ALTERIDADE E PARADIGMAna Chegança de Laranjeiras/SE<br />Luciano Monteiro<br />Letras - UFRJ<br />
RESUMO:No período histórico conhecido como grandes navegações, ocorreram mudanças significativas na maneira como percebemo...
O que é a Chegança?<br />
O que é a Chegança?<br />Drama épico tradicional de inspiração ibérica encontrado, sobretudo, no nordeste e realizado por ...
Fundamentos históricos<br />
Fundamentos históricos<br />Século XV – Tomada de Constantinopla pelos turcos e bloqueio do comércio de produtos importado...
Conceito de modernidade<br />Bauman (2001) afirma que a modernidade começa quando espaço e tempo são separados da prática ...
Conceito de modernidade<br />O tempo se tornou a principal arma para superação do espaço;<br />A conquista de territórios ...
Fundamentos históricos<br />Sabemos pouco sobre a vida cotidiana desses navegadores, suas contradições, desejos, desilusõe...
Invenção das tradições<br />
Invenção das tradições<br />Após tamanhas privações, esses marujos ávidos pelo desembarque não poderiam deixar de particip...
Personagens cristãos<br />
Personagens cristãos<br />Uniformes brancos da Marinha brasileira e espadas de aço;<br />Duas fileiras unidas nas pontas, ...
Personagens mouros<br />
Personagens mouros<br />Roupas monocromáticas (uma cor para cada personagem) e espadas de aço;<br />Formação do grupo em f...
Sinopse da encenação<br />Navio dos mouros se aproxima da nau portuguesa;<br />Rei mouro envia seu primeiro embaixador, pa...
Sinopse da encenação<br /><ul><li>Cristãos vencem a batalha e prendem os mouros no porão do navio;
Na ausência do Rei mouro, o General manda sequestrar as duas Princesas e a Rainha;
Rei mouro tenta resgatar as Princesas e entra em combate com o General, mas acaba sendo vencido e preso;
Os cristãos ameaçam torturar e matar os mouros se estes não aceitarem o batismo cristão;
Os mouros são batizados em uma cerimônia humilhante;
Declaram-se cristãos e terminam festejando de forma bastante ambígua a sua sobrevivência.</li></li></ul><li>VÍDEO 1<br />E...
VÍDEO 2<br />Cerimônia de batismo<br />
Leitura da encenação<br />A cada embaixada, os mouros procuram dissuadir os cristãos de suas convicções políticas e religi...
Discurso e identidade<br />Nossas práticas lingüísticas implicam posicionamentos sociais;<br />Quando digo que “sou portug...
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Alteridade e paradigma na Chegança de Laranjeiras/SE - XIV Cong. Brasileiro de Folclore

  1. 1. ALTERIDADE E PARADIGMAna Chegança de Laranjeiras/SE<br />Luciano Monteiro<br />Letras - UFRJ<br />
  2. 2. RESUMO:No período histórico conhecido como grandes navegações, ocorreram mudanças significativas na maneira como percebemos e representamos o mundo.<br />Desde a primeira metade do século XV, a condição de país de navegadores colocou Portugal em contato com povos, costumes e paisagens somente referidos nos relatos da antiguidade.<br />A maneira como os portugueses se relacionavam com o outro, o diferente – seja na figura de mouros, orientais, africanos ou ameríndios – ficou registrada em nossas narrativas sobre sua aventura/desventura marítima.<br />Conhecidas como Chegança/SE, Marujada/RN, Barca/PB e Fandango/CE, essas narrativas aparecem de maneiras distintas em cada tradição local.<br />A encenação, os trajes e acessórios de marinheiro, os versos tradicionais e a dança são alguns dos elementos comuns na superfície de cada um deles.<br />Contudo, esta superfície existe para ser atravessada. Abaixo dela, há as subjetividades de cada integrante, sua história pessoal e suas convicções; acima, há especulações e leituras (como esta); há sentidos e funções atribuídos à permanência da narrativa enquanto tradição viva.<br />Portanto, embora motivada pelo desejo de discutir questões colocadas por folcloristas, a abordagem aqui proposta procura abandonar delimitações desta natureza e alcançar uma compreensão transdisciplinar do tema.<br />Palavras-chave:chegança, alteridade, modernidade.<br />
  3. 3. O que é a Chegança?<br />
  4. 4. O que é a Chegança?<br />Drama épico tradicional de inspiração ibérica encontrado, sobretudo, no nordeste e realizado por grupos folclóricos que recebem o mesmo nome;<br />Homens vestem réplicas de uniformes da Marinha e encenam episódios vividos por navegantes portugueses há séculos atrás;<br />Narrativa em versos tradicionais, cantados e respondidos ou ainda recitados por cada personagem, ritmados por pandeiros;<br />Divide-se em jornadas (episódios) apresentadas em sequência, mas encenadas em datas e locais diversos;<br />Alguns estudiosos dividem os temas encenados em dois blocos: 1) episódios náuticos e 2) batalhas entre cristãos e mouros;<br />Apoiada pela Igreja Católica, por sua função apologética.<br />
  5. 5. Fundamentos históricos<br />
  6. 6. Fundamentos históricos<br />Século XV – Tomada de Constantinopla pelos turcos e bloqueio do comércio de produtos importados (drogas, especiarias indianas, tecidos persas e porcelana chinesa);<br />O governo português investiu em viagens de exploração com vistas à descoberta de novas rotas para seus comerciantes;<br />Acordos comerciais, naufrágios, guerras, invasões, ocupações, colonização de terras estrangeiras e escravização de populações marcaram o nascimento do Império Português (1415 – 1999);<br />Neste período, conhecido como Grandes Navegações, ocorreram transformações decisivas 1) nas relações entre os homens (em sociedade) e 2) nas relações do humano com sua realidade;<br />Essas transformações marcaram ainda o início da modernidade.<br />
  7. 7. Conceito de modernidade<br />Bauman (2001) afirma que a modernidade começa quando espaço e tempo são separados da prática da vida e entre si;<br />As noções de espaço e tempo estão vinculadas às velocidades de deslocamento experimentadas pelos seres humanos;<br />Antes da modernidade, um tempo X era o intervalo necessário para se percorrer a pé ou a cavalo um determinado espaço e vice versa;<br />Com a construção de veículos capazes de se movimentar mais rápido que as pernas, o tempo se tornou um fator variável e indepen-dente das dimensões fixas do espaço;<br />Algumas pessoas podiam chegar muito antes que as outras; podiam também fugir e evitar serem alcançadas ou detidas. Quem viajasse mais depressa podia reivindicar mais território– controlá-lo, mapeá-lo e supervisioná-lo – e deixar de fora os competidores.<br />
  8. 8. Conceito de modernidade<br />O tempo se tornou a principal arma para superação do espaço;<br />A conquista de territórios era uma das maiores ambições da época;<br />O progresso significava tamanho crescente, expansão espacial;<br />Impérios se espalharam por todas as partes do globo, limitados apenas por outros impérios de força igual ou maior;<br />Conquistar um território significava limitar dentro dele o acesso às ferramentas de superação do espaço, conter seu dinamismo interno;<br />O domínio do tempo era o segredo do poder dos administradores;<br />Populações colonizadas ou escravizadas deviam permanecer confinadas em relações espaço-temporais defasadas e obsoletas;<br />Intrépidos exploradores eram os heróis das novas versões modernas das “histórias de marinheiros”;<br />
  9. 9. Fundamentos históricos<br />Sabemos pouco sobre a vida cotidiana desses navegadores, suas contradições, desejos, desilusões, temores e crenças;<br />Segundo Moura (2000), uma nau era como uma vila flutuante, com 500, 600, 700, 800 e mais pessoas, entre tripulantes, soldados, colonos, funcionários, autoridades, missionários e escravos;<br />Em geral, a população embarcada era de origem humilde e bastante ligada às tradições populares de sua terra natal;<br />No mar, as práticas religiosas se tornavam mais constantes em virtude das adversidades a que os viajantes estavam expostos;<br />Realizavam-se celebrações religiosas tradicionais em Portugal – Procissão de Corpus Christi e Festa do Divino Espírito Santo etc;<br />Há ainda relatos de representações teatrais nestas ocasiões.<br />
  10. 10. Invenção das tradições<br />
  11. 11. Invenção das tradições<br />Após tamanhas privações, esses marujos ávidos pelo desembarque não poderiam deixar de participar das festividades locais;<br />Manifestações culturais realizadas em alto mar desembarcaram e se espalharam, fixando raízes nas regiões colonizadas;<br />Apesar de bicentenárias, Cheganças, Fandangos, Marujadas ou Barcas (o nome varia em cada região ) ainda são pouco conhecidos;<br />Em solo brasileiro, as representações tomam por personagens os marujos portugueses que difundiram aqui suas tradições;<br />Na Chegança, além de episódios náuticos (5 jornadas), é representada a sujeição de autoridades muçulmanas por marinheiros cristãos (episódio conhecido como Mourama);<br />Texto analisado – Mourama da Chegança de Almirante Tamandaré.<br />
  12. 12. Personagens cristãos<br />
  13. 13. Personagens cristãos<br />Uniformes brancos da Marinha brasileira e espadas de aço;<br />Duas fileiras unidas nas pontas, para simular uma embarcação;<br />Disciplinados, atuam em conjunto sob o comando do General.<br /> adaptado de Dantas (1976)<br />
  14. 14. Personagens mouros<br />
  15. 15. Personagens mouros<br />Roupas monocromáticas (uma cor para cada personagem) e espadas de aço;<br />Formação do grupo em fileira simples (personagens principais ao centro);<br />Soberbos, atuam individualmente sob as ordens do Rei Mouro.<br />1° Embaixador<br />2° Embaixador<br />3° Embaixador<br />Princesa<br />Princesa<br />Ministro<br />Rainha<br />Rei<br />
  16. 16. Sinopse da encenação<br />Navio dos mouros se aproxima da nau portuguesa;<br />Rei mouro envia seu primeiro embaixador, para convencer o General a tornar-se seu súdito, sob ameaça de guerra;<br />General nega e o embaixador retorna para o navio;<br />Rei mouro envia o segundo embaixador e o terceiro, que oferece ao General mão da Princesa, mas não obtém êxito;<br />Rei mouro envia seu ministro, para convencer o General, mas ele não aceita sua prosposta;<br />Rei mouro manda seus súditos invadirem o navio português e inicia-se um combate;<br />
  17. 17. Sinopse da encenação<br /><ul><li>Cristãos vencem a batalha e prendem os mouros no porão do navio;
  18. 18. Na ausência do Rei mouro, o General manda sequestrar as duas Princesas e a Rainha;
  19. 19. Rei mouro tenta resgatar as Princesas e entra em combate com o General, mas acaba sendo vencido e preso;
  20. 20. Os cristãos ameaçam torturar e matar os mouros se estes não aceitarem o batismo cristão;
  21. 21. Os mouros são batizados em uma cerimônia humilhante;
  22. 22. Declaram-se cristãos e terminam festejando de forma bastante ambígua a sua sobrevivência.</li></li></ul><li>VÍDEO 1<br />Embaixada do Ministro<br />
  23. 23. VÍDEO 2<br />Cerimônia de batismo<br />
  24. 24. Leitura da encenação<br />A cada embaixada, os mouros procuram dissuadir os cristãos de suas convicções políticas e religiosas e subjugá-los pela força;<br />Empregam diversos expedientes – prometem riquezas, prestígio, a mão da Princesa, agridem e ameaçam seus adversários;<br />Representados como mais ponderados, os cristãos demonstram uma convicção inabalável em sua pátria e em sua religião;<br />Retratam-se como incorruptíveis e afirmam preferir a morte a serem obrigados a negar sua fé e sua pátria;<br />Presos e ameaçados de morte, os mouros demonstram um relativismo moral que acaba por distinguí-los dos portugueses;<br />Tudo isso produz consequências consideráveis no campo da identidade.<br />
  25. 25. Discurso e identidade<br />Nossas práticas lingüísticas implicam posicionamentos sociais;<br />Quando digo que “sou português”,estou negando (embora implicitamente) os demais posicionamentos possíveis;<br />A identidade é convencionada sócio-historicamente e só adquire sentido pela normalização de caracteres a ela relacionados;<br />Conforme SILVA (2000), a “mesmidade” comporta por definiçãoum traço inerente de “outridade”;<br />Identidade e diferença são, portanto, indissociáveis e resultam de um mesmo processo de produção simbólica e discursiva;<br />São concebidas pela perspectiva de quem detém o poder de representar a si (identidade) e ao outro (diferença);<br />Isto permite fazer uma análise das representação sociais na Chegança.<br />
  26. 26. Representações sociais<br />
  27. 27. Hipóteses e especulações<br />Como vimos, o modelo adotado pela metrópole para gerir as colônias era o confinamento em condições de vida do passado;<br />Ainda hoje, esta é a condição de vida das populações das zonas de exclusão social (periferias urbanas e áreas rurais);<br />O princípio de competição/exploração colocava no mesmo plano, indistintamente, todos os adversários dos portugueses;<br />Mouros, indianos, chineses, africanos, indígenas eram como bárbaros e deviam ser mantidos sob controle, em seu lugar;<br />Os portugueses detinham o monopólio da civilização, medido pela superioridade se seus dispositivos tecnológicos e sociais;<br />Podemos compreender a Chegança, no contexto social em que tem sido realizada, não apenas como uma forma de catequese;<br />
  28. 28. Hipóteses e especulações<br />A Chegança poderia ser considerada um mito de origem da estrutura social implantada pela colonização – estrutura que, conforme Fernandes (1976), nunca funcionou segundo o modelo;<br />O mito parece assumir a função prescritiva, sobretudo, onde as diferenças entre o paradigma civilizatório e a sociedade possível parecem inconciliáveis;<br />Na Chegança, encontram-se representados ideais, incoerências, injustiças e pressupostos característicos da modernidade;<br />A fase inicial da modernidade, que Bauman (2001) chama de “modernidade pesada”, vigora ainda nas zonas rurais e nas áreas de exclusão social das grandes cidades;<br />Seria, portanto, a Chegança um mito de origem da própria modernidade, representada pela navegação portuguesa?<br />
  29. 29. Referências Bibliográficas<br /><ul><li>BAUMAN, Zigmund. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2001.
  30. 30. BENJAMIM, Roberto. Cristãos e Mouros. In: Anais do Encontro Cultural de Laranjeiras. Aracajú: Fundação Estadual de Cultura de Sergipe, 1993.
  31. 31. BOXER, Charles R. O império colonial português(tradução de Inês Silva Duarte). Lisboa: Edições 70, 1969.
  32. 32. DANTAS, Beatriz G. Chegança (Cadernos de Folclore, 14). Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura/ Universidade Federal de Sergipe – CECAC, 1976.
  33. 33. FERNANDES, Florestan. Sociedade de Classes e Subdesenvol-vimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1976.
  34. 34. MOURA, Carlos Francisco. Teatro a bordo de naus portuguesas nos séculos XV, XVI, XVII e XVIII. Rio de Janeiro: Instituto Luso-Brasileiro de História e Liceu Literário Português, 2000.
  35. 35. SILVA, Tomás Tadeu da. A produção social da identidade e da diferença. In: Tomás Tadeu da Silva, (Org.) Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000, pp. 81-102.</li>

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