suas relações com oespaço – esta última contida nos objetos espaciais. Cabe ao mapa-paisagístico descrever olugar, demonstrando a transparência de uma sequência de ações humanas empreendidas pelohomem no espaço. Sendo assim, sua finalidade última é apresentar o significado que o espaçotem para os homens, por meio das ações desses no espaço, ações que repousam em certosambientes, dando sentido à vida em determinados lugares. A verdadeira anatomia do espaço, da qual o homem também faz parte como um agentetransformador e peça importante em toda a dinâmica, que não é mecânica, só pode ser descritapela gama e comunhão de todas as imagens, sejam elas: verticais, horizontais, oblíquas,
  33. 33. 32panorâmicas, etc. Ressaltar as ações humanas que moldam o espaço, dando-lhe umsignificado e uma identidade ao homem, é o grande objetivo a se alcançar neste trabalho.Portanto, representar o “espaço real”, não estático, por meio das ações, entendido como oespaço de vida, reforça o entendimento da produção do espaço geográfico pelo homem. Porém, como fazer isso? Entendo que instrumentos como as HQs podem servir comomaterial concreto que possibilite aprimorar a visão da realidade espacial e temporal,principalmente quando o indivíduo leitor não se encontra em contato direto com o espaço.Para isso, usarei, para exemplificar a compreensão do raciocínio geográfico que buscodesenvolver para composição de um mapa-paisagístico, o trabalho do cartunista e jornalistaJoe Sacco, “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003), considerando-o como bastanteapropriado como aporte instrumental. Sacco nasceu na ilha de Malta, em 1962, passou sua infância na Austrália, mas, aindajovem, mudou-se para os Estados Unidos, onde se formou em jornalismo pela Universidadede Oregon. Seu primeiro grande trabalho que retratou conflitos geopolíticos foi “Palestina:Uma Nação Ocupada” (SACCO, 2000). Este trabalho lhe consagrou o Prêmio HQ Mix 2000.Em 2001, novamente recebeu o mesmo prêmio com seu segundo grande trabalho “Área DeSegurança Gorazde” ou “Gorazde: A Guerra Na Bósnia Oriental” (SACCO, 2001). Nasequência, produziu ainda outro trabalho importante envolvendo conflitos geopolíticos: “UmaHistória De Sarayevo” (SACCO, 2005). Os trabalhos de Sacco, mencionados acima, reúnem o que denomino elementosbásicos do mapa-paisagístico: valorizam a forma e geometria dos objetos espaciais; são multirepresentativos; captam a ação do homem no espaço, por meio de uma sequência de açõesdescritas que revelam uma particularidade, isto é, a identidade do lugar construída pelaspessoas; apresentam pontos de fuga, que constroem a noção de profundidade da imagem;estabelecem relações proporcionais entre pequenas estruturas e conjuntos do miniespaço eminteração com o homem. O crivo de seu método é acentuar as formas do espaço, em conexão com as ações deseres humanos, à medida que a projeção do indivíduo-realidade se aprofunda. Mas não numsentido do homem habitando a tela da superfície terrestre, pois como se pode notar, a obra deSacco pode ser entendida como um conjunto de mini quebra-cabeças do lugar, acrescido deenquadramentos multiformes em diversas orientações visuais. A realidade vivencial
  34. 34. 33apresentada por Sacco, não é esboçada em uma única tela, ainda mais numa tela plana visívelapenas na visão vertical, ela é composta por diversas telas maleáveis, orientadas em diversossentidos que se entrelaçam por meio de nós, construindo assim uma representação de umadada realidade socioespacial que se pode dizer conectada com o quadro de vivência de umlugar. Seu trabalho é, sobretudo político, carregado de uma estética precursora erevolucionária, contendo informações históricas enquadradas no cotidiano comum, vivido deindivíduos ordinários. O cotidiano e o indivíduo ordinário são conceitos desenvolvidos porCerteau (2008) que visa apresentar o que é a vida, no rés do chão, no dia-a-dia. Segundo ele, ocotidiano se constrói como espaço e como tempo, sem glamour de excepcionalidade, sem aartificialidade de uma criação intencional para descrição. Com esse entendimento, é possívelcompreender, também, ações de poder no espaço; que em momento algum são desprovidas deenfoque, sejam elas um ato violento, uma simples fala, ou mesmo, um olhar atento. Em “Palestina: na Faixa de Gaza”, Edward W. Said faz uma homenagem crítica dotrabalho de Sacco no prefácio da obra. [...] Suas imagens são com certeza mais gráficas do qualquer coisa que você possa ler ou ver na televisão. Joe é uma presença atenta, às vezes cética, ás vezes saturada, mas na maior parte do tempo compreensiva e engraçada, como quando ele nota que uma xícara de chá palestina quase sempre é atolada de açúcar, ou que os homens, talvez involuntariamente, se reúnem para trocar histórias de pesar e sofrimento assim como os pescadores comparam o tamanho dos peixes, e caçadores, o porte de suas caças (SAID, 2003, p. x). Said também advoga que, Sacco absorve a [...] realidade existencial vivenciada pelo palestino médio quando em sua descrição da vida em Gaza, o inferno nacional. A ociosidade do tempo, a pobreza (para não dizer a sordidez) da vida cotidiana em campos de refugiados, a rede de trabalhadores voluntários, mães desoladas, homens jovens desempregados, professores, policiais, o onipresente de chá ou café, a sensação de confinamento, lama e feiúra transmitida pelo campo de refugiados, algo que simboliza toda a experiência palestina - isso tudo é descrito com precisão quase assustadora e, paradoxalmente, de forma delicada [...] (SAID, 2003, p. xi). E salienta, se o leitor [...] prestar atenção, vai perceber a descrição cuidadosa de diferentes gerações: como crianças e adultos fazem suas escolhas e vivem sua pobre existência, como alguns falam e outros ficam em silêncio, como vestem casacos velhos, jaquetas de todos os tipos e hattas quentes. Numa vida improvisada nos limites de sua terra natal, onde se tornaram as criaturas mais tristes, desprovidas de poder e contraditórios, com um forasteiro que não é bem-vindo [...] (SAID, 2003, p. xi).
  35. 35. 34 Em suma, o trabalho de Sacco pode ser considerado uma descrição poéticaestruturalista, isto é, uma estrutura espacial do lugar, pois suas representações descrevem oindivíduo condicionado aos seus espaços vividos, numa espécie de cadeia de objetosespaciais, com suas formas bem destacadas em contado com as práticas do homem num meio.Esta geometria das formas espaciais e de ações humanas integradas por meio de práticas depoder no espaço de vivência, é que caracterizam sua obra como única, no que se aloca umparalelo político oculto, mas presente e atuante. Destaca-se que Sacco não fica preso às referências políticas que abrangem açõesmilitares: sua percepção é mais profunda, ele aborda o cotidiano do conflito – justamento oque interessa mais a este trabalho, pois na maioria das vezes, só se toma conhecimento doconflito na Faixa de Gaza, quando os jornais informam sobre algum “homem bomba” oucoisa do tipo. Sacco elaborou um trabalho minucioso, em dois volumes, durante sua estada emJerusalém, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, entre o fim de 1991 e início de 1992. Parte desua jornada é relatada em “Palestina: na Faixa de Gaza”, onde ficou pouco mais de umasemana em dois campos de refugiados, Nuseirat e Jabalia. É nesta vivência de Sacco, que vou realizar uma breve análise voltada para fins detrabalho na educação básica (ensino médio mais apropriadamente). Os recortes escolhidos nãodevem ser vistos como resumo da obra de Sacco e tampouco como programa de um conteúdofechado para se utilizar HQs na sala de aula. A obra de Sacco é multifacetada e não pode seraprendido aqui em sua totalidade. Vou expor, apenas, algumas sugestões de assuntos quepodem ser trabalhados na sala de aula utilizando a HQ de Sacco, tendo como foco principal,desenvolver a sensibilidade crítica dos alunos. Mas antes, cabe ressaltar que foi [...] entre os séculos XV e XVII, [que,] o mapa ganhou autonomia. Sem dúvida, a proliferação das figuras „narrativas‟ que o povoam durante muito tempo (navios, animais e personagens de todo o tipo) tem ainda por função indicar as operações – viagem, guerreiras, construtoras, políticas ou comerciais – que possibilitam a fabricação de um plano geográfico. Bem longe de serem „ilustrações‟, glosas icônicas do texto, essas figurações, como fragmentos de relatos, assinalam no mapa as operações históricas de que resulta. Assim a caravela pintada no mar fala da expedição marítima que permitiu a representação das costas. Equivale a um descritor de tipo „percurso‟. Mas o mapa ganha progressivamente dessas figuras: coloniza o espaço delas, elimina aos poucos as figurações pictóricas das práticas que o produzem. Transformado pela geometria euclidiana e mais tarde descritiva, constituído em conjunto formal de lugares abstratos, é um „teatro‟ (este era antigamente o nome dos atlas) onde o mesmo sistema de projeção justapõe no entanto dois elementos diversos: os dados fornecidos por uma tradição (a Geografia
  36. 36. 35 de Ptolomeu, por exemplo) e aqueles que provinham de navegadores (os portulanos, por exemplo). No mesmo plano o mapa junta lugares heterogêneos, alguns recebidos de uma tradição e outros produzidos por uma observação. Mas o essencial aqui é que se apagam os itinerários que, supondo os primeiros e condicionando os segundos, asseguram de fato a passagem de uns aos outros. O palco, cena totalizante de origem vária são reunidos para formarem o quadro de um „estado‟ do saber geográfico, afasta para a sua frente ou para trás, como nos bastidores, as operações de que é efeito ou possibilidade. O mapa fica só. As descrições de percursos desapareceram (CERTEAU, 2008. p. 206, 207, grifos do autor). Após esse longo parágrafo de Certeau, que ajuda a esclarecer algumas questões decomo o mapa surgiu e se expandiu, é necessário frisar, que o mapa-paisagístico não consistenum retrocesso do modelo de representação espacial ancorado no itinerário de percursos noespaço, como se esse fosse uma linha ligando pontos entre os lugares. Mas sim, num modelode complemento das cartografias do lugar, nesse sentido, os relatos ajudam não apenas aconectar pontos no espaço, mais também (usando a expressão de seu livro) a triturá-los, porisso ele é vivencial, multiorientado e multifacetado. Esclarecido algumas questões que pudessem gerar ambiguidade, passo à apresentaçãode representações. Selecionei quinze páginas da obra de Sacco para trabalhar. Elas estãodivididas em seis grupos. Advirto que algumas apresentam um teor de violência maior,cabendo ao professor julgar se devem ser usadas ou não na sala de aula. Não creio que hajaproblemas no trabalho de Sacco, pois ele sabe poupar o leitor de cenas desnecessárias, semprejudicar o seu trabalho. Insisto que o trabalho de Sacco não deva ser utilizado apenas como manual dedenúncia. Ele é isso também, mas se destaca como um verdadeiro documento da tristerealidade de opressão aos palestinos. De tal maneira que, o professor não deve se apoiar nelepara fazê-lo seu palco de denúncia. Em minha concepção, Sacco possibilita uma conexãoentre uma realidade em ampla dimensão, de pequena escala, e a do espaço de vivência de umlugar, por meio de uma rica malha de trações que revelam um ambiente, que fica oculto emrepresentações tradicionais da cartografia. Acima de tudo, este é um material didático, quepropicia ao professor de Geografia trabalhar assuntos do campo desta ciência de forma críticae politizada, desde que esse utilize outras fontes junto ao trabalho de Sacco, na sala de aula.
  37. 37. 36 Quadro de proposta de temáticas para se trabalhar o conflito geopolítico entre israelenses e palestinos na Faixa de Gaza, utilizando “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003). Grupo Temática ContextualizaçãoA - páginas Observando o espaço Escolhi essas duas páginas para servirem como instrumento de leitura3 e 73 de vivência do espaço de vivência. Na p.3, a visão é panorâmica, como se fosse um quadro feito do terceiro andar de um prédio. A p.73 representa um nível mais baixo, uma imagem horizontal que revela uma profundidade em seu ponto de fuga: esta se parece com uma visão de uma pessoa em cima de uma escadinha. Ambas revelam uma estrutura do ambiente, onde o homem está presente e agindo. No entanto, a p.3 se parece mais com um mapa, pois sua visão se aproxima do tipo vertical. Isso é notável quando se observa o telhado das casas. Sua estrutura paisagística é mais clara, embora apresente uma menor dimensão. A p.73 é mais poluída, pois as estruturas estão sobrepostas pelo sentido da imagem horizontal, esta se parece mais com a visão que temos cotidianamente no ambiente urbano.B - páginas Sionismo (a formação Nas páginas 21 e 81, o professor de Geografia terá um excelente21 e 81 de Israel) material didático para trabalhar o conteúdo histórico do conflito entre israelenses e árabes. Tanto na página 21, como na página 81, a história do conflito é narrada por personagens que vivenciaram tal acontecimento. Fazendo uso de um material adequado que preencha as lacunas das experiências relatadas, o professor de Geografia pode construir uma aula de grande teor crítico, trabalhando com o fato histórico associado às experienciais particulares vividas. Observe que as duas histórias são muito semelhantes, o que ajuda a compreender melhor a história dos indivíduos associada à cartografia de um povo. Nessas duas páginas, como nas dos conjuntos C, D, E e F. Sacco afina sua percepção e se aprofunda na cartografia do lugar, ao enxergar indivíduos vivendo em miniespaços do lugar. Também concede visibilidade as suas vivências ao expor seus modos de vida condicionados em certa medida pelo ambiente de conflito, da voz a indivíduos descartados pelas cartografias verticais representando seus corpos no lugar, associando-os a produção histórica do mesmo, revelando a identidade desses com o meio. Em suma, pode se dizer que Sacco percorre diversas salas de um grande compartimento, ele desbrava diversos planos de visão que nas representações verticais são reduzidas.C - páginas Intifada de 1987 Nessas duas páginas, mais uma vez, Sacco volta no tempo para49 e 50 explicar um fato histórico do conflito entre israelenses e árabes por meio de experiências vividas. Tudo tem início quando quatro crianças palestinas são mortas por um caminhão israelense, o que inflama a população da Faixa de Gaza. Contudo, os primeiros alvos são um grupo de palestinos que se divertiam jogando cartas, situação que é entendida pela massa revoltada como desagregação pela causa palestina, sendo essas pessoas repremidas fisicamente. Como essas duas páginas vão deixar claro, a Intifada foi um movimento espontâneo, ao mesmo tempo em que é também um resultado histórico das submissões dos palestinos aos israelenses. Dificilmente outro conteúdo será tão revelador e didático como essa passagem da obra de Sacco para explicar o início da Intifada. Obs.: Sacco relata apenas a Intifada de 1987, pois na segunda Intifada de 2000, ele não retornou a Faixa de Gaza para realizar trabalho semelhante.D - páginas Meninos de Gaza As páginas 17 e 55 relatam a triste experiência dos meninos militantes17 e 55 pela causa palestina na Faixa de Gaza. Chamo a atenção para o crime dos direitos humanos quando vários desses meninos são punidos sobcondições de tortura. Sacco demonstrou uma atenção especial aos meninos da Faixa de Gaza: em várias passagens eles estão presentes, seja em primeiro plano ou como figurantes na densa paisagem de seu
  38. 38. 37 quadrinho. Mais uma vez o trabalho de Sacco se mostra pioneiro, dando visibilidade a indivíduos “descartáveis”. Pode se ressalvar nessas duas páginas, que o espaço pode ser adaptado aos afazeres humanos, tudo dependerá do encaminhamento da ação. Assim, um hospital pode se tornar lugar de tortura, isso dependerá das geometrias do poder se alojando em pequenas formas espaciais, que geram territórios.E - páginas Fronteiras e controle Nessas seis páginas, talvez, esteja o conteúdo mais interessante para22, 77, 78, desenvolver o olhar crítico dos alunos. Na p. 22 se percebe logo que a100, 129 e fronteira pode ser a porta de sua casa, quando é noite. Nas ps. 77, 78 e130 100 fica claro que a Faixa de Gaza é uma área de total vigilância, pois o território é recortado por uma malha de fronteiras físicas, que, porém, só são eficientes quando vigiadas. Isso fica claro na p. 100, quando a menina acha uma falha no cercado e rompe o bloqueio, não por causa do buraco na cerca, mas porque ela não estava sendo vigiada no momento. É interessante pensar como a Faixa de Gaza é extremamente controlada por cercas, muros e olhares, mas que num segundo se transforma em terra incógnita, onde ninguém sabe o que se passa. Por fim, as ps. 129 e 130 concluem a temática, agora tomando como exemplo as vias de transporte de veículos motores: a mobilidade para os palestinos se mostra extremamente tênue e dispendiosa, seja internamente ao território de Gaza ou nas suas fronteiras internacionais.F - página Expansão dos Em toda sua obra, Sacco aborda as questões do expansionismo110 assentamentos judaicos israelenses sobre terras palestinas. Isso é notável na construção do território da Faixa de Gaza, quando os palestinos são empurrados e espremidos para a franja do território na fronteira com o Egito. Entretanto, isso fica mais claro quando ele sai da Faixa de Gaza e conversa com duas judias em Jerusálem. Cabe pensar aqui, na produção de um espaço passivo aos judeus, e outro, oneroso aos palestinos. Essas são algumas das temáticas, selecionadas como hipótese para se desenvolver umtrabalho em sala de aula utilizando “Palestina: na Faixa de Gaza” (SACCO, 2003). Saliento,mais uma vez, que não discuto todas as possibilidades e assuntos que podem ser trabalhadosna sala de aula. Temáticas importantes como a política de Israel no controle da água potável ea economia do território da Faixa de Gaza limitada por Israel, também podem serdesenvolvidas tomando como base a obra de Sacco. Segue-se nas próximas páginas o conteúdo trabalhado e discutido acima, lembrandoque esses estão divididos em seis grupos (A, B, C, D, E, F). Caberá agora ao professor deGeografia analisá-los e fazer a sua avaliação.
  39. 39. 38Grupo A – Observando o espaço de vivência (páginas 3 e 73).
  40. 40. 39
  41. 41. 40Grupo B - Sionismo (páginas 21 e 81).
  42. 42. 41
  43. 43. 42Grupo C - Intifada de 1987 (páginas 49 e 50).
  44. 44. 43
  45. 45. 44Grupo D - meninos de Gaza (páginas 17 e 55).
  46. 46. 45
  47. 47. 46Grupo E - Fronteiras e controle (páginas 22, 77, 78, 100, 129, 130).
  48. 48. 47
  49. 49. 48
  50. 50. 49
  51. 51. 50
  52. 52. 51
  53. 53. 52Grupo F - Expansão dos assentamentos judaicos (página 110).
  54. 54. 53Capítulo 3Do geral ao lugar: um caminho a se percorrer no estudo de Geografia Novas formas de cartografar o mundo, não apenas pelo método da visão vertical,implicam também, novas projeções da realidade, por meio de outros modelos derepresentação. Questionar o uso da visão vertical como fórmula, senão única, mas primordialou preferencial, que possibilite o exame dos fenômenos, não necessariamente significadispensar a representação vertical, mas sim, integrá-la a outras projeções, mapeamentos ecartografias da realidade. Na proposta deste trabalho, uma que valorize a realidade espacialvivida de indivíduos descartáveis. No percurso teórico, até aqui empreendido, que vai da análise mais geral da Geografia,num âmbito global ou internacional, até a categoria lugar, destaco, insistentemente, quealcançar a representação de uma realidade, significa, sobretudo, vasculhar todos osdesdobramentos do espaço, em busca de conexões entre fatores do lugar e do grande conjuntoespacial. É claro, que em determinadas representações, o modelo vertical será o bastiãobásico, mas em outros, isso não necessariamente ocorrerá. O mais importante, é fazer a leiturado espaço associando conjuntos espaciais por meio de escalas diversas, e variadas formas derepresentação da realidade que conectam o geral ao lugar. Abranjo que a primeira leitura de um dado espaço implica o uso da representaçãovertical. Contudo, se o objetivo é alcançar um determinado ponto, e atingir a esfera do lugar,isso indica que se faz necessário avançar através de diversas camadas de entendimento darealidade socioespacial. Tal manobra conduz a uma releitura do espaço, para que ela sejacondizente com a realidade do espaço de vivência, sua tutela não pode ficar presa a apenas auma forma de representação da realidade espacial. Numa guerra, a representação vertical é a arma dos generais – seja por meio de ummapa ou da imagem de um satélite –, dominar essa técnica se mostra um artifício louvávelpara a estratégia militar. Realizar uma operação militar cirúrgica, como por exemplo, jogaruma bomba na cabeça de Saddam Hussein3, em Bagdá, tornou-se algo possível com as novas3 Estou me referindo ao tempo em que Saddam era vivo, quando o presidente iraquiano nunca dormia no mesmolocal que tivera passado a noite anterior, pois temia ser alvejado pelo exército norte-americano.
  55. 55. 54tecnologias. No entanto, interferir nesse mesmo espaço, por outros caminhos que não sejamverticais, se mostra tarefa mais árdua. Avançar sobre terras rugosas é uma atividade quedemanda grande esforço e tempo, estando sempre à mercê de surpresas e armadilhas. Arepresentação vertical é o alicerce dos moldes estratégicos de se intervir no espaço, porém,quando se adentra no lugar, logo se percebe que a representação vertical é insuficiente, poisno nível do lugar, como venho procurando mostrar, a realidade vivencial não é construídaapenas por abstrações verticais. Com o viés de compreensão do espaço político em sua integridade, levando em contaas micropolíticas, instaladas nos lugares, nota-se que o mapeamento vertical não alcança acomplexidade do viver, por isso o viver é amputado das representações. Assim, dês-socializa-se miniespaços políticos, ao nível do lugar onde se busca uma realidade rugosa e nãoaplainada como um papel liso. Nesse nível não se pode empregar apenas os meios derepresentação do espaço que usam a visão vertical, pois há necessidade de se alcançar,também, a descrição da paisagem altamente humanizada, onde os homens estão em ação, pormeio de algo que revele outras dimensões, outras vivências, outra realidade. Para atingir esta meta, muito mais complexa do que mapear um dado espaço de formatão milimetricamente definida, como o objetivo de jogar uma bomba ou sequestrar SaddamHussein, por exemplo, não basta apenas pular do avião e descer em Bagdá. Para acomplexidade de compreensão e representação ensejada, torna-se necessário “fatiar” asdiversas camadas de entendimento da realidade socioespacial, constatando suas conexõesmúltiplas em diversos níveis. No nível do lugar, a malha de ações se apresenta muito maisdensa e diversificada, estando essa agarrada a cotidianos, viveres, culturas e etc. Quando se alcança o nível do lugar, se vivência a estrutura do meio, se faz parte etambém se sofre as energias do mesmo: assim, modos de vida que pareciam escondidos nasrepresentações verticais, se revelam a cada momento. Busca-se então, que os conjuntosespaciais se conectem por meio das miniestruturas do lugar. Essa codificação é que poderomper o entendimento de realidade espacial como plana, como se fora a superfície de umpapel liso. Todavia, as cartografias tradicionais, debruçadas sobre a visão vertical, elaboram umarepresentação plana do espaço, em acordo com a escala utilizada. Dessa forma, podemrepresentar um espaço mais vasto, embora com menor riqueza de detalhes, se a escala
  56. 56. 55utilizada é pequena. Se a escala é grande, a riqueza de detalhes será maior, porém, a extensãorepresentada será menor. Em meu entendimento, a preocupação de Lacoste (1988) era nivelaressas disparidades na associação de fenômenos em conjuntos espaciais variados, quenecessitam de escalas variadas para serem representados e articulados a outros conjuntosespaciais em tais circunstâncias. Por isso, a finalidade de se construir um quebra-cabeça, ondeos conjuntos espaciais se encontram sobrepostos e integrados por suas interseções em diversasescalas. Daí que se assemelhem a um nó, numa peça de tricô. Como se não bastassem às dificuldades de atingir a representação de espaçosdiferenciais, outro problema se aloja no nível do lugar: à medida que a representação verticalse aprofunda em sua descrição, se apresentam mais obstáculos em inserir o homem nessemapeamento. Se o espaço ganha formas mais precisas no nível do lugar, concomitantementehá uma tendência de invisibilização do homem nesta representação. Esquema 1: modelo de representação vertical Para ilustrar o raciocínio, valho-me do esquema 1 que consiste num modelo derepresentação vertical das cartografias clássicas. Nele estão contidos dois modelos simbólicosde determinado espaço: o quadro interior esboça uma representação em grande escala,

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